quarta-feira, junho 08, 2005

Escárnio

(No Houaiss) Escárnio s.m. 1 – o que é feito ou dito com a intenção de provocar riso acerca de alguém ou algo; caçoada, troça, zombaria 2 – atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo , por vezes indignada (olhou com escárnio para os eleitores que o vaiavam) 3 – aquilo que é objeto de desdém, ironia ou sarcasmo (seu discurso de adesão ao governo foi um escárnio)


Essa é a definição de escárnio no Houaiss. Interessante é que os exemplos de aplicação, em itálico, não são meus, são do próprio dicionário. Sintomático ou premonição?

É dessa forma que vejo a situação de crise política que ora vivemos. Não consigo mais enxerga-la com seriedade. Estaria em palpos de aranha se fosse colunista político e tivesse de escrever sobre tudo isso com alguma seriedade. Seriedade na forma, bem entendido, porquê, não importa o tom de farsa, escárnio ou brincadeira que eu empregue, o que está por trás é sério. Esse “tudo isso” me afeta. Afeta meu futuro. O futuro da minha família, do meu negócio. O futuro dos meus amigos e parentes. Afeta o futuro do meu país. Sem falar do infeliz presente, claro.

Ao ler as declarações do presidente da república, ao ler as declarações do presidente do partido no poder, ao ler as declarações de parlamentares, juízes, altos membros do poder executivo, minha única reação, para escapar ao vômito, é o escárnio. É a ironia. É o sarcasmo. É até uma fuga rápida para o non sense. O mais acabrunhante nisso tudo é perceber que as autoridades republicanas nos têm num conceito baixíssimo. Tratam-nos e imaginam-nos como seres no rés-do-chão da escala evolutiva, desprovidos quer de coluna vertebral, quer de cérebro. O pior é que nos tomam por isso por nos comportarmos assim. Esse tratamento indigno e nauseante é nada mais que a recíproca pelo nosso comportamento como povo. Pela nossa aceitação cordeira de tudo quanto nos é imposto. Da extorsão nos impostos à falta de segurança mínima para viver. É um troco à nossa condescendência com políticos sabidamente corruptos, ainda que sem sentença em julgado. À nossa condescendência com aproveitadores e oportunistas de toda ordem. À nossa indulgência com tudo, com todos, conosco.

Infelizmente, merecemos tudo isso que está aí.


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Um comentário:

Maria Helena disse...

Nossa, você foi brilhante.Parabéns por dizer o que todos pensam mas não conseguem traduzir em palavras.