sábado, dezembro 06, 2008

Cumari, a pimenta dos passarinhos



A cumari, pequena, ovalada, vermelha, rubi, tão ou mais rubiácea que o café, abunda no Sítio das Macaúbas,
assim como na chácara dos meus sogros, também na gostosa e ainda bucólica Santa Rita do Passa Quatro.

Encontramos seus arbustos por toda parte, no sítio e na chácara, mas sempre embaixo da copa de alguma árvore.


Tal como ocorre, por sinal, com as macaubeiras.

A explicação para essas localizações é fácil: no caso das
macaúbas, araras, papagaios, maritacas e tucanos, pegam o coco diretamente na palmeira e levam-no para outra árvore, mais confortável, onde saboreiam a polpa que envolve o coquinho propriamente dito, chegando até a trincá-lo.
Refeição terminada, deixam-no cair. No chão, em meio ao folhedo que lentamente se decompõe, o coquinho germina e uma nova macaubeira vem ao mundo.

Para nós chega a ser uma praga, tão grande é a quantidade nos pastos, mas é uma planta tida como de difícil germinação e, aparentemente, há falta de mudas no mercado.
Não tenho descartada a idéia de aproveitar essas mudas futuramente, tirando-as do solo e colocando-as em vasos ou sacos plásticos, para comercialização.



Com a pimentinha cumari ocorre processo semelhante.
Os passarinhos colhem os frutos maduros, bem vermelhos, nos arbustos, e vão comê-las em outras árvores.
As sementes que deixam cair enquanto comem ou, principalmente, as sementes não digeridas em suas
fezes, vão dar origem aos novos cumarizeiros.




Por causa desse processo, o tio da Rosa, Antonio, diz que a cumari não faz mal nenhum, justamente porque é comida pelos passarinhos. Há relatos de que ela faz bem para quem tem hemorróidas, mas sobre isso nada posso dizer.


Ao contrário de outras pimentas, a cumari não é aromática, mas o que tem de perfume fraco tem em ardência forte.
Conservada em óleo ou vinagre, normalmente é colocada inteira no prato, onde é picada com a faca ou amassada com o
garfo, e a seguir misturada na comida.
Minha sogra também a prepara batida no liquidificador e o tempero é brabo, tem que ser usado com moderação. Isso ocorre porque as sementes, que são batidas juntamente com a polpa, contém maior concentração da capsaicina, a molécula que faz a pimenta ser... apimentada.




Framboesa em Santa Rita do Passa Quatro

Esses dias descobri que os pés de framboesa estão detonando a horta do Scarpa, crescendo por toda parte e se tornando um estorvo. Além disso, também estão carregados de framboesas, grandes, escuras, saborosas, algumas muito doces, outras nem tanto, precisando de mais alguns dias para ficarem no ponto.

Algumas das mudas eliminadas na horta dele virão para a nossa horta. Sempre tive vontade de ter framboesa no sítio, mas achava que era quente demais.
Agora descobri que não.


Já não posso dizer o mesmo, por enquanto, em relação às alcachofras. Em setembro fui até Ibiúna e comprei meia dúzia de mudas, das quais uma só sobreviveu.
Não desisti delas, todavia.
Assim que possível, volto a Ibiúna para comprar mais umas mudas. Essa variedade, a Roxa de São Roque, só se desenvolve a partir dos 700 m acima do nível do mar.
Bom, o sitio atende a esse requisito.
E em boa parte do ano, os dias são quentes e as noites frias e até muito frias. Então, não há porque, em tese, as alcachofras não se desenvolverem.

Algumas outras plantas estão na minha lista de desejos, como a endívia, o alho-poró, o aspargo e o grão-de-bico.
Não é para já, mas ainda hei de plantar todas elas.
São plantas que parecem ser meio chatinhas, gostam de frio, pois vêm de clima temperado, mas acredito que conseguirei, talvez com o auxílio de uma cobertura de sombrite, a tela preta que corta 50% da luminosidade e boa parte do calor do Sol.



A vida no campo tem dessas coisas simples e fascinantes, todas elas carecendo de tempo e paciência.
O prazer de ver as plantas em crescimento, vigorosas e saudáveis, depois colher e comer, é bom demais.

Primitivo, ou original, mas também profundo, algo que nos leva de volta a tempos imemoriais.


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segunda-feira, outubro 13, 2008

Por KASSAB. Contra o PT.




Curto e grosso, repito o título:



Por KASSAB. Contra o PT.



Há momentos na vida que tomar uma posição clara e inequívoca é fundamental.


Assim agi no início dos anos 70, adolescente ainda, ao começar a militar contra o regime militar. Era preciso tomar uma posição, assim pensava, e tomei a única que me pareceu correta, decente e, sobretudo necessária.


Em 1985, Tancredo eleito, cortei abruptamente minha militância política. Tinha dedicado a ela 14 dos melhores anos de minha vida.


PSDB formado, encontrei nesse partido um ideário e pessoas com os quais afinava.


Curiosamente, mesmo durante a militância no velho Partidão, ou talvez justamente por isso, nunca gostei de boa dos petistas e suas artimanhas. O comportamento purista e arrogante de quem sempre se achou dono da verdade, de quem sempre se achou superior aos demais mortais e partidos, nunca me agradou. Essas certezas e verdades absolutas são tão verdadeiras quanto uma nota de sete reais. Nem vou me alongar nesse nhenhenhém, pois todos conhecem as histórias incríveis de corrupção que envolvem esse partido e muitos de seus principais cabeças. Só de pensar no sucesso estrondoso do filho do presidente... Recolho-me à minha insignificância de pequeno e empobrecido empresário. Claro, pequeno e empobrecido porque faltou-me a genialidade e tino empresarial do jovem filho do presidente, ele próprio o genial guia condutor dos povos do Terceiro Mundo e outros mundos. O DNA é bom.

Pois bem, você deve estar se perguntando que bicho me mordeu para aparecer com esse texto tão carregado de irritação, de raiva, de asco – ops, asco é para daqui a pouco, estou colocando a ânsia de vômito na frente da indignação moral.




Uma manhã de domingo estragada



Ontem de manhã, estava indo e vindo entre o curral e a cozinha, dando umas olhadas no Globo Rural , quando peguei inteirinho um anúncio do PT - mas não assinado pelo PT, tinha umas letrinhas na assinatura... - contra o Kassab (minha Sky no sítio recebe imagens de São Paulo).

Ok, tudo normal, nada a objetar. Estamos em campanha de segundo turno e é normal, até, um candidato atacar o outro. Dentro de certos limites, é claro.


O comercial em questão é uma sucessão de perguntas, a maioria de uma cretinice a toda prova. Normal, também, partindo de quem partiu, uma vez que cretinice e petismo costumam andar juntinhos, quando um não é sinônimo do outro.


Nada de novo no front, portanto.


E assim foi até a última pergunta, que não era um exemplo de cretinice.

Era um exemplo de canalhice, baixeza, torpeza, um exemplo cristalino de preconceito, uma pergunta nojenta, bem de acordo com o caráter desse partidinho e seus dirigentes.

A pergunta:

"Kassab é casado?"

Uma pergunta com a clara intenção de denegrir a imagem de Gilberto Kassab. Cujo estado civil, aliás, não só ignoro como tampouco me interessa. Meu interesse está centrado em sua administração, que não é exemplar, nenhuma é, mas é excelente dentro das possibilidades que tem um prefeito dessa megalópole espoliada desde sempre, desamparada do poder federal, o mesmo que leva embora a maior parte do que a cidade gera.


Essa canalha, hoje no poder federal e em vários outros, gritou por anos e anos contra os preconceitos, todos eles.


E agora, como se fosse necessário, esses caras, essas figuras que se autodenominam impolutas e sei lá que mais, revelam sua verdadeira face.

O irônico, se assim se pode chamar, é que o preconceito aparece enrustido, calhorda, sem vergonha, justamente na campanha de Dona Marta Suplicy, a mesma que celebrizou-se por atitudes opostas e palavras opostas – todas falsas, vê-se agora. Aliás, seu único trabalho como parlamentar, a rigor, foi apresentar um projeto liberando o casamento civil entre parceiros do mesmo sexo.

O PT superou-se.

Na canalhice.

Kassab ganhou no primeiro turno, surpreendendo petistas e a parcela burra e sem visão do PSDB.

Na abertura da campanha para o segundo turno, as pesquisas apontam para ele uma vantagem brutal.

Vai ganhar?

Sei lá, ainda mais com Lula, ou lulla da Silva, ao gosto de quem lê, apelando para os sacrossantos evangélicos em verdadeira cruzada contra Kassab.


Esse comercial nojento e preconceituoso dá bem o tom da campanha petista em prol de Dona Marta, também conhecida por Martaxa, e mais não falo.

Uma coisa é certa: eu estou em campanha por Gilberto Kassab.

Espe
ro que o povo da minha cidade varra o lixo petista para longe, para bem longe de sua marca mais ou menos consolidada de um terço do eleitorado.





Aos leitores deste Olhar Crônico não peço desculpas por nada do que escrevi, tampouco pelo tom. Como eu disse no início, há momentos na vida em que tomar uma posição clara, cristalina, inequívoca, é fundamental. Por isso, não peço desculpas, mas conto com a compreensão de vocês.





Em tempo: minha crítica tem como alvo claro as cúpulas petistas, e não só de agora. Na militância há muita gente boa. Algumas dessas pessoas são amigas de longa data.



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segunda-feira, outubro 06, 2008

Beleza é fundamental


Beleza é fundamental, sim.


Estava certo o poeta, embora essa frase deva ser tomada pelo sentido mais amplo e não meramente pelo físico, pelo estético. Nesse texto, porém, ela deve ser tomada pelo seu significado mais imediato: a beleza física.


Mas não estou me referindo a nenhuma mulher, se bem que o foco dela não só tem características femininas, como merece ser tratada como uma mulher. Falo da cidade de São Paulo, a minha São Paulo, que ontem, para surpresa de todos, inclusive eu mesmo, deu ao prefeito Gilberto Kassab o primeiro lugar na eleição, à frente da ex-prefeita Marta Suplicy e do ex-governador Geraldo Alckmin.


E o que tem a ver beleza com os votos de Kassab?


Muito, tem muito a ver.


Quando foi indicado para ser o vice de José Serra, eu fui um dos muitos, inúmeros paulistanos que chiaram uma barbaridade. Não queria um cara do PFL, queria um cara do próprio PSDB, alguém afinado com Covas, Serra, Fernando Henrique e o Alckmin. Tivemos, porém, que engolir o Kassab.


Tão logo Serra deixou a prefeitura e assumiu o governo do Estado, o prefeito começou a botar suas manguinhas de fora e logo de cara apareceu com um tal de Cidade Limpa.

Antes de ler o projeto já saí criticando, felizmente, apenas para mim mesmo. Tão logo li, achei legal, mas achei que não passaria de um factóide.


Pobre cidade de São Paulo.


O tempo passou.


O Cidade Limpa “pegou”, apesar dos protestos, apesar das liminares, apesar das lutas políticas, apesar de um monte de coisa, “pegou”.

De repente, a velha cidade de São Paulo estava visível, não mais escondida por outdoors, painéis gigantes, luminosos berrantes e horríveis, nada mais disso.

Lá estava ela, bonita, em muitos lugares, em outros nem tanto, mas pelo menos, limpa.


Beleza e limpeza.


Comecei a ter prazer em ficar alguns minutos parado no trânsito, olhando fachadas há muito escondidas, vendo ruas e avenidas sob uma nova perspectiva, sem anúncios espalhafatosos. A Avenida Rebouças, conhecida íntima de muitos e muitos anos, estava de novo bonita, agradável de ver.


Dei-me conta, então, que tínhamos um prefeito de fato.


Tínhamos alguém preocupado com a cidade, com seu funcionamento, sua aparência, claro, afinal, como disse o poeta, beleza é fundamental.


Até que li que a Prefeitura contribuía financeiramente com o Rodoanel. Fantástico.


E com o Metrô!


Que coisa incrível!

Um prefeito que enxergava muito além de seu curto, curtíssimo mandato.


Claro, muita coisa há para resolver, ainda.


E assim continuará por décadas.


Não haverá prefeito capaz de executar milagres na condução dessa cidade. Na vida real, a vida que vivemos, essas coisas levam tempo, são negociadas, interesses adversos têm que ser vencidos ou negociados, por aí vai.


Mas saber que, finalmente, tínhamos um prefeito trabalhando de verdade em prol da cidade, deu outro ânimo.


Algumas vezes, também, tive a oportunidade de ver o prefeito sentado a dois ou três metros apenas, no Morumbi, assistindo a um jogo do São Paulo. Sem seguranças, sem entourage, sem frescuras. Quieto lá em sua cadeira, curtindo alguns minutos do jogo sem ninguém para atrapalhar.

Ainda bem que o pessoal em volta sente a mesma coisa e respeita o direito dele ver o jogo em paz.


Gostei disso, também.

Desse despojamento, dessa falta de pompa e séquito.


Votei nele, é claro.


Aqui em casa todos votamos nele.


Voto de cabresto, claro.


O cabresto correto, porém, melhor chamado de “cabresto”.


Votamos porque vemos uma cidade mais bonita, mais gostosa, porque sabemos que ele está trabalhando e fazendo, bem ou mal, o que está dentro de suas possibilidades para melhorar em alguma coisa a vida nessa metrópole, parte maior de uma megalópole que caminha para os 22 milhões de habitantes e que vai bater quase 25 milhões quando formar uma grande unidade com Campinas.


Absurdo, mas inevitável.


Agora virá o segundo turno.


Estou convicto que ele vencerá a candidata do presidente da República e seu partido.

Quero muito isso, tanto que de forma alguma perderei essa eleição.

Farei questão de depositar, ops... de marcar meu voto na urna eletrônica.


E, somente então, desejar ao prefeito mais 4 profícuos anos à frente da cidade de São Paulo dos campos de Piratininga.



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terça-feira, setembro 16, 2008

Mais flores, agora róseas

Peço desculpas pelos longos intervalos sem nada publicar.
Os dias têm sido corridos, fiquei boa parte deles no sítio, tentando, ainda sem o mais importante insumo agropecuário, o dinheiro, arrumar algumas coisas já preparando a breve mudança para lá, em definitivo. O sítio tem internet via rádio, mas até hoje não comprei um notebook, falha que pr
etendo sanar rapidamente e que vai tornar minha vida menos complicada no que diz respeito às postagens nos blogs.



Uma linda manhã, sem sol, finalmente, com promessa de chuva ou, pelo menos, umidade. Bom demais.


Tenho tido sorte. Toda vez que estou no sítio uma das vacas pare. Dessa vez foi a Luna, uma Jersey pura, filha do Safári com a Inocence, que pariu uma bezerrinha. Dentro de minha recente política de dar nome aos bois conforme meu humor ou reação inicial, batizei-a de Maravilha. Batismo efetuado e divulgado, fiquei um pouco incomodado, mas vamos que vamos. Maravilha será Mara ou Marinha, não duvido.

Fico meio tentado a escrever sobre os abacaxis, os problemas, os imbróglios, os dilemas, as besteiras feitas, a insistência em algumas besteiras, mas, sei lá, melhor deixar quieto. Até porque já dei título para este post e preciso respeitar o que nomeei, tal como minha mais nova bezerrinha.

Maravilha recém-nascida, sendo lambida por Luna, em seu primeiro "banho", na sombra de uma laranjeira


A estação começou com a florada dos ipês-roxos e dos ipês-amarelos. Como já disse, há muitas espécies de amarelos e suas floradas não são coincidentes, o que faz crer que eles florescem durante muito tempo. Além disso, alterações climáticas provocam, também, uma antecipação na floração das espécies mais precoces. Dessa forma, na prática convivemos com as flores amarelas do ipê de maio, às vezes, ou junho, até setembro e até novembro, como já vi algumas vezes. Espetáculo garantido por meses e meses.

Recentemente tivemos a florada dos brancos e, nessa viagem, descobri com alegria que muitos ipês-brancos estão em
plena florada. Mas o que marcou, de fato, esses dias, foram os ipês-rosa.

Num bairro de Campinas, próximo ao ramal da Bandeirantes que dá acesso à Anhanguera, há vários deles. Mas os mais bonitos, sem dúvida, são os que estão na entrada de Araras, dos dois lados da pista, inclusive com alguns brancos també
m em floração de mistura. São árvores grandes, encorpadas, bonitas em qualquer situação, mas que carregadas de flores ganham uma beleza toda especial.

No haras da Monika, perto do sítio, um ipê-rosa decora o piquete do Kaliman, o belo cavalo BH que ela montou por anos e anos e agora está tranquilamente aposentado.


Um pouco mais adiante, olhando por entre a cerca-viva de sansão-do-campo, enxergamos o magnífico ipê-rosa que embeleza a sede do sítio do ‘seu’ Nelson.

A beleza dos ipês diminui ou deixa menos relevante a florada das ficheiras, que é bonita, também, porém mais singela,
mais simples, sem a magnificência de uma florada plena de um ipê de qualquer cor. ‘Tadinhas’ das ficheiras.

Não importa que a gente ande sempre pelos mesmos caminhos, a verdade é que o mesmo caminho nunca é o mesmo de um dia para o outro.


Se olharmos em volta com interesse veremos algo diferente a cada dia.

Essa coisa de mesmice é bobagem e só existe na cabeça de quem não quer ver que o novo está presente todo dia em toda parte.

Mas há que olhar para enxergá-lo.


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sábado, agosto 16, 2008

...as flores

Para ninguém dizer que no post anterior prometi flores e não falei, tampouco mostrei-as, substituindo-as pelos bezerros, aqui vão muitas, inúmeras flores.




Nessa época do ano a Via Anhanguera pode ser chamada, quase literalmente, de Rodovia dos Ipês, principalmente de Araras em diante. É uma festa para os olhos, que começa com a florada dos ipês-roxos, seguidos pelos diversos ipês-amarelos, que florescem desde final de junho e começo de julho, até meados de setembro. Seu auge, porém, parece dar-se nesse momento. À medida que os quilômetros se sucedem, os borrões amarelos fortes, vivos, quentes, contrastam com o verde dos pomares de laranja e com o tom cinzento que recobre os horizontes, típico desse período seco. Até choveu bem nos últimos dias, se pensarmos que estamos em pleno agosto, mas não o suficiente para limpar o horizonte.

Agosto é o mês em que florescem os mais belos de todos os ipês, os brancos. Há poucos ao longo da rodovia e o primeiro que aparece é o que fica na entrada de Leme. Há alguns anos vejo esse ipê e penso em fotografá-lo, sem nunca conseguir. Sua florada tem uma duração curta e sua beleza é passageira, fugaz, dura poucos dias e depois fica somente a árvore esperando a nova folhagem para a primavera.

Ontem, finalmente, consegui fotografá-lo, mas não no melhor ângulo e tampouco no melhor horário. Não importa, já foi bom, muito bom.



Esse ipê em particular não é alto, é até meio baixo, embora já tenha uma boa idade. Mais adiante, depois de Santa Rita do Passa Quatro, há vários ipês-brancos do lado direito da estrada, como esse, mas numa área rural, sem fiação elétrica e sem defensas ou construções a poluir os arredores. O tempo sempre apertado nem me permitiu lembrar dessas outras árvores e, quem sabe, estimular-me a esticar minha viagem mais uns 40 quilômetros entre ir e vir, e fazer umas fotos mais bonitas, numa paisagem mais agradável. Quem sabe no próximo ano?


Como não poderia deixar de ser, mesmo aqui, ao seu lado, um ipê-amarelo mostra suas flores.


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Espinhos e flores


Reparem na foto abaixo. É final de tarde, o Sol ainda está no horizonte, mas a Aleluia já dorme, depois de passar o dia com a mãe e com os primos. Escolheu como cama o chão embaixo da paineira que está dentro do bezerreiro. Como ela é agitada e brincalhona, o cansaço e a barriga cheia são ótimos indutores do sono.




Indutores do sono...

Quanta poesia... Mas, desde quando este texto é para ser poético?

Tem nada a ver, como vocês verão a seguir.

Pensando bem, nem precisa reparar muito, basta olhar para a foto do tronco da paineira em detalhe.


Viram quantos espinhos?

Pois é. Nem por isso, contudo, a paineira deixa de ser bonita e, ao seu jeito, aconchegante.

Assim, ou mais ou menos assim, é a vida no campo.

Que é, sim, bucólica, agradável, confortável, romântica, poética, que tem lá seus momentos, raríssimos, de sombra e água fresca, mas, que em contrapartida dessas coisas todas, tem também muitos senões.

Muitos espinhos, como a paineira, que é linda e gostosa no verão, com sua sombra generosa, bonita toda vida na primavera, coberta de flores, útil no inverno com suas painas que, como no sítio do Tião, cobrem o chão e dão a impressão passageira e falsa de uma nevasca em pleno interior paulista.

Na paineira, os espinhos têm função protetora.

Na vida campestre, os espinhos têm tudo, menos qualquer função útil. Principalmente quando esses espinhos são humanos e roubam.

Roubam leite e roubam galinhas, como fizeram conosco na semana passada, roubam televisões, geladeiras e aparelhos de som.

Roubam carros, motos e tratores, roubam vacas e carneiam as coitadas em qualquer beirada de asfalto, tirando meio quilo de carne e deixando o resto para os urubus, cachorros, gatos e outros comensais de carnes abandonadas; esse foi o destino da coitada da Gisele, uma das minhas Jersey PO, registrada e tudo, há alguns anos.

Essa semana mesmo, meu amigo A. e sua esposa L., chamemo-los assim, chegou em sua casa, no sítio, e deparou com bandidos fugindo em duas pickups pequenas e uma moto. A porta estava arrombada, mas os vagabundos nada levaram. Não tiveram tempo, felizmente. Mais felizmente ainda, fugiram, sem enfrentamento e as funestas conseqüências que disso poderiam vir.

Não por coincidência, uma semana antes os bandidos, com toda certeza, jogaram um pedaço de carne envenenada e mataram a cachorra que tomava conta da casa do A e da L.

Bom, a polícia foi chamada e compareceu, mas, naturalmente, nada fez, nada fará. Santa Rita do Passa Quatro tem apenas duas viaturas policiais para atender à cidade, à zona rural e ao distrito de Santa Cruz da Estrela. Nem é preciso dizer qual é a prioridade dos policiais, né? Até porque, ir pra zona rural implica em gastar combustível, pegar estradas de terra, ora com lama, ora com poeirão brabo, abrir porteira, passar por mata-burros, essas coisas todas que produtores rurais, e bandidos, são obrigados a fazer, mas que policiais e outras autoridades não gostam de fazer. Exceto, naturalmente, em período eleitoral, como agora.

Nos sítios e fazendas estamos isolados e, literalmente, sem proteção das forças de segurança, cuja existência tem por finalidade a proteção e segurança dos cidadãos.

Ao mesmo tempo, as autoridades e as leis, impedem-nos ou restringem terrivelmente, a possibilidade de auto-defesa. Ter armas em casa, por exemplo, é pedir pra arrumar chifre em cabeça de cavalo. É crime, do qual, naturalmente, estão isentos os bandidos, mas não os moradores da zona rural.




Apesar disso tudo, a vida no campo tem seus atrativos, ao menos para mim.

Como já disse mais de uma vez, o entardecer é um momento meio mágico.

A luz do Sol já baixo no horizonte dá um tom dourado a tudo. Os bezerros mais novos aproveitam o restinho de calor e antecipam a noite, caindo no sono ainda com claridade. Os mais erados ainda ficam zanzando por aqui e por ali, mastigam um pouco de feno, comem um bocadinho de grama, antes de se deitarem.

As noites com a Lua cheia, esplêndida e luminosa, ainda mais nesse céu limpo de inverno, são realmente lindas e despertam as melhores e, geralmente, as piores veias poéticas de muita gente. Gato escaldado que sou, para sorte de vocês fico quieto no meu canto e limito-me a essas mal traçadas linhas. Melhor dizendo, mal digitadas.

No fim, deixei para trás os espinhos da paineira e fiquei com suas flores e painas.


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quarta-feira, agosto 13, 2008

Coisas estranhas no Macaúbas



- E aí, tá tudo em ordem?

- Tudo bem, tudo certo.

- Ótimo. A Aleluia tá boa, desenvolvendo bem?

- Ah, tá, é a mais esperta dos bezerros, tá bem bonitinha.

- Legal, bom mesmo.

- Ah, tem uma coisa meio estranha...

Pronto!

Frio na barriga, o temor toma conta de mim.

Essa frase é sinal de coisa ruim, conheço-a muito bem, assim como o tom de voz.

- Então, o motorista do caminhão do leite trouxe um relatório e disse que o leite da segunda-feira tava sem gordura.

- Como assim sem gordura? Que loucura é essa? Justo as Jersey?

- É, eu achei bem estranho.

- Mas como o leite pode ter ido sem gordura? Não tem lógica.

- É, foi o que eu pensei, também.

...

...

Silêncio da minha parte, silêncio da dele, e a operadora do celular contando o dinheirinho pra sua conta enquanto isso.

- O motorista não falou nada, só isso?

- Só isso.

Conversei mais uma coisinha ou outra com o I. e desliguei, encafifado com a informação: como o ‘meu’ leite não tinha gordura?

Ora, pílulas, leite de Jersey só tem gordura! É riquíssimo, a ponto do próprio Jamie Oliver dizer em seus programas que o melhor creme de leite é o de leite de vacas Jersey! O que só mostra como ele é bom e entende mesmo de gastronomia. Já éramos seus fãs, aqui em casa. Depois disso, então...

Um pouco mais tarde, peguei o telefone e liguei pro Guto, tirador de leite há muito mais tempo, que mora no sítio e vive do leite. Alguém, portanto, que sabe das coisas, tanto as boas como as ruins.

Conversa vai, conversa vem e a bomba explode na minha cara ingênua:

- Emerson, leite sem gordura é leite com água. Roubaram teu leite e colocaram água no lugar.

Fico quieto... Estou pasmo, incrédulo, revoltado, desacorçoado.

- Oi, você ouviu?

- Desculpe, ouvi sim. Duro é acreditar.

- Eu sei como você está se sentindo. Onde você deixa o leite?

- Dentro do resfriador, mas o resfriador fica na varanda, exposto.

- E você não passou uma tranca nele, né?

- Nem pensei nisso.

- Pois então, pode pensar e fazer.

Pronto.

Aqui estou eu às voltas com mais uma das delícias da vida campestre.

Alguém, sabe-se lá quem, embora desconfiemos de alguém, ao invés de pedir, roubou.

Pior que isso, deu-me um duplo prejuízo: roubou o ‘meu’ leite e, em seu lugar, colocou água, afetando assim minha ficha e minha credibilidade junto ao laticínio.

Não bastava o roubo, teve também a sacanagem do prejuízo ao meu nome.

Por que o vagabundo simplesmente não deixou o latão com menos leite, flutuando na água?

Porque além de bandido e vagabundo é burro. Fez isso achando que ninguém iria descobrir e assim ele poderia continuar mamando no meu resfriador.

Só não sei para fazer o que com o leite, pois quem roubou não tem criança pequena na casa e, bem sabemos, tem leite à vontade do próprio local.

Claro, sabemos quem foi, mas não temos provas.

É o mesmo ladrão que levou as galinhas e foi visto por um morador próximo descendo de seu cavalo e levando um monte de sacos vazios na mão.

Agora o resfriador está envolvido por uma corrente, fechada com cadeado. Não que vá impedir, caso a vontade de roubar seja grande, mas atrapalha e atrasa muito o “serviço”, coisa que vagabundo nenhum gosta.

Não vale a pena avisar a polícia, é só perda de tempo, mas assim mesmo eu vou avisar, pois quem rouba um tostão rouba um milhão.

Hoje, galinhas, o galo vermelho que a Rosa adora e leite. Amanhã... Sabe-se lá o que.

Por isso, já tenho visita programada à delegacia tão logo chegue na cidade.

Tem nada, não, a vida no campo, mesmo assim, é gostosa, e é meu sonho e meu destino.

Não, hoje não vou falar sobre as galinhas e o galo vermelho. Lamento.

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sábado, agosto 09, 2008

Vistas do Macaúbas

Antes de falar e mostrar algumas vistas que o Macaúbas proporciona, essa aqui embaixo é uma das que mais gosto. No final da tarde, prontos para passar a noite, Florinda (deitada) e o filho da Rikinha, nascido no final de maio.

Ela já comeu um bom bocado de feno, assim que entrou no piquete 'dormitório', e agora só espera a chegada da noite. Mais tarde vai comer de novo, assim como ele, que ainda mama durante algumas horas.




Final de tarde sempre dá imagens bonitas, cores quentes, sensações gostosas.

Lá no fundo ergue-se um morrote, rodeado por cana. A casinha da beira do asfalto, que nesse final de semana começa a ser habitada pelo Tadeu, Fabiana e seus dois filhos, compõe a paisagem com a macaubeira elegante no meio do nosso canavial.

Tadeu saiu do sítio e foi morar na cidade, sonhando com o salário vistoso numa fábrica de embalagens. Só de aluguel passou a pagar mais de duzentos reais, por uma edícula minúscula, sem privacidade. A compra do leite para as crianças passou a consumir cem reais por mês. Mais a conta de água, a de luz e todos os custos que a cidade, mesmo pequena, acarreta para quem nela mora.

Agora vai morar no Macaúbas, de volta pra roça, de volta pra perto de onde moram os pais da Fabiana. A casa é simples, mas bem maior que a da cidade. A água e a luz vão no pacote, além do leite pras crianças. Em troca, ele olhará pelo sítio, simplesmente com sua presença ali. E dará alguns dias de serviço em finais de semana, permitindo folga ao Ismael e ao meu bolso, claro.

Um bom negócio, principalmente para ele, que continuará trabalhando na fábrica de segunda a sexta e um final de semana por mês, com o salário 'de cidade', mas morando na roça, com as economias que a roça proporciona.

De minha parte fico satisfeito, também, por ver a casa ocupada, cumprindo seu papel de ser a base para um lar.





A mesma vista com o morrote, sem a casa, no mesmo fim de tarde, a luz do sol já dourada e comprida.




De alguns lugares do sítio a gente avista, meio longe, o girassol que a usina plantou para fazer rotação com a cana. A vista, ainda que distante, é bonita, mas fica mais bonita com a aproximação da zoom.

No primeiro plano, o verde escuro do laranjal pontilhado pelo amarelo das laranjas. Depois o girassol, e depois milho e cana.

Esse é o verde-amarelo que eu gosto.
Pátria, para mim, é isso.


Posted by Picasa

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quarta-feira, agosto 06, 2008

Aleluias!


Dez dias passados no sítio.

Dá pra dizer que começamos, de fato, a preparar nossa ida para lá.

Já não é sem tempo.

Esse período pode ser chamado como o primeiro fato

digno de um ‘aleluia’.

Felizmente, não foi o único.

À parição da Morena, seguiu-se no sábado, dia em que

chegamos, a parição da Albinha. Mais um machinho... O terceiro em seguida (o primeiro foi o da Rikinha).

As duas em suas primeiras crias, ambas sem problemas, felizmente. Essa é uma das grandes vantagens do sangue Jersey: crias pequenininhas, miudinhas, de acordo com

o tamanho futuro dos adultos, e isso é sinônimo, geralmente, de partos tranqüilos. Pena que as três pariram machos, mas, faz parte.

A manhã de segunda-feira corria tranqüila quando, de repente, o Leandro apareceu no curral com uma coisinha nos braços:

a cria da Vitorinha. Sorridente, disse para mim:

- É uma ‘feminha’!

- Aleluia! – exclamei de pronto.

Finalmente, uma bezerra, depois de tantos machos (que até justificaram um post a respeito, para quem está lembrado: “Machismo no Sítio das Macaúbas”). Nos dias que se seguiram ela ficou sem nome, o que não impediu que começasse a se desenvolver como seus irmãos e primos. Pedi sugestão de nome ao Leandro, afinal, foi ele que “achou-a” e deu uma ajudazinha para achar as tetas da mãe e começar a mamar o colostro. Isso nem sempre é necessário, mas quando os bichinhos ficam próximos da gente, a tendência é ficarmos meio apavorados e acabamos por querer apressar a natureza. Tímido, ficou sem jeito e acabou não batizando a bezerrinha no primeiro dia. alguns dias depois, peguei-me olhando a bichinha e pensando em seu batismo. Matuta daqui, matuta dali, de tanto matutar concluí que ela deveria chamar-se Manchinha (por motivos explícitos) ou – sim, por que não? – Aleluia. Todos optaram por Aleluia, e assim tivemos um batizado democrático no Macaúbas. Afinal, democracia é boa e eu gosto.


Outro motivo para um aleluia: desde essa segunda-feira, o Laticínio Nilza, de Ribeirão Preto, está recolhendo nosso leite, dia sim, dia não. O caminhão entra no sítio (tivemos que serrar uns galhos de três árvores... paciência, é o preço do progresso), encosta perto do curral e uma mangueira suga o leite dos galões. O próximo passo, tão logo mais vacas entrem em produção e ultrapassemos de forma consistente os cem litros por dia, será a instalação de um tanque de expansão, que receberá o leite ao invés dos galões plásticos, que ficam armazenados num resfriador de água.




A ‘máquina’ da prefeitura, uma retroescavadeira, foi ao sítio e fez uma senhora curva para retenção das águas das chuvas do próximo verão, impedindo que elas desçam e assoreiem a mina. Eu achei a curva grande demais, roubando-me boa fatia de pasto já escasso, mas alguns vizinhos acharam-na pequena e vaticinaram que as águas irão sobrepujá-la. Bom, o jeito é esperar para ver.

Eu também queria fazer uma lagoa seca, com a esperança que viesse a transformar-se numa lagoa ‘molhada’, cheia d’água o ano inteiro, mas a máquina começou a vazar óleo e o operador foi embora com ela. Pena. Mas ainda espero pela lagoa, assim como as garças que ficaram muito tempo olhando o serviço da grande pá que arrancava blocos de terra, revelando insetos e larvas diversos para a diversão e, principalmente, refeição das alvas espectadoras.

Outro motivo para um sonoro aleluia: choveu!

Depois de longo período, uma chuvinha. Miúda, no domingo, o bastante apenas para jogar fora a poeira e limpar as folhas das árvores. Mas nem tão miúda, pois já deu para observar montículos de terra em alguns pontos, indicando o trabalho de formigas, besouros e outros insetos, limpando suas tocas e túneis, sinalizando que a água, ainda que pouca, penetrou um bocadinho no solo sedento ocupado por plantas idem.

Já na terça-feira, e disso só soube por telefone, choveu bem, chuva de respeito: 12 milímetros. Claro, de respeito considerando que estamos em pleno agosto, um mês sempre muito seco. Portanto, doze maravilhosos milímetros que vieram somar-se a outros três ou quatro do domingo.


A chuva é, literalmente, uma dádiva do céu.



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quinta-feira, julho 24, 2008

Do tempo de Cristo




Há algumas semanas esperávamos pelo jantar na casa do César e da Rose, nossos vizinhos de sítio, papeando, eu e Cesar, sobre futebol ou sobre vacas, meus assuntos prediletos, e agora também os dele. Conversa vai, conversa vem, veio uma bela salada de alface para a mesa. A Rose disse que aquela alface era ‘velha’, era alface plantada pela dona Terezinha, usando sementes que veio guardando ano após ano desde há muito tempo. Ao comer, reparei que o sabor era mais intenso, era um sabor que eu conhecia de outros tempos, o gosto de alface era mais pronunciado. De fato, estava comendo uma alface de outros e velhos tempos.

Lembrei-me, como sempre lembro, de uma passagem de “Fazenda Malabar”, hoje e sempre meu livro de cabeceira sobre ser agricultor e criador, escrito por Louis Bromfield, romancista e agricultor americano, que viveu toda a primeira metade do século XX e poucos, pouquíssimos anos da sua segunda metade. Mais de uma vez Bromfield fala de velhas variedades de frutas e vegetais, desenvolvidas muito antes dos modernos tempos das grandes cidades, grandes populações e grandes distâncias a serem percorridas pelos produtos que vão à mesa dos citadinos, exigindo a produção em larga escala, a baixo custo, de produtos desenvolvidos para suportarem transporte e armazenamento sem perda da qualidade aparente. Aparente, sim, pois nesses produtos, já naquela época, era mais importante uma boa aparência para os incautos consumidores urbanos do que, propriamente, qualidades como sabor e textura.

Já nos anos quarenta, quando “Fazenda Malabar” foi escrito, ou seja, há pouco mais de cinqüenta anos, o mercado consumidor começava orientar o produtor para receber produtos mais bonitos, mais vistosos, que antes de irem à boca enchessem os olhos, que por sua vez iriam cuidar de aguçar o desejo em nossos primitivos cérebros.

Os pêssegos estavam na linha de frente das frutas modificadas. Já eram grandes e bonitos, suculentos, sem dúvida, mas de sabor ausente ou quase nulo. As maçãs tampouco haviam escapado à sina do modernismo agrícola, e por essa rota podíamos seguir enumerando outros produtos. Uma coisa era certa: as maçãs Golden Delicious que os americanos comiam estavam a anos-luz da fruta que a serpente deu para Eva, segundo o relato bíblico.

Isso me leva a pensar: tinha tâmaras na Última Ceia?

É provável que sim, é bem provável, pois a tâmara era alimento de grande importância no Oriente Médio da época de Cristo. E aqui vem o porquê dessa crônica hoje.

Entre 1963 e 1965, arqueólogos descobriram diversas sementes numa escavação na fortaleza de Massada, às margens do Mar Morto, que foi destruído pelos romanos no ano 73 de nossa era. Em 2005, algumas das sementes foram identificadas como sendo de tâmaras e foram datadas pelo Carbono 14 como coletadas no período entre 200 a.C. e 25 d.C. São, portanto, sementes de uma tâmara que não mais existe há muitos séculos.

Três delas foram plantadas em vasos e uma germinou, dois mil anos depois de ter sido colhida.

É a planta cuja foto ilustra esse post. A partir de material genético retirado dela, pesquisadores descobriram que ela é diferente de todas as modernas tamareiras existentes. As mais parecidas são as cultivadas no Iraque, e as mais distantes em termos genéticos são, também, as mais distantes geograficamente, cultivadas no Marrocos.

Restam, ainda, alguns anos para essa tamareira atingir sua maturidade – bom, não deixa de ser meio divertido escrever isso sobre uma planta cuja semente já tinha 2.000 anos – e só então os pesquisadores saberão se essa planta é macho ou fêmea. Se for do sexo feminino, será menos difícil conseguir polinizar suas flores com pólen de tamareiras modernas, gerando frutos com características dos antigos, mas não exatamente iguais. O ideal, para a pesquisa, para o conhecimento e – por que não? – para o paladar e o mercado, seria o plantio das outras sementes, obtendo-se mais plantas, entre as quais, com certeza, machos e fêmeas, possibilitando a produção de frutos com dois mil anos de idade.

Possivelmente, frutos idênticos aos que foram consumidos na Última Ceia.

Mas...

Sempre há um ‘mas’, até para produzir tâmaras do tempo de Cristo.

A objeção, nesse caso, parece vir dos arqueólogos que, pelo que pude entender da matéria, não estariam muito dispostos a ceder outras sementes para plantio e precisariam ser convencidos da grandeza desse gesto. Várias grandezas, desde a biológica, agronômica e genética, até a gastronômica, sem falar do valor religioso.

Que “São” Indiana Jones ilumine as mentes dos arqueólogos guardiões das sementes.


Enquanto isso acontece em terras d’além-mar, em breve estarei na casa da dona Terezinha e do seu Alcindo, para uma visita, um café, uns ‘par’ de dedos de prosa e, quem sabe, meia dúzia de sementes de alface das antigas.



A horta do sítio, agora em processo de reconstrução, agradecerá.


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terça-feira, julho 22, 2008

Kazumba, Luar, Macaúbas & outras...

... fotos, textos e coisas da roça, no Sítio das Macaúbas.

Onde os dias continuam ensolarados e quentes, mas só ao sol, pois na sombra logo dá frio.
Se os dias são quentes, as noites têm sido ora frias, ora geladas.
Ótimo para as vacas, bezerros inclusive.
Pela manhã, com sete graus cravadinhos, fica difícil levantar do chão quentinho e começar o dia.






Kazumba, ganhando seu primeiro 'banho', minutos depois de vir ao mundo, na manhã de segunda-feira, dia 21 de julho.
Sua mãe é a Morena, filha da Malhada.
Seu pai é o Minuto, cada dia mais imponente e mais Jersey.





O beija-flor-tesoura, morador permanente do Macaúbas, na flor da eritrina, ou eritrina-candelabro, ou, ainda, mulungu.









Luar sobre o Macaúbas...
A cheia já começou a minguar, mas a Lua ainda é imponente, brilhante, iluminando as noites geladas.




Esse montinho embaixo da mangueira não é bem um montinho, é uma porção de capim tifton bem desenvolvido, bem bonito.
Como não foi comido pelas vacas?
Por que está tão grande e viçoso em meio ao rapado geral do restante?

Simples: algumas galinhas dormem nos galhos sobre ele, que recebe, noite após noite, boa carga de esterco que é o melhor adubo que o capim pode querer.
Como toda noite tem mais esterco fresco, as vacas vêm, cheiram e vão embora.
O capim fica, felizmente, pois vamos aproveitá-lo para fazer alguns replantios nas proximidades.






Eis um belo cacho de macaúbas.

O brilho vem da luz do Sol que está se pondo, uma luz dourada, que combina à perfeição com os pequenos cocos.

Logo mais eles estarão no ponto para as maritacas e tucanos comerem.







Florinda, em sua primeira entrada no Olhar Crônico.
Um olhar mais atento verá que ela está com sua pelagem de inverno, mais grossa e quente, necessária para as madrugadas na base de cinco a sete graus.



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quinta-feira, julho 10, 2008

Notícias do 5º e do 1º mundo – aqui mesmo




Formado com 5 tiros

A realidade brasileira é cruel, mas é também irônica e só não é unicamente cômica porque ela é, acima de tudo, trágica.

O soldado da polícia carioca que disparou alguns dos tiros que mataram o garoto João Roberto há alguns dias, na Tijuca, disparou 5 – cinco – tiros durante seu aprendizado. O curso tem a duração de oito meses, apenas, e, segundo alguns policiais, passa-se mais tempo marchando e estudando legislação do que em tarefas relacionadas ao trabalho policial propriamente dito.

Esqueçam tudo que se vê em filmes americanos. Nossa realidade é outra. Nada de disparar centenas de tiros em stands e em cenários simulados, para aprimorar a pontaria e os reflexos, diferenciando a velhinha de oitenta anos de bengala do traficante com um AK 47, não confundindo o garoto correndo atrás da bola com um ladrão de banco com uma 7.65 na mão correndo agachado. Esse tipo de coisa, entre nós, só mesmo nas telinhas dos filmes e séries americanos.

O policial brasileiro não sabe atirar. Não é só o governo carioca que não dá dinheiro para a compra de munição para treinamento. Isso é geral, de norte a sul, do Oiapoque ao Chuí. Um soldado deveria passar dois anos em aprendizado antes de ir para as ruas, na opinião de especialistas. Oito meses, como o caso citado, é exatamente um terço desse período.

Tudo isso sem falar nos salários dos policiais.

Despreparados, no mínimo, os dois policiais dispararam 16 tiros contra o carro em que estava a família de João Roberto.

Quem é mais criminoso? Quem disparou os tiros ou quem manda para as ruas pessoas armadas e dotadas de autoridade sem que tenham a menor condição, seja prática, seja psicológica, de usar uma arma?

Nesse ponto, somos, ainda, 5º mundo.




Segurança de 1º Mundo

O padrão de segurança aceito internacionalmente nos metrôs é de 1,5 ocorrência policial para cada milhão de passageiros. O Metrô de São Paulo atingiu esse índice no primeiro semestre desse ano.

Essa conquista é fruto do trabalho que vem sendo desenvolvido pela operadora do metrô e autoridades policiais nos últimos dez anos. Em 1998 foram registradas 6.500 ocorrências policiais, equivalentes a 9,7 por milhão de passageiros. O ano de 2007 fechou com 1.600 registros, que corresponderam a um índice de 1,9. A continuidade e aprimoramento do trabalho levaram ao índice de 1,5 no primeiro semestre. É bom frisar que no decorrer desses dez anos o número de estações e passageiros aumentou bastante.

Hoje, o maior problema nessa área são os furtos e roubos, que respondem por 48% das ocorrências. Esse tipo de atividade é facilitada pelo grande afluxo de pessoas nas estações-chave: Sé, Barra Funda, Tatuapé, República e Paraíso. Essas cinco estações concentram 42% das ocorrências, deixando o restante para as demais 53 estações do sistema de transporte metropolitano.

Entre as grandes vitórias do pessoal encarregado, está a virtual eliminação de brigas entre torcedores adversários em dias de jogos na Capital. Dias antes de jogos considerados críticos, o pessoal do Metrô e da polícia organiza um verdadeiro “esquema de guerra”, que inclui, além do reforço no policiamento, o monitoramento de sites de relacionamento, como o Orkut, em busca de informações sobre pontos de encontro ou mesmo marcação de brigas. Até mesmo os trens são controlados para que não se encontrem numa estação colocando frente a frente os adversários.

A última ocorrência grave envolvendo torcidas em estações do metrô paulista ocorreu em 2005. O resultado desse trabalho preventivo é considerado tão bom que o exemplo será apresentado em congressos internacionais.

De vez em quando é bom ter alguma coisa boa para melhorar nosso humor e mostrar que com vontade, planejamento e trabalho sério pode-se conseguir melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Até mesmo na área de segurança, mostrando-nos que muitas coisas do 1º mundo não são apenas sonhos impossíveis.



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quinta-feira, julho 03, 2008

Aleluia! Ingrid Bettancourt está livre



Essa era a notícia que milhões de pessoas em todo o mundo, não somente na Colômbia, aguardavam. Finalmente, depois de 6 anos de cativeiro em condições desumanas, a Senadora e candidata à presidência do país quando foi capturada pelos bandidos das chamadas FARCs, foi libertada por uma ação militar do exército colombiano com suporte de inteligência dos Estados Unidos.



O drama, porém, ainda não acabou. Outras 25 pessoas permanecem em poder dos bandidos, duas delas desde 1997, sendo 3 civis e 22 militares. Juntamente com a senadora, outros 14 reféns foram igualmente libertados.

Essa notícia alegrou meu final de noite, ontem, fui dormir com a alma mais leve.

Não sou colombiano, não sou parente de Ingrid, mas seu cativeiro atingia-me como ser humano e como alguém que acredita na democracia e nos direitos que devem contemplar todo ser humano. Abomino de forma particularmente intensa todos que, em nome dos direitos humanos, da justiça e da democracia, atacam, justamente, os direitos de outras pessoas, destroem a democracia e a justiça, ou fazem desta, quando no poder, uma caricatura trágica cujo objetivo é dar suporte formal a governos ditatoriais. São duplamente criminosos, assim como o é o policial que a sociedade paga para defendê-la e que adota a criminalidade como seu meio de vida.

Não chamo os bandidos das tais FARCs de guerrilheiros porque não o são. Não passam de meros bandidos, seqüestradores e traficantes de drogas. Chamá-los de guerrilheiros é conspurcar a memória de muitos que foram, efetivamente, combatentes em prol de um estado mais digno em muitos pontos do mundo. Que também cometeram erros e em diversos momentos fizeram tudo que condenavam nas forças que combatiam, mas nunca fizeram disso seu meio de vida e de luta, sua verdadeira razão de ser, como ocorre com os narcotraficantes e seqüestradores colombianos.

Mostrei a fotografia da felicíssima Ingrid hoje cedo para minha mulher e comentei o quanto ela envelheceu nesses seis anos de cativeiro, que ela própria descreveu como “Voltei de uma viagem à pré-história” – uma descrição sucinta e perfeita não só de seu tempo de sofrimento e privação da liberdade e confortos mínimos, inclusive higiênicos, como também do nível mental de seus captores.

Um 'detalhe': quando foi capturada, seu filho tinha 13 anos de idade. Hoje tem 20 anos. Quantas perdas...


O jornal de hoje foi um companheiro muito agradável no café da manhã.

Como há muito tempo não acontecia.



(A pane nos serviços de internet da Telefônica impediu a publicação desse post na manhã de 3 de julho. Depois de 21 horas sem internet, o que atrapalhou meu trabalho e obrigou-me à terrível tarefa de entrar numa agencia bancária, além de impedir parte do lazer do dia, espero que a Telefônica dê um desconto em meu próximo pagamento. É o mínimo que a companhia pode e deve fazer.)


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terça-feira, junho 24, 2008

Árvore da moda


Esse negócio de genealogia, de fazer ou pesquisar sua árvore genealógica anda encantando a gregos e troianos e também a chineses. Está na moda ou, como podemos dizer no ‘brasilianês’ corrente, tá meio que na moda.

Movido pela curiosidade, certo dia bati o olho num livro sobre brasões portugueses e, claro, procurei pelo brasão dos Gonçalves. E não é que existe um? Não tenho a mínima lembrança de como seja ou deixe de ser, mas vi o desenho no livro. Algum tempo depois, mas também há muito já, bati os olhos em outro livro assaz interessante, que listava todos os sobrenomes italianos. Aqui encaixa melhor um “todos”, pois minha folheada foi o suficiente para descobrir que meu Brassaroto ou Brassarotto materno não está listado. Será que é porque é calabrês e o livro terá sido escrito por gente do norte rico, elegante e metido a nobre? Não sei, e como não comprei o tal livro – por inútil e por ser caro – não tenho também a menor idéia sobre o porquê de tal desfeita conosco, os Brassarotos, ou Brassarottos.

Recolhido novamente à minha insignificância nominal, esqueci o assunto que nunca foi, de fato, um assunto. Até que, recentemente, comecei a receber insistentes e-mails, todos na categoria chata dos spams, propondo traçar minha árvore genealógica. Dada a quantidade de tempo perdido no envio de tantas mensagens, o negócio deve ser muito bom e faturar o bastante para manter ocupados o pessoal ocupado com essa tarefa. Ou tão ruim que isso nada mais é que mero desespero de quem precisa faturar um trocadinho qualquer,e por isso dispara contra tudo e contra todos. Já aviso que estou fora do mercado e não quero saber de minha árvore genealógica, mas sei que isso não resolverá e breve receberei novos e-mails.

Até dá vontade de conversar com o “pesquisador”, só para ver sua cara quando eu disser que minha bisavó materna era uma índia do sertão das Minas Geraes. E aí, ‘mano’, como ficará sua pesquisa?

Entretanto, se o mundo gira, a Lusitana roda e a vida piora, eis que o jornalão da segunda-feira traz interessante matéria sobre o sábio chinês Confúcio. Também conhecido por Kong Fuzi.

O Honorável Kong Fuzi voltou à moda – da qual nunca saiu de verdade – no Império do Meio ou Império do Centro, como se autodenominou a China desde antes de Cristo. Mesmo durante o período de dominação do Camarada Mao e seu Livro Vermelho, Kong Fuzi pareceu-me estar na origem de algumas máximas do líder da Grande Marcha e hoje reconhecido apreciador de meninas na flor da adolescência iniciada. Além disso, por mais revoluções culturais que fossem feitas, uma cultura tão antiga, tão arraigada nos corações e mentes dos chineses não seria extirpada assim, de uma hora para outra. Isso lembra um pouco, sem o banho de sangue, a mania brasileira de querer mudar o mundo, a vida e a realidade por meio de leis, decretos e, muito pior, decretos-lei. Una tontería, por supuesto.

Confúcio voltou a ser estudado nas escolas chinesas e como tudo na China é gigantesco, assim também é o número de estudantes que mergulham em sua obra nesse momento: mais de dez milhões.

A China assusta...

Mestre Kong Fuzi era um sábio que dava extremo valor às virtudes, em especial nos governantes, e à família.

Parênteses: vivesse ele nos dias de hoje em certo país grande e sacana ao sul do Equador e já teria pirado, para dizer o mínimo. Ou teria migrado para algum lugar como Harvard ou Sorbonne, onde falaria sobre esse país grande, sacana e sobretudo bobo.

Por falar em família, e como esse texto começou falando em árvore genealógica, estima-se em três milhões o número de descendentes de Kong Fuzi. Dizem, inclusive, que os modernos Kongs quando se identificam com esse sobrenome, são tratados com mais deferência que os mortais comuns. Se você, leitor, achou três milhões um número muito alto, fique sabendo que o último levantamento digno de crédito, feito em 1998, apontou para 1,3 milhão de tatatatata-qualquer-coisa-neto do Mestre.


É a maior árvore genealógica do mundo.

É gente pra burro, mas também, pudera, estamos já na 80ª geração pC – pós-Confúcio.

Pensando nessa tal deferência e na proximidade dos Jogos Olímpicos, tive um estalo – creio que o próximo, agora, só em 2009 – e associei Gonk com Kong.

Sim, por que não?

Kong e Gonk são próximos foneticamente, e todos sabemos como novos usuários modificam palavras estrangeiras para adaptá-las ao seu falar de todo dia. Um bom exemplo disso pode ser observado ouvindo-se as conversas que rolam entre a garotada. Todos falam um tipo de português que, para mim, precisa de tradução simultânea para entender plenamente.

Quem me diz que Gonk, derivado de Kong, não tenha virado Gonçalves em tempos remotos e medievais?

Isso transformar-me-ia num descendente do Velho Mestre.

Assim sendo, quem garante que o governo da República Popular não convidaria esse modesto pseudo-descendente e blogueiro para alguma solenidade confucionista em plena disputa dos Jogos Olímpicos?

Como vocês podem ver, uma prova a mais de como o mundo é movido por interesses.

Mas é só brincadeira: agora, falando a sério, sou pelo Tibet Livre.

Logo, eu e o governo da RPC não nos bicamos.


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