domingo, fevereiro 26, 2006

Feriado no Mercadão


Faço um certo charminho quando tenho que ficar em São Paulo num feriado ao invés de ir pro sítio, mas é só um “certo charminho” – minha avó e minhas tias dariam a isso outro nome, não tão educado. O fato é que é muito gostoso ficar nessa cidade num feriado prolongado, pois é quando a verdadeira e bonita São Paulo se mostra, realmente, por inteiro. Com alguns milhões de pessoas e carros a menos, a cidade respira e mostra suas infinitas faces e lugares dignos de serem conhecidos e frequentados. Nessa São Paulo despovoada de gentes e máquinas, as pessoas que sobram ficam mais tranqüilas – exceto dentro dos shoppings, sempre lotados – e o clima, não o do tempo, mas o do humor, se torna mais agradável a um estalar de dedos, da noite para o dia. O mesmo não se pode dizer dos paulistanos paradoxalmente parados nas muitas rodovias maravilhosas, de várias pistas, projetadas para altas velocidades, bem superiores às permitidas pelas placas e radares. O problema, porém, não chega a ser tão grave, afinal, no fim da estrada tem o pote de ouro da praia, do campo, das montanhas, da casa da mãe ou das tias.

Voltando para São Paulo, um dos lugares gostosos e atraentes da cidade é o Mercadão, o Mercado Municipal de São Paulo, no Glicério, ao lado do Parque Dom Pedro, que já foi um lindo parque e há décadas não passa de mero suporte físico para ônibus, automóveis, caminhões e metrô, rota de passagem dos caminhões que vêm do porto de Santos a caminho das Marginais e rota, também, para boa parte dos moradores da Zona Leste que vão para o Centro Velho (é importante esse adjetivo na frente do substantivo, pois São Paulo tem o Centro Novo, que já é muito velho, dando lugar ao “Centro” da Paulista, já destronado pelo “Centro” Berrini, a caminho de ser destronado pelo “Centro” Marginal Sul, bem pertinho dele; nesse ritmo, em alguns anos o “Centro” do momento já estará perto de Curitiba).

Projetado por Ramos de Azevedo e construído entre
1926 e 1933, o Mercadão foi considerado, com seu enorme pé direito e vitrais importados da Alemanha, muito sofisticado, à época, para a finalidade a que se destinava, que era, basicamente, dar aos pequenos comerciantes de gêneros alimentícios um bom local para se estabelecerem, e onde a população que crescia rapidamente pudesse fazer suas compras com mais conforto. O local foi bem escolhido, pois além de central, estava na margem esquerda do Rio Tamanduateí, pelo qual canoas e barcos traziam parte da produção para abastecer os comerciantes. Atualmente, o mercado tem pouco mais de três centenas de boxes onde são comercializados peixes, carnes, frutas, laticínios, especiarias – ah, especiarias, palavra que a gente leu incontáveis vezes nos livros de história – penduradas em saquinhos, algumas custando o preço do ouro, que mesmo barato hoje, ainda é caro o bastante para fazer olhos se arregalarem e expressões de espanto saírem de bocas de donas e donos inconformados. Às vezes é melhor não perguntar pelo preço do grama da trufa, mesmo que a negra, mais em conta. A Rosa comprou baunilha. Uma pesquisa básica em alguns boxes foi o bastante para achar a mesma porção, ou melhor, o mesmo “graveto”, custando entre dezoito e nove reais. Sem diferença aparente, é bom frisar. O Mercadão é o local certo para quem ama bacalhau. Minha visão fica, digamos, enternecida e minha boca cheia d’água só de ver as portentosas peças de filés. Não há como resistir a essa visão e algum pedaço de um daqueles filés tem que seguir o caminho do nosso forno, ao encontro das nossas batatas, azeitonas e pimentões. Ah, sim, azeitonas e azeites, outro capítulo especial e rico em variedades, cores, origens e preços.

Num dos boxes tidos como sofisticados, matriz de um empório famoso pela qualidade de seus produtos, a maioria importados (mas onde se encontra, também, as melhores cachaças vindas das Geraes) e com lojas em reluzentes shoppings, encontro um de seus proprietários, trabalhando duro como sempre desde as primeiríssimas horas da manhã. Nosso conhecimento se deu unicamente através das compras esparsas feitas no decorrer de muitos anos, sempre com alguns minutos de prosa agradável e informativa. Seguindo suas indicações, saímos de lá com algumas garrafas de honestos vinhos italianos e um honestíssimo, saboroso e barato Porto. De quebra, um filão de pão italiano há pouco saído do forno da padaria no Bixiga. Nada como as amizades...



Parei numa charutaria e fiquei por ali alguns minutos. O espaço pequeno, apertado, quase todo tomado por rolos de fumo vindo de diversas partes do Brasil. E todos os outros ingredientes comuns a uma charutaria. Essa pequena loja não tem cheiro, tem aroma. Como cheira bem uma charutaria! Coisa danada de estranha, na verdade. Porém, se pensarmos bem, o que realmente cheira muito mal e, principalmente, faz muito mal à saúde de fumantes e agregados, é o cigarro moderno, cheio de teretetês químicos e venenosos. Não me parece que os velhos fumos em corda façam tanto mal assim. E se considerarmos o tempo necessário à feitura de um único cigarro de palha, aí então não tem jeito, dificilmente um sujeito consegue fumar mais de meia dúzia por dia. Parece menos nocivo que o outro, né? (Só espero não ter escrito nenhuma grande besteira.) Pra não curtir todo aquele perfume de graça, comprei duas pilhas alcalinas para a minha câmera. Acho que fui justo com o dono da charutaria nessa troca.



O mercado é rico em frios, em embutidos. Muitos vêm da Espanha, Portugal e Itália, mas a maioria, assim como os queijos, é daqui mesmo, dessa fértil e pródiga Terra de Vera Cruz. Não passam todos de pedaços cheirosos de tentação, cada um pior que o outro. Esse pior aí detrás é o equivalente tristemente irônico de melhor. E por que tristemente? Porque, nós, humanos modernos e bem informados, sabemos das taxas inflacionadas de colesterol que esses acepipes contêm. Sem falar em gorduras desse e daquele tipo e outras coisinhas mais, como pimenta-do-reino. Felizes eram nossos ancestrais que disso tudo nada sabiam, mas comiam bem e de monte, tudo na banha de porco – tem lá no mercado, também – e trabalhavam duramente, provavelmente queimando nesse trabalho os colesteróis e gorduras mono e polissaturadas da vida. E por falar em banha de porco, embutidos e lindas peças de toicinho, um dos boxes, muito bem montado, por sinal, chama-se “O Porco Feliz”. Não consigo imaginar um porco feliz por estar ali, transformado em linguiças e salsichas, toicinhos, banha, defumados, logo, esse nome não deve passar de uma licença poética.

Pouco depois de chegar, em conveniente jejum matinal, fomos comer o famoso pastel de bacalhau do Mercadão. Bom prato, sem dúvida, e enorme, e super-recheado. Um pastel sozinho é uma refeição e tanto. Mas a fama do pastel não lhe fez muito bem. A massa continua ótima, gostosa, como um bom pastel paulista deve ser, mas o recheio exagerado tornou necessário o uso de bacalhau sem a mesma qualidade dos que eram utilizados no pastel antes de ficar famoso e virar atração turística. Assim mesmo não estava ruim, e comi com satisfação, acompanhado de café com leite e depois um suco de uva feito com polpa de uvas escuras. Nada mais saudável, exceto uma boa taça de um bom tinto.

Nesse verão, o bom é chegar bem cedo, por volta de seis da manhã, como fizemos. O trânsito é fácil, a viagem é rápida, sempre tem lugar no estacionamento do próprio mercado e, o melhor de tudo, quando a gente vai embora o sol está alto, mas ainda não começou a queimar e o dia está todo pela frente. Um dia inteiro para nada mais fazer na megalópole cheia de coisas para fazer e já abastecidos de coisas gostosas para comer. Que delícia!


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Um comentário:

démmer disse...

sinceramente, São Paulo é uma das cidades mais inspiradores que existe. Saudades da Paulista.
Voltarei mais vezes aqui.
Abraços.