sexta-feira, setembro 08, 2006

Muito nobre

Passei pelo Parque do Ibirapuera um dia desses.

O sinal fechou, parei o carro e olhei para os lados. Dei de cara com um grande sobrado, imponente, localizado bem na frente do Parque, naquela pontinha que tem num lado a nobre Avenida Brigadeiro Luiz Antonio e no outro a nobilíssima Avenida República do Líbano (na verdade, seu curto prolongamento, cujo nome não sei). À frente, estende-se a praça que tem na direita a Assembléia Legislativa e adiante o QG do II Exército, com muitas árvores, espelhos d’água, etc. Se o olhar dirigir-se mais para a direita da Assembléia, tem o Monumento às Bandeiras e, um pouco mais, emoldurado pelo arvoredo do Parque, o Lago do Ibirapuera, onde, nos finais de dia e em dias especiais, funcionam os jorros da Erundina e da Marta. Bonito. Nobre, muito nobre.

Nobre + Nobilíssimo = Muito Nobre (no mínimo)

Esse casarão, nobre de tudo, abriga o escritório eleitoral de poderoso personagem republicano. Digo, “republicano” e peço atenção às aspas.

É bom diferenciar essa gente – que hoje se intitula a troco de não sei o que como republicana – dos autênticos republicanos que, em Itu, em 1873, realizaram a Convenção de Itu, na raiz de nossa passagem – infeliz, pela forma como se deu – da monarquia para a república. Há muitas e enormes diferenças entre os de outrora e os de hoje. E respeito só tenho pelos antigos.

Meses atrás, movido por mórbida curiosidade (sempre quis usar essa expressão consagrada em policiais classe B), anotei o telefone de imobiliária que alugava sobradão grande, mas não tão grande, em endereço também nobre, mas muito menos nobre, muito menos.

Liguei. Atendeu-me gentil mocinha, cujo cargo e função não sei precisar, e ao dizer-lhe que gostaria de saber o aluguel do nobre casarão, mais solícita ainda ficou, além de sorridente (não, não era videofone, mas deu pra “ver” o sorriso dela), saindo a perguntar meu nome, endereço, telefone, essas coisas. Não perguntou coisas mais íntimas e que não vêm ao caso aqui. Tanto ela como eu somos sérios. Inventei. Claro, inventei tudo a meu respeito, inclusive a serventia do imóvel.

Passou-me para um corretor que se desmanchou em sorrisos telefônicos. Conversa vem, conversa vai, chegamos aos finalmentes: aquela mansão magnífica estava por uma pechincha: apenas R$ 36.000,00 por mês.

Trinta mil reais por mês. Daria para chegar a esse valor, tenho certeza, bastava negociar. Certo, certo... Sem dúvida, grande e boa pechincha. Chamou-me de doutor e só faltou me pedir um descontinho para uma “geral” em sua senhora. Ah, é mesmo, esqueci de contar que disse à gentil guria ter a intenção de lá instalar uma clínica de cirurgia plástica.

Pois bem, se aquele endereço menos nobre e menor custava isto, quanto custará o escritório eleitoral desse poderoso republicano?

Conversei com um conhecido, corretor imobiliário dos bons, e ele chutou, por baixo, cinquentinha.

Cinqüenta mil reais por mês. Ou, seiscentos mil por ano. Colocando isso em moeda mais compreensível à nossa realidade, a bagatela anual de US$ 280,000.00.

Puxa vida, o importante na vida é ter boas amizades, sem dúvida. Nada como um bom plantel de amigos. Fiquei pensando no poderoso personagem “republicano”, vindo de família de classe média mais pra baixa que pra média. Rapaz inteligente, esforçado, meteu-se em política, virou militante. De extrema-esquerda, vejam só. Trotsquista. É...

Mas subiu na vida, ficou famoso, importante, respeitado. Deu sorte, vamos falar a verdade. Estava no lugar certo, na hora certa. Não era para ser o que foi, não tinha sua cara, não tinha seu jeito e ele próprio não tinha, aparentemente, a menor qualificação acadêmica, profissional ou mesmo política para vir a ser aquilo que acabou sendo.

Como eu disse, teve sorte. Quem deveria ser o que ele acabou sendo, morreu.

Morreu de morte matada. Foi assassinado.

Ah, esse Brasil violento, essa violência já endêmica, da qual ninguém escapa. Nem mesmo prefeitos de grandes e ricas cidades, como os falecidos prefeitos de Santo André e Campinas.

Dias atrás disse a senadora Heloísa Helena que, se eleita, mandaria investigar a fundo o assassinato de Celso Daniel, o que foi prefeito de Santo André. E disse mais: investigado a fundo, “tristes verdades” viriam à tona. Heloísa Helena disse, eu transcrevo. Não podemos esquecer do assassinato do Toninho, à época prefeito de Campinas. Foi próximo, no tempo, ao assassinato de Celso Daniel. Uma epidemia, talvez? Na Idade Média, no tempo da Peste Negra, queimavam os corpos e as moradias, queimavam tudo, era a queima da peste. Nem sei porque pensei nisso agora.

Celso Daniel seria o coordenador econômico da campanha de lulla da Silva à presidência. Com sua morte, o cargo passou para o então prefeito de Ribeirão Preto, Toninho Palocci. Contavam muitas histórias sobre ele e sua administração, mas, sabem como é o povo, né? Fala demais.

Palocci virou ministro da Fazenda.

Inteligente, preservou a política de seu antecessor. Saiu-se bem, não há como negar. A política herdada era boa, é boa. Mas falhou na continuidade, o que é normal, pois quem não sabe e copia, não sabe desenvolver.

Maior autoridade monetária e financeira da república – e maior autoridade da república para muitos – Toninho Palocci foi envolvido por braços gentis e graciosos, dizem, os mesmos que depois enlaçariam um seu amigo e assessor. De braço em braço, descobriu-se a hoje famosa “República de Ribeirão”, embora em fase de esquecimento progressivo. Em certo momento, Toninho Palocci, Ministro da Fazenda, quebrou o sigilo bancário de Francenildo, caseiro da mansão onde se abrigava a tal “República”. Esse crime, que em países civilizados levaria seus autores à cadeia, sem choro nem vela e muito menos fiança, só não reverteu porque a brava polícia federal resolveu investigar o próprio caseiro. Vale dizer que o chefe dessa polícia, o ministro da justiça, colega ministerial de Toninho, soube do crime e não prendeu seus autores. Num país civilizado... Ah, deixa pra lá.

Enfim, Francenildo está sem dinheiro, sem emprego e sem futuro. E, só pra complicar ainda mais, é tido por meia dúzia de crédulos como sem-caráter.

Toninho Palocci é candidato a deputado federal. O escritório político localizado em ponto tão nobre, nobilíssimo, mesmo, da capital de São Paulo, é seu.

Podia ao menos dar um emprego pro Francenildo pra ele cuidar desse nobre casarão.



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2 comentários:

Anônimo disse...

Uma pouca-vergonha,isso sim.
E vc precisa ver o comite do sujeito em Ribeirao Preto......

Chic, caro,luxuoso, lugar bom... tudo de bom.
Quem paga tudo isso, todo esse luxo? Ele se declarou pobre.

Ana disse...

É tudo muito indecente.

O negócio deles é abocanhar a 'res publica'.