quinta-feira, dezembro 29, 2005

Pastel com pomba





Nem tanto, nem tanto, ainda não chegamos a esse ponto, felizmente.

Depois de deixar minha mãe na rodoviária, paramos na feira do Pacaembu, não para fazer a feira, mas simplesmente para comer pastel. De todas as muitas, inúmeras comidas paulistanas, poucas têm tanto a nossa cara como o pastel.

Comemos na barraca da Dona Maria. Na verdade, uma das barracas da Dona Maria, pois o negócio cresceu. Não ficarei admirado se um dia virar McPastel. Ela é de Osaka, está no meio dos 50, e o pessoal que trabalha com ela é tudo brasileiro, do Nordeste, Minas e São Paulo. Todo mundo uniformizado, bonitinho, limpo, nos trinques. Na barraca tudo bem arrumado e limpo também. A gente olha e não perde a vontade de comer, pelo contrário... Infelizmente.

Olhei a relação de sabores pendurada num cordão... Queijo com rúcula e tomate seco é minha primeira pedida. Depois, arrematado por um que ela criou a partir da observação dos hábitos de seus funcionários nordestinos, que não deixavam de comer carne seca por nada. Assim, criou o pastel de carne seca. Muito seco, não fez sucesso. Passou a cozinhar a carne, desfiada, com um monte de temperos e também colorau e, por fim, colocando o sagrado queijo nosso de todo dia junto com a carne, tudo envolto pela massa e levado à frigideira onde o óleo está sempre superquente. É, ficou um belo pastel, bonito de ver, gostoso de comer. E com “sustança”, não resta dúvida.

Cedo à gula e ao hábito e termino o almoço – sim, nessa altura, quase onze da manhã, esse lanchinho virou o almoço – com um terceiro e derradeiro pastel: o de pizza, com tomate e manjericão agregados ao queijo. Realmente, três é um pouco demais, o que explica minha lamentável forma física. Mas é gostoso e, ainda por cima, barato. Cada pastel sai por um real e cinqüenta.

O que destoou dos pastéis foi o caldo-de-cana, comprado na barraca ao lado. Tudo em ordem com o caldo em si, mas não pro meu gosto. Por algum motivo insondável, o povo de São Paulo decretou que limão e abacaxi combinam com a garapa. Vox populi vox dei, né? Já é difícil conseguir uma garapa pura.

A garapeira pergunta, educada, se eu quero abacaxi ou limão e eu, no limite da educação, a grossura já tentada pela oferta, respondo com um seco e curto “Puro, por favor”, com a cara de poucos amigos que me é peculiar quando contrariado.

Enquanto ela passa a cana na moenda, fico pensando que deveria ter pedido uma diet-cola da vida. Mas agora é tarde, o caldo está pronto, servido e pago. Beberico... Arghhhhh! Como já era sabido, o gosto do limão contamina, polui a garapa. Tanto limão já foi passado para atender a esse (des) gosto que a máquina, ela própria, já provê o limão para a freguesia. Com abacaxi fica tão ruim quanto. Nessa coisa de garapa sou conservador e mais ortodoxo que rótulo de maizena, ou ela é pura ou não é garapa.

Bom, ao fim e ao cabo comemos bem. E bem também comeu o guri que nos pediu um pastel logo ao chegarmos. Não dou dinheiro, mas jamais recusei um pedido de comida ou bebida – não alcoólica, claro. E o guri comeu com gosto um belo pastel de carne.

Enquanto tudo isso se desenrolava nas altas esferas para cima da linha da cintura, senti um pisão no meu pé. Fora provocado pelos trezentos ou quatrocentos gramas de gorda pomba preta. Ao lado dela, outras três ou quatro, todas comendo as migalhas de pastel já no chão e mais as que caíam de nossas mãos e bocas, indiferentes a nossos pés ao ponto dessa atrevida simplesmente pisar-me por cima do tênis para ganhar tempo e chegar primeiro a uma gorda migalha. Diante disso, só me restou aumentar o percentual de pastel perdido na forma de migalhas. Perdido, não, achado pelas pombas.


Essa é a minha São Paulo.



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2 comentários:

Nelsinho disse...

Dizem que não é muito correto dar comida às pombas, mas eu não resisto e dou mesmo!
Se eu estivesse junto com você, por certo não comeria o pastel (não sou nada chegado a isso), mas compraria pro guri e para as pombas!

Tenha uma passagem de ano com muita festa e diversão!

Nelsinho

Anônimo disse...

Olha, eu comeria os pastéis, beberia a garapa, compraria o pastel para o menino (Também não dou dinheiro)e claro, alimentaria as pombas, coitadas, que já estão quase usando terno prá sobreviver nessa selva humana.
Emerson, um ano novo bem feliz prá você e toda a família.
Maria Helena