domingo, janeiro 08, 2006

O “não” e sua importância



Não comece um texto com um “não”, leitor nenhum gosta. Já me falaram isto, já andei lendo isto e, pensando bem, não recordo de ter lido nada significativo começando com um sonoro “não”. Exceto uma ou outra coisa que eu mesmo andei escrevendo, mas acho que isso não conta.

Por outro lado, foi essa a primeira palavra pronunciada por minha filha: não. Nada de bucólicos “mamãe e papai”, ou mesmo um afirmativo e queremista “dá”. Decidida, dona do próprio nariz desde sempre, a guria achou de sair-se com sonorissimos “não!”, a maioria com direito a ponto de exclamação.

Em tempos mais recentes, depois que a humanidade desaprendeu sobre a arte da autoridade e, esquecida, confundiu tudo com autoritarismo e repressão, já andaram até aparecendo livros e cursos tentando ensinar a pais e executivos a arte da negação, o jeito certo de dizer “não”.

Francamente...

Diria até que isso é pura falta de ter o que fazer. Meu avô, possivelmente, prescreveria dois talhões de café para serem carpidos no cabo de guatambu da melhor qualidade na enxada. Mas meu avô era dos tempos antigos, ele mesmo ex-carpidor que acabou virando administrador de fazenda. Foi assim, nessa nobre qualidade e função (naqueles tempos) que eu o conheci e com ele comecei a sonhar com a nossa fazenda.

Meu avô sabia dizer não, eu que o diga. Quesito, por sinal, em que minha avó era ainda melhor que ele. Filha de calabreses, a velha Brassaroto era tiro e queda, sempre com um “não” engatilhado e pronto a ser disparado na ponta da língua.

- Posso ir brincar na colônia? – Não!

- Posso comer mais pudim? – Não!

- Posso ir caçar passarinho? – Não!

- Posso ficar ouvindo rádio com vocês? – Não!

Arre!

As perguntas que receberiam “sim” nunca perguntei. Não era besta. Tais como:

- Posso comer mais salada e jiló?

- Posso moer mais café?

- Posso torrar mais café?

- Posso pegar mais um balde d’água no poço?

- Posso tomar outro banho com água mais quente?

Curioso, relendo o que escrevi percebo intrigante relação entre não e prazer e, ainda mais intrigante, uma estreita relação entre sim e chatice. Preciso pensar a respeito, quem sabe não esteja aqui a chave da felicidade da espécie humana?

Divagações filosóficas à parte, dizer não é, sem dúvida, uma arte e uma necessidade. E pode ser a afirmação de caráter, também. Como demonstrou minha filha ao fazer dela sua primeira palavra. Apesar de nosso enlevo contrariado, não deixei de ver naquilo um sinal positivo, era a guria desde cedo contrariando as autoridades e impondo a sua vontade. Ainda que pelo não.

O tempo passou, como sói acontecer quer gostemos, quer não, e vim a descobrir grandes verdades da vida, como a anunciada na primeira frase, lembram? Nunca começar um texto com um não.

Essa passagem do tempo veio mostrar-me, entre outras coisas, que nem tudo que é “não” é bom. Querem um exemplo?

Nosso atual presidente a tudo diz “não”.

- O senhor sabia das maracutaias praticadas por seus companheiros? – Não!

- O mensalão existe? – Não!

- Seus companheiros de partido são culpados? – Não!

- Existe corrupção no seu governo? – Não!

- O senhor participou das maracutaias? Não!

- Seu filho não errou ao aceitar os milhões da companhia de telefones? Não!

- O senhor é candidato à reeleição? No comments.

Pois é, como eu dizia, o tempo passa, o mundo gira, a Lusitana roda, o Frederico trota e as coisas mudam. E mudam como já não mudavam outrora, com a licença do Mestre Camões para a semi-citação.

“Não” é um vocábulo de extrema utilidade. Far-me-ia um bem danado aprender a usá-lo.

E tenho cá comigo que faria bem maior ainda ao povo brasileiro aprender a usá-lo de uma vez por todas. Já não é sem tempo.


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2 comentários:

Nanachara C. disse...

Olá, Emerson! Ah, como eu gostaria de saber dizer NÃO quando quero. Quando preciso. E não dizer SIM por medo de dizer não, por medo de chatear, de... Tudo bem, não preciso começar dizendo não, mas queria incluí-lo no meio das frases....

Nelsinho disse...

Caro Emerson,

Excelente texto!
Porque sou do tempo em que um "Não!" deveria ser interpretado como tal, usei a prática na criação das minhas duas filhas, que hoje não acham que em algum momento exagerei na imposição de limites!

Admiro seus textos em português corretíssimo!