sexta-feira, outubro 14, 2005

Daqui a um mês...



O repórter ouviu do velho pescador ribeirinho, num afluente qualquer do Solimões, seco de quase tudo, catinga de peixe morto empesteando o ar e deliciando urubus:

- Moço, volta daqui a um mês e vai estar tudo cheio de água de novo.


Há meses já que não vou pra Amazônia. Na verdade, desde o final do ano passado. Se 2002, 2003 e 2004 me viram boa parte do tempo andando por Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Pará, 2005 me direcionou de volta pro Paraná, pra Santa Catarina, pros interiores de São Paulo e Rio de Janeiro. Bom também, nada contra, muito pelo contrário. Entretanto, confesso que gostaria de estar na Amazônia agora, caminhando pelos leitos secos de rios portentosos, rios que, na cheia, desafiam a imaginação de quem não os conhece. (Consegui, usei “portentosos” num texto... hehehe) Estaria palmilhando fundos lodosos ou arenosos sobre os quais passei sem nada ver ou que vi numa tela de ecobatímetro, a bordo de um empurrador com 9 barcaças e dezenove mil toneladas de soja à frente, navegando a velocíssimos 11 nós. Seria curioso, talvez batesse uma certa tristeza ali no meio, onde quase não se vê peixe morto.

Tristeza que com certeza me acertaria em cheio ao ver os igarapés secos e os peixes podres nas beiradas. Pior ainda, os muitos peixes se debatendo em agonia nas poças d’água, sem salvação possível.

Pode ser cruel a natureza ou simplesmente ser natureza, como vem sendo desde o princípio dos tempos.

Essa seca não chega a me atemorizar. Os registros do passado indicam secas ainda piores ou, pelo menos, tão feias e intensas como essa de agora. Como foi a seca de 1963. Dela, dizem os mais velhos, tinha-se medo que tudo secasse tão intensa e demorada foi. Até que, finalmente, as chuvas voltaram. Chuvas amazônicas, torrenciais, tropicais. Os rios se encheram, os peixes voltaram, a vida ressurgiu.

Mas hoje, mesmo sabendo de outras secas, mesmo dizendo que não chego a ficar atemorizado, fico, sim. Ouço cientistas falando de esquentamento nas águas do Atlântico Norte e Caribe. Da perda da cobertura vegetal e do vapor-d’água que essa cobertura gerava, de um esquentamento planetário por conta do efeito estufa e seus reflexos sobre esse paraíso verde, outrora chamado de inferno verde. E, mesmo não querendo, fico com medo.

É pouco, muito pouco, o que sabemos do clima, quase nada na verdade. Sequer sabemos, comprovadamente, se estamos com essa capacidade toda para muda-lo, mesmo com toda nossa despesa energética. Há cientistas que acreditam que estamos vivendo um período de transformações, parte de um longo ciclo ainda não identificado. Pode ser, tomara que seja. Mas, sei não, sigo com minhas dúvidas.

Tomara que as chuvas cheguem logo, antes do previsto.

E, enquanto elas não chegam, a foto lá de cima mostra o simpático urubu itacoatiarense, em plácido repouso à margem do Amazonas, esperando a comida farta e abundante deixada aos montes pelos humanos da beira-rio. A vida pra ele é fácil.


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Um comentário:

Ana disse...

Que dó..

Sempre acho que a última seca é pior que as anteriores. Há cada vez mais intervenções humanas no processo natural, o qual, como você bem disse, ainda não se sabe exatamente como acontece. Entanto, sabemos dos nossos erros, dá pra deduzir os resultados. :(