quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Voando sobre a Amazônia




Parece que a negociação para conseguir um avião por um preço bom foi meio difícil, mas finalmente chegou-se a um acordo e tivemos nosso avião para nos levar de Manaus para Itacoatiara e, lá, sobrevoar a cidade e a região sem a porta direita, para que pudéssemos gravar e fotografar.

No Aeroclube conheci Rodrigo, o piloto. Fui com a cara dele desde logo. Gosto de voar com quem já traz no rosto a experiência de muitas horas de vôo, como era o caso dele: 55 anos de vida, 36 de pilotagem e 29 malárias nas costas. Esse é outro ponto importante: piloto bom e experiente nas coisas e manhas amazônicas, ele voou pelos garimpos da vida e não só por eles. Suas muitas malárias são um bom testemunho disso. Voar para os garimpos implicou em enfrentar as mais diferentes condições de tempo, descer nas pistas mais improváveis e delas subir. Pequenos detalhes que nos dão confiança ao embarcar.

Se nosso piloto era experiente, o avião o era um pouco mais: tinha 39 anos de vida, nada menos. Em vários pontos essa idade se manifestava de forma, digamos, inequívoca. Mas eram pontos não muito importantes. Nos itens que realmente contavam, como o motor, as asas e as pequenas abas móveis que, na verdade, fazem o avião subir e descer, tudo parecia em ordem, rodando direitinho com um barulho pra lá de saudável. Era um avião que podia se virar sozinho por aquela Amazônia toda. E foi com essa dupla experiente que decolamos do aeroclube de Manaus, com o tempo fechado e nuvens baixas. Curiosamente, o binômio piloto/avião deixou-me absolutamente tranqüilo. Aliás, essa é uma coisa curiosa: estar num avião pequeno, sentado ao lado do piloto – sempre “sobra” para mim o assento ao lado do piloto – me deixa absolutamente tranqüilo nas decolagens e aterrisagens, ao contrário do que ocorre nos grandes jatos, nos quais fico sempre temeroso nas decolagens. Vai entender...

De Manaus a Itacoatiara são quase 300 km de distância, num vôo fácil e até gostoso, sem pulos e sobressaltos, todo ele tendo o Rio Amazonas no visual, à nossa direita. A cheia ainda está longe de seu auge, que deverá ocorrer só em março, mas a quantidade de água por essa terra é fantástica! É muita água, apagando a memória triste dos lagos secos e dos rios estreitos e rasos que víamos há pouco mais de sessenta dias.

Voar pela Amazônia é muito mais tranqüilo hoje, graças ao SIVAM. O Centro Manaus nos acompanha minuto a minuto, sabe exatamente onde estamos. Os aviões têm transponders que garantem sua localização precisa. Quando fiz meus primeiros vôos pela região, mesmo essa rota arroz com feijão era de meter medo. Qualquer coisa errada e babau, adeus, sumia-se no meio da mata fechada.

No trecho Porto Velho/Manaus conheci um técnico de um dos organismos que nasceram sob as asas do SIVAM. Ele é da Polícia Federal, engenheiro, especialista em cartografia e georeferenciamento, lotado em Porto Velho. Perguntei sobre a Lei do Abate, se havia resultado em algo benéfico e, segundo ele, os vôos clandestinos caíram em mais da metade. Os traficantes passaram a optar pelo transporte fluvial e terrestre das drogas, aumentando as chances de interceptação. Que ele saiba, houve apenas um caso de intervenção dos Tucanos da FAB, obrigando um aparelho a se identificar sob pena de ser abatido. A identificação foi feita e o avião pousou num aeroporto próximo, sob vigilância, onde foi revistado. Não são apenas os aviões de carreira que voam, o tempo também se dá a esse luxo e, portanto, já está na hora dos equipamentos originais do sistema serem trocados ou receberem upgrades. Mais uma medida importante e necessária que provavelmente só irá ocorrer daqui a alguns anos, quando a aparelhagem estiver moribunda.





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Um comentário:

Maria Helena disse...

Bom ter notícias e saber que a viagem está indo bem, melhor saber de um Brasil que dá certo, pois antes do SIVAM a coisa era feia.Resta saber se vão manter. Abraços.