quarta-feira, outubro 31, 2007

País engraçado


Com esse título acima já fica claro ao leitor e à leitora desse blog que não vou falar sobre a Suíça. Tampouco irei falar sobre o Canadá, Islândia, Suécia ou Noruega. São países chatos, falemos a verdade. Tudo funciona e, geralmente, funciona bem. O povo é saudável e educado, etc e tal, e, em lugares assim, é difícil achar coisas engraçadas. Preconceito? É, talvez, um pouco, um pouquinho só.

País engraçado poderia ser a América, digo, os Estados Unidos da América, mas, sei lá, com essa atual elite dirigente pode-se chamar os USA de qualquer coisa, menos de engraçado.

Itália! Sim, a Itália é engraçada, coisa que outros latinos como a França, Espanha e Portugal não são. São muito sérios, muito empolados, muito cheios de si, enfim, não são engraçados. Alemanha? Hahahahaha... Engraçado é alguém pensar que a Germânia possa ser engraçada. Ah, a Inglaterra, sim, a “velha e pérfida Albion”, essa é engraçada. Um humor oposto ao italiano, mas humor. Mas tampouco falarei desses dois. Agora já deve ter ficado claro que eu, logicamente, vou falar do mais engraçado de todos os países: o Brasil.

O Brasil é tão engraçado que não duvido nem um pouco que nossa primeira-dama lance-se candidata à sucessão do maridão. Se Dona Cristina fez isso na terra dos hermanos ao sul, que na média são mais educados e politizados que nós, por que não Dona Marisa Letícia para Presidenta? O problema seria o que fazer com o primeiro-marido, ou primeiro-cavalheiro da República. Essa questão paralisaria por meses os já paralisados trabalhos do Congresso Nacional. Pergunto-me se o primeiro-cavalheiro viraria papagaio-de-pirata da esposa, reproduzindo o que ela mesma faz hoje com ele, talvez, como aventei há pouco tempo, já em campanha pela sucessão.

O cúmulo da graça tupiniquim seria a reeleição de Dona Marisa Letícia em 2014, ano da Copa no Brasil. E, por que não, com os fantásticos avanços da medicina, em especial na geriatria, lulla da Silva poderia, constitucionalmente, voltar à doce presidência em 2018, com perspectivas de ali permanecer até 2026. O cúmulo da (des)graça, sem dúvida.

Todavia, sendo o Brasil tão engraçado como é, por que não? Inclusive, cúmulo da graça, teríamos como mandatária suprema da nação uma cidadã italiana e os primeiros-filhos seriam,também, cidadãos italianos. Na falta de um povo do primeiro-mundo, teríamos dirigentes do primeiro mundo de carteirinha e tudo.

Crise moral

Estou morrendo de vontade de ler a edição da revista masculina que estampou em sua capa e páginas internas aquela senhora, teúda e manteúda de alto mandatário republicano. O problema é que sou um cara de poucos, mas firmes princípios. E não vou gastar um centavo dos meus já parcos para engordar a já muito gorda conta dessa distinta senhora, da qual, por sinal, nada quero ver, mas que percebe-se, de gorda nada tem, exceto a conta bancária.

Ué, então por que você quer a revista? – pergunta o leitor curioso e a leitora indignada.

Simples, estimada leitora preocupada com minha moral.

Simples, estimado leitor, descrente de meus princípios.

O que me interessa nessa revista são... as entrevistas.

O pior vem agora: podem acreditar, o que digo é vero, é veríssimo.

É fácil entender o porque: dois de meus ídolos estão nas páginas da tal revista masculina, na mesma edição, em duas entrevistas supimpas.

Uma, muito curta, com o técnico do São Paulo, Muricy Ramalho. Meu ídolo.

Outra, a maior, com meu ídolo e leitura obrigatória todo sábado na Veja:

Diogo Mainardi.

Fui cortar o cabelo na sexta-feira. O barbeiro, cujo nome ainda não gravei, discretamente tirou uma revista da gaveta e estendeu-a para mim.

Oba! Era a tal revista.

Ah, não era... Era o número anterior, com uma starlet qualquer, mais uma daquelas que se formou na faculdade de reality show. Nem abri, devolvia, e pedi uma “Caras”. Como disse, eu sou um cara de princípios, e a rápida vista-d’olhos pela “Caras”, além de nesse caso preservar meus princípios, coloca-me em dia com todas as fofocas do mundo das personalidades. Foi assim que descobri que essa revista “tem” um castelo na Toscana, com vinhedo próprio e tudo. Um castelo de verdade e meio velhusco, pelo que pude ver nas fotos, onde um casal – ele ator famoso, ela cantora desconhecida – passeia pelo vinhedo e enche uma cesta de palha com cachos de uva. Puxa, se a revista fosse minha eu recortaria a foto maior dos dois com as uvas e fazia um quadrinho, pra pregar na parede.

Agora, nobres leitores, estou já pensando em como e no que fazer que justifique um convite de “Caras” para alguns dias num castelo toscano.

Enfim, preservei meus firmes princípios e não contribuí pro caixa da teúda e manteúda republicana. Fiquei em dia com as fofocas do mundo do beautiful people tupiniquim e, fantástico, descobri um castelo, descoberta que vai exigir desse pobre escriba a dura labuta de lançar um livro, aparecer no Jô e aí, quem sabe, receber o convite para alguns dias no castelo toscano em meio às vinhas. Mais que isso, só dois disso, nesse país realmente engraçado.


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segunda-feira, outubro 29, 2007

Cenas da Granja Viana e um Sabiá cantando

Primeiro o vídeo com o canto...
Depois a foto do cantor e mais algumas.




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Esse é o cantor, um sabiá. Pensei que fosse o poca, mas não é, talvez seja o una.


Um dos nossos visitantes habituais. Essa árvore fica a poucos metros das janelas do lado direito de casa. Os visitantes gostam de banana e mamão, principalmente. Nesse dia, para fotografar, joguei banana sobre o teto do nosso vizinho, mas normalmente colocamos as frutas nas árvores.





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domingo, outubro 28, 2007

O sumiço dos colibris

A primavera já termina seu primeiro terço e as chuvas chegaram. Apesar disso, na caminhada de hoje, retomada depois de algum tempo de ausência, não vi nenhum beija-flor e por um motivo simples: não há flores nesse trecho.

O inverno, curiosamente, é rico em floradas: temos os ipês, as bauínias – a branca, nativa, que é a pata-de-vaca, e a lilás, exótica e prima-irmã -, o cipó-de-são-joão, a eritrina – que permite fotos belíssimas dos beija-flores com suas árvores sem folhas – e mais a diadema, as caliandras e muitas outras mais, tanto árvores como arbustos e cipós. Com a chegada da primavera, vão-se as flores e vêm as folhas e os frutos. Sem aquelas, os beija-flores partem em busca de outros pastos. Aqui na Granja Viana devem encontrar floradas em meio aos pedaços de matas que ainda persistem entre casas e loteamentos.

Isso me leva a pensar que os paisagistas e jardineiros precisam ter uma visão mais abrangente e ecológica. Não basta, simplesmente, plantar determinado número de árvores, é importante que esse plantio seja feito com espécies adequadas, que propiciem alimentação às aves e mesmo às outras espécies que ainda habitam nossa região, como os sagüis, gambás, serelepes e outros pequenos mamíferos que conseguem sobreviver em meio ao que chamamos de civilização.

Para os beija-flores, por exemplo, é importante a presença de plantas florescendo por todo o ano, de forma mais ou menos equilibrada. Um excesso de floradas no inverno, seguida pela escassez na primavera e no verão, é péssimo para os colibris, força-os a deslocamentos nem sempre possíveis nesses dias de crescimento urbano acelerado. As plantas que deram alimento ontem, hoje podem estar tombadas no chão, picotadas, esperando o transporte para algum forno distante. Não custa relembrar que depois das flores vem os frutos, e esses vão alimentar outras espécies. Seria bom que o paisagismo mudasse um pouco, priorizasse menos a estética e contemplasse mais a diversidade e persistência. Isso é ótimo até mesmo em pequenos jardins, e em áreas maiores pode fazer toda a diferença para a manutenção de parte da fauna que ainda resiste.

Os tico-ticos estão entre os que resistem e fazem seus vôos curtos por toda parte. Pousam em galhos, mourões de cercas, muros, e seu canto, que me acompanha desde a primeira infância e primeiras memórias, faz a trilha sonora dominante da caminhada.


Inevitavelmente, penso na seca que ora termina, tarde demais, e penso na Califórnia. Mais de um milhão de desabrigados e desalojados devido aos incêndios. Que nada mais são que o corolário natural da seca persistente associada ao calor excessivo. As casas, bem ou mal, em sua maior parte seguradas, serão reconstruídas. Mas toda a vida animal e vegetal já foi extinta ou espantada. Com sorte, em quinze, vinte anos ela retorna. Ou não...

No sítio, o sol voltou pleno desde ontem. É hora de correr e adubar os piquetes e também o canavial, aproveitando a umidade. Mas olhar para o céu ainda é mandatório, pois choveu pouco e precisamos dela todo dia, de preferência, suave e persistente, molhadeira, criadeira.

Dia a dia, todo dia, toda hora, ou quase isso, por um motivo ou outro, meu pensamento é assaltado pelas lembranças e preocupações com o aquecimento global e o depauperamento de nossos bens mais preciosos, desde os gorilas no Congo até os sagüis aqui perto de casa, com seu habitat sendo tomado por novas e bonitas casas, aceleradamente.

Em algum momento futuro algo mais concreto que escrever, falar e plantar algumas dezenas de árvores será necessário. Por enquanto, o jeito é plantar mais e tentar reciclar o máximo de coisas que pudermos.

Bom domingo e boa semana a todos.


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Este é o primeiro – espero que de muitos – vídeo que posto no blog, e acabou sendo justamente desse personagenzinho pequeno e simpático, presença constante em minha vida, como já escrevi e me repito. Espero que dê certo e todos possam ver e ouvir sem problemas. Mais do que nunca, agradecerei os retornos a respeito, para saber se funciona ou não, se bem, mais ou menos ou mal. :o) ...


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terça-feira, outubro 23, 2007

Seca, calor, fogo...

Outubro está chegando ao final e as chuvas, a bem dizer, ainda não começaram. Esse ano está sendo tão seco e terrível como o de 2005.

No sítio está tudo seco, tudo – terra, plantas, animais – esperando ansiosamente pela água que cai do céu e renova vidas e esperanças.

Nossa situação, porém, não é tão grave como a dos californianos. Uma vez mais a seca, o calor, os ventos fortes e, com certeza, ações criminosas, levaram a mais de 80.000 hectares incendiados, com perdas de centenas de casas, dezenas de feridos e pelo menos uma morte. Mais de 250.000 pessoas abandonaram suas casas em virtude do alto risco de fogo.

O verão foi quente e seco e o outono não está trazendo alívio.

Por aqui, um outono com pouca chuva, inverno seco e a primavera começando seca e quente. As frentes frias que chegaram a São Paulo foram fracas e com pouca umidade. Olho esperançoso o ícone no alto do blog: informa previsão de 49 mm para amanhã, em Santa Rita do Passa Quatro. Tomara...

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domingo, outubro 14, 2007

Duas chegadas e um atraso


Finalmente, chegou o horário de verão oficial. Eu gosto dele, mesmo porque já estamos vivendo o horário de verão aqui em casa, e também no sítio, há um bom tempinho. A passarinhada ignora os relógios oficiais, não ligam para o Jornal Nacional, tampouco para a novela das oito, religiosamente às nove, toda noite, exceto aos domingos, quando, presume-se, descansam os atores e descansamos nós, embora o fantástico show da vida não seja muito chegado a descansos, nem mesmo os semanais. Pergunto-me por que cargas d’água ainda dizemos que a novela é das oito? Digressões filosóficas à parte, a passarinhada acorda e começa sua algazarra ainda antes dos primeiros raios do sol invadirem a cozinha.

A cachorrada não fica atrás e, se há luz, é hora do sagrado café-da-manhã, o pão com leite de todo dia. Para as vacas, é a hora de levantar, preguilçosamente, e esperar pela ordenha matinal, dando leite para os humanos e para os bezerros. Para os gatos, é chegada a hora de dormir, antes, porém, também eles têm direito ao café da manhã, no caso leite puro. Barriga cheia, ou mais cheia, é procurar a cama mais próxima para repor as energias gastas durante a noite de caça.

Os dias agora são mais longos, mas não são mais gostosos por causa disso. Não ainda, pois falta o essencial: a luz chegou, mas as chuvas estão atrasadas. De nada adianta esse mundo de luz sem água. É difícil, também, encontrar a beleza repousante de pastos e árvores verdes, plenos de vida, apesar da explosão de flores dos ipês brancos e rosas, dos jacarandás e várias outras árvores, uma mais bonita que a outra. Não adianta, mesmo que os olhos se concentrem na beleza das flores, outros sentidos apontam para a secura do ar, a poeira que as vacas levantam nos seus trilhos preferidos, e uma vaga sensação de inquietude, impaciência, ansiedade.

No tempo certo, já chegaram o primeiro chocotone e o primeiro panetone. Para mim, é o sinal que o ano terminou, daqui pra frente, agora, são apenas pequenos detalhes para fechar o calendário. 31 de dezembro está logo ali adiante, e com ele, o primeiro dia de um novo ano.

E nada das chuvas, só ameaças e pingos esparsos.

Um pouco como a tal da felicidade.

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sexta-feira, outubro 05, 2007

Uma viagem há trinta anos


Mais ou menos por esses dias completei 30 anos de minha primeira e inesquecível viagem para a região amazônica, se bem que o correto é dizer para uma das muitas regiões amazônicas, pois são muitas e diferentes as diversas Amazônias. Já naquela época existia a gritaria a respeito de queimadas na região, gritaria e queimadas que persistem até hoje, e cujos efeitos fazem-se sentir, menos o dos gritos, mais os das queimadas.

Fui para lá a convite de uma grande empresa multinacional que tinha comprado uma enorme fazenda para a criação de gado. Eram 140.000 hectares, ou 1.400 quilômetros quadrados (o município de São Paulo tem pouco menos de 1.600 quilômetros quadrados, para comparação), localizados na parte sul da floresta amazônica propriamente dita de terra firme.

O motivo da viagem para um grupo de jornalistas (eu, infelizmente, não era, mas fui como gerente da sucursal de uma revista agrícola de prestígio e levei comigo a jornalista que trabalhava para a revista em São Paulo) foi mostrar a fazenda e desmentir o noticiário que já tinha corrido o mundo meses atrás, dizendo que a empresa estava “queimando a Amazônia”.

Precisaria de muito tempo para escrever e muitas laudas para contar o que foi a viagem e seus diversos impactos sobre minha visão do Brasil, do futuro e do mundo. Naquele distante ano de 1977 eu era um idealista militante político de esquerda, frequentemente colocando a ação política acima de minhas obrigações familiares, mas nunca acima de minhas obrigações profissionais (triste, eu sei, mas só vim a reconhecer isso muito tempo depois, arrependendo-me de ter negligenciado a vida familiar em prol da política e da profissão, essa muito menos que aquela). A história completa talvez conte em outra hora.

O que causara as manchetes nos jornais europeus e americanos? Por que a gritaria ganhava foros tão amplos, 15 a 20 anos antes da globalização, internet, comunicações instantâneas entre as pessoas? As fotos feitas a 400 km da Terra pelo Skylab, um misto de estação espacial e satélite que fotografou as grandes queimadas, cobrindo áreas de milhares de quilômetros quadrados. Era tudo muito assustador. Muito mais do que a realidade. Na verdade, o que aparecia como grandes incêndios, era mais o aumento da temperatura a cobertura da camada de fumaça do que o incêndio, a queimada, propriamente dita. A tecnologia de sensoreamento remoto ainda apanhava um pouco na época, mas a tecnologia das manchetes catastróficas já era de pleno domínio por toda parte, desde sempre, aliás.

Curiosamente, ao chegar na fazenda, fui o único dos visitantes que aceitou sobrevoar toda a região num pequeno monomotor Cessna. Os demais passaram o dia desse vôo em agradável descanso na sede da fazenda. Interessante, esse fato, aprendi muito com ele.

Aprendi mais ainda com o vôo, não só por gostar e ter voado muitas horas, mas também por ter um domínio razoável de geografia e saber localizar-me com relativa precisão. Em dois sobrevôos, cobrimos todos os pontos cardeais da fazenda e seu entorno. Durante muito tempo nada vi embaixo da gente que não fosse o verde intenso e sem falhas da floresta. Mas vi, também, as áreas abertas naquela fazenda e nas vizinhas. Do ar e da chão.

No outro dia, andamos pela fazenda num veículo com tração nas quatro rodas. Novamente, a maioria do pessoal ficou pela sede e seus arredores, mas o meu interesse não era ver casas, escola, conversar com pessoas. Até vi e fiz tudo isso, mas rapidamente. O que eu queria, mesmo, era ver pasto, era ver mata, era ver as áreas em processo de abertura, era ver queimada. Vi tudo isso e mais: pegadas de onça numa picada nova, numa área que viria a ser queimada talvez no ano seguinte. Lembro com clareza da emoção que senti ao ver aquelas pegadas na terra vermelho-alaranjada exposta à luz depois de centenas, talvez milhares de anos coberta pela floresta.

Fui tomado por sentimentos contraditórios. De um lado, queria, como sempre quis e quero, a preservação integral e perpétua da floresta. Por outro lado, reconhecia, como reconheço, a necessidade de gerar riquezas, empregos, desenvolvimento, proporcionar vida decente para milhões de pessoas, coisas que, inevitavelmente, conflitam com conceitos como preservação absoluta, por exemplo. Seja aqui, seja na África, Ásia, Oceania, Sibéria, Antártica...

Aquela fazenda era vítima de uma gritaria desproporcionalmente alta em relação à realidade. De sua área total, ela podia, legalmente, desmatar 70.000 hectares, a metade. Todavia, o plano de ocupação e desenvolvimento da fazenda, ocuparia apenas 56.000 hectares, ou seja, os demais 14.000 seriam incorporados à área de preservação permanente. Até aquele momento, no quarto ou quinto ano de ocupação e formação da fazenda, um total de 40.000 hectares haviam sido queimados e preparados para o plantio de pastos. As queimadas eram feitas em áreas delimitadas e controladas, nunca passando de 500 hectares de cada vez, mas geralmente bem menos. Enfim, o diabo era feinho, mas infinitamente menos do que diziam ser.

Ah, sim, as pessoas, não falei delas, ainda.

Muita gente trabalhava na fazenda, a maioria, claro, pessoas ocupadas em trabalhos braçais ou de pequena especialização. Peões de obras, peões de fazenda, vaqueiros, eram a maioria. A empresa levou de São Paulo para lá, assistentes sociais para ensinar às pessoas coisas como o uso de banheiros, vale dizer, o uso das privadas com um luxo como água corrente. As mulheres eram ensinadas a usar... torneiras. Incrível, não? Mas, verdadeiro, eu vi e conversei com essas pessoas.

A molecada era um caso à parte. Na fazenda, todo mundo com menos de 16 anos de idade, estudava e não trabalhava. Algo impensável ainda hoje nos sertões do Brasil. A escola, única, era grande, confortável, janelas teladas, pé-direito alto, em pleno calorão amazônico as salas de aula eram frescas e confortáveis. As professoras, todas, eram recrutadas em São Paulo, donas de excelentes currículos, muito acima da média das professoras de escolas públicas e privadas da metrópole. Todo o material escolar, gratuito, ia de São Paulo para a fazenda. Isso me marcou, marcou muito, para sempre.

Fora tudo isso, o básico para uma comunidade: posto de saúde (muito bem equipado), um clube para o lazer dominical, igreja, templos, etc. Toda a área da sede era servida por energia elétrica, gerada por um “locomovel”, um gerador gigante com cara e jeito de locomotiva a vapor, alimentado pela madeira das áreas abertas para pasto. Funcionava das seis da manhã às dez da noite, para todos, sem exceção, inclusive o presidente mundial da empresa quando por lá passou e pernoitou.

Essas coisas todas somadas davam-me uma doce visão de um futuro possível. Pena que, ao olhar para o horizonte, via os penachos negros da fumaça de uma queimada.

Confesso que ainda não resolvi totalmente essa contradição entre desenvolvimento e preservação em minha cabeça, mas já adiantei bastante a resolução, e ela passa, obrigatoriamente, pelo máximo possível de preservação. Desde então, foram inúmeras minhas viagens pela Amazônia, nos seus mais diferentes pontos e cenários. Tenho claro que o ideal, hoje, seria uma parada total e permanente de qualquer nova abertura, de qualquer nova destruição de florestas, desejo, infelizmente, utópico e motivado, também, por um motivo egoísta, talvez, e que muita gente desconhece: o regime de chuvas do interior do estado de São Paulo, assim como parte do Paraná, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, é determinado pelos “rios voadores”, frentes úmidas que são formadas na Amazônia e empurradas para toda essa região pelas correntes atmosféricas. Chega a ser assustador descobrir esse fato e pensar no que ocorre hoje em toda a região amazônica.

Isso tudo seria uma introdução para falar sobre a expansão da lavoura de cana pela Amazônia, mas o que era introdução virou um texto com vida própria.

A conversa sobre a cana fica para depois.


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