quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Uma boa notícia



A Rosa chegou da cidade e a primeira coisa que fez foi me estender um dos jornais de Santa Rita do Passa Quatro, no caso um exemplar do Santarritense. Logo na capa, em manchete total, a prisão da quadrilha que vinha nos atormentando a todos nos últimos anos. E, tão bom quanto a notícia, as fotos dos sete presos. Bem no meio da fileira de fotos, o Rafael. Confesso que para minha tristeza. Numa das pontas, o sucateiro que há apenas duas semanas tinha passado por aqui e recolhido nosso lixo aproveitável.

Que alívio!

Mas vamos por partes.

A situação nos últimos dias estava meio assustadora. Os bandidos tinham invadido um sítio vizinho e, não satisfeitos com o roubo, bateram e judiaram muito do Sávio, caseiro do sítio e com quem converso ocasionalmente. Ele é irmão do Zé Augusto, grande figura, mora em outro sítio próximo, e que deu uma mão pra gente em diversas oportunidades. E cujo café, confesso, sou ocasional filador. Os vagabundos entraram no sítio, renderam o Sávio, amarraram-no e desceram o porrete, ao ponto de quebrar-lhe alguns dentes e uma costela (ou duas).

O Sávio reconheceu as vozes dos vagabundos. E delatou-os para a polícia, um por um. Diligências foram armadas, campanas realizadas e em poucos dias, os sete foram presos duma só vez. Mesmo assim, ficaram três de fora, mas é questão de tempo para que ocupem uma horrível cela em alguma cadeia da região e depois num presídio.

Essa turma era de todos conhecida, mas a polícia nunca conseguiu um flagrante e nunca houve uma denúncia consistente e com a qualidade da denúncia feita pelo Sávio, que permitisse a prisão dos bandidos. E investigação... Bom, vamos & venhamos, essa história de investigação cientifica e coisa e tal, só acontece mesmo em grandes crimes. E mesmo assim... Verdade seja dita, um sobrinho dele, investigador em um município próximo, empenhou-se e foi a fundo na história, colaborando com a polícia de Santa Rita do Passa Quatro (ou vice-versa, tanto faz).

Dessa vez tudo deu certo. Nas casas de vários dos acusados foram encontrados objetos roubados. E, ao que parece, alguns passarinhos já cantaram. Ótimo! O histórico de roubos é grande, eu fui apenas uma das muitas e muitas vítimas. O velhinho que tomou um tiro no peito meses atrás, quando roubaram a fiação de cobre do transformador elétrico em seu sítio é outra das vítimas. Escapou da morte por muito pouco, depois de alguns dias numa UTI. Mas as seqüelas do tiro continuam com ele. Certamente vão abreviar o tempo que ainda tem de vida, além de deixar esse tempo pior, mais sofrido, mais dolorido, mais doloroso.

Essa quadrilha é a mesma, também, que rouba gado, tanto para repassar em pé, como para carnear, como fizeram com a Giselle, a novilha Jersey prenha de 6 meses, tirada do curral e carneada na beira do asfalto, onde agora fica a casa do Esrael e da Maria.

E agora, o Rafael. É um rapaz novo, boa pinta, do tipo que as meninas suspiram. Tem uma bela moto, grande, não uma simples “125” como são as motos em sua maior parte. Mas não é muito dado ao trabalho, o que pode ser um problema numa região agrícola e pecuária, onde o trabalho é duro, pesado e contínuo. Apesar de alguns alertas – olha, esse rapaz aí, o Rafael, sei não, parece que não é boa gente – contratei-o em algumas oportunidades, até porque, por incrível que pareça, há carência de mão-de-obra na região, sistematicamente. Trabalho não falta, mas falta quem queira fazê-lo, dá pra entender? Pois é, diante disso, o jeito é contratar quem está disponível e não quem é desejável. Dessa forma, lá ficou o Rafael por uns tempos. Mas, desde cedo revelou-se meio saidinho e meio curioso demais. Ao encontrá-lo numa tarde de domingo pegando frutas com a namorada e sua família, sem nos avisar, achei que era o bastante e não empreguei-o mais. Não pelas frutas, pois toneladas se perdem no chão, mas pelo à vontade indevido e excessivo.

Nos últimos tempos, tanto o Miro como o César chamavam-no regularmente para ajudar nas granjas. Tanto foi que, num baita susto, a polícia chegou na casa do César e da Rose procurando pela figura. Informados que ele estava trabalhando no Miro, foram para lá e ficaram à espera por dois dias. Finalmente, ele apareceu e foi capturado. O Miro ficou muito desgostoso com tudo isso, e eu nem consigo imaginar o quanto. Deve ser muito duro ter a polícia de tocaia em casa esperando por um bandido. Um cara que compartilhou da vida da família, da casa, da comida, da confiança. Uma pena.

Na manhã de segunda-feira, enquanto ia fazendo fogo no fogão a lenha, graveto por graveto, galho por galho, interrompi o prazer do amanhecer do dia para pensar no rapaz, que, provavelmente, estava acordando na cela naquele momento.

Deve ser muito triste acordar numa cela, deixar para trás a bênção do sono e quiçá dos sonhos, abrir os olhos e deparar com a realidade triste, amontoada, fedida, apertada e assustadora de uma prisão. E saber que o dia inteiro e muitos outros mais serão passados ali, do mesmo jeito.

Horas mais tarde, na delegacia, perdi qualquer resquício de pena. Fui até lá para tentar reconhecer algum dos objetos roubados, porém em vão. Na conversa com os policiais, falaram assim do Rafael:

- Ah, esse é frio, viu? O rapaz é frio mesmo, um dos piores.

Ser qualificado como “frio” pelos policiais é sinônimo de bandido mesmo, consciente do que fez e nada arrependido. É, também, o tipo de sujeito que não costuma se dar mal na prisão.

Pena? Nenhuma.



Um p.s. que também é uma boa notícia


Dias atrás, o Scarpa, pai do Ismael, pegou seu dinheirinho do mês no banco, fez umas compras e foi caminhando pro ponto do ônibus em Santa Rita do Passa Quatro. Aí, caiu um baita toró e ele, cheio de sacolas, abrigou-se numa casa em obras. Passada a chuva, saiu correndo para não perder o ônibus pro sítio – ele mora num dos sítios vizinhos, com os quais o meu faz divisa de cerca.

Ao chegar em casa deu conta que tinha perdido a carteira com os documentos e todo o sagrado dinheirinho, quase quinhentos “conto”.

Bateu o desespero. Voltou, procurou, procurou e nada. Foi pras rádios e pôs um anúncio. Foi pra polícia e quis fazer um B.O., mas não fizeram, não havia porque.

Dois dias depois, esperanças já perdidas, apareceu um rapaz no sítio. Um pedreiro, pessoa simples. Devolveu-lhe a carteira e os documentos e todo o dinheiro.

Replay:

“...todo o dinheiro.”

Para localizá-lo, foi até uma das rádios e conseguiu o endereço aproximado do sítio.

Depois de muita insistência do Scarpa, aceitou uma nota de vinte reais, até pra pagar a gasolina pra chegar até ali.

É, nem tudo está perdido, né?


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2 comentários:

Wagner disse...

É por essas e outras que eu não tenho mais vontade de voltar para o Brasil. Aqui na Terra do Sol Nascente, apesar dos apartamentos serem verdadeiros "apertamentos", a sensação de segurança de se morar numa casa de "madeira e papel" e sem grades é fantástica. Um lugar onde um "trombadinha" roubando a bolsa de alguém vira manchete.
http://mdn.mainichi-msn.co.jp/national/news/20060221p2a00m0na027000c.html

Maria Helena disse...

Que coisa impressionante.A gente nunca acha que vai acontecer assim tão perto. Só que agora o perto e o impossível estão ficando comuns. Boa a última história. Serve prá não se perder a esperança.