Mostrando postagens com marcador Granja Viana e São Paulo - coisas e vida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Granja Viana e São Paulo - coisas e vida. Mostrar todas as postagens

domingo, fevereiro 15, 2009

Granja Viana, adeus



Chove.
Chove tanto e há tantos dias que o solo do gramado virou uma esponja: apertado pelo pé, esguicha água por toda parte e barro em algumas. Tanto isso é verdadeiro que fez com que meu filho desmarcasse sua festa de aniversário e despedida da Granja Viana.

Despedida, sim. Essa manhã chuvosa de domingo é a última que vivo aqui, nessa casa que há 15 anos é o meu lar.

Nesse período, como não poderia deixar de ser, dramas, tristeza, alegrias e conquistas aconteceram. Choramos e rimos, nada diferente do que acontece ao longo de 15 anos em qualquer lar.

A Granja mudou.


Nós também mudamos
, claro, mas a Granja mudou, foi mudada, muito mais que nós.
Há menos árvores e muito mais casas.
Os carros multiplicaram-se em espantosa progressão geométrica.
As ruas simplesmente não cresceram, sequer na largura, exceção feita a um ou outro trecho pequeno.

Os saguis não vêm mais até aqui, em busca de insetos e frutinhos nas árvores, além das fatias de mamão e das bananas que o Marcelo e o Renato, nossos vizinhos, e nós mesmos, colocávamos para eles nas árvores próximas.


A própria chegada deles pegou-nos de surpresa há alguns anos e foi o sinal, como disse para os rapazes e para a Rosa, que a Granja estava acabando.


Eles estavam aqui porque pedaços do seu velho habitat estavam destruídos.

Agora a destruição encostou aqui em casa.
Não há o que fazer, é tudo dentro da lei.
Não há o que fazer, é tudo fruto do progresso.

Impotente, deixo a Granja com alegria.

Quem vem para cá irá gostar.
Sim, irá gostar, pois essa Granja de hoje ainda é muito melhor e mais gostosa que qualquer bairro paulistano. Principalmente os bairros verticais, onde as pessoas vivem embaixo ou em cima e ao lado umas das outras, separadas por centímetros de concreto, alguns quadros e carpetes.

Para mim, contudo, é tempo de mudar.
Soa como uma derrota, não deixa de ser.

Sempre soube que a Granja era passageira e sempre soube que as árvores e os animais, como os mutuns e os serelepes, tinham pouco tempo pela frente.

Esperava estar longe quando essas mudanças começassem, mas fui atropelado por elas.

Vou para o sítio, para onde sempre quis ir, para onde sempre soube que um dia ainda iria. Felizmente, vou a tempo de trabalhar, de começar de verdade, para valer, um novo trabalho, um novo ciclo em minha vida.

Lamento pela Granja e por seus moradores não humanos. Para os humanos, para a maior parte deles, ela está cada vez melhor. A estrutura de serviços é fantástica, cobre tudo, do pequeno, acolhedor e providencial Armazém do Nicolau ao grande Wal-Mart, passando por livrarias, restaurantes excelentes, o melhor deles ainda sendo o Ney e seu Pátio Viana, que o que não tem chic tem gostoso, pizzarias, lojas de informática, mercados como o Pão de Açúcar e o Marché, refinados e tentadores, até o Habib’s e o McDonalds.

A Granja é uma festa e em nada mais precisa de São Paulo, sequer escolas, até a universidade. O que é ótimo, porque a Raposo Tavares continua o gargalo, pior a cada nova temporada escolar. É o progresso.

É, não consegui esconder um laivo de tristeza nessas
palavras, mas, podem acreditar, é por tudo que a Granja foi e está deixando de ser. Um lugar de matas e bichos com um monte de casas espalhadas.

Desejo que as novas pessoas que farão dessa casa um
novo lar sejam felizes.
Espero que cuidem dos três ipês juntinhos, fazendo um só, todos amarelos, florescendo um depois do outro e colorindo a frente da casa por muitas semanas do meio do inverno.
E também do pé de acerola, que tanto suco já nos rendeu.

Que essa chuva seja somente a água que está lavando tudo e criando um novo espaço para os novos moradores.
É tempo de mudanças, para todos nós.
Que elas nos tragam mais felicidade e alegrias.

.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Beleza é fundamental


Beleza é fundamental, sim.


Estava certo o poeta, embora essa frase deva ser tomada pelo sentido mais amplo e não meramente pelo físico, pelo estético. Nesse texto, porém, ela deve ser tomada pelo seu significado mais imediato: a beleza física.


Mas não estou me referindo a nenhuma mulher, se bem que o foco dela não só tem características femininas, como merece ser tratada como uma mulher. Falo da cidade de São Paulo, a minha São Paulo, que ontem, para surpresa de todos, inclusive eu mesmo, deu ao prefeito Gilberto Kassab o primeiro lugar na eleição, à frente da ex-prefeita Marta Suplicy e do ex-governador Geraldo Alckmin.


E o que tem a ver beleza com os votos de Kassab?


Muito, tem muito a ver.


Quando foi indicado para ser o vice de José Serra, eu fui um dos muitos, inúmeros paulistanos que chiaram uma barbaridade. Não queria um cara do PFL, queria um cara do próprio PSDB, alguém afinado com Covas, Serra, Fernando Henrique e o Alckmin. Tivemos, porém, que engolir o Kassab.


Tão logo Serra deixou a prefeitura e assumiu o governo do Estado, o prefeito começou a botar suas manguinhas de fora e logo de cara apareceu com um tal de Cidade Limpa.

Antes de ler o projeto já saí criticando, felizmente, apenas para mim mesmo. Tão logo li, achei legal, mas achei que não passaria de um factóide.


Pobre cidade de São Paulo.


O tempo passou.


O Cidade Limpa “pegou”, apesar dos protestos, apesar das liminares, apesar das lutas políticas, apesar de um monte de coisa, “pegou”.

De repente, a velha cidade de São Paulo estava visível, não mais escondida por outdoors, painéis gigantes, luminosos berrantes e horríveis, nada mais disso.

Lá estava ela, bonita, em muitos lugares, em outros nem tanto, mas pelo menos, limpa.


Beleza e limpeza.


Comecei a ter prazer em ficar alguns minutos parado no trânsito, olhando fachadas há muito escondidas, vendo ruas e avenidas sob uma nova perspectiva, sem anúncios espalhafatosos. A Avenida Rebouças, conhecida íntima de muitos e muitos anos, estava de novo bonita, agradável de ver.


Dei-me conta, então, que tínhamos um prefeito de fato.


Tínhamos alguém preocupado com a cidade, com seu funcionamento, sua aparência, claro, afinal, como disse o poeta, beleza é fundamental.


Até que li que a Prefeitura contribuía financeiramente com o Rodoanel. Fantástico.


E com o Metrô!


Que coisa incrível!

Um prefeito que enxergava muito além de seu curto, curtíssimo mandato.


Claro, muita coisa há para resolver, ainda.


E assim continuará por décadas.


Não haverá prefeito capaz de executar milagres na condução dessa cidade. Na vida real, a vida que vivemos, essas coisas levam tempo, são negociadas, interesses adversos têm que ser vencidos ou negociados, por aí vai.


Mas saber que, finalmente, tínhamos um prefeito trabalhando de verdade em prol da cidade, deu outro ânimo.


Algumas vezes, também, tive a oportunidade de ver o prefeito sentado a dois ou três metros apenas, no Morumbi, assistindo a um jogo do São Paulo. Sem seguranças, sem entourage, sem frescuras. Quieto lá em sua cadeira, curtindo alguns minutos do jogo sem ninguém para atrapalhar.

Ainda bem que o pessoal em volta sente a mesma coisa e respeita o direito dele ver o jogo em paz.


Gostei disso, também.

Desse despojamento, dessa falta de pompa e séquito.


Votei nele, é claro.


Aqui em casa todos votamos nele.


Voto de cabresto, claro.


O cabresto correto, porém, melhor chamado de “cabresto”.


Votamos porque vemos uma cidade mais bonita, mais gostosa, porque sabemos que ele está trabalhando e fazendo, bem ou mal, o que está dentro de suas possibilidades para melhorar em alguma coisa a vida nessa metrópole, parte maior de uma megalópole que caminha para os 22 milhões de habitantes e que vai bater quase 25 milhões quando formar uma grande unidade com Campinas.


Absurdo, mas inevitável.


Agora virá o segundo turno.


Estou convicto que ele vencerá a candidata do presidente da República e seu partido.

Quero muito isso, tanto que de forma alguma perderei essa eleição.

Farei questão de depositar, ops... de marcar meu voto na urna eletrônica.


E, somente então, desejar ao prefeito mais 4 profícuos anos à frente da cidade de São Paulo dos campos de Piratininga.



.

quarta-feira, março 19, 2008

Domenica matina in San Paolo



Manhã de domingo no Mercado Municipal e depois na Padaria 14 de Julho deixa com vontade de falar e escrever em italiano. Pena que o meu italiano não dá para tanto, muito pelo contrário, apesar da vontade da minha Nona.

La domenica matina in San Paolo é particularmente gostosa porque não tem trânsito. Ou melhor, tem e até muito, mas ele flui que é uma beleza. A gente redescobre nas grandes avenidas a “onda verde”, passando sorridente por um, dois, três, vários sinais no verde. Que coisa boa! O ar também é mais gostoso, a paisagem é mais clara, tudo é mais bonito. A cidade está mais bonita, agora livre da poluição visual de cartazes, placas, fachadas de lojas, paredes e muros com propaganda, outdoors, faixas, etc. Parabéns, Prefeito Gilberto Kassab! Valeu a sua briga e que prazer é poder elogiar um homem público, coisa extremamente rara nesse Brasil varonil, nessa manhã com céu de anil, combinando com as muitas cores à minha espera.


O Mercado Municipal de São Paulo é um local de cores em profusão. Até mesmo sua estrutura do início do Século XX, devid
amente limpa e mantida em ordem, é bonita.

Tem cor de solidez antiga.


Mas é em seu interior que as cores brilham e brincam, começando pelos vitrais.



À explosão de cores dos vitrais, corresponde a multiplicidade de cores das frutas.

Brilhantes, refletindo a luz filtrada pelos vitrais e pela comprida clarabóia que ilumina o grande interior de ponta a ponta.


Frutas de todas as partes do mundo, a maioria, por

mais incrível que pareça, já cultivadas aqui mesmo.




Inúmeros tipos, alguns desconhecidos, outros surpreendentes.


Desconhecida, por exemplo, é

a achachaia boliviana.


Sua presença é explicada pela existência de colônia boliviana em São Paulo.


Como surpreendente é o nosso selvagem e nativo jatobá.


Tanto desconhecido como surpreendente é o jamelón, que o fruteiro diz ser um tipo de melão caipira, mas...


Sei não, nunca vi assim.



E esse tal de zarbão?

Pergunto ao dono da banca se é um tipo de grapefruit, que é o que parece, e minha pergunta cai no vazio.

Como surdo ele não é, pois ouviu outras, concluo que é apenas grosseiro, uma vez que estou apenas fotografando. Faz parte...

Encontro até abio, quem diria!


Mas o Mercado oferece muito mais, e já falei dele em outro post ou, quem sabe, posts. Visitá-lo e nada escrever a respeito é difícil.


Tem as azeitonas.

Da Grécia, de Portugal, Espanha, Itália...



Do Chile, temperadas...


É o paraíso dos amantes do bacalhau, como eu.

Do Porto, da Noruega, do Pacífico, vários tipos.

No Empório Chiapetta vem tudo explicado: origem, tipo, características...

A boca enche-se d’água, reflexo pavloviano básico, e o jeito é parar novamente num dos bares espalhados em seu interior.

A primeira parada, logo à chegada, foi para um rápido café-da-manhã básico. Afinal, dia de Mercado é dia de sair de casa em jejum.

Essa parada de agora é diferente, não é para matar a fome e sim a vontade, a permanente vontade de comer bacalhau, que vem em forma de enorme e saboroso, muito saboroso bolinho.

Mais um expresso e uma mineral com gás.

Bom demais...

A comida, o ambiente, os ruídos, os cheiros, as imagens, o vai-e-vem das pessoas, o espresso quente e forte, de fato, ir ao Mercado Municipal é um exercício de prazer.

Mas só nas manhãs de domingo.

Com o trânsito livre, é obrigatório parar na velha 14 de Julho na volta. Abri mão de comer um canoli na hora, preferi a sardinha escabeche com cebola. Uau! E pedaços de pão italiano, o verdadeiro pão italiano, recém-saido do forno, quente, cheiroso e delicioso.

Como diz aquele filme, e para terminar no mesmo idioma do começo, pois simetria é importante, la vitta è bella!


Mas só nas manhãs de domingo.


.

terça-feira, março 04, 2008

Grandes loucuras, grandes cidades


Esse post é, em parte, uma resposta aos comentários – muito interessantes – do Carlos Emerson Jr. e do Guido Cavalcante.

Caro tocaio (descobri esse termo gaúcho para xará no imperdível “Os Varões Assinalados”, o romance da Guerra dos Farrapos escrito por Tabajara Ruas, autor também, entre outros, de “Netto Perde Sua Alma”), à São Paulo não basta ter a montanha de gente que comentamos em post anterior. No último dia 21 de fevereiro a cidade atingiu a marca de 6 milhões de veículos registrados, fora a frota dos demais municípios da região metropolitana e mais os itinerantes. Sem falar na enorme quantidade de veículos registrados no Paraná e agora também em Tocantins, para pagar IPVA de menor valor.

E, não por coincidência, o caderno Metrópole do Estadão de hoje, traz como manchete o aumento no congestionamento matinal, sempre pior que o vespertino. Realmente, já há alguns meses a gente percebe uma demora ainda maior para ir a qualquer lugar entre as seis e quinze e dez horas da manhã. Isso não é exagero. Depois das seis e meia, todas as vias paulistanas de alguma importância já estão com trânsito parado.

Há 20 anos, digamos, quando o número de veículos girava ao redor de dois milhões ou pouco menos, o total de quilômetros de avenidas, vias expressas e ruas de grande circulação era pouca coisa menor que o número atual, quase o mesmo, na verdade.

Como os carros, ônibus e caminhões multiplicaram-se por três, temos congestionamentos que não se sucedem, já são permanentes.

Dirigir em São Paulo nas manhãs e tardes de sábado é certeza de irritação. Imaginamos um dia tranqüilo, sossegado, trânsito fluindo e... Nada. Tudo quase igual a um dia útil. Hoje, o único bom momento que resta para se dirigir com prazer em São Paulo é a manhã de domingo. Pelo menos por enquanto.

E, como você disse, xará, a insanidade move-se para as cidades pequenas. A própria Santa Rita do Passa Quatro tem lá seus “congestionamentos” também.

Guido, de um lado você é pessimista, com viés para realista.

Por outro, porém, é extremamente otimista. Não acredito que consigamos dominar nenhuma forma de transporte em algo próximo à velocidade da luz em menos de dois, quem sabe três séculos. Mas, sei lá... Tudo parece possível ao engenho e arte do moderno macaco-sem-pelo.

Apesar de todos os pesares, encaro, ainda, com relativo otimismo o futuro.

Acredito, ainda, que conseguiremos contornar ou amenizar os problemas mais graves e tenebrosos, exceto, muito provavelmente, a corrupção tupiniquim, algo que persistirá mesmo depois de árabes e israelenses andarem de braços dados – sem algemas – pelas ruas livres de uma futura Jerusalém.

Apesar da crueza, gostei do poema. Dê mais informações a respeito, por favor.

Abraços a ambos.


.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Eu estarei fora...

... dessa monstruosidade de 19.600.000 habitantes que será a Grande São Paulo em 2010.

Não que hoje, com apenas 18.800.000 habitantes, ela já não seja monstruosa, pois é e muito. Qualquer aglomerado urbano com mais de um milhão de habitantes já merece o rótulo de monstruosidade.

Esses dados fazem parte do documento Perspectivas Mundiais de Urbanização, produzido e distribuído pela ONU, que foi lançado ontem. O planeta como um todo caminha inexoravelmente para uma brutal urbanização, e já nesse ano de 2008 mais da metade dos seres humanos moram em cidades. Em 2050 esse número deverá ser superior a 9 bilhões de habitantes.

Como informação e para pensar um pouco, eis a lista dos maiores aglomerados urbanos do mundo:


Em 2008:

Tóquio 35,7 Milhões de habitantes

Nova York 19

Cidade do México 19

Mumbai 19

São Paulo 18,8



Em 2010:

Tóquio 36,1 Milhões de habitantes

Mumbai 20,1

São Paulo 19,6

Nova York 19,4

Cidade do México 19,4



Em 2025:

Tóquio 36,4 Milhões de habitantes

Mumbai 26,4

Delhi 22,5

Dacar 22

São Paulo 21,4

Enquanto isso, outras monstruosidades continuarão crescendo em terras tupiniquins, embora o verbo mais adequado seja inchar.



Em 2025:

Rio de Janeiro 13,4 Milhões de habitantes

Belo Horizonte 6,7

Porto Alegre 4,6

Recife 4,3

Naturalmente, os governos em todos os seus níveis – federal, estaduais e municipais – ignoram essa realidade futura. Não a desconhecem, longe disso, mas preferem ignorá-la porque não conseguem lidar sequer com o dia de hoje, que dizer com o futuro remoto – que chega numa velocidade impressionante, fazendo com que futuro remoto aplique-se somente a qualquer coisa lá para o século XXII. Infelizmente, o futuro já é hoje e nós não estamos preparados para ele, como tampouco estivemos preparados para o ontem.

Minha casa tem recebido visitas em boa quantidade. São Paulo já nos deu o que tinha que dar. Nós também já demos a São Paulo o que podíamos e estou certo que darei muito mais a essa cidade que, apesar de tudo, é a minha e amo de paixão, estando fora dela, produzindo leite e seus derivados.

Aglomerados urbanos são centros geradores de desequilíbrios em todos os sentidos, são centros geradores de doenças, tanto as físicas como as que atacam a alma. Não que o campo, plácido, bucólico, idílico – tudo falso – também não o seja, mas sem dúvida superpopulações não são benéficas. Já virou lugar comum falar dos inúmeros estudos mostrando como superpopulação afeta radicalmente o comportamento de diferentes animais. Frangos e galinhas bicam-se terrivelmente, até a morte. Porcos partem para o canibalismo. Bois confinados praticam sodomia. Ratos se matam uns aos outros. A lista é longa e muito triste.



A volta ao campo é uma saída?

Não.

A vida no campo é extremamente dura quando comparada aos padrões urbanos. Poucas são as pessoas que gostam de viver no campo, inclusive no próprio campo, onde o sonho dominante é morar na cidade e ter à mão tudo de bom que a civilização proporciona.

Triste engano, é claro. Mas o ser humano adora o engano e vive de sonho.

Com os homens públicos que temos, com suas visões míopes e imediatistas, sem falar no quanto dessas visões é afetada pela corrupção, continuaremos desprovidos de programas que visem ao bem-estar dos “povos das cidades”.

Enquanto isso, em busca de seu próprio bem-estar, os “povos das florestas” seguem fazendo sua parte, abrindo buracos gigantescos na cobertura verde e inchando os aglomerados urbanos no meio do nada.

Esse, contudo, é outro assunto.


.

domingo, fevereiro 03, 2008

Desencantos e outras coisas


Lamento.

Lamento por várias coisas, entre elas ter deixado esse Olhar Crônico meio abandonado. A alternativa teria sido escrever ranhetices, tristezas, reclamações. Sequer consegui um tom irônico às coisas que até pensei em postar. Sendo assim, fui empurrando com a barriga, empurrando, empurrando... Nem mesmo sei se o momento certo de retorno é esse, mas, vamos lá. A vantagem da internet é que o teclado é cheio de recursos para deixar um texto chato de lado.

Bom, entrou a Abertura do “Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, e é sempre um bom motivo para passar boas imagens para o papel. Papel eletrônico, nesse caso.


Bombinhas

Paradisíaca, ou quase isso, nesse início de século XXI. Nem tanto pela praia, muito mais pelas águas cheias de vida, que permitem mergulhos facílimos e simplesmente fantásticos. Os experts vão me perdoar pelo aparente exagero, é claro que há locais com muito mais vida, sem dúvida. Pensando, porém, no turista comum, praticamente de qualquer idade, Bombinhas permite belas visões do mundo subaquático, apenas beirando as pedras, algumas das quais em meio á areia da praia. Vi, por baixo, mais de vinte diferentes espécies de peixes, além de anêmonas, coral-cérebro – esse, infelizmente, com muitas áreas mortas, algumas delas pelos pés com nadadeiras de turistas desinformados –, estrelas-do-mar, ouriços, carangueijos e até mesmo um pepino-do-mar.


Não só. Vi, também, águas-vivas. Milhões, acho, não me dei ao trabalho de contar, nem poderia. Foi assim: fazia o primeiro mergulho do dia, usando uma camiseta para proteger-me dos raios solares (que penetram, sem problema algum, a até 40 centimetros de profundidade, queimando tanto quanto se a pessoa ficar na areia, “bronzeando-se”). Em certo momento comecei a sentir umas picadas incômodas, uma ardência em vários pontos do corpo, todos mais ou menos próximos ao pescoço. Cheguei a ficar preocupado, achando que estivesse com algum processo alérgico em andamento, mas não dei muita atenção. Um pouco depois fui obrigado, sim, a dar atenção. Os pontos se multiplicavam e só então foi que pensei no óbvio (e que já tinha esquecido...): água-viva, eu estava sendo alvo, ou vítima, de um ataque de águas-vivas. Tive a confirmação ao levantar a cabeça – faço snorkeling com a cabeça enfiada na água, literalmente, olhando para baixo, principalmente onde há motivos para isso, como em Bombinhas – e, favorecido pela incidência da luz no ângulo certo, vi montes de minúsculos guarda-chuvas, pouco mais que microscópicos. Em alguns pontos a água tinha uma aparência leitosa. Bom, tempo de cair fora, claro. Foi o que fiz, mais que depressa. Na praia, vários mergulhadores reclamavam, também. Foi, todavia, uma passagem fugaz, vieram com uma corrente e um vento, voltaram com outro.

E o que fazer nessas horas?

Como eram pequenos celenterados, nada de extraordinário, um pouco de urina jogada sobre a área já seria suficiente para aliviar a queimadura. Certo, fora o lado curioso, isso é bom pro Tom Hanks abandonado numa ilha deserta. No meu caso, fui pra casa, a poucos metros da praia (Santa Catarina é ótima!) e joguei vinagre por cima da camiseta mesmo. O alívio foi imediato e total. A uréia da urina e o ácido acético do vinagre, pelo que sei, aliviam a sensação de queimadura.

Em casos mais graves, como os dos banhistas na Praia Grande, no reveillon, o certo e imediato é procurar socorro médico.

De águas-vivas para beija-flores.

Os danados estão sumidos. O verão é bem mais farto em oferta de alimentos e eles devem permanecer em áreas mais fechadas por aqui. No inverno é diferente e eles freqüentam as árvores e arbustos plantados pelos jardineiros, o que facilita sua visão, sem dúvida.

Na caminhada de hoje, fazendo o circuito “completo” da Fazendinha, nada fotografei. Por incrível que pareça.

Caminhar pela Granja Viana tem me deixado meio deprimido, meio triste, meio revoltado, meio sem-vontade de caminhar. As placas “Vende-se” sucedem-se em monótona procissão. Se estivessem em frente de casas não daria bola, mas, não, estão em todos os terrenos. Com eles, em breve vai acontecer o mesmo que ao terreno a cinquenta metros de casa: o ataque inclemente das motosserras. O resultado aqui em casa foi o sumiço dos sagüis que vinham comer banana e mamão a poucos metros de nossas janelas. Outro resultado: abandonei de vez todo o pudor e resolvi que meu ciclo na Granja terminou. Covardemente, se assim quiserem, não quero estar por aqui presenciando, impotente, a destruição do que resta de vegetação e fauna. O avanço imobiliário é inexorável.

Curiosamente, falta visão ou algo parecido aos granjeiros, boa parte dos quais podem ser chamados de pessoas com recursos. A eles e às prefeituras de Cotia e Carapicuíba, se bem que esperar visão desse pessoal...

A compra dos terrenos e a manutenção dos mesmos como áreas de preservação poderiam manter a Granja com suas características, mantendo os preços dos imóveis em alta, ainda mais num horizonte de dez anos (que passam voando). Infelizmente, não há visão e desprendimento de um lado, e visão e inteligência do outro. Sobra apenas o imediatismo por mais dinheiro no bolso e mais dinheiro nos cofres. Uma pena.

Esse, hoje, é meu maior desencanto, pela proximidade com minha vida cotidiana.

Sobre o Sítio das Macaúbas falarei em outro post. Adianto que as vacas vão bem, a Nita pariu uma bezerrinha, a Vitória e a Hora estão por parir, os gatos vão bem, as galinhas idem, exceto pelo assédio dos galos, que precisam urgentemente de algumas panelas como destino. Ou mudar para outros galinheiros, pois são tão bonitos que dá dó mandá-los, simplesmente, virarem coq au vin.


.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Caos – s.m.


... 3 – mistura de coisas em total desequilíbrio; desarrumação, confusão.

Assim define, entre outras, o Houaiss. Eu, particularmente, gosto de “total desequilíbrio”, pois é a definição que melhor se aplica, em todos os sentidos, à cidade de São Paulo e, particularmente, ao seu trânsito e ao número de veículos que ela abriga. Nesse ano que ora termina, a megalópole cresceu a bagatela de 330.000 novos veículos em sua frota. Deslocar-se de carro por suas ruas e avenidas não é aventura, é suplício, é tormento, é provação.

São Paulo hoje tem menos de dois habitantes para cada veículo registrado. Antes de ser prova de riqueza, é prova de burrice extremada, desleixo e desespero. A burrice extrema e o desleixo idem referem-se às autoridades de anteontem, ontem, hoje e, com certeza, amanhã. O desespero fica por conta dos paulistanos que só enxergam no carro próprio um meio relativamente decente, menos desconfortável e menos inseguro para se locomover.

Enquanto a cidade cresce 330.000 veículos, seu sistema viário não deve ter aumentado nem 10.000 metros. Aliás, o ideal seria até o oposto, que parte do sistema viário revertesse à condição de solo coberto por vegetação pura e simplesmente. Como isso é utópico, resta uma obviedade: se os locais por onde os carros trafegam não aumentam, e como o número de carros aumenta, e aumenta muito, teremos mais carros ao mesmo tempo nos mesmos lugares, resultando em congestionamentos mais e mais monstruosos e uma situação ainda mais caótica.

A prefeitura já pensa em ampliar a restrição de circulação de veículos, que hoje proíbe o trânsito de dois finais de placa a cada um dos dias úteis da semana. A hipótese que se considera, agora, é simplesmente mais que dobrar essa restrição, permitindo a circulação de placas com final ímpar num dia e final par no outro, alternadamente. Duvido que isso vá resultar em grandes benefícios. A única chance de realmente melhorar a situação, deixá-la mais próxima de algo com cara civilizada, é criar uma situação em que os próprios donos de veículos convençam-se que é melhor usar um meio de transporte coletivo para seus deslocamentos.

Utopia...

Vida longa ao caos. Não que eu deseje, mas é o que teremos.


.

domingo, novembro 25, 2007

Limpeza, silêncio e aquecimento global na Paulicéia

Pois é, ninguém dava muita bola para as promessas do prefeito, primeiro o Serra, depois o Kassab, mas os resultados são visíveis ou não audíveis, num caso e noutro.



Cidade Limpa

Eu mesmo estou espantado com a aparência nova da Paulicéia. Trafegar pela Avenida Rebouças continua chato e irritante, pois, tirando as madrugadas, ela vive congestionada, inclusive os túneis “da Marta”, que para nada servem e muito caro custaram. Bom, dizem que para alguma coisa serviram e essa “alguma coisa”, dizem, apenas reproduzo, estaria ligada ao tão alto custo. Tão alto que o Serra bloqueou os pagamentos e pediu uma averiguação no começo de sua gestão. Não sei no que deu, se em alguma coisa deu. Mas, falava de trafegar pela Rebouças, coisa chata como sempre, mas agora muito menos desagradável: a sujeira visual, as inúmeras placas, faixas, cartazes, outdoors, foram varridos para longe de nossos olhos. A avenida está limpa, as casas visíveis, a paisagem existe. Como é importante existir paisagem! Não faz mal que seja de casas e prédios, mas tem que existir.

A limpeza e a paisagem não são exclusividade da Rebouças, longe disso: por todas as partes da cidade por onde andei nos últimos meses, o resultado é o mesmo e o prazer também. Conseguimos até prestar mais atenção em monumentos e obras de arte.

É uma pena que os postes e os milhões de quilômetros de fios e cabos continuem à vista. Tudo seria ainda mais bonito se eles ficassem, como deveriam, embaixo da terra, mas aí já seria pedir demais.

Quem sabe no futuro?



Psiu!

Funcionou. Muita gente anda reclamando, principalmente donos de bares, restaurantes e casas noturnas, mas desde o começo de 2005 o nível de ruído nas noites paulistanas diminuiu. Também diminuiu a atividade noturna, ou melhor, está acabando mais cedo.

A atividade noturna não está proibida, mas apenas o barulho excessivo por ela gerado. Um estabelecimento desse tipo só pode gerar um máximo de 55 decibéis (o barulho de um caminhão – regulado – ou de uma máquina de lavar), ou melhor, só pode deixar “escapar” de seu interior esse nível máximo de decibéis. Para que isso aconteça é necessário que seu interior tenha isolamento acústico. O nome disso é civilização.

A grande reclamação dos empresários da noite é pela proibição das mesas nas calçadas. A lei exige, também, que esses estabelecimentos tenham estacionamento próprio e segurança. Novamente, isso é chamado de civilização em qualquer parte do mundo.

Os moradores de muitos bairros que viraram “da moda” agora podem dormir.

Repetindo, mesmo correndo o risco de ser chato, o nome disso é civilização.



Aumentando o aquecimento global

Prestes a entrar na já citada Rebouças, na hora do almoço de ontem, sabadão, fiquei parado por uma espera de sinal. Olhando para cá e para lá, vi uma cena triste, burra e criminosa: um gari tocando fogo num monte de folhas secas, verdes e mais ou menos, juntamente com papeis e outros resíduos varridos da calçada e do meio-fio.

Ora, tal ação, praticada por um funcionário da municipalidade ou por ela contratado através de empresa prestadora de serviços, é triste por todo o contexto em que vivemos e por tudo que sabemos hoje.

É burra porque o melhor uso para esses resíduos é a reciclagem. As folhas, a grama cortada, os galhos das árvores, as flores que o vento derruba das azáleas, tudo isso é matéria orgânica e seu melhor destino é virar um adubo orgânico por meio de compostagem.
É tarefa fácil e sem mistérios, já efetuada por algumas prefeituras de cidades não muito grandes, por universidades e por milhares de agricultores. Numa cidade como São Paulo, a produção desse composto geraria um rico material para ser usado nas praças e parques públicos, ajudando a recuperar, manter e ampliar as áreas verdes. Custaria caro, sem dúvida, mas há despesas que são caras na aparência e baratas nos resultados. Essa é uma delas, estou certo.

É criminoso porque nenhuma autoridade pública, ainda mais de uma metrópole como a Paulicéia, pode ser agente do aquecimento global. A acreditar nos relatos científicos, e a maioria de nós acreditamos, inclusive nossos representantes eleitos, é dever de todo e qualquer cidadão, e mais ainda daqueles que têm poder e influência, no mínimo não colaborar para o crescimento desse monstro. No mínimo. Ao queimar as folhas, galhos, flores, pedaços de papel e, pior ainda, de plásticos diversos, a prefeitura de uma das cinco maiores metrópoles do planeta está contribuindo para aumentar o aquecimento global.
Além de criminoso, um ato insano.

O mesmo prefeito que tão bem trabalhou pelo visual da cidade e pelo silêncio, precisa, agora, trabalhar também em prol da preservação do ambiente.

Começar por essa coisa tão pequena é um bom caminho.


.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Beija-flores: alimentar ou não?


(Há algum tempo vinha adiando a publicação desse post, até que recente comentário da Lilly fez-me ver que já era mais que hora.

Lilly, embora eu também não goste muito das garrafinhas, creio que é melhor enfatizar a necessidade dos cuidados diários que devem ser tomados por quem quiser mantê-las.)

Não vou nem discutir a beleza, graça e o prazer que proporciona a visão de um beija-flor se alimentando num bebedouro estrategicamente colocado numa varanda ou numa janela. Aliás, não se deve começar um texto com “não”. Bom, tem um monte de coisas que tampouco são recomendáveis, muito mais sérias que não começar um texto com “não”. Uma dessas coisas, sem dúvida, é pôr o bebedouro com água adoçada com açúcar ou dextrose e não cuidar dele da maneira correta.

O que é essa maneira correta?


Tesourão em flor de mini-grevilea, no Sítio das Macaúbas - Julho 2007.


Reconheço minha ignorância e busco o auxílio não dos “universitários”, mas de Johan e Christian Dalgas Frisch. O trecho que vem a seguir é a transcrição do que eles publicaram no belíssimo e extremamente útil “Jardim dos Beija-Flores”:

O uso de bebedouros artificiais exige cuidados dos quais o amador de aves não pode descuidar, sob pena de infectar toda a população de beija-flores que freqüenta sua área. Em primeiro lugar, deve-se prestar especial atenção à mistura que será oferecida aos traquilídeos.

Renomadas organizações conservacionistas dos Estados Unidos recomendam a seguinte fórmula: uma parte de açúcar refinado para cada quatro partes de água. Ferve-se a água, adiciona-se o açúcar, espera-se que dissolva completamente e deixa-se esfriar. A mistura deve ser guardada no refrigerador para evitar a fermentação do néctar. A adição de quaisquer outras substancias, como o mel, por exemplo, pode provocar a proliferação de um fungo que infecta o aparelho bucal dos beija-flores e causa morte por asfixia.

Pronto para matar a fome e a sede - bebedouro na chácara dos meus sogros, em Santa Rita do Passa Quatro. Esse pequeno é "invasor", pois quem manda nesse bebedouro é um tesourão.


A higienização dos bebedouros é fundamental para garantir a saúde das aves, já que os fungos se formam em frascos sujos (desenvolvem, ao invés de formam, é mais correto; nota do blog). A água com açúcar deve ser trocada diariamente, para evitar fermentação. Pelo menos duas vezes por semana deve-se colocar as garrafinhas em um balde com água e cândida, para desinfectá-las.

... Tão logo as aves estejam acostumadas com eles (os bebedouros), não se deve mudá-los de lugar. Há tipos de colibris bastante territoriais, que defendem a área bravamente contra representantes da mesma espécie ou outros congêneres, as flores ou o frasco onde estão acostumados a se alimentar. Assim sendo, cada garrafa é verdadeira “propriedade particular” de determinados beija-flores e modificações no seu posicionamento desencadeiam verdadeiras guerras pela posse do espaço vital bruscamente alterado.

Animais, todos eles, têm amor à rotina. Felicidade é um dia igual ao outro todo dia, ou seja, comida e água à vontade todo dia no mesmo lugar e horário. Colibris não exceções a essa regra, portanto, colocar um bebedouro implica em assumir e manter um compromisso extremamente sério, pois a estabilidade de uma população é sempre definida, em primeiro lugar, pela estabilidade do fornecimento de alimentos de qualidade.

Em Santa Rita do Passa Quatro, minha sogra e meu sogro têm um bebedouro há muitos anos. Mas eles são extremamente “caxias” e cumprem rigorosamente a rotina – frequentemente, no verão, mais de uma vez ao dia – de lavar e abastecer o bebedouro; e lavagem séria, bem feita, e duas ou até três vezes por semana com “banho” em água misturada com água sanitária.

O bebedouro é palco de incontáveis visitas e, naturalmente, brigas diárias. As visitas não se resumem a três ou quatro diferentes beija-flores, mas incluem, também, as cambacicas. Outro cuidado que eles têm é a manutenção de várias plantas com flores do agrado dos bichinhos, principalmente arbustos de camarão.

Eu, particularmente, não sou muito adepto das garrafinhas, e prefiro o plantio de vegetais cujas flores sejam fontes de alimento pelos beija-flores. Temos várias espécies já plantadas no sítio, desde a russélia e o camarão,

Tesourão em flores de russelia, a cerca de 50 centímetros do chão - Sítio das Macaúbas - Julho 2007.


até os ipês e patas-de-vaca, passando pelas mini-grevíleas e diademas, fora as plantas nativas que surgem do nada, como o cipó-de-são-joão e os maracujazeiros nas bordas da matinha. Um plantio de espécies úteis a eles, é muito mais gratificante do que a garrafinha e, por incrível que pareça, dá menos trabalho, e esse pouco de trabalho pode ser muito gratificante. Muitas plantas nem precisam da terra de um jardim e dão-se muito bem em bancadas e vasos, como a russelia e o camarão.

Fornecer alimento a um ou mais animais implica em compromisso. Muitas vezes quem faz isso não entende que está interferindo no curso normal da natureza e que se retirar essa oferta de alimentos, vai interferir ainda mais. Portanto, se possível, ofereça mais flores e menos água com açúcar. Se possível, mesmo fornecendo a água como se deve, não deixe de plantar espécies que alimentem esses pequenos e lindos seres voadores.

Beija-flor em eritrina ou suinã-do-litoral, em alameda na Fazendinha - setembro/2007.


(As fotos desse post foram feitas pelo autor no Sítio das Macaúbas ou nas ruas e alamedas na Granja Viana e na Fazendinha, no município de Carapicuíba, Grande São Paulo.)

.

Cuidado! Capivara



A Marginal Pinheiros tem duas situações: parada ou com o trânsito em alta velocidade, alta intensidade, alto número de veículos. Muitos motoristas nunca devem ter reparado nas placas que o pessoal do Projeto Pomar, que fez um belíssimo trabalho de formação de pequenos maciços de árvores e arbustos ao longo de toda a Marginal, colocou para orientação dos motoristas que utilizam a estrada de serviço, e terra, que acompanha o rio.



O trânsito parado permite o tempo de uma rápida olhada, com o capim entre os motoristas e a placa.



Ao fundo, na outra margem, o complexo de prédios do World Trade Center, sede de empresas hightech, como Microsoft e Monsanto, entre muitas outras. Entre a placa e os cérebros, o rio poluído, os trilhos da CPTM, a outra pista da Marginal...
Mundos muito distintos.



Outro dia vi um filhote de capivara. Estava deitado ao lado de um arbusto, tranquilo, talvez pensando na vida ou na morte da bezerra, ser que ele nunca viu e só deve conhecer de ouvir dizer. Vi de relance, o trânsito, aleluia, andava e andava bem.

Elas estão por ali e em outros pontos da Marginal. Bichinhos resistentes, vamos falar a verdade. Mas com algum gosto, afinal, moram ao lado dos metros quadrados que estão entre os mais caros e descolados de Latino América.



.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Cambacica


Essa simpática figura se alimentando numa flor de eritrina, também costuma visitar os bebedouros para beija-flores.
As duas espécies não se bicam, nos dois sentidos: não são
"amiguinhas", mas tampouco se atracam em brigas ferozes. Apenas convivem na mesma área, visitando as mesmas flores, suportando-se uma à outra.


É a cambacica. Não sei, ainda, porque cargas-d'água, seu outro nome popular é caga-sebo. Se bem que essa história de nome popular está virando lenda. A maioria das pessoas, hoje, desconhece o nome de quase todos os pássaros. Alguns, mais "informados", ainda conhecem as pombas e os pardais, e acho que pára por aí.
Uma pena, pois conhecer é fundamental para preservar.
Ninguém preserva o que não conhece.





A cambacica é outra habitante aqui da Granja Viana e também lá do sítio.



.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Cenas da Granja Viana e um Sabiá cantando

Primeiro o vídeo com o canto...
Depois a foto do cantor e mais algumas.









Esse é o cantor, um sabiá. Pensei que fosse o poca, mas não é, talvez seja o una.


Um dos nossos visitantes habituais. Essa árvore fica a poucos metros das janelas do lado direito de casa. Os visitantes gostam de banana e mamão, principalmente. Nesse dia, para fotografar, joguei banana sobre o teto do nosso vizinho, mas normalmente colocamos as frutas nas árvores.





.

domingo, outubro 28, 2007

O sumiço dos colibris

A primavera já termina seu primeiro terço e as chuvas chegaram. Apesar disso, na caminhada de hoje, retomada depois de algum tempo de ausência, não vi nenhum beija-flor e por um motivo simples: não há flores nesse trecho.

O inverno, curiosamente, é rico em floradas: temos os ipês, as bauínias – a branca, nativa, que é a pata-de-vaca, e a lilás, exótica e prima-irmã -, o cipó-de-são-joão, a eritrina – que permite fotos belíssimas dos beija-flores com suas árvores sem folhas – e mais a diadema, as caliandras e muitas outras mais, tanto árvores como arbustos e cipós. Com a chegada da primavera, vão-se as flores e vêm as folhas e os frutos. Sem aquelas, os beija-flores partem em busca de outros pastos. Aqui na Granja Viana devem encontrar floradas em meio aos pedaços de matas que ainda persistem entre casas e loteamentos.

Isso me leva a pensar que os paisagistas e jardineiros precisam ter uma visão mais abrangente e ecológica. Não basta, simplesmente, plantar determinado número de árvores, é importante que esse plantio seja feito com espécies adequadas, que propiciem alimentação às aves e mesmo às outras espécies que ainda habitam nossa região, como os sagüis, gambás, serelepes e outros pequenos mamíferos que conseguem sobreviver em meio ao que chamamos de civilização.

Para os beija-flores, por exemplo, é importante a presença de plantas florescendo por todo o ano, de forma mais ou menos equilibrada. Um excesso de floradas no inverno, seguida pela escassez na primavera e no verão, é péssimo para os colibris, força-os a deslocamentos nem sempre possíveis nesses dias de crescimento urbano acelerado. As plantas que deram alimento ontem, hoje podem estar tombadas no chão, picotadas, esperando o transporte para algum forno distante. Não custa relembrar que depois das flores vem os frutos, e esses vão alimentar outras espécies. Seria bom que o paisagismo mudasse um pouco, priorizasse menos a estética e contemplasse mais a diversidade e persistência. Isso é ótimo até mesmo em pequenos jardins, e em áreas maiores pode fazer toda a diferença para a manutenção de parte da fauna que ainda resiste.

Os tico-ticos estão entre os que resistem e fazem seus vôos curtos por toda parte. Pousam em galhos, mourões de cercas, muros, e seu canto, que me acompanha desde a primeira infância e primeiras memórias, faz a trilha sonora dominante da caminhada.


Inevitavelmente, penso na seca que ora termina, tarde demais, e penso na Califórnia. Mais de um milhão de desabrigados e desalojados devido aos incêndios. Que nada mais são que o corolário natural da seca persistente associada ao calor excessivo. As casas, bem ou mal, em sua maior parte seguradas, serão reconstruídas. Mas toda a vida animal e vegetal já foi extinta ou espantada. Com sorte, em quinze, vinte anos ela retorna. Ou não...

No sítio, o sol voltou pleno desde ontem. É hora de correr e adubar os piquetes e também o canavial, aproveitando a umidade. Mas olhar para o céu ainda é mandatório, pois choveu pouco e precisamos dela todo dia, de preferência, suave e persistente, molhadeira, criadeira.

Dia a dia, todo dia, toda hora, ou quase isso, por um motivo ou outro, meu pensamento é assaltado pelas lembranças e preocupações com o aquecimento global e o depauperamento de nossos bens mais preciosos, desde os gorilas no Congo até os sagüis aqui perto de casa, com seu habitat sendo tomado por novas e bonitas casas, aceleradamente.

Em algum momento futuro algo mais concreto que escrever, falar e plantar algumas dezenas de árvores será necessário. Por enquanto, o jeito é plantar mais e tentar reciclar o máximo de coisas que pudermos.

Bom domingo e boa semana a todos.


.




Este é o primeiro – espero que de muitos – vídeo que posto no blog, e acabou sendo justamente desse personagenzinho pequeno e simpático, presença constante em minha vida, como já escrevi e me repito. Espero que dê certo e todos possam ver e ouvir sem problemas. Mais do que nunca, agradecerei os retornos a respeito, para saber se funciona ou não, se bem, mais ou menos ou mal. :o) ...


.