sexta-feira, junho 02, 2006

Que notícias?


Acho que o Brasil é, ou está virando, um país de não-notícias.

Mas, que diabos é isso, uma não-notícia?

Sei lá, é só uma expressão e tenho a intenção que ela signifique isso mesmo, um nada, um vazio, uma coisa que não aconteceu ou, talvez muito pior e seja esse o caso, uma coisa muito já vista e que perdeu qualquer sentido como notícia, como novidade, como algo digno de atrair a atenção de viventes comuns, como somos nós, preocupados em pagar a conta do telefone e da internet, a conta da água e da luz – por que não eletricidade e sim luz se é a eletricidade que gera a luz e é cobrada na conta? – e contas outras, infindáveis, o tipo de coisa que apoquenta a nós, pessoas comuns, como eu disse.

Ah, alguém quer saber a diferença entre uma pessoa comum, como todos nós, e uma pessoa não-comum (prefiro isso a incomum). Vou explicar.

Nós, os comuns, pegamos um boleto e vamos ao banco ou, muito melhor, acessamos nossa pobre continha bancária e pagamos ali, pela internet, direto do nosso computador, o dito cujo boleto.

Um ser não-comum pega o boleto, ou melhor, nem sabe que ele existe, desconhece, ignora, acredita que tudo caia do céu, como o maná bíblico, pois tem um okamoto da vida recebendo todos os boletos e pagando todos os boletos com seu próprio dinheiro. Claro, isso é válido para uma parte dos boletos, pois outros são diretamente pagos pela “viúva”.

Eu sempre quis ter um okamoto pra mim, mas acho que nunca tive cacife bastante para tanto. Pena.

Agora que já sabemos o que é uma não-notícia e o que é um ser não-comum, vamos, contraditoriamente, às não-notícias da Terra de Vera Cruz.

1 – Mais um mensaleiro (termo com que a população de reluzente bananal tropical passou a referir-se aos seus representantes eleitos, agraciados com o recebimento periódico, geralmente uma vez a cada mês, de propina fornecida por membros do partido no poder, sabemos agora que através de empréstimos pagos com dinheiro do tesouro partidário, ops, do tesouro nacional; ver, também, em corrupto e corrupção) foi absolvido por seus pares – mensaleiros, claro – no órgão denominado câmara dos deputados; consta que foi o 11º;

2 – Muito apropriadamente, o grande líder e guia espiritual dos bananeiros da Terra de Vera Cruz, ora em campanha para mais um período à frente desse bananal, desafiou opositores a usarem o mensalão na campanha já em curso; mensalão era, ou é ainda, o nome dado à propina paga pelo partido no poder a parlamentares diversos; ver, também, em corrupção, corruptos e mensaleiros; nossa excelência e grande líder, etc, incorporou, de vez, o mensalão e seus beneficiários ao rol das coisas boas e lícitas criadas por seu governo, tão bom que nunca antes o planeta todo havia visto algo parecido; a mãe de todos os bons governos, sem dúvida;

3 – Suzane von Richthofen, simpática e bonita (hoje nem tanto) guria da alta classe média paulistana, comprovadamente articuladora do assassinato bárbaro de sua mãe e seu pai, foi, mais uma vez, libertada; acompanhará seu julgamento em liberdade; enquanto isso, briga na justiça por seus direitos com relação à boa herança deixada por seus pais; consta, também, que já há uma lista de espera nas bancas de jornais pela revista que vai mostrá-la, fisicamente, nua, nuinha como veio ao mundo; comenta-se, igualmente, que aproveitando sua fama e circunstâncias correlatas, a moça apresentaria um programa de entrevistas em canal de tevê aberto; o nome e o tema são segredos; há quem diga que tudo isso não passa de intriga;

4 – Os irmãos Cravinhos, co-autores dos assassinatos acima citados, permanecem presos; aparentemente, o fato de não serem bonitos e menos ainda da alta classe média, pesou contra eles; é justo, dizem muitos;

5 – O primeiro-filho segue em sua vitoriosa carreira empresarial, amparado pelos quinze milhões de reais – algo como meia dúzia de milhões de dólares - investidos em sua pessoa, digo, empresa, por uma companhia que é concessionária de serviços públicos e dependente de decisões governamentais para assuntos diversos; veio a público recentemente, que outra empresa da área também financiou o primeiro-filho, porém com valores menores; diante disso, foi trocada pela outra empresa, muito mais generosa;

6 – A primeira-dama, até hoje, não explicou o porque de ter pedido e conseguido em tempo recorde, passaporte italiano para si e sua família toda (parece que o primeiro-marido e mandatário-mor do bananal não recebeu tal passaporte; parece);

7 – O ex-primeiro-ministro bananeiro segue viajando por ceca & meca; consta que sua casa em luxuoso e bonito condomínio próximo à cidade de São Paulo, segue em obras, mas já na fase dos finalmentes, os acabamentos, fase, por sinal, custosa demais da conta para as pessoas comuns; para as não-comuns – ver definição acima – é somente uma fase a mais, nada extraordinário;

8 – Pimenta Neves, autor confesso do assassinato de jovem namorada, segue em liberdade, com namorada nova a tiracolo; a opinião geral é que morrerá em ainda em liberdade;

9 – A ameaça alemã de demitir seis mil empregados de famosa indústria automobilística mobilizou as mais altas autoridades bananeiras, que correram a pensar em soluções e empréstimos generosos à indústria, notoriamente ineficiente;

10 – O mais moderno, produtivo e lucrativo segmento da economia bananeira, o famigerado agronegócio, segue entregue à própria e madrasta sorte; o desemprego de centenas de milhares de tupiniquins agronegócios-dependentes, não comoveu, não comove e não comoverá as mais altas autoridades bananeiras; da mesma forma que não comove São Pedro, prenhe de péssimos humores, secando quando se precisa de água, e inundando quando se precisa de sol e terra seca;

11 – Thomas Bastos, famoso criminalista que acumula o cargo de ministro da justiça, segue trabalhando muito; consta que, cansado da trabalheira, não vai querer uma segunda investidura, retornando ao seu também lucrativo escritório; antes que me processem, esse “também” tem razão de ser, sim: ser ministro da justiça é galardão fantástico em termos curriculares, e com certeza terá impacto positivo na conquista de novos clientes, futuramente, por seu escritório; eu, hein? ufa...

12 – Evito, o companheiro cocalero, reduziu um tiquinho suas bombásticas declarações contra bananal e sua empresa petroleira; Chávez, o companheiro petrolero e não o palhaço, embora se confundam, está, também, aquietado, mas aproveitou para levar 99 pernambucanos para operarem catarata em Caracas; curiosamente, um programa chamado Mutirão que, com sucesso, já operou de catarata multidões tupiniquins, recém foi cancelado; mais um bocado da herança maldita extirpado; por outro lado, outras partes da herança maldita – o bolsa-família e a macroeconomia – seguem de vento em popa, impulsionando a reeleição do grande líder, etc, etc, ainda no próximo primeiro turno;

13 – cansei; mas, antes que o cansaço me afaste desse teclado e interrompa essas mal digitadas, a mãe de todas as não-notícias: o governo-companheiro quer tornar permanente a provisória CPMF.

Fui.

Bom fim-de-semana pra quem fica.


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2 comentários:

Maria Helena disse...

Muito, mas muito bom o seu texto, cheio de verdades que doem. Só que dói em nós, nunca neles. Abraços e um bom final de semana.

cjb disse...

Emerson,

Gostei muito do texto e foi um privilégio ter recebido ele por email hoje de manhã. Li tudo na íntegra no taxi de casa pro consultório do médico no Blackberry hoje antes do almoço. (Se o conteúdo não fosse em formato email, essa leitura ambulatória, por assim dizer, teria sido impossível.)

Desde que houve a troca de host pro blog do Lédio, eu tenho tentado acompanhar o que você escreve pelo Olhar Cronico (e o Olhar Cronico Esportivo.) Portanto, aquele espaço eu já conheço. (E me lembro, positivamente, de outros textos que ali você postara -- what a horrible word, postara -- relacionados à importância social da agricultura de exportação que, naquele momento, você ligou com um comentário no blog da Soninha quando ela tinha voltado de uma viagem ao Centro-Oeste, ou coisa parelha...)

A pergunta, por hora, é essa (e com a impressão que você também trabalha com mídia audio-visual no teu dia-a-dia): por que não ter uma versão em Podcast do teu blog? Eu assinaria.

Abraço,

Christopher