segunda-feira, junho 19, 2006

Vassoura-de-bruxa, mais uma realização do PT


Sempre gostei muito de Ilhéus, desde a primeira vez que lá estive. Gosto da cidade, gostei de sentar no “Vesúvio”, o “bar do Jorge Amado”, para tomar um copo de cerveja ou de coca, dependendo do horário. Em Ilhéus conheci a Dona Lourdes e em todas minhas viagens dei um jeito de dar uma escapada e comer seu famoso pitu, servido num puxado nos fundos de sua casa. Em Ilhéus passei um Carnaval inteiro certa feita, por obra e graça de uma greve de aeroviários. Bons tempos.

As cidades têm histórias, todas ligadas ao ciclo do cacau. São muitos os causos, quase todos “do Jorge Amado”. Acho que sua obra, nada pequena, deveria ser umas dez vezes maior do que é para abrigar todos os causos e personagens “dele” que acabamos vendo, ouvindo, conhecendo. O jeito de cada cidade, a cara de cada uma, os rostos das pessoas, não tem jeito, tudo nos transporta para os livros do autor de “Dona Flor e seus dois maridos”. Ops, esse não, melhor citar o mesmo de sempre: “Gabriela, cravo e canela”. Livro, novela, filme, tudo entrelaçado, a gente não distingue o que leu do que assistiu, e em Ilhéus tudo se mistura mesmo.

É uma região bonita, interessante e diferente, com mar, praias, coqueiros, montanhas, matas e as lavouras de cacau “perdidas” no meio da mata atlântica, às vezes uma paisagem ao lado da outra. Rodando pelas estradinhas de terra ou barro, o fim de uma curva nos deixa de frente com um pequeno mundo, casas de tijolos pintadas de amarelo desbotado se destacando contra o verde escuro das matas e dos cacaueiros. Correndo ao pé das casas, um riacho entre pedras, passando uma sensação gostosa de frescor nos dias quase sempre quentes ou muito quentes. O olhar é atraído por um telhado que anda! É o teto de uma barcaça sendo empurrado, para que as sementes de cacau recebam o sol por inteiro, mexidas daqui pra lá, de lá pra cá, num vai-e-vem interminável por um velho trabalhador dessa lavoura, agora com um grande rodo de madeira virando as castanhas.

Com um pouco de sorte e conhecimento, chega um convite para provar o “mel de cacau”. Na minha primeira vez fiquei meio ressabiado em beber aquele trem, afinal, eu vira de onde ele fora tirado e não gostei muito. Colhido o cacau, ainda na roça os frutos são cortados ao meio e os trabalhadores, com as mãos que Deus lhes deu e as tarefas da roça emporcalharam, tiram fora as amêndoas envoltas por uma polpa esbranquiçada. Jogadas numa caixa, são transportadas em lombo de burro para uma barcaça, onde são despejadas em outras caixas de madeira, com um ou mais furos na base. Umas sobre as outras, durante alguns dias as amêndoas vão perdendo o suco presente na polpa, que vai descendo para o fundo da caixa e dali cai em latas ou tinas. Algumas caixas têm uma pequena torneira na base e ao ser aberta escorre um suco denso, com partículas diversas dentro. É o mel de cacau, ou quase. Recolhido numa jarra é coado e transferido para outra jarra, que em seguida vai para a geladeira. E é nessa fase que a gente entra na história. Para o perfume desse mel só encontro uma palavra: inebriante. É doce, mas não enjoa, pelo contrário, atrai. E o sabor é alguma coisa indescritível. Até lembra chocolate, mas é melhor. Uma doçura melada, e aqui não há redundância, pois a lembrança do mel vem pela sua consistência mais densa. E ali, na sombra gostosa de uma barcaça, olhando a mata ao longe tremeluzindo por conta do calor brabo do sul da Bahia, a gente toma um, dois, muitos copos de mel de cacau. E pára de tomá-los por conta de alguma lembrança perdida de educação e do valor da moderação, passados a nós por pais extremosos. Largamos o copo, recusamos mais um, mas muito a contragosto.

E assim seguimos viagem, em meio à terra ou ao barro, satisfeitos, felizes com a vida e com o que a vida pode nos proporcionar, assim de repente.

Foram muitas minhas viagens para essa terra. Mas chegou uma época em que elas simplesmente pararam. A principio não me dei conta, estava muito envolvido com minhas viagens para o Mato Grosso, Rondônia, Maranhão e outros lugares com sertões diferentes, mas ainda sertões.

Minhas viagens foram rareando, rareando, até terminarem, enquanto a doença tomava conta dos cacaueiros, cada vez mais, cada vez mais, cada vez mais. E a produção caía, caía, caía. “Remédios”, o nome genérico que damos aos venenos, aos defensivos agrícolas no campo, começaram a ser aplicados cada vez mais. Já não me sentia muito entusiasmado a tomar copos e copos de mel de cacau. Vai saber... E o pior é que nem mesmo os “remédios” davam conta da maledeta doença, tão malvada que até seu nome combinava direitinho: vassoura-de-bruxa.

Minha última viagem para Ilhéus data de uns quatro anos, por aí. A doença dominava toda a região cacaueira. A produção já era apenas uma parcela do já chegara a ser. Conformei-me, mas continuei acreditando que mais dia, menos dia, voltaria pra Ilhéus. Essa volta ainda parece distante, afinal, voltar para gravar lavoura doente e improdutiva?

Nesses últimos anos, se fosse mantida a média histórica de outrora, eu deveria ter produzido pelo menos uns 3, talvez 4 vídeos sobre a lavoura de cacau ou a indústria que nasce a partir dela. Produzi nenhum, logo, devo ter um prejuízo de uns “par” de milhares de reais. Nada que uns dois mensalões não dêem jeito. Como sou modesto e pobre, posso receber tudo em reais e dou nota fiscal, quente e boa, da melhor qualidade.

Ué, mas o que foi que o mensalão veio fazer aqui, no meio do mel de cacau? Terá pirado de vez esse escriba?

Pois é, talvez pareça, e alguns talvez desejem, mas não, não pirei, permaneço são e sóbrio. Irritado, contudo, muito irritado. Acabo de saber pela Veja que a vassoura-de-bruxa foi introduzida na região cacaueira de Ilhéus por um bando de militantes do PT e um do PDT. Sem brincadeira, tá na revista, e tudo levantado, tudo certinho.

Resumidamente: na matéria “Terrorismo biológico”, a revista conta como Luiz Henrique Franco Timóteo e mais Everaldo Anunciação, Wellington Duarte, Eliezer Correia e Jonas Nascimento, teriam introduzido a doença nas lavouras baianas a partir de galhos contaminados trazidos de Rondônia, onde ela é endêmica, como em toda a Amazônia, onde o cacau é nativo. Segundo Timóteo, a idéia partiu de Geraldo Simões, que já era figura de proa do PT de Itabuna – município vizinho onde se localiza a estação experimental e a sede da CEPLAC – órgão federal dedicado à melhoria e expansão da lavoura do cacau, onde, acreditem, todos trabalhavam.

A idéia era detonar a lavoura para detonar o poder político dos coronéis do cacau. Essa história começou em 87, 88, e Timóteo foi para Rondônia algumas vezes, retornando com galhos infectados que eram amarrados às árvores sadias da região. O primeiro foco foi descoberto em maio de 89, na fazendo do então presidente da UDR local. A princípio os técnicos acharam que daria para contornar a ameaça e erradicaram toda a lavoura do fazendeiro. Mas não, de forma estranha, atípica para uma praga, a doença alastrou-se velozmente e de forma linear.

Em poucos anos a lavoura cacaueira baiana foi destruída. De exportador, o Brasil passou a importador de cacau. Cerca de 200.000 pessoas perderam seus empregos por conta da derrocada do cacau. Para o país, estima-se o prejuízo total até hoje em 10 bilhões de dólares, de acordo com estudo elaborado pela UNICAMP em 2002.

Dez bilhões de dólares!

O dono da idéia, Geraldo Simões, vai bem, obrigado. Na primeira eleição após a derrocada, elegeu-se prefeito de Itabuna e levou seus colegas para a prefeitura, menos Timóteo, que era do PDT e não do PT. Ingrato... No governo de lulla da Silva foi nomeado presidente da Companhia Docas da Bahia, da qual recém-afastou-se, pois será candidato a deputado federal.

Timóteo já havia denunciado esse crime monstruoso para outras pessoas, inclusive para o senador César Borges e o governador Paulo Souto, cuja família, por sinal, perdeu tudo por conta da doença. Os dois tiveram medo de fazer a denúncia.

Bom, ando pensando em processar o Geraldo Simões ou o PT por conta de uns sessenta mil reais que deixei de ganhar. Afinal, tá cheio de gente recebendo pensões e compensações. Por que não eu?

Mas, falando sério, eu realmente não sei mais o que falar. E ando meio cansado de escrever essas coisas.

Em tempo: leiam a matéria, vale a pena.

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6 comentários:

aliki disse...

Mas que tristeza, que desperdicio, que outras tantas expressões desastrosas aplicaveis à zona do cacau. A unica palavra positiva é a gratidão que sinto por vc ter comentado tão - como sempre - claramente o assunto. Sou bisneta de suiços um dia fazendeiros entre Itabuna e Ilhéus. Resta hoje um fiapo de patrimônio doente, sem grandes esperanças de cura, em meio à imensa beleza da região.

Anônimo disse...

10 bilhões de dólares é muito dinheiro

e 200.000 empregos nem se fala! isso é uma barbaridade

mais uma

Anônimo disse...

Pobres dos que lêem e, pior, acreditam no jornalismo da Veja. Leiam Carta Capital. Leiam o blog do Paulo Henrique Amorim. Leiam um jornalismo imparcial e sério.

Anônimo disse...

Eta jumento anônimo...

Anônimo disse...

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