quinta-feira, agosto 31, 2006

Fora do mundo

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Dois dias inteiros no interior de Santa Catarina e volto sem saber do que anda acontecendo. Culpa do interior catarinense? Não, longe disso. Culpa de meus próprios hábitos, a cada dia mais e mais imutáveis. Ou imexíveis, como talvez dissesse antigo ministro de tempos que achávamos tétricos. É... Nada como um dia depois do outro, mostrando aquilo que a gente teima em não acreditar: o poço pode ser sempre mais fundo.

Em meu habitat normal, estou cercado por meu computador com acesso banda-larga conectado full time, minha tevê recebendo o mundo por mini-parabólica e mostrando-o em dezenas e dezenas de canais, e mais meu sagrado jornalão diário, companheiro inseparável de todo café-da-manhã, além da também inseparável revista semanal. Se por algum motivo, coisa que por sinal é igualmente mais e mais rara, tenho que sair, costumo ligar o radio do carro em uma estação AM. Ouço o noticiário radiofônico e a cobertura idem para a vida na megalópole.

No oeste catarinense estive fora do meu habitat. No meu quarto de hotel tinha uma tevê, mas há muito tempo perdi o hábito de assistir ao noticiário por essa mídia. Além disso, estamos em plena vigência do maledeto horário político, outra lembrança da ditadura militar, convenientemente aproveitada e mantida pelos democratas de sempre, interessados primeiro e acima de tudo em sua própria manutenção e reprodutibilidade. Coisa básica em qualquer ser vivo, e única nos seres chamados inferiores nos reinos animal e vegetal: bactérias, fungos, protozoários, vermes e políticos.

Sem acesso à internet e sem assistir à televisão, trabalhando duro e corrido o dia inteiro e sem coragem para bater perna pela cidade nas noites geladas, mergulhei de cabeça no último livro da Patrícia D. Cornwell lançado entre nós, vivenciando as aventuras da Dra. Kay Scarpetta & Cia. bela.

Na manhã de hoje retomei meu contato com a, digamos, realidade da vida e das coisas. Hummmmm... Sim, com as contas também, pois as infelizes fazem parte da dita cuja realidade.

E, constato, sem surpresa, que nada mudou. Nadica de nada.

lulla da Silva segue em sua retumbante marcha rumo à reeleição. Para surpresa do mercado, o COPOM altera sua sacrossanta política e reduz a taxa básica em meio ponto percentual, ao invés do quarto de ponto rotineiro. Parece bobagem, é bobagem, mas num quadro mais amplo tem lá seus efeitos. E benesses para o candidato oficial.

Em São Paulo o governo estadual aperta o regime prisional dos chefes do crime organizado e a resposta é imediata: ataques terroristas. Mais do que nunca é nítida e clara que a onda terrorista não é devida a um recrudescimento na criminalidade ou mesmo a uma brutal falha na segurança estadual. É o que sempre foi e poucos quiseram enxergar e anunciar: uma atitude de revanche e desafio ao único governo que ousou endurecer o regime nas prisões, isolando pelo RDD – Regime Disciplinar Diferenciado – os chefes da bandidagem. Essa é a verdade, e assombra-me a incompetência do governo do Estado presente e passado, que não bota a boca no trombone e dá nome aos bois como se deve.

No horizonte, a nuvem chinesa – e não é a do cogumelo nuclear – segue crescendo. E assustando, menos às autoridades tupiniquins, que enxergam nos camaradas apenas bons possíveis parceiros ideológicos na luta contra o reino do mal. Quando acordarem, se acordarem, será muito tarde.

Relativa calma no Líbano. Mas o chefe de Assuntos Humanitários da ONU denuncia Israel por usar bombas de dispersão, cada uma com centenas de pequenas bombas. Pior: segundo ele, muitas dessas bombas não explodiram ainda. Apesar de minha permanente postura pró-direito de Israel de existir e seguir sua vida, nesse momento considero o estado israelense um estado terrorista. Igualou-se aos estados terroristas que sempre combateu. Tempos atrás li algo a respeito, não me lembro de quem, infelizmente. Em essência, dizia o autor que o combate continuado ao crime e a conseqüente exposição prolongada aos criminosos, acaba provocando a transformação moral de quem combate o crime, que julga poder usar os mesmos métodos que os terroristas, nesse caso, usam, contra eles próprios. Nada mais equivocado. O estado deve ser sempre sábio e não-revanchista.

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Bom, no sítio estamos às voltas com uma epidemia.

Sim, uma epidemia, imaginem. Uma epidemia de partos, pode? Só nessa semana foram três, com dois machinhos e uma só fêmea. As vacas vão bem, ainda, obrigado. Que venham as chuvas, que venham os dias longos e as temperaturas altas, estimulando e fazendo o capim crescer. Preciso de capim nos pastos, muito capim.

Minhas vacas merecem.


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2 comentários:

Ana disse...

Capim para as vacas, que elas merecem. :)

Vê se isto aqui distrai seus pensamentos:

Brigavam o olho e o ouvido
para ver quem tinha razão
sobre um fato controvertido.

O que li -- gritava o olho -- está pregado no papel!
O que ouvi -- berrava o ouvido -- guardei em lugar fiel!

E já estavam aos sopapos,
os pobres sentidos meus.
Seria assim ou assado? -- era a dúvida cruel!

Por seu mister diplomático,
pedi auxílio ao tato
que sensível ao dilema
sugeriu de imediato
levar ao olfato o problema.

Func func func -- fez o nariz muito sábio --
há algo estranho no ar!
E retorcendo-se todo no epicentro do rosto:
-- Nem o olho viu errado, nem o ouvido se enganou.
O pomo dessa discórdia é um sujeito versado
em dizer que é assim, depois falar que é assado.
E pra findar a peleja, que tonto de nojo já estou,
fique o olho bem aberto
e o ouvido ligado,
que o tal sujeito é tão esperto
que conseguiu ser operário e nunca foi trabalhador.


Abraços

Emerson disse...

Muito bom, Ana.

:o)
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Que pena, né?
Podia ser só uma brincadeira sem tanta verdade. :o(