Um Olhar Crônico sobre os dias de hoje e alguns de ontem. Um Olhar Crônico sobre a vida nas cidades, a vida na megalópole, a vida na roça, quando é dura, e no campo, quando é lírica. Textos, Idéias & Coisas diversas, aquelas que passam pela cabeça e a gente acaba registrando, sabe-se lá pra que ou mesmo porquê.
sábado, dezembro 31, 2011
Feliz amanhecer, feliz 2012
E à medida que a luz do Sol vai surgindo lentamente no horizonte, a passarinhada começa a fazer sua algazarra. A temperatura da madrugada também é própria dela, diferente. Nesses dias de verão, o frescor é um bálsamo e anima o corpo. Nos dias de inverno, um agasalho e o primeiro café trazem conforto e uma felicidade diferente, especial, a cada novo dia igual e diferente, a felicidade de cada amanhecer.
O ano novo é como o amanhecer para o dia, a melhor parte do ano, aquela sucessão de nomes e números que vemos marcados nas folhinhas penduradas nas paredes. Ou víamos, já que hoje só se sabe em que dia estamos depois que o computador ou o celular cheio de teretetês é ligado.
O novo dia é algo natural, fruto do casamento da Terra com o Sol, primitivamente falando (ou, quem sabe, sabiamente falando?).
Assim também é o Ano Novo, mas ele não é natural, foi criado pela nossa mente metida a catalogar e organizar tudo, até a vida e o tempo.
Por isso, organizadamente, é nele que mais crescem as promessas, sonhos, ilusões, desejos...
É o momento em que a Esperança toma conta.
Esperança... Talvez o mais humano dos sentimentos, fusão do irracional profundo com o racional.
É esse o sentimento de todo novo ano, a cada novo ano.
Esperança de manter a felicidade, de ser mais feliz, de encontrar a felicidade, que muitas vezes está bem próxima, bem juntinha, mas nós teimamos em não vê-la. Ou vemos, mas não sabemos que é ela que está ali do lado, meio sorridente, meio como quem nada quer, quietinha e discreta.
Talvez porque crescemos e vivemos num mundo em que felicidade é conjugada com o verbo ter, mas, acreditem, foi falha de impressão no Manual de Busca da Felicidade.
Felicidade se conjuga com o verbo ser.
Ser.
Sejam felizes em 2012.
quinta-feira, agosto 25, 2011
E a Mel se foi...
Aviso aos navegantes: é meio triste.
Se quiser passar batido, passe.
Muitas vezes eu faço isso.
Ela nasceu quando há pouco morávamos na Granja Viana, filha da Belinha com o Bilbo.
Viveu conosco por 17 anos - dizem que isso equivale a 120 dos nossos anos.
De um jeito ou doutro era uma senhora.
Ranzinza, chata com estranhos, ainda a fêmea alfa aqui, apesar da idade.
Desde que mudamos para cá ela dormia dentro de casa. Às vezes, de madrugada, a bexiga apertava e ela ia até nossa cama pedir para sair.
Uma "delícia" nas madrugadas geladas desse Sítio das Macaúbas, mas, ora bolas, era a Mel.
Começou a sofrer e a ter uma série de problemas em rápida evolução.
Hoje cedo a Rosa levou-a ao veterinário, novamente, e voltou com ela e alguma esperança.
Em vão.
Nesse começo de noite voltamos à clínica e ali, com a Rosa acarinhando sua cabeça, foi sacrificada.
Parou de sofrer.
Digo a mim mesmo, à Rosa e aos outros que "tudo bem, ela viveu bem e bastante, chegou sua hora" e coisa e tal.
Tudo verdade, mas, assim mesmo, triste pra burro.
Cachorros fazem parte da minha vida desde que era bebê.
A mesma coisa com a Rosa.
E, pouco depois de nos casarmos, passaram a fazer parte da nossa vida e das vidas de nossos filhos.
A gente sofre nesses momentos, mas é assim que é.
Por aqui estão a Sophia, a Neguinha, a Lily e o Abobrinha, todos eles achados pela Rosa (três) e por mim (o Abobrinha) e recolhidos.
Cada qual com sua própria personalidade.
O veterinário, cara legal, gentil, atencioso conosco e carinhoso com os cachorros, perguntou-nos se queríamos deixar a Mel lá e depois ele mandaria enterrá-la.
Não.
Não é assim que somos, é inconcebível para nós deixar o bichinho partir sem o conforto da nossa presença.
Não sentem medo, não muito, acho, pela frieza do ambiente estranho.
Amanhã vamos enterrá-la aqui, ao lado de seu pai, o Bilbo.
Besteira ou não, é assim que nós gostamos.
E, sei lá, né, vai que ela tem seu espírito...
terça-feira, agosto 23, 2011
As agruras da seca – a queimada criminosa
“É calor de mês de agosto, é meados de estação
Vejo sobras de queimadas e fumaça no espigão”
Os versos que abrem “Terra Tombada”, de Carlos Cezar e José Fortuna, cantada por Chitãozinho e Xororó, retratam bem esse mês que é sempre chato. Faltou falar do vento, que seca e resseca tudo ainda mais.
O monte de palha que tiramos da cana antes de ser picada para as vacas queima de forma instantânea, mal se encosta nele a chama do fósforo. As labaredas crepitam, a fumaça corre meio deitada no rumo do Sol ainda alto, levada pelo pouco de vento do começo de tarde. Em questão de segundos fica sobre o chão apenas pequeno monte de cinza, fumegando. O ceu, para os lados do oriente, está opaco, tomado por um cinza escurecido com uns toques meio avermelhados, tudo efeito do ar tomado por partículas as mais diversas, sólidas, nem é preciso dizer, que irritam os olhos, a garganta e até a boca.
É agosto.
Dias atrás, dia amanhecendo, o Dito chegou e disse-nos, com ar preocupado, um pouco até assustado, que alguém tocara fogo no capim do barranco na beira do asfalto e as chamas tinham quase chegado no nosso pequeno e salvador canavial, comida única das vacas nessa seca. Só não pegara fogo na cana porque um caminhão da usina jogou água e apagou o incêndio em seu começo. Tudo isso ele viu e deduziu em segundos, enquanto seu ônibus passava ao lado, já reduzindo a marcha para ele descer.
Ordenha finda, fomos lá dar uma olhada. De fato, tudo deve ter acontecido tal e qual disse o Benedito, para não ficar “disse o Dito”. O fogo começou na divisa do acostamento com a estreita faixa de terra antes da cerca. Passou pelos arames e mourões rapidamente, mas deixando suas marcas. Subiu o pequeno barranco tomado por capim e arbustos e entrou no carreador que margeia o canavial.
Foi nesse ponto que apareceu o caminhão-bombeiro salvador. O pessoal da usina sabe dos malefícios que mentes criminosas espalham nessa época e os motoristas dos seus caminhões-bombeiros têm liberdade para debelar esses princípios de queimada. Santa providência! Graças a ela, não perdemos a comida das vacas, o que seria simplesmente catastrófico para nós.
Os caminhões são usados para prevenir e controlar eventuais excessos nas queimadas de cana para colheita, processo em fase de extinção no estado de São Paulo, reduzido mais e mais a cada ano. No alto do tanque, atrás da cabine, é montada uma estrutura com um canhão-d’água. O motorista sobe, senta-se atrás da peça de artilharia aquática e dirige um jato poderoso contra os pontos com fogo. A força da água foi tanta que tombou toda a primeira linha de cana, e também boa parte da segunda. Tombou, mas salvou, e graças ao canhão-d’água da usina minhas vaquinhas Jersey e mestiças continuam comendo a sagrada cana picada duas vezes por dia.
Bom, voltando ao crime propriamente dito: como de hábito, ninguém viu, ninguém nada sabe. Falar com a polícia é tempo perdido, pois nunca fizeram e tampouco virão a fazer algo para prevenir ou punir esse tipo de crime. Pensei em falar com a Polícia Ambiental, que ainda chamamos de “Florestal”, mas seria igualmente inútil. Como seguro morreu de velho, pensei, e nisso fui apoiado pelo Zé Divino e pelo Dito, que seria até melhor não ter polícia enxameando por aqui, olhando, fuçando, pois o resultado mais provável seria apenas atiçar a vontade criminosa, que, certamente, voltaria à carga para terminar o serviço que foi interrompido.
Como de hábito, novamente, e temos muitos desses hábitos, fiquei “na minha”, apenas torcendo para nada acontecer. Claro que à mercê da bandidagem, contra quem não temos defesa. Ter uma arma em casa e disparar meia dúzia de tiros é procurar, e achar, chifre em cabeça de cavalo. Ora, como bem sabemos que cavalo não tem chifre...
Fizemos ligeiro aceiro na beirada do carreador e mudamos o corte da cana. Em poucos dias tiramos toda a cana mais próxima do asfalto, recuando o início do canavial em vários metros.
Para ajudar, caiu chuvinha miúda, raridade para agosto, que ajudou a dormir sem grandes receios.
A seca, porém, ainda não terminou e não sabemos quando isso acontecerá. Tanto gastamos em tantas coisas e não temos um satélite meteorológico próprio, posicionado para cobrir unicamente o que de fato interessa ao Brasil. Se não tivéssemos tantos ministros, tantos assessores, tantas malas (além de cuecas, meias e outros cofres) circulando pelos corredores e ante-salas brasilienses, sem dúvida sobrariam rios de dinheiro para gastarmos em coisas como um satélite meteorológico.
sexta-feira, julho 29, 2011
As agruras – algumas – da seca
Um amigo de Brasília, em troca de mensagens sobre o futebol, sugeriu-me o uso de colírio, ironicamente. O objetivo seria melhorar minha visão da realidade, em sua opinião. A verdade, sem ironia, é que já uso colírio, abundantemente, tanto ou até mais que ele, novamente sem ironia. Afinal, essa Santa Rita do Passa Quatro anda tão ou mais seca que a capital federal, terra de pessoas simpáticas, trabalhadoras, honestas, por nascença ou adoção, e terra de uma gente que mais infelicita que beneficia essa Terra de Vera Cruz. Claro que essa gente última à qual estou me referindo por último, são os muitos, os inúmeros membros das elites de plantão na condução dessa Pindorama.
Elites... Pois sim.
A seca por aqui anda braba, coisa feia, mesmo. A poeira tudo cobre. Uma mera corrida dum galo atrás de uma galinha, para a prática do nobre esporte reprodutivo, levanta nuvens de poeira onde antes havia gramado. As noites secas e frias, não poucas vezes geladas, permitem-nos avistar estrelas a mais não poder, e mais a Via Láctea, esplêndida, fascinante. Pena que bate um vento chato, que seca ainda mais o que já seco está.
Haja paciência, haja muita paciência e perseverança, pois ainda temos agosto a atravessar e setembro. O mesmo setembro que em tempos idos era o mês de plantar, pois é quando começa a primavera e é quando as chuvas chegavam.
Não chegam mais, a não ser por acaso, chuvas perdidas, sem constância.
Ora, como parte das ironias muitas que a vida nos apresenta, é justamente nessa época que a bomba da mina queima. O que aconteceu porque trabalhou tempo demais no seco, vibrou demais, caiu do suporte, quebrou a caixa que armazenava a água que ela bombeava cá para cima e, por fim, entrou em curto e queimou. Adeus bomba.
Comprar nova bomba não é difícil, embora o dinheiro não permita o luxo de cobrir imprevistos, afinal, já não cobre nem mesmo os previstos. O problema é comprar nova caixa para armazenar a água a ser bombeada. O ideal é que tenha ao menos
Embora com
Ó ceus, ó vida...
Chamei o Toninho, o homem da água. Foi ele que furou esse poço há 11 anos. Diziam os vizinhos que não tínhamos água por aqui. Alguns poços já tinham sido furados, em vão. Mas o Toninho, ou Tonho, como também é chamado, disse que isso era bobagem. Confiei na sua confiança e contratei-o.
Lembro como se hoje fosse... Ele chegou, desceu do carro, pegou um pedacinho de ferro em Y e disse que era aquele trem que ia dizer-lhe onde furar.
Ai ai ai... Pensei com meus botões, onde é que eu fui botar meu dinheirinho... De repente, num lugar bastante improvável para todos nós, leigos, e pertinho de casa, ainda por cima, a varetinha segura por suas duas mãos apontou para baixo. E com força, aparentemente. É aqui – disse ele. E aqui estamos nós, onze anos depois, a beber e a usar a santa água do nosso poço. Mas agora ela secou. Demos uma noite de descanso, ligamos a bomba... Vinte minutos depois, secou de novo. O jeito foi apelar e chamar o Toninho. Ao telefone já disse-me: Qual seca, nada, seca é só em agosto e olhe lá, o poço tem água, sim.
Santa confiança, e nela confiei, mais uma vez.
Bom, resumindo o que já está muito longo, ele tinha razão: a bomba estava puxando água demais, acima da capacidade de reposição do poço. Regulagem feita, a água voltou a cair e a encher as duas grandes caixas, uma para nós, os macacos sem pelo aqui habitam, outra para as quadrúpedes de muitas tetas e grandes “peitos”, comedoras de capim e cana.
Com a vazão no volume que está, demoraremos uns dez dias para encher as duas caixas com
Não faz mal, o bom é que temos água. Bendita sensação essa.
sábado, julho 23, 2011
Vãs reflexões
Vãs reflexões
O Brasil está podre, a sociedade está anestesiada, as mais diversas autoridades de todos os tipos e escalões parecem ser cada vez mais, cada dia mais corruptas e descompromissadas com o bem-estar das pessoas, essas que vêm a formar o famoso povo, e pior ainda com a ética, com a moral, com bons princípios.
Ando pensando sobre essas coisas, mas, sei lá, quanto mais penso mais desanimado fico.
Nos anos 70 tudo parecia muito claro: havia o bem e o mal. O bem tinha uns arranhões, o mal tinha uns lampejos bonitinhos, mas era tudo muito claro.
Na verdade não era, mas parecia.
A União Soviética era um modelo, mas descobrimos ser totalmente furado.
Os Estados Unidos eram a encarnação do mal, o que viemos a descobrir não passar de uma grande tolice.
O mal simplesmente é parte em tudo.
A Igreja já era contestada, mas ainda impunha respeito em uns, temor em outros. Hoje, respeito e temor são apenas parte do passado.
O materialismo era combatido, mas era o materialismo histórico, marxista ou, pior ainda, marxista-leninista. O primeiro era meramente reflexivo, o segundo só podia ser ativo ou não era.
O materialismo hoje é dominante, mas não é o histórico, é o reles e vil materialismo do ter por ter, ter muito de tudo cada vez mais usufruindo nada de tudo cada vez mais.
Sentar para conversar e jogar fora, séria ou divertida, só existe se dúzias de cervejas do comercial mais atraente estiverem presentes e forem consumidas. Se litros não forem consumidos individualmente, a conversa não rolou, a festa foi um fiasco, nada se aproveitou.
Não existe o parar para pensar, simplesmente. Pensar incomoda.
No carro, para não pensar, nada melhor que o rádio ou o emepê alguma coisa no máximo volume. Se, assim mesmo, algum pensamento insistir em dar as caras, o jeito é apelar e sacar do celular e falar nada com um monte de pessoas que nada dirão da mesma forma, exceto meia dúzia de frases e expressões consagradas pelo uso e ausência de significados, pois tudo significam, servem para qualquer coisa, mesmo nada dizendo ou justamente por isso.
A internet é parte disso tudo. É agente e é sintoma. Busca-se o mínimo mais e mais, a ponto de ser perigoso que a próxima grande conquista seja a ingestão de comida já digerida, bastando engoli-la e pronto.
sábado, julho 09, 2011
Manhã de sábado
Mais um dia que amanheceu gelado, literalmente. A Tempra, uma vez mais, coberta por uma capa de gelo, assim como os pastos baixos e gramados. Nos termômetros, zero grau. Vacas e bezerros levantando com preguiça e alongando os músculos lentamente. É o que podemos chamar, para seguir o modismo, de inteligência biológica.
O café quente desce gostoso e reanima, estava quase escrevendo ressuscita, mas os dois verbos não são corretos: hoje, ele anima, simplesmente.
Que me perdoem os certinhos de todos os hemisférios, mas cafeína é um motor fantástico.
Eu sou um cara caffeine powered, assumo, desde criança, com 5 ou 6 anos de idade. Bebia café frio e doce em copo, mais de dois por dia. Nos tempos de militância mais pesada, saía de casa de madrugada, depois de duas ou três horas de sono, levando no estômago um copão de café frio da tarde do dia anterior e um pedaço de pão com bastante manteiga. Era a energia que me mantinha ativo até as duas ou três da tarde. Aos 18 anos fazemos coisas impensáveis aos quarenta, cinquenta...
Por sinal, café doce nem pensar, só quando visito alguém que o faz já adoçado. Gosto do café puro, mudança adquirida perto dos trinta, provocada pela eterna gastrite. Sem açúcar, a bichinha diminuiu e desde então temos convivido mais ou menos bem.
Enquanto preparava a cana para picar e fazer o trato da manhã, a Rosa chamou-me para mostrar os Tucanos. Ou melhor, tucanos, pois eram
Hoje foi difícil chegar à NewBooks, onde o Leandro até agora não deu as caras. É o frio, ainda bem que a Michele e a Monica não deixam a peteca cair e, mesmo feriado, aqui estamos. Já tomei um expresso e comi um pão-de-queijo bem quente.
Chega um rapaz, mulato alto, forte pra burro, bem falante e começa a conversar com a Monica. A horas tantas, comentando o feriado, dispara que é referente a quando “São Paulo quis se separar do resto do Brasil”.
O mito persiste, devidamente manipulado e perpetuado Brasil afora por interesses paroquiais. Em outros tempos teria feito um discurso e colocado a verdade na cabeça dele. Ou assim pensaria. Hoje, ouço, penso e volto a escrever e liberar comentários no OCE. Desencanei.
A gloriosa prefeitura santarritense – gloriosa, carésima (hummmmmmmm...) e inútil – dividiu a cidade em duas partes. Para chegar aqui tive de dar uma volta enorme, metade dela despejando palavrões cada vez mais cabeludos à medida que novas ruas apareciam bloqueadas, para desespero da Rosa. Paciência.
No OCE, um sujeito escreveu um comentário imenso, mais de 50 linhas, bem mais. Nas quatro primeiras já tinha me ofendido sei lá quantas vezes, inclusive falando dessa bela faccia que ostento. Na quinta ou sexta ofendeu até meu pai, grande pequena figura, a quem devo, em boa parte, ser são-paulino, algo que está no meu DNA. Aí não deu, nem li o restante, deletei tudo. Minha vingança foi dizer ao imbecil que ele escreveu um monte e eu li um tiquinho só. Trabalhou à toa, deu-me chance de dar uma resposta do tipo que gosto e ainda rendeu assunto para encher meia dúzia de linhas com linguiça.
E segue o sábado e outro expresso está a caminho.
terça-feira, junho 28, 2011
Gelo matinal
Os dois graus das duas e meia da madrugada, quando fui dar uma olhada nas bezerras mais novas, evoluíram para menos um grau às seis da manhã, que persistiu até poucos minutos atrás.
Agora, quase sete e meia, já está quente: zero grau.
A Tempra amanheceu coberta por uma crosta de gelo.
Parte dos pastos e o gramado estavam igualmente brancos.
A bezerrinha caçula, nascida na madrugada de sábado, filha da Alvorada e batizada de Madrugada (é, não sou muito criativo nos batismos), resistiu bem: acordou e veio em busca da mamadeira.
Essas temperaturas baixas não são ruins para as vacas e os bezerros, embora já fora de sua zona de conforto.
Dormem bem, permanecem confortáveis, mas consomem mais energia para manter o "aquecimento central" funcionando, daí o fato de estarem fora da zona de conforto.
A partir de menos cinco, entretanto, a situação pode mudar.
E vacas doentes ou subnutridas já sofrem e até morrem com zero grau.
Comida é conforto. E saúde, etc, etc.
Eu já estou confortável, agora: meia caneca de café, seguida por uma caneca de café com leite e um belo pedaço de pão italiano cheio de manteiga.
"Dez quilos" de colesterol... Vou ter que trabalhar um bocadinho pra queimá-lo. A cafeína deve ajudar, eu acho. Sou movido a cafeína desde o berço.
:o)
Antigamente era pior. Ao invés de começar o trabalho às 05:45 ou alguns minutos mais, começava-se às 03:30 ou 04:00.
Coisa de louco, mas ainda há muitos nesse esquema.
Por mim, começaria pouco antes das sete, no inverno, mas há coisas imutáveis na cultura das pessoas.
Pra começar pouco antes das seis já foi uma luta.
Cede-se um pouco aqui e um pouco de lá e pronto.
É o que se chama de negociação e consultores cobram caro à bessa das grandes empresas para ensinar aos executivos que tudo que se precisa, na verdade, é bom senso e respeito às vontades alheias.
Se eu escrever "à beça" o word não coloca o traço vermelho.
O word está errado, valem as duas formas.
sexta-feira, janeiro 14, 2011
Tragédia em Itaipava
Cavalos são uma das mais belas e fantásticas criaturas que a Natureza criou.
Poucos seres humanos dão-se conta de sua importância para sermos o que somos hoje.
Ao domesticarmos o cavalo – domesticar: verbo tenebroso durante séculos, que hoje começa a ter seu significado transformado – ou, também posso dizer, a partir do momento em que aprendemos a conviver com essa criatura, nossa velocidade de deslocamento foi multiplicada.
O comércio beneficiou-se, a troca de ideias, o abastecimento de comida, tanto pela caça como pela troca e a produção, o ir e vir de pessoas, muitas outras atividades foram intensificadas graças ao emprego dos cavalos.
Sim, sem dúvida também as atividades bélicas.
Conhecendo o ser humano, o mais provável é que o primeiro e mais importante uso do cavalo foi nas guerras, pequenas, localizadas, entre tribos, mas sempre guerras.
A humanidade, tal como a conhecemos hoje, tem uma enorme dívida com os cavalos, que não é paga, nunca foi, de maneira digna, outro traço infeliz muito comum ao Homo sapiens.
A notícia trazida pela Folha chocou-me nesse final de madrugada: a morte de oito cavalos num haras de Itaipava, seguidas pelo sacrifício de outros oito.
Mais trágica ainda se torna a notícia quando ela relata que o tratador dos animais, chamado Miguel, não quis fugir da fúria das águas e ficou com seus animais. Não de sua propriedade material, mas de sua propriedade sentimental, infinitamente mais nobre e importante.
Lamento pelo Miguel, lamento pelos cavalos, independentemente de serem bonitos e valiosos, o que, em se tratando de vida, é irrelevante.
Lamento, profunda e sinceramente, pelas centenas de pessoas que morreram nessa tragédia anunciada, nessa tragédia reprisada, nessa tragédia que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e capacidade de observação sabia que iria acontecer e, pior, muito pior, sabe que irá acontecer novamente.
Não é a primeira vez que escrevo essa obviedade e não será a última, lamentavelmente.
O ser humano, com sua arrogância e sua ignorância, teima em desafiar a natureza e a resposta sempre se dá em forma de tragédias.
Meu respeito, minha admiração, minha dor pelo Miguel, a quem dedico esse texto.
(Abaixo, a transcrição da notícia da Folha de S.Paulo)
São Paulo, sexta-feira, 14 de janeiro de 2011 |
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sexta-feira, dezembro 31, 2010
Felicidade em 2011
De novo, último dia do ano.
Não é que eu tenha deixado essa mensagem para a última hora, é que simplesmente calhou de ser assim.
Na roça, o tempo é escasso, insuficiente para fazermos tudo que precisamos.
No campo, aquela coisa idílica com que a gente sonha quando está na cidade, é o contrário: o tempo abunda e precisamos caçar o que fazer para ocupá-lo. Gosto da roça, mas confesso que de vez em quando, bem de vez em quando, ao sobrar um raro tempinho, dá uma certa vontade de mudar da roça e morar no campo. Felizmente, é vontade passageira.
E assim, no ritmo da roça, mais um ano passou e 2011 bate à nossa porta. Por sinal, recém-falei com um amigo que está em 2011, pelo simples fato de morar no Japão, onde o novo ano já é quase velho. Isso mesmo, nos dias de hoje o ano só é novo de verdade no dia 1º de janeiro, pois no dia 2 já é ano em curso, ano velho.
Ainda há pouco, enquanto limpava a cana para ser picada e o Dito e o Zé Divino descansavam (é ótimo descansar vendo alguém trabalhando, principalmente se esse alguém tem o cargo de patrão; no meu caso, só o cargo e os encargos, pois as benesses, supostas, ainda desconheço), conversávamos sobre a data de hoje e o Dito, dois anos mais velho que eu, bateu o martelo: Ah, quando eu era moleque o tempo demorava muito pra passar, era uma espera danada até chegar o Natal e a gente poder tomar guaraná.
Bingo!
Eu mesmo venho dizendo a mesma coisa.
Será que o tempo hoje passa mais depressa porque consumimos de tudo e tudo que queremos, ao passo que outrora o consumo era básico e qualquer coisa que fosse especial era aguardada com tanta ansiedade que o tempo demorava a passar?
Não sei, mas há até uma teoria científica (ou pseudo) que diz que o tempo realmente está passando mais depressa.
Pouco importa se o tempo está de fato acelerado, passando mais depressa, isso não muda nossos sentimentos e nossas esperanças.
O ano começará com novos governantes e novos parlamentares. Espero, sinceramente, que todos se esforcem e deem o melhor de seus esforços e capacidade para construir um país melhor. Em quem cada um votou ou deixou de votar não é relevante nesse momento, tudo que importa é trabalharmos por um país melhor para todos nós.
Então, é isso novamente:
Feliz Ano Novo. Feliz 2011.
Que seja um ano repleto de saúde e paz.
Ok, se sobrar um espaço, prosperidade também.
E felicidade acima de tudo.
quarta-feira, julho 28, 2010
O Sol e a Lua e o frio do final da madrugada
Essas últimas manhãs ou, mais precisamente, finais de madrugada, têm sido preciosos. O frio é quase forte, gostoso sem ser cortante, exigindo camiseta, camisa e blusa. Antes das nove horas, só restou a camiseta. As colinas a oriente são delineadas pelo brilho do Sol, ainda invisível, mas a ocidente a Lua cheia brilha soberana, intensa, prateada, bonita de ver, e por mais que a gente veja não dá cansaço.
Quando o Sol finalmente aparece, ela, a rainha dessas noites de claridade intensa e sombras fortes, continua brilhante. Enquanto vou trabalhando sempre consigo alguns segundos para olhar ao redor. As galinhas estão descendo das árvores onde passaram a noite, algumas mais ativas e outras, definitivamente, boas vidas, sossegadas, para não dizer preguiçosas. No alto do barbatimão as angolas ficam batendo papo. Impossível sequer imaginar o que tanto conversam. As vacas que entram mais tarde para a ordenha ficam deitadas. A cada respirada, o ar exalado forma uma nuvem de vapor. O touro dorme profundamente, a cabeça aninhada de encontro às pernas dobradas junto ao peito. Lobos e tigres-dente-de-sabre são lembranças perdidas somente no código genético. Claro, tem toda a passarinhada começando a se assanhar. Melhor dizer toda a bicharada de pena, pois além dos muitos passarinhos – como os canarinhos-da-terra que vêm num grande bando comer a quirera que as galinhas deixam – tem as garças-brancas-pequenas, a família de seriemas – cada vez mais folgadas, íntimas e atrevidas, o suficiente para pegarem ovos num ninho no meio de um piquete a poucos metros de onde eu colocava o trato da tarde nos cochos – e um grande bando de barulhentas curicacas, que passam horas no meio dos pastos.
Há momentos durante o dia que falar ao telefone é tarefa ingrata, pois é comum vários galos cantarem ao mesmo tempo, fazendo uma algazarra ainda maior com os “to fraco tô fraco tô fraco” das angolas. Nas pausas, o canto dos passarinhos toma conta.
Viver na cidade é bom, inegavelmente, por tudo (de bom) que a cidade oferece. Mas nunca me enganei, nunca tive a menor dúvida: viver no campo é incomparavelmente melhor.
terça-feira, julho 06, 2010
Enquanto isso, na roça...
Um de meus vizinhos comprou sua propriedade há muitos anos. Era, então, terra de cana, meio devastada. A lavoura encostava nas margens dos dois pequenos córregos que fazem parte das divisas da propriedade. Vegetação ciliar, mata ou não, era quase um mito.
Cuidaram da terra e plantaram laranja. Também plantaram árvores em muitos lugares. E as laranjeiras ficaram longe, para os padrões da época, das margens, coisa aí de pouco mais de
Ontem cedo, pouco antes de eu chegar para pegar milho, o pessoal da Polícia Ambiental chegou e aplicou-lhes uma multa de R$ 1.500,00. Motivo: três pés de laranja estão dentro do limite legal de
É o caso de rir para não fazer besteira.
O novo Código Florestal está em vias de ser aprovado. Apesar de alguns exageros, espero que isso aconteça, pois, caso contrário, estarei na ilegalidade. Eu e quase todo produtor rural desse país. De acordo com os desejos dos povos das cidades, que gostam de comer e beber à tripa forra sem nada saber sobre seus comes & bebes, toda propriedade em diversas regiões brasileiras deve manter um mínimo de 20% de sua área como reserva. Ora, isso é aplicável, mesmo assim a duras penas, em áreas de colonização nova. Onde a agricultura é praticada a cem, duzentos, trezentos anos, pretender tal coisa é absoluta sandice.
Apesar da gritaria dos comedores e bebedores urbanos, o deputado Aldo Rebelo (nunca pensei que viesse a escrever isso) teve a visão e o bom senso de deixar fora desse texto urbanoide as propriedades onde tal situação já é antiga.
Se assim não fosse, eu teria que pegar 20% de minha área, já por si minúscula, e deixar o mato tomar conta. Ou, pior ainda, comprar mudas florestais e plantá-las, numa atividade cuja renda não permite o pagamento de um mísero plano de saúde.
Os povos urbanos nada conhecem da realidade que faz suas vidas confortáveis e suas barrigas imensas, mas adoram, desculpem a expressão, cagar regras sobre ela.
E enquanto isso, no maravilhoso mundo da roça...
Dias atrás, uma bela, aliás, belíssima fazenda da nossa região foi vendida. Cada um de seus quarenta alqueires (área de respeito para o estado de São Paulo) custou a seu novo e felicíssimo proprietário a bagatela de setenta mil reais. Preço baixo, sem dúvida, pelo que é contém a fazenda.
O total da operação ficou em 2,8 milhões de reais, pagos à vista.
E daí? – deve estar se perguntando o leitor impaciente com essa lenga-lenga.
Daí, estimado e pobre leitor, que como eu não deve ter condições de bancar tal compra, é que o comprador da fazenda em questão é figura de notória importância no mundo da política de Pindorama, grande e atrasado país localizado em sua maior parte, ao sul do Equador. Oriundo do que em Pindorama se chama classe média, esse personagem teve o dom fantástico de, ao mesmo tempo, crescer na política e amealhar patrimônio grande o bastante para dar-se a tal luxo, o de comprar uma fazenda para transformá-la em haras. Que beleza. Nessa hora, seu heroi e guia político e intelectual, o velho Leon, deve estar maluco de raiva, se revirando em sua tumba, ao ver tão promissor discípulo tornar-se tão... tão... tão competente, vá.
Em tempo: o sobrenome desse mítico Leon é Trotsky.
sexta-feira, maio 01, 2009
Coisas da doce vida campestre
O dia no sítio ontem foi típico: quase passei mais tempo ao volante da Saveirinho do que fazendo qualquer outra coisa. Fui a Porto e voltei com 500 kg de farelos e adubos, além de um feixe de balancins para a cerca da divisa. Um feixe com respeitáveis 30 kg, diga-se. Dizem que a pickupinha suporta 600 kg, é o que dizem. Mas a minha é meio velha, os pneus traseiros, descobri anteontem, além de velhinhos não são os indicados para ela, e mais isso e mais aquilo... Parei na estrada, peguei um saco de adubo na carroceria e coloquei no chão em frente ao banco do passageiro. Peguei outro saco, este de sal mineral, com apenas 30 kg, e coloquei no banco do passageiro. Aliviei a caçamba em 80 kg e toquei pro sítio. Coisas da vida e os pneus agüentaram direitinho.
Vê uma coisa, faz outra, isso e aquilo, era hora de ir até Santa Rita do Passa Quatro.
A vida no sítio é intimamente ligada à cidade, especialmente quando você tem que fazer alguma “obrinha” na propriedade. Um ranchinho sem custo, de repente já custou 800 reais. Coisas da vida e a conta bancária ainda agüenta. Ainda...
Na volta da cidade, com a caçamba carregada de fardos de feno – finalmente uma boa compra, pois o fardo ainda está a caros 6,50, mas esses fardos estão pesados de verdade, com 17 kg cada um, na média, e não demora muito estarão a 8 reais com apenas 10, 11 ou, com sorte, 12 kg – parei num vizinho que está colhendo milho. Não tenho onde estocar, infelizmente, mas assim mesmo comprei 600 kg. O preço, como diria o ministro do imexível, é imperdível. Falando em imexível: ao digitar a palavra, o corretor ortográfico simplesmente aceitou-a. Antigamente rejeitava, mas por erro dele, não do ministro, que também acertou por mero acaso. Outra curiosidade: o Houaiss data sua aparição como circa 1990. O ministro, vítima sofrida de todos os humoristas dessa república, fez história. Quem diria.
De volta ao milho: o jeito vai ser estocar tudo nos tambores que ainda estão vazios e colocar a trituradora em ação para fazer o fubá que será misturado à ração das vacas e à outra para os bezerros. Essa ração, basicamente, é composta hoje por milho moído, farelo de soja com 46% de proteína bruta (PB), farelo de algodão com 38% de PB e sal mineral. Essa composição, hoje, é a mais econômica ou, melhor dizendo, a menos cara. Atualmente formulo uma ração com 18% de PB, mas a partir de agora vou fazê-la com 20%.
Cerca de 1 km antes da porteira, vi o vizinho e dono do sítio pelo qual passávamos parar o carro no acostamento. Parei, também, para ver se era algum problema e porque queria perguntar se ele tinha recebido umas vacas boas – o negócio dele é negociar gado. Estava tudo bem e ele parara para ver a novilha perto da cerca parir. De fato, a bichinha – uma holandesa bonitinha, não muito grande – estava ainda com a bolsa e parte da placenta pra fora, lambendo a cria no chão.
- Olha aí, aproveita e compra ela, te faço baratinho. Só que ela tem só 3 peitos (ou seja, perdeu um dos quartos do úbere), mas mesmo assim vai ser muito boa de leite.
- Hummmmmmmmmmm... Sei não, pegar mais uma vaca com 3 peitos... Já tenho duas no rebanho.
- Isso não é problema, tá cheio de vaca com 3 que dá muito mais leite que outras com 4.
- É, eu sei disso.
- Tem mais: se for uma fêmea que nasceu, é só você criar direitinho até a desmama e ela já te paga metade da vaca, quase.
(O problema é o tamanho desse “quase”, mas isso é detalhe...)
Varamos a cerca de farpado para ver a cria, ainda sendo lambida, mas já bem espertinha, cabeça levantada olhando para esse mundo cheio de novidades, a começar pelos dois bípedes engraçados que estavam chegando perto.
Olha daqui, olha dali, a vaca afastou-se um pouquinho e deu para levantar uma das pernas: uma fêmea.
- Taí, olha que beleza de bezerra!
- É, bonitinha mesmo, e parece esperta.
Foi dizer isso e a bichinha levantou-se, bem disposta, apesar das pernas ainda bambas.
- Bom, vou dar uma pensada, amanhã a gente se fala.
- Olha, demora muito não, porque esse bichinho tem comprador de monte.
No sítio, ainda deu tempo de ajudar com uma coisa e outra na ordenha da tarde, ajudar a picar cana e de repente já estava escuro. Entrando no banheiro, meio moído de cansaço, ansiando pela água quente batendo nas pernas e nas costas, escuto o berreiro do Minuto, o touro Jersey, ficar mais forte. Estranho...
O jeito foi botar calça e botina e ver o que acontecia. E assim começou uma noite daquelas...
O enorme touro branco do vizinho de baixo havia varado a cerca e invadido nossos pastos, território exclusivo do Minuto, assim como as senhoras que por ali pastavam, uma das quais entrando em cio. O que mais impressionou-me é que o bicho já deve estar com mais de 800 kg e continua crescendo, e assim mesmo pulou uma cerca – não muito alta, é verdade – partindo de uma base mais baixa, pois o terreno tem um declive razoável. Foi a primeira vez que isso aconteceu em muitos anos.
E tome canseira e trabalheira. No escuro, usando a lanterna de forma intermitente, andando no meio de pasto alto, entrando em áreas de macegas, a gente nem pensa em cobras, simplesmente avança, mas o meu medo era com os muitos buracos, novos e antigos, de tatus. Um pisão de um de nós ou de uma das vacas e pronto! Fratura. No nosso caso basta ir pro hospital e ficar uns tempos de molho. No caso de uma vaca, tudo que resta é o sacrifício. Para meu medo, a Maga, a Graciosa e a Florinda estavam acompanhando o bonitão invasor. As três prenhes, sendo que a Maga e a Graciosa já estão “chegadinhas” e podem parir a qualquer momento.
Depois de peripécias mil, não conseguimos isolar o touro branco na parte de cima do sítio, mas conseguimos fazer isso com o Minuto. As vacas ficaram ora assustadas, ora curiosas, mas de uma coisa já tinha certeza: o leite hoje cairia bem. Dito e feito: 20% a menos na produção.
Finalmente, consegui ir tomar meu banho. Não sentia cansaço, assim como não senti medo ao tentar conduzir o touro branco para longe no meio do pasto, na escuridão. Puro efeito da adrenalina, circulando “a mil” pelo meu sangue.
A mesma adrenalina que ajudou nossos ancestrais a sobreviver no meio de tigres-dente-de-sabre, mamutes, leões, crocodilos, lobos e outras ameaças terríveis. Sem adrenalina estaríamos extintos.
E assim se foi mais um doce e agradável dia no campo.
Coisas da vida, a doce vida campestre, mas o corpo aguenta e pede mais, até porque hoje é um novo dia.
quinta-feira, abril 23, 2009
Os muitos nomes da Lua num final de madrugada
“... o por-do-sol precisa da minha supervisão...”, diz meu amigo Ary, num e-mail em que comenta minha mudança para o sítio e sua intenção em fazer o mesmo brevemente. Pois bem, contrapor daqui com a máxima seriedade: não é só o por-do-sol, Ary, o amanhecer também precisa da nossa supervisão.
Ontem, naquela hora imprecisa em que a madrugada findou e a manhã não começou, olhei para o céu e fiquei boquiaberto: a Lua, despedindo-se em seu quarto minguante, fininha como um alfange muito gasto e com o brilho da prata com que sonhavam os conquistadores europeus dessas Américas; bem pertinho, Venus, brilhante e prata pura, ambas destacadas contra o céu cambiante do escuro para o azul; entre elas, um jato cruzava o céu no rumo da grande metrópole a sudeste, deixando atrás um curto rastro também prateado como ele mesmo.
Um momento mágico.
Artemis e Afrodite, Diana e Venus, Jaci e a estrela matutina, entidades celestes que encantam os homens desde tempos imemoriais, fazendo uma trilha para a passagem da criação dos descendentes dos mesmos homens que as veneravam. A nascente manhã fria estava tomada pelos cantos dos pássaros, muitos pássaros que habitam esse sítio e seus arredores, ao gosto de Artemis, protetora e amante dos animais.
O jato se foi, levando pessoas desconhecidas rumo a seus destinos na grande cidade, alheias à Lua em seus muitos nomes e símbolos. Talvez alguém lá no alto, dentro do aparelho voador, estivesse olhando para baixo e pensando, como eu tantas vezes fiz, se alguém lá embaixo parava o que estava fazendo e olhava para o avião.
Sim, olhava para a obra-prima tecnológica, mas era só isso.
O pensamento voara para longe, muito longe, outras eras, onde Apolo é somente mais um deus do Olimpo, jamais uma nave espacial.
É isso, Ary, tudo precisa da nossa supervisão atenta, pois há quem acredite que tudo só existe quando sob nosso olhar.
terça-feira, abril 21, 2009
Feriadão no sítio
Dia de Tiradentes, numa terça-feira, mas nem parece. Ontem, segundona de feriadão, o dia foi de uma normalidade absoluta, o que pode ser traduzido por “um dia de muito trabalho”, normalíssimo. Saí atrás de peças para a picadeira de cana, inclusive um eixo absurdamente gasto pelo uso intensivo e uma manutenção que pode ser descrita como pouco cuidadosa.
Mexer com essas coisas para mim é novidade, tal como ir a uma tornearia.
Conheço muito sobre tornos: já gravei muitos deles funcionando, controlados por cérebros eletrônicos (desculpem, ainda sou do tempo em que se chamava computador de cérebro eletrônico) e sei que são usados para um monte de coisas importantes, sem as quais nossa vida seria muito pouco confortável.
E, claro, bem informado que sou, sei de tudo o mais importante: ser torneiro-mecânico pode dar acesso à presidência dessa república.
Ou seja, nada sei sobre tornos.
O Toninho, de uma revenda de tudo para agricultura, disse-me que não tinha aquele eixo em estoque, mas que era só levar na oficina que o pessoal “enchia” e ele ficaria perfeito. Carreguei minha ignorância para a oficina e lá fiquei, olhando e admirando o trabalho do torno e do torneiro. Não há cérebro eletrônico na máquina, só o cérebro do operador, controlando suas mãos e seus olhos. Primeiro ele encheu o eixo com metal derretido pela solda elétrica. Depois colocou-o no torno e foi acertando, pouco a pouco, o enchimento feito pela solda. Em menos de meia hora lá estava meu eixo, novo em folha, pronto para trabalhar na picagem de umas 80 toneladas de cana, no mínimo, no decorrer dessa seca que se avizinha.
Na roça não tem jeito: você precisa mexer com mecânica, com torno, com eletricidade, com encamentos, com limpeza de minas e de caixas-d’água...
Tendo um pouco de sorte você consegue mexer até com vacas e plantas.
Minha Saveirinho 95 álcool anda esperta, pra cima e pra baixo. Toda vez que vou a Porto (Porto Ferreira, para os não-iniciados) volto com 300, 400 e até
Pela manhã, ao sair para dar uma forcinha pro Zé Divino, blusa, camisa e camiseta são obrigatórias. O frio já chegou, mas o sol esquenta tudo e o jeito é tirar a blusa e depois a camisa, deixando a camiseta já suada. Dias quentes, noites frias, gosto disso, as vacas também. O Zé já nasceu em lugar parecido, Andradas,
Apesar da trabalheira, dá para ver muita coisa.
As seriemas cresceram seus filhos e já fica difícil distinguir quem é quem. Andam os quatro juntos, o tempo todo. No mundo das seriemas como no mundo dos homens, os filhotes adotaram a moda “canguru” e só deixam o lar paterno já bem crescidos, muito crescidos. Garotada esperta, essa.
A proximidade do final da tarde traz os jogos de luz e sombras. Um pouco a gente tem que parar e observar. Tenho sorte, faço isto desde sempre.
Basta olhar para encontrarmos a beleza.
Ah, é verdade, hoje é feriado, mas eu já falei isso, né?
Nem parece, exceto pelo fato de ir filar a boia na minha sogra.
No mais, a vida segue seu ritmo.
sexta-feira, abril 10, 2009
Sob a beleza serena do luar
Passei pela porteira e parei a pickup. Desliguei o motor, apaguei as luzes e desci para fechar a porteira. Não voltei para o carro, fiquei parado olhando a Lua. Cheia, imensa, dourada. É a terceira noite da cheia plena e o espetáculo desse começo de noite foi de emocionar. Assim como a visão dela nos dois últimos começos de dia, prateada, fechando a madrugada e revelando a neblina fraca que cobre as grotas e algumas encostas. Os pastos adquirem a mesma tonalidade prateada, o frio já se faz sentir, exige blusa, mas ainda não é intenso. As vacas sentem-se confortáveis, principalmente as Jersey, com sua origem nas ilhas do Canal, frias e úmidas. Os bezerros dormem profundamente, alguns meio escondidos pela grama abundante do bezerreiro.
Nesses finais de madrugada, nesses começos de noite, fico em paz, sinto uma tranquilidade que há muito não sentia, talvez nunca tenha sentido. Aqui é meu lugar, aqui estou fazendo o que sonhei fazer por toda a vida. Demorou, demorou muito, mas essa paz comigo mesmo compensa tudo.
Não gosto de luzes fora de casa, sou um bicho do mato que gosta da claridade difusa das estrelas e do luar, e essas noites claras de outono são quase tão perfeitas quanto as de inverno. Pensando bem, são ainda melhores porque há umidade por toda parte, mesmo depois de alguns dias sem chuva. Poucos insetos ainda incomodam e sentar na varanda para simplesmente olhar a paisagem banhada pelo luar é bom demais. Temos feito isto, mas ainda pouco. Sem uísque, sem cerveja, sem charuto, sem música, apenas luar e paisagem. Trilha sonora não falta, desde um bezerro ranheta até os grilos e algumas aves noturnas. Para mim, assim é o mundo, assim deveria ser sempre.
Há milhares de anos, em noites como essa, saímos da proteção da caverna e olhamos para um céu igual a esse. Nada sabíamos sobre os astros, sobre essas luzes, mas sentimos o seu mistério e seu esplendor. Abstraio as explicações cientificas, elimino-as de meus pensamentos e percebo que estou muito próximo de ancestrais remotos. Evoluímos, associamos astros a deuses e agora explicamos tudo em detalhes tão minuciosos quanto inatingíveis. Nessa hora penso que ciência e religião são a mesma coisa, apenas o homem tentando explicar tudo que vê, tudo que sente.
Bobagem. Melhor sentir, apenas.
domingo, fevereiro 15, 2009
Granja Viana, adeus
Chove.
Chove tanto e há tantos dias que o solo do gramado virou uma esponja: apertado pelo pé, esguicha água por toda parte e barro em algumas. Tanto isso é verdadeiro que fez com que meu filho desmarcasse sua festa de aniversário e despedida da Granja Viana.
Despedida, sim. Essa manhã chuvosa de domingo é a última que vivo aqui, nessa casa que há 15 anos é o meu lar.
A Granja mudou.
Nós também mudamos, claro, mas a Granja mudou, foi mudada, muito mais que nós.
Há menos árvores e muito mais casas.
Os carros multiplicaram-se em espantosa progressão geométrica.
As ruas simplesmente não cresceram, sequer na largura, exceção feita a um ou outro trecho pequeno.
Os saguis não vêm mais até aqui, em busca de insetos e frutinhos nas árvores, além das fatias de mamão e das bananas que o Marcelo e o Renato, nossos vizinhos, e nós mesmos, colocávamos para eles nas árvores próximas.
A própria chegada deles pegou-nos de surpresa há alguns anos e foi o sinal, como disse para os rapazes e para a Rosa, que a Granja estava acabando.
Eles estavam aqui porque pedaços do seu velho habitat estavam destruídos.
Agora a destruição encostou aqui em casa.
Não há o que fazer, é tudo dentro da lei.
Não há o que fazer, é tudo fruto do progresso.
Impotente, deixo a Granja com alegria.
Quem vem para cá irá gostar.
Sim, irá gostar, pois essa Granja de hoje ainda é muito melhor e mais gostosa que qualquer bairro paulistano. Principalmente os bairros verticais, onde as pessoas vivem embaixo ou em cima e ao lado umas das outras, separadas por centímetros de concreto, alguns quadros e carpetes.
Para mim, contudo, é tempo de mudar.
Soa como uma derrota, não deixa de ser.
Sempre soube que a Granja era passageira e sempre soube que as árvores e os animais, como os mutuns e os serelepes, tinham pouco tempo pela frente.
Esperava estar longe quando essas mudanças começassem, mas fui atropelado por elas.
Vou para o sítio, para onde sempre quis ir, para onde sempre soube que um dia ainda iria. Felizmente, vou a tempo de trabalhar, de começar de verdade, para valer, um novo trabalho, um novo ciclo em minha vida.
Lamento pela Granja e por seus moradores não humanos. Para os humanos, para a maior parte deles, ela está cada vez melhor. A estrutura de serviços é fantástica, cobre tudo, do pequeno, acolhedor e providencial Armazém do Nicolau ao grande Wal-Mart, passando por livrarias, restaurantes excelentes, o melhor deles ainda sendo o Ney e seu Pátio Viana, que o que não tem chic tem gostoso, pizzarias, lojas de informática, mercados como o Pão de Açúcar e o Marché, refinados e tentadores, até o Habib’s e o McDonalds.
A Granja é uma festa e em nada mais precisa de São Paulo, sequer escolas, até a universidade. O que é ótimo, porque a Raposo Tavares continua o gargalo, pior a cada nova temporada escolar. É o progresso.
É, não consegui esconder um laivo de tristeza nessas palavras, mas, podem acreditar, é por tudo que a Granja foi e está deixando de ser. Um lugar de matas e bichos com um monte de casas espalhadas.
Desejo que as novas pessoas que farão dessa casa um novo lar sejam felizes.
Espero que cuidem dos três ipês juntinhos, fazendo um só, todos amarelos, florescendo um depois do outro e colorindo a frente da casa por muitas semanas do meio do inverno.
E também do pé de acerola, que tanto suco já nos rendeu.
Que essa chuva seja somente a água que está lavando tudo e criando um novo espaço para os novos moradores.
É tempo de mudanças, para todos nós.
Que elas nos tragam mais felicidade e alegrias.
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terça-feira, setembro 16, 2008
Mais flores, agora róseas
Os dias têm sido corridos, fiquei boa parte deles no sítio, tentando, ainda sem o mais importante insumo agropecuário, o dinheiro, arrumar algumas coisas já preparando a breve mudança para lá, em definitivo. O sítio tem internet via rádio, mas até hoje não comprei um notebook, falha que pretendo sanar rapidamente e que vai tornar minha vida menos complicada no que diz respeito às postagens nos blogs.
Tenho tido sorte. Toda vez que estou no sítio uma das vacas pare. Dessa vez foi a Luna, uma Jersey pura, filha do Safári com a Inocence, que pariu uma bezerrinha. Dentro de minha recente política de dar nome aos bois conforme meu humor ou reação inicial, batizei-a de Maravilha. Batismo efetuado e divulgado, fiquei um pouco incomodado, mas vamos que vamos. Maravilha será Mara ou Marinha, não duvido.
A estação começou com a florada dos ipês-roxos e dos ipês-amarelos. Como já disse, há muitas espécies de amarelos e suas floradas não são coincidentes, o que faz crer que eles florescem durante muito tempo. Além disso, alterações climáticas provocam, também, uma antecipação na floração das espécies mais precoces. Dessa forma, na prática convivemos com as flores amarelas do ipê de maio, às vezes, ou junho, até setembro e até novembro, como já vi algumas vezes. Espetáculo garantido por meses e meses.
Recentemente tivemos a florada dos brancos e, nessa viagem, descobri com alegria que muitos ipês-brancos estão em plena florada. Mas o que marcou, de fato, esses dias, foram os ipês-rosa.
Num bairro de Campinas, próximo ao ramal da Bandeirantes que dá acesso à Anhanguera, há vários deles. Mas os mais bonitos, sem dúvida, são os que estão na entrada de Araras, dos dois lados da pista, inclusive com alguns brancos também em floração de mistura. São árvores grandes, encorpadas, bonitas em qualquer situação, mas que carregadas de flores ganham uma beleza toda especial.
No haras da Monika, perto do sítio, um ipê-rosa decora o piquete do Kaliman, o belo cavalo BH que ela montou por anos e anos e agora está tranquilamente aposentado.
Um pouco mais adiante, olhando por entre a cerca-viva de sansão-do-campo, enxergamos o magnífico ipê-rosa que embeleza a sede do sítio do ‘seu’ Nelson.
A beleza dos ipês diminui ou deixa menos relevante a florada das ficheiras, que é bonita, também, porém mais singela, mais simples, sem a magnificência de uma florada plena de um ipê de qualquer cor. ‘Tadinhas’ das ficheiras.
Não importa que a gente ande sempre pelos mesmos caminhos, a verdade é que o mesmo caminho nunca é o mesmo de um dia para o outro.
Se olharmos em volta com interesse veremos algo diferente a cada dia.
Essa coisa de mesmice é bobagem e só existe na cabeça de quem não quer ver que o novo está presente todo dia em toda parte.
Mas há que olhar para enxergá-lo.
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sábado, agosto 16, 2008
...as flores
Para ninguém dizer que no post anterior prometi flores e não falei, tampouco mostrei-as, substituindo-as pelos bezerros, aqui vão muitas, inúmeras flores.
Nessa época do ano a Via Anhanguera pode ser chamada, quase literalmente, de Rodovia dos Ipês, principalmente de Araras em diante. É uma festa para os olhos, que começa com a florada dos ipês-roxos, seguidos pelos diversos ipês-amarelos, que florescem desde final de junho e começo de julho, até meados de setembro. Seu auge, porém, parece dar-se nesse momento. À medida que os quilômetros se sucedem, os borrões amarelos fortes, vivos, quentes, contrastam com o verde dos pomares de laranja e com o tom cinzento que recobre os horizontes, típico desse período seco. Até choveu bem nos últimos dias, se pensarmos que estamos em pleno agosto, mas não o suficiente para limpar o horizonte.
Agosto é o mês em que florescem os mais belos de todos os ipês, os brancos. Há poucos ao longo da rodovia e o primeiro que aparece é o que fica na entrada de Leme. Há alguns anos vejo esse ipê e penso em fotografá-lo, sem nunca conseguir. Sua florada tem uma duração curta e sua beleza é passageira, fugaz, dura poucos dias e depois fica somente a árvore esperando a nova folhagem para a primavera.
Ontem, finalmente, consegui fotografá-lo, mas não no melhor ângulo e tampouco no melhor horário. Não importa, já foi bom, muito bom.
Esse ipê em particular não é alto, é até meio baixo, embora já tenha uma boa idade. Mais adiante, depois de Santa Rita do Passa Quatro, há vários ipês-brancos do lado direito da estrada, como esse, mas numa área rural, sem fiação elétrica e sem defensas ou construções a poluir os arredores. O tempo sempre apertado nem me permitiu lembrar dessas outras árvores e, quem sabe, estimular-me a esticar minha viagem mais uns
Como não poderia deixar de ser, mesmo aqui, ao seu lado, um ipê-amarelo mostra suas flores.
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sábado, agosto 09, 2008
Vistas do Macaúbas
Ela já comeu um bom bocado de feno, assim que entrou no piquete 'dormitório', e agora só espera a chegada da noite. Mais tarde vai comer de novo, assim como ele, que ainda mama durante algumas horas.
Final de tarde sempre dá imagens bonitas, cores quentes, sensações gostosas.
Lá no fundo ergue-se um morrote, rodeado por cana. A casinha da beira do asfalto, que nesse final de semana começa a ser habitada pelo Tadeu, Fabiana e seus dois filhos, compõe a paisagem com a macaubeira elegante no meio do nosso canavial.
Tadeu saiu do sítio e foi morar na cidade, sonhando com o salário vistoso numa fábrica de embalagens. Só de aluguel passou a pagar mais de duzentos reais, por uma edícula minúscula, sem privacidade. A compra do leite para as crianças passou a consumir cem reais por mês. Mais a conta de água, a de luz e todos os custos que a cidade, mesmo pequena, acarreta para quem nela mora.
Agora vai morar no Macaúbas, de volta pra roça, de volta pra perto de onde moram os pais da Fabiana. A casa é simples, mas bem maior que a da cidade. A água e a luz vão no pacote, além do leite pras crianças. Em troca, ele olhará pelo sítio, simplesmente com sua presença ali. E dará alguns dias de serviço em finais de semana, permitindo folga ao Ismael e ao meu bolso, claro.
Um bom negócio, principalmente para ele, que continuará trabalhando na fábrica de segunda a sexta e um final de semana por mês, com o salário 'de cidade', mas morando na roça, com as economias que a roça proporciona.
De minha parte fico satisfeito, também, por ver a casa ocupada, cumprindo seu papel de ser a base para um lar.
A mesma vista com o morrote, sem a casa, no mesmo fim de tarde, a luz do sol já dourada e comprida.
De alguns lugares do sítio a gente avista, meio longe, o girassol que a usina plantou para fazer rotação com a cana. A vista, ainda que distante, é bonita, mas fica mais bonita com a aproximação da zoom.
No primeiro plano, o verde escuro do laranjal pontilhado pelo amarelo das laranjas. Depois o girassol, e depois milho e cana.
Esse é o verde-amarelo que eu gosto.
Pátria, para mim, é isso.
