sábado, dezembro 10, 2005

Fora do mundo

Vagas recordações de dois anos de biologia, meia dúzia de leituras incompletas e, principalmente, cinco ou seis anos de doses semanais de E.R., deram-me razoável conhecimento medico e biológico. Na verdade, biológico e médico, afinal, a medicina nada mais é que um ramo, uma ferramenta, uma aplicação da biologia. Munido desse conhecimento e mais uma porção não desprezível de convencimento e auto-suficiência, entendo bem um papo médico e seus jargões. Disfunções, patologias, tromboses e termos assemelhados não me espantam, compreendo-os, avalio e concluo, o bastante para calar minha boca e guardar para mim mesmo o que ouvi, traduzi e entendi.

Tudo isso, entretanto, não me preparou para os acontecimentos, infaustos, dessa última segunda-feira. Que se prolongaram, sofridamente, pela terça, pela quarta e, nessa noite de sexta já entrando na manhã de sábado, atrevo-me a dizer que a coisa continua. O pior dela é sua incompreensibilidade para mim. Meus conhecimentos são parcos e inúteis, infinitamente mais vagos que minhas recordações biológicas.


- É grave?
- Olha, não vou enganar o senhor, é grave, sim; o sistema foi comprometido e vamos ter que abrir, além de explorar de fora ao máximo com os instrumentos de que dispomos.
- Mas não é possível, ele estava ótimo ontem a noite, nada aparentava...
- Eu entendo; é, essas coisas eu entendo, e entendo a velocidade delas em se instalarem e detonarem.
- Bom, então vai ter de abrir?
- Infelizmente.
- Ok, o que não tem remédio, remediado está, né? Mãos à obra.

E, com essa frase final, deixei meu computador na oficina (o pessoal gosta de chamar de laboratório, continuo achando que é oficina mesmo) e vim pra casa. Solitário, triste, carente, confesso que meio perdido. Desconectado do mundo e suas mudanças, incomunicável, ausente. De que adiantam as linhas telefônicas de casa, meu celular, o correio, a tv paga e as dezenas de canais? Ok, tem o jornal diário, mas sua função básica é alegrar e dar prazer maior ao meu café-da-manhã. Gosto de sentar à mesa, caneca de café-com-leite, pão com manteiga e o jornal aberto à minha frente, necessária e obrigatoriamente no caderno de esportes. Esse ritual é antigo. Se eu tenho hoje 51 anos, ele, ritual, tem lá seus bem cumpridos 42 ou 41 anos de vida. Claro, no começo não era assim, diário, até porque o jornal – se a memória não me falha – circulava de terça a domingo. Isso, de cara, me deixava sem a segunda-feira, mas como eu era garoto e pobre ainda por cima, só comprava o jornal aos domingos e um dia ou outro da semana, geralmente às quintas-feiras, afinal, jogava-se futebol nas noites de quarta, coisa que não mudou. Estabelecido na vida, casado, com endereço próprio e algum dinheiro, a primeira providência foi “virar” assinante. Grande passo, grande mudança de status. Comecei a me sentir, de fato, como “alguém” na vida. Desde então, mudou o caráter dos meus cafés-da-manhã, agora ilustrados e ampliados quase ao infinito pela presença do mundo na minha mesa, ao lado do pão e da manteiga (que já foi margarina, até perceber a tolice de comer margarina insossa ao invés da manteiga saborosa).

Com tudo isso, meu texto, pra variar, se perdeu no caminho. A muito custo me lembro que escrevia sobre o computador, ou melhor, sua ausência. E como nenhum outro meio, nenhum outro veículo consegue substituir a rede presente no computador. O meio é mais, muito mais que a mensagem.

E o que acontecera, afinal? Aparentemente, um grave conflito interno entre softwares de proteção. Pelo jeito, devoraram-se e devoraram seu protegido. Foi assim: na manhã de segunda-feira entrou na tela o aviso que a proteção do Norton expirara de vez. Estava abandonado e desprotegido perante as hordas invasoras que assolam a rede. Meio aborrecido com o Norton e a lentidão que ele provoca, pensei em instalar o AVG. Fui ao site e baixei sua última versão, com firewall e tudo, com direito a 30 dias de uso experimental. Oba!

De repente, não mais que de repente, a tela entrou em modo de segurança. E dele não mais saiu. Uma consulta telefônica levou-se à primeira descoberta: deveria ter desinstalado o Norton antes de instalar o AVG. E ao primeiro passo prático: desinstalei os dois, desinstalei tudo. O computador saiu do modo de segurança, é bem verdade, mas deixou de acessar a internet. Computador sem internet e xícara sem café são a mesma coisa, né? Coisas inúteis. Em resumo, foi isso que me levou à oficina, isso que me levou a ouvir o diagnóstico terrível, isso que me deixou fora do mundo por dois dias e meio. Claro, a oficina estava lotada. Claro, todo mundo quer seu computador funcionando pra ontem ou pra anteontem. Claro, todo mundo que tinha computador à frente do meu na oficina era cliente maior e mais assíduo (azar deles, oras!). Claro, o amigo do meu filho e fera em computador, estava viajando a serviço, longe das minhas perturbações costumeiras. Claro, portanto, que eu estava abandonado, triste, carente, incomunicável, etc e tal.

Na terça-feira, a noite chegando, feliz e satisfeito, retirei meu “Precioso”. Não cheguei ao ponto de acaricia-lo e ficar dizendo tolices para ele, mas faltou pouco (se você não sabe o porque desse “Precioso” é porque não leu ou não assistiu ao “O Senhor dos Anéis” e, sendo assim, nem adianta tentar explicar, para entender é preciso ler, ou assistir; mexa-se, na locadora perto de sua casa tem a série disponível para locação – ou “disponibilizada”, de acordo com a moderna linguagem burra e deselegante).

De volta ao lar, prestes a reentrar no mundo, começaram os problemas: não conseguia conexão, tinha de refazer todo o processo e instalar novamente os softwares de comunicação via banda-larga. E cadê os tais softwares? Apareceram, mas um dos cds não era lido ou era lido com problemas pelo novo sistema operacional. Ó, céus! Ó, vida! Ó, azar! Pois é, eu era o próprio Hardy naqueles momentos terríveis. Que viriam, muito breve, a se tornar dramáticos. (Hardy, a hiena, lembra? Companheiro de Lippy, o leão. Como não lembra? Em seu planeta não passava isso, cara-pálida? Tadinho...)

Conformado em ficar sem acesso à rede na noite triste da terça-feira, pensei em rever meus arquivos, reorganiza-los e tal e coisa. Vã ilusão. Meus arquivos, meus preciosos, maravilhosos (quem o feio ama, bonito lhe parece) arquivos, haviam sumido. Desaparecido. O backup do mecânico, o guri da oficina que operou meu micro) tinha sido incompleto ou coisa parecida. Pirei. Entrei em pânico controlado, aquele pânico que dá uma vontade louca de sair berrando e chorando e esmurrando mas que você, noblesse oblige, controla, mantém preso por trás de uma máscara de impassibilidade. Mas, por detrás da dita cuja, você está se desmanchando em ódio, tristeza e medo. Tudo justificável, afinal, meu último e único backup datava de dois anos e duas semanas. E, justamente nesse período sem backup minha produção, digamos, literária, tinha sido grande, produtiva e, no dizer de algumas generosas almas, de boa qualidade. O mundo, definitivamente, não podia ficar privado de tudo isso. Sim, mandei a modéstia às favas.

Quase não dormi de terça pra quarta. Noite terrível, noite de cão, dito popular, por sinal, incompreensível, pois os cães que conheço dormem maravilhosamente à noite. E, quando não dormem, latem, felizes da vida, em longos bate-bocas com outros insones. E os que querem manter-se à margem do bate-boca dormem profundamente, apesar do bate-boca. Se isso é noite de cão...

Quando o mecânico chegou à oficina lá estava eu, computador a tiracolo, olheiras, cansaço visível. Em poucos minutos estava reanimado. O backup estava lá. A “perca” fora pequena, nada muito significativo e 100% recuperável. Aleluia! Aleluia!

De volta à casa, consegui conexão. Fiquei mais de duas horas ao telefone com o pessoal de suporte técnico da companhia telefônica – que se chama Telefonica – e do provedor, mas, finalmente, no começo da tarde de quarta-feira eu era, novamente, um ser humano em sua plenitude, conectado ao mundo e à vida. E escrevendo tolices como essa última – “conectado ao mundo e à vida”.

E pensar que vocês gastaram tanto tempo lendo tudo isso pra chegar a essa frase final.

Sorry.

Ah, é verdade, tal como sucede depois de um grande terremoto e vem uma série de pequenos tremores, assim também está meu computador: de vez em quando tem uns peripaques, nada muito grave, apenas um pouco chatos. Mas dá pra ir levando e assim deixo a vida me levar.


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Um comentário:

Ana disse...

Ufa!!!

Inicialmente, achei que se tratava de uma pessoa com doença grave. Foi um susto e tanto. Daí, veio o alívio de saber que era o computador, mas durou só até eu ler que você tinha perdido seus arquivos. Revivi a tragédia que se abateu sobre mim em 2003 e fiquei desesperada com seu desespero.

Que suspense!

Felizmente, a saga terminou bem. :)