quarta-feira, maio 02, 2007

Mudanças bem-vindas e nem tanto


- Nossa! Só tem isso de ovo, Ismael?

- É, agora as galinhas quase pararam de botar.

Escuto a conversa entre a Rosa e o Ismael enquanto descarrego o carro. As coisas no sítio estão diferentes, inegavelmente. O dia está gostoso, a temperatura amena, apesar do sol e céu azul. O pé de acerola perto da cozinha tem meia dúzia de frutinhas pequenas, enrugadas, que em quase nada lembram as frutas brilhantes, grandes e suculentas de semanas atrás. Quando terminamos de picar a cana para as vacas, uma invasão de abelhas chega a cobrir partes do monte de forragem encostado à parede do barracão. Cada lance do forcado para colocar a cana nos balaios é um risco. As abelhas ficam agitadas, nervosas, o zumbido cresce e os balaios cheios precisam ser pegos com cuidado, o que não impediu algumas ferroadas no Ismael. Pego alguns sacos vazios de farelo e cubro os balaios cheios com eles. Com essa medida simples as abelhas se afastam e o trabalho chato e pesado de erguer os balaios com cerca de 30 kg até o ombro fica um pouco menos complicado. Alguns bezerros já estão ficando com uma pelagem mais espessa. Os dias estão mais curtos, visivelmente, e de tardezinha uma blusa se faz necessária. E, à noite, a quantidade de insetos é minúscula, inclusive dos besouros rola-bosta que pousam nas varandas. As portas de tela ficam abertas por vários minutos e nem por isso a cozinha ou a sala são tomadas de assalto por hordas invasoras de bichos diversos com três pares de pernas.

É o outono, finalmente.

No caso das abelhas, a diminuição nas floradas reduz a oferta de alimento para elas, daí a invasão do barracão do curral e o passeio para pegar como alimento a própria cana. O mel dessa época não é dos melhores, é bom que se diga.

As galinhas começam a reduzir a postura por ocasião da Quaresma. Isso já está no folclore há séculos. Produzir ovos, nessa época, só com aves de raças industriais especializadas e às custas de super-alimentação e iluminação artificial nas granjas, iludindo os instintos e toda a memória genética das aves. Não temos nada disso aqui, muito pelo contrário. Portanto, as galinhas reduzem drasticamente a postura. Muitas já circulam por toda parte com 3 u 6 ou 8 pintinhos. Com a noite chegando, abrigam-se todos embaixo do corpo e das asas da mãe, um ou outro pondo bico e olhos para fora do cobertor de penas para uma espiada final ao dia que entardece e se prepara para a noite.

Algumas árvores também começam a perder suas folhas. Breve, delas restará somente o esqueleto em silhueta contra o horizonte. É o que ocorre com os ipês, por exemplo, que mais tarde explodirão em flores amarelas, brancas e roxas, num dos grandes espetáculos da natureza.

E um outono com dias chuvosos é o que há de melhor. Assim foram esses dias, embora a chuva tenha sido pouca. Não importa. Ainda teremos mais um pouco nos próximos dias. O tempo oscilou entre o céu azul e noites estreladas e céu encoberto por uma camada baixa de nuvens, com algum chuvisco rápido ocasional. Pela manhã, a preguiça para levantar de algumas vacas e, principalmente, bezerros, é nítida. Mas aqui, no Macaúbas, o ritmo é sossegado, pois as atividades humanas só começam às sete da manhã. Menos na cozinha, onde, de maneira geral, já estamos em volta do fogão a lenha desde cinco e meia da manhã. E esse primeiro café matinal é sempre especial, um momento gostoso, para ser apreciado.

Gosto do outono. E gostaria ainda mais do inverno se não fosse pela ausência de chuvas. Gosto das mudanças de primavera para verão e desse para o outono. E, apesar de perder o frio, gostarei muito da mudança do inverno para o verão, com suas chuvas e toda a promessa de vida que vem junto.

Mudanças são benéficas e bem-vindas.



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Um comentário:

Leila disse...

trem bão!