terça-feira, agosto 30, 2005

Belos nomes

Pensando bem, são belos nomes, mesmo. Talvez por serem tão estranhos, pelo menos para quem, como eu, é de São Paulo.

Não-me-toque!

O ponto de exclamação foi colocado só pra criar um clima. É certo que não sou muito chegado a ser tocado, nem mesmo por conhecidos, quanto mais por estranhos, mas nada a ver com isso agora. Como todos devem ter deduzido, estou falando do município gaúcho.

Há muitos anos, alguns cidadãos não-me-toquenses houveram por bem fazer campanha contra esse nome e a favor de uma mudança. Queriam porque queriam Campo Real, só porque por lá se plantava muito trigo. Sinceramente, nome mais besta esse um. Não gostavam de Não-me-toque. Não deviam gostar de que se referissem a eles como não-me-toquenses. Nem lhes tiro toda a razão, afinal, usava-se dizer que algumas pessoas muito melindrosas eram cheias de não-me-toques. Isso era comum nas bocas de futuras sogras em relação a futuras noras. Não me perguntem porque, não faço idéia. Minha família dizia também, desse tipo de gente, e das gentes cheias de cerimônias, serem “cheios de nove horas”. Nunca soube o porque, mas fica registrado. Pois voltando a Não-me-toque, de onde, aliás, não saímos, os cidadãos pró-mudança tanto fizeram que conseguiram. Em dezembro de 1971, um decreto mudava o nome do município para o insípido, insosso, Campo Real.

Mas essa história não ficou assim, ah, não. Os não-me-toquenses de coração não se conformaram. E batalharam pelo retorno do nome original. Finalmente, depois de anos de luta, conseguiram realizar um plebiscito em 1976. E venceram, claro. E lá está Não-me-toque, o Jardim do Alto Jacuí.

Ah, sim, por que esse nome? Dizem que por conta dum arbusto cheio de espinhos, muito abundante na região na época da colonização e que tinha esse nome. Dizem outros que por conta de estancieiro poderoso, dono de muito gado e patrão de muita gente, que teria gritado, não sei o motivo “não me toque nessa terra!”

O Rio Grande do Sul é rico em municípios com nomes curiosos. Muitos eu tive o prazer de conhecer, como Tapes, na beira da Lagoa dos Patos, onde comi deliciosas traíras em barzinhos à beira da Lagoa que parece um mar. Tapes que não esqueço, também por conta das centenas, talvez milhares de casas de forneiros, como alguns chamam o joão-de-barro. Na estrada de Tapes para Barra do Ribeiro, cada poste tinha ao menos uma casa construída. Mas era raro uma só casa, o comum era ter duas ou três em cada poste. Sem falar dos condomínios horizontais e verticais em alguns. Coisa de louco. Nunca mais vi nada parecido em minhas andanças pela Terra de Vera Cruz.

O jornal on line de há pouco fala de Muitos Capões, município pequeno, só três mil habitantes. E desses, nada menos que 10% perderam as casas no todo ou em parte, por conta de um tornado que o que teve de rápido teve de destruidor. Agora é torcer para que não faça frio, pois, se não conheço Muitos Capões, conheço a região onde fica, no nordeste do Rio Grande do Sul, onde o frio é campeão.

E há outros: Faxinal do Soturno, Alegrete, onde sempre fui muito bem recebido por “seu” Eurico Dornelles e muito mal recebido certa madrugada por um frio de matar pingüim. Era tanto o frio que não agüentei seguir viagem. Parei na entrada “do” Alegrete e dormi no Texacão do Caverá, simpático posto à beira da estrada plantado. Quer dizer, nem dormi, fiquei deitado embaixo de dois cobertores, com roupa e tudo, lendo e tremendo de frio às vezes.

E, finalmente, Anta Gorda. Tem Poço das Antas, mas perde longe em beleza e sonoridade pra Anta Gorda. Até tive o prazer de passar por Anta Gorda duas vezes, mas nem cheguei a parar. Mesmo pequeno, Anta Gorda deu sua contribuição para a diáspora gaúcha. Certa feita, em Balsas, interior do Maranhão, terra de soja, estava de converseio com um gaúcho e o papo caiu em algo parecido com esse texto. Pois não é que quando falei em Anta Gorda o gaudério me exclama que era de lá? Ali estava eu a conversar com um anta-gordense, com pouco de anta e muito de gordo, embora fosse o caso do roto falando do rasgado.

E com tudo isso, bateu uma saudade imensa do Rio Grande.


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Pra vocês folgarem um pouco do meu linguajar e terem um pouco de satisfação, transcrevo essa pequena peça de meu amigo Barreto, natural de Catende, na Zona da Mata de Pernambuco, a coisa de uns cento e tantos quilômetros de Recife. Região bonita, plana com morrotes que surgem e sobem, todos cobertos de cana. Aqui e acolá um pouco da mata original ainda resiste.

Um pouco mais ao sul entra-se nas Alagoas. No litoral mais lindo de todo o Brasil, o litoral norte alagoano. Por ali, em l ocal incerto e pouco sabido, tem uma praia que se chama Tatuamunha. Dela, mais não digo. Fiquem com o Barreto.


SEVERINO PENA BRANDA

Roberto Barreto de Catende – 30.8.2005

Totalmente independente
Severino se considera
E trata sua galera
Um a um como inocente

Começa no Presidente
E vai descendo na escala
Defende Dirceu na mala
E Santiago evidente

Ressuscita da história
Um Gregório Fortunato
Mentor de um atentado
E prova que tem memória

Blefista exímio no jogo
Diz que Lula foi traído
Mas não revela o bandido
Dedo-duro é o Diogo

Derruba a Fernando Henrique
Ao sacar no blefe um morto
Comprador de voto torto
Para eleger nosso Príncipe

Considera um absurdo
Aquela coisa em inglês
Mas ficaria um mês
Com nepotismo e tudo

Manteria a Fazenda
Como está hoje composta
Faria a Delfim proposta
Para uma boa prebenda

Vislumbra no interior
Entre desfavorecidos
Progressos enfurecidos
Do governo Paz & Amor

Assim caminha a paternidade
De um projeto de Nação
Valei-me meu Lampião
O Coroné ‘tá na cidade


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sábado, agosto 27, 2005

Vamos ficar no céu



Tempos duros. Pela falta de grana e pela falta de liberdades. Mas isso já faz tempo, muito tempo, parece que foi em outra era. Avesso a escolas e, principalmente, às disciplinas e às tarefas obrigatórias, além de não suportar os maledeti trabalhos em grupo, precisava de um diploma. Achei que o melhor era fazer os exames de madureza. Foi dessa forma que conquistei meus diplomas de ginásio e colégio. Lamentável, mas verdadeiro. Enfim, as coisas são como são e nem sempre como a gente gostaria que fosse. Dizem, muitos, que o destino cada um molda o seu ao seu gosto, prazer e necessidade. Nem sempre, nem sempre. Os que conseguem tal feito são aqueles sobre os quais se escrevem livros e artigos e por isso ficamos sabendo de tão brilhantes e árduas conquistas. Isso soa como auto-piedade ou complacência. Pode ser, não descarto. A interpretação é livre, ao gosto e desgosto do freguês.

Aquela era uma época em que grandes exames de madureza eram realizados pelo Brasil afora. Os do Rio de Janeiro eram famosos por serem fáceis. Eram concorridos, os cursinhos supletivos, ou de madureza, montavam caravanas para o Rio. Não foi meu caso, não estava em nenhum cursinho. Iria com a cara, a coragem e meus conhecimentos. Ótimos em história e geografia. Bons em biologia. Bons em português. Redação não havia, era tudo no xis. Matemática eu não sabia. Desconhecia. Mas era e sou muito bom em aritmética. O bastante pra escapar de um vexaminoso zero. Inscrevi-me no Rio.

Dias antes da viagem encontrei com um colega que também iria. Combinamos ir juntos. Pra economizar, pegamos o Cometão na noite de sexta na Rodoviária. Era o último horário, assim chegaríamos com o dia já amanhecido e tudo aberto. Ledo engano. Quando chegamos, só vimos abertos os botecos próximos da rodoviária. Saímos zanzando, sem lugar pra ficar. Eu até conhecia algumas pessoas no Rio, gente ligada à militância política. Mas nem morto eu iria aparecer em seus apartamentos e pagar o mico de dizer que ali estava pra fazer o exame de madureza. Questão de orgulho, que, pelo menos um pouco, é bom ter. A memória me trai e não lembro quem, mas um companheiro de militância pra quem abri meu segredo escolar, recomendou – e deu um contato, um companheiro da “direção” – ir pro céu pra passar a noite.

Ir pro céu... Isso soava meio tenebroso. Ficava no Botafogo ou Flamengo, também não recordo direito.

E lá fomos nós, dois estudantes paulistas, duros, em pleno sábado carioca, olhando as praias e garotas do Rio pelas janelas dos ônibus. Sem o que fazer, e vestidos como paulistas em pleno sábado ensolarado, ir à praia ou caminhar pela calçada era um mico que nem por sonho pagaríamos. Restavam, portanto, as janelas dos ônibus, andando daqui pra lá e de lá pra cá, até a hora de ir pro exame.

Acho que aquele exame foi em Madureira. Talvez sim, talvez não, mas foi num lugar longe pra burro. O ônibus demorou uma eternidade, cheio de cariocas vindo das praias da zona sul, pelo menos era o que parecia. Lotado, o tempo todo. Quente, suarento, um Rio nada charmoso. Chegamos, entramos, fizemos o exame, saímos e voltamos pro lado charmoso do Rio de Janeiro. O jantar eu fiz questão que fosse no Beco da Fome, que já conhecia de outras viagens. E ali sempre comia lasanha. Vai entender. Mas era bastante comida pra pouco dinheiro. Bom demais. Depois sentamos num bar ali perto, tomamos alguma coisa e ficamos vendo o movimento intenso, pessoas e carros circulando o tempo todo. Gritos, risadas, buzinas, o que se poderia chamar de vida em movimento. Um tipo de vida. Interessante, uma fauna variada. Prostitutas, rufiões e uns caras esquisitos, que depois, em outras viagens, aprendi a identificar como filipinos ou malaios, que compõem, talvez, mais de 90% das tripulações de navios mercantes em todo o mundo. Travestis, poucos, também rodavam por ali. A gente olhava disfarçadamente, morrendo de medo de dar bandeira e um deles nos abordar. Felizmente, isso não aconteceu. As pessoas, travestis inclusive, eram mais recatados, mais discretos naquele tempo. Até que chegou a temida hora de ir pro céu.

Já tínhamos passado por lá pela manhã. Daí o nosso temor e a vontade de ficar ao máximo na rua. O céu, na verdade o CEU – Casa do Estudante Universitário – era um velho prédio ainda imponente, pela arquitetura, tamanho e abandono. Já fora lindo, agora era só bonito, olhando com boa vontade e com a ajuda da imaginação. Acho que foi a antiga sede da UNE, e acho que por isso eu me lembro de estar emocionado por poder conhecer lugar tão importante. Abrigava um punhado de estudantes. Minha indicação para o companheiro da “direção” foi preciosa. Fôramos bem recebidos. Não havia quartos disponíveis, mas o pessoal da “direção” nos alojou no alto, no segundo ou terceiro andar. Era um salão grande, cheio de tranqueiras, cheio de lixo, na verdade, de todo o tipo. Felizmente, lixo seco, móveis antigos na maior parte. Entre eles, alguns colchões, guardados para quando viessem companheiros de fora. Éramos nós, companheiros de fora. De algum lugar misterioso e generoso surgiram dois lençóis. E assim, naquele moquifo, deitamos e dormimos. Eu demorei a pegar no sono. Os companheiros da “direção” recomendaram tomar cuidado com nossas coisas. Minha inseparável mochila velha virou travesseiro.

Tinha bichos-bichos variados andando por ali, dei umas esperneadas e uns tapas. A noite foi chata. Tinha cheiro de pó e tinha pó, claro. Isso aconteceu há tanto tempo que pó era somente isso: pó, aquela sujeira sobre a qual se passava o espanador. É, isso também é velho e anti-higiênico, ainda por cima. A noite foi longa.

O dia amanheceu bonito, um dia carioca, sol, céu azul, nuvens brancas, barcos no mar, garotas de biquíni... Bom, isso foi mais tarde, com o sol quente. Demos o fora do céu logo cedo, nem 7 da manhã era. Saímos em busca de uma boa padaria pra tomar café e comer. E andamos, agora na beira da praia, no calçadão. Era cedo, a rapaziada dormia. Quando as primeiras garotas começaram a chegar, a maioria acompanhada, percebemos que era hora de nos afastarmos. Tênis, jeans, camiseta e mochila, além das óbvias caras paulistanas, principalmente do meu colega, nissei, que ia ao Rio pela primeira vez, não eram bons cartões de apresentação. Quem sabe uma próxima vez?

Voltamos pra Madureira, entramos, fizemos o exame e saímos. Diretos pra rodoviária e de lá pra São Paulo. Também por isso o Rio de Janeiro é parte da minha vida.

Mas será que era Madureira? ...


P.s.: tenho, realmente, dúvidas sobre o CEU e sua localização e o que aconteceu com ele, etc; caso alguém saiba de tudo isso, aceito as novidades e também correções.

P.p.s. sim, fomos aprovados; como eu disse, os exames cariocas eram fáceis.


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quinta-feira, agosto 25, 2005

Um tempo perdido


Um tempo perdido por aí.

Parece tão distante e,
no entanto é bem presente.

Esse talvez seja um lugar,
um dos poucos que restam,
onde a vida se arrasta, igual,
dia após dia,
simplesmente se repetindo.

É preciso força para ficar

e sensibilidade para enxergar as mudanças,
as pequenas dádivas recebidas,
igualmente dia após dia.


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Expectativa & sombras




Sempre gostei das estradinhas ladeadas por grandes árvores, eucaliptos antigos, altos, sólidos.
Como que escondendo o mundo e criando a expectativa pelo que está mais à frente,
que mundo iremos descortinar depois da curva.

Essas estradas assim cercadas e

voltadas para si próprias,
estão sempre sombreadas, sempre frescas,
fazendo mais forte a diferença para o mundo lá de fora, aberto ao sol e ao calor.

Tristeza... A Velhinha se foi


O café-da-manhã de hoje não foi dos mais saborosos. Na verdade, nem lembro do que comi e bebi. Não bastasse meu espírito já meio predisposto a uma deprezinha depois do jogo de ontem à noite no Morumbi, tive o choque de ler a notícia da morte da Velhinha de Taubaté.

A Velhinha – Dona Velhinha pra rapaziada que não a conheceu no auge, faz favor – tem me acompanhado ao longo desses tempos turbulentos como um vôo São Paulo/Porto Alegre no inverno que vivemos na Terra de Vera Cruz.

Acho que sua morte encerra um ciclo. Lembro de quando ela surgiu no cenário nacional. A ditadura, que já não o era mais, esculhambada pela duração (já repararam como esculhambamos com tudo, até mesmo ditaduras?) e pela presença à sua frente de João Batista, general cujas maiores qualidades eram a paixão pelos cavalos e sua disposição em conversar com outra velhinha simpática, ainda que chatinha, a Salomé, “de Passo Fundo, tche!” O general, então cumprindo a missão passada por seus pares de comandar o governo e a república, prometia muita coisa. Democratizar o Brasil. Abrir o regime. Prender e arrebentar quem fosse contra tão nobres princípios. E outras coisas mais, coisas mais comezinhas, difíceis de serem lembradas depois de tanto tempo passado. O que importa, entretanto, é que ela acreditava no governo. Era um exemplo para um país de descrentes, muitos, talvez, até profissionais, como certos estudantes que viram avós e continuam estudando.

Ouvir suas doces palavras de fé e crença no governo brasileiro nos dava, reconheço eu o que ninguém jamais reconheceu, um certo alento. Sim, porquê a gente quer acreditar no bem, quer o melhor, mesmo quando estamos pregando o “quanto pior, melhor”. No fundo, no fundo, a gente quer acreditar em algumas coisas que os governos dizem. Que estão trabalhando para o nosso bem-estar e que seremos ricos e felizes e até mais bonitos. Eu que queria ter a cara, cabelos, corpo e etc do George Clooney ou do Sean Connery, e, principalmente, a ironia do Sean, sempre esperei por esse anúncio. Pena que nem Figueiredo ou Sarney, ou os Fernandos Afonso e Henrique e agora o Ignácio me prometeram isso. Ouvi em off que Tancredo iria prometer-me essa benesse, mas, coitado, foi-se antes de chegar e aqui permaneci, ainda sonhando com, pelo menos, a ironia. E parte dos dólares.

Temo pela jovem democracia tupiniquim. Hoje, mais que nunca, tenho profunda convicção que a verdadeira âncora de nossa estabilidade política não era o Toninho Palocci, e sim a Velhinha e sua fé inabalável no governo. Como bem lembrou Veríssimo, fé abalada várias vezes mas sempre recuperada. Disse ele que o caso mais grave foi por ocasião do episódio da compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique, mas as explicações ouvidas – com certeza do próprio e acompanhado de Dona Ruth – deixaram-na satisfeita. Ela gostava do Professor-Presidente e sua prosa convincente.

Agora, ela morreu. Ela que tanto acreditava em Ignácio e Toninho Palocci. Não o disse Luiz Fernando, digo-o eu: ela também acreditava em José Dirceu, tanto que Zé passou a ser o nome do bichano, neto do famoso Carlos Átila dos tempos figueiredianos. Acreditem, sua crença far-nos-á muita falta. Aproveito para adiantar que notícias dizendo que Marcos Valério pagava suas contas de água, luz, telefone e tv a cabo são completamente infundadas. Nem ele, nem Dona Renilda.

Fechando, pesaroso, tudo que consigo lembrar e pensar é dos muros pichados em Paris, em 1968, com as palavras de ordem gritadas nas ruas por algumas correntes do amplo movimento estudantil que abalou a República, que abalou o mundo, que ajudou a criar tudo isso que ora vivemos:

Deus morreu. O Tempo morreu. E Eu mesmo não estou me sentindo muito bem.


P.s. em 1968 eu era só uma criança; o crédito por essas lembrançãs é de Julio Cortazar, em "Ultimo Round".

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quarta-feira, agosto 24, 2005

Crise cansa



É, crise demais também cansa. Parece que estamos no momento “canseira” dessa crise. Falar nisso, alguém lembra como tudo começou? Errou quem disse que começou com a colheita de 53 milhões de votos. Isso é bobagem retórica. Sequer começou com Waldomiro, aquele da propina de 1%. Até poderia, mas não nasceu ali. A gestação foi abortada, embora tenha deixado seqüelas. A bichinha nasceu, de fato, foi com aquele sujeito, funcionário dos Correios, embolsando uma gorja de três mil reais.

Três mil reais...

Puxa, se fossem euros pelo menos ou, vá lá, dólares, mas foram reais mesmo. Não são o bastante nem pra pagar meia-garrafa de um dos vinhos dos companheiros. Pensando bem, há muita diferença até pra uma prosaica Fiat Elba, símbolo de outra crise há muito encerrada (encerrada?). Por isso eu digo que o certo mesmo nessa crise é que ela tivesse nascido com o Land Rover do Silvinho. Aí sim, aí já estaríamos num outro patamar, coisa de gente grande, gente metida a besta com razão de ser. Um Land Rover traz implícita uma certa grandeza, entendem, um ar assim de nobreza, das gentes ditas e tidas por finas.

Querem ver uma coisa? Isso é tal e qual o roubo do Banco Central em Fortaleza. Coisa de George Clooney e Brad Pitt, mais o auxílio luxuoso e maravilhoso de uma Catherine e uma Julia. Aquilo sim é roubo! Pra gente chegar em Nova York, Londres, Paris, Roma, Chicago e até Los Angeles, pátria-mãe de Hollywood (ou vice-versa?), bater no peito e gritar alto e bom som: 65 milhões de dólares, sem sangue derramado, sem alarde e sem sirenes, tudo na boa, roubados na moral, na maior limpeza. Pros desavisados ou não afeitos, esses 65 milhões de verdinhas correspondem a 160 milhões dos nossos reais. Dinheiro pra burro, né? Até pra Hollywood, afinal, a tropa que os bonitões (opinião da mulherada, só reproduzo) George e Brad reuniram, limitou-se ao roubo de ridículos 22 milhões de dólares. Coisa de pobre, definitivamente.

Curve-se, ó mundo, uma vez mais à Terra de Vera Cruz e seus tupiniquins!

Esse nosso foi um roubo pra polícias além do 1o mundo. Foi um roubo pra Bruce Willis e seu auxiliar negro de plantão. Ou Mel Gibson e Danny Glover, o Danny dos bons tempos, seu parceiro também negro. Sim, somos do 4o a caminho do 5o mundo, mas temos nossos brilhantes momentos 1o mundo. Ô, só temos! E pra ir atrás de seus autores só uma polícia com a eficiência roliudiana. Não dá pra deixar por menos.

Queria muito ver essa troupe do roubo no aeroporto de Fortaleza. Foram dez, né? E dez passagens compradas com notas de 50 ainda quentinhas do calorzinho do cofre do Banco Central. Ah, que olhar estupefato deve ter feito a menina do guichê da companhia aérea ao vender assim, de bate pronto, dez passagens e receber o pagamento em dinheiro vivo. Cash, como se diz. Coisa de cinema. Imagino o roteirista sentado em frente ao micro, como eu agora, bolando a cena e escrevendo, frisando “olhar estupefato” da atendente. E o babaca do diretor dizendo que a cena era muito absurda e que precisava ser mudada. Ora, vá se catar, senhor diretor, pois de realidade o senhor nada manja. Nós, roteiristas, sim, manjamos tudo, pois sabemos que hoje a realidade é mais fictícia que a ficção, embora seja, a realidade, bem real. E mesmo assim, nós, roteiristas, não somos páreos pros maiores gênios da absurdização da realidade, os políticos. Desde os inócuos tupiniquins até os tenebrosos bin Laden e cia.


Dizem que a polícia desconfia de inside information e, pior, inside action nessa operação. Sim, alguém de dentro deve ter dito tudo sobre o cofre. E alguém de dentro, possivelmente, plantou uma empilhadeira bem na linha de mirada da câmera de vigilância. Puro gênio cinematográfico. Alô, polícia encarregada da investigação, pense nessa linha de trabalho, procure por um roteirista desempregado, talvez frustrado com algumas negativas de patrocínio oficial e, quem sabe, encontrará o autor intelectual desse script.

Bom, como nem tudo é perfeito, já teve neguinho mais afoito do bando que saiu comprando carros à vista, cash, e botando dinheiro nas latarias, como se fosse saquinhos de cocaína, heroína ou marijuana. Tsc tsc tsc... E essa bobeira, também condizente com os bons roteiros, conduzindo a um final moral, me lembra que esse texto é sobre a crise. O pior é que o texto já tá grande e da crise mesmo pouco falei.

Mais uma prova, portanto, que nem as crises são feitas hoje como eram feitas antigamente. O pior nessa de agora é que nada acontece com ninguém. Nada, absolutamente nada. Delúbio, o homem das malas, sequer expulso de seu partido foi. E nem será. Dizem que, caso isso aconteça, a República cai. Silvinho, talvez ao volante de seu Land Rover, escafedeu-se. Genoíno, coitado, vítima indefesa dos ardis delubianos criados por mestre Zé, está recluso, amargurado, atarantado, aposentado, em sua casa simples de toda a vida, talvez se preparando para a carreira de monge trapista (ele, pelo menos, nunca deu-se ao desplante de fumar Cohibas, ganhar Land Rovers ou comprar fazendas à vista e cash; e, mesmo assim, sobrou pra ele; o que me faz lembrar com propriedade de Hannibal Lecter perguntando pra Clarice Starling sobre o silêncio dos cordeiros, the silence of the lambs, indo quietos, emudecidos, conformados, para o matadouro). Gushiken sumiu, embora dê expediente no Palácio. Dizem. Zé Dirceu, bom, Zé Dirceu fez e aconteceu e agora manobra, como sempre, os cordões a partir dos bastidores. E Marcos Valério anda ocupado, reunido com advogados e processando o partido para receber os empréstimos dos quais foi avalista e tentando convencer dona Renilda que o careca nas festas brasilienses com as meninas de Mary Jeanne não era ele.

Nenhum gesto nobre. Nenhuma renúncia. Nada de nada. O presidente está inamovível. Com ele ninguém mexe, ninguém agita. Os ministros todos vão bem, obrigado, o da Fazenda inclusive. Assessores de ministros continuam passeando pra lá e pra cá. Se a gente pensa e fala em Willy Brandt, caso alguém dessa corja saiba quem foi ele e conheça sua história, dará risada e dirá que o cara foi trouxa. Imagine, renunciar por causa de um assessor que enveredou pelo caminho do mal. Ora, que bobagem.

O paradoxal nisso tudo é que o país vai bem, obrigado, embora o povo, como de hábito, vá mal, o que é um mero detalhe. E o governo que nasceu de “esquerda” funciona porquê os ministros da “direita”, Rodrigues e Furlan, seguem trabalhando e ninguém vê seus nomes em parte alguma dos cadernos de política.

Mas, cansei. Há dias nada escrevo a respeito e leio só as manchetes. Tem sido o suficiente para me manter atualizado. Tenho escrito sobre árvores e bichos. E tenho escrito sobre futebol. Ou seja, ando escrevendo sobre o que é importante. Nessa altura do campeonato, qualquer uma das minhas vaquinhas é mais importante que qualquer um dos ministros da república. É mais importante que S. Excia. Também.


Fui.

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terça-feira, agosto 23, 2005

Comentários



Fernando, tenho lembrança dessa música, sim. Mas não recordo quem cantava e o nome. Aliás, os grandes sucessos foram cantados por muitas duplas e cantores. Pra completar a vaga memória, todos meus cds de música caipira e música sertaneja foram roubados do meu carro há uns 2 anos. :o( Preciso recomprar todos.

Ana... hummmmmm... Belo filho e belo pai, oras! Caso contrário terei de gastar um monte em análise. :o)

Deletados: spam comments. Impressionante, a criatividade vai às alturas. Deletei dois. Outros virão.

E o povo continua perturbando a Tereza Cruvinel em seu blog. E o Jorge Moreno em seu blog. E o Lédio Carmona em seu blog. E o Jorge Luiz Rodrigues. E o Noblat. E até a Cora com um blog tão eclético como o InternETC. Há que ter muita paciência pra agüentar gente que só aparece pra perturbar e falar abobrinhas.

Hummmm... O César Maia tem um blog. O blog do César Maia não permite a postagem de comentários...

É esperto o César Maia.

O César Maia não sabe o que é um blog.

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Olhando do alto...


Essa é a vista que temos da saída de Santa Rita do Passa Quatro para Santa Cruz da Estrela, distrito a 17 km de distância. É na beira dessa estrada, a dez quilômetros e pouco que está localizado o Sítio das Macaúbas.

Dá pra ver bem pela foto como estamos no alto, por cima de tudo, né? Estamos na região chamada de Terras Altas Paulistas. Além da própria Santa Rita do Passa Quatro, temos São Carlos, Analândia e Brotas, e mais algumas cidades, inclusive Pirassununga e Porto Ferreira. Essa última é a cidade que se avista plano médio na foto. Mais para a esquerda fica Pirassununga. Mais para diante, no rumo do horizonte bem na direita da foto, fica Descalvado e mais além, fora já do horizonte abarcado nessa imagem, fica São Carlos. Todas elas também fazem parte das Terras Altas, embora só São Carlos esteja, de fato, bem no alto.

O sítio que aparece na beirada do “vazio” é de um casal de amigos, por sinal, com a família recém-ampliada por mais um pimpolho. Na divisa do sítio começa a descida abrupta para a parte baixa do município. Essa encosta é coberta por uma mata razoável, com uma boa população de macacos, que berram um bocado de manhã e de tarde. Esse sítio estava abandonado, nada mais era que um pedaço de pasto pouco freqüentado. Assim que eles mudaram, nos primeiros três dias, foram “visitados” por 3 ou 4 cascavéis, com certeza aborrecidas pela invasão de território. Depois dessas visitas, felizmente, não deram mais as caras por lá.

Esse não é o ponto mais alto de Santa Rita do Passa Quatro, que é o Pico do Itatiaia. Mais pra frente voltarei lá para fotografar a região. Mas será melhor fazer isso depois de uma boa chuvarada, com o horizonte limpo.


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segunda-feira, agosto 22, 2005

Ipê, simplesmente



É quase a perfeição,
que se resume a momentos fugazes,
depressa quebrados pelos ventos
fortes e secos de agosto.

Mas enquanto dura,
quanta beleza!





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Planta daninha e ipê-amarelo: uma combinação feliz

O gênero Ipomoea tem um monte de representantes nativos dessa Terra de Vera Cruz. São cipós de belas flores. Se não encontram onde subir, cobrem o chão por completo. Se dão de cara com um pé de milho ou de cana ou uma cerca, aí ficam, devem ficar, mais felizes: se engancham e sobem. Na hora da colheita, um horror. Se manual, o trabalho é multiplicado e o rendimento cai vertiginosamente, o que acontece no milho, já que a cana é queimada antes da colheita, se ela for manual. Na colheita mecânica as bonitas ‘ipoméias” são tenebrosas: em certos momentos as colheitadeiras simplesmente travam, com a ceifadeira embuchada por quilômetros de cipós. Trabalheira braba, geralmente embaixo de um gostoso sol de quarenta graus. À sombra. Um dos nomes mais comuns dessa planta é corda-de-viola. E é um bom nome pra danada.



Aqui, todavia, a corda-de-viola está bem. Tá bem na foto, literalmente. Se alastrando pelo gramado à beira da Zequinha de Abreu, faz um bonito e discreto rodapé em verde e lilás pra realçar o amarelo de mais um ipê nessa Santa Rita do Passa Quatro.

A flora brasileira é espantosa. Planta daninha pode se transformar. Como uma gata borralheira das roças e sertões.
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Jacarandá-do-campo e a Lua


Manhãzinha no Sítio das Macaúbas.

O Sol já deu as caras e a Lua ainda mostra a dela.

Tanto brilhou a noite inteira, ofuscando as estrelas que, agora cansada,
parece se retirar devagarinho, discreta, querendo que ninguém note
sua presença fora de hora.

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sexta-feira, agosto 19, 2005

Jacarandá-do-campo no poente



O Sol está se pondo no Sítio das Macaúbas.

Um resto de luz dá um tom dourado à casa nova, onde vai morar o retireiro.

O jacarandá-do-campo está num de seus melhores momentos, silhuetado. É uma árvore com jeito de árvore mesmo, copa bonita, mas irregular.
Em mais um ano os dois eucaliptos ao fundo, à direita, estarão muito altos, compondo uma nova paisagem para o poente...

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Foto-família na Libertadores


É, meio diferente essa foto, né?

Foto-família, com meu filho no Morumbi, comemorando nem lembro
qual dos gols ou o final do jogo.

Tanto faz. Comemorando, é tudo que importa.

Tava devendo alguma coisa sobre a maravilhosa noite de 14 de julho,
quando o São Paulo venceu o Atlético Paranaense por 4x0 e conquistou a
Taça Libertadores de America pela terceira vez,
o primeiro time do Brasil a atingir tal feito.

Que noite, que noite maravilhosa.

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quinta-feira, agosto 18, 2005

Beira de estrada

Se os japoneses têm suas festas das floradas das cerejeiras, nós podemos ter a nossa festa da florada dos ipês. Santa Rita do Passa Quatro, por exemplo, poderia plantar grandes renques e formar parques com ipês-amarelos, brancos e roxos. São muitas as espécies de ipês-amarelos, cada uma florescendo num momento diferente da outra. O grande ipê no quintal da Casa da Lavoura floresce tarde, com a primavera já a meio caminho do verão. A cidade ficaria muito mais bonita, charmosa e atraente. Sem falar nas sombras durante os meses quentes.

A própria Via Anhanguera já presenteia o viajante com seus muitos ipês. De repente, o cansaço ou uma certa monotonia da estrada é quebrado pela visão de um ipê carregado, uma explosão de cor na paisagem. A vista repousa nas flores, a mente descansa, os pensamentos ganham outros rumos, a vida, ainda que por momentos, torna-se mais suave, mais agradável, mais gostosa de ser vivida.

É nas pequenas estradas vicinais, todavia, e nas estradas de sítios e fazendas, que a gente consegue mais que ver, viver esse presente da natureza.

Gosto de ir para o sítio pela vicinal do Brejão, uma estradinha bonita e gostosa. Ela sai de Porto Ferreira, passa pelo Brejão, um bairro só de sítios e fazendas, e chega a Santa Cruz da Estrela. De Santa Cruz até o sítio são apenas seis quilômetros, agora pela vicinal Santa Rita/Santa Cruz. O primeiro trecho tem curvas fechadas e pequenas pontes apertadas, corta pomares e canaviais, atravessa uma mata e penetra num túnel de bambus. Na mata, já vimos macacos. É uma mata bonita, permite à imaginação projetar como devia ser nos tempos antigos. Algumas árvores ainda se destacam, altas, sobranceiras.


Depois do Brejão, já perto de Estrela, estão as Curvas dos Três Ipês.




É assim que chamo esse trecho de estrada. De um lado e outro, canaviais. Um pouco mais afastada da estrada, uma mata ainda bonita. Macaubeiras esparsas no meio do pasto vizinho. Se olhamos para trás, para a direção de Porto Ferreira, a paisagem se alonga, no horizonte distante sabemos que está São Carlos do Pinhal, hoje sem os pinhais que lhe deram o nome. Mesmo com a névoa acinzentada do inverno esmaecendo a paisagem, ela é bonita. Vale a pena a mirada.

Mas o que domina a tudo são os ipês. Mesmo agora com a maioria das flores já perdidas, é uma visão de sonho. Ao mesmo tempo mínima e grandiosa. A natureza brasileira não se presta ao minimalismo poético dos hai-kai. Já tentei cometer um – parece fácil, são apenas dezessete silabas, sendo cinco no primeiro e no terceiro versos e sete no segundo – mas quem disse que consegui? Parece pouca, mas é muita areia, inda mais pra caminhão tão pequeno como o meu.


Tento fazer um hai-kai com uma foto, mas esse amarelo tropical não se presta à discrição.




Ele é muito explosivo, muito forte, muito intenso.
Está mais para uma feijoada barulhenta e cheia de gente do que para uma cerimônia do chá.

Simplesmente paro tudo por algum tempo e contemplo as árvores, as flores, a paisagem. Talvez eu tenha uma alma em parte japonesa e não saiba.

Olhar ipês, simplesmente.

É o que pede essa alma.

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quarta-feira, agosto 17, 2005

Noites e dias livres...


Livres de insetos. Que coisa boa! Vamos e venhamos, insetos aos montes é um saco. As portas da casa tem de permanecer rigorosamente fechadas, coisa que desagrada aos cachorros e à Sophia, que gostam de sair – o que todos sabem fazer empurrando as portas teladas – e entrar conforme lhes dá na telha. As moscas são quase uma lembrança, nada mais que isto, mesmo com o curral, as vacas, o esterco todo a algumas dezenas de metros de nossa casa.

Essa ausência de insetos em profusão e as noites sem luar são duas das grandes benesses do inverno. Há outras, mas me alongaria mais que o normal se fosse falar de todas elas.

Confesso, todavia, que a próxima chegada da primavera me anima. Com ela virão as revoadas de saúvas e cupins, enchendo o ar de siriris e içás. A passarinhada toda fica alvoroçada, as galinhas se agitam e as angolas se divertem, comendo toneladas de tanajuras e aleluias. Os sapos de todos os tamanhos voltarão a fazer ponto em nossas varandas, religiosamente, se empanturrando de tudo quanto aparecer atraído pelas luzes, principalmente besouros. O que me leva a freqüentes incursões noturnas catando besouros rola-bosta aos montes e jogando-os no bezerreiro e nos pastos próximos. Lá, eles fazem uma limpeza muito boa. Enterram-se no solo, cavando galerias, e levam lá pra baixo o esterco das vacas. No esterco vão os ovos da odienta mosca-do-chifre, uma praga terrível, tenebrosa, incômoda, para as vacas. Esses ovos nunca gerarão novas moscas, contribuindo para um razoável controle das maledetas. Aqui, em parte por isso e em parte pela homeopatia, a infestação é pequena, mas mesmo assim existe e incomoda.

E os vagalumes voltarão. As noites com eles são sempre mais bonitas, mais interessantes. O curioso é que a ciência já descobriu a luciferase, enzima que, na presença de ATP (adenosina tri-fosfato) e do substrato luciferina, produz luz fria sem calor. Ou seja, descobriu tudo mas não descobriu como fazer luz fria, com pouca ou nenhuma perda para a geração de calor. De 90 a 94% da energia envolvida é transformada em luz pelos vagalumes, e somente de 6 a 10% é transformada em calor. Isso é exatamente o oposto do que nós conseguimos com nossas lâmpadas.

Alguns vagalumes emitem uma luz bastante forte. Já me flagrei assustado no sítio com uma luz cambiante vindo em minha direção pelo carreador de entrada. Ô, diabo de sensação chata! É passageira, dura se tanto dois segundos, mas deixa seqüelas. Há um intervalo, um delay, como se diz em português moderno, entre a visão da luz, a descarga de estímulos meio vexatórios e instintivos e, finalmente, o glorioso processamento daquele sinal por nosso intelecto, que em questão de nanossegundos chega à conclusão, brilhante, que é só um vagalume. Pena que o estrago já esteja feito antes disso tudo. Essa luz, que com certeza está na origem de algumas lendas, de alguns mitos, é contínua e gerada pela “lanterna” abdominal do pirilampo.

Um dos grandes espetáculos dos cerrados, ou melhor, mais na região do sudoeste goiano e leste do Mato Grosso do Sul, é a visão dos cupinzeiros luminosos. A região é rica em cupins de montículo – dos quais há um monte de espécies – e os vagalumes deixam seus ovos nos respiradouros desses montículos. As larvas que eclodem dos ovos, postam-se à entrada dos respiradouros e brilham. É esse o belo espetáculo que a gente vê. O que a gente não vê é o porquê do espetáculo: atraídos pelas luzes, insetos incautos vão de encontro a elas. Vão de encontro às goelas das larvas. Dirá alguém: por trás da beleza, o horror. Bobagem. Isso nada mais é que uma engenhosa adaptação de uma espécie ao seu ambiente.

Pois bem, logo, logo, as noites começarão a esquentar, as chuvas chegarão, os insetos voltarão. Com eles, coisas boas e coisas ruins. E paro por aqui se não vou sair citando Engels e o meio bobo “Dialética da Natureza”. E nem eu tenho mais estômago para tanto.


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terça-feira, agosto 16, 2005

Sophia... há quase um ano


Madame Sophia, quando fiz essa foto, era ainda Mademoiselle.

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Girassol, um pouco mais


Guri, criado em fazenda de café, agricultura pra mim era café. Cafezal a perder de vista e a gente perdido lá dentro, tudo parecendo igual pra qualquer lado que se olhasse. Lavoura mais chata, a única diversão era procurar ninhos de rolinha e tico-tico nos pés de café. Fora café, era um tratinho de feijão aqui, arroz nos brejos, um tanto de milho pras galinhas, pros porcos e pro fubá. Onde tinha usina, tinha cana. tirando isso, nada mais.

A soja, o milho bem plantado, profissionalmente, a cana por toda parte, os grandes laranjais, tudo isso é coisa mais moderna, mais recente, fruto de uma agricultura que evoluiu e se diversificou. Guri, girassol era aquela planta bonita de um filme água com açúcar – “Os girassóis da Rússia”. Por aqui, era planta de raros jardins. Há alguns anos, timidamente a princípio, sua cultura começou a ganhar espaço nas áreas de renovação de canaviais. Com o crescimento da classe média e com a maior ênfase à saúde e à qualidade de vida, o óleo de girassol também ganhou espaço nas gôndolas dos mercados e nas cozinhas de famílias jovens com bom nível de renda. Lentamente o girassol foi crescendo em área e importância. É pequena a área e pequena sua importância no volume total de grãos, mas em cinco ou seis anos esse quadro estará bem diferente.

Respondendo ao Fernando, eu só "plantei" girassol em bordadura (beirada) de roça de milho pra chamar a atenção das maritacas e periquitos. Esses “simpáticos” e barulhentos visitantes adoram milho! O pior é que abrem uma espiga, comem meia dúzia de grãos e vão para outra. A espiga aberta fica exposta ao ataque de fungos e insetos e o agricultor fica com um belo prejuízo. Plantando girassol nas beiradas, procurei atrair a passarinhada pra essas plantas, salvando algumas espigas. Deu certo pra eles. Tiveram dieta diversificada. Quanto a mim, bom, restou a satisfação masoquista de ver os bandos voando e gritando satisfeitos por todo o sítio.

Está em meus planos plantar girassol como lavoura de “safrinha”, ou lavoura de inverno. Normalmente, a principal lavoura é a de verão, que se inicia com as chuvas de primavera, em outubro. As lavouras de inverno como sorgo, o próprio milho-safrinha e o girassol, são plantadas logo após a colheita da lavoura de verão, entre janeiro e março, ou princípio de abril. O sorgo e o girassol são interessantes porquê suportam relativamente bem o período seco que se inicia em maio, geralmente. Quando eu plantar, entretanto, será para picar a planta inteira e ensilar, fazer silagem para o gado comer na seca.

O plantio para produção de grãos e, posteriormente, de óleo, se dá, principalmente, em algumas áreas do cerrado goiano e mineiro, em algumas regiões de São Paulo e do Paraná, bem como no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.




Essa foto mostra o campo de girassol do meu vizinho Sandro.

Curioso, o cinza do céu, as árvores desfolhadas, a própria lavoura, a paisagem ao fundo,
tudo parece indicar uma lavoura de girassol no Canadá.

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Vida dura


Essa é a Titica. Durante muito tempo nós a chamamos de “Magrela”. Mas ela encorpou bem, ficou somente magra e passamos a chamá-la da mesma forma que seus donos, nossos vizinhos de baixo: Titica.

Vida dura, né? Daqui a uma meia hora ela vai acordar e deitar ao sol. Por mais uma meia hora, pouco menos, quando voltará pra sombra.

Mas é uma vida sujeita a imprevistos. A chegada de um visitante. A Rosa passando a caminho da cozinha, local de eterno prazer com guloseimas só vistas e comidas aqui, e só quando a gente está aqui. Essas guloseimas, em formas diversas, mais o carinho direto, transferem para nós toda a sua lealdade canina durante o final de semana.

A Titica é fiel.


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Saia & Blusa


Conforme o momento, ou seja, dependendo do ângulo de incidência da luz do sol, fica visível a diferença de tons entre a vegetação mais velha e a brotação que veio depois da poda da cerca-viva de sansão-do-campo.

Um ton-sur-ton, conjuntinho saia & blusa como dizia-se muito antigamente. Sei disso porquê minha mãe era costureira e expressões ligadas a essa atividade eram comuns em casa.

Fala-se assim ainda hoje?

Essa cerca é de um dos vizinhos. A minha não foi pra frente. Vou tentar novamente tão logo comecem as chuvas.