quinta-feira, agosto 04, 2005

Lendo Pessoa



“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.”


É, Camões estava muito certo e deu uma demonstração clara de sua genialidade ao escrever o soneto do qual extraí esse verso que abre o texto. Saio de Camões e entro em Pessoa.

Adolescente, muitos de meus colegas liam Fernando Pessoa, carregavam-no enfiado nas axilas, citavam-no pras meninas e pros professores. Faziam sucesso.

Pura frescura. Ler Pessoa era frescura, ler Pessoa era perda de tempo.

Eu não lia Pessoa, eu tinha coisas mais importantes para fazer. Eu trabalhava pela revolução.

Poesia lia muito pouco, e procurava por “poesia de combate”, poesia militante, poesia de esquerda. O resto era desvio pequeno-burguês. Neruda eu lia, mas só o que era poesia política. Como ele, muitos outros. Borges também era uma leitura alienante. Cortazar passava, tinha lá seu quê militante.

O tempo passou, o mundo mudou, eu mudei.

Hoje leio Fernando Pessoa. E gosto, me faz bem. Há pouco tempo, numa manhã de sábado, encasquetei que tinha porquê tinha de comprar a edição da Nova Aguilar com toda sua obra. Fui à luta, achei, comprei e me deleito com ela. A melhor coisa que comprei esse ano, disparado. Nada se lhe compara.

Encontro em Fernando Pessoa uma sensibilidade, um olhar, um perceber da realidade que me encanta. Atrevo-me a dizer que meu sítio é minha aldeia e meu mundo, que o Rio Claro que passa lá embaixo é o mais bonito rio do mundo, apesar do Tejo, apesar do Amazonas, apesar do Tapajós que aprendi a amar tão depressa, apesar do Tibiriçá querido da minha infância.

Ler Fernando Pessoa é um exercício de puro prazer. Ler a esmo, sem ordem, sem método. Leitura randômica, como agora já virou moda dizer. A cada leitura uma descoberta. E, vez ou outra, até redescobertas.


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Um comentário:

Ana disse...

Tô amando essas pausas que nos distraem da vil realidade do país. Isso é intencional, né Sr. Emerson? Entre vexatórias sessões de CPMI's, posts sobre roça e poetas. Pessoa é tudo de bom! :)

Ontem, levada pela Cora, fui ver a Fal (a moça do drops). Ri até! Como diziam na época da minha infância: a gente tem que 'derivar' os pensamentos. Já foi lá?

Bom dia procê.