domingo, julho 10, 2005

Felicidade é...


Ainda há pouco minha mulher meio perguntava/meio afirmava, meio reclamava/meio constatava, que a gente nunca viaja. É verdade. Foram poucas nossas viagens, a mais distante e diferente para Cuba, há tanto tempo atrás que, embora Fidel já fosse velho, a União Soviética estava viva, ainda que na UTI. Uma coisa, porém, temos a nosso favor: nunca deixamos de comer e beber bem, seja nos dias úteis, seja nos dias santos, seja nos finais de semana e feriados. Apenas com algum controle sobre as bebidas, basicamente vinhos, nada mais que vinhos. Acho que gastamos nossas viagens nessas coisas.

Intróito feito, agora vou falar de felicidade.

Durante alguns anos comi um sorvete delicioso. Para o meu paladar, para o meu gosto, era uma obra-prima. É bom esclarecer que sou conservador. Em quase tudo, sobretudo em comida. (Tudo e sobretudo é uma assonância? Sendo, deveria evitá-la? Parece que sim, pelos cânones regulamentares, mas vou deixar do jeitinho que tá.) Sendo assim, entro na sorveteria com 132 sabores diferentes e peço flocos. Ou crocante. Ou mix de nozes com crocante e calda de chocolate quente. Num dia destrambelhado, sou capaz de pedir banana ou milho verde no meu mix. É, sou mesmo capaz. Perdi a conta do número de vezes que jantei no Jardim de Napoli. Apesar disso, lembro com exatidão o número de vezes que pedi outro prato que não fosse o polpetonne: nenhuma. Nem uma única vez que fosse, mesmo que só para constar, só por conta de uma aposta (não aposto coisas sérias como essa, ou como dinheiro e vestir uma camisa de outro time que não o São Paulo ou, vá lá, o Marília). Durante trocentos anos comi trocentas no velho Carlino, na Vieira de Carvalho. Em não poucas semanas cheguei a almoçar lá todo dia e ás vezes no domingo. Minha pedida, principalmente a partir do momento que passei a me conhecer melhor e a valorizar as coisas que gosto, era imutável: filetto a la parmeggiana. E era assim que os garçons me chamavam, ou melhor, referiam-se a mim: o freguês do filé à parmegiana. Um deles, muito tempo depois, contou-me essa história. Tenho a impressão que isso era muito positivo e o cozinheiro me tratava particularmente bem: meu filé era sempre um despropósito de grande e gostoso, muito gostoso. E onde escrevi grande, em relação ao filé, troquem, por favor, por generoso. Muito mais chique e elegante, sem a menor dúvida (e isso não é redundância; chique é uma coisa, elegante é outra, bem diferente; às vezes são a mesma coisa; muito raramente). Devo ter almoçado e jantado umas tantas viagens pras ilhas gregas e outros destinos atraentes nos folhetos turísticos.

Ainda não falei da tal felicidade. Descubro, a essa altura do texto, que tudo até agora não passa de introdução. Se eu não fosse tão modesto diria que Hemingway está a se revirar na tumba. E se Proust fosse meu professor, dar-me-ia um zero sonoro e por extenso por tamanha concisão. E aqui estão, portanto, algumas das minhas falhas: não saber escrever com concisão e elegância e ser desprovido de um pouco mais de modéstia. A que tenho é pouca. Agora, de verdade, vamos à felicidade, mais de três mil caracteres depois de começado o texto.

A felicidade que sinto hoje tem a ver com sorvete. Aquele mesmo que durante muitos anos procurei em vão. Liguei para o zero-oitocentos da empresa dinamarquesa que o produz e importa. Mais de uma vez. A cada vez, se não me falhou a memória e o ego permitiu, usei nomes diferentes. não por medo de ser descoberto, mas para dar a impressão que muita gente estava revoltada com o sumiço das geladeiras dos mercados e da Blockbuster do Vanilla Swiss Almond. Em vão. Devem ter gravado e comparado minha voz, descobrindo que somente eu reclamava a ausência de um sabor caro e de pouca saída. Bom mesmo era importar os sorvetes de chocolate, morango e “dulce de leche”. Arghhhhhhhhh... Uma atendente, seguindo um script burro, chegou a sugerir-me o chocolate com amêndoas. Francamente, que falta de tato.

Há já um bom tempo (é, estou velho, 3 em cada 2 frases têm menção ao tempo e não é sobre chuva, sol ou neve) venho querendo passar na nova loja Blockbuster aqui perto. Mas nunca tenho comigo um comprovante de endereço aceitável pelo “sistema”. Nesse final de manhã dominical, criei coragem, desliguei o monitor do micro, depois de já ter desligado a tv com uma corrida chata e previsível, peguei uma conta de luz, o celular, os documentos e o carro. Fui à loja, finalmente. Enquanto a guria completava minha ficha e providenciava os cartões, escolhi os filmes. E fui ver os sorvetes. E lá estava ele, em toda sua glória e beleza, o meu amado Vanilla Swiss Almond. Cúmulo dos cúmulos, em promoção: pague 2 e leve 3.

Agora estou esperando. Em poucos minutos “Sideway” estará no player e a primeira colher do meu sorvete predileto estará em minha boca. Acreditem: eu estarei feliz. E totalmente esquecido de lulas, polvos com tentáculos mil, camarões & assemelhados. Fui. Bom domingo pra todo mundo. E podem ler os jornais de hoje. Nada de novo no front.


P.s.: esse sorvete é um cremoso Haagen-Dazs de baunilha com amêndoas inteiras finamente recobertas de chocolate. Ultra calórico, mas nem tudo na vida é perfeito, como estamos descobrindo em nossa vida política. :o)

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Um comentário:

Cora disse...

Emerson, tens que tascar aí uma faixa do tipo "Ministério da Saúde Adverte" -- inspirada por este post, lá vou eu ligar pro Bob's pra pedir um milkshake de Ovomaltine... Tsk.

Em tempo: a história da Hagen Dazs é curiosa, você conhece? A empresa é americana e o nome não significa nada, foi uma criação marqueteira de boa sonoridade. No Brasil, pertence à Kibon. O sorvete, porém, é imbatível...