quarta-feira, abril 05, 2006

Pobre Maranhão


No interior de São Paulo começou a colheita da cana já há alguns dias. Ela foi antecipada em alguns dias em função da forte demanda por álcool e açúcar e também para aproveitar os estoques de cana que sobraram nas lavouras em 2005. Com a colheita, volta o trânsito pesado nas nossas estradas vicinais e voltam as queimadas e a fuligem que entra em casa por tudo quanto é fresta.

Voltam, também, dezenas de milhares de empregos para o pessoal que faz a colheita manual, cuja área diminui ano a ano, mas que ainda é grande e garantia de emprego pra muita gente.

Parte dessa gente toda vem de fora de São Paulo. Até pouco tempo atrás, o grosso da mão-de-obra temporária vinha de Minas, um pouco da Bahia. Hoje, o contingente maior vem de mais longe, de diversas áreas do Nordeste. E muita gente vem do Maranhão.

Pobre Maranhão... Grande, bonito, rico e miserável. Rico nos recursos e no potencial, miserável na gente que o habita. O estado com o pior IDH do Brasil, país que, como sabem todos, não se destaca por ter bons números nesse moderno quesito que mede qualidade de vida. Talvez o Maranhão esteja assim, seja assim, por ser, ainda, uma capitania hereditária, cujo donatário é o clã Sarney. Por isso mesmo, irrita-me profundamente ver as aparições do chefe do clã, travestido em pai da pátria, respeitado e reverenciado por um monte de gente. Jornalistas políticos admiram-no, falam bem dele, de sua educação. É... Grande coisa, digo eu daqui do meu canto. Vamos ao que interessa.

Ano após ano mais gente deixa o Maranhão – homens jovens, em sua maioria, mas muitos já entrados em anos – e chegam aos municípios próximos a Ribeirão Preto, casa-matriz de famosa república recentemente envolvida em escândalos políticos-financeiros-sexuais. Nessa região temos o melhor cultivo de cana de todo o mundo. Produtividades fantásticas, fruto da terra e da tecnologia nela empregada. E a qualidade não fica atrás, pelo contrário, galopa à frente. Aqui o Brasil real é mais real e é mais ilusório, mesmo sendo tão real. Porque o que aqui se vê não se vê por boa parte do resto. E muito do que aqui se vê, perde-se e é perdido pelos desvãos republicanos.

Muitos maranhenses que para cá vieram, voltaram para suas pequenas cidades sertanejas com fortunas incalculáveis, coisa aí da ordem de cinco mil reais. Dinheiro de sonho para quem sobrevive com cem reais mensais. Nessa safra já são seis mil trabalhadores vindos do Maranhão. Moram amontoados em “repúblicas”, verdadeiros palacetes para quem nasceu, cresceu, vive e morrerá em palhoças de barro e palha, co-habitadas por barbeiros e outros hóspedes; sim, ainda há barbeiros, e como, pelos sertões da vida. A safra vai até novembro. No meio dessa trajetória passarão pelo inverno, e sofrerão. São frias as noites no interior, e são geladas as madrugadas, mais geladas justamente no momento de acordar, trocar e sair de casa a caminho do ônibus e da roça. Pra quem vem das terras baixas lá pras bandas do Equador, um suplício terrível. Aguça a saudade, aumenta a tristeza, deixa o corpo fraco, fácil de cair doente, justamente a única coisa que não pode acontecer. É dura a vida nessas horas, nada de romantismo, nada de poentes coloridos e alvoradas estimulantes com passarinhos cantando. A única coisa estimulante é um gole, são dois goles, três goles ou mais de pinga.

Pra chegar à Califórnia paulista, viajam quase seis mil quilômetros, com desvios e rotas alternativas que tirem os ônibus clandestinos e sua carga idem dos olhares das polícias diversas pelo caminho. A maioria traz, pra comer, farinha de mandioca ralada. E nada mais.

Mesmo uma pequena cidade do interior paulista é um universo grande e diferente para quem deixou os sertões maranhenses. Aprendizados são necessários: água encanada, privada, chuveiro, até mesmo fogão a gás.

Quando a safra acabar, voltam para suas casas. É difícil ajuntar tanto dinheiro assim, como os que juntaram cinco mil reais. Mas mesmo que voltem com dois mil, já é o bastante para viver dois anos, somando com o pouco que conseguem ganhar por lá.

Por lá... O bonito, grande e rico Maranhão, Capitania Hereditária do clã Sarney, há tantos e tantos anos no poder. Enquanto o clã prosperou, o Estado definhou. Empreendimentos vieram, um grande porto foi construído, os turistas chegaram, a soja chegou. Por todo o Brasil, estados pobres continuam pobres, mas não tão pobres quanto o Maranhão.

E eu ainda sou obrigado a ver o chefe do clã ser ressuscitado politicamente.

Sou obrigado a ver o chefe do clã ser reverenciado como raposa política.

Sou obrigado a ver o chefe do clã ser tratado e respeitado como grande líder político.

Sua filha já foi candidata a presidente desse bananal. Pena que abortou sua candidatura. Bananal e o clã Sarney tem tudo a ver.

E seu filho é respeitado líder ambientalista nos corredores sombrios do parlamento bananeiro.

É, é difícil às vezes, né?

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3 comentários:

Maria Helena disse...

Muito bom seu texto. Infelizmente, completamente verdadeiro. Pobre Brasil. Abraços.

Ana disse...

:(

Nelson Magela disse...

São algumas verdades absolutas.

Olhe essas outras verdades do Maranhão.

1: http://azulejoquebrado.blogspot.com/

2: http://fotos-saoluiz.blogspot.com/