quarta-feira, abril 09, 2008

Cueca por 1 real...

...usada.

Flashback: toda vez que começo um texto, principalmente para esse Olhar Crônico, tenho que me policiar e controlar fortemente, pois a tendência é escrever “Confesso que...”
Ora, mas que mania besta de confessionário! Confesso, porém, que esse aqui comecei bem diferente - pronto! - mas não deixei de usar o verbinho cuja conjugação na primeira do singular tanto evitava nos tempos das aulas de catecismo. Os únicos, por sinal, que viram-me ligado à religião de maneira formal e, muito menos que isso, presencial, tirando as benditas aulas ainda no primário, pois sem elas não teria primeira comunhão. Ou seja, eu sou daqueles que da missa nunca sabem sequer a metade, ou até parte alguma, pois nunca freqüentei-as de moto e interesse próprios, exceto por motivos políticos em uma outra era já perdida no tempo e nos costumes.

Comprovando que o que mais há nos mármores do inferno é o pessoal cheio de boas intenções, aqui estou eu com as minhas e já com pecados e pecadilhos de infância confessados – de novo o verbo – sem algum texto que tenha a ver com o título completo desse post, que inclui aquela palavrinha de tenebrosas possibilidades para esse caso e peça, “usada”.
Então, com pequeno atraso indigno de uma ANAC, vamos a ele, o texto.

Ontem cedo, por mero acaso, deparei com uma notinha perdida no jornal dizendo que a Polícia Federal, ou a Receita idem, faria um bazar com objetos interessantes, entre os quais uma grande quantidade de garrafas de cristal com vinho do Porto, encomendadas por Edemar Cid Ferreira, aquele que era dono de um banco, presidia a Bienal e mora numa mansão cinematográfica, para presentear amigos & cia. Dizia também a notinha que essas garrafas estariam no leilão por se encontrarem entre os bens apreendidos do famoso traficante Abadia. Ou, provavelmente, foram levadas ao bazar dos bens do traficante para aproveitar a oportunidade.

Esse tipo de gente – Abadia e Cid Ferreira – nunca me interessou. Tampouco seus bens, embora uma das fazendas do bandido seja de dar água na boca, não nego. Todavia, vinho do Porto é líquido de minha especial predileção, seja aqui na Granja, seja no Sítio das Macaúbas. Sou eclético ou sem gosto, dependendo de quem analisa, pois gosto dele ao natural, como deve ser, e também com duas pedrinhas de gelo no começo de uma tarde quente depois do almoço ou no final de uma manhã igualmente quente, antes do almoço. Gosto é gosto, digo em minha defesa, e à noite meu copinho metido a besta não sabe o que é gelo. Se do vinho sou consumidor esporádico, apesar do prazer que ele proporciona, garrafas de cristal não fazem parte da minha listinha de compras nos “valmartis”, “extras” e “carrefurs” da vida. Se além de feitas em cristal da melhor qualidade, provavelmente em algum lugar de nome esquisito da antiga Tchecoslováquia, ainda por cima, ou por dentro, contiverem vinho do Porto de qualidade similar e idade avançada... Bom, aí é que não fará parte de qualquer uma de minhas listinhas de compra.

Lida a notícia, meus neurônios associados às papilas gustativas puseram-se a funcionar. Durante dois, talvez três minutos, acalentei a idéia de pegar o carro e dar um pulinho no Jockey para ver o tal bazar. Mas só de lembrar na encheção que é estacionar o carro, o trânsito e não sei o que mais, desisti e fui cuidar de meus afazeres, multiplicados pela solidão temporária nesse casarão, misturando roteiros e telefonemas com vassouradas e aspiradas de pó.

...

É... Pegou mal, ainda mais num texto em que há menções a um traficante. Explico, para que dúvidas não pairem: as aspiradas de pó citadas não passam disso: reúno o pó e o pelo caído dos cachorros com a vassoura e em seguida ligo uma máquina maravilhosa que tudo aspira, o aspirador de pó. Esse escriba, portanto, continua escrevendo suas sandices habituais unicamente com a ajuda de neurônios de má qualidade, mas naturais, sem nenhum turbinamento.

Nessa manhã seguinte ao bazar, a primeira página do jornal é tomada pela chama olímpica maculada, apagada, reacesa com a chama de algum isqueiro, enfim, uma ridícula chama olímpica digna do governo do país que vai abrigar os próximos Jogos Olímpicos.

A manchete principal, porém, diz que a Polícia Federal apreendeu computadores da Casa Civil do governo federal.
O mensalão, como se pode ver, nunca acabou, no que diz respeito ao envolvimento permanente desse governo com forças policiais. Entre outras chamadas que não vêm ao caso, uma chama minha atenção e leva-me a lê-la antes da sacrossanta leitura do caderno de esportes: “Bazar de Abadia termina em tumulto”.

Ora, ora...

Centenas de pessoas ficaram de fora, sem poder entrar.
Um rapaz saiu de Sorocaba em plena madrugada, chegou às 07:30 da manhã, passou o dia inteiro em pé esperando para entrar e nada. Como ele, mais um monte de histórias na linha “cheguei cedo, fiquei o dia inteiro, não me deixaram entrar”. Um dos felizardos que entrou saiu carregado de compras, inclusive toda a roupa do corpo e mais o boné, sendo confundido, ou “confundido”, com o traficante. Diz a reportagem que entre os muitos bens vendidos – brinquedos, perfumes, quinquilharias, roupas, tinha cuecas usadas – presumo que pelo traficante – que foram vendidas a 1 real.

Cueca usada por um traficante vendida por 1 real.

Ok, não vejo problemas nisso.

Mas, faço eu parte da mesma espécie biológica que abriga seres capazes de comprar cuecas usadas por um traficante de drogas, ainda que por 1 mísero real?

Sim, infelizmente faço, fazemos todos.

Antes que apontem seus dedos acusadores para mim: vinho do Porto em garrafa de cristal de trambiqueiro do mercado financeiro não é a mesma coisa. Até parece, mas não é.

Eu acho...


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Um comentário:

Carlos Emerson Jr. disse...

Com certeza que vinho do Porto em garrafa de cristal não é a mesma coisa! Venha de que trambiqueiro vier! Onde já se viu ????
Um abração e bom final de semana.