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sábado, fevereiro 27, 2010

Cenas do Macaúbas - I

Algumas cenas do Sítio das Macaúbas.



Na extrema direita, Minuto, o touro Jersey. Ao seu lado, algumas vacas secas, ou seja, que não estão produzindo leite e já estão na reta final de gestação. A vaca malhada, a Bordada, é uma exceção nesse grupo, onde está por facilidade de manejo nosso.



A mesma situação e momento em ângulo diferente. O Minuto, agora, é o que está atrás.
Ao fundo a casa do Zé Divino, o retireiro. Na esquerda a ponta do galpão e o buracão onde falta a porta e por onde o vendaval entrou...



Durante o dia, entre as duas ordenhas, as vacas vão para um pasto de braquiária, na parte baixa do Sítio.



Algumas vacas estão em um dos piquetes de capim tanzânia, recém-aberto.
Toda tarde um novo piquete é aberto e que foi usado é adubado com ureia.




Essa é uma vista geral do Sítio das Macaubas. O traço branco, pessimamente desenhado, mostra as divisas. O ângulo em que a foto foi tirada distorce a perspectiva. No lado esquerdo da foto pode-se perceber a estrada, que faz uma divisa de 600 metros.

O estrago do vendaval do Carnaval

Difícil não falar isso: o tempo tem andado muito estranho, às vezes assustador.
Para nós, o susto tem se dado na forma de tempestades acompanhadas por ventos, nuaa frequência acima do que seria normal.




Uma das paisagens mais comuns do Macaúbas nos últimos tempos: pesadas nuvens de chuva a oeste e noroeste, como essa da foto. Essas chuvas, para nós, são as piores, pois sempre vêm acompanhadas por ventos fortes ou fortíssimos, verdadeiros vendavais, como o que tivemos na noite da Segunda-feira de Carnaval. O resultado dele vocês podem ver abaixo.



Essa é a visão traseira do galpão que sequer está em uso, ainda.
O vento foi tão forte que simplesmente arrancou vigas que sustentavam e prendiam as telhas.
Uma delas foi parar a cerca de 40 metros, no meio do canavial.



Essa foi a porta de entrada do vento: um grande buraco, com três metros de largura e pouco mais que isso de altura, onde deveria haver uma porta... Algum dia haverá.
O vento entrou e, encurralado, subiu, arrancando vigas e telhas. Essa é a ponta do galpão, o paiol, projetado para guardar milho, farelo de soja e adubos, além de feno que usamos na alimentação dos bezerros.

sexta-feira, abril 10, 2009

Sob a beleza serena do luar

Passei pela porteira e parei a pickup. Desliguei o motor, apaguei as luzes e desci para fechar a porteira. Não voltei para o carro, fiquei parado olhando a Lua. Cheia, imensa, dourada. É a terceira noite da cheia plena e o espetáculo desse começo de noite foi de emocionar. Assim como a visão dela nos dois últimos começos de dia, prateada, fechando a madrugada e revelando a neblina fraca que cobre as grotas e algumas encostas. Os pastos adquirem a mesma tonalidade prateada, o frio já se faz sentir, exige blusa, mas ainda não é intenso. As vacas sentem-se confortáveis, principalmente as Jersey, com sua origem nas ilhas do Canal, frias e úmidas. Os bezerros dormem profundamente, alguns meio escondidos pela grama abundante do bezerreiro.

Nesses finais de madrugada, nesses começos de noite, fico em paz, sinto uma tranquilidade que há muito não sentia, talvez nunca tenha sentido. Aqui é meu lugar, aqui estou fazendo o que sonhei fazer por toda a vida. Demorou, demorou muito, mas essa paz comigo mesmo compensa tudo.

Não gosto de luzes fora de casa, sou um bicho do mato que gosta da claridade difusa das estrelas e do luar, e essas noites claras de outono são quase tão perfeitas quanto as de inverno. Pensando bem, são ainda melhores porque há umidade por toda parte, mesmo depois de alguns dias sem chuva. Poucos insetos ainda incomodam e sentar na varanda para simplesmente olhar a paisagem banhada pelo luar é bom demais. Temos feito isto, mas ainda pouco. Sem uísque, sem cerveja, sem charuto, sem música, apenas luar e paisagem. Trilha sonora não falta, desde um bezerro ranheta até os grilos e algumas aves noturnas. Para mim, assim é o mundo, assim deveria ser sempre.

Há milhares de anos, em noites como essa, saímos da proteção da caverna e olhamos para um céu igual a esse. Nada sabíamos sobre os astros, sobre essas luzes, mas sentimos o seu mistério e seu esplendor. Abstraio as explicações cientificas, elimino-as de meus pensamentos e percebo que estou muito próximo de ancestrais remotos. Evoluímos, associamos astros a deuses e agora explicamos tudo em detalhes tão minuciosos quanto inatingíveis. Nessa hora penso que ciência e religião são a mesma coisa, apenas o homem tentando explicar tudo que vê, tudo que sente.

Bobagem. Melhor sentir, apenas.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Cadê meu pagamento?

"Caixa postal lotada. Por favor, ligue mais tarde."

Assim começou a manhã de quarta-feira, 7 de janeiro, para mim. Provavelmente para muitos outros, também, todos eles produtores de leite e fornecedores de um grande laticínio paulista, como eu. Todos, como eu, devem ter ligado logo cedo para o seu interlocutor na empresa, a pessoa que compra nosso leite e passa orientações e informações diversas. Venho ligando para ele, o comprador, há vários dias, desde antes do Natal. Nas duas primeiras ligações fui atendido, ambas antes do Natal. Depois disso, não mais. Já estou sabendo que isso não é privilégio meu, pelo contrário, pois um vizinho que também entrega seu leite para eles não tem sido atendido.

E por que cargas-d'água estou
eu ligando para o pobre homem logo às sete horas da manhã, insistentemente?

Porque nesse horário eu fico
sabendo que minha conta bancária continua sem o depósito do dinheiro que me é devido pela indústria, simples assim. Vamos ver, então, que dinheiro é esse.

Durante o mês de novembro, que começou há 68 dias e terminou há 38, com chuva ou
com frio (tivemos chuva, felizmente, e tivemos até frio nesse novembro último, tal como ocorreu em dezembro), as atividades no Sítio das Macaúbas não mudaram, nem mesmo aos domingos ou no dia de Finados. Por volta de seis horas da manhã, as vacas, já à espera na porteira do pasto, foram para o curral e pouco depois começou a ordenha.

Para fazer a ordenha há uma pessoa trabalhando, que recebe um salário por isso, e mais os encargos sociais de lei.
A ordenhadeira é mecânica, logo, precisa de energia elétrica para funcionar, energia que é cobrada religiosamente todo mês.
O leite é guardado num resfriador, ele também movido a energia elétrica.
As vacas comem um pouco de ração, ingerem alguns medicamentos homeopáticos, foram vacinadas nesse novembro contra a aftosa, comeram cana misturada com uréia, enfim, geraram inúmeras despesas para que, ao final, jorrasse o leite saudável, nutritivo, riquíssimo e com um toque de amarelo, típico das vacas Jersey e suas mestiças, o melhor leite do mundo por sua riqueza em proteínas, minerais e gordura.

Vale dizer que o mestre-cuca inglês e astro de TV Jamie Oliver, só usa creme de leite de vacas Jersey em suas receitas que deixam a boca cheia d'água.

O preço pago por esse produto em outubro, e repetido em novembro, foi de 53 centavos o litro. Isso aí: cinqüenta e três centavos de real por litro de leite, no meu caso um leite riquíssimo, de alto desempenho industrial, fazendo mais queijos, mais manteiga, mais iogurtes com menos leite que o de outras raças bovinas.

Não bastasse esse preço miserável, o leite produzido durante o mês de novembro ainda não foi pago. Até hoje, dia 7 de janeiro.

O certo, na minha visão e de todos os produtores que conheço, teria sido receber o pagamento no começo de dezembro, lá pelo dia 5. Só que a indústria, do alto de sua fortaleza empresarial, achou melhor pagar no dia 12 de cada mês. Em outubro, sem mais nem menos, mudaram a data de pagamento para o dia 20, uma tragédia. Como em novembro esse dia foi feriado – mais um – só recebemos no dia 21 de novembro pelo leite de outubro.

Em dezembro, o dia 20 fez o favor de cair num sábado, logo, ingênua e esperançosamente, acessei minha conta no dia 22 e...


Nada.

Nisso, chega um papelzinho, um papelucho, do laticínio, dizendo que o pagamento seria feito até o dia 24 de dezembro.
Bom, engoli a raiva e pensei que, dos males o menor, os caraminguás chegariam antes do Natal. Isso tudo passou por minha cabeça numa fração de segundo, pois a leitura da frase seguinte revelou algo ainda pior: o papelucho dizia que seriam pagos somente 70% do irrisório valor devido.

Os outros 30% seriam pagos em janeiro, fevereiro e março, 10% de cada vez, no dia 20 de cada mês.

Assim, sem mais nem menos. Como nos tempos da colônia, como se fosse um édito real, com o carimbo "Cumpra-se", não importando o quão absurda ou injusta fosse tal medida, tomada além-mar por El Rei.

Pois bem, o dia 24 chegou e se foi, assim como o 25, o 26 e até mesmo o dia 28, e nada do dinheirinho na conta. Nessa altura do campeonato, já tinha ligado para o digno representante, coitado, que é apenas um funcionário, que, constrangido, disse-me o dia 30 seria o limite para todos os depósitos, que eu ficasse despreocupado. Ansioso por agradar-me, disse mais: os 30% restantes seriam pagos de uma só vez em janeiro mesmo. Pelo menos a ligação serviu para desejar ao homem, ele próprio um produtor de leite, um feliz ano novo.

Quando pensava que isso era o pior, descobri que não era bem assim: estamos, repito mais uma vez, em 7 de janeiro e nem os miseráveis 70% entraram na minha conta, assim como não entraram nas contas de muitos outros. Dezembro já é passado e o ano de 2009 já entra em sua segunda semana. Eu, tolamente, não perguntei de que ano era o 30 de dezembro a que ele se referiu. Ingênuo e crente, acreditei que ele referia-se a dezembro de 2008.

Felizmente, não dependo do leite para viver, mas preciso do dinheiro do leite para pagar contas. As pessoas e empresas para quem devo nada têm a ver com a poderosa indústria e com o preço do leite. Mas eu tenho tudo a ver e a haver.

Que fazer?

Não quero ser chato, demagogo ou revolucionário de araque, mas enquanto isto o dono do laticínio certamente não teve problemas para abastecer com gasolina Premium sua Mercedes. Seus familiares tiveram Natal do mais alto nível e qualidade, em termos de presentes, luxo e produtos à mesa, além de locais paradisíacos onde comemorar essa e outras festas.

Tampouco teve problemas para pagar a conta da eletricidade, os salários de seu pessoal doméstico, o valor das compras no supermercado fino, repleto de iguarias d'Europa e Ásia, a começar, creio eu, por bons vinhos e melhores ainda espumantes, certamente merecedores oficiais do nome "champagne".

Agora pergunto: e eu, e nós todos, como ficamos?



Post scriptum em 9 de janeiro


Finalizando: liguei outras vezes para o representante, igualmente sem sucesso, até que atendeu, finalmente. Garantiu-me que o depósito (dos 70%) seria feito ontem, quinta-feira, 8 de janeiro. Ou melhor, como se diz no moderno e destroçado português tupiniquim, "estará sendo depositado".

Não foi.

Quem sabe hoje?

Quem sabe quando?

Mais dez dias e estará na hora de receber pelo leite de dezembro.

Enquanto isso vou pagando as contas.

Vou pagando para produzir leite e entregá-lo à indústria, cujos produtos – eu sou fiel – compro no mercado aqui perto, mas sem choro nem vela: sou obrigado a pagar à vista.

Somando as ligações feitas para o representante, todas em horário comercial, pois entendo que deve-se respeitar horários para tratar de negócios, gastei algo como sete a oito reais, no mínimo. Além do problema do leite estar a esse preço de miserê – R$ 0,53 por litro – tem o ganho real por litro, que nessa época de pasto abundante e despesa mais baixa gira ao redor de oito a dez centavos por litro.

Digamos dez centavos por litro: gastei,portanto, o "lucro" de 70 litros de leite, no mínimo, para cobrar uma posição sobre meu pagamento.

É leite pra burro.
Como já me disseram ene vezes, leite é pra burro.

Mas eu continuo sendo teimoso e crente, sigo acreditando que, se não é bom pra burro produzir leite, ainda é bom demais produzir leite. Sei lá porque, mas eu gosto e voltarei a aumentar a produção brevemente.

Para completar, um pequeno detalhe: como precisei vender várias vacas no início de 2008, estou com somente 7 animais no leite. Com o preço praticado, desisti das duas ordenhas e deixo a bezerrada mamar até o meio da tarde.

Tão pouco leite e nem assim recebo o que me é devido.


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sábado, dezembro 06, 2008

Cumari, a pimenta dos passarinhos



A cumari, pequena, ovalada, vermelha, rubi, tão ou mais rubiácea que o café, abunda no Sítio das Macaúbas,
assim como na chácara dos meus sogros, também na gostosa e ainda bucólica Santa Rita do Passa Quatro.

Encontramos seus arbustos por toda parte, no sítio e na chácara, mas sempre embaixo da copa de alguma árvore.


Tal como ocorre, por sinal, com as macaubeiras.

A explicação para essas localizações é fácil: no caso das
macaúbas, araras, papagaios, maritacas e tucanos, pegam o coco diretamente na palmeira e levam-no para outra árvore, mais confortável, onde saboreiam a polpa que envolve o coquinho propriamente dito, chegando até a trincá-lo.
Refeição terminada, deixam-no cair. No chão, em meio ao folhedo que lentamente se decompõe, o coquinho germina e uma nova macaubeira vem ao mundo.

Para nós chega a ser uma praga, tão grande é a quantidade nos pastos, mas é uma planta tida como de difícil germinação e, aparentemente, há falta de mudas no mercado.
Não tenho descartada a idéia de aproveitar essas mudas futuramente, tirando-as do solo e colocando-as em vasos ou sacos plásticos, para comercialização.



Com a pimentinha cumari ocorre processo semelhante.
Os passarinhos colhem os frutos maduros, bem vermelhos, nos arbustos, e vão comê-las em outras árvores.
As sementes que deixam cair enquanto comem ou, principalmente, as sementes não digeridas em suas
fezes, vão dar origem aos novos cumarizeiros.




Por causa desse processo, o tio da Rosa, Antonio, diz que a cumari não faz mal nenhum, justamente porque é comida pelos passarinhos. Há relatos de que ela faz bem para quem tem hemorróidas, mas sobre isso nada posso dizer.


Ao contrário de outras pimentas, a cumari não é aromática, mas o que tem de perfume fraco tem em ardência forte.
Conservada em óleo ou vinagre, normalmente é colocada inteira no prato, onde é picada com a faca ou amassada com o
garfo, e a seguir misturada na comida.
Minha sogra também a prepara batida no liquidificador e o tempero é brabo, tem que ser usado com moderação. Isso ocorre porque as sementes, que são batidas juntamente com a polpa, contém maior concentração da capsaicina, a molécula que faz a pimenta ser... apimentada.




Framboesa em Santa Rita do Passa Quatro

Esses dias descobri que os pés de framboesa estão detonando a horta do Scarpa, crescendo por toda parte e se tornando um estorvo. Além disso, também estão carregados de framboesas, grandes, escuras, saborosas, algumas muito doces, outras nem tanto, precisando de mais alguns dias para ficarem no ponto.

Algumas das mudas eliminadas na horta dele virão para a nossa horta. Sempre tive vontade de ter framboesa no sítio, mas achava que era quente demais.
Agora descobri que não.


Já não posso dizer o mesmo, por enquanto, em relação às alcachofras. Em setembro fui até Ibiúna e comprei meia dúzia de mudas, das quais uma só sobreviveu.
Não desisti delas, todavia.
Assim que possível, volto a Ibiúna para comprar mais umas mudas. Essa variedade, a Roxa de São Roque, só se desenvolve a partir dos 700 m acima do nível do mar.
Bom, o sitio atende a esse requisito.
E em boa parte do ano, os dias são quentes e as noites frias e até muito frias. Então, não há porque, em tese, as alcachofras não se desenvolverem.

Algumas outras plantas estão na minha lista de desejos, como a endívia, o alho-poró, o aspargo e o grão-de-bico.
Não é para já, mas ainda hei de plantar todas elas.
São plantas que parecem ser meio chatinhas, gostam de frio, pois vêm de clima temperado, mas acredito que conseguirei, talvez com o auxílio de uma cobertura de sombrite, a tela preta que corta 50% da luminosidade e boa parte do calor do Sol.



A vida no campo tem dessas coisas simples e fascinantes, todas elas carecendo de tempo e paciência.
O prazer de ver as plantas em crescimento, vigorosas e saudáveis, depois colher e comer, é bom demais.

Primitivo, ou original, mas também profundo, algo que nos leva de volta a tempos imemoriais.


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quarta-feira, agosto 13, 2008

Coisas estranhas no Macaúbas



- E aí, tá tudo em ordem?

- Tudo bem, tudo certo.

- Ótimo. A Aleluia tá boa, desenvolvendo bem?

- Ah, tá, é a mais esperta dos bezerros, tá bem bonitinha.

- Legal, bom mesmo.

- Ah, tem uma coisa meio estranha...

Pronto!

Frio na barriga, o temor toma conta de mim.

Essa frase é sinal de coisa ruim, conheço-a muito bem, assim como o tom de voz.

- Então, o motorista do caminhão do leite trouxe um relatório e disse que o leite da segunda-feira tava sem gordura.

- Como assim sem gordura? Que loucura é essa? Justo as Jersey?

- É, eu achei bem estranho.

- Mas como o leite pode ter ido sem gordura? Não tem lógica.

- É, foi o que eu pensei, também.

...

...

Silêncio da minha parte, silêncio da dele, e a operadora do celular contando o dinheirinho pra sua conta enquanto isso.

- O motorista não falou nada, só isso?

- Só isso.

Conversei mais uma coisinha ou outra com o I. e desliguei, encafifado com a informação: como o ‘meu’ leite não tinha gordura?

Ora, pílulas, leite de Jersey só tem gordura! É riquíssimo, a ponto do próprio Jamie Oliver dizer em seus programas que o melhor creme de leite é o de leite de vacas Jersey! O que só mostra como ele é bom e entende mesmo de gastronomia. Já éramos seus fãs, aqui em casa. Depois disso, então...

Um pouco mais tarde, peguei o telefone e liguei pro Guto, tirador de leite há muito mais tempo, que mora no sítio e vive do leite. Alguém, portanto, que sabe das coisas, tanto as boas como as ruins.

Conversa vai, conversa vem e a bomba explode na minha cara ingênua:

- Emerson, leite sem gordura é leite com água. Roubaram teu leite e colocaram água no lugar.

Fico quieto... Estou pasmo, incrédulo, revoltado, desacorçoado.

- Oi, você ouviu?

- Desculpe, ouvi sim. Duro é acreditar.

- Eu sei como você está se sentindo. Onde você deixa o leite?

- Dentro do resfriador, mas o resfriador fica na varanda, exposto.

- E você não passou uma tranca nele, né?

- Nem pensei nisso.

- Pois então, pode pensar e fazer.

Pronto.

Aqui estou eu às voltas com mais uma das delícias da vida campestre.

Alguém, sabe-se lá quem, embora desconfiemos de alguém, ao invés de pedir, roubou.

Pior que isso, deu-me um duplo prejuízo: roubou o ‘meu’ leite e, em seu lugar, colocou água, afetando assim minha ficha e minha credibilidade junto ao laticínio.

Não bastava o roubo, teve também a sacanagem do prejuízo ao meu nome.

Por que o vagabundo simplesmente não deixou o latão com menos leite, flutuando na água?

Porque além de bandido e vagabundo é burro. Fez isso achando que ninguém iria descobrir e assim ele poderia continuar mamando no meu resfriador.

Só não sei para fazer o que com o leite, pois quem roubou não tem criança pequena na casa e, bem sabemos, tem leite à vontade do próprio local.

Claro, sabemos quem foi, mas não temos provas.

É o mesmo ladrão que levou as galinhas e foi visto por um morador próximo descendo de seu cavalo e levando um monte de sacos vazios na mão.

Agora o resfriador está envolvido por uma corrente, fechada com cadeado. Não que vá impedir, caso a vontade de roubar seja grande, mas atrapalha e atrasa muito o “serviço”, coisa que vagabundo nenhum gosta.

Não vale a pena avisar a polícia, é só perda de tempo, mas assim mesmo eu vou avisar, pois quem rouba um tostão rouba um milhão.

Hoje, galinhas, o galo vermelho que a Rosa adora e leite. Amanhã... Sabe-se lá o que.

Por isso, já tenho visita programada à delegacia tão logo chegue na cidade.

Tem nada, não, a vida no campo, mesmo assim, é gostosa, e é meu sonho e meu destino.

Não, hoje não vou falar sobre as galinhas e o galo vermelho. Lamento.

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sábado, agosto 09, 2008

Vistas do Macaúbas

Antes de falar e mostrar algumas vistas que o Macaúbas proporciona, essa aqui embaixo é uma das que mais gosto. No final da tarde, prontos para passar a noite, Florinda (deitada) e o filho da Rikinha, nascido no final de maio.

Ela já comeu um bom bocado de feno, assim que entrou no piquete 'dormitório', e agora só espera a chegada da noite. Mais tarde vai comer de novo, assim como ele, que ainda mama durante algumas horas.




Final de tarde sempre dá imagens bonitas, cores quentes, sensações gostosas.

Lá no fundo ergue-se um morrote, rodeado por cana. A casinha da beira do asfalto, que nesse final de semana começa a ser habitada pelo Tadeu, Fabiana e seus dois filhos, compõe a paisagem com a macaubeira elegante no meio do nosso canavial.

Tadeu saiu do sítio e foi morar na cidade, sonhando com o salário vistoso numa fábrica de embalagens. Só de aluguel passou a pagar mais de duzentos reais, por uma edícula minúscula, sem privacidade. A compra do leite para as crianças passou a consumir cem reais por mês. Mais a conta de água, a de luz e todos os custos que a cidade, mesmo pequena, acarreta para quem nela mora.

Agora vai morar no Macaúbas, de volta pra roça, de volta pra perto de onde moram os pais da Fabiana. A casa é simples, mas bem maior que a da cidade. A água e a luz vão no pacote, além do leite pras crianças. Em troca, ele olhará pelo sítio, simplesmente com sua presença ali. E dará alguns dias de serviço em finais de semana, permitindo folga ao Ismael e ao meu bolso, claro.

Um bom negócio, principalmente para ele, que continuará trabalhando na fábrica de segunda a sexta e um final de semana por mês, com o salário 'de cidade', mas morando na roça, com as economias que a roça proporciona.

De minha parte fico satisfeito, também, por ver a casa ocupada, cumprindo seu papel de ser a base para um lar.





A mesma vista com o morrote, sem a casa, no mesmo fim de tarde, a luz do sol já dourada e comprida.




De alguns lugares do sítio a gente avista, meio longe, o girassol que a usina plantou para fazer rotação com a cana. A vista, ainda que distante, é bonita, mas fica mais bonita com a aproximação da zoom.

No primeiro plano, o verde escuro do laranjal pontilhado pelo amarelo das laranjas. Depois o girassol, e depois milho e cana.

Esse é o verde-amarelo que eu gosto.
Pátria, para mim, é isso.


Posted by Picasa

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terça-feira, julho 22, 2008

Kazumba, Luar, Macaúbas & outras...

... fotos, textos e coisas da roça, no Sítio das Macaúbas.

Onde os dias continuam ensolarados e quentes, mas só ao sol, pois na sombra logo dá frio.
Se os dias são quentes, as noites têm sido ora frias, ora geladas.
Ótimo para as vacas, bezerros inclusive.
Pela manhã, com sete graus cravadinhos, fica difícil levantar do chão quentinho e começar o dia.






Kazumba, ganhando seu primeiro 'banho', minutos depois de vir ao mundo, na manhã de segunda-feira, dia 21 de julho.
Sua mãe é a Morena, filha da Malhada.
Seu pai é o Minuto, cada dia mais imponente e mais Jersey.





O beija-flor-tesoura, morador permanente do Macaúbas, na flor da eritrina, ou eritrina-candelabro, ou, ainda, mulungu.









Luar sobre o Macaúbas...
A cheia já começou a minguar, mas a Lua ainda é imponente, brilhante, iluminando as noites geladas.




Esse montinho embaixo da mangueira não é bem um montinho, é uma porção de capim tifton bem desenvolvido, bem bonito.
Como não foi comido pelas vacas?
Por que está tão grande e viçoso em meio ao rapado geral do restante?

Simples: algumas galinhas dormem nos galhos sobre ele, que recebe, noite após noite, boa carga de esterco que é o melhor adubo que o capim pode querer.
Como toda noite tem mais esterco fresco, as vacas vêm, cheiram e vão embora.
O capim fica, felizmente, pois vamos aproveitá-lo para fazer alguns replantios nas proximidades.






Eis um belo cacho de macaúbas.

O brilho vem da luz do Sol que está se pondo, uma luz dourada, que combina à perfeição com os pequenos cocos.

Logo mais eles estarão no ponto para as maritacas e tucanos comerem.







Florinda, em sua primeira entrada no Olhar Crônico.
Um olhar mais atento verá que ela está com sua pelagem de inverno, mais grossa e quente, necessária para as madrugadas na base de cinco a sete graus.



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sexta-feira, junho 13, 2008

Estação das flores, agora

Em plena boca do inverno?

Exato! Por incrível que pareça, final de outono e todo o inverno, até o começo da primavera, é para mim uma verdadeira estação das flores. Talvez por causa da floração dos ipês-amarelos, roxos, brancos e rosas.


A caminho do sítio, a Via Anhanguera é uma festa roxa nesse momento. Ou já foi, pois a florada do ipê-roxo e de seus primos não é muito persistente.

Há duas semanas, em nossa última viagem, algumas árvores estavam cobertas pelas flores roxas, enquanto outras já mostravam parte dos galhos, que ficarão expostos até o começo das chuvas. Amanhã ainda é possível que vejamos os ipês-roxos retardatários.

Se acontecer, vou parar o carro e “perder” alguns minutos, olhando, andando, procurando um bom ângulo para uma foto.


Agora já dá para fotografar de novo, com o retorno da minha câmera das terras e águas de Malásia, Indonésia, Cingapura e África do Sul, por onde ela perambulou a tiracolo de minha filha e meu genro. Estou certo que minha brava H 7 ficará feliz em voltar a fotografar flores, vacas, gatos e pastos, depois de uma verdadeira overdose de ondas, ondas, ondas e surfistas.


Não são apenas os ipês que dão o ar da graça nessa época.

Tem o cipó-de-são-joão, cobrindo barrancos, cercas e até arvores.




No (tentativa de) jardim do sítio, as russelias, diademas e grevíleas já estão a postos, recebendo os beija-flores, assim como os camarões e algumas unhas-de-vaca nos arredores.



O que também gosto nessa época do ano é que os beija-flores são mais visíveis, talvez por não haver muita abundância de flores nas matas, o que faz com que eles visitem os jardins com mais freqüência, facilitando as fotos.




Nem vou falar das temperaturas de outono e inverno, devidamente aproveitadas com vinho, sopas e fondues. Ou melhor, até falarei, mas não agora. Enquanto não faço novas fotos “modelo 2008”, deixo algumas de 2007.



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quarta-feira, junho 04, 2008

Machismo no Sítio das Macaúbas

Pois é, vejam só, contrariando o momento histórico presente em que o machismo apresenta nítido viés de baixa (obrigado, companheiros economistas do BC e arredores), por sinal corroborado por amigo meu, escritor de muito saber e observador arguto da vida nas grandes cidades, no Sítio das Macaúbas o maledeto desvio apresenta franco e preocupante viés de alta.

Que digo? Viés?

Nada disso, já deixou de ser tendência para assumir claríssima predominância. Digo, entristecido, que a situação fugiu ao controle que, diga-se, nunca tive, e hoje é uma das minhas fontes de aborrecimento e, por extensão, de prejuízo. Justamente agora...

Nos últimos sessenta dias recebi – contei direitinho – nada menos que sete ligações de interessados em comprar minhas bezerras e novilhas e até mesmo as minhas vaquinhas adultas remanescentes. Como sete é conta de mentiroso, o número real de ligações foi de nove ou dez, mas o número de interessados é de sete mesmo. Não declino seus nomes aqui por tratar-se de assunto que envolve o sigilo comprador-vendedor de gado, mesmo que, na atual conjuntura, eu não mais seja vendedor de gado. Mas garanto o sigilo, sabem como é, noblesse oblige.

Tantos telefonemas têm sua razão de ser: estão todos entusiasmados com o leite. Minha mulher, cética, olha tudo e diz que já viu esse filme antes. Eu, igualmente entusiasmado, retruco dizendo que também já vi esse filme de incontáveis reprises, mas saco do bolso do colete que não tenho os nomes mágicos: China e Índia. Falo da preocupação da ONU com a alta dos preços dos alimentos, manejo com certa maestria, modéstia às favas, os números de habitantes e crescimento dos PIBs dos distantes e populosos países asiáticos, com a emergência do que se pode chamar, neles, de classe média, contadas de dezenas em dezenas de milhões de pessoas, e mais o crescimento das áreas agrícolas voltadas à produção de biocombustíveis, com a conseqüente diminuição das ditas áreas destinadas à produção de alimentos, inclusive leite e laticínios, como os danoninhos da vida, concluindo, meio professoral, meio bobo alegre, que a melhoria dos preços, dessa vez, é sustentável.

Abro um parêntesis: quer impressionar e ver uma fala ou um texto passar batido pela platéia ou leitores, deixando em todos a sensação de que você entende do que fala e tem informações que mortais comuns ignoram? Quer mesmo? É fácil: use “sustentável” ou, de preferência, “sustentabilidade”. É tiro e queda, garanto. Não importa que você não faça a mínima idéia se isso ou aquilo tem ou é passível de ter auto-sustentação. Pode usar uma dessas palavras, é tiro e queda. Lembra da fase em que “cidadania” e “republicano” eram as palavras de ordem? Pois então, é meio por aí.

Como dizia, dessa vez eu acredito que a melhora nos preços dos alimentos é mais firme, é mais estrutural que conjuntural, logo, é sustentável, sim. A menos, é claro, que uma catástrofe planetária abata-se sobre nós, mas aí, vamos e venhamos, não há sustentabilidade que resista. Só sei que o leite está em alta firme, todo mundo anda querendo produzir mais leite, aumentar sua produção, voltar a produzir, entrar no mercado como produtor de leite é uma febrezinha, coisa aí de uns trinta e oito graus, longe ainda dos quarenta, mas uma febre.

Na manhã de segunda-feira, estava na Casa da Lavoura entregando minha nota de compra de vacina contra aftosa com o respectivo relatório com o número de cabeças e coisa e tal, e, como de hábito e manda a boa educação, trocava dois dedos de prosa com uma pessoa importante para todos nós, criadores pequenos: um negociante de gado. Há quem fale mal deles, mas eu falo bem. São eles que dão liquidez ao mercado e, pagando pouco ou mais ou menos, nas horas de aperto podemos recorrer a eles para desatar os nós que nos apertam. Pois bem, lá estávamos de bate-papo sobre as minhas novilhas e bezerrinhas (sim, ele foi um dos sete), quando chega um cara com todo o jeito de produtor de leite (o relatório de vacinação nas mãos foi mero detalhe) e, depois de cumprimento rápido, solta um “Me arranja umas vacas, tô precisando de leite!” e entra no escritório dando risada. Ora, falar tal coisa para um negociante é o mesmo que pedir para cobrar o que quiser cobrar, estou disposto a pagar. E o produtor que soltou tal pérola, totalmente contrária às mais elementares normas de conduta no mundo dos negócios e do leite em particular, não era novato entusiasmado e bobo como eu, não mesmo, era produtor vivido, já adentrado em anos, e leite-dependente ou, para ser chique, galactodependente (pois aprendi com o amigo escritor citado na abertura que galacto e leite são a mesma coisa, e nada como ser chique e instrutivo num texto como esse).

Portanto, aí está, vacas, novilhas e bezerras estão na crista da onda em Santa Rita do Passa Quatro e por toda parte, o que me deixa feliz, mas também meio entristecido, dado o pequeno detalhe que tenho poucas de cada e nem posso pensar em vendê-las, sob pena de ficar a zero.

Ah, é verdade, o machismo. Você, leitor, do sexo masculino, já nem lembrava mais do início dessas garatujas eletrônicas, mas, esteja certo, as companheiras leitoras (sorry... vício de linguagem) com certeza lembram e já estão a cobrar desse escrevinhador uma explicação para esse machismo que assola o Sítio das Macaúbas.

O diabo é que o trem descontrolou e, ao menos por ora, não sei como fazer para recolocar as coisas nos trilhos. Na natureza, o comum, normal e desejável é que a cada dois nascimentos um seja de macho e um seja de fêmea. Ou, numa base maior, cinco para cada lado a cada dez nascimentos, podendo chegar a 51x49 a cada cem, ora pendendo para o lado da setinha, ora para o lado da cruzinha. Todavia, no Macaúbas, os últimos 4 nascimentos foram de machos. Quatro em quatro, justamente nesse momento. É como eu ouvia na infância: pobre é tão azarado que quando chover sopa, todo mundo estará de colher e ele de garfo.

Estou de garfo nessa chuva de sopa de leite.


Para adoçar a opinião das leitoras sobre esse escriba, segue a foto de mãe e filho. O danado é machinho, mas é bonitinho e muito esperto.


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segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Fim de papo, mãos à obra

A princípio eu não queria,mas como precisava, aceitei.

Coloquei o sítio à venda. As vacas também.

Tudo ia bem, aquele “bem” em que deixamos tudo como está para ver como é que fica, até que num mesmo dia, numa manhã de sexta-feira, as vacas foram compradas, justamente as minhas melhores, as originais. E, ao mesmo tempo, enquanto o comprador olhava a Feiticeira, a Imagem & Cia. bela, na cozinha, tomando um café, recebi uma oferta firme pelo sítio. À vista, bem perto do que eu pedia.

Foram dias de angústia a partir de então.

Fui tomado pela sensação dolorosa de perda.

E foram dias, também, de ouvir recriminações ao meu apego às coisas.


Bom, o sítio nunca foi uma coisa e as vacas menos ainda, assim como meus livros.


Não são coisas, jamais serão, e sempre terei apego a todos eles, esteja isso certo ou errado em termos materiais, filosóficos, espirituais, administrativos, econômicos, o que seja. Carro, por exemplo, é uma coisa, um mero monte de lata e plástico e já vendi inúmeros sem a mínima dor ou má-vontade, muito pelo contrário.

No caso do sítio fiz uma contraproposta. Coisa pouca para o comprador (compradores, pai e filho), mas grande para mim. Queria mais dez por cento em relação à proposta. Vários sinais indicavam que o negócio estava fechado, principalmente pela posição do lado de lá. Que recebeu o dinheiro da safra de laranja e...

Bom, começaram a demorar um pouco. Mas, enquanto isso, vistoriavam o sítio mais uma vez e outra, avaliavam, olhavam a casa, ponderavam, agora já com a presença de uma das filhas. Estava tudo certo, logicamente, afinal, não é por nada, não, mas o Sítio das Macaúbas é recanto de muitos encantos, até mesmo para plantar tudo com laranja ou cana e ganhar dinheiro.


Responderam à minha contraproposta anteontem, sábado, com um valor ligeiramente menor e dizendo que do lado deles estava tudo certo. Bom, ok, está bem, está de bom tamanho. Fiquei de ir ao sítio na segunda (hoje) ou terça-feira para a gente sentar e acertar. Ainda pretendia mais um troquinho, mas já me acostumava ao valor proposto. Na verdade, já estava aceito.



Ontem pela manhã, pleno domingão, tudo mudou.

Ligaram desistindo do negócio.

Coisa estranha em se tratando desse pessoal que conheço bem e há muito tempo.

São sérios, não voltam atrás, têm solidez. A voz do meu interlocutor, o filho e que está à frente do trabalho propriamente dito, todo santo dia, demonstrava constrangimento, muito visivelmente. Reclamou que os custos estão altos, o dinheiro não dá para nada e coisa e tal. É verdade, tudo isso é verdade. Falou mais um pouco até que contou o verdadeiro motivo da desistência: duas das outras irmãs reclamaram, dizendo que estão com problemas de dinheiro, que era loucura comprar mais terra e coisa e tal. Como se trata de negócio em comum de vários irmãos, embora só um trabalhe e conduza tudo (o meu interlocutor), a decisão acabou sendo pela desistência da compra, com certeza para evitar mais atritos familiares. Talvez a irmã que disse ser loucura comprar mais terra ache melhor comprar um carro. Sei lá, tudo é possível.




Bom, agora é voltar à vida real.

Já estava acostumado à necessidade da venda, já estava acostumado à idéia de sua realização, bem no íntimo já contava com o dinheiro para várias coisas. Para chegar a esse ponto, contudo, durante 24 dias vivi um processo muito doloroso de aceitação da perda, do reconhecimento do fracasso, do afastamento de coisas às quais dou imenso valor, embora pareçam tolas. Como o pé de oiti, cuja muda ganhei de um grande amigo, e que plantei perto de casa, já bonito e grande, com sete anos de idade. Ou o pé do meio raro genipapo, que plantei bem ao lado do curral e as minhas araucárias e outras árvores, cada uma com um propósito, cada uma com sua própria história.

Doía, sobretudo, saber que tudo viria terra abaixo para dar lugar a pomares de laranja. Preocupava-me a sobrevivência dos ouriços brigões da matinha. Enfim, era muita coisa para ser processada e quando, finalmente, eu já estava em relativa paz a respeito de tudo isso, vem essa desistência.

Paciência, o sítio continua sendo meu, continua sendo o Sítio das Macaúbas.

Nesses dias, pensei muito, pensei em meus fracassos, mas também nos sucessos, que existiram, sim. Repassei os muitos pontos positivos do sítio, bem como também repassei os negativos, que já havia esquecido e cuja volta à lembrança ajudou-me no processo de aceitação. Há muita coisa nos dois lados, vantagens e desvantagens, como tudo na vida. O que resta, agora, é encarar as vantagens e nelas buscar ânimo. Encarar, também, as desvantagens, e começar a eliminá-las. Pois a vida segue, com o sítio, mas sem as minhas melhores e mais queridas vacas.

Fica, agora, somente a torcida pela venda da casa.

Quanto antes, melhor.

Sim, porque em nenhum momento passou pela minha cabeça desistir, muito pelo contrário. Tanto que já tinha outro sítio em vista, pronto para entrar em negociação, com algum prazo para quitar e algum dinheiro em mãos para começar a tocar, corrigindo erros do passado. O que já está mais do que decidido, é sair de São Paulo, sair da Grande São Paulo, e dar um novo rumo à vida, o rumo, na verdade, com que sonho a minha vida inteira. Está na hora.

Ah, sim, também espero recobrar a vontade e o prazer de escrever, que andaram amortecidos. O motivo vocês agora entendem.







Obs.: as fotos Google, tiradas de satélite, são bem antigas; desde então o Sítio das Macaúbas mudou bastante, mas servem como referência.


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domingo, fevereiro 03, 2008

Desencantos e outras coisas


Lamento.

Lamento por várias coisas, entre elas ter deixado esse Olhar Crônico meio abandonado. A alternativa teria sido escrever ranhetices, tristezas, reclamações. Sequer consegui um tom irônico às coisas que até pensei em postar. Sendo assim, fui empurrando com a barriga, empurrando, empurrando... Nem mesmo sei se o momento certo de retorno é esse, mas, vamos lá. A vantagem da internet é que o teclado é cheio de recursos para deixar um texto chato de lado.

Bom, entrou a Abertura do “Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, e é sempre um bom motivo para passar boas imagens para o papel. Papel eletrônico, nesse caso.


Bombinhas

Paradisíaca, ou quase isso, nesse início de século XXI. Nem tanto pela praia, muito mais pelas águas cheias de vida, que permitem mergulhos facílimos e simplesmente fantásticos. Os experts vão me perdoar pelo aparente exagero, é claro que há locais com muito mais vida, sem dúvida. Pensando, porém, no turista comum, praticamente de qualquer idade, Bombinhas permite belas visões do mundo subaquático, apenas beirando as pedras, algumas das quais em meio á areia da praia. Vi, por baixo, mais de vinte diferentes espécies de peixes, além de anêmonas, coral-cérebro – esse, infelizmente, com muitas áreas mortas, algumas delas pelos pés com nadadeiras de turistas desinformados –, estrelas-do-mar, ouriços, carangueijos e até mesmo um pepino-do-mar.


Não só. Vi, também, águas-vivas. Milhões, acho, não me dei ao trabalho de contar, nem poderia. Foi assim: fazia o primeiro mergulho do dia, usando uma camiseta para proteger-me dos raios solares (que penetram, sem problema algum, a até 40 centimetros de profundidade, queimando tanto quanto se a pessoa ficar na areia, “bronzeando-se”). Em certo momento comecei a sentir umas picadas incômodas, uma ardência em vários pontos do corpo, todos mais ou menos próximos ao pescoço. Cheguei a ficar preocupado, achando que estivesse com algum processo alérgico em andamento, mas não dei muita atenção. Um pouco depois fui obrigado, sim, a dar atenção. Os pontos se multiplicavam e só então foi que pensei no óbvio (e que já tinha esquecido...): água-viva, eu estava sendo alvo, ou vítima, de um ataque de águas-vivas. Tive a confirmação ao levantar a cabeça – faço snorkeling com a cabeça enfiada na água, literalmente, olhando para baixo, principalmente onde há motivos para isso, como em Bombinhas – e, favorecido pela incidência da luz no ângulo certo, vi montes de minúsculos guarda-chuvas, pouco mais que microscópicos. Em alguns pontos a água tinha uma aparência leitosa. Bom, tempo de cair fora, claro. Foi o que fiz, mais que depressa. Na praia, vários mergulhadores reclamavam, também. Foi, todavia, uma passagem fugaz, vieram com uma corrente e um vento, voltaram com outro.

E o que fazer nessas horas?

Como eram pequenos celenterados, nada de extraordinário, um pouco de urina jogada sobre a área já seria suficiente para aliviar a queimadura. Certo, fora o lado curioso, isso é bom pro Tom Hanks abandonado numa ilha deserta. No meu caso, fui pra casa, a poucos metros da praia (Santa Catarina é ótima!) e joguei vinagre por cima da camiseta mesmo. O alívio foi imediato e total. A uréia da urina e o ácido acético do vinagre, pelo que sei, aliviam a sensação de queimadura.

Em casos mais graves, como os dos banhistas na Praia Grande, no reveillon, o certo e imediato é procurar socorro médico.

De águas-vivas para beija-flores.

Os danados estão sumidos. O verão é bem mais farto em oferta de alimentos e eles devem permanecer em áreas mais fechadas por aqui. No inverno é diferente e eles freqüentam as árvores e arbustos plantados pelos jardineiros, o que facilita sua visão, sem dúvida.

Na caminhada de hoje, fazendo o circuito “completo” da Fazendinha, nada fotografei. Por incrível que pareça.

Caminhar pela Granja Viana tem me deixado meio deprimido, meio triste, meio revoltado, meio sem-vontade de caminhar. As placas “Vende-se” sucedem-se em monótona procissão. Se estivessem em frente de casas não daria bola, mas, não, estão em todos os terrenos. Com eles, em breve vai acontecer o mesmo que ao terreno a cinquenta metros de casa: o ataque inclemente das motosserras. O resultado aqui em casa foi o sumiço dos sagüis que vinham comer banana e mamão a poucos metros de nossas janelas. Outro resultado: abandonei de vez todo o pudor e resolvi que meu ciclo na Granja terminou. Covardemente, se assim quiserem, não quero estar por aqui presenciando, impotente, a destruição do que resta de vegetação e fauna. O avanço imobiliário é inexorável.

Curiosamente, falta visão ou algo parecido aos granjeiros, boa parte dos quais podem ser chamados de pessoas com recursos. A eles e às prefeituras de Cotia e Carapicuíba, se bem que esperar visão desse pessoal...

A compra dos terrenos e a manutenção dos mesmos como áreas de preservação poderiam manter a Granja com suas características, mantendo os preços dos imóveis em alta, ainda mais num horizonte de dez anos (que passam voando). Infelizmente, não há visão e desprendimento de um lado, e visão e inteligência do outro. Sobra apenas o imediatismo por mais dinheiro no bolso e mais dinheiro nos cofres. Uma pena.

Esse, hoje, é meu maior desencanto, pela proximidade com minha vida cotidiana.

Sobre o Sítio das Macaúbas falarei em outro post. Adianto que as vacas vão bem, a Nita pariu uma bezerrinha, a Vitória e a Hora estão por parir, os gatos vão bem, as galinhas idem, exceto pelo assédio dos galos, que precisam urgentemente de algumas panelas como destino. Ou mudar para outros galinheiros, pois são tão bonitos que dá dó mandá-los, simplesmente, virarem coq au vin.


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domingo, dezembro 09, 2007

Ecologicamente diversificado e bem localizado



Esse título parece pretensioso, principalmente porque refere-se ao Sítio das Macaúbas, mas é verdadeiro.
Santa Rita do Passa Quatro está localizada numa região muito interessante do estado de São Paulo, em seu centro-norte,
numa área conhecida como Terras Altas Paulistas.
Salvo engano, e tirando o trecho meridional do estado, essa é a região mais alta do planalto que ocupa a quase totalidade do estado,
excetuando as regiões serranas, naturalmente.

O sítio, em particular, está numa altitude superior a 700 metros acima do nível do mar, e essa característica nos traz dias quentes e noites frescas ou frias em boa parte do ano.
Para as plantas, isso é benéfico para a maioria, e assim podemos plantar e colher frutas d
e clima temperado como pêssegos, uvas e peras, bem como mangas, típicas dos climas tropicais. As minhas atuais meninas-dos-olhos são dois pés de castanha-portuguesa, e torço muito para que se desenvolvam e frutifiquem bem.

Santa Rita do Passa Quatro não tem araucárias, aparentemente. Tampouco as tem São Carlos do Pinhal, a menos de 75 km em linha reta, e altitude semelhante.
Mas elas lá existiram em tão grande quantidade que deram o nome à cidade.
O progresso, a abertura das matas para o plantio de café, a urbanização, tudo isso levou ao desmatamento de toda a região. As araucárias foram vítimas prioritárias, dada a qualidade de sua madeira, e foram, praticamente, extintas.
Acredito que restem algumas resistentes nativas po
r ali, e seria maravilhoso se houvesse um trabalho de recuperação dessas plantas fantásticas e bonitas.

Há um programa a respeito em desenvolvimento no estado, mas parece-me que para as áreas do sul e da Mantiqueira.
Seria bom que ele englobasse, também, as araucárias da Serra do Mar e as sobreviventes dessa região central, pois seus genes são
diferentes e geraram árvores adaptadas a condições ecológicas distintas das existentes na Mantiqueira e na parte sul do planalto.

Plantei algumas no sítio, cerca de doze.
Duas não se desenvolveram e outras foram “assassinadas” pelos bezerros novinhos, graças à nossa inexperiência.
Não sei, entretanto,
qual a procedência genética das mudas plantadas.

Plantei-as no sítio - como essa da foto, ainda faltando alguns anos para abrir a copa típica - porque acredito que, no passado, Santa Rita do Passa Quatro também foi lar de araucárias nativas, até porque temos muitas gralhas, e todos sabem que as gralhas têm importante papel na disseminação dessas plantas, “colhendo e enterrando pinhões para uso futuro”.
Na verd
ade, tal como as maritacas e outras parentes tagarelas, elas pegam pinhões e deixam-nos cair, parcialmente bicados, mas sem afetar seu poder germinativo, pelo contrário, estimulando a germinação.

Se as araucárias e seus pinhões são uma incógnita, o mesmo não ocorre com as plantas do cerrado e as plantas da Mata Atlântica e sua “irmã-de-sangue”, a floresta latifoliada da Bacia do Paraná.
Um passeio atento pela minúscula área do Sítio das Macaúbas é o bastante para revelar habitantes famosos desses dois ecossistemas. Vamos conhecer alguns, a maioria deles cerradenses.

O primeiro, faço questão, é o pequi. No sítio restou um só pé de pequi, bem na beira do asfalto para meu desgosto e irritação.

Ele não é muito desenvolvido, e está misturado com outras árvores, mas dá conta do recado e até produz bem.

Esse ano, novamente, ele está com uma boa carga e eu, uma vez mais, estou ansioso à espera que amadureçam para poder colhe-los, pegar as sementes e formar algumas mudas.

Muita gente desconhece o fato do pequi também ser nativo no cerrado paulista, que começa pertinho do sítio, na região de

Piraçununga ou Pirassununga. Por sinal, os primeiros trabalhos científicos sistematizados e de longo prazo sobre o cerrado, começaram no Cerrado de Emas, a região em torno da Cachoeira de Emas, no Rio Mogi-Guaçu, onde, por sinal, além de estações de pesquisa do Estado, tem, também, um dos campi da USP.


Outro cerradense típico e nativo nosso é o araticum também chamado de marolo.



Ele nasce no meio dos pastos, mas o gado, sempre se coçando, raramente deixa algum pé ir pra frente.


Esse pé (na verdade uns três ou quatro juntos) aqui ainda tem muito que crescer.

Foi com pesar que vi esse belo fruto caído no chão.

Ainda no dia anterior ele estava firmemente preso à árvore, mas os ventos de uma tempestade vespertina jogaram-no no chão.

Reparem que nessa foto do fruto

na árvore tem, ao fundo, à esquerda, uma flor.
O novo florescimento e

o amadurecimento dos frutos da safra anterior coincidem, e há um ano entre um e outro.


Agora o fruto cortado ao meio. Esse pesava cerca de trezentos gramas.

Seu gosto e perfume são muito doces, um pouco enjoativos, mas a passarinhada e bichos diversos de pelo apreciam-no muito.

Dizem que é muito bom

para fazer suco, mas não tentamos.

Quem sabe na próxima safra?


Jatobá-do-campo, outra planta típica do cerrado, outro habitante do Sítio das Macaúbas.


Sua sombra é espetacular, pois é fresca e agradável, ao contrário da sombra de muitas outras árvores, como as grandes mangueiras.
Isso acontece porque o interior de sua copa é bem vazio, permitindo ampla circulação do ar mais quente ao nível do solo, que está sempre subindo.

Essa é outra planta que merece ser protegida e propagada, ao contrário de seu primo, o jatobá, bem mais comum.


Um velho jatobaseiro é sempre uma árvore imponente pelo porte e pela beleza. Esse aqui não foge à regra, postado bem na divisa do Sítio das Macaúbas com o Sítio Mandarim. Reparem que à frente dele tem outras duas plantas importantes: uma palmeira macaúba ainda bem jovem e depois um exemplar de pau-brasil, já com alguns anos de vida, mas crescendo direitinho.

A macaúba foi plantada por alguma arara ou outro bicho, já o pau-brasil foi uma das primeiras árvores que plantei no sítio. Eram dois pés, na verdade, mas um morreu.

O fruto do jatobá é bem conhecido, acredito, com seu cheiro, gosto e consistência bastante típicos e facilmente reconhecíveis.

Os macacos gostam muito dele, assim como os bichos de penas de maior porte e bico forte.



Bons representantes das matas atlântica e latifoliada, são a copaíba e o jequitibá, mas esses deixo para mostrar mais pra frente, assim como outras árvores, inclusive do cerrado, que tem uma flora riquíssima e diversificada.


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