domingo, outubro 09, 2005

Sábado no sítio...

Mais um fim-de-semana sem sítio. Coisa chata.

Ontem saí cedo pra lá, passei o dia e voltei. É cansativo e, por melhores que sejam as estradas, não tem jeito: 300 km de manhã e 300 à noite, com o intervalo cheio de vai-e-vem, e faz uma coisa aqui e outra acolá, a gente prega, literalmente. Inda mais depois de um longo e merecido banho, é brabo entrar no carro pros trezentinho de volta (exagero meu, são apenas 270).

Os ipês de Araras continuam com a florada, que continua muito bonita. E eu, de novo, não parei para fotografar. Dessa vez por pressa. Lamentável. A paisagem está bonita, o verde toma conta de tudo. Essa primavera está começando bem, mas é melhor não elogiar. Nada pior que um veranico em pleno outubro. É um terrível atraso de vida.


Perfume no ar

Saindo da Anhanguera e pegando a estradinha vicinal pro Brejão, de lá pra Estrela (Santa Cruz da Estrela) e em seguida o trecho final pro sítio, é obrigatório abrir as janelas do carro. Os pomares de laranja estão com uma belíssima florada. O perfume das flores das laranjeiras toma conta do carro. As árvores estão tomadas pelo branco das flores, algumas quase totalmente. Se não tivermos uma massa de ar quente que estacione sobre o Sudeste e Centro-Oeste, provocando o veranico, essa próxima safra de laranjas será maravilhosa. Tudo que precisamos agora é que as frentes frias continuem entrando, vindas da Antártida via Patagônia, trazendo chuvas.

No sítio, espero uma grande safra de laranja-lima. A adubação com fosfato (e magnésio e micronutrientes) foi feita a tempo e hora. As primeiras chuvas foram boas, agora é importante que continuem, também para que seja feita a adubação nitrogenada e potássica. Tudo isso acontecendo, teremos todos uma grande safra. E os preços, já muito baixos desde o ano passado, cairão ainda mais. Dependendo da queda, o custo de produção mais o custo de colheita será bem maior que o preço de venda. É, nada como a agricultura.


Satisfação

Sitiante pobre, não tive condições, ainda, de fazer uma seringa, seguida por um tronco. Pela seringa (corredor estreito de madeira) as vacas entram, parando, uma de cada vez, no tronco, onde são imobilizadas, permitindo vacinar, aplicar medicamentos ou fazer curativos com rapidez e segurança para tratador e animal. Sendo assim, o jeito é vacinar e aplicar carrapaticida, por exemplo, ou na base de prender o animal a um poste no meio do curral, ou, o que eu prefiro, usar a cabeça e a gentileza. Mas o pessoal aprendeu a fazer as coisas na base da valentia e da força bruta, então, temos um choque de opiniões.

As vacas, as Jersey principalmente, são calmas, dóceis e mesmo o touro, o Safári, permite ser tratado sem maiores contenções. Com a chegada das chuvas e do calor primaveril, os carrapatos deram o ar de sua desgraça novamente. Mandei aplicar o carrapaticida que vai ajudar o controle via homeopatia (ela sozinha não dá conta, e os próprios homeopatas recomendam o ajutório de um carrapaticida químico bom; o que eu uso, no momento, é inofensivo aos besouros rola-bosta, personagens importantes numa criação de gado). E fui claro na recomendação, de aplicar sem laço, sem prender. Dito isto, fui aproveitar o fim de tarde (acho preferível aplicar produtos na fresca da tarde) e dar uma caminhada pelos piquetes de tifton, ver a quantas anda a rebrota.

Ao voltar, de longe pressenti a agitação no curral. Pior ainda, uma das vacas se debatera com a corda, caindo no chão. Ainda ouvi o grito de um dos dois para pegar o “foião” e cortar a corda, coisa que não foi necessária pois a vaca se ajeitou, afrouxou a corda e o laço foi desfeito. Vaca em pé, dei um berro:

- Porra, eu falei pra fazer do meu jeito e não assim! Essas vacas não precisam de nada disso.

Infelizmente, eu só sei falar com muito tato e jeito, ou aos berros. Não tenho a arte do meio-termo na lida com humanos. Isso não é só com funcionários no sítio, não. Sou democrático nesse quesito e contemplo, igualmente, a todos, desde cliente e patrão (por causa disso fui demitido de uma agência há trocentos anos, pelo próprio dono da dita cuja, um cara famoso e que foi durante muitos anos o publicitário do Maluf e outros políticos) até peão e atendente de telemarketing. Dizem algumas más línguas que eu tenho piorado. Discordo. O que piorou foi a inteligência e o bom-senso das pessoas.

Esperei alguns minutos pra poeira assentar e fui pro curral. Agora, falando manso e com jeito. E expliquei, pela trocentésima vez, a não-necessidade de lidar com aquelas vacas desse jeito. Ouvi os argumentos contrários. Corretos, todos eles, mas corretos por um simples motivo: prender as vacas fora de seu horário, entrar no curral com corda, prender, todo o escarcéu que se segue, resulta em animais nervosos, indóceis, difíceis de manejar. E nada disso é necessário, repito. Mandei trazer uma vaca pra fora do curral, pro barracão da ordenha. Ali, presa pela corrente à qual está acostumada todo dia, e com um punhado de ração no cocho, a Hora (esse nome já veio com ela) ficou calma, tranqüila, feliz com a ração imprevista. Mas o Rael se precipitou, foi meio afoito e até aplicou, mas não tão bem.

Veio outra vaca, agora a Iowa. Eu mesmo peguei a pistola, fiquei ao lado dela (ela me vê pouco, portanto tende a não confiar em mim, estranhar-me um pouco), massageei o local da aplicação. Dei um cutucão com o dedo no local, voltei a massagear, conversando com ela calmamente. Aproximei a pistola, “bati”, apliquei e tirei. Só então ela se deu conta que tinha sido “sacaneada”, mas era tarde. E entre ficar estressada com a picada e comer o resto de ração... ela comeu o resto de ração. Ufa! Essa foi por pouco. Se não tivesse feito tudo certinho, meu conceito com os dois iria pra baixo. Com o Ismael nem tanto, pois ele já me viu vacinando o gado e sabe que conheço um pouco da matéria pelo lado prático. Mas o Rael ainda não, e ele, com certeza, achava que eu só era bom de papo e nada de ação. Com essa, ganhei meu fim-de-semana e um pouco mais de respeito da parte dele. Bom demais.

Ah, sim, no final desse mês ele vai fazer um curso de vacinação do SENAR, durante 3 dias. É a primeira vez que um patrão faz isso com ele. Já disse, pra ele e pro Ismael, que esse será só o primeiro e outros virão. Acho preferível tentar melhorar o padrão da mão-de-obra do que ficar pulando de galho em galho, em busca do funcionário perfeito, esse ser inexistente.


Maria-fedida, o ataque

Ontem estávamos em plena fase da invasão anual dos besouros que cheiram como as marias-fedidas. Horrível! Eram centenas nas varandas. Para entrar e sair de casa só com o auxílio luxuoso de uma vassoura, abrindo caminho entre a besourada, parte dos quais utilíssimos rola-bostas. E a sapaiada ainda não apareceu pra valer. Ontem tinha somente dois por ali, começando o banquete. E dos pequenos. Os bitelões ainda vão aparecer.

Pernilongos e moscas diversas, assim como um monte de bichos menos comuns, também apareceram. Até mesmo uma jequitiranambóia, um bichão grande, cabeçudo, completamente inofensivo, mas do qual as pessoas morrem de medo.

É a primavera. E depois o verão. Só voltaremos a ter sossego com a bicharada incômoda com os primeiros frios de meados de outono. Enquanto o outono não chega, o jeito é conviver.

(A primavera nem bem começou e já estou ansiando pelo outono? Normal, normal, só pra confirmar que a gente nunca está plenamente satisfeito com o presente. Muito humano.)
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Um comentário:

Maria Helena disse...

Um dia na fazenda tem de tudo, menos rotina.Parabéns, a família gato é muito bonita.