domingo, novembro 05, 2006

Digressões dominicais

“Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais. Entre o número áureo e reduzido das horas felizes que a Vida deixa que eu passe, conto por do melhor ano aquelas em que a leitura de Conan Doyle ou de Arthur Morrison me pega na consciência ao colo.

Um volume de um destes autores, um cigarro de 45 ao pacote, a idéia de uma chávena de café – trindade cujo ser-uma é o conjugar a felicidade para mim – resume-se nisto a minha felicidade. Seria pouco para muitos, a verdade é que não pode aspirar a muito mais uma criatura com sentimentos intelectuais e estéticos no meio europeu atual.”

Esse trecho foi extraído do livro “Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas”, de Fernando Pessoa, com organização, introdução e notas de António Quadros, editado por Publicações Europa-América, Lisboa.

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Num aniversário há muito passado e esquecido, ganhei esse livro de presente. Tenho boa recordação de quem presenteou-o, um bom amigo, acompanhado de sua mulher com quem tive pouco contato, pois nosso conhecimento foi todo construído nas horas de trabalho. Quer dizer, se é que o livro foi dado pela pessoa que imagino. Como disse, foi num aniversário há muito passado e esquecido.

Hoje, procurando por um livro que senti vontade de reler – “Libro de Manuel”, Julio Cortazar – deparei com esse Pessoa. Separei-o. Mais tarde, saboreando esse primeiro dia de horário de verão, comecei a leitura pelo “Diário” e deparei com essa pequena pérola datada de 1914, ou seja, apenas seis anos antes de Dame Agatha Christie publicar “The Mysterious Affair at Styles”, seu primeiro e um de seus melhores livros com o genial Hercule Poirot. Creio que Pessoa deve ter gostado de Poirot tanto quanto gostou de Holmes, mesmo porque, sem dúvida, há pontos em comum entre ambos. Não encontrei outra menção sobre isso, mas Pessoa traduziu Poe e Shakespeare, gostava de policiais, então, certamente, deve ter tomado contato com as primeiras e excelentes obras de Agatha Christie, cujo número entre 1920 e 1935 – ano da morte de Pessoa já em seu final (dezembro) – chegou a trinta, entre elas as pequenas obras-primas “Murder on the Orient Express” e “The Murder of Roger Ackroyd”.

Minhas estantes e armários guardam algumas centenas de livros policiais. A maioria meros passatempos de viagens e noites tranqüilas. Alguns, preciosos pelo enredo, criatividade, estilo, elegância. Sou conservador, gosto de heróis definidos, não faço gosto por narrativas com profundezas psicológicas, até porque elas envolvem mergulhar na psique de criminosos e como leio para me divertir, passo batido quando esse é o foco do livro. Tampouco me agradam os detetives macambúzios e solitários que viraram moda com americanos. Não jogo no time dos que gostam do noir, do chiaro-scuro e acham tudo isso apaixonante. Como disse, sou conservador e meio pobre nos meus gostos. Paciência. Além da velha dama inglesa e do Dr. Doyle, gosto de Rex Stout, gosto de outra dama inglesa, notável e, felizmente, viva e produtiva, Lady Phillys Dorothy James e mais um bando enorme.

John Dunning é um dos novos de que mais gosto, principalmente quando o livro tem como personagem o livreiro e ex-policial Cliff Janeway. Recentemente foi lançado entre nós “A Promessa do Livreiro” que, além de uma boa história com os ingredientes básicos e clássicos, ainda por cima trata da vida e obra de Sir Richard Burton, o explorador inglês que passou o século XIX andando por Ceca e Meca – foi o primeiro ocidental a visitar Meca, disfarçado.

E aqui, nesse começo de tarde dominical, abro um parênteses: por que Ceca e Meca e não ceca e meca, simplesmente?

Porque essa expressão “andar por ceca e meca” teve origem, provavelmente, na peregrinação que muçulmanos faziam entre a mesquita de Ceca, em Cordova, a maior em terras ocidentais, e a cidade sagrada de Meca. Como queria referir-me a Richard Burton, usei a expressão pelo seu mais provável significado original, associando-o à ida de Burton – não podemos chama-la de peregrinação – até Meca.

Bom, por hoje é só, até porque meu caminhãozinho já foi longe demais com carga demais. Não dá pra tanto.

Bom domingo.

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Um comentário:

Ricardo CRF disse...

Ah, então vc gosta também de policiais, é?

Pois esse é um de meus projetos. Tenho um no forno, não é policial ainda, mas no futuro quero - eu disse quero? Melhor seria dizer VOU -, continuando, no futuro vou enveredar por esse caminho também.

Jabutis, aí vou eu!!!