terça-feira, dezembro 20, 2005

Havia esperança na angústia

Faço tudo errado, vou digitando palavras de um texto que se pretende (ia) sério, mas mantenho a televisão ligada, mostrando o passeio do time do São Paulo pela cidade, anestesiando minhas dores e amortecendo sentimentos outros que não o prazer fugaz de uma vitória no futebol. Coisa de pobre mesmo. Pior, coisa de alienado. Mas, quem se importa?

“Havia esperança na angústia.”

Essa frase, pinçada da crônica do Jabor de hoje, a cinco dias do Natal de 2005, ocupa meu pensamento desde que a li um pouco mais cedo. Na crônica, ela se refere aos anos 60, mas eu a vivi nos anos 70. Embora duros, pesados, perigosos, angustiantes mesmo, a esperança de um mundo melhor e mais gostoso para viver tomava conta da gente, era o sonho sonhado acordado e sonhado também à noite. Hoje, a angústia vive sozinha em nossos corações.

Um surto de saudade me toma e dá vontade de complementar essa frase anterior, dizendo que a angústia, dialeticamente, perdeu sua antítese, a esperança, configurando um quadro impossível, criando um vácuo que não pode existir, e que será preenchido pelo caos. Muito de tolice, um pouco de razão.

Mesmo antes do 9/11 já vivíamos desesperançados. Consumir mais e vencer sempre já eram os focos de vida dominantes. E há uma impossibilidade física, até, em ambos. Esqueçamos a metafísica – aliás, há muito não vejo tal palavra nos jornais e na internet acho que nunca a vi... por que será? – e fiquemos pelo mundo real mesmo. Não dá pra só ganhar, não dá pra consumir e só consumir. Há limites e há, ao mesmo tempo, um grande vazio. Porque, ao fim e ao cabo, findo o consumo e passada a vitória, o que resta é um vazio imenso.

O que é pior é que muita gente tem preenchido esse vazio com Alá, com Deus, em suas versões mais punitivas, mais cruéis.

Faz muita falta a esperança.


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Um comentário:

Teresa disse...

Nossa Emerson, lindaço esse seu texto de uma profundidade incrível...preciso pensar e relê-lo para então comentá-lo, só sei que o vazio tem sido meu amigo íntimo nesses tempos sombrios.