sexta-feira, outubro 27, 2006

Prazeres ardidos

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(Aviso aos desavisados:

Apesar do título, essa é só uma inocente crônica.)


A pimenta cumari é nativa no sítio. Encontramos seus pés pelas beiradas da matinha da mina e da matinha do pasto. A passarinhada se diverte com a cumari e o fruto dessa diversão é a presença de cumarizeiros onde eles param, descansam e... semeiam com esterco, para não dizer defecam, palavra que fica meio feiosa num texto com pretensão a ser elegante. E apetitoso, pois comida é o que motiva essas mal digitadas.

Diz a sabedoria popular que a cumari faz bem pra saúde, que é boa pra muita coisa, inclusive pra próstata.

Como? Boa pra próstata?

É, fulano, beltrano, sicrano, todos dizem isso, porque tem gente conhecida que...

Ok, dispenso os exemplos das gentes conhecidas, até porque para mim são desconhecidas.

Mas, quer dizer, então, que a cumari é boa pra próstata, é?

Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm...

Claro que a profunda reflexão que tal informação ensejou foi mais rápida que esse “hummm” aí atrás. Como bom humano e bom brasileiro, na hora mesma incorporei a cumari ao meu cardápio habitual. E, pensando bem, essa pimentinha deve ser muito boa mesmo, afinal, o tanto que a passarinhada come e não tem problema... Eu, pelo menos, metido que sou a saber um monte de coisa, nunca soube de passarinho com problemas nessas partes. O fato deles não as terem tal como nós, é irrelevante.

Não damos conta das cumaris que o sítio produz e os passarinhos deixam. Pegamos um pouco, que vai pra conserva com óleo de canola ou girassol misturado com azeite. Algumas semanas de repouso ao abrigo da luz, vidros bem fechados e pronto: é pingar algumas gotículas e cortar pedacinhos da bolinha verde ardida. E saborear.

Outras pimentas, essas plantadas, são misturadas, batidas no liquidificador com óleo e azeite e depois vão para a mesa. Tem umas redondas, que ganhei no Mato Grosso e disseram-me ser pimenta-de-cheiro, uma, e pimenta-de-bode outra, e tem mais dois ou três tipos, todas misturadas, numa combinação deliciosa. Pimentas são muitas, difícil é saber o nome delas, fora as mais comuns, como a malagueta, a dedo-de-moça e a terrível pimenta-do-reino, que o que tem de saborosa tem de maldosa com o trato intestinal. E da qual, com desgosto e a contragosto, mantenho prudente distância.

Em tempo de feijão novo, de preferência o carioquinha, pois, pra paulista, feijão preto só tem lugar na feijoada, a vontade é comer pratos e pratos dessa delícia sem mais nada além da pimenta e farinha de mandioca para dar liga e mais um gosto. O arroz branco pode entrar, afinal, discreto e modesto, ele se presta bem às combinações, contribuindo sem se apoderar.

E a pimenta... Como “abre o apetite” essa danada! (Como se eu precisasse que meu apetite fosse aberto...)

São muitas as histórias sobre a importância e utilidade da pimenta em tempos passados. Ficam para uma outra vez.

É comida que pede o complemento de uma boa leitura, nada trágico, mas que seja agradável. Por exemplo, o caderno de esportes ou o Caderno 2. Ora, por que a leitura? – perguntará o leitor desavisado. Porque é uma delícia e um hábito de toda uma vida comer e ler. Uma coisa não interfere com a outra.

Mas, cuidado para não levar á mesa certas crônicas de certos cronistas...

Bom fim de semana.

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Boa votação

Parece incrível, mas domingo, depois de amanhã, a apenas 48 horas do momento em que escrevo (gosto de votar cedo), teremos mais uma eleição.

Não iremos para o sítio, pois ficar em São Paulo e votar é uma obrigação. Não legal, pois para essa não ligamos, basta dar um pulo em qualquer local de votação e “justificar” – tolice que dá uma boa idéia do que ainda somos. Não, nada disso, nossa obrigação é moral, sobretudo.

Alckmin vai perder? É o que dizem, é o que parece provável. Então, eis aí um motivo a mais para fazermos valer nosso voto. Não é por protesto, pois a votar por protesto prefiro não votar ou anular. Tal como o voto “útil”, triste invenção tupiniquim que sempre abominei e à qual, para meu desgosto profundo, cedi uma vez há alguns anos. votaremos em Alckmin por acreditarmos ser ele e seu programa a melhor opção para o futuro desse país, onde nós, nossos filhos, parentes e amigos vivemos. E onde construímos nossa vida.

Se o outro candidato efetivamente ganhar, temo desde já por nosso futuro. Nem tanto em termos econômicos, até porque estamos raspando o fundo do poço. Temo, sobretudo, pelos vícios terríveis a que nossa pobre e mambembe democracia estará sendo submetida, medida por medida, decreto por decreto, ação por ação. É triste dizer isso, mas a vitória do outro candidato é a assinatura pelo povo de um salvo-conduto para atos criminosos, um passe livre para a bandidagem fazer e acontecer.

Nesse momento, os vagabundos e criminosos que se aglutinam no mst já esfregam as mãos, prometendo, felizes, nova safra de invasões e crimes contra pessoas e propriedades a partir da divulgação dos resultados eleitorais.

É chato escrever o que escrevi agora, é chato, para mim, chamar essas pessoas de vagabundos e criminosos, até porque há entre eles muitos que não são uma coisa e nem outra. Mas, nesse caso, não passam de massa de manobra amorfa e ignorante, portanto, é melhor nomear esse balaio do jeito que nomeei. É a nomenclatura mais próxima da verdade, quando não a própria verdade.

Se a vitória do outro candidato for confirmada, teremos a coroação em grande estilo do reinado das maracutaias, desde as pequenas e desprezíveis até as gigantescas e assustadoras, criminosas todas elas.

Nesse momento não tenho ilusões: a confirmação dessa vitória será a confirmação de mais oito a dez anos de retrocesso, de atraso em relação à civilização à qual pertencemos, por laços, história, geografia e opção.

Lamento, mas é só isso que consigo tirar desse teclado.

Boa votação.

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segunda-feira, outubro 23, 2006

Visitantes no Macaúbas


Quem vive com cachorros conhece claramente seus diferentes latidos. Isso nos permite dormir placidamente em plena madrugada enquanto eles ficam batendo boca, talvez falando mal um do outro, talvez falando mal da gente, provedores de alimentos e carinhos, geralmente chatos os primeiros e insuficientes tanto uns como outros. Mas há um latido que é tiro e queda, e nos desperta do mais profundo sono tão logo começa: é o latido de alerta para invasão de território. Como o território deles é o mesmo que o nosso, esse alerta nos é da maior serventia. Ou não, mas aí já são outros quinhentos.

Sábado, no sitio, a Panda e o Stanley desataram a latir: latidos para acuar e pegar, típicos. Fomos ver o que causava o alvoroço e lá estavam os dois incomodando e atacando um pacífico ouriço-cacheiro. A Panda, mais afoita e boba, já tinha alguns espinhos no focinho. E o pobre cuim – um dos nomes indígenas do ouriço-cacheiro – estava com a perna traseira esquerda ferida. Não bastassem os dois cachorros, alguns gatos também apareceram, interessados na confusão e já em atitude de caça, típica, com o olhar inconfundível de “presa à vista”.

Estávamos no meio do dia. O cuim gosta mais da noite para seus passeios em busca de frutas e brotos diversos. É louco por goiaba e aprendeu, desde séculos atrás, a amar a banana. Depois de afastar felinos e canídeos fiquei olhando o bichinho, que no solo é lerdo demais. Ele, basicamente, vem ao solo para trocar de árvore, quando não pode passar de galhada para galhada. Dizem alguns conhecedores de seus hábitos que eles pouco bebem água em fontes e riachos, pois os brotos e frutas são ricos nesse elemento, fora o que devem encontrar em bromélias e outras plantas que armazenam a água das chuvas. Bom, se ele já é lento, em pleno dia claro, ensolarado, fica mais lento ainda. Pensei no que fazer... Pegar uma luva grossa... Não, fora de cogitação, não iria pegá-lo.

Então, uma vez mais, vali-me de uma caixa plástica para transporte de laranjas. Coloquei-a sobre ele, improvisando, assim, uma gaiola. Tampei as beiradas com pedras e ripas, colocando outras por cima da caixa (cujo “piso” estava para o alto), criando uma estrutura pesada e que não seria desfeita pela Panda, talvez nem pelo Stanley. Antes de me afastar, coloquei uma vasilha com água e meia banana – não sabia se ele iria ou não comer a fruta. Horas mais tarde, com a noite chegando, tirei as pedras e ripas e levantei a caixa. A banana sumira por completo e fiquei até chateado por não ter colocado mais.

Lentamente, o coandu – outro nome indígena, mais usado pelas tribos do norte – afastou-se em direção às arvores do bosque que fica ao lado de casa. Antes mesmo de chegar às árvores mais altas, embrenhou-se por um trecho de vegetação rasteira fechada, emaranhada, onde os cachorros não entram e mesmo os gatos têm dificuldade para se locomover.

A pata parecia um pouco melhor e não havia sinal de sangue, felizmente. Se morássemos no sítio iria mantê-lo preso por alguns dias até ter certeza de sua recuperação – coisa arriscada, pois se a Florestal aparece... É bom nem pensar no abacaxi.

Enquanto pensava em que fazer com ele, as pessoas – tínhamos visitas em casa – diziam, preocupadas, minha sogra, inclusive, para tomar cuidado, pois ele atirava os espinhos. Esse é um dos mitos mais arraigados entre as pessoas, a crença que o ouriço-cacheiro, ou porco-espinho, como é erroneamente chamado – possa disparar seus espinhos. Ele, quando ameaçado, levanta os pelos do corpo, pondo à mostra seus espinhos amarelados. Ao menor contato, eles se soltam da pele e penetram fundo e facilmente no corpo do agressor. Fora isso, uma resistência absolutamente passiva, nada mais faz esse bichinho tímido.

Os cachorros conhecem os sapos e mantém distância deles. Os cachorros urbanos não conhecem, mas, instintivamente, deixam os bicharocos em paz. Quando isso não acontece e calha de abocanharem um sapo, é pela primeira e única vez. O Truck, meu doberman já falecido, fez isso na primeira primavera aqui na casa da Granja Viana. E ficou mal, babando, envenenado. Felizmente, o Salvador, nosso veterinário antes da Andréa, matou a charada na primeira palavra que proferimos: - Ah, isso não é nada, ele mordeu um sapo. E aplicou-lhe uma injeção não lembro de que... Horas depois o Truck já estava ótimo. E nunca mais voltou a morder um sapo.

Já com os ouriços isso não acontece. Parece que o “código genético” dos cachorros não traz a informação de que o bicho não é bom. Em conseqüência, vira e mexe lá estão os cachorros com as bocas cheias de espinhos. Já tivemos, duas ou três vezes, de chamar um veterinário para cuidar dos idiotas, digo, cachorros. Curiosamente, as onças também aparecem com espinhos enfiados no focinho.

Em algum momento ao longo da evolução, faltou ao cuim um competente serviço de relações públicas ou de mensageiros, que distribuísse entre as espécies predadoras a mensagem que ele era um bicho que deveria ser mantido fora do menu.

Essa parte da lição os sapos fizeram direitinho.

P.s.: sim, a foto está horrível, culpa da câmera cujo flash não está funcionando; sorry.


Jibóia no barracão

Ela está alojada, com relativo conforto, parece, atrás de um dos tambores de ração para as vacas. Não está enrolada, está dobrada e dorme, ou finge que dorme, diante dos movimentos e da barulheira que fazemos. Está completando, que tenhamos visto, uma semana de residência. Acho que já posso cobrar aluguel dela.

Não demos por falta de pintinhos ou galinhas, então, pelo jeito e local, ela parece estar comendo os ratos silvestres que vira e mexe estão no barracão atrás de milho e ração.

O único risco, fora os pintinhos, é um dos gatos pequenos ficar zanzando por ali, mas o Ismael disse que eles não tem entrado no barracão.

O barracão da jibóia.

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sexta-feira, outubro 20, 2006

Será possível que ninguém se toca?

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Transcrevo abaixo a coluna do Arnaldo Jabor, publicada dia 17 no Estadão.
Ela diz com perfeição muito do que sinto e, muito pior, pressinto.



Será possível que ninguém se toca?

Estamos vivendo um momento histórico delicadíssimo. As conquistas da redemocratização estão ameaçadas pelo projeto petista de poder. A agenda óbvia para melhorar o Brasil é um consenso entre grandes cientistas sociais. Vários prêmios Nobel concordam com nossos pontos essenciais de reforma política e administrativa, que fariam o País decolar. Mas, os despreparados sindicalistas e ex-comunas ignorantes têm um programa que nos levará a um retrocesso político trágico. Em pouco tempo, podemos ter volta da inflação, caos político, ruptura institucional - tudo na contramão das necessidades de modernização do País. Eles prometem medidas que nos jogarão de volta aos anos 50 ou para trás, pelo viés burro de um 'socialismo' degradado num populismo estatizante: o lulismo. Enquanto isso, os cidadãos que comeram e estudaram, intelectuais e artistas cultos, os que bebem nos bares e lêem jornal ficam quietos. O Brasil está sendo empurrado para o buraco e ninguém se toca?

O que vai acontecer com esse populismo-voluntarista-estatizante é obvio, previsível, é 'be-a-bá' em ciência política. 'Sempre foi assim...' - se consolam.

Mas, não. 'Nunca antes', um partido montou um esquema secreto de 'desapropriação' do Estado, para fundar um 'outro Estado'. O ladrão tradicional roubava em causa própria e se escondia pelos cantos. Os ladrões desse governo roubam de testa erguida, como em uma 'ação revolucionária'. Fingem de democratas para apodrecer a democracia por dentro.

Lula topa tudo para ser reeleito. Ele usa os bons resultados da economia do governo FHC para fingir que governou. Com cínico descaro, ousa dizer que 'estabilizou' a economia, quando o PT tudo fez para acabar com o Real, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, contra tudo que agora apregoa como atos seus.

Se eleito, as chamadas 'forças populares', que ocupam os 30 mil postos no Estado aparelhado, vão permanecer nas 'boquinhas', através de providências burocráticas de legitimação.

As Agências Reguladoras serão assassinadas. Os sinais estão claros, com várias delas abandonadas e com notícias de que o PMDB já quer diretorias.

O Banco Central perderá qualquer possibilidade de autonomia, como já rosnam os membros do 'Comitê Central' do lulismo. A era Meirelles-Palocci será queimada, velho desejo de Dirceu e camaradas.

Qualquer privatização essencial, como a do IRB por exemplo, será esquecida.

A reforma da Previdência 'não é necessária' - dizem eles -, pois os 'neoliberais exageram muito sobre sua crise', não havendo nenhum 'rombo' no orçamento.

A Lei de Responsabilidade Fiscal será aos poucos desmoralizada por medidas atenuantes.

Os gastos públicos aumentarão pois, como afirmam, 'as despesas de custeio não diminuirão para não prejudicar o funcionamento da máquina pública'. Nossa maior doença - o Estado canceroso - será ignorada.

Voltará a obsessão do 'Controle' sobre a mídia e a cultura, como aconteceu no início do primeiro tempo. Haverá, claro, a obstinada tentativa de desmanchar os escândalos do chamado 'mensalão', desde os dólares na cueca até a morte de Celso Daniel e Toninho do PT, como já insinuam, dizendo que são 'meias-verdades e mentiras, sobre supostos crimes sem comprovação...'.

Leis 'chatas' serão ignoradas, como Lula já faz com a lei que proíbe reforma agrária em terras invadidas ilegalmente, 'esquecendo-a' de propósito. Quanto ao MST, o governo quer mantê-los unidos e fiéis, como uma espécie de 'guarda pretoriana', a vanguarda revolucionária dos 'aiatolás petistas', caso a crise política se agrave. Não duvidem, eles serão os peões de Lula.

Outro dia, no debate, quando o Alckmin contestou Lula ao vivo, ouviu-se um 'ohhhh!....' escandalizado entre eleitores, como se o Alckmin tivesse cometido um sacrilégio. Alckmin apenas atacou a intocabilidade do operário 'puro' e tratou-o como um cidadão como nós, ignorando a aura de 'ungido de Deus' de Lula, que os fanáticos intelectuais lhe pespegaram. Reagiram como diante de uma heresia, como se Alckmin tivesse negado a virgindade de Nossa Senhora ao lhe perguntar: 'De onde veio o dinheiro?'

Agora, sem argumentos diante dos escândalos inegáveis, os lulistas só agem pela Fé. Lula sempre se disse 'igual' a nós ou ao 'povo', mas sempre do alto de uma 'superioridade' , como se ele estivesse 'fora da política', como se a origem pobre e a ignorância lhe concedessem uma sabedoria maior. Agressão é o silêncio cínico que ele mantém, desmoralizando as instituições pela defesa obstinada da mentira. Mas, os militantes imaginários que se acham 'amantes do povo' pensam que Lula não precisa dizer a verdade; basta parecer. Alguns até reconhecem os crimes, mas 'mesmo assim', votarão nele. Muitos têm medo de serem chamados de reacionários ou caretas. Há também os 'latifundiários intelectuais': acadêmicos e pensadores se agarram em seus feudos e não ousam mudá-lo. Uns são benjaminianos, outros marxistas, outros hegelianos, gurus que justificam seus salários e status acadêmico e, por isso, não podem 'esquecer um pouco o que escreveram' para agir. Mudar é trair, para ortodoxos. Ninguém tem peito de admitir a evidência inevitável de que só um 'choque de capitalismo' destruiria nossa paralisia estatal, burocrática e patrimonialista, pois o mito da 'revolução sagrada' é muito forte entre nós. Se há uma coisa que une esquerda e direita é o ódio à democracia (Bobbio).

Os intelectuais dissimulados votarão em Lula de novo e dizem que 'sempre foi assim' porque, no duro, eles acham que o lulo-dirceuzismo estava certo sim, e que o PT e sua quadrilha fizeram bem em assaltar o Estado para um 'fim revolucionário'.

Vou guardar este artigo como um registro em cartório. Não é uma profecia; é o óbvio, banal, previsível. Um dia, tirá-lo-ei do bolso e sofrerei a torta vingança de declarar: 'Agora não adianta chorar sobre o chopinho derramado... Eu não disse?...'


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quarta-feira, outubro 18, 2006

Fernando Gasparian


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Curioso, nunca conheci o Gasparian, mesmo fotos acho que vi duas, três, talvez. Mas esse "burguês progressista" mudou minha vida. Ou melhor, foi parte de um processo de mudança , talvez o agente catalisador. E, por favor, "burguês progressista" é um elogio, e está entre aspas porque foi assim que um antigo companheiro descreveu o dono do Opinião, há mais de trinta anos.

A grana era curta, mal dava pros ônibus e um sanduíche frio, mas dava um jeito de economizar pra comprar o jornal. Por ele a gente respirava. Cada número do Opinião era uma aula multidisciplinar. Política, cinema, artes plásticas, sociologia, história, literatura...

Adolescente e empolgado, a cada número esperava encontrar uma receita pra revolução, um jeito certo e rápido de transformar tudo aquilo que nos rodeava e enchia de angústia, sem falar do medo. Nunca apareceu tal receita e, se apareceu, não li. Para ser sincero, aliás, muita coisa que ali estava eu não entendia. Algumas vim a entender com a passagem do tempo e o acúmulo de conhecimentos e vivências. Outras, desconheço até hoje. E não são poucas.

Foi um artigo do Opinião, combinado com "Os subterrâneos da liberdade" em leitura escondida dos companheiros que achavam Jorge Amado um atraso, além de stalinista, que mudou minha maneira de fazer política e minha visão de mundo. O artigo, acho que já o citei em outra oportunidade, fez-me entender que as instituições são mudadas por dentro e era um chamado a botar as mãos na merda que era a política, tal como a víamos. Não tenho total certeza, bom, acho até que tenho certeza, seu autor era um professor que fora da USP e fora cassado, Fernando Henrique Cardoso, que naquele momento era dirigente e fundador do CEBRAP, um centro de estudos e pesquisas que seria vítima de um atentado a bomba anos depois. Talvez por ser financiado, em parte, pela Fundação Ford. Mentes obscuras até hoje não entendem o papel e a importância que muitas dessas fundações tiveram em muitas partes do mundo, apoiando e ajudando a sobrevivência de pessoas com idéias em nada parecidas com as do velho Henry Ford e outros.

Refleti muito depois dessa leitura, pensei bastante, as idéias colocadas ali faziam todo o sentido do mundo na minha cabeça e decidi-me. Entrei no velho MDB, onde fui trabalhar para o deputado do Partidão, o Alberto Goldman. Nosso primeiro trabalho foi fazer campanha pro Quércia ao Senado, em 74. Grande vitória, grandes vitórias, elegendo os senadores de 16 dos então 22 estados. Não foi pouca coisa. E foi maravilhoso.

Vieram os anos de millitância, até que parei com tudo aquilo em 85.

Gasparian, através do Opinião, influiu decisivamente na minha vida por doze anos.

Descanse em paz.

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Muito assustador

Assustador, tudo é, tudo está muito assustador.

Qual o sentido em continuar cumprindo leis?

Sim, essa pergunta cabe, porque é mais e mais evidente que as mais altas autoridades “republicanas” não cumprem com as leis que deveriam proteger e zelar para que todos cumpram.

Há algum sentido em continuar pagando impostos?

Sim, essa pergunta cabe, porque é mais e mais evidente que dinheiro público é desviado para finalidades diversas e não há punição para isso. É normal. Faz parte.

Então, deve ser normal e fazer parte do contexto não pagar imposto algum. Ou não?

Há outras perguntas nessa linha. Deixa pra lá, não vou perder nosso tempo com elas.

Mas...

Tudo indica que mais hora, menos hora, enfrentaremos uma situação de rompimento institucional.

Não é uma questão de “se”, é uma questão de “quando”.

Nesse momento, o companheiro já terá cooptado as forças armadas para o seu lado?

Já terá seguido o exemplo do companheiro Chávez?

Sim, eu estou delirando e exagerando, é verdade.

Me engana que eu gosto, mas que a coisa está assustadora, ah, isso está mesmo.

E muito.

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segunda-feira, outubro 16, 2006

Fora do mundo

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Há muitos anos não vou a Nova York. Na verdade, desde antes do 9/11.

Sinto vontade, ocasionalmente. Mais que vontade, sinto necessidade de voltar a Nova York, principalmente para ir ao espaço vazio onde ficavam as torres do WTC. Uma só vez fui até lá, num dia de turista pleno. Fui ao Top of the World num dia bonito de inverno. Não fui jantar no Windows of the World, restaurante que funcionou por muito tempo no alto de uma das torres. Uma noite eu ia, mas, sei lá, bateu uma preguiça, uma certa vontade de não gastar muito, também fiquei em dúvida se jeans com blazer e gravata seria adequado... Fui à pizzaria da esquina, passando antes pela grocery de um casal coreano, abasteci-me de frutas, chocolates e pizzas e passei a noite no hotel, lendo e vendo tv. Já fiz escolhas melhores.

(Gosto e abuso de longas introduções; essa ainda não acabou, mas vai acabar já, já, prometo.)

Por que esse desejo?

Porque acho que ainda não senti em sua plenitude o impacto do ataque às torres. Já pensei e escrevi a respeito muitas vezes, mas acho que ainda falta sentir. Imagino que estando lá, no local, relembrando como era, eu venha a sentir a dimensão do crime. Será?

(Corta para o Japão, um dia qualquer da semana passada, para a situação vivida e descrita em sua coluna semanal pelo Ricardo Anderaos, editor e colunista do caderno Link, do Estadão, e autor do blog Wireless, ancorado no Estadão.)

“O tempo parou por quase um minuto naquela fila da estação de Nara. Tempo necessário para que o motorista de táxi e a guardinha da estação de trem assimilassem a notícia de que a Coréia do Norte acabara de explodir sua primeira bomba atômica. E olha que uns minutos de atraso, pelos padrões japoneses, não é pouca coisa não.

Pela reação dos dois imaginei o impacto que a notícia estava causando, naquele exato momento, por todo o Japão. Afinal de contas, a Coréia do Norte está a um tirinho de espingarda daqui. E as feridas de Hiroshima e Nagasaki estão longe de fechar.”


Isso aconteceu na saída da estação ferroviária de Nara. Na coluna, cuja versão integral está no jornal de hoje e também em sua edição digital (com acesso apenas para assinantes), o Anderaos descreve o burburinho, o monte de gente, a longa fila para pegar um taxi, a rapidez e eficiência com que um táxi atrás do outro chegava e partia, tudo isso quebrado, bruscamente, pela paralisia momentânea que acometeu seu motorista. A guardinha do texto citado era uma senhora já bem idosa, funcionando com eficiência nipônica na orientação de motoristas e passageiros.

Por aqui, as reações não existiram, a bem dizer, fora dos noticiários. As pessoas, em absoluta maioria, passaram batidas por esse episódio. Eu mesmo pouca atenção dei a ele, afinal, a realização desse teste já era esperada há muito tempo, não foi surpresa para ninguém. Ou melhor, até foi um pouco surpreendente a baixa capacidade da bomba, já que os analistas esperavam a explosão de um artefato de 4 a 5 vezes mais potente.

Para o povo japonês nada disso foi necessário. Uma bomba atômica, mesmo pequena, é uma bomba atômica. Ainda mais quando estacionada a poucas centenas de quilômetros de suas maiores cidades, num país fechado, com um regime ditatorial severo e um dirigente que não goza de confiança alguma da comunidade internacional.

Eles sentem fisicamente o que nós sequer conseguimos imaginar.

Nesses momentos, viver num país e num continente que não contam e não aparecem no cenário internacional, tem lá suas vantagens, verdade seja dita.

Na arena mundial não somos protagonistas em nada. Em alguns poucos atos somos meros figurantes. Pouco sentimos, de fato, sobre guerras, terrorismo, medos...

O Brasil muitas vezes parece um lugar à parte do mundo real. E nem sei se cabe aqui essa palavra “real”.

Sei lá... Sinto que estamos fora do mundo.

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quinta-feira, outubro 12, 2006

Sem pauta


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Ao contrário do meu amigo Ballantyne, editor do Notas Avulsas, não tenho uma reunião de pauta com estagiárias simpáticas e bonitas (nessa ordem de importância, por favor; boniteza sem simpatia é desperdício de recursos da natureza). Geralmente, valho-me mesmo do velho, bom, vetusto e simpático Estadão. Companheiro de longa data, sempre presente, confiável. Vez ou outra atrasado, é bem verdade, mas sempre por nobres motivos dos entregadores (de acordo com meus levantamentos, em 99,7% dos casos o motivo foi a chuva, que costuma atrapalhar a vida nessa cidade erguida nos Campos de Piratininga, aliás, a primeira cidade fundada no interior, no sertão do Brasil).

Mesmo nesses tempos internéticos, é o peso do papel e sua manipulação à mesa durante o café-da-manhã que me transmitem o prazer de entrar em contato com o que aconteceu e acontece pelo mundo. Prazer? Vá lá, que seja, ainda que o teor costumeiro das notícias não seja nenhum prazer. Tudo isso substitui a charmosa reunião de pauta do Balla, na poderosa Washington, DC. Ali, por sinal, é fácil arrumar assunto: basta olhar por cima do muro e ver o que o vizinho está fazendo. O Balla pode mudar o “Notas...” para “Vizinho do George” e, tal como o nosso famoso “Vizinho do Jefferson”, contar as novas a partir das entradas e saídas na White House.

Bom, meus vizinhos aqui na Granja são meio invisíveis. Os que mais vejo são os sagüis que aparecem por aqui procurando bananas, mamões, mangas e outros acepipes. Não são boas pautas, não com freqüência. Portanto, vamos ao Estadão dessa 5ª-feira, 12 de outubro, mais um feriado nacional.

...

Hum hum...

Hum hum...

Hummmmmmmmmmmmm...

Nada. Nada que mereça uma pauta nesse Olhar Crônico.

Nada, nadica de nada?

Nada. Nada interessante ou diferente, tudo igual.

Quer ver só? Vamos lá...

- lulla x Alckmin: nada de novo no front, o blábláblá diário.

- Um avião pequeno se choca contra um prédio em Nova York.

- No futebol, três times brasileiros são eliminados por três times argentinos.

- Um terço do maior roubo do mundo já está em mãos – e bolsos – de policiais cariocas e paulistas, que correm atrás dos 100%.

- Luiz Fernando Verissimo comemora sua chegada aos 70 na crônica; interessante, mas nem tanto; depois da Velhinha e do Analista eu esfriei com LFV; ficou tudo com cara de replay em slow motion, leu um, leu tudo, a começar por seu apoio ao lulla.

- Em São Paulo a prefeitura diz que o imposto pode subir 10%; Alckmin agradece a honestidade.

- Em Buenos Aires, o governo Néstor mantém restrições aos calçados brasileiros (nem por isso lulla e cia. deixam de lamber os pés de Néstor).

- Em São Paulo as megalivrarias seguem fazendo sucesso. Parece que já se pode comprar carros zero km, além de congelados e vinhos para o jantar com livros; tô fora.

- Em Washington, George Walker, o vizinho do Balla, diz que não tem intenção de atacar a Coréia.


EPA!!!

Eis a pauta:

BUSH VAI ATACAR A CORÉIA DO NORTE

“Mas ele disse que não tem intenção” – argumenta arguta leitora imaginária. E eu respondo:

“Read my lips: No more taxes” – e, logo depois de eleito, George pai aumentou os impostos.

“Ah, mas foi o pai dele, não ele” – replica a imaginária e arguta leitora.

“Ora, estimada leitora, quem sai aos seus não degenera a raça” – treplico daqui. E, na seqüência, fecho com chave de ouro:

“Tal pai, tal filho.”

Balla, taí uma pauta legal pro Notas Avulsas. Manda bala.

E bom feriado.

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quarta-feira, outubro 04, 2006

O Caçador e o Kilimanjaro

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Garoto, e depois adolescente, passava muitas horas na Biblioteca Municipal do Ipiranga. Meu pai levou-me lá quando eu tinha 8 anos de idade, e fez uma ficha em seu nome, para o meu uso. Eram outros tempos. O ônibus para lá demorava meia hora. Para poder chupar um sorvete, eu voltava a pé, carregando dois livros e o dinheiro da passagem. Chegando em casa, comprava o sorvete e começava a ler um dos livros, enquanto chupava o picolé de limão ou chocolate. São Paulo, naqueles distantes 62, 63, permitia esse tipo de loucura, inimaginável hoje.

Minhas buscas eram simples: muita ficção, claro, e livros de aventura, livros “de” fazenda, livros sobre animais. Foram muitos os livros que descobri nesse período, entre eles “Expedição Moana”, “Aku-Aku”, “A expedição Kon-Tiki”, o fantástico, para um garoto/adolescente, “O mundo perdido” de Conan Doyle, e tantos outros.

E um dia achei um livro que me cativou, um dos livros inesquecíveis da minha vida: “O Caçador”, de John Hunter, um escocês que viveu no Kenya, onde foi caçador profissional e depois agente do Departamento de Caça.

John saiu da Escócia jovem e foi pro Kenya. Ali virou caçador profissional, matando leões para vender a pele, matando elefantes para pegar as presas e matando muitos outros animais, como rinocerontes, gazelas, leopardos, búfalos...

Era um outro tempo, um outro mundo. Muitas de suas vítimas tinham, por sua vez, vitimado pessoas e animais domésticos dos nativos. Leões “assassinos” – tais como Ghost e Darkness, retratados com maestria no filme com Val Kilmer e Michael Douglas, eram comuns. Elefantes que destruíam as colheitas e matavam nativos, também. Enfim, era um outro mundo, muito melhor que esse, muito pior que esse. Cada tempo com seu próprio jeito e seus problemas.

A leitura de “O Caçador” é fascinante. As histórias são ricas e nos transportam para uma África que o próprio Hunter, já no começo dos anos 50, dizia não mais existir. Imagine-se hoje.


Uma das fotos que ilustram o livro mostra o magnífico Kilimanjaro, no final dos anos 40, com um rinoceronte em primeiro plano num trecho de capim em meio à savana rala. O pico está todo coberto de neve. O aquecimento global ainda é uma expressão desconhecida.






O Kili em 1970...




... e a mesma visão no ano 2000



Hoje, vários estudos indicam que a camada de neve no cume do Kili não chega a 2015. Se bobear, não chega nem a 2010.

E não é apenas o aquecimento do planeta que provoca isso, mas também a alteração, para menos, no regime de chuvas no leste da África. Dramático e triste.


O Kilimanjaro em 2003






A leitura, nem vou chamar de releitura tão diferente é a leitura de hoje comparada
às leituras que fiz desse livro há mais de 30 anos, de “O Caçador” aprofunda minha tristeza.

P.s.: a título de curiosidade, “hunter” significa caçador; no caso do autor, nome, hobby e profissão juntaram-se numa só palavra.


Amanhecer de um dia em 2004 a caminho do pico...


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segunda-feira, outubro 02, 2006

Tempo para pensar... e repensar

Vamos ao segundo turno!

Essa é uma boa notícia, sem a menor sombra de dúvida. Principalmente para o Brasil. Diante da aparição de novas denúncias envolvendo pessoas próximas do presidente, faz-se necessário um aprofundamento nas investigações. Nada pior para a nação do que ter um presidente sob suspeita. De qualquer forma, independentemente da conclusão ou não das investigações a cargo da Polícia Federal (estranhamente lenta nos procedimentos relativos a esse caso), os eleitores de Lula terão tempo para pensar e reavaliar seu voto. Se ele for mantido e o presidente for reeleito, ótimo. Bem ou mal isso acontecerá por força da vontade do povo e essa vontade deve ser soberana. Se, por outro lado, parte de seus eleitores do primeiro turno mudar seu voto e Alckmin for eleito, ótimo também. Qualquer que seja o gosto pessoal, deve imperar o gosto majoritário do povo expresso nas urnas.

Essa coisa de “respeitar a vontade do povo” é curiosa. Muita gente que usa e abusa de seu uso – o uso dessa frase, é bom deixar claro – não demonstra muito respeito pela idéia quando a vontade popular não bate com a própria. Isso vem de longe. Há 30 anos como agora, é a mesma coisa. A vontade do povo é legal, bárbara, tem que ser respeitada e coisa e tal. Mas quando olha o número de votos de Maluf ou Clodovil ou similar, pronto... O povo não sabe votar. Ninguém diz isso, pois pega mal, não é politicamente correto, mas em compensação rolam cobras e lagartos contra esse voto ignorante, despreparado, que mostra o nível do povo brasileiro e por aí vai. Interessante, né? Vote em quem eu gosto e você votará bem. Vote em quem eu não gosto e você não saberá votar.

Dois pesos, duas medidas, como sempre, como de hábito.

E cansativo como sempre ler as mesmas críticas às expressivas votações de Maluf, Russomano, Clodovil, bandidos do PT, etc...

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sábado, setembro 30, 2006

Orgulho e Vergonha


Apenas US$ 19,999,000.00 (dezenove milhões e novecentos e noventa e nove mil dólares) separam-me de Anousheh Ansari e sua viagem à ISS, em órbita da Terra. Ela pagou 20 milhões pelo passeio e eu só poderia pagar, com algum esforço, mil dólares. Um mil dólares, ou, em gramática bancária, “hum” mil.

Irrelevante, mero detalhe sem importância, como tudo que é definido por ter mais ou menos dinheiro. Como ser humano, senti-me orgulhoso por sua viagem, acompanhei seu blog e arrependi-me por não ter deixado ali nenhum comentário.

E que belo blog! Para mim, e sem trocadilho, um dos pontos altos da jovem história da blogosfera.

“I was finally able to take a look outside and saw the Earth for the first time… Tears started rolling down my face. I could not catch my breath… Even thinking about it now still brings tears to my eyes. Here it was this beautiful planet turning graciously about itself, under the warm rays of the Sun… so peaceful…so full of life… no signs of war, no signs of borders, no signs of trouble, just pure beauty…


How I wished everyone could experience this feeling in their heart, specially those who are at the head of the governments in the world. May be this experience would give them a new perspective and help bring peace to the world.”



(Finalmente pude olhar para fora e ver a Terra pela primeira vez. Lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto. Minha respiração ficou descompassada. Só de pensar nesse momento me enche novamente de lágrimas. Aqui está esse lindo planeta girando graciosamente ao redor de si mesmo, sob o calor dos raios do Sol. Tão pacífico, tão cheio de vida, sem sinais de guerras, sem sinais de fronteiras, sem sinais de problemas, apenas pura beleza.

Como eu gostaria que todas as pessoas pudessem experimentar esses sentimentos em seu coração, especialmente aqueles que estão à frente dos governos
em nosso planeta. Talvez essa experiência desse a eles uma nova perspectiva e ajudasse a trazer paz ao nosso mundo.)

“...sem sinais de fronteiras...”

Todo o orgulho, emoção, satisfação que as palavras de Anousheh proporciona, são destruídos pela leitura da nota informando que, ontem, o Congresso dos Estados Unidos aprovou verba no valor de 1,2 bilhão de dólares para a construção de um muro duplo em boa parte dos 1.226 km de comprimento da fronteira com o México.

Junto com o conhecimento dessa infâmia, vem a lembrança do muro construído pelos israelenses em Jerusalém, separando israelenses e palestinos.



Que vergonha...

Cresci lendo sobre o vergonhoso Muro de Berlim, uma afronta à democracia, ao entendimento e ao livre trânsito das pessoas. Durante muito tempo aquele ignominioso muro foi, para mim, símbolo de opressão e vergonha.

Parecia que ele nunca cairia, nunca sairia dali, deixando o mundo engessado e dividido. Até que um dia o muro maldito foi derrubado. Não caiu por podre ou velho, foi derrubado pelas pessoas comuns, sem tratores ou explosivos, simplesmente usando martelos e picaretas, e, sobretudo, idéias. De liberdade, fraternidade, igualdade... Idéias velhas e bonitas, que hoje parecem fora de moda.

Agora, o símbolo da vergonha está no Oriente Médio, na cidade onde nasceram três grandes religiões. E, em breve, estará instalado na terra da liberdade, no país que por muitas décadas, por mais de dois séculos, foi a tradução para milhões e bilhões de pessoas de terra da liberdade e das oportunidades.

Não mais. O terrorismo e a intolerância venceram.

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sexta-feira, setembro 29, 2006

Antevéspera...


Domingo é dia de votar. Esta será, tenho certeza, a eleição mais importante desta república no pós-guerra. A menos de 48 horas já da abertura das salas com as urnas, a impressão é que o resultado já é conhecido. Espero, sinceramente, que não. Espero que a decisão vá para o segundo turno e esse país tenha mais uma oportunidade para pensar e se repensar.

Nesse momento, falar em ética e honestidade parece uma coisa totalmente sem sentido, parece um discurso vazio, contrário à natureza, pois nada mais abriga que o nada, o vácuo. A prática política de Luiz Inácio Lula da Silva, que prefiro chamar de lulla da Silva, reduziu-nos a isto. Parece que vivemos um momento, que espero passageiro, de amoralidade. Um momento em que o impossível se torna corriqueiro no dia-a-dia. Para quem lembra ou para quem, por algum acaso, consulta um jornal ou uma revista de 2001, 2002, e compara com o que aconteceu nesses últimos quatro anos, o choque é uma brutalidade.

Assassinatos, roubos, falcatruas, acordos políticos onde a sujeira aparece acima de tudo, extorsões, enfim, todos os capítulos piores e mais indecentes do código penal parecem ter sido contemplados pela prática do governo lulla da Silva e do PT.

A começar pelos incríveis – no sentido de impossível acreditar – assassinatos dos prefeitos de duas das maiores e mais ricas cidades brasileiras, ambos do mesmo partido ora no poder. E prosseguindo mandato afora, com assessor de primeiro escalão achacando contraventor, ministro organizando a compra de votos com dinheiro saído do Tesouro Nacional, recursos não-identificados usados em campanhas eleitorais, pagamentos em moeda de outro país de fonte desconhecida, e por aí vai.

O governo lulla da Silva é, na verdade, uma boa cartilha de introdução ao crime. Sua história precisa ser contada e analisada nas faculdades. Mas não nas de história ou sociologia, e sim nas de direito, mostrando aos futuros advogados, promotores e magistrados, como um governo agiu à margem da lei e dos princípios (supostos) éticos e morais de toda uma sociedade.

Eu confesso que não tenho mais estômago para ver e ouvir esse presidente. Não consigo. Há pessoas que vão mais longe: ficam nauseadas, tão grande é a irritação e o desconsolo por sabe-lo presidente dessa nação. Tenho vergonha, não por ele, mas por nós, brasileiros, que o elegemos. O fato de não ter votado nele é irrelevante, pois sou brasileiro e os brasileiros, majoritariamente, elegeram-no.

Pode ser que essa figura infeliz de nossa história vença. É bem possível, quase provável. Paciência. Seguirei respeitando o desejo da maioria, mesmo que lamentando profundamente. Se eleito, ele o será pelos votos de quem nada tem, a começar por estudo, e pelos votos de uma parcela da população iludida e perdida em devaneios.

Temo pelo futuro.

Até porque, mesmo eleito, lulla da Silva estará sub judice, aguardando decisão do Tribunal Superior Eleitoral, por conta das recentes atividades criminosas de seus principais assessores pessoais, além de seu coordenador de campanha, também presidente de seu partido.

E mesmo que nada resulte desse julgamento, seu governo (se acontecer) estará manchado pelo crime, pela maracutaia, pela sem-vergonhice, pela baixeza. No Congresso, com toda a certeza, o bombardeio de S.Excia. e suas ações será constante, permanente.

E esse país perderá mais quatro anos, no mínimo, em sua lenta e arrastada corrida rumo ao futuro. Aquele ao qual pertencemos e nunca chegamos.

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quinta-feira, setembro 28, 2006

Subsídios - um outro porquê

Nunca passamos por uma situação de falta de comida nos mercados.

Creio que o mais próximo que estivemos disso foi durante o malfadado Plano Cruzado, no governo Zé Ribamar. A carne sumiu dos mercados devido ao controle artificial de preços. Mas estava viva, em pé, abundante, nos pastos de todo o Brasil. Ou seja, foi uma falta artificial que só gerou matérias nos noticiários e permitiu a geração espontânea de um monte de espécimes de “fiscais do sarney”, uma nova variedade da espécie Homo sapiens var. brasiliensis.

Mas os relatos da vida cotidiana nas cidades européias durante a I e a II Grande Guerra são dramáticos. A ausência total de gêneros alimentícios, o mercado negro, o desespero da fome levando a cenas inimagináveis, como gente comendo ratos... E não só. A memória difusa, o inconsciente coletivo ou o que quer que seja do europeu, tem marcadas lembranças de períodos de fome aguda até mesmo na ausência de guerras. Ainda no século XIX, a fome grassou e provocou vítimas em muitos cantões da atual Suíça. Todos os países europeus passaram por provações terríveis, com a fome trazendo a reboque doenças e mortes.

Acredito que eventos como esses ficam marcados no “DNA” das sociedades.

E também nas práticas e crenças dos governos, que nada mais são do que porções organizadas das sociedades a que servem.

(Aqui na Terra de Vera Cruz é a sociedade que serve ao Estado, numa lamentável inversão de valores...)

Talvez por fatos assim, os europeus, bem como japoneses, chineses e outros povos asiáticos, dêem tanta importância à manutenção de um pouco que seja de agricultura em seus países. Em nome de um mínimo de segurança alimentar numa emergência.

Claro, estamos no século XXI, e coisas assim, emergências desse tipo são inimagináveis. Pode ser. Mas era esse o pensamento dominante no final do século XIX, o Século das Luzes, e pouco depois o continente era mergulhado em verdadeira carnificina, que repetir-se-ia duas décadas depois.

A manutenção dos subsídios é sempre apontada como fruto dos grupos de pressão e acredito nisso. Esses grupos existem e são fortes, defendendo ferrenhamente seus interesses. Mas não acredito que seja só isso. Tenho cá comigo a certeza que, na hora do executivo encaminhar o projeto e na hora do parlamentar votar o projeto, lá do fundo, de algum lugar remoto do ser, vem a determinação clara e simples: vamos garantir um mínimo de comida nossa para nós mesmos.

E aí, azar nosso nesses terceiros mundos fadados a produzir comida barata e minerais idem, ao lado de industrializados poluentes.

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quarta-feira, setembro 27, 2006

A armadilha e o mito

O texto abaixo é a reprodução da coluna do Roberto Pompeu de Toledo, publicada na Veja dessa semana.


Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo

A armadilha e o mito

Quando se pensa que, pior do que
com Lula, pode ser sem ele, tem-se
o tamanho da arapuca a enredar o país

O Brasil está enredado numa armadilha. Essa armadilha se chama Luiz Inácio Lula da Silva. Um governo apanhado com a mão na massa* como nesse episódio do dossiê contra seus adversários teria necessariamente seu chefe submetido a processo de impeachment em países onde vigore um mínimo de ordem constitucional e de respeito pela lei penal. Foi o que ocorreu com Richard Nixon nos Estados Unidos. Foi o que ocorreu com Fernando Collor no Brasil. É o que não ocorrerá com Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula tem um invencível escudo a protegê-lo: a popularidade. Não se fazem processos contra presidentes no vazio político. Tanto Collor quanto Nixon só foram destituídos depois que as escoras políticas que os sustentavam, a popularidade em primeiro lugar, desmoronaram. Lula continua contando com ambiente político favorável. Freqüentemente se diz que a oposição errou ao não ter avançado um processo de impeachment lá atrás, no ponto alto do escândalo do mensalão. A oposição não errou. Não se atira com arma de tal calibre contra um presidente que tem a escora do povo, sob pena de fazer um mártir que, fora do governo, teria o poder de infernizar o país mais do que dentro. Eis a armadilha em que o Brasil está enredado: Lula, por ação ou por omissão, pode continuar a cometer seus desmandos, que o país está impedido de puni-lo.

Tem-se atribuído a popularidade de Lula a razões que vão das benesses do Bolsa Família à desinformação da maioria da população. É mais que isso. Lula não é um político. Não é nem mesmo uma pessoa. É um mito. É o retirante nordestino e operário metalúrgico sem um dedo que virou presidente, discursa na ONU e passeia de carruagem com a rainha da Inglaterra. Vá se derrotar um mito! Vá se querer destituir Hércules depois de ele ter cumprido os doze trabalhos! Vá se desafiar Teseu depois de ele ter derrotado o Minotauro!

Os que implicam com ele dizem que Lula deveria ter aproveitado o longo tempo ocioso que teve entre o abandono do torno mecânico e a posse na Presidência para estudar. Santa ingenuidade. Lula sabia que, se assim fizesse, estaria assacando contra o mito. Um Lula com diploma de advogado, falando inglês ou mesmo, mais singelamente, sabendo concordar o sujeito com o verbo, em português, não valeria metade do Lula que fala errado e tem como maior requinte intelectual as metáforas com o futebol. Seria mais um, como Juscelino ou Brizola, que começou de baixo e virou doutor. A construção do mito exigia a distância dos livros e o sacrifício da concordância verbal.

Lula foi igualmente sábio ao desprezar, depois de uma malsucedida candidatura ao governo de São Paulo e uma obscura passagem pela Câmara dos Deputados, qualquer cargo que não fosse a Presidência. A construção do mito também exigia um salto. Tinha de sugerir o movimento, vertiginoso como o de um foguete, irreal como o do sapo que vira príncipe, da condição de retirante à glória da Presidência. Degraus no meio do caminho amorteceriam a surpresa, para não falar no desgaste que os inevitáveis aborrecimentos em cargos menores poderiam trazer.

Mitos também morrem, é verdade. Mas, no caso do mito Lula, não há sinal do mínimo desgaste. Pelo contrário, sua posição nas pesquisas, num quadro de quase permanente estado de crise no governo, indica que está forte como nunca. Há quem especule com a hipótese de vir a querer um terceiro mandato, por meio de uma reforma constitucional que, à Chávez, revogue o limite de dois mandatos consecutivos. Talvez seja exagero. Mas, se tiver paciência para esperar quatro anos fora do poder, quem diz que não ressurgirá, vigoroso, aos 69 anos, na eleição de 2014? E que, vitorioso, parta para a reeleição em 2018, aos 73? O Brasil é culpado pela criação do mito. Não fossem suas mazelas, a começar pela pobreza e pela desigualdade, ele não encontraria terreno propício para prosperar. Agora, vê-se embrulhado na armadilha que o mito continha.

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Suponhamos, contra todas as evidências, que Lula não seja eleitoralmente tão forte. Suponhamos, contra o que indicam as passadas experiências, que desta vez o escândalo o engolfe, e que venha a perder a eleição. Ainda assim, o mito será forte o suficiente para fazer nascer um líder da oposição capaz de empalidecer o desempenho de Carlos Lacerda nesse papel. Imagine-se o que pode aprontar Lula, à frente de sua formidável equipe de sabotadores e caçadores de dossiês, contra o ocupante do Planalto que tiver a audácia de derrotá-lo. Imagine-se seu poder de incendiar o país, uma vez restituído ao posto de maestro da CUT e do MST. Vale a pena ver Lula derrotado? Quando se chega a cogitar que, pior do que com ele, pode ser sem ele no poder, aí se tem a idéia do tamanho da arapuca em que o país está enredado.

* "Massa", por especial cortesia às autoridades e respeito às donzelas, vai em lugar da palavra antigamente chamada de "palavra de Cambronne", hoje mais identificável como "palavra de Paulo Betti".

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domingo, setembro 24, 2006

Que ousadia!


Com certeza todos vocês já repararam nos anúncios “google” no alto da página.

Pois bem, estamos em época eleitoral e muitos candidatos descobriram os anúncios google. Ótimo, bom para eles e bom para os editores de blogs.

A princípio não me incomodei. Deputado fulano, deputado sicrano... Va benne.

Também não me dei ao trabalho de pesquisar se os candidatos eram mensaleiros ou sanguessugas. Devia ter feito isso, reconheço arrependido.

Mas não fiz, paciência.

Mas hoje, há poucos minutos, levei um choque.

Meu blog trazia no alto da página um anúncio de Antonio Palocci.

Não!

Mil vezes não!

Sob nenhuma hipótese.

E mais não falarei para não correr certos riscos.

Incontinenti, abri meu “template” e deletei a autorização e código para anúncios no Um Olhar Crônico.

Ora, francamente, era só o que me faltava!

Para quem chegou a ver tal coisa infeliz, minhas desculpas.

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Correndo atrás de bola


Já vai correr atrás de bola? Estudar que é bom, nada, né?

Quantas e quantas vezes todo brasileiro não ouviu essa frase na infância e adolescência? Incontáveis vezes, com certeza.

Mas correr atrás de bola não é prazer apenas de garotos, adolescentes e marmanjos de todas as idades.


Isso mesmo. A cachorrada adora correr atrás de uma bola.


Aqui em casa é uma bolinha de tênis, que um dia foi amarela.

Elas (4 fêmeas e um macho) ficam loucas pela brincadeira, esperam por ela e, se demora, pedem. Resmungam, fazem ar pidão, o terrível ar pidão que os cachorros são mestres em fazer. Resistir não há como.

E, no gramado, atiram-se atrás da bolinha com voracidade, como nenhum atleta por mais bem pago que seja consegue fazer.

Chocam-se, batem-se, rolam no chão, disputam duramente a posse do objeto tão cobiçado...

Tudo jogo limpo, todos os contatos são válidos, ninguém xinga, ninguém morde. Na disputa pela bola os cachorros são de uma civilidade que dá gosto de ver. E inveja.

A posse dela é transitória, como as taças valiosas. Dura o tempo necessário para correrem até o lançador, depositarem a bola aos seus pés e se colocarem de prontidão, à espera do novo arremesso.

São felizes assim.

Correndo atrás de bola.

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Bom partido suíço

Esta é a Roxane.


Ela é uma vaca Simental, vive na Suíça, em bonita fazendinha nos pés dos Alpes. Coisa de paisagem de cartão-postal, aquele tipo de postal e imagem que aprendemos a associa
r com bem-aventurança, abundância, paz e beleza.


Roxane tem outra característica: é um bom partido. Ganha 3 dólares por dia do governo suíço simplesmente para ser o que é: uma vaca.

Na Noruega também há bons partidos, ganhando seus 1.000 dólares por ano.

Esses pagamentos são ilustrativos dos famosos subsídios que os países ricos pagam aos seus produtores rurais para que possam manter-se no negócio de produzir alimentos. Enquanto eles se mantêm, seus colegas por todo o Terceiro Mundo vivem mal e porcamente às custas do mesmo negócio , essa coisa atrasada e sem charme ou importância que é produzir alimentos.

Esses mesmos países ricos que dão mil dólares por vaca, por ano, dão entre 61 e 84 centavos de dólar por habitante, por ano, como ajuda aos países pobres do planeta.

Os mil dólares de noruegueses e suíços representam o topo da tabela, mas os outros países não ficam muito atrás, inclusive a França e a Holanda e os Estados Unidos. Periodicamente, milhares de toneladas de manteiga e queijos produzidos por essas potências inundam o mercado internacional, derrubando drasticamente os preços e até inviabilizando a venda dos produtos locais. Ao charme insuperável de passar uma manteiga holandesa no pão nosso de cada dia, e comer um pedaço de um queijo americano ou francês, junta-se o preço convidativo, quase de graça, se pensarmos em toda a aura de qualidade e pureza que acompanham produtos de tão nobres origens.

Tais subsídios chegam ao cúmulo, em muitos casos, de serem pagos em dinheiro mesmo! Pena que produtor rural é tudo igual, e os caras usam o dinheiro para melhorar uma coisa aqui, consertar outra ali, na propriedade. Se pelo menos embarcassem para esses trópicos convidativos, deixando para trás o gelo do Wisconsin e da Noruega...

Por aqui o produtor de leite tupiniquim vai tentando sobreviver, recebendo entre 40 e 50 centavos de real por litro entregue. E recebendo com atraso, o que já é considerado bom negócio, pois não receber é parte do negócio. Na hora de comprar um farelo de alguma coisa – soja ou algodão, por exemplo – a faca entra fundo e remexe, matando o bolso do pobre coitado. E isso porque temos farelos pra dar e vender. Na hora de comprar uns tantos quilos de adubo para dar um trato, fazer um agrado aos pastos combalidos, nova cacetada. Deveria até escrever Cacetada, pois a danada é maiúscula de tão grande e bem desenvolvida que é.

Enfim, ontem começou a primavera.

No Sítio das Macaúbas já caíram umas garoinhas. Pouco, quase nada, longe de dar alguma garantia para jogar um pouco de adubo no chão. Mas já é um alento. Os preços continuam do mesmo jeito, baixo para o leite, altos para os insumos todos.

Enquanto isso, na Suíça, as vacas já começam a passar mais tempo em belos e climatizados estábulos. Um deles custou a bagatela de US$ 600,000.00 – mas é uma beleza. Daniel Jouan, o feliz dono da não menos feliz Roxane, tem um lucro líquido de US$ 80,000.00/ano. E diz, sem constrangimento, que 70% de seu faturamento é dado pelo governo, e não pelo que produz e vende para o mercado.

É... ser vaca na Suíça e na Noruega é muito bom.

E como toda vaca dessas terras é um bom partido, melhor ainda é ser dono de vaca em tão aprazíveis países.

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quinta-feira, setembro 21, 2006

Vai bem o bananal

No decorrer do governo Fernando Henrique, acostumei-me a ler o Clóvis Rossi, articulista da Folha de S.Paulo. De vez em quando ele falava bem do governo. Do presidente falava bem mais vezes do que do governo. Não gostava muito, mas era importante para me manter centrado, acompanhando e defendendo o governo, mas sem estar desatento ao que a oposição falava.

E a oposição falava, falava, falava. Falava demais da conta, falava muita besteira, tanta que, sinceramente, era até difícil acompanhar. Mas o Clóvis Rossi acompanhava tudo, filtrava e dava destaque ao blábláblá que não era muito inútil. Confesso que até concordava com uma coisa e outra.

Conto essas coisas para situar um pouco esse jornalista. Mesmo não concordando com sua visão generosa sobre o PT, Lula (atual lulla) e petistas diversos, confiava nele e em sua honestidade.

Confio até hoje.

“Só em um país de seriedade zero, como o Brasil, o presidente da República pode continuar a pretender ser inocente quando os seus mais graduados assessores têm contas a prestar à polícia e à Justiça.
Com a queda de Ricardo Berzoini, presidente do PT, do cargo de coordenador de campanha, tem-se o seguinte: todos os dois homens que exerceram papel idêntico ou similar nas duas campanhas de Lula caíram por algum tipo de trambique. Antonio Palocci, coordenador do programa de governo na campanha de 2002, por abuso de poder, ao determinar a violação do sigilo bancário de um caseiro.”

A citação acima é o primeiro parágrafo da coluna de hoje, 21 de setembro, de Clovis Rossi, na Folha de S.Paulo. Tem mais um pouco.

“A queda de Berzoini atinge o terceiro presidente consecutivo do PT, depois de José Dirceu e José Genoino, todos também baleados pela onda de escândalos em que se especializou o lulo-petismo.”

E mais um pouquinho, para finalizar.

“Como se não bastasse, cai também um assessor de Aloizio Mercadante (que, não surpreendentemente, diz que de nada sabia). Prova definitiva e cabal que meter a mão em matéria fecal tornou-se hábito disseminado por todos os cantos e correntes do PT. Nem em república bananeira se vê mais uma história tão sórdida, tão baixa.”

“Nem em república bananeira se vê mais uma história tão sórdida, tão baixa.”

Há muito tempo alterno minhas referências a Pindorama entre bananal, imenso bananal, Terra de Vera Cruz e, de vez em quando, talvez por preguiça – sou bananeiro! – até o nome Brasil eu uso. Mas nada como bananal. Explica tudo. Agora com aval do Clóvis Rossi.

É chato dizer, mas isso também significa que somos todos bananeiros. Não há como negar, não há como fugir a isso.

Infelizmente.

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quarta-feira, setembro 20, 2006

Primavera?



Será que ela tá mesmo chegando?

Não como data da folhinha, mas como realidade?

A previsão que aparece aqui no blog indica 11 mm para amanhã, em Santa Rita do Passa Quatro.

E aqui na Granja as trovoadas deram lugar ao barulho da chuva caindo forte.

Bom demais!

Chuva, chuva, chuva...

Que tenha vindo para ficar.

Todos os homens do presidente

Nos Estados Unidos é título de livro e de filme.

No Brasil do século XXI é a resposta a uma pergunta simples:

- Afinal, quem são as pessoas envolvidas em tantos crimes e falcatruas?

- Todos os homens do presidente.

Todos os homens do presidente...

Desculpem pela repetição, mas ela atordoa. Experimentem, repitam mentalmente.

Não é atordoante?

Da posse, em 1º de janeiro de 2003, até hoje, nada menos de 21 pessoas próximas ao presidente foram envolvidas em crimes, inclusive os dois ministros mais poderosos da república. Se somarmos a essas pessoas os homens e mulheres do partido do presidente, aí a coisa fica mais interessante.

E daí?

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