domingo, abril 01, 2007

Crime e Acinte





Dona Denise Abreu é diretora da ANAC, a Agência Nacional de Aviação Civil, supostamente responsável por tudo que diz respeito ao transporte aéreo no Brasil. Vejo nessa manhã de domingo, logo cedo, belas (sic) fotos de Dona Denise mamando respeitável charuto, não tão respeitável como os que mamava Churchill, mas, ainda assim peça de respeito.

Dona Denise estava em fantástico regabofe, em Salvador, capital da Bahia. Por ali, em meio aos espumantes e escoceses, circulavam outras autoridades republicanas, inclusive mais algumas ligadas à ANAC. Clima, cara e jeitão de festa, afinal, era o casamento do filho ou filha de político baiano de nomeada. E a gente sabe como são festas de políticos, né?

Nessa festa, diz o pai de um dos nubentes que gastou apenas oitenta mil reais. Papagaio! Isso é que é saber comprar bem! Infelizmente, porém, estimativa por baixo de jornalistas a partir dos preços cobrados pelo buffet, apontam o gasto em cerca de duzentos mil reais, pelo menos. Fora as bebidas, claro, além de outras coisinhas. Bom, isso é picuinha de pobre, de classe média falida e invejosa das festas dos nababos.

Mas enquanto rolava a festa, enquanto Dona Denise mamava seus charutos, enquanto as autoridades republicanas esbaldavam-se no consumo de algumas centenas de espumantes espanhóis e algumas dezenas de escoceses, muitos milhares de pessoas perdiam o dia e a noite acampados em aeroportos tupiniquins. Perdiam, também, casamentos, com certeza não tão nababescos, perdiam funerais, perdiam festinhas de aniversário, batizados, comunhões... Perdiam um dia ou dois com os familiares distantes, perdiam conexões, perdiam dias de serviço e talvez negócios importantes.

Uma dessas pessoas perdeu mais que todas as demais: perdeu a vida em Curitiba, vítima de fulminante infarto. Difícil não dizer que tal desdita não tenha sido provocada pelo caos aeroportuário. Talvez seja o caso de dizer que ele foi assassinado, por que não? Nesse caso, o homicídio deve ser imputado à malta de controladores e à malta de autoridades à frente dos destinos desse imenso bananal.

Em outras condições eu poderia ser simpático à causa dos controladores de vôo, mas não sou. Eles foram, claramente, os responsáveis pela morte de 155 pessoas no acidente com o avião da Gol e o jatinho americano. Quando ficou clara sua culpa, encheram-se de brios corporativos e deflagraram suas operações-tartaruga, operações-padrão, chegando ao ridículo de uma greve de fome. Infelizmente, foram interrompidos em tão nobre e útil propósito.

Eles ganham pouco, muito pouco mesmo, e não estou ironizando, pelo contrário. Fiquei assombrado com a baixíssima media salarial da categoria. Não têm preparo – mais de 90% nada fala de inglês, além de um prosaico “tanquiú” e “gudibai”, e olhe lá. Exercem uma das mais estressantes profissões do mundo.

Mas durante anos e anos mantiveram-se mudos e ovinamente conformados com equipamentos sucateados, equipamentos sem manutenção, salários, condições de trabalho, etc e tal. Só despertaram quando tantas mortes também despertaram alguma investigação. E, desde então, querem cantar de galo, penalizando, para isso, dezenas de milhares de pessoas que nada têm a ver com seus problemas, sua falta de consciência profissional, seu acarneiramento contumaz.

Os controladores de vôo e as autoridades republicanas merecem-se uns aos outros. Não estou bem certo com relação a nós, mas... Sei lá, acho que também merecemos.

Mais um acintoso charuto, Dona Denise?


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2 comentários:

Ana disse...

Revoltante... :(

Cora disse...

Caramba, Emerson, você manda mesmo muito bem!