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terça-feira, agosto 23, 2011

As agruras da seca – a queimada criminosa

É calor de mês de agosto, é meados de estação
Vejo sobras de queimadas e fumaça no espigão

Os versos que abrem “Terra Tombada”, de Carlos Cezar e José Fortuna, cantada por Chitãozinho e Xororó, retratam bem esse mês que é sempre chato. Faltou falar do vento, que seca e resseca tudo ainda mais.

O monte de palha que tiramos da cana antes de ser picada para as vacas queima de forma instantânea, mal se encosta nele a chama do fósforo. As labaredas crepitam, a fumaça corre meio deitada no rumo do Sol ainda alto, levada pelo pouco de vento do começo de tarde. Em questão de segundos fica sobre o chão apenas pequeno monte de cinza, fumegando. O ceu, para os lados do oriente, está opaco, tomado por um cinza escurecido com uns toques meio avermelhados, tudo efeito do ar tomado por partículas as mais diversas, sólidas, nem é preciso dizer, que irritam os olhos, a garganta e até a boca.

É agosto.

Dias atrás, dia amanhecendo, o Dito chegou e disse-nos, com ar preocupado, um pouco até assustado, que alguém tocara fogo no capim do barranco na beira do asfalto e as chamas tinham quase chegado no nosso pequeno e salvador canavial, comida única das vacas nessa seca. Só não pegara fogo na cana porque um caminhão da usina jogou água e apagou o incêndio em seu começo. Tudo isso ele viu e deduziu em segundos, enquanto seu ônibus passava ao lado, já reduzindo a marcha para ele descer.

Ordenha finda, fomos lá dar uma olhada. De fato, tudo deve ter acontecido tal e qual disse o Benedito, para não ficar “disse o Dito”. O fogo começou na divisa do acostamento com a estreita faixa de terra antes da cerca. Passou pelos arames e mourões rapidamente, mas deixando suas marcas. Subiu o pequeno barranco tomado por capim e arbustos e entrou no carreador que margeia o canavial.

Foi nesse ponto que apareceu o caminhão-bombeiro salvador. O pessoal da usina sabe dos malefícios que mentes criminosas espalham nessa época e os motoristas dos seus caminhões-bombeiros têm liberdade para debelar esses princípios de queimada. Santa providência! Graças a ela, não perdemos a comida das vacas, o que seria simplesmente catastrófico para nós.

Os caminhões são usados para prevenir e controlar eventuais excessos nas queimadas de cana para colheita, processo em fase de extinção no estado de São Paulo, reduzido mais e mais a cada ano. No alto do tanque, atrás da cabine, é montada uma estrutura com um canhão-d’água. O motorista sobe, senta-se atrás da peça de artilharia aquática e dirige um jato poderoso contra os pontos com fogo. A força da água foi tanta que tombou toda a primeira linha de cana, e também boa parte da segunda. Tombou, mas salvou, e graças ao canhão-d’água da usina minhas vaquinhas Jersey e mestiças continuam comendo a sagrada cana picada duas vezes por dia.

Bom, voltando ao crime propriamente dito: como de hábito, ninguém viu, ninguém nada sabe. Falar com a polícia é tempo perdido, pois nunca fizeram e tampouco virão a fazer algo para prevenir ou punir esse tipo de crime. Pensei em falar com a Polícia Ambiental, que ainda chamamos de “Florestal”, mas seria igualmente inútil. Como seguro morreu de velho, pensei, e nisso fui apoiado pelo Zé Divino e pelo Dito, que seria até melhor não ter polícia enxameando por aqui, olhando, fuçando, pois o resultado mais provável seria apenas atiçar a vontade criminosa, que, certamente, voltaria à carga para terminar o serviço que foi interrompido.

Como de hábito, novamente, e temos muitos desses hábitos, fiquei “na minha”, apenas torcendo para nada acontecer. Claro que à mercê da bandidagem, contra quem não temos defesa. Ter uma arma em casa e disparar meia dúzia de tiros é procurar, e achar, chifre em cabeça de cavalo. Ora, como bem sabemos que cavalo não tem chifre...

Fizemos ligeiro aceiro na beirada do carreador e mudamos o corte da cana. Em poucos dias tiramos toda a cana mais próxima do asfalto, recuando o início do canavial em vários metros.

Para ajudar, caiu chuvinha miúda, raridade para agosto, que ajudou a dormir sem grandes receios.

A seca, porém, ainda não terminou e não sabemos quando isso acontecerá. Tanto gastamos em tantas coisas e não temos um satélite meteorológico próprio, posicionado para cobrir unicamente o que de fato interessa ao Brasil. Se não tivéssemos tantos ministros, tantos assessores, tantas malas (além de cuecas, meias e outros cofres) circulando pelos corredores e ante-salas brasilienses, sem dúvida sobrariam rios de dinheiro para gastarmos em coisas como um satélite meteorológico.

sexta-feira, julho 29, 2011

As agruras – algumas – da seca

Um amigo de Brasília, em troca de mensagens sobre o futebol, sugeriu-me o uso de colírio, ironicamente. O objetivo seria melhorar minha visão da realidade, em sua opinião. A verdade, sem ironia, é que já uso colírio, abundantemente, tanto ou até mais que ele, novamente sem ironia. Afinal, essa Santa Rita do Passa Quatro anda tão ou mais seca que a capital federal, terra de pessoas simpáticas, trabalhadoras, honestas, por nascença ou adoção, e terra de uma gente que mais infelicita que beneficia essa Terra de Vera Cruz. Claro que essa gente última à qual estou me referindo por último, são os muitos, os inúmeros membros das elites de plantão na condução dessa Pindorama.

Elites... Pois sim.

A seca por aqui anda braba, coisa feia, mesmo. A poeira tudo cobre. Uma mera corrida dum galo atrás de uma galinha, para a prática do nobre esporte reprodutivo, levanta nuvens de poeira onde antes havia gramado. As noites secas e frias, não poucas vezes geladas, permitem-nos avistar estrelas a mais não poder, e mais a Via Láctea, esplêndida, fascinante. Pena que bate um vento chato, que seca ainda mais o que já seco está.

Haja paciência, haja muita paciência e perseverança, pois ainda temos agosto a atravessar e setembro. O mesmo setembro que em tempos idos era o mês de plantar, pois é quando começa a primavera e é quando as chuvas chegavam.

Não chegam mais, a não ser por acaso, chuvas perdidas, sem constância.

Ora, como parte das ironias muitas que a vida nos apresenta, é justamente nessa época que a bomba da mina queima. O que aconteceu porque trabalhou tempo demais no seco, vibrou demais, caiu do suporte, quebrou a caixa que armazenava a água que ela bombeava cá para cima e, por fim, entrou em curto e queimou. Adeus bomba.

Comprar nova bomba não é difícil, embora o dinheiro não permita o luxo de cobrir imprevistos, afinal, já não cobre nem mesmo os previstos. O problema é comprar nova caixa para armazenar a água a ser bombeada. O ideal é que tenha ao menos 2.500 litros de capacidade. Ora, como dispor de tal soma é hoje mera ilusão, o jeito foi apelar e fazer uma gambiarra, conduzindo a água do poço que abastece as casas para abastecer, também, os bebedouros das vacas e os demais usos e necessidades.

Embora com 16 metros de profundidade, o poço, responsável por uma água deliciosa que bebo aos litros, literalmente, todo dia, tem sua produção limitada pela seca. Então, anteontem, aconteceu o que eu esperava e temia: ele secou.

Ó ceus, ó vida...

Chamei o Toninho, o homem da água. Foi ele que furou esse poço há 11 anos. Diziam os vizinhos que não tínhamos água por aqui. Alguns poços já tinham sido furados, em vão. Mas o Toninho, ou Tonho, como também é chamado, disse que isso era bobagem. Confiei na sua confiança e contratei-o.

Lembro como se hoje fosse... Ele chegou, desceu do carro, pegou um pedacinho de ferro em Y e disse que era aquele trem que ia dizer-lhe onde furar.

Ai ai ai... Pensei com meus botões, onde é que eu fui botar meu dinheirinho... De repente, num lugar bastante improvável para todos nós, leigos, e pertinho de casa, ainda por cima, a varetinha segura por suas duas mãos apontou para baixo. E com força, aparentemente. É aqui – disse ele. E aqui estamos nós, onze anos depois, a beber e a usar a santa água do nosso poço. Mas agora ela secou. Demos uma noite de descanso, ligamos a bomba... Vinte minutos depois, secou de novo. O jeito foi apelar e chamar o Toninho. Ao telefone já disse-me: Qual seca, nada, seca é só em agosto e olhe lá, o poço tem água, sim.

Santa confiança, e nela confiei, mais uma vez.

Bom, resumindo o que já está muito longo, ele tinha razão: a bomba estava puxando água demais, acima da capacidade de reposição do poço. Regulagem feita, a água voltou a cair e a encher as duas grandes caixas, uma para nós, os macacos sem pelo aqui habitam, outra para as quadrúpedes de muitas tetas e grandes “peitos”, comedoras de capim e cana.

Com a vazão no volume que está, demoraremos uns dez dias para encher as duas caixas com 5.000 litros cada uma. Isso porque ligamos a bomba por duas a três horas e desligamos, para uma parada de duas ou três horas e nova ligação. Durante a noite nem pensar, ela fica desligada. Os banhos dos humanos e a sede das bovinas gastam à noite o que foi acumulado de dia.

Não faz mal, o bom é que temos água. Bendita sensação essa.

sábado, julho 09, 2011

Manhã de sábado

Mais um dia que amanheceu gelado, literalmente. A Tempra, uma vez mais, coberta por uma capa de gelo, assim como os pastos baixos e gramados. Nos termômetros, zero grau. Vacas e bezerros levantando com preguiça e alongando os músculos lentamente. É o que podemos chamar, para seguir o modismo, de inteligência biológica.

O café quente desce gostoso e reanima, estava quase escrevendo ressuscita, mas os dois verbos não são corretos: hoje, ele anima, simplesmente.

Que me perdoem os certinhos de todos os hemisférios, mas cafeína é um motor fantástico.

Eu sou um cara caffeine powered, assumo, desde criança, com 5 ou 6 anos de idade. Bebia café frio e doce em copo, mais de dois por dia. Nos tempos de militância mais pesada, saía de casa de madrugada, depois de duas ou três horas de sono, levando no estômago um copão de café frio da tarde do dia anterior e um pedaço de pão com bastante manteiga. Era a energia que me mantinha ativo até as duas ou três da tarde. Aos 18 anos fazemos coisas impensáveis aos quarenta, cinquenta...

Por sinal, café doce nem pensar, só quando visito alguém que o faz já adoçado. Gosto do café puro, mudança adquirida perto dos trinta, provocada pela eterna gastrite. Sem açúcar, a bichinha diminuiu e desde então temos convivido mais ou menos bem.

Enquanto preparava a cana para picar e fazer o trato da manhã, a Rosa chamou-me para mostrar os Tucanos. Ou melhor, tucanos, pois eram 4 a comer mamões nos nossos mamoeiros carregados. Figuraças. Comem de tudo: frutas, coquinhos, ovos, filhotes de passarinhos e aves... Os Tucanos, denominados T-27 pela FAB, também povoam nosso ceu e, às vezes, fazem manobras bem em cima de nossas cabeças. Em algumas, o barulho é ensurdecedor e dispara a injeção de litros de adrenalina no nosso sistema. Imagino esses bichinhos e outros parentes atacando de verdade, disparando mísseis terra-ar, bombas e tiros de metralhadoras .50. Por pior que consigamos imaginar ainda estaremos a anos-luz da sensação real.

Hoje foi difícil chegar à NewBooks, onde o Leandro até agora não deu as caras. É o frio, ainda bem que a Michele e a Monica não deixam a peteca cair e, mesmo feriado, aqui estamos. Já tomei um expresso e comi um pão-de-queijo bem quente.

Chega um rapaz, mulato alto, forte pra burro, bem falante e começa a conversar com a Monica. A horas tantas, comentando o feriado, dispara que é referente a quando “São Paulo quis se separar do resto do Brasil”.

O mito persiste, devidamente manipulado e perpetuado Brasil afora por interesses paroquiais. Em outros tempos teria feito um discurso e colocado a verdade na cabeça dele. Ou assim pensaria. Hoje, ouço, penso e volto a escrever e liberar comentários no OCE. Desencanei.

A gloriosa prefeitura santarritense – gloriosa, carésima (hummmmmmmm...) e inútil – dividiu a cidade em duas partes. Para chegar aqui tive de dar uma volta enorme, metade dela despejando palavrões cada vez mais cabeludos à medida que novas ruas apareciam bloqueadas, para desespero da Rosa. Paciência.

No OCE, um sujeito escreveu um comentário imenso, mais de 50 linhas, bem mais. Nas quatro primeiras já tinha me ofendido sei lá quantas vezes, inclusive falando dessa bela faccia que ostento. Na quinta ou sexta ofendeu até meu pai, grande pequena figura, a quem devo, em boa parte, ser são-paulino, algo que está no meu DNA. Aí não deu, nem li o restante, deletei tudo. Minha vingança foi dizer ao imbecil que ele escreveu um monte e eu li um tiquinho só. Trabalhou à toa, deu-me chance de dar uma resposta do tipo que gosto e ainda rendeu assunto para encher meia dúzia de linhas com linguiça.

E segue o sábado e outro expresso está a caminho.

terça-feira, junho 28, 2011

Gelo matinal

Os dois graus das duas e meia da madrugada, quando fui dar uma olhada nas bezerras mais novas, evoluíram para menos um grau às seis da manhã, que persistiu até poucos minutos atrás.

Agora, quase sete e meia, já está quente: zero grau.

A Tempra amanheceu coberta por uma crosta de gelo.

Parte dos pastos e o gramado estavam igualmente brancos.

A bezerrinha caçula, nascida na madrugada de sábado, filha da Alvorada e batizada de Madrugada (é, não sou muito criativo nos batismos), resistiu bem: acordou e veio em busca da mamadeira.

Essas temperaturas baixas não são ruins para as vacas e os bezerros, embora já fora de sua zona de conforto.

Dormem bem, permanecem confortáveis, mas consomem mais energia para manter o "aquecimento central" funcionando, daí o fato de estarem fora da zona de conforto.

A partir de menos cinco, entretanto, a situação pode mudar.

E vacas doentes ou subnutridas já sofrem e até morrem com zero grau.

Comida é conforto. E saúde, etc, etc.

Eu já estou confortável, agora: meia caneca de café, seguida por uma caneca de café com leite e um belo pedaço de pão italiano cheio de manteiga.

"Dez quilos" de colesterol... Vou ter que trabalhar um bocadinho pra queimá-lo. A cafeína deve ajudar, eu acho. Sou movido a cafeína desde o berço.

:o)

Antigamente era pior. Ao invés de começar o trabalho às 05:45 ou alguns minutos mais, começava-se às 03:30 ou 04:00.

Coisa de louco, mas ainda há muitos nesse esquema.

Por mim, começaria pouco antes das sete, no inverno, mas há coisas imutáveis na cultura das pessoas.

Pra começar pouco antes das seis já foi uma luta.

Cede-se um pouco aqui e um pouco de lá e pronto.

É o que se chama de negociação e consultores cobram caro à bessa das grandes empresas para ensinar aos executivos que tudo que se precisa, na verdade, é bom senso e respeito às vontades alheias.

Se eu escrever "à beça" o word não coloca o traço vermelho.

O word está errado, valem as duas formas.

quarta-feira, julho 28, 2010

O Sol e a Lua e o frio do final da madrugada

Essas últimas manhãs ou, mais precisamente, finais de madrugada, têm sido preciosos. O frio é quase forte, gostoso sem ser cortante, exigindo camiseta, camisa e blusa. Antes das nove horas, só restou a camiseta. As colinas a oriente são delineadas pelo brilho do Sol, ainda invisível, mas a ocidente a Lua cheia brilha soberana, intensa, prateada, bonita de ver, e por mais que a gente veja não dá cansaço.

Quando o Sol finalmente aparece, ela, a rainha dessas noites de claridade intensa e sombras fortes, continua brilhante. Enquanto vou trabalhando sempre consigo alguns segundos para olhar ao redor. As galinhas estão descendo das árvores onde passaram a noite, algumas mais ativas e outras, definitivamente, boas vidas, sossegadas, para não dizer preguiçosas. No alto do barbatimão as angolas ficam batendo papo. Impossível sequer imaginar o que tanto conversam. As vacas que entram mais tarde para a ordenha ficam deitadas. A cada respirada, o ar exalado forma uma nuvem de vapor. O touro dorme profundamente, a cabeça aninhada de encontro às pernas dobradas junto ao peito. Lobos e tigres-dente-de-sabre são lembranças perdidas somente no código genético. Claro, tem toda a passarinhada começando a se assanhar. Melhor dizer toda a bicharada de pena, pois além dos muitos passarinhos – como os canarinhos-da-terra que vêm num grande bando comer a quirera que as galinhas deixam – tem as garças-brancas-pequenas, a família de seriemas – cada vez mais folgadas, íntimas e atrevidas, o suficiente para pegarem ovos num ninho no meio de um piquete a poucos metros de onde eu colocava o trato da tarde nos cochos – e um grande bando de barulhentas curicacas, que passam horas no meio dos pastos.

Há momentos durante o dia que falar ao telefone é tarefa ingrata, pois é comum vários galos cantarem ao mesmo tempo, fazendo uma algazarra ainda maior com os “to fraco tô fraco tô fraco” das angolas. Nas pausas, o canto dos passarinhos toma conta.

Viver na cidade é bom, inegavelmente, por tudo (de bom) que a cidade oferece. Mas nunca me enganei, nunca tive a menor dúvida: viver no campo é incomparavelmente melhor.

sábado, fevereiro 27, 2010

O estrago do vendaval do Carnaval

Difícil não falar isso: o tempo tem andado muito estranho, às vezes assustador.
Para nós, o susto tem se dado na forma de tempestades acompanhadas por ventos, nuaa frequência acima do que seria normal.




Uma das paisagens mais comuns do Macaúbas nos últimos tempos: pesadas nuvens de chuva a oeste e noroeste, como essa da foto. Essas chuvas, para nós, são as piores, pois sempre vêm acompanhadas por ventos fortes ou fortíssimos, verdadeiros vendavais, como o que tivemos na noite da Segunda-feira de Carnaval. O resultado dele vocês podem ver abaixo.



Essa é a visão traseira do galpão que sequer está em uso, ainda.
O vento foi tão forte que simplesmente arrancou vigas que sustentavam e prendiam as telhas.
Uma delas foi parar a cerca de 40 metros, no meio do canavial.



Essa foi a porta de entrada do vento: um grande buraco, com três metros de largura e pouco mais que isso de altura, onde deveria haver uma porta... Algum dia haverá.
O vento entrou e, encurralado, subiu, arrancando vigas e telhas. Essa é a ponta do galpão, o paiol, projetado para guardar milho, farelo de soja e adubos, além de feno que usamos na alimentação dos bezerros.

sexta-feira, maio 01, 2009

Coisas da doce vida campestre





O dia no sítio ontem foi típico: quase passei mais tempo ao volante da Saveirinho do que fazendo qualquer outra coisa. Fui a Porto e voltei com 500 kg de farelos e adubos, além de um feixe de balancins para a cerca da divisa. Um feixe com respeitáveis 30 kg, diga-se. Dizem que a pickupinha suporta 600 kg, é o que dizem. Mas a minha é meio velha, os pneus traseiros, descobri anteontem, além de velhinhos não são os indicados para ela, e mais isso e mais aquilo... Parei na estrada, peguei um saco de adubo na carroceria e coloquei no chão em frente ao banco do passageiro. Peguei outro saco, este de sal mineral, com apenas 30 kg, e coloquei no banco do passageiro. Aliviei a caçamba em 80 kg e toquei pro sítio. Coisas da vida e os pneus agüentaram direitinho.

Vê uma coisa, faz outra, isso e aquilo, era hora de ir até Santa Rita do Passa Quatro.

A vida no sítio é intimamente ligada à cidade, especialmente quando você tem que fazer alguma “obrinha” na propriedade. Um ranchinho sem custo, de repente já custou 800 reais. Coisas da vida e a conta bancária ainda agüenta. Ainda...

Na volta da cidade, com a caçamba carregada de fardos de feno – finalmente uma boa compra, pois o fardo ainda está a caros 6,50, mas esses fardos estão pesados de verdade, com 17 kg cada um, na média, e não demora muito estarão a 8 reais com apenas 10, 11 ou, com sorte, 12 kg – parei num vizinho que está colhendo milho. Não tenho onde estocar, infelizmente, mas assim mesmo comprei 600 kg. O preço, como diria o ministro do imexível, é imperdível. Falando em imexível: ao digitar a palavra, o corretor ortográfico simplesmente aceitou-a. Antigamente rejeitava, mas por erro dele, não do ministro, que também acertou por mero acaso. Outra curiosidade: o Houaiss data sua aparição como circa 1990. O ministro, vítima sofrida de todos os humoristas dessa república, fez história. Quem diria.



De volta ao milho: o jeito vai ser estocar tudo nos tambores que ainda estão vazios e colocar a trituradora em ação para fazer o fubá que será misturado à ração das vacas e à outra para os bezerros. Essa ração, basicamente, é composta hoje por milho moído, farelo de soja com 46% de proteína bruta (PB), farelo de algodão com 38% de PB e sal mineral. Essa composição, hoje, é a mais econômica ou, melhor dizendo, a menos cara. Atualmente formulo uma ração com 18% de PB, mas a partir de agora vou fazê-la com 20%.

Cerca de 1 km antes da porteira, vi o vizinho e dono do sítio pelo qual passávamos parar o carro no acostamento. Parei, também, para ver se era algum problema e porque queria perguntar se ele tinha recebido umas vacas boas – o negócio dele é negociar gado. Estava tudo bem e ele parara para ver a novilha perto da cerca parir. De fato, a bichinha – uma holandesa bonitinha, não muito grande – estava ainda com a bolsa e parte da placenta pra fora, lambendo a cria no chão.

- Olha aí, aproveita e compra ela, te faço baratinho. Só que ela tem só 3 peitos (ou seja, perdeu um dos quartos do úbere), mas mesmo assim vai ser muito boa de leite.
- Hummmmmmmmmmm... Sei não, pegar mais uma vaca com 3 peitos... Já tenho duas no rebanho.
- Isso não é problema, tá cheio de vaca com 3 que dá muito mais leite que outras com 4.
- É, eu sei disso.
- Tem mais: se for uma fêmea que nasceu, é só você criar direitinho até a desmama e ela já te paga metade da vaca, quase.
(O problema é o tamanho desse “quase”, mas isso é detalhe...)

Varamos a cerca de farpado para ver a cria, ainda sendo lambida, mas já bem espertinha, cabeça levantada olhando para esse mundo cheio de novidades, a começar pelos dois bípedes engraçados que estavam chegando perto.

Olha daqui, olha dali, a vaca afastou-se um pouquinho e deu para levantar uma das pernas: uma fêmea.

- Taí, olha que beleza de bezerra!
- É, bonitinha mesmo, e parece esperta.

Foi dizer isso e a bichinha levantou-se, bem disposta, apesar das pernas ainda bambas.

- Bom, vou dar uma pensada, amanhã a gente se fala.
- Olha, demora muito não, porque esse bichinho tem comprador de monte.

No sítio, ainda deu tempo de ajudar com uma coisa e outra na ordenha da tarde, ajudar a picar cana e de repente já estava escuro. Entrando no banheiro, meio moído de cansaço, ansiando pela água quente batendo nas pernas e nas costas, escuto o berreiro do Minuto, o touro Jersey, ficar mais forte. Estranho...

O jeito foi botar calça e botina e ver o que acontecia. E assim começou uma noite daquelas...

O enorme touro branco do vizinho de baixo havia varado a cerca e invadido nossos pastos, território exclusivo do Minuto, assim como as senhoras que por ali pastavam, uma das quais entrando em cio. O que mais impressionou-me é que o bicho já deve estar com mais de 800 kg e continua crescendo, e assim mesmo pulou uma cerca – não muito alta, é verdade – partindo de uma base mais baixa, pois o terreno tem um declive razoável. Foi a primeira vez que isso aconteceu em muitos anos.

E tome canseira e trabalheira. No escuro, usando a lanterna de forma intermitente, andando no meio de pasto alto, entrando em áreas de macegas, a gente nem pensa em cobras, simplesmente avança, mas o meu medo era com os muitos buracos, novos e antigos, de tatus. Um pisão de um de nós ou de uma das vacas e pronto! Fratura. No nosso caso basta ir pro hospital e ficar uns tempos de molho. No caso de uma vaca, tudo que resta é o sacrifício. Para meu medo, a Maga, a Graciosa e a Florinda estavam acompanhando o bonitão invasor. As três prenhes, sendo que a Maga e a Graciosa já estão “chegadinhas” e podem parir a qualquer momento.

Depois de peripécias mil, não conseguimos isolar o touro branco na parte de cima do sítio, mas conseguimos fazer isso com o Minuto. As vacas ficaram ora assustadas, ora curiosas, mas de uma coisa já tinha certeza: o leite hoje cairia bem. Dito e feito: 20% a menos na produção.

Finalmente, consegui ir tomar meu banho. Não sentia cansaço, assim como não senti medo ao tentar conduzir o touro branco para longe no meio do pasto, na escuridão. Puro efeito da adrenalina, circulando “a mil” pelo meu sangue.
A mesma adrenalina que ajudou nossos ancestrais a sobreviver no meio de tigres-dente-de-sabre, mamutes, leões, crocodilos, lobos e outras ameaças terríveis. Sem adrenalina estaríamos extintos.

E assim se foi mais um doce e agradável dia no campo.

Coisas da vida, a doce vida campestre, mas o corpo aguenta e pede mais, até porque hoje é um novo dia.




Minuto, Gracinha, garças-brancas-pequenas e seriemas

terça-feira, abril 21, 2009

Feriadão no sítio



Dia de Tiradentes, numa terça-feira, mas nem parece. Ontem, segundona de feriadão, o dia foi de uma normalidade absoluta, o que pode ser traduzido por “um dia de muito trabalho”, normalíssimo. Saí atrás de peças para a picadeira de cana, inclusive um eixo absurdamente gasto pelo uso intensivo e uma manutenção que pode ser descrita como pouco cuidadosa.


Mexer com essas coisas para mim é novidade, tal como ir a uma tornearia.

Conheço muito sobre tornos: já gravei muitos deles funcionando, controlados por cérebros eletrônicos (desculpem, ainda sou do tempo em que se chamava computador de cérebro eletrônico) e sei que são usados para um monte de coisas importantes, sem as quais nossa vida seria muito pouco confortável.

E, claro, bem informado que sou, sei de tudo o mais importante: ser torneiro-mecânico pode dar acesso à presidência dessa república.


Ou seja, nada sei sobre tornos.


O Toninho, de uma revenda de tudo para agricultura, disse-me que não tinha aquele eixo em estoque, mas que era só levar na oficina que o pessoal “enchia” e ele ficaria perfeito. Carreguei minha ignorância para a oficina e lá fiquei, olhando e admirando o trabalho do torno e do torneiro. Não há cérebro eletrônico na máquina, só o cérebro do operador, controlando suas mãos e seus olhos. Primeiro ele encheu o eixo com metal derretido pela solda elétrica. Depois colocou-o no torno e foi acertando, pouco a pouco, o enchimento feito pela solda. Em menos de meia hora lá estava meu eixo, novo em folha, pronto para trabalhar na picagem de umas 80 toneladas de cana, no mínimo, no decorrer dessa seca que se avizinha.


Na roça não tem jeito: você precisa mexer com mecânica, com torno, com eletricidade, com encamentos, com limpeza de minas e de caixas-d’água...

Tendo um pouco de sorte você consegue mexer até com vacas e plantas.


Minha Saveirinho 95 álcool anda esperta, pra cima e pra baixo. Toda vez que vou a Porto (Porto Ferreira, para os não-iniciados) volto com 300, 400 e até 500 kg de carga na caçamba, sempre farelos para ração. Com chuva, tudo “envelopado” por uma lona plástica, cordas por todo lado para o vento não levantar e a água não entrar.



Pela manhã, ao sair para dar uma forcinha pro Zé Divino, blusa, camisa e camiseta são obrigatórias. O frio já chegou, mas o sol esquenta tudo e o jeito é tirar a blusa e depois a camisa, deixando a camiseta já suada. Dias quentes, noites frias, gosto disso, as vacas também. O Zé já nasceu em lugar parecido, Andradas, em Minas Gerais. faltam algumas montanhas, mas temos nossos morros.


Apesar da trabalheira, dá para ver muita coisa.

As seriemas cresceram seus filhos e já fica difícil distinguir quem é quem. Andam os quatro juntos, o tempo todo. No mundo das seriemas como no mundo dos homens, os filhotes adotaram a moda “canguru” e só deixam o lar paterno já bem crescidos, muito crescidos. Garotada esperta, essa.


A proximidade do final da tarde traz os jogos de luz e sombras. Um pouco a gente tem que parar e observar. Tenho sorte, faço isto desde sempre.


Basta olhar para encontrarmos a beleza.


Ah, é verdade, hoje é feriado, mas eu já falei isso, né?

Nem parece, exceto pelo fato de ir filar a boia na minha sogra.

No mais, a vida segue seu ritmo.



domingo, fevereiro 08, 2009

Fevereiro, mês de estrada destruída


É tanta coisa que não sei por onde começar.

Vou começar pelo fato de estarmos em mais um fevereiro, evento que se repete todo ano, como bem sabe qualquer pessoa com mais de três ou quatro anos de idade.

Eu disse qualquer pessoa?

Triste engano, políticos são pessoas, mas ignoram esse fato básico que até as folhinhas registram.

Há quatro anos, a passagem da nossa estrada vicinal que liga Santa Rita do Passa Quatro à Santa Cruz da Estrela, sobre o Córrego da Estrela, foi destruída por uma chuva fortíssima. Para quem quiser ver o que aconteceu e o que escrevi, tem um post a respeito: “Carnaval no campo e na roça I”. Foi postado em 9 de fevereiro de 2005 e tem duas sequências.

No ano seguinte, em fevereiro, foi a vez do córrego do Zé da Silva. O bueirão entupiu, como é obvio que aconteça todo ano, a água acumulou-se na baixada, transformando brejo e um pedaço de pasto em enorme lagoa, até que, como sói acontecer desde que o mundo é mundo, a pressão da água venceu a força do aterro sobre o qual passa a estrada e... Lá se foi a estrada. A pouco mais de dois mil metros do desastre anterior.

Depois disso tivemos dois fevereiros sem desastres, não por méritos “prefeiturísticos”., mas por mera sorte. Aqui pertinho da porteira, a uns mil e poucos metros, a água do Rio Clarinho cobriu a estrada, mas o aterro, sabe-se lá por que, resistiu e não ruiu.

Neste fevereiro o desastre voltou, dessa vez no Córrego do Padre, a meio caminho entre este Sítio das Macaúbas e a cidade de Santa Rita do Passa Quatro. A água acumulou, forçou e venceu o aterro. Criou um buraco com quase 14 metros de profundidade.

A força foi tão tremenda que levou de cambulhão pedaços de lajes de concreto pesando toneladas, e torceu e retorceu os tubulões de ferro como se fossem de papel, arrastando-os para longe, também.

A água depositou toneladas e toneladas de areia sobre o pasto do sítio do Mauro e da Pirina, pais do Zé Roberto, que está sempre aqui no sítio para mochar os bezerros e uma coisa ou outra. Eu não vi, mas um amigo contou-me dos dois, olhando o sítio, e chorando.

Por que isso aconteceu?

Porque choveu demais, uma pancada brutal que despejou cerca de 130 mm em uma hora, como soi acontecer em todo fevereiro. Tanta água em tão pouco tempo, deparando com o bueirão entupido, acumulou-se...

O detalhe é que, poucos dias antes disso, o Mauro procurou a prefeitura e disse que o bueiro estava entupido.

Pois é.

Mas, vamos e venhamos, nem era o caso dele falar, certo?

Porque, o certo, o lógico, o razoável, o correto, o honesto, em suma, seria que esses bueiros, esses tubulões, fossem inspecionados regularmente e, claro, fossem limpos periodicamente, digamos, uma vez por ano. Entre Santa Rita e a Estrela, a distância é de 17 quilômetros. Nesse trecho, a estrada passa sobre o Córrego do Rola-Abóbora, depois sobre esse Córrego do Padre, aí vem o Rio Clarinho, seguido pela passagem sobre o Rio Claro, a poucos metros da nossa divisa de baixo; segue-se o córrego que vem da fazenda do Zé da Silva e, finalmente, o Córrego da Estrela.

Aí pergunto: quanto tempo e quanto dinheiro custariam essas inspeções e o envio de uma turma de manutenção, para simplesmente limpar os tubulões? Tirar os galhos que se acumulam e o excesso de areia que fica retida nas entradas dos bueiros? Praticamente nada, menos de um dia de serviço em cada um e custo quase zero para os cofres municipais.

Mas... Já tivemos três desastres e outro que só não aconteceu por sorte.


Daqui a doze meses será fevereiro novamente. Ou melhor, digo, ou pior, ainda estamos em fevereiro, o Carnaval está por chegar, e as grandes chuvas têm particular apego pelos desfiles e fantasias. Nada impede, muito menos a prefeitura desse município, que um novo chuvão brabo destrua mais um trecho de estrada.

Cada vez que isso acontece, centenas de pessoas são profundamente afetadas em suas vidas. Agora, por exemplo, enquanto a prefeitura não providencia uma passagem de emergência, as crianças estão levantando de suas camas às quatro horas da manhã, pois o trajeto para a cidade foi aumentado, subitamente, em mais de vinte quilômetros, a maior parte por estradas de terra. Ou em mais de quarenta, se pegar só asfalto. Sem falar em ambulâncias, caminhões transportando leite, laranja, mercadorias, ou nos ônibus intermunicipais, e por aí vai.

Pois é, tanta coisa pra falar, inclusive que, antes desse Carnaval chegar, estaremos aqui no sítio de mala e cuia, definitivamente.

Porque, antes desse Carnaval chegar, chegará nossa mudança.

Estamos deixando São Paulo e a Granja Viana para trás.

Santa Rita do Passa Quatro é nosso futuro, com a estrada destruída e sem receber pelo leite que entregamos, dia sim, dia não, para o laticínio Nilza.

Faz parte.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Cadê meu pagamento?

"Caixa postal lotada. Por favor, ligue mais tarde."

Assim começou a manhã de quarta-feira, 7 de janeiro, para mim. Provavelmente para muitos outros, também, todos eles produtores de leite e fornecedores de um grande laticínio paulista, como eu. Todos, como eu, devem ter ligado logo cedo para o seu interlocutor na empresa, a pessoa que compra nosso leite e passa orientações e informações diversas. Venho ligando para ele, o comprador, há vários dias, desde antes do Natal. Nas duas primeiras ligações fui atendido, ambas antes do Natal. Depois disso, não mais. Já estou sabendo que isso não é privilégio meu, pelo contrário, pois um vizinho que também entrega seu leite para eles não tem sido atendido.

E por que cargas-d'água estou
eu ligando para o pobre homem logo às sete horas da manhã, insistentemente?

Porque nesse horário eu fico
sabendo que minha conta bancária continua sem o depósito do dinheiro que me é devido pela indústria, simples assim. Vamos ver, então, que dinheiro é esse.

Durante o mês de novembro, que começou há 68 dias e terminou há 38, com chuva ou
com frio (tivemos chuva, felizmente, e tivemos até frio nesse novembro último, tal como ocorreu em dezembro), as atividades no Sítio das Macaúbas não mudaram, nem mesmo aos domingos ou no dia de Finados. Por volta de seis horas da manhã, as vacas, já à espera na porteira do pasto, foram para o curral e pouco depois começou a ordenha.

Para fazer a ordenha há uma pessoa trabalhando, que recebe um salário por isso, e mais os encargos sociais de lei.
A ordenhadeira é mecânica, logo, precisa de energia elétrica para funcionar, energia que é cobrada religiosamente todo mês.
O leite é guardado num resfriador, ele também movido a energia elétrica.
As vacas comem um pouco de ração, ingerem alguns medicamentos homeopáticos, foram vacinadas nesse novembro contra a aftosa, comeram cana misturada com uréia, enfim, geraram inúmeras despesas para que, ao final, jorrasse o leite saudável, nutritivo, riquíssimo e com um toque de amarelo, típico das vacas Jersey e suas mestiças, o melhor leite do mundo por sua riqueza em proteínas, minerais e gordura.

Vale dizer que o mestre-cuca inglês e astro de TV Jamie Oliver, só usa creme de leite de vacas Jersey em suas receitas que deixam a boca cheia d'água.

O preço pago por esse produto em outubro, e repetido em novembro, foi de 53 centavos o litro. Isso aí: cinqüenta e três centavos de real por litro de leite, no meu caso um leite riquíssimo, de alto desempenho industrial, fazendo mais queijos, mais manteiga, mais iogurtes com menos leite que o de outras raças bovinas.

Não bastasse esse preço miserável, o leite produzido durante o mês de novembro ainda não foi pago. Até hoje, dia 7 de janeiro.

O certo, na minha visão e de todos os produtores que conheço, teria sido receber o pagamento no começo de dezembro, lá pelo dia 5. Só que a indústria, do alto de sua fortaleza empresarial, achou melhor pagar no dia 12 de cada mês. Em outubro, sem mais nem menos, mudaram a data de pagamento para o dia 20, uma tragédia. Como em novembro esse dia foi feriado – mais um – só recebemos no dia 21 de novembro pelo leite de outubro.

Em dezembro, o dia 20 fez o favor de cair num sábado, logo, ingênua e esperançosamente, acessei minha conta no dia 22 e...


Nada.

Nisso, chega um papelzinho, um papelucho, do laticínio, dizendo que o pagamento seria feito até o dia 24 de dezembro.
Bom, engoli a raiva e pensei que, dos males o menor, os caraminguás chegariam antes do Natal. Isso tudo passou por minha cabeça numa fração de segundo, pois a leitura da frase seguinte revelou algo ainda pior: o papelucho dizia que seriam pagos somente 70% do irrisório valor devido.

Os outros 30% seriam pagos em janeiro, fevereiro e março, 10% de cada vez, no dia 20 de cada mês.

Assim, sem mais nem menos. Como nos tempos da colônia, como se fosse um édito real, com o carimbo "Cumpra-se", não importando o quão absurda ou injusta fosse tal medida, tomada além-mar por El Rei.

Pois bem, o dia 24 chegou e se foi, assim como o 25, o 26 e até mesmo o dia 28, e nada do dinheirinho na conta. Nessa altura do campeonato, já tinha ligado para o digno representante, coitado, que é apenas um funcionário, que, constrangido, disse-me o dia 30 seria o limite para todos os depósitos, que eu ficasse despreocupado. Ansioso por agradar-me, disse mais: os 30% restantes seriam pagos de uma só vez em janeiro mesmo. Pelo menos a ligação serviu para desejar ao homem, ele próprio um produtor de leite, um feliz ano novo.

Quando pensava que isso era o pior, descobri que não era bem assim: estamos, repito mais uma vez, em 7 de janeiro e nem os miseráveis 70% entraram na minha conta, assim como não entraram nas contas de muitos outros. Dezembro já é passado e o ano de 2009 já entra em sua segunda semana. Eu, tolamente, não perguntei de que ano era o 30 de dezembro a que ele se referiu. Ingênuo e crente, acreditei que ele referia-se a dezembro de 2008.

Felizmente, não dependo do leite para viver, mas preciso do dinheiro do leite para pagar contas. As pessoas e empresas para quem devo nada têm a ver com a poderosa indústria e com o preço do leite. Mas eu tenho tudo a ver e a haver.

Que fazer?

Não quero ser chato, demagogo ou revolucionário de araque, mas enquanto isto o dono do laticínio certamente não teve problemas para abastecer com gasolina Premium sua Mercedes. Seus familiares tiveram Natal do mais alto nível e qualidade, em termos de presentes, luxo e produtos à mesa, além de locais paradisíacos onde comemorar essa e outras festas.

Tampouco teve problemas para pagar a conta da eletricidade, os salários de seu pessoal doméstico, o valor das compras no supermercado fino, repleto de iguarias d'Europa e Ásia, a começar, creio eu, por bons vinhos e melhores ainda espumantes, certamente merecedores oficiais do nome "champagne".

Agora pergunto: e eu, e nós todos, como ficamos?



Post scriptum em 9 de janeiro


Finalizando: liguei outras vezes para o representante, igualmente sem sucesso, até que atendeu, finalmente. Garantiu-me que o depósito (dos 70%) seria feito ontem, quinta-feira, 8 de janeiro. Ou melhor, como se diz no moderno e destroçado português tupiniquim, "estará sendo depositado".

Não foi.

Quem sabe hoje?

Quem sabe quando?

Mais dez dias e estará na hora de receber pelo leite de dezembro.

Enquanto isso vou pagando as contas.

Vou pagando para produzir leite e entregá-lo à indústria, cujos produtos – eu sou fiel – compro no mercado aqui perto, mas sem choro nem vela: sou obrigado a pagar à vista.

Somando as ligações feitas para o representante, todas em horário comercial, pois entendo que deve-se respeitar horários para tratar de negócios, gastei algo como sete a oito reais, no mínimo. Além do problema do leite estar a esse preço de miserê – R$ 0,53 por litro – tem o ganho real por litro, que nessa época de pasto abundante e despesa mais baixa gira ao redor de oito a dez centavos por litro.

Digamos dez centavos por litro: gastei,portanto, o "lucro" de 70 litros de leite, no mínimo, para cobrar uma posição sobre meu pagamento.

É leite pra burro.
Como já me disseram ene vezes, leite é pra burro.

Mas eu continuo sendo teimoso e crente, sigo acreditando que, se não é bom pra burro produzir leite, ainda é bom demais produzir leite. Sei lá porque, mas eu gosto e voltarei a aumentar a produção brevemente.

Para completar, um pequeno detalhe: como precisei vender várias vacas no início de 2008, estou com somente 7 animais no leite. Com o preço praticado, desisti das duas ordenhas e deixo a bezerrada mamar até o meio da tarde.

Tão pouco leite e nem assim recebo o que me é devido.


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sábado, dezembro 06, 2008

Cumari, a pimenta dos passarinhos



A cumari, pequena, ovalada, vermelha, rubi, tão ou mais rubiácea que o café, abunda no Sítio das Macaúbas,
assim como na chácara dos meus sogros, também na gostosa e ainda bucólica Santa Rita do Passa Quatro.

Encontramos seus arbustos por toda parte, no sítio e na chácara, mas sempre embaixo da copa de alguma árvore.


Tal como ocorre, por sinal, com as macaubeiras.

A explicação para essas localizações é fácil: no caso das
macaúbas, araras, papagaios, maritacas e tucanos, pegam o coco diretamente na palmeira e levam-no para outra árvore, mais confortável, onde saboreiam a polpa que envolve o coquinho propriamente dito, chegando até a trincá-lo.
Refeição terminada, deixam-no cair. No chão, em meio ao folhedo que lentamente se decompõe, o coquinho germina e uma nova macaubeira vem ao mundo.

Para nós chega a ser uma praga, tão grande é a quantidade nos pastos, mas é uma planta tida como de difícil germinação e, aparentemente, há falta de mudas no mercado.
Não tenho descartada a idéia de aproveitar essas mudas futuramente, tirando-as do solo e colocando-as em vasos ou sacos plásticos, para comercialização.



Com a pimentinha cumari ocorre processo semelhante.
Os passarinhos colhem os frutos maduros, bem vermelhos, nos arbustos, e vão comê-las em outras árvores.
As sementes que deixam cair enquanto comem ou, principalmente, as sementes não digeridas em suas
fezes, vão dar origem aos novos cumarizeiros.




Por causa desse processo, o tio da Rosa, Antonio, diz que a cumari não faz mal nenhum, justamente porque é comida pelos passarinhos. Há relatos de que ela faz bem para quem tem hemorróidas, mas sobre isso nada posso dizer.


Ao contrário de outras pimentas, a cumari não é aromática, mas o que tem de perfume fraco tem em ardência forte.
Conservada em óleo ou vinagre, normalmente é colocada inteira no prato, onde é picada com a faca ou amassada com o
garfo, e a seguir misturada na comida.
Minha sogra também a prepara batida no liquidificador e o tempero é brabo, tem que ser usado com moderação. Isso ocorre porque as sementes, que são batidas juntamente com a polpa, contém maior concentração da capsaicina, a molécula que faz a pimenta ser... apimentada.




Framboesa em Santa Rita do Passa Quatro

Esses dias descobri que os pés de framboesa estão detonando a horta do Scarpa, crescendo por toda parte e se tornando um estorvo. Além disso, também estão carregados de framboesas, grandes, escuras, saborosas, algumas muito doces, outras nem tanto, precisando de mais alguns dias para ficarem no ponto.

Algumas das mudas eliminadas na horta dele virão para a nossa horta. Sempre tive vontade de ter framboesa no sítio, mas achava que era quente demais.
Agora descobri que não.


Já não posso dizer o mesmo, por enquanto, em relação às alcachofras. Em setembro fui até Ibiúna e comprei meia dúzia de mudas, das quais uma só sobreviveu.
Não desisti delas, todavia.
Assim que possível, volto a Ibiúna para comprar mais umas mudas. Essa variedade, a Roxa de São Roque, só se desenvolve a partir dos 700 m acima do nível do mar.
Bom, o sitio atende a esse requisito.
E em boa parte do ano, os dias são quentes e as noites frias e até muito frias. Então, não há porque, em tese, as alcachofras não se desenvolverem.

Algumas outras plantas estão na minha lista de desejos, como a endívia, o alho-poró, o aspargo e o grão-de-bico.
Não é para já, mas ainda hei de plantar todas elas.
São plantas que parecem ser meio chatinhas, gostam de frio, pois vêm de clima temperado, mas acredito que conseguirei, talvez com o auxílio de uma cobertura de sombrite, a tela preta que corta 50% da luminosidade e boa parte do calor do Sol.



A vida no campo tem dessas coisas simples e fascinantes, todas elas carecendo de tempo e paciência.
O prazer de ver as plantas em crescimento, vigorosas e saudáveis, depois colher e comer, é bom demais.

Primitivo, ou original, mas também profundo, algo que nos leva de volta a tempos imemoriais.


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terça-feira, setembro 16, 2008

Mais flores, agora róseas

Peço desculpas pelos longos intervalos sem nada publicar.
Os dias têm sido corridos, fiquei boa parte deles no sítio, tentando, ainda sem o mais importante insumo agropecuário, o dinheiro, arrumar algumas coisas já preparando a breve mudança para lá, em definitivo. O sítio tem internet via rádio, mas até hoje não comprei um notebook, falha que pr
etendo sanar rapidamente e que vai tornar minha vida menos complicada no que diz respeito às postagens nos blogs.



Uma linda manhã, sem sol, finalmente, com promessa de chuva ou, pelo menos, umidade. Bom demais.


Tenho tido sorte. Toda vez que estou no sítio uma das vacas pare. Dessa vez foi a Luna, uma Jersey pura, filha do Safári com a Inocence, que pariu uma bezerrinha. Dentro de minha recente política de dar nome aos bois conforme meu humor ou reação inicial, batizei-a de Maravilha. Batismo efetuado e divulgado, fiquei um pouco incomodado, mas vamos que vamos. Maravilha será Mara ou Marinha, não duvido.

Fico meio tentado a escrever sobre os abacaxis, os problemas, os imbróglios, os dilemas, as besteiras feitas, a insistência em algumas besteiras, mas, sei lá, melhor deixar quieto. Até porque já dei título para este post e preciso respeitar o que nomeei, tal como minha mais nova bezerrinha.

Maravilha recém-nascida, sendo lambida por Luna, em seu primeiro "banho", na sombra de uma laranjeira


A estação começou com a florada dos ipês-roxos e dos ipês-amarelos. Como já disse, há muitas espécies de amarelos e suas floradas não são coincidentes, o que faz crer que eles florescem durante muito tempo. Além disso, alterações climáticas provocam, também, uma antecipação na floração das espécies mais precoces. Dessa forma, na prática convivemos com as flores amarelas do ipê de maio, às vezes, ou junho, até setembro e até novembro, como já vi algumas vezes. Espetáculo garantido por meses e meses.

Recentemente tivemos a florada dos brancos e, nessa viagem, descobri com alegria que muitos ipês-brancos estão em
plena florada. Mas o que marcou, de fato, esses dias, foram os ipês-rosa.

Num bairro de Campinas, próximo ao ramal da Bandeirantes que dá acesso à Anhanguera, há vários deles. Mas os mais bonitos, sem dúvida, são os que estão na entrada de Araras, dos dois lados da pista, inclusive com alguns brancos també
m em floração de mistura. São árvores grandes, encorpadas, bonitas em qualquer situação, mas que carregadas de flores ganham uma beleza toda especial.

No haras da Monika, perto do sítio, um ipê-rosa decora o piquete do Kaliman, o belo cavalo BH que ela montou por anos e anos e agora está tranquilamente aposentado.


Um pouco mais adiante, olhando por entre a cerca-viva de sansão-do-campo, enxergamos o magnífico ipê-rosa que embeleza a sede do sítio do ‘seu’ Nelson.

A beleza dos ipês diminui ou deixa menos relevante a florada das ficheiras, que é bonita, também, porém mais singela,
mais simples, sem a magnificência de uma florada plena de um ipê de qualquer cor. ‘Tadinhas’ das ficheiras.

Não importa que a gente ande sempre pelos mesmos caminhos, a verdade é que o mesmo caminho nunca é o mesmo de um dia para o outro.


Se olharmos em volta com interesse veremos algo diferente a cada dia.

Essa coisa de mesmice é bobagem e só existe na cabeça de quem não quer ver que o novo está presente todo dia em toda parte.

Mas há que olhar para enxergá-lo.


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sábado, agosto 16, 2008

Espinhos e flores


Reparem na foto abaixo. É final de tarde, o Sol ainda está no horizonte, mas a Aleluia já dorme, depois de passar o dia com a mãe e com os primos. Escolheu como cama o chão embaixo da paineira que está dentro do bezerreiro. Como ela é agitada e brincalhona, o cansaço e a barriga cheia são ótimos indutores do sono.




Indutores do sono...

Quanta poesia... Mas, desde quando este texto é para ser poético?

Tem nada a ver, como vocês verão a seguir.

Pensando bem, nem precisa reparar muito, basta olhar para a foto do tronco da paineira em detalhe.


Viram quantos espinhos?

Pois é. Nem por isso, contudo, a paineira deixa de ser bonita e, ao seu jeito, aconchegante.

Assim, ou mais ou menos assim, é a vida no campo.

Que é, sim, bucólica, agradável, confortável, romântica, poética, que tem lá seus momentos, raríssimos, de sombra e água fresca, mas, que em contrapartida dessas coisas todas, tem também muitos senões.

Muitos espinhos, como a paineira, que é linda e gostosa no verão, com sua sombra generosa, bonita toda vida na primavera, coberta de flores, útil no inverno com suas painas que, como no sítio do Tião, cobrem o chão e dão a impressão passageira e falsa de uma nevasca em pleno interior paulista.

Na paineira, os espinhos têm função protetora.

Na vida campestre, os espinhos têm tudo, menos qualquer função útil. Principalmente quando esses espinhos são humanos e roubam.

Roubam leite e roubam galinhas, como fizeram conosco na semana passada, roubam televisões, geladeiras e aparelhos de som.

Roubam carros, motos e tratores, roubam vacas e carneiam as coitadas em qualquer beirada de asfalto, tirando meio quilo de carne e deixando o resto para os urubus, cachorros, gatos e outros comensais de carnes abandonadas; esse foi o destino da coitada da Gisele, uma das minhas Jersey PO, registrada e tudo, há alguns anos.

Essa semana mesmo, meu amigo A. e sua esposa L., chamemo-los assim, chegou em sua casa, no sítio, e deparou com bandidos fugindo em duas pickups pequenas e uma moto. A porta estava arrombada, mas os vagabundos nada levaram. Não tiveram tempo, felizmente. Mais felizmente ainda, fugiram, sem enfrentamento e as funestas conseqüências que disso poderiam vir.

Não por coincidência, uma semana antes os bandidos, com toda certeza, jogaram um pedaço de carne envenenada e mataram a cachorra que tomava conta da casa do A e da L.

Bom, a polícia foi chamada e compareceu, mas, naturalmente, nada fez, nada fará. Santa Rita do Passa Quatro tem apenas duas viaturas policiais para atender à cidade, à zona rural e ao distrito de Santa Cruz da Estrela. Nem é preciso dizer qual é a prioridade dos policiais, né? Até porque, ir pra zona rural implica em gastar combustível, pegar estradas de terra, ora com lama, ora com poeirão brabo, abrir porteira, passar por mata-burros, essas coisas todas que produtores rurais, e bandidos, são obrigados a fazer, mas que policiais e outras autoridades não gostam de fazer. Exceto, naturalmente, em período eleitoral, como agora.

Nos sítios e fazendas estamos isolados e, literalmente, sem proteção das forças de segurança, cuja existência tem por finalidade a proteção e segurança dos cidadãos.

Ao mesmo tempo, as autoridades e as leis, impedem-nos ou restringem terrivelmente, a possibilidade de auto-defesa. Ter armas em casa, por exemplo, é pedir pra arrumar chifre em cabeça de cavalo. É crime, do qual, naturalmente, estão isentos os bandidos, mas não os moradores da zona rural.




Apesar disso tudo, a vida no campo tem seus atrativos, ao menos para mim.

Como já disse mais de uma vez, o entardecer é um momento meio mágico.

A luz do Sol já baixo no horizonte dá um tom dourado a tudo. Os bezerros mais novos aproveitam o restinho de calor e antecipam a noite, caindo no sono ainda com claridade. Os mais erados ainda ficam zanzando por aqui e por ali, mastigam um pouco de feno, comem um bocadinho de grama, antes de se deitarem.

As noites com a Lua cheia, esplêndida e luminosa, ainda mais nesse céu limpo de inverno, são realmente lindas e despertam as melhores e, geralmente, as piores veias poéticas de muita gente. Gato escaldado que sou, para sorte de vocês fico quieto no meu canto e limito-me a essas mal traçadas linhas. Melhor dizendo, mal digitadas.

No fim, deixei para trás os espinhos da paineira e fiquei com suas flores e painas.


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quarta-feira, agosto 13, 2008

Coisas estranhas no Macaúbas



- E aí, tá tudo em ordem?

- Tudo bem, tudo certo.

- Ótimo. A Aleluia tá boa, desenvolvendo bem?

- Ah, tá, é a mais esperta dos bezerros, tá bem bonitinha.

- Legal, bom mesmo.

- Ah, tem uma coisa meio estranha...

Pronto!

Frio na barriga, o temor toma conta de mim.

Essa frase é sinal de coisa ruim, conheço-a muito bem, assim como o tom de voz.

- Então, o motorista do caminhão do leite trouxe um relatório e disse que o leite da segunda-feira tava sem gordura.

- Como assim sem gordura? Que loucura é essa? Justo as Jersey?

- É, eu achei bem estranho.

- Mas como o leite pode ter ido sem gordura? Não tem lógica.

- É, foi o que eu pensei, também.

...

...

Silêncio da minha parte, silêncio da dele, e a operadora do celular contando o dinheirinho pra sua conta enquanto isso.

- O motorista não falou nada, só isso?

- Só isso.

Conversei mais uma coisinha ou outra com o I. e desliguei, encafifado com a informação: como o ‘meu’ leite não tinha gordura?

Ora, pílulas, leite de Jersey só tem gordura! É riquíssimo, a ponto do próprio Jamie Oliver dizer em seus programas que o melhor creme de leite é o de leite de vacas Jersey! O que só mostra como ele é bom e entende mesmo de gastronomia. Já éramos seus fãs, aqui em casa. Depois disso, então...

Um pouco mais tarde, peguei o telefone e liguei pro Guto, tirador de leite há muito mais tempo, que mora no sítio e vive do leite. Alguém, portanto, que sabe das coisas, tanto as boas como as ruins.

Conversa vai, conversa vem e a bomba explode na minha cara ingênua:

- Emerson, leite sem gordura é leite com água. Roubaram teu leite e colocaram água no lugar.

Fico quieto... Estou pasmo, incrédulo, revoltado, desacorçoado.

- Oi, você ouviu?

- Desculpe, ouvi sim. Duro é acreditar.

- Eu sei como você está se sentindo. Onde você deixa o leite?

- Dentro do resfriador, mas o resfriador fica na varanda, exposto.

- E você não passou uma tranca nele, né?

- Nem pensei nisso.

- Pois então, pode pensar e fazer.

Pronto.

Aqui estou eu às voltas com mais uma das delícias da vida campestre.

Alguém, sabe-se lá quem, embora desconfiemos de alguém, ao invés de pedir, roubou.

Pior que isso, deu-me um duplo prejuízo: roubou o ‘meu’ leite e, em seu lugar, colocou água, afetando assim minha ficha e minha credibilidade junto ao laticínio.

Não bastava o roubo, teve também a sacanagem do prejuízo ao meu nome.

Por que o vagabundo simplesmente não deixou o latão com menos leite, flutuando na água?

Porque além de bandido e vagabundo é burro. Fez isso achando que ninguém iria descobrir e assim ele poderia continuar mamando no meu resfriador.

Só não sei para fazer o que com o leite, pois quem roubou não tem criança pequena na casa e, bem sabemos, tem leite à vontade do próprio local.

Claro, sabemos quem foi, mas não temos provas.

É o mesmo ladrão que levou as galinhas e foi visto por um morador próximo descendo de seu cavalo e levando um monte de sacos vazios na mão.

Agora o resfriador está envolvido por uma corrente, fechada com cadeado. Não que vá impedir, caso a vontade de roubar seja grande, mas atrapalha e atrasa muito o “serviço”, coisa que vagabundo nenhum gosta.

Não vale a pena avisar a polícia, é só perda de tempo, mas assim mesmo eu vou avisar, pois quem rouba um tostão rouba um milhão.

Hoje, galinhas, o galo vermelho que a Rosa adora e leite. Amanhã... Sabe-se lá o que.

Por isso, já tenho visita programada à delegacia tão logo chegue na cidade.

Tem nada, não, a vida no campo, mesmo assim, é gostosa, e é meu sonho e meu destino.

Não, hoje não vou falar sobre as galinhas e o galo vermelho. Lamento.

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sábado, agosto 09, 2008

Vistas do Macaúbas

Antes de falar e mostrar algumas vistas que o Macaúbas proporciona, essa aqui embaixo é uma das que mais gosto. No final da tarde, prontos para passar a noite, Florinda (deitada) e o filho da Rikinha, nascido no final de maio.

Ela já comeu um bom bocado de feno, assim que entrou no piquete 'dormitório', e agora só espera a chegada da noite. Mais tarde vai comer de novo, assim como ele, que ainda mama durante algumas horas.




Final de tarde sempre dá imagens bonitas, cores quentes, sensações gostosas.

Lá no fundo ergue-se um morrote, rodeado por cana. A casinha da beira do asfalto, que nesse final de semana começa a ser habitada pelo Tadeu, Fabiana e seus dois filhos, compõe a paisagem com a macaubeira elegante no meio do nosso canavial.

Tadeu saiu do sítio e foi morar na cidade, sonhando com o salário vistoso numa fábrica de embalagens. Só de aluguel passou a pagar mais de duzentos reais, por uma edícula minúscula, sem privacidade. A compra do leite para as crianças passou a consumir cem reais por mês. Mais a conta de água, a de luz e todos os custos que a cidade, mesmo pequena, acarreta para quem nela mora.

Agora vai morar no Macaúbas, de volta pra roça, de volta pra perto de onde moram os pais da Fabiana. A casa é simples, mas bem maior que a da cidade. A água e a luz vão no pacote, além do leite pras crianças. Em troca, ele olhará pelo sítio, simplesmente com sua presença ali. E dará alguns dias de serviço em finais de semana, permitindo folga ao Ismael e ao meu bolso, claro.

Um bom negócio, principalmente para ele, que continuará trabalhando na fábrica de segunda a sexta e um final de semana por mês, com o salário 'de cidade', mas morando na roça, com as economias que a roça proporciona.

De minha parte fico satisfeito, também, por ver a casa ocupada, cumprindo seu papel de ser a base para um lar.





A mesma vista com o morrote, sem a casa, no mesmo fim de tarde, a luz do sol já dourada e comprida.




De alguns lugares do sítio a gente avista, meio longe, o girassol que a usina plantou para fazer rotação com a cana. A vista, ainda que distante, é bonita, mas fica mais bonita com a aproximação da zoom.

No primeiro plano, o verde escuro do laranjal pontilhado pelo amarelo das laranjas. Depois o girassol, e depois milho e cana.

Esse é o verde-amarelo que eu gosto.
Pátria, para mim, é isso.


Posted by Picasa

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