segunda-feira, maio 02, 2005

Noite linda... Dia feio... E vice-versa

O dia foi corrido. A ausência aumenta a lista de coisas a fazer e diminui o tempo para fazer todas as coisas. Pior: elimina o tempo do fazer nada, o tempo de olhar as coisas, olhar as vacas, as bezerras, as plantas, as cercas, as árvores, o céu, as estrelas.

As estrelas... Não queria ver estrelas hoje. Queria uma noite escura, nuvens negras cobrindo o céu de ponta a ponta, relâmpagos cortando o horizonte, chuva caindo de preferência miúda e prolongada, mas qualquer jeito, qualquer tipo de chuva seria mais que bem-vindo. Saudades de ouvir o vento que antecede as primeiras gotas passando pelas árvores, fazendo um barulhão danado, alvoroçando a galinhada que dorme encarapitada nos galhos mais altos de algumas árvores perto de casa. Ruim para elas, claro, mas paciência. Todavia, nada disso vejo, sinto, ouço. A noite está calma. Mesmo sem lua, em poucos minutos os olhos se acostumam com a luz pouca e difusa das estrelas. E como tem estrelas nessa noite! A Via Láctea cobre tudo. Tantas são elas que demoro um pouco para achar o Cruzeiro do Sul. Norte, oeste, leste e sul, o horizonte é igual, céu estrelado.

As vacas ruminam em paz. Deitadas, tranqüilas, pensando em nada como de hábito, penso eu, que penso em tudo mas deveria pensar um pouco em nada, tal como elas. As bezerras estão igualmente quietinhas, umas já dormindo profundamente, outras olhando com curiosidade minha andança sossegada. O Brioso não gosta do curral. Como bom cavalo já está no meio do piquete, pastando um pouco, parando um pouco. É uma noite de poucos ruídos, é uma noite de outono, querendo passar de fresca para fria. A bicharada é pouca, o que é bom. Mas, mesmo assim, vários besouros rola-bosta, pretos, do tamanho de uma azeitona média para grande, estão nas varandas. Recolho vários deles num vidro, vou até o bezerreiro e jogo-os no capim. O pessoal não recolheu todo o esterco dos bezerros, então esses rola-bostas farão uma parte do serviço para eles. E muito melhor, diga-se de passagem. Assim que chegam ao chão caminham um pouco, encontram um lugar apetecível, e escavam. Como são velozes no escavar esses besouros! Em segundos, menos de um minuto, já desaparecem. Dentro em pouco voltarão à superfície e vão procurar pela bosta das vacas, no caso, aqui, dos bezerros. Farão bolotas maiores que eles, até, e vão empurra-las para o fundo dos buracos escavados. Ali botarão seus ovos. As larvas, quando nascerem, irão se alimentar com o esterco. Ovos e larvas de moscas e vermes serão destruídos, colaborando com o controle desses parasitas. Nutrientes diversos entrarão no solo em profundidades variáveis, realimentando o eterno ciclo de nutrientes na natureza. Por isso mesmo, em certas noites, chego a fazer muitas viagens varandas/pasto ou bezerreiro, salvando os besouros do apetite insaciável dos sapos que fazem ponto, devem até marcar cartão, em nossas varandas. Qualquer dia são capazes de me processar, exigindo direitos trabalhistas. Ou pior, como a posse da terra para eles.

A última tarefa da noite é fechar a porteira. Mero ritual, pois, aberta ou fechada nada impede a entrada de quem não queremos. Mas rituais existem para serem cumpridos. E lá vou eu. Dispenso a lanterna por desnecessária, o brilho das estrelas é suficiente para caminhar. Não há sombras, como em noite de lua cheia, apenas vultos. Alguns, inconscientemente, me assustam. Foi dessa forma, com certeza, que muitas lendas e mitos nasceram em tempos remotos. Somos animais diurnos, a escuridão nos assusta. Associamo-la ao medo, ao desconhecido, ao terror. A maioria dos outros animais associam-na à comida, à busca de alimentos. Talvez tenhamos sido esse alimento por muito tempo. Talvez seja nossa memória genética a nos proteger dos perigos e clamar pela perpetuação.

Chego à porteira e vou para o meio da estrada. A tira negra do asfalto é invisível, só dá para senti-la. Fico parado no meio por muitos minutos. O sábado está quieto, tranqüilo, nem os festeiros estão se movendo duma festa pra outra. Será que são tantas assim as festas? Ou é só a procura delas que é muita? Não sei, aliás, poucas respostas sei para as muitas perguntas que me faço. Olhando as estrelas à procura de uma cadente que não aparece, sei uma resposta: amanhã não teremos chuva. Nem chuvinha, muito menos chuvão. Pena, viria bem a calhar.

Nesse ano, não é a seca que chegou cedo, foram as chuvas que terminaram cedo. O resultado é o mesmo, uma frase diz a mesma coisa que a outra. Falar diferente é só floreio. As preocupações com a comida para o gado voltam, ocupam toda a cabeça, numa invasão organizada, metódica, implacável. Ali parado, no meio da estrada, desafio inconseqüente para carros inexistentes, tento esvaziar a cabeça, mandar os pensamentos embora. Não é o momento para eles. Muito menos o lugar. De alguma forma consigo. Eles se vão e eu começo a voltar para casa.

No meio do caminho ouço o estralar repetido da cerca elétrica. Em algum lugar há uma fuga de corrente. Mudo a trajetória e enxergo o brilho azulado regular da faísca. Trabalho. Vou em casa, pego duas ferramentas e a lanterna. Volto, olho, examino, tento uma coisa e outra, nada. Não há problema. Vou até a entrada do bezerreiro e desligo a chave daquele trecho. Pronto. Acabou a fuga de corrente porquê acabou a corrente. Não há necessidade dela nessa noite. As bezerras seguem me olhando, as que estão despertas. De volta à casa, recolho os últimos rola-bostas da noite. De volta ao piquete, jogo-os no capim. Vão trabalhar, malandros, deixem esse piquete limpo!

A noite continua silenciosa. Os cachorros dormem enrodilhados em cima de panos quentes. A gata Sophia dorme enrodilhada no sofá, antes de ir para nossa cama. As vacas acordadas estão como se estivessem dormindo, a diferença é pouca. Na cozinha, um macarrão de emergência com azeitonas, tomate, cebola e bacon está á minha espera. Com ele, uma garrafa geladinha de um verde português. Não é a melhor combinação mas está muito longe de ser a pior. O fogão de lenha está aceso, ainda, gerando um calorzinho gostoso. É hora de comer que a fome aperta, o cansaço chegou e depois tomar um bom banho antes de deitar. Mais um dia termina na roça.



file:///C:/Documents%20and%20Settings Posted by Hello

As estrelas e a Via Láctea que ocuparam todos os quadrantes do céu de outono deram lugar a esse dia.

Como eu esperava, horrível.

Belo, belíssimo para muitos, quase todos, horrível para quem queria e quer chuva.

E segue a vida na roça.



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Um comentário:

Emerson disse...

A previsão do tempo para os próximos 14 dias é brilhante: céu azul, sol, tempo maravilhoso para praia, esportes diversos, etc. Menos para plantas e bichos que comem plantas ou seus produtos.

Um tempo péssimo, seco, e ainda estamos na primeira semana de maio. :o(