segunda-feira, junho 13, 2016

Às Toneladas - A saída do ouro do Brasil para Portugal

Às toneladas

A descoberta do ouro alterou as relações econômicas na Colônia e enriqueceu a metrópole.

Angelo Alves Carrara
  • Mais do que um recurso natural. Mais do que um artigo de exportação. O que se descobriu em Minas, depois de dois séculos de colonização, foi fortuna em estado puro.

    Ao contrário do que ocorria com a produção de cana-de-açúcar no Nordeste, o metal extraído dos leitos dos rios mineiros não dependia da demanda internacional e suas oscilações de cotação: já vinha em forma de dinheiro, pronto para ser posto em circulação ali mesmo. O ouro em pó transformou-se imediatamente na principal moeda das Minas Gerais naquele final do século XVII. E era tão abundante que, embora quase sempre tivesse Portugal como destino, causou enorme impacto econômico e social também deste lado do Atlântico.

    Uma verdadeira corrida pelo ouro tomou de assalto a capitania até então pouco habitada. Levas de gente chegavam de toda parte atrás do sonho da riqueza imediata, disputando as margens dos rios para montar seus arraiais, muitas vezes com violência. A ganância movia todos, e era preciso aproveitar antes que o Estado decidisse impor regras e restrições de acesso àquela fortuna natural.

    Quase todo o ouro se encontrava em terrenos de aluvião – nas margens ou na foz dos rios, onde a erosão deposita cascalho, areia e argila. O sistema de extração era simples: ficava-se dentro dos ribeiros, com água até a cintura. Com uma bateia, lavavam-se as areias auríferas, até que os materiais mais leves ficassem na parte superior, de onde eram retirados. No fundo ficava o ouro, misturado a outros minerais. A época mais adequada para a atividade era o inverno, quando o nível da água dos rios estava mais baixo, o que permitia trabalhar melhor os leitos. O ouro assim extraído já vinha em pó ou em pepitas – não requeria, para se dissolver das rochas, o uso de mercúrio para formar amálgamas. Recém-retirado das bateias, podia ser usado como moeda.

    Dois grupos de trabalhadores se dedicavam à mineração: os escravos dos grandes proprietários e os trabalhadores livres, chamados de garimpeiros ou “faiscadores”. E se nos primeiros tempos da corrida do ouro a riqueza ficava com quem chegasse primeiro e defendesse melhor o seu quinhão, com o tempo a exploração gerou forte concentração de renda: o grosso ficava com os grandes proprietários, que se contavam nos dedos, enquanto os muitos “faiscadores” dividiam o resto.

    Em 1710, por exemplo, apenas cinco pessoas foram responsáveis por 47,65% de todo o ouro produzido na Intendência do Rio das Mortes. Um século depois, quando o volume extraído já minguava, a desigualdade ainda era regra: os cinco maiores produtores conseguiram quase 82 quilos de ouro – uma média de 16 quilos para cada um –, enquanto os 568 menores ficaram com menos de 184 quilos – média de 347 gramas para cada um. O minucioso censo feito em 1814 mostra ainda que havia 5.747 garimpeiros atuando na região. Juntos, eles produziram cerca de 413 quilos, o que rendeu a cada um, em média, 71 gramas.

    Embora importante para a economia colonial, era pequena a quantidade de pessoas envolvidas na mineração. A maior parte da população da capitania morava nos campos e vivia dos trabalhos agrícolas e pastoris. Enquanto isso, a extração de ouro, setor que gerava os mais valiosos rendimentos fiscais para a Coroa, mobilizava, no máximo, 5% dos moradores de Minas Gerais. E nem todos de modo exclusivo: muitos se dedicavam também à agricultura.

    Mesmo assim, a disponibilidade de uma enorme quantidade de moeda, distribuída por um número de pessoas bem maior do que até então se vira, explica o impacto que a mineração tinha sobre a economia local. Sem exagero, pode-se afirmar que o ouro estimulou a produção de gêneros de muitos setores da economia brasileira daquele século, especialmente a agricultura e a pecuária voltadas para o abastecimento interno.

    Em Minas, na contabilidade das lojas e vendas, ao lado dos réis (plural de real), aparecia a unidade monetária fundamental: a “oitava” de ouro – o equivalente a 3,586 gramas. A oitava, por sua vez, dividia-se em 32 frações: eram os “vinténs” de ouro. Cinco vinténs davam um “tostão”, e 20 vinténs completavam um “cruzado de ouro”. Quem acumulasse um quilo de ouro podia ter acesso a bens consideráveis. Este valor era suficiente para comprar 75 cabeças de gado ou 2.250 sacos de milho com cerca de 30 quilos cada um. Ou, ainda, para adquirir uma mercadoria muito valorizada na economia da época: um saudável escravo africano.

    O maior desafio do governo era a cobrança do “quinto” – 20% devido à Coroa, calculado em cima de qualquer quantidade de metal ou pedra preciosa extraída na Colônia. Após várias tentativas de se encontrar o sistema mais eficaz de cobrança, chegou-se finalmente ao método adotado a partir de 1751: foram instaladas quatro casas de fundição, nas sedes das quatro comarcas de Minas: Vila Rica, Rio das Mortes, Serro Frio e Sabará. Ficou, então, proibida a circulação do ouro em pó: nas casas de fundição, o metal ganhava a forma de barras e o carimbo real, com o devido desconto do quinto. A nova ordem também tabelou o preço do ouro. Ao entrar, em pó, nas casas de fundição, ele valia 1.200 réis a oitava (até então, costumava ser negociado por 1.500 réis). Ao sair, já “quintado”, seu valor era de 1.500 réis a oitava.

    Essa diferença gerava uma situação curiosa, detectada pelo barão Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777-1855): a revolta contra o pagamento do quinto era atenuada. Eschwege veio ao Brasil em 1810, a convite do príncipe regente D. João VI, para compreender as causas do declínio da produção de ouro. Sabia-se que a cobrança do quinto gerava insatisfação entre os mineradores, que o qualificavam de “exorbitante”. Para surpresa do barão, no entanto, os produtores tinham a impressão de que seu prejuízo não era tão grande, justamente por causa da cotação mais alta da oitava quintada. A lógica era a seguinte: cinco oitavas de ouro em pó valiam 6 mil réis (1.200 x 5). Depois de fundidas, o proprietário recebia uma barra com apenas quatro oitavas, já que a quinta parte era deixada como pagamento do direito régio. Mas ele possuía os mesmos 6 mil réis, pois cada oitava em barra valia 1.500 réis (1.500 x 4 = 6 mil). Claro que melhor seria não pagar imposto algum, mas ao quinto “não podia resistir nenhum homem honesto”, argumentavam, segundo Eschwege.

    A queda da produção devia mesmo preocupar a Coroa. Afinal, no século do ouro, pela primeira vez a metrópole vira a Colônia operar em crescente superávit fiscal. Os ventos de bonança eram facilmente constatados nos portos, sobretudo no do Rio de Janeiro, de onde embarcava a maior parte do ouro enviado a Portugal e onde desembarcavam as mercadorias importadas do Reino. Entre 1700 e 1710, a arrecadação do imposto de importação (a “dízima da Alfândega”) no Rio saltou de 1,5 conto de réis (o equivalente a 1,5 milhão de réis) para quase 50 contos de réis. E não parou mais de crescer, acompanhando o aumento da produção de ouro. Como conseqüência deste fluxo de metal precioso, em 25 anos a cidade e capitania do Rio de Janeiro, até então deficitária do ponto de vista fiscal, passou a disputar com Salvador a segunda maior receita do Brasil, atrás apenas de Minas.

    Mas, afinal, será possível estimar a quantidade de ouro enviada para Portugal desde o descobrimento do metal até o encerramento das extrações? Graças aos estudos das últimas décadas, é possível, sim. Com base em relatórios de cônsules franceses em Lisboa, nos anos 1970 o historiador Virgílio Noya Pinto calculou a quantidade de ouro desembarcado em Lisboa somente de navios vindos do Brasil: foram mais de 529 toneladas entre 1697 e 1760. Já o pesquisador francês Michel Morineau, a partir de informações de gazetas holandesas, chegou a um total não muito diferente: cerca de 566 toneladas.

    Recentemente, as estatísticas sobre a produção de ouro no Brasil ganharam uma nova fonte: os “manifestos do 1% do ouro” na Casa da Moeda de Lisboa, cujos dados foram arduamente levantados pela historiadora portuguesa Rita de Sousa Martins, da Universidade Técnica de Lisboa (veja artigo na página 22). Os manifestos registram, para o período entre 1753 e 1801, um total de 279.838,29 quilos de ouro na Casa da Moeda de Lisboa. Aproximadamente 94% dessas quase 280 toneladas vinham de Minas Gerais (o restante, de Goiás, Mato Grosso e Bahia). No século XIX, a produção já minguava: entre 1801 e 1807, não passou de 14,5 toneladas, e dali em diante só fez decair.

    Arrendondando essas diferentes contas, pode-se afirmar que em todo o século XVIII o Brasil mandou para Portugal cerca de 800 toneladas de ouro. Imagine uma manada de cem elefantes de ouro maciço. Foi isso. Sem contar o que circulou de forma ilegal e o que ficou na Colônia, ornando suntuosas igrejas.

    O amarelo da bandeira faz jus à nossa História.

    ANGELO CARRARA é professor de História da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de Minas e currais: produção rural e mercado interno de Minas Gerais, 1674-1807. (Editora da UFJF, 2007).

    Saiba Mais:

    ESCHWEGE, Wilhelm von. Pluto brasiliensis. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979.

    PINTO, Virgílio Noya. O ouro brasileiro e o comércio anglo-português. São Paulo: Nacional, 1979.

    VASCONCELOS, Diogo Pereira R de. Breve descrição geográfica, física e política da capitania de Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1994.

sexta-feira, abril 15, 2016

A verdadeira história da Vale

Recebi o texto abaixo de um grande amigo, carioca há muito residente nas Geraes. Como não consegui contato com seu autor para colocar seu nome, vou deixá-lo, ao menos por enquanto, sem essa menção.
O texto é um pouco longo para esses tempos "tuiteros", mas é uma leitura preciosa e muito interessante. Não fiz nenhuma alteração, segue exatamente como está o original.

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A VERDADEIRA HISTÓRIA DA VALE

O rompimento das barragens em Minas Gerais provocou uma avalanche de publicações no sentido de tentar fazer a sociedade ver a tragédia como resultado do capitalismo, já que a Vale, controladora da Samarco, é apontada como uma empresa privada − privatizada por FHC!
Se considerarmos que um partido político é uma instituição privada, sim, a Vale foi privatizada. A Vale é do PT. A Samarco também.
O processo de tomada do controle da Vale pelo PT é muito bem descrito num dos capítulos livro Reinventando o Capitalismo de Estado, de Aldo Musacchio e Sergio Lazzarini.
Um resumo:
A privatização da Vale promovida por Fernando Henrique Cardoso em 1997 foi parcial. O governo vendeu pouco mais de 41% das ações da empresa para a Valepar, holding que na época era liderada pelo empresário Benjamin Steinbruck. Porém, o governo manteve o controle das golden shares, ações que lhe davam poder de decisão em vários assuntos, por exemplo, sobre os objetivos da empresa.
No ano de 2001, o conselho de administração da Vale aprovou a nomeação de Roger Agnelli como CEO da empresa. Um ano depois, a privatização foi concretizada com o BNDES vendendo 31,5% de sua participação. No entanto, no ano seguinte, 2003, início do governo Lula, o mesmo BNDES recomprou 1,5 bilhão em ações da empresa. Nesse mesmo ano, Lula apadrinhou a nomeação do ex-sindicalista e ex-vereador petista Sergio Rosa (hoje investigado pela Operação Lava Jato) como CEO do Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil.
Sob a liderança de Agnelli, a Vale deu um salto de produtividade, de rentabilidade, de admissão de funcionários e de pagamento de impostos e de royalties.
A partir de 2009, o grupo que reúne fundos de pensão de empresas estatais controlados pelo PT (Previ, Petros e Funcef) se utilizou da Litel, holding criada por eles mesmos, para assumir o controle da Valepar e por meio dela obter 49% das ações da Vale, o que somados aos 11,5% que já estavam nas mãos do BNDESPAR, braço de investimentos do BNDES, deu ao PT o controle sobre mais de 60% das ações da empresa.
Começou, então, a pressão de Lula sobre Agnelli para que a Vale fizesse mais investimentos no Brasil, principalmente na aquisição de siderúrgicas e na encomenda de navios, mesmo que os similares estrangeiros custassem a metade do preço.
Lula também tentou fazer um certo Eike Batista chegar à presidência da Vale. Não conseguindo, tentou substituir Agnelli por Sergio Rosa. Também não conseguiu.
A despeito das pressões, Agnelli continuou seus projetos na Vale, incluindo a encomenda de navios na China e na Coreia do Sul, o que enfureceu Lula. Em 2011, logo após a Vale registrar um lucro trimestral quase 300% acima do trimestre anterior, Agnelli foi demitido.  Seu sucessor e atual presidente, Murillo Ferreira, foi indicado por Lula – e até dois meses atrás, Ferreira também ocupava uma cadeira no conselho de administração da Petrobrás. Desde então, os rumos da Vale são ditados pelos interesses do PT.
Ignorando normas de licitação e do TCU, a mineradora firmou diversos contratos com empresas beneficiadas pelo programa de proteção e de incentivo à indústria nacional iniciado por Lula e que, obviamente, formava o grupo de financiadores (Odebrecht, por exemplo) de seu partido e de todos os movimentos que o apoiavam.
Não por acaso, desde então, a Vale vem registrando perdas. Hoje, a Litel tem, sozinha, 52,5% das ações da Vale.
Em tempo: Todos os setores que foram beneficiados pelo protecionismo do PT estão hoje em colapso e todos os fundos de pensão de empresas estatais controlados por petistas estão deficitários.
Três perguntas:
O grupo que detém o controle acionário da Vale não seria o maior responsável pelos projetos de suas empresas?
O governo não foi negligente na concessão de alvarás e na fiscalização?
O PT, que controla a Vale, que governa Minas Gerais e o Brasil não tem nada, absolutamente nada a ver com isso?
E assim, mais uma vez, nos deparamos com a razão de o estado não poder participar do mercado. Quando participa, o próprio estado se torna o mais interessado em abafar as responsabilidades em caso de incompetência e de negligência, deixando a sociedade completamente desamparada institucionalmente. As pessoas que perderam suas casas, suas fontes de renda e familiares na tragédia com toda certeza ouvirão muitas promessas do governo e talvez recebam algum dinheiro, mas a probabilidade é de que não verão ninguém sendo punido.
A realidade que deveria ser vista pela sociedade é que a maioria das grandes empresas brasileiras está sob influência direta ou indireta do governo, essas empresas estão sujeitas aos interesses de militantes do PT e de políticos de sua base aliada que geram lucros para si mesmos e prejuízos para a sociedade. Os bancos, os fundos de pensão e as agências regulatórias do estado não passam de instrumentos políticos. Para saber quais são as empresas que estão sob o controle do PT, basta checar seus quadros acionários, os benefícios fiscais, a quantidade de dinheiro que receberam do BNDES e os valores que doaram aos partidos nos últimos anos.
Se estivéssemos num país regido pelo livre mercado, a Samarco e a Vale seriam empresas realmente privadas e suas responsabilidades nesse acidente seriam realmente levantadas, julgadas e punidas, já que o governo não teria interesse em livrá-las do peso da justiça. Se fossem privadas, o estado iria com toda sua força contra as empresas. Se fossem privadas, alguém iria para a cadeia.
Como se fosse pouco mortes e prejuízos ambientais, a tragédia também levará consigo muitos bilhões de reais investidos pelos fundos de pensão que controlam as duas empresas, ou seja: os prejuízos serão estendidos aos funcionários da Caixa, da Petrobrás e do Banco do Brasil.
Um acidente como o ocorrido em Minas poderia ter acontecido com qualquer empresa e em qualquer lugar do mundo, como já ocorreu tantas vezes, porém, o caso em questão evidencia mais uma vez que a participação do Estado na Economia potencializa a impunidade. Ninguém será punido pela tragédia em Minas, assim como ninguém foi punido pelos acidentes nas plataformas da Petrobrás nem pelos prejuízos sociais e ambientais provocados pela falência das empresas de Eike Batista, o ilustre filho bastardo das políticas "desenvolvimentistas" do PT.
Para evitar problemas, dias depois da tragédia em Minas, Dilma assinou o decreto 8572 que diz que "...considera-se também como natural o desastre decorrente do rompimento ou colapso de barragens que ocasione movimento de massa, com danos a unidades residenciais". Com uma simples canetada, Dilma tirou da Samarco e da Vale toda a responsabilidade sobre a tragédia.

sábado, abril 02, 2016

As bundas dos cavalos da Roma antiga e as viagens espaciais


Nem sempre prestamos atenção ou damos valor ao passado. Nosso dia-a-dia é mais frenético do que jamais calhou de ser e mal temos tempo para o presente. Como o passado são águas passadas e o futuro promete ser mais frenético do que é o presente, que já não deixa tempo para nada... Adeus passado?

O passado, porém, é muito importante, ele é fundamental para sabermos quem somos. Existimos porque temos passado, o que pode parecer óbvio ou redundante ou até tolo, mas não é. Basta parar um pouco e pensar.

Ok, mas isso aqui não é texto de autoajuda ou coisa que o valha, é só uma crônica para o fim de semana. Na verdade, pretendo contar para vocês uma curiosidade que, sinceramente, achei fantástica quando dela tomei conhecimento há muitos anos. Nunca mais a esqueci e vez ou outra releio, mudo uma palavrinha ou outra e passo adiante novamente. Não será de estranhar, portanto, se um ou dois dos que agora me leem já a conhecerem.
Vamos lá.


Bitolas, bundas equinas e viagens espaciais

A bitola padrão (distância entre os trilhos) das estradas de ferro
americanas é de 4 pés e 8 1/2 polegadas. É um número bem esquisito.
E por que essa bitola é usada?

Porque essa é a bitola que é usada na Inglaterra, e as ferrovias americanas
foram construídas por ingleses, que simplesmente fizeram as ferrovias americanas iguais às inglesas.
Ok, mas por que os ingleses usam essa bitola?

Porque as primeiras linhas férreas foram construídas pelos engenheiros que
fizeram os primeiros bondes, e foi essa a bitola usada, a mesma dos bondes.
Certo, mas então por que era essa a bitola?

Porque o pessoal que construiu os bondes usava os mesmos gabaritos e
ferramentas usados na construção das diligências, e elas tinham essa bitola.
Tá bom, entendi, mas por que as diligências usavam essa bitola?

Porque se usassem qualquer outra bitola, suas rodas quebrariam nos sulcos
das estradas inglesas, que têm seus sulcos muito uniformemente cavados.
Hummmm... Mas por que as estradas inglesas têm sulcos tão uniformes?

Porque as estradas inglesas, como a maioria das velhas estradas
europeias, foram construídas pelos romanos para a movimentação de suas
tropas. E as carroças e as bigas romanas tinham sempre a mesma bitola justamente para não quebrarem nos sulcos cavados nas estradas.

Chegamos, então, finalmente, à resposta da pergunta original.

A bitola padrão das ferrovias americanas é de 4 pés e 8 ½  polegadas porque deriva das especificações originais das carroças militares do exército romano. 
E essas carroças foram projetadas para a largura de duas bundas de cavalos, lado a lado, que as tracionavam.
Portanto, 4 pés e 8 ½ polegadas era a medida padrão dos quartos traseiros dos cavalos de tiro romanos.




Veja, agora, o que isso veio a provocar muitos séculos mais tarde.


Quando você vê o Space Shuttle em sua base de lançamento, há sempre dois
foguetes propulsores auxiliares presos a ele perto dos tanques de
combustível, chamados de SRB (Solid Rocket Booster).



Os SRBs são feitos pela Thiokol, numa fábrica em Utah.

O projeto original dos engenheiros era para fazê-los um pouco mais gordos, com uma aerodinâmica diferente. Entretanto, de Utah para Cabo Canaveral, na Florida, eles deveriam ser transportados de trem. Como existem vários túneis nessa rota, e esses túneis foram construídos para comportarem um
trem, cuja largura é determinada pela bitola da ferrovia, que tem, é claro, aproximadamente a mesma largura da bitola das ferrovias inglesas que, por sua vez...

Chegamos à conclusão que o desenvolvimento de um dos maiores projetos
de transporte da humanidade foi originalmente determinado pela largura
de duas bundas de cavalos de tiro romanos, lado a lado, puxando uma carroça.

Bem-vindos ao futuro.   




sábado, março 19, 2016

O verdadeiro ópio do povo


Apesar dos 30 reais, dos ônibus e sanduíche, das convocações, dos comparecimentos “voluntários”, o PT conta ainda com boa massa de pessoas que acreditam em seus sonhos.
Não vou dizer propostas, pois não se trata disso. Propostas pressupõem algo pensado e planejado e os crentes acreditam em coisas “maiores”.
A fé precisa de coisas maiores para se sustentar.

Muitos se impressionam e ficam até indignados com o fato de tantos acreditarem nesse partido depois de tantas maracutaias, de tantos roubos, e a cada novo dia mais aparecem, mas essa é a diferença entre quem tem fé, simplesmente, em alguma coisa e quem pensa racionalmente e quer provas, quer resultados.
À medida que o cerco fecha e novas revelações desnudam o real caráter do Partido dos Trabalhadores e seus dirigentes, os militantes que permanecem se fortalecem pela própria fé.
É religioso, é o fundamentalismo religioso.
É o contrário da razão.

Marx e Engels, certamente, estão se revirando de ódio em seus túmulos, eles que tanto acreditavam no "comunismo científico", no triunfo da razão, veem, se é que estão vendo, a ascensão do fundamentalismo puro e simples.
O dogma domina, a razão é eliminada.

O dogma traz a reboque seu parceiro inseparável: o culto à personalidade. Esse também, necessariamente, desprovido de qualquer cunho analítico, de qualquer resquício de lógica.

A Paulista ontem mostrou muitas coisas.
A mais importante, sem dúvida, foi a diferença entre a massa do domingo, crítica e ansiosa por mudanças, e a multidão de ontem, cegamente crente numa ideologia e apaixonada por um líder.

O verdadeiro ópio do povo é mesmo a religião... A religião política.

domingo, fevereiro 07, 2016

Roça, domingão e (o santo) whatsapp



Domingão e de Carnaval, ainda por cima, não que isso faça alguma diferença. Às seis e dez, com pequeno atraso, a ordenhadeira já funcionava.
As baixadas próximas estavam encobertas pela névoa, sinal de mais um dia quente pra burro, com um Sol senegalês. Se bem que, embora não conheça o Senegal, diria que lá o Sol forte é chamado “Sol de Bangu”.  Ou o “Sol de Carinhanha”, igualmente quente, quente pra dedéu.


Estou lavando uns equipamentos e entra uma mensagem no whatsapp. É da Rosa, que foi mais cedo hoje pra casa da sua mãe. Da porteira, onde ela parou para abrir o cadeado e depois deixa-la aberta, ela diz que tem um grande galho caído e que vai impedir a passagem do caminhão do leite, além de dificultar muito a passagem do carro.
Ok, logo mais o marmitão aqui vai lá pra ver o que pode ser feito.


Estou pondo a leitura em dia, preparando alguma coisa pra escrever e entram duas ou três mensagens no zapzap...
É o caminhoneiro do leite.  Está tentando me ligar no celular, mas não conseguiu.
Claro que não! O sinal da TIM é a mesma coisa que uma nota de sete reais.
Aí ele lembrou do zapzap e...


Ele está com o caminhão cravado, atolado, no alto da estrada de ligação da Usina Ferrari com a vicinal do Brejão, cuja continuação é a nossa vicinal, a Jayme Nori. Está tentando ligar pra casa do Rubens e do Renato pra pedir auxílio, mas não consegue.
Normal. Eles têm telefone fixo. Ou melhor, eles “têm”, pois o fixo da Vivo é o mesmo que uma nota de três reais. Passo pra ele os celulares dos dois e digo pra ele ligar via whatsapp. Embora distante, principalmente para ir de trator, é a ajuda mais próxima à qual ele pode recorrer.
Em pleno domingão, claro...


Ligo pra usina... O telefone que tenho só funciona nos horários comerciais. Que beleza...
Ligo pro celular do responsável da prefeitura pelas estradas, mas ele não atende. Pena. Não ia pedir pra socorrer, ia pedir o telefone do “operacional” da usina, pois em 10 ou 15 minutos eles teriam um trator onde o caminhão do Thiago está atolado, poupando o Renato de umas duas horas, ida e volta, só de estrada.


Entra outra msg: o Thiago conseguiu falar com o Renato – santo whatsapp – e ele já está a caminho.
Ótimo.
Ao invés de um domingo estragado, temos dois.



Resolvida essa questão, e agora o Thiago vai chegar aqui tarde pra burro, sem falar que vai chegar de volta no laticínio ainda mais tarde, depois de sair dali no auge da madrugada (legal, né?), vou lá pra fora ver o tal galho.

Pego o celular, claro, não só por ligações, mas pra atender um programa idiota que ele tem que vive me enchendo os picuás pra caminhar mais, ser mais ativo.
Ora, vá se catar, bicho besta!

Enfim, ponho o trem no bolso do calção, pego um facão afiado e lá vou eu em busca do galho caído, um Indiana Jones roceiro e sem chapéu.


Quem me vê de média distância pensa, com certeza, que sou um pescador de atum de mares quentes em plena faina a bordo do barco.
Bota preta, dinamarquesa, de borracha, até o joelho, com biqueira de aço protegida por borracha; calção; camiseta; óculos escuros.
Chique. E, cá pra nós, bonitão. Pelo menos é o que minha avó diria.

(Lembrando da “doce” avozinha do Sheldon, no episódio dessa semana de The Big Bang Theory – esse é um trecho só pros iniciados.)


No caminho vou decepando todos os pés de joá-amarelo que vejo. Malditos joazeiros-amarelos e seus espinhos! Delenda est joazeiros!
Viro a “esquina” das duas figueiras e a meio caminho entre elas e a porteira está o galho tombado, mas ainda preso à árvore.

Saco!

Um galhão cheio de galhos e galhinhos. Vou ter que quebrar galho a dar com o pau.
Nunca serei tão brasileiro como nesses próximos minutos...
Quebrando galhos.

Na verdade, cortando, mas o quebrando ficou mais legalzinho.
Esse pobre braço direito que já dói ao digitar as usuais mal digitadas de todo dia, doía ainda mais pelos ataques aos invasores de frutinhos amarelos e espinhos mortíferos.
Decepar os galhos e empilhá-los acabou de completar  a obra.


Deixando de lado o chororô, finda a quebração de galhos fui até a porteira, mais pra satisfazer o programa imbecil implantado em meu smartphone.

Até que foi bom.
As lofanteras da entrada estão bem floridas.
As pessoas passam e perguntam e até telefonam, como ocorreu duas vezes nessa semana que passou, perguntando que árvore é aquela.

Lofantera. Ou lanterneira. Nativa do Tapajós, mas bem adaptada aqui nessas terras altas de Santa Rita do Passa Quatro.

Fiz as fotos abaixo e voltei pra casa. Agora é esperar o caminhão, lavar o tanque e... ops, já será hora de começar a ordenha da tarde.




(As fotos foram feitas no contraluz; somente à tarde será possível fotografá-las com uma luz favorável; tentarei. Se der, troco, se não der, não troco.)


A vida real e o IPBPP




Bom dia. Nada melhor que começar esse domingo momesco (ainda existe isso?), sétimo dia do segundo mês do décimo-sexto ano do vigésimo –primeiro século da Era Cristã, com essa manchete da Folha de S.Paulo:

“País caminha para a pior recessão de sua história”

Essa, sem dúvida é a maior – e única, analisando bem – conquista do lulopetismo.
E antes que alguém de esquerda ou direita fale alguma coisa, isso não tem a ver com o Bolsa Família, criação de Dona Ruth Cardoso, implementada no governo Fernando Henrique, ampliada no primeiro governo Lula. Até aqui nada demais.
O erro, que leva muita gente a criticar o programa, foi sua transformação em curral eleitoral, ferramenta chique dos modernos “coronéis” de uma esquerda atrasada, ultrapassada e muito mais ignorante que a média das esquerdas burras do planeta. E, transformado em ferramenta eleitoral, foi ampliado além do limite da razão e transformado em esmola ao invés de ferramenta transitória para melhoria de vida de boas parcelas da população.

Há esquerdas inteligentes? Sim, há, e são saudáveis para a democracia, gostem disso ou não os radicais que se julgam de direita.
A verdade, porém, é que não temos direita e esquerda modernas e inteligentes em Pindorama. Pelo menos não organizadas partidariamente.


Há coisa de um ano, já imaginava, pressentia, que o PIB cairia 4%, o dobro do que pensavam alguns analistas sérios.
Pessimismo meu? Antes fosse.
O fato é que “lavouras” como Inflação e Queda do PIB se auto-adubam. Se auto-alimentam. Crescem como bactérias malignas, por multiplicação celular.
Quando a inflação atinge a marca fatal e diabólica dos dois dígitos, as pessoas começam a perder a noção da realidade de custos.
Começam a se defender.

Já contei a história do brócolis que compro muitas semanas do ano de um mesmo fornecedor há pelo menos 3 anos.
Em setembro de 2014, quando esse indivíduo da espécie Mulher sapiens investida em presidente dessa república autorizou o aumento do diesel em 5 ou 5,5% (algo assim), o vendedor de brócolis aumentou o preço de seu produto de 2,00 para 2,50.
Era o “custo do frete”.
Ora, pílulas, o novo custo do frete deveria impactar o preço de venda de seu produto em meros, ridículos, 3 ou 4 centavos e isso já com grandiosa margem de lucro.
Mas, esperto e inteligente, esse agente econômico, que vou chamar de player, gostem ou não alguns puristas, percebeu que se não aumentasse bem o preço de seu produto ele ficaria para trás e começaria a perder dinheiro, pois ele mesmo já começaria a pagar mais caro por outros insumos. E preveniu-se, claro.
De 2,00 para 2,50. Um aumento de 25%.

Há quase um mês, esse mesmo player econômico estava com a cabeça de brócolis a 4 reais.
R$ 4,00
Um aumento de 100% sobre o preço de setembro de 2014, apenas 17 meses antes.
100% de aumento! O produto dobrou de preço.

Nesse mesmo período de 17 meses, a inflação acumulada foi de 15,26% pelo INPC.
Se usarmos o IGP-M, o índice é de 14,15%.
Todavia, se usarmos o IPBPP – Índice do Produtor de Brócolis Prevenido e Preventivo – o aumento foi de 100,00%.


Curiosa, trágica e desgraçadamente, nesses 17 meses caiu o nível de emprego. Caiu a renda média das pessoas. Caiu a produção industrial. Caiu a economia. Caiu o PIB.

O meu fornecedor de brócolis não é o único a se comportar assim.

Como produtor de leite eu vivi um processo inverso: o preço pago pelo meu produto caiu nominalmente aos valores de 2011 e de 2012. Se descontar a inflação acumulada, conta que, por motivos de ordem médica recusei-me a fazer, devo estar recebendo hoje o mesmo ou até menos do que recebia em... 2009. Feliz ou infelizmente, não é a realidade de uma produção primária e basicamente doméstica, como essa, que determina o comportamento do mercado.
O que determina o mercado e o comportamento dos preços, porém, é a postura do player padrão, que vem a ser o meu fornecedor de brócolis.

É isso.




Transcrevo, a seguir, alguns trechos da matéria da Folha:

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A economia brasileira corre o risco de mergulhar em um período de três anos seguidos de contração, fato inédito desde 1901, início da série histórica.
Dados muito negativos de atividade econômica referentes ao fim de 2015 e o início deste ano têm levado as projeções de analistas para o desempenho do PIB em 2016 (Produto Interno Bruto) a continuar piorando.
O banco Credit Suisse esperava contração de 3,5% do PIB, mas agora já trabalha com número mais próximo de 4%, mesma estimativa da instituição para 2015. E, para 2017, projeta um terceiro recuo, entre 0,5% e 1%.
A última vez que o PIB encolheu por dois anos seguidos foi no biênio 1930-1931, quando a economia global passava por crise severa após a quebra da Bolsa de Nova York. Um período de três anos de contração nunca ocorreu.

o 0 o 0 o

O Itaú Unibanco anunciou na sexta (5) esperar contração de 4% do PIB em 2016. Antes, projetava recuo de 2,8%. Para 2017, estima expansão modesta de 0,3%.
A consultoria MB Associados trabalha com cenários alternativos: com e sem a presidente Dilma Rousseff.
Se a presidente deixar o governo, espera queda de 3% do PIB neste ano e expansão de 0,6% no próximo.
Caso Dilma sobreviva ao processo de impeachment, os números mudam para duas contrações de 4,1% e 1%.


Uma observação minha: será que o governo vai pressionar a MB Associados para demitir seu economista-chefe, Sergio Vale, responsável por essas projeções? Lembram do ridículo, grotesco caso da analista do Santander que foi demitida a pedido do grande líder lulopetista?  Pois é... E, vejam só, as previsões daquela profissional revelaram-se até muito mais favoráveis do que o que veio a acontecer realmente.


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“...nações cujos mercados de trabalho se comportam de forma semelhante ao brasileiro tiveram, em média, alta anual na taxa de desemprego de 2,9 pontos percentuais quando viveram contrações maiores que 2% por, pelo menos, dois anos seguidos.
O resultado ajuda a embasar a expectativa do Credit Suisse de que a taxa de desemprego —medida pela pesquisa Pnad Contínua (IBGE)—, que foi de 6,8% em 2014 e deve ter chegado a 8,3% em 2015, alcançará 13,5% em 2017.
O Itaú Unibanco também espera que o desemprego ultrapasse 13% no próximo ano. ”

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Era isso. Bom domingo. Bom Carnaval. 

domingo, janeiro 31, 2016

Um janeiro normal e a sorte com o silo

O mês termina com 268 mm registrados aqui no Sítio das Macaúbas.

Um volume respeitável de chuvas, mas absolutamente dentro da média para o mês.

Dias atrás, porém, enquanto tivemos aqui 25 mm, na cidade choveu mais de 100 mm!
A represa, quase totalmente seca há poucos meses, transbordou. A água invadiu e cobriu o asfalto. Desceu um pequeno desnível e cobriu de água uma bela horta, parte em estufa, parte a céu aberto. 

Curiosamente, na véspera ou antevéspera desse dilúvio, ao passar por ali a caminho da cidade vi a horta sendo irrigada, com todos os aspersores funcionando, molhando as verduras. No dia seguinte o local parecia uma lagoa.

Prejuízo total para o horticultor e mais o prejuízo em diversas instalações e até em duas ou três das estufas mais próximas, também invadidas pela água.

- Nossa, como a verdura tá cara hoje!

Sim, minha senhora, meu senhor, é a chuva.

Às vezes ela falta, às vezes ela abunda.
(Abundar é um verbo feio, mas é um bom verbo.)


Aqui tivemos sorte.

De segunda pra terça caiu um mundaréu de água aqui pertinho, na Estrela. Na propriedade do Rubens o pluviômetro registrou mais de 30 mm, o que prejudicou os trabalhos no dia seguinte.
Enquanto isso, tivemos somente 10 mm aqui em casa e no dia seguinte, a terça-feira, começamos a cortar o milho para encher o silo. Armou chuva de terça pra quarta, mas, felizmente, não choveu.

A quarta amanheceu com cara de muita chuva. Medo.

Terminamos o corte e o transporte do milho, fechamos o silo como manda (quase) o figurino (faltou colocar uns cordões de sacos com areia ou terra sobre ele, mas, paciência) e...
Caiu a chuva durante a ordenha da tarde.

Tivemos muita, muita sorte mesmo!
De vez em quando é bom.


Seguem fotos do processo de ensilagem – o corte na lavoura (a planta é cortada próxima da base, picada inteira, inclusive as espigas com o milho passado do ponto de pamonha), a descarga num dos nossos dois silos-trincheira (gostaria de ter mais uns quatro, mas faltam-nos barrancos), a esparramação e compactação da massa picada pelo trator e o silo pronto, já coberto.
Por baixo uma lona nova (tá cara à bessa/beça), por cima a lona do ano passado.

Na base, no chão do silo, colocamos feno para fazer um piso. Ele protege o silo do contato com o solo e na hora de retirar e levar pras vacas não temos perda alguma. O próprio feno, molhado e temperado com a água perdida pelo milho, fica cheiroso, muito palatável, e as vacas comem tudo. 

Nesse ano inovei: cobri o milho com mais feno e só então colocamos as lonas.  Em maio, ou junho (de preferência), verei o resultado.

O feno que colocamos é tipo B ou C e nessa época do ano seu preço é muito baixo. B ou C acaba sendo teoria, pois não conseguimos achar fardos ruins, de fato, então o feno que foi pro chão é o mesmo que as bezerras e novilhas comem durante a noite.

A cada carreta aplicamos inoculante, que acelera a fermentação e melhora a qualidade do silo. O inoculante é como se fosse um fermento, tal como se usa nas cozinhas e padarias. Meio caro, mas compensa.

Fechamos o silo com alguma coisa entre 52.000 e 55.000 kg de milho picado. Isso é peso de entrada, peso bruto. O peso líquido, ou melhor, o peso seco, daqui a quatro meses ou pouco mais quando começarmos a usa-lo, terá caído uns 25 a 30%. Perda de água.

Um pouco mais de custo, um bocado a mais de qualidade.







sábado, janeiro 23, 2016

A Lua prateada, saudade da minha terra, saudade de Padre Nóbrega e dos tempos d’eu criança

A foto abaixo mostra o céu ocidental na madrugada desse sabadão, uns quarenta minutos antes do começo da ordenha da manhã.
Passava um pouco das cinco da manhã. Tinha acabado de fazer o primeiro café do dia e abri a cortina da janela da cozinha, que fica, justamente, voltada para o oeste ou, como diriam os anúncios de imóveis, tem face oeste.
E lá estava ela, a terra pisada por Neil Armstrong e mais alguns humanos, a Lua, em seu primeiro dia de cheia.
A Lua prateada da canção, clareando a estrada e o mundo.



A foto é pobre, sinto. Ela deveria mostrar a Lua emoldurada pelas árvores, um cenário bonito demais.
E quieto, sossegado, um pouco antes da passarada, fazendo alvorada, começar a cantar.

Depois veio o dia. Cheio, trabalhoso, cansativo.
Mudei a programação de corte do milho lá do Zé Fernandes de segunda pra terça. Hoje consegui o trator do novo vizinho, gente boa. Emprestou-me o Fordão com que, habitualmente, compactamos o milho picado no silo-trincheira.
Pra ganhar tempo, puxei pra amanhã a coleta e pesagem do leite de todas as vacas, individualmente, pra não atrasar os resultados e também para não sobrecarregar o meio da semana, quando a feitura do silo tomará todo nosso tempo fora das ordenhas e trato das vacas. Sobrou pro Dito. Amanhã vou busca-lo de madrugada. Enquanto eu fico na ordenha fazendo a coleta e a pesagem, ele cuidará dos bezerros.
Será mais um domingão como tantos outros, talvez com alguma chuva, já prevista para hoje.
Bom, nem sempre a previsão se realiza... Vamos ver.

Deixo para quem quiser ler, a letra de uma de minhas músicas mais queridas, especialmente nas vozes de Chitãozinho e Xororó: “Saudade de minha terra” – composição, verdadeiro poema, de Goiá e Belmonte.

“De que me adianta viver na cidade
Se a felicidade não me acompanhar

Adeus, paulistinha do meu coração
Lá pro meu sertão, eu quero voltar
Ver a madrugada, quando a passarada
Fazendo alvorada, começa a cantar
Com satisfação, arreio o burrão
Cortando estradão, saio a galopar
E vou escutando o gado berrando
Sabiá cantando no jequitibá

Por Nossa Senhora,
Meu sertão querido
Vivo arrependido por ter te deixado
Esta nova vida aqui na cidade
De tanta saudade, eu tenho chorado
Aqui tem alguém, diz
Que me quer bem
Mas não me convém,
eu tenho pensado
eu fico com pena, mas esta morena
não sabe o sistema em que eu fui criado
Tô aqui cantando, de longe escutando
Alguém está chorando,
Com o rádio ligado

Que saudade imensa do
Campo e do mato
Do manso regato que
Corta as Campinas
Aos domingos ia passear de canoa
Nas lindas lagoas de águas cristalinas
Que doce lembrança
Daquelas festanças
Onde tinham danças e lindas meninas
Eu vivo hoje em dia sem Ter alegria
O mundo judia, mas também ensina
Estou contrariado, mas não derrotado
Eu sou bem guiado pelas
mãos divinas

Pra minha mãezinha já telegrafei
E já me cansei de tanto sofrer
Nesta madrugada estarei de partida
Pra terra querida que me viu nascer
Já ouço sonhando o galo cantando
O nhambu piando no escurecer
A lua prateada clareando a estrada
A relva molhada desde o anoitecer
Eu preciso ir pra ver tudo ali
Foi lá que nasci, lá quero morrer.”

Ouço muito essa música, vira e mexe me ponho a cantarola-la, coisa em que sou um prodígio... De ruim.
E toda vez, toda vez, toda santa vez que escuto:
Nesta madrugada estarei de partida
Pra terra querida que me viu nascer
Toda vez minha memória voa pros tempos d’eu criança, saindo da casa dos meus pais com um tio ou amigo da família e indo pra Estação da Luz, onde, no final da madrugada, pegava o “trem de luxo” da Cia. Paulista de Estradas de Ferro (uma das ferrovias destruídas pelo governo burro de JK, trabalho continuado pelos governos cegos dos militares e dos que a eles se seguiram). Nunca viajei na primeira classe, só na segunda, que era uma maravilha. Mas bem que gostaria de uma vez só, uma vezinha só, ter viajado na primeirona...
Pra Marília, ou melhor, pra doce e querida Padre Nóbrega, onde o trem parava por um minuto ou dois, eram pouco mais de dez horas de viagem.
Pra Flórida Paulista, onde ficava a Fazenda Saudade, que meu avô administrava, eram catorze horas.
Catorze horas!
No mínimo umas três ou quatro eu passava na plataforma, vendo a paisagem, sonhando com a minha própria fazenda num dia futuro.
Memórias indeléveis. Mais que memórias, tudo isso é parte do meu DNA. Estou certo, nem preciso de teste para confirmar.


sábado, janeiro 02, 2016

Chove chuva, chove sem parar... E da chuva para a crítica

Chove chuva, chove sem parar... E da chuva para a crítica

Chove no Macaúbas.

Uma pancada de respeito agora à tarde acrescentou mais 25,0 mm ao ano em curso. A soma já  vai em 43,0 mm e estamos no segundo dia do mês e do ano.
Nos últimos 10 dias são 125,0 mm acumulados.

O leite quebrou um pouco – tradução: a produção de leite das vacas sofreu uma queda. Chuva demais, conforto a menos.

O barro abunda.
A frase é horrorosa, mas quem disse que a realidade não é, por vezes, horrorosa?







Um vizinho veio buscar uns sacos de adubo bem a tempo de pegarmos o início do chuvão e nos molharmos mais que o desejável.

Virei praticante do velho escambo.

O escambo é necessário à sobrevivência. 

Estou usando o adubo de uso futuro e de uso presente suspenso pela impossibilidade de fazer investimentos para pagar parte da conta da comida que as vacas comeram na seca que há muito ficou para trás.

Meu caixa, que é mera teoria numérico-contábil, dá uma respirada (teoria respira?) (sim, teoria respira) e a gente empurra tudo para o futuro.


Há quem diga que o ano será bom para nós, os produtores de leite. 
Analista de respeito disse que a queda observada na produção levará, forçosamente, a um aumento no preço pago a nós da ordem de 15%.

Uau! Que maravilha...

Só que não.

Esse “nós” do analista tem como base os produtores de mil litros diários para cima. 
Pequenos como eu, hoje com duzentos, em fevereiro com trezentos se nada acontecer errado, não estão na alça de mira dos analistas. Nossos aumentos são menores.

Por outro lado, o mesmo analista diz que teremos uma alta de pelo menos 12% nos custos, especialmente de ração.

Ora... Bom, deixa quieto. 
Esse analista é discípulo fiel e cego dos propagandistas do governo, que estouram champanhes pelos onze e cacetada porcento de “aumento” do salário mínimo, quando a inflação do ano foi de... 11%.

Inflação oficial e teórica, posto que na prática, na tal de vida real, ela foi muito superior.


Outro problema com analistas e suas análises: focados nos grandes, eles ignoram que nós, os pequenos, temos custos maiores porque não temos capacidade e volume para conseguir descontos e para fazer compras antecipadas aproveitando ofertas. 

A gente almoça o leite que será produzido na janta, isso, é claro, se tivermos sorte. 

Na verdade, estamos almoçando hoje o leite que será produzido no mês seguinte.


Então, é assim.
Há uma crise.
Há, na verdade, duas crises.
Uma é geral, genérica, formal, oficial e grandiosa.
É a crise que se comenta em grandes discursos.

É a crise que os defensores “disso tudo que está aí” dizem que não existe ou que é exagerada. Ou, cientes do tamanho do monstro, aproveitam qualquer coisinha, por mínima que seja, para desviar o assunto, o foco e o rumo.


A outra crise é miserável, específica, desconhecida dos “grandões” (como uma amiga suíça se referia aos donos dos poderes). É a crise minúscula da falta de dinheiro para o aluguel da casinha minúscula e já miserável na periferia da periferia das cidades. 

É a crise que os "defensores" dos trabalhadores desconhecem. 
Nem podem conhecer, pois, na maioria, eles só conhecem “trabalhadores” dos sindicatos e para esses é tudo sempre uma beleza, sem chuvas, nem trovoadas.


Essa outra crise, a crise dos miseráveis, é também a crise dos pequenos produtores de leite, dos pequenos produtores rurais de tudo, dos pequenos industriais, dos pequenos comerciantes, dos pequenos empresários...

É uma crise que os donos do poder e seus defensores – tão cegos quanto calhordas – também ignoram. 
E ainda nos chamam de “coxinhas” quando reclamamos.


Um dia, espero que não, mas, sei lá...
Um dia hei de dizer em alto e bom som tudo que penso dessas pessoas.
Serei execrado.
Serei chamado de um monte de nomes.
Perderei um monte de amigos.

E meu fígado agradecer-me-á profundamente.
E viverei em paz com ele, meu precioso fígado.