quarta-feira, novembro 09, 2005

A USP, sonhos, vacas e bancos


A USP é importante na minha vida. Posso dizer que lá nasceu minha família, pois foi lá que conheci minha mulher. Também foi lá que, numa noite perdida no tempo, em pleno final de governo Médici, numa sala com o cheiro acre do medo, cheia de gente onde ninguém abria a boca e tomava alguma iniciativa, eu abri a minha, desandei a falar e, ao final daquela reunião proibida, era o Coordenador de Divulgação e Propaganda do Comitê de Defesa dos Presos Políticos do Brasil. Eu gostava de política naquela época. Mais importante: eu acreditava na política. Acreditava, mais ou menos, numa revolução que transformaria o país e as pessoas, pois não há país mudado sem pessoas transformadas. Foram dias ricos, talvez, olhando agora em retrospectiva, os mais ricos da minha vida. Estava apaixonado duplamente: por uma garota e pela atividade política (seria mais chique dizer “pela revolução”, mas não, lamento, nunca fui assim tão crente na revolução).

Naquele mesmo ano, numa certa noite de abril, com Geisel já empossado, a polícia da ditadura nos cercou – uns 50 gatos pingados – na História e Geografia. Durante a tarde, enquanto mimeografava o jornal do Comitê, um estudante, estagiário da CET ou coisa que o valha na época, procurou-me e disse que seu chefe, um dos responsáveis pelo trânsito na cidade, tinha participado de uma reunião com comandantes das polícias civil, militar e os assassinos do DOPS, na qual tinham estudado e acertado os meios para fechar o campus naquela noite. E, por extensão, prender todo mundo, né.

Imbuído de um sentimento de importância e urgência que só a juventude nos dá, corri, literalmente, atrás dos demais companheiros da coordenação. Contei o ocorrido. Duvidaram, a princípio, e quando acreditaram Inês era morta: no meio da tarde o campus estava cercado, a eletricidade cortada e os funcionários se retiravam antes ainda do final do expediente. Toda a coordenação do Comitê e mais uns gatos pingados ficamos na História. Um cara baixinho, magrinho, cabeludinho, feinho, com um violão mal tocado, cantava versos inesquecíveis:

“Senhora dona viúva,
diga com quem quer se casar,
se é com o filho do rei, dona viúva,
ou com o assessor especial...
ou com o assessor especial.”

Cruzes... Que trilha sonora mais besta. E toda vez que ouvia “assessor especial” na boca do carinha, e toda vez que lembro da canção e da noite, vejo mentalmente Henry Kissinger. O que só prova que o cérebro é um grande antro de células metidas a gozadoras.

A horas tantas, já beirando ou passando a meia-noite, resolvemos peitar a polícia da ditadura. Isso depois de infindáveis e inúteis discussões. E assim, com no mínimo 6 pessoas em cada Fusquinha ou 7 e até 8 em cada Brasília, saímos todos do campus. E de lá fiquei ausente por um bom tempo. Tudo isso custou-me o emprego de vendedor numa das livrarias da Editora da USP. Fora o medo, o medão de ser preso.

A USP também povoou meus sonhos. Durante muitos e muitos anos sonhei em ser aluno da Universidade. Mas nunca batalhei por isso. A verdade é que nunca me dei bem em escolas. Nunca fiz lições-de-casa, nunca estudei para provas. Se sabia, sabia. Se não sabia, não sabia. Simples. E deu no que deu, que não é assunto para agora. Talvez para dia nenhum. O foco dos meus sonhos ora era a Biologia, ora a Agronomia, em Piracicaba, ora a Geografia e até mesmo a Literatura e a História. Foram apenas sonhos.

Em tempos mais recentes, a USP foi palco de minhas andanças de bicicleta ou a pé. Em busca da boa forma perdida num passado remoto e nunca recuperada. Era agradável andar pelo campus. Tinha gente esquisita, gente bonita, gente feia, gente diferente, gente comum, gente de todo tipo. E pássaros e aves e árvores, quebrando a chatice de gente demais.

Como paulista e paulistano, gosto e me orgulho da USP. É o nosso maior centro de produção de saber. Mesmo com todos os problemas que atravessa, continua sendo o nosso grande e único centro de referência internacional. Ainda esses dias ela foi classificada entre as 200 mais importantes universidades do mundo. Em toda a América Latina, apenas mais uma foi citada: a Autônoma do México. E, numa publicação de caráter similar da China, com critérios um pouco diferentes, lá estava a USP novamente, a primeira de Latino América entre 500, tendo muito longe, no meio da lista, a companhia da UNICAMP, e no final da lista a UNESP e UFRJ. Não, senhoras e senhores, não é pouca coisa a USP. De modo algum.

E tendo dito tudo isto, digo mais: semana passada fui até a USP. Queria comprar um livro, achava que seria mais barato numa das livrarias da Editora. Qual! Enganei-me. Aborrecido, não comprei e dei uma caminhada rápida pelos arredores da Reitoria.

Impressionante!

Caminhando por ali, voltei a sonhar com a USP, e a sonhar fortemente.

O que vi, impressionou-me. De imediato, coloquei meus neurônios a fazerem contas.

Pausa. Nessa hora vocês todos estão pensando que eu, como na poesia do leminsky, vou tomar um jeito na vida e voltar a estudar, ou melhor, estudar e me formar em alguma coisa, né? Hahahahahaha... Ledo engano.

Nada disso. Voltei a sonhar, sim, com a usp, mas para as minhas vacas. Não, elas não são literatas ou com propensões à engenharia, medicina ou sequer à oceanografia, onde poderiam ter aulas com um de meus maiores e mais queridos amigos. Minhas vaquinhas não chegam a tanto, puxaram pro dono. O que me levou a pensar nelas e planejar sua vinda para a Universidade, foi o estado do pasto da USP. Toda a Universidade, praticamente, é um grande, verde, lindo e rico pasto. Isso é literal e não figurado. O mato, digo, o capim bate na minha cintura. Tivesse eu esse mar de capim no sítio e estaria dando risada à toa e sozinho, tirando leite de montão. Mas se no sítio o capim está rapado, na USP o mato abunda. E como abunda. É uma abundância de mato.

Só não tem mato nas áreas em construção. Áreas onde existiam algumas dezenas de árvores e estacionamento para dezenas de carros, agora estão com novas agências bancárias e outras em obras. Tem banco pra todo gosto. Tem privado e tem estatal. Tem nacional e tem estrangeiro. Tem dos grandes e tem dos grandões. Tem dos antipáticos e tem dos odiados. Enfim, tem banco a dar com o pau. Mas agora tem menos árvores. Tem menos área em terra e grama para absorver as águas das chuvas e o calor do sol. Tem, com certeza, menos passarinhos. E como tem menos estacionamentos, os carros também abundam, parados, mais que antes, por toda parte, por todo canto.

Se a Reitoria pagar o transporte das minhas vacas, eu trago-as para cá. Prometo dar cabo do matagal, digo, do pastão, em um mês. e ainda deixo, como bônus, toda a bosta das minhas vacas. Serão excelente adubo para aquelas áreas incultas.

Seria uma nova, diferente e muito mais bonita cow parade. Mas que não venha nenhum bicho-grilo da ECA ou da FAU querer pintar minhas vacas. Chamo o Arthur Virgilio, chamo a Heloisa Helena, chamo o jovem Magalhães e, juntos, damos uma surra no atrevido, treinando para a surra a ser dada num certo presidente.

Estou certo que os professores bons e preocupados com a academia, vão gostar. Poderão receber seus colegas de Harvard, Princeton, Oxford, Sorbonne e outras menos votadas, sem ter que andarem com facões na mão, abrindo caminho em meio ao matagal e espantando cobras e lagartos.

Também não é bom andarem ou dormirem no conjunto residencial, há muito transformado em pardieiro. Um jovem casal, o rapaz filho de grandes amigos, acordou no meio da noite com os gritos de fogo. Mal tiveram tempo de abandonar o pequeno apartamento e as chamas chegaram. Provocadas alhures por problemas na rede elétrica.

É bom, também, olharem onde pisam, não só por causa das cobras que no Brasil abundam, como sabem os estrangeiros, mas também por causa dos vidros quebrados das portas arrebentadas a chutes pelos “estudantes” revoltados com a próxima indicação de novo reitor pelo governador. Os infelizes querem, eles mesmos e mais a cambada abrigada num certo sindicato, gente que conheço de sobejo e da qual quero grande distância, eleger o novo reitor. Ah, pobre democracia...

A USP hoje, como a Terra de Vera Cruz, é um grande pasto povoado por pobres bestas e ricas agências bancárias.

Fim de sonho.

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3 comentários:

Ana disse...

Uma pena. Ô país... :(

Anônimo disse...

Olá.

A hortelã eu replantei seguindo suas orientações, mas tenho a impressão que vou precisar de uma muda nova. Vamos ver se dessa vez ela vai para a frente.
EM compensação meu manjericão está parecendo praga...se alastrando, tá lindom enorme e já me rendeu muitos molhos pestos ...rs.

Beijoca
Chapeira

Emerson disse...

Andei pensando: se as vacas vierem pra USP, voltarão pro sítio com um belo título universitário: PPH - Pós Pastoreio Habilitado.

(O habilitado pra nada serve, apenas pra compor a sigla e sonorizar melhor...)