segunda-feira, dezembro 31, 2007

Brasilidades de fim de ano antes que o ano acabe


Pequenos tópicos, sem profundidade, captados aqui e ali pela imprensa nos últimos sessenta, oitenta dias. Aumentar essa colheita para todo o ano, bem como fazê-la com um olhar mais atento que um mero olhar crônico, seria impossível para um mero ser humano como eu. Fica, então, só essa colheitinha, uma pequena amostra...


- Para acabar com o caos aéreo...

O governo e a ANAC (que é, mas não deveria ser governo) vão aumentar as tarifas de Congonhas. A proposta é dobrar o valor da taxa de embarque para o passageiro e multiplicar por doze – repito: doze – os custos das empresas para operarem em Congonhas, custos que, naturalmente, serão incorporados às passagens aéreas dos... passageiros, os mesmos que terão a taxa de embarque multiplicada por dois. Essa tática é velha: acabe com a doença, mate o doente.


- Um choque de eficiência

A cada trimestre, todo trimestre...

A cada semestre, todo semestre...

A cada ano, todo santo ano...

A mesma história e as mesmas manchetes se repetem nos últimos anos: crescimentos assombrosos nos lucros do Bradesco, do Itaú & Cia. Bella. Números espantosos, tão portentosos que até fariam corar velhos barões capitalistas e reis da banca, como os Rothschild, Morgan e Rockfeller, entre outros.

Quebrando essa mesmice chata, repetitiva, sem graça, a Caixa (a Federal, claro), anunciou um baita prejuízo no penúltimo trimestre de 2007.

Coisa de gênios, sem a menor dúvida.

Se bem que a explicação foi boa: gastos com pessoal.

Ah, entendi...



- Minério vai por nada e vagões vêm por pouco, mas muito mais

A Vale vai comprar 10.000 vagões ferroviários.

Alvoroço no mercado.

Mas a Vale não joga dinheiro fora e quer preços competitivos da indústria nacional.

Competitivos com a indústria chinesa de vagões.

As empresas brasileiras chiam, em parte com razão.

As empresas chinesas pensam em comprar mais ferro do Brasil.

Sim, vendemos minério de ferro para a China. O frete Tubarão/Xangai é mais caro que o custo do minério.

Os chineses usam o minério brasileiro, fazem chapas de aço e outras coisas, e com elas fabricam vagões ferroviários.

Embarcam esses vagões em grandes navios até os portos de Tubarão e Itaqui, onde eles chegam muito mais barato que os vagões fabricados aqui mesmo.

A diferença maior, entre outras, é que os vagões chineses chegam vazios aos portos tupiniquins, ao passo que os vagões brasilianos chegam carregados...

De impostos.


- Criar boi para importar sapato

A Europa e o mundo curvam-se diante de nossa criação de bois.

Menos a China e os chineses.

Eles compram o couro de nossos bois, já curtidos.

O processo de curtição é muito ruim, fedido e poluente, e é feito todo aqui.

Eles cortam e recortam e moldam os pedaços de couro.

Fazem um, dois, dez, cem, trocentos mil pares de calçados diversos.

Colocam-nos em grandes containers, que vão para grandes navios, que trazem-nos para o Brasil, terra do couro.

Dos navios para as lojas a preço de banana.

Nos últimos anos, a indústria calçadista fechou, encerrou, eliminou, deletou, mais de trinta mil vagas nas indústrias de calçados no interior paulista e gaúcho.

Nada como ser malandro, é o que eu sempre digo.


- As chuvas chegaram!

Mas não o socorro para as vítimas da seca.

Uma parte do sertão do Piauí vem sofrendo barbaramente com a seca inclemente.

Há cinco meses foi aprovada, depois de muitas delongas e muito nhenhenhém, uma verba de 3,2 milhões de reais – é, esse miserê mesmo, coisa de dez por cento ou menos de um único mês de mensalão – para reativar cem poços artesianos e pagar o transporte de água em caminhões-pipa.

Tudo isso coisa para gente pobre, ou melhor, miserável, aquelas pessoas que deram seus votos... Bom, deixa pra lá.

Cinco meses...

A verba ainda dorme nos cofres federais.

As chuvas, felizmente, chegaram ao sertão.

Em novembro ainda era pouca a chuva e a verba fazia-se necessária.

Tem-se notícias de mais chuvas, mas não se tem notícias da liberação real e verdadeira dos míseros três milhões e duzentos mil.


- A vanguarda do atraso

Sob esse título milhões de coisas podem ser descritas e escritas, no Brasil e em toda a América Latina.

Todo governador tupiniquim quer porque quer indústrias em seu estado. Não importa qual seja o estado, não importa qual seja a indústria.

Há que ter indústrias.

Há que ter progresso.

Há que ter riquezas.

Há que ter, sobretudo, os muitos empregos que uma indústria gera.

A CAOA, grupo tupiniquim, é dona da fábrica Hyundai em Anápolis, cidade entre Brasília e Goiânia, que abriga a mais importante base aérea do país, de onde decolavam, antes de virarem sucata, os Mirage do Grupo de Caça da FAB.

A CAOA vai investir cem milhões de dólares na fábrica de Anápolis em 2008.

A CAOA vai comprar cem milhões de dólares em robôs, para uso na linha de montagem.

Depois todo mundo critica as usinas de açúcar que fazem colheita mecânica da cana, porque acabam com o “emprego” de milhares de brasileiros.

Nada como ter perspectiva.


- Meia volta, volver!

lulla da Silva mudou o discurso.

Depois de empurrar goela abaixo as usinas do Madeira e a transposição das águas do São Francisco, ele agora promete para 2008 nova e rigorosa lei de proteção ambiental, etc e tal.

Enquanto seus projetos faraônicos eram bombardeados por conta dos imensos – e não solucionados riscos ambientais – ele dizia que o progresso não podia ser detido por causa dos “bagres” de um rio. Dizia, também, que sete ou nove ou dez ou doze milhões de pessoas (os números sempre variaram de acordo com o humor) não poderiam morrer de sede enquanto as águas do Velho Chico corriam sem uso ali “por perto”.

Agora, com as pirâmides, digo, usinas e transposição já em construção ou prestes a começar, viva o ambiente, viva a preservação do que temos e do futuro que precisamos.


Chega! Daqui a pouco será hora de abrir champagne, prosecco ou um simples lambrusco, para não dizer uma ainda mais simples cidra, e bebemorar a passagem de 2007 para 2008.

Para que pensar em brasilidades?

Tenho que pensar na compra de um carrinho básico e nas 99 prestações do bichinho.


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Um comentário:

Marilia Fatima Bandeira disse...

BOM 2008, Emerson, meu querido blogueiro... vamos torcer para que em 2008 as coisas melhorem nesse nosso país, né?
Sabe?? Minha irmã, que trabalha na receita federal, sussurrou que houve um enorme lob dos ricos e milionários para o fim da CPMF... imagine... eles estavampagando IMPOSTO!!!!!.... então, eis ai o motivo de não manterem o imposto com uma alíquota decente aos bolsos de todos (algo como 0,001%), mas eliminá-la já... era a única maneira que a Receita tinha de mapear os milhões desviados, não declarados, que circulam entre contas bancárias e pelas cuecas do país...
Beijo
Marilia