quarta-feira, fevereiro 07, 2007

“Eu > Deus”



A princípio fiquei curioso com o lançamento do livro, mais devido ao autor, confesso, cujos textos costumo ler diariamente, além de assisti-lo pela tevê em programas sobre futebol. Mas... Sei lá, o título me deixou por muito tempo com a pulga atrás da orelha e mantendo distância. Eu sei que é chato à bessa, e também à beça, escrever esse tipo de coisa, mas, que diabos, ou a gente escreve o que pensa e sente, com um mínimo de educação, ou nada escreve, né? E o título, não sei porque, me fazia pensar em um romance existencialista, ou alguma coisa com cheiro e gosto de Kierkegaard e, francamente, tudo isso é ilógico, sem nexo, divagações da minha cabeça a partir de um título.


Até que tive sorte e achei uma boa sinopse na internet, por sinal, num blog, a nova mídia desse começo de século. E fiquei cativado pelo que li, saindo à procura do romance “Eu > Deus”, do Sidney Garambone (Ed. Record, 288 páginas, lançado em 2006, R$ 37,90).

Comprei-o num sábado, começo de tarde preguiçosa. Voltei pra casa, olhei o gramado precisando ser roçado, olhei pro sol, senti o calor, olhei pro livro... e deixei a grama pro final do dia esticado de verão, quando a temperatura estaria mais civilizada.

Pois é... Jacaré cortou? Nem eu. A grama ficou lá, esperando a roçadeira, e eu fiquei deitado no sofazão, tevê desligada, computador hibernando, devorando página após página do livro. Já no domingo, com a ajuda preciosa de umas pancadas de chuva, cheguei ao final, satisfeito e insatisfeito, o que acontece sempre que gosto do livro. Satisfeito por terminar a leitura, conhecer o destino de personagens que me cativaram ou por quem tomei antipatia, e insatisfeito por ficar na boca o gosto de “quero mais”.

Um grupo de amigos, basicamente dois homens e quatro mulheres, reúne-se nas noites de terça-feira num apartamento do Botafogo. Um deles apresenta três filmes, geralmente clássicos do cinema, uma votação decide qual assistir e, terminada a sessão, conversas e discussões que começam pelo filme e tomam novos rumos a cada terça. Como é natural, ainda mais num grupo de solteiros e neo-solteiros em idade e tempo de deixar de sê-lo, envolvimentos encontram excelente ambiente para nascer e prosperar. E definhar, ou não.

É fácil nos transportarmos para as sessões de cinema, com um nome todo próprio, mas que não contarei aqui. Os personagens são pessoas, parecem conhecidos e conhecidas, amigos e amigas, algumas até mais que amigas em tempos remotos. Essa aparente simplicidade e jeito de algo rotineiro é enganadora. Inevitavelmente, o desenrolar das sessões, conversas, olhares, insinuações, paixões, falsas ou verdadeiras, segue uma curva ascendente, como aqueles gráficos dos lucros dos bancos tupiniquins, alimentada e aumentada pelos textos que o narrador escreve madrugada adentro, logo depois de cada encontro e que, movido por sentimentos conflitantes acaba por distribuir a todos os participantes do grupo pela internet.


E a gente, ou eu, pelo menos, acaba se identificando com alguns comportamentos, algumas situações. Surpreso, e feliz, descubro que gritar dentro do carro fechado, em movimento, não é loucura exclusiva desse escriba. E algumas outras coisas, como o caso das... Deixa pra lá, que cada um descubra suas próprias identidades e afinidades.


A cada texto a sessão do dia está ali, meio transcrita, meio inventada, meio recriada. Como o narrador é um escritor, fica claro que ali está o embrião ou o próprio próximo livro dele. E também fica claro que isso acontece porque a internet existe, já que é difícil imaginar alguém datilografando e depois copiando em xérox ou mimeógrafo (para os mais novos: deve ter alguma no google sobre esse negócio chamado mimeógrafo, equipamento de fundamental importância na resistência aos regimes ditatoriais) o texto com várias páginas para distribuir, toda semana, entre várias pessoas. “Eu > Deus” é uma obra dos tempos da internet, e não me refiro à data de publicação.

Se eu fosse um crítico literário escreveria mais e melhor. Se eu fosse um cronista mais inspirado escreveria mais, ou menos, porém com mais graça e inspiração. Diria dos momentos diversos em que a leitura me pôs pensativo. E falaria, claro, das conversas sobre os filmes, imperdíveis, como diria antigo ministro de não saudosa memória. Mas, não importa, creio que disse o fundamental: é um livro bom e, tão importante quanto isto, muito gostoso de ler.

Opa, já estava esquecendo! Tenho, sim, uma crítica a fazer: ninguém do grupo levou um filme sequer do Eisenstein. Se eu participasse, teria levado na minha vez “Aleksandr Nevsky” e, junto com o DVD, um CD com a cantata de Prokofiev para o filme.

Talvez perdesse o direito às pipocas e ao vinho, mas teria levado.

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4 comentários:

Victor Mauro disse...

É, infelizmente, neste século XXI, as pessoas deixaram de lado qualquer reflexao sobre o dia-a-dia ou qualquer filme, musica ou livro que nos obrigue a refletir sobre nossas atitudes cotidianas.

Vale mais fazer o que "dá na telha" do que tomar atitudes "pensadas" e lógicas.

Ainda é admirável conhecer e conviver com pessoas que se dão a esse "luxo"... as aspas são pq não acredito que isso seja um luxo, e sim algo que todos merecemos... Tanto quanto o futebol, a orgia, o vinho e a alegria pura e simples... A alegria verdadeira...

Emerson disse...

Interessante tua colocação, Victor.

Essa coisa de fazer simplesmente o que "dá na telha" tem um sabor gostoso de liberdade, né? Mas, pensando um pouco além, ela incorpora uma boa dose de irresponsabilidade com o que será feito e, consequentemente, com suas consequências.

Será que isso é muito conservador?

Garamba disse...

Conservardor é usar a tecnologia de um celular para vigiar o vizinho... Viva o abraço irresponsável. Isso é revolução.

Ana disse...

Beleza, Emerson! Crônica à beça, e de quebra passou o gume no Gumercindo, o Bessa. ;)

Abração