domingo, novembro 25, 2007

Limpeza, silêncio e aquecimento global na Paulicéia

Pois é, ninguém dava muita bola para as promessas do prefeito, primeiro o Serra, depois o Kassab, mas os resultados são visíveis ou não audíveis, num caso e noutro.



Cidade Limpa

Eu mesmo estou espantado com a aparência nova da Paulicéia. Trafegar pela Avenida Rebouças continua chato e irritante, pois, tirando as madrugadas, ela vive congestionada, inclusive os túneis “da Marta”, que para nada servem e muito caro custaram. Bom, dizem que para alguma coisa serviram e essa “alguma coisa”, dizem, apenas reproduzo, estaria ligada ao tão alto custo. Tão alto que o Serra bloqueou os pagamentos e pediu uma averiguação no começo de sua gestão. Não sei no que deu, se em alguma coisa deu. Mas, falava de trafegar pela Rebouças, coisa chata como sempre, mas agora muito menos desagradável: a sujeira visual, as inúmeras placas, faixas, cartazes, outdoors, foram varridos para longe de nossos olhos. A avenida está limpa, as casas visíveis, a paisagem existe. Como é importante existir paisagem! Não faz mal que seja de casas e prédios, mas tem que existir.

A limpeza e a paisagem não são exclusividade da Rebouças, longe disso: por todas as partes da cidade por onde andei nos últimos meses, o resultado é o mesmo e o prazer também. Conseguimos até prestar mais atenção em monumentos e obras de arte.

É uma pena que os postes e os milhões de quilômetros de fios e cabos continuem à vista. Tudo seria ainda mais bonito se eles ficassem, como deveriam, embaixo da terra, mas aí já seria pedir demais.

Quem sabe no futuro?



Psiu!

Funcionou. Muita gente anda reclamando, principalmente donos de bares, restaurantes e casas noturnas, mas desde o começo de 2005 o nível de ruído nas noites paulistanas diminuiu. Também diminuiu a atividade noturna, ou melhor, está acabando mais cedo.

A atividade noturna não está proibida, mas apenas o barulho excessivo por ela gerado. Um estabelecimento desse tipo só pode gerar um máximo de 55 decibéis (o barulho de um caminhão – regulado – ou de uma máquina de lavar), ou melhor, só pode deixar “escapar” de seu interior esse nível máximo de decibéis. Para que isso aconteça é necessário que seu interior tenha isolamento acústico. O nome disso é civilização.

A grande reclamação dos empresários da noite é pela proibição das mesas nas calçadas. A lei exige, também, que esses estabelecimentos tenham estacionamento próprio e segurança. Novamente, isso é chamado de civilização em qualquer parte do mundo.

Os moradores de muitos bairros que viraram “da moda” agora podem dormir.

Repetindo, mesmo correndo o risco de ser chato, o nome disso é civilização.



Aumentando o aquecimento global

Prestes a entrar na já citada Rebouças, na hora do almoço de ontem, sabadão, fiquei parado por uma espera de sinal. Olhando para cá e para lá, vi uma cena triste, burra e criminosa: um gari tocando fogo num monte de folhas secas, verdes e mais ou menos, juntamente com papeis e outros resíduos varridos da calçada e do meio-fio.

Ora, tal ação, praticada por um funcionário da municipalidade ou por ela contratado através de empresa prestadora de serviços, é triste por todo o contexto em que vivemos e por tudo que sabemos hoje.

É burra porque o melhor uso para esses resíduos é a reciclagem. As folhas, a grama cortada, os galhos das árvores, as flores que o vento derruba das azáleas, tudo isso é matéria orgânica e seu melhor destino é virar um adubo orgânico por meio de compostagem.
É tarefa fácil e sem mistérios, já efetuada por algumas prefeituras de cidades não muito grandes, por universidades e por milhares de agricultores. Numa cidade como São Paulo, a produção desse composto geraria um rico material para ser usado nas praças e parques públicos, ajudando a recuperar, manter e ampliar as áreas verdes. Custaria caro, sem dúvida, mas há despesas que são caras na aparência e baratas nos resultados. Essa é uma delas, estou certo.

É criminoso porque nenhuma autoridade pública, ainda mais de uma metrópole como a Paulicéia, pode ser agente do aquecimento global. A acreditar nos relatos científicos, e a maioria de nós acreditamos, inclusive nossos representantes eleitos, é dever de todo e qualquer cidadão, e mais ainda daqueles que têm poder e influência, no mínimo não colaborar para o crescimento desse monstro. No mínimo. Ao queimar as folhas, galhos, flores, pedaços de papel e, pior ainda, de plásticos diversos, a prefeitura de uma das cinco maiores metrópoles do planeta está contribuindo para aumentar o aquecimento global.
Além de criminoso, um ato insano.

O mesmo prefeito que tão bem trabalhou pelo visual da cidade e pelo silêncio, precisa, agora, trabalhar também em prol da preservação do ambiente.

Começar por essa coisa tão pequena é um bom caminho.


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quarta-feira, novembro 21, 2007

Notícias roceiras, até alvissareiras (algumas)


O leite abaixou novamente. O Gilberto reclamou, dizendo que seu cheque do leite veio com cinco mil reais a menos em relação ao mês anterior. Ele está tirando mil litros por dia, e chegou a receber oitenta e cinco centavos por litro, e agora está com pouco mais de sessenta. É, faz sentido e a conta bate. Dizem alguns que essa queda é por conta das chuvas que chegam e da produção que aumenta. Balela! Essa queda tem que ser debitada aos imbecis e criminosos que – não confundir com criminosos imbecis – que tascaram água oxigenada e soda cáustica no leitinho “longa vida” que as donas-de-casa adoram comprar. Fosse eu o Gilberto e tentaria cobrar os cinco mil desses vagabundos. Com essa história de baixa, ele acabou pagando menos por umas vacas que precisei vender.

Que dor no coração! Quem cria não pode ter dó de vender, de se desfazer de seus animais. Já me questiono se posso ser criador. Vida que segue, mas fiquei triste com a venda e nem por isso mais rico ou menos pobre. Do dinheiro não vi e nem verei a cor e a cara. A parte maior já foi pra pagar a conta atrasada de farelos e adubos, e a parte menor, que vai entrar na conta em alguns dias... bom, o máximo que posso dizer a respeito é que já está comprometida. Vou ver se tiro uns “dez real” só pra ver a cara da cédula e comprar alguma coisa com ela, talvez uma revista, que a gente lê e vai pra reciclagem ou pro lixo. É, tem a ver mesmo, tudo a ver.

Mas falei em notícias alvissareiras e começo com esses parágrafos, triste um, desanimador o outro. Coisas da vida, em especial de quem cria e produz leite.

Mas, vamos às alvissareiras.

As chuvas chegaram, a princípio mansas, comportadas, molhadeiras, até surpreendentes pela mansidão. Anteontem à tarde, porém, enquanto um pé-d’água violentíssimo com ventos idem, deixava-me com cinco ou seis metros de visibilidade em plena Anhanguera e, claro, devidamente apavorado, apesar do ar blasé para não assustar a Rosa e minha mãe, outro igualmente forte e com ventos violentos, chegava ao sítio e, além de mais uma ou outra árvore derrubada, destelhou parte da casa em que mora o Almir. Como já é o terceiro ou quarto destelhamento entre a casa dele e a nossa, as telhas mantidas na reserva foram pra cucuia.

Hummmmmmmmmm...

Sim, eu sei, prometi alvissareiras novas e até agora...

As vacas vão bem, umas mais que as outras, que sentiram mais a seca e a falta de pasto, de comida volumosa de boa qualidade. O pasto de tanzânia está bonito, pena que seja pouco para todas as vacas que nele comem. Creio que, finalmente, encontrei alguém para cortar as laranjeiras do pomar velho, em boa parte já mortas ou perto disso. Se dessa vez tudo der certo, terei a área livre no dia 15 de dezembro, podendo entrar com uma grade e, em seguida, plantar o capim com um “cheirinho” de adubo.

Estou em déficit com minha consciência e com a natureza: já deveria ter começado o plantio de parte das 500 árvores que prometi a mim mesmo. Até agora foram plantadas somente 14, das quais duas morreram. Com um pouco de sorte, ainda conseguirei plantar, digamos, 88 árvores. O ideal é fazer isso até o reveillon, pois assim as plantas aproveitam bem a estação das águas e chegam fortes e bem enraizadas na entrada do inverno e da seca.

Dessas árvores, 200 serão, necessariamente, eucaliptos. As demais serão de espécies variadas, a maioria das quais nativas. Sobre elas pretendo escrever um post específico, pois é um tema fascinante.

O Decon (Conrad), filho de meu vizinho de cerca, Miro, e expert em informática, colocou o sítio deles na internet:

http://www.sitiomandarim.com.br/

O site está bonito e muito bem feito, valendo a visita.

Na página de abertura tem duas fotos. Na segunda, as árvores ao fundo já são do Sítio das Macaúbas.

É a roça na internet, sinal inequívoco das mudanças intensas e rápidas dos últimos vinte anos.

Outro vizinho, o César, voltou para os braços da Seara. Ele produz frangos pelo sistema “integrado”, que é bem descrito pelo Decon no site do Sítio Mandarim. A Seara é extremamente exigente com seus integrados em todos os aspectos, da sanidade aos cuidados ambientais, da higiene à proteção dos galpões, tudo integrado num grande guarda-chuva chamado biossegurança. Mesmo a ração que a empresa fornece é diferente, com maior qualidade e sem o menor traço de produtos animais em sua formulação. Parte da produção Seara é exportada, mas a totalidade é tratada como se fosse para exportação.

A Rose, sua esposa e grande amiga, virou uma queijeira de mão cheia. Os queijos estão ótimos, artesanais, saborosos, produzidos com todos os cuidados de higiene. Dá gosto comer. O coitado do César já está ordenhando duas vaquinhas, uma delas, a melhor, uma mestiça jersey. Já falei pra ele que não demora muito e os frangos dos dois galpões serão apenas um complemento de renda. Ele dá risada e descrê. Sei não...

Fomos à casa da Raquel e do Henrique, e também da Gabriela e do Pedrinho, para comprar mel. O Henrique produz mel e a Raquel cria sites, morando num sítio. Roça mais hightech que essa tô pra ver, até porque, na casa do César e da Rose, enquanto comia um pedaço do queijo “da casa” seguro numa mão, usava a outra para dedilhar o teclado e navegar pela internet.

Voltando ao mel: o Henrique abre a torneira do tonel cheio e o mel desce em ondas dentro dos vidros. Mel bonito, claro, perfumado, bem suave, mel de flores de laranjeiras. Olho os vidros contra a luz e as ondas criadas na queda do mel são visíveis.

Fico sabendo pelo Henrique que nem todas as abelhas norte-americanas sumiram do mapa. Ele participa de algumas listas de discussão com apicultores do Canadá e Estados Unidos. Na nossa roça até as abelhas são hightech e pós-modernas. Mas o que aconteceu com as abelhas do Grande Norte parece-me, ainda, ser um mistério, já que nenhuma das hipóteses formuladas até agora foi confirmada.

A grande voçoroca numa fazenda próxima foi corrigida pela usina que arrendou a terra, mas sobre isso fiz um post à parte. Ficou mais bonita a paisagem, sem a cicatriz feia e assustadora da grande voçoroca.

Os gatos parecem nem sentir nossa ausência prolongada. Tão logo chegamos já se aproximam e ocupam a cozinha. Sabem que vão ganhar peixe, e ganham. Sabem que vão ganhar mais leite, mais ração, mais comidinhas diversas, mais mimos. E ganham. De barriga cheia, uma fica no sol matinal dentro da cozinha. Outra, prefere a varanda da frente. Em comum, os olhos fechados e o sono leve, de ouvidos ligados na passarinhada.

O Stanley acuou um quati perto da matinha e levou bela patada no focinho.

O quati fugiu e ele ficou com o focinho e o peito machucados. Como pena, tem que agüentar o spray do mata-bicheiras e conviver com o cheiro do dito cujo.

E assim vai seguindo a vida nesse começo de estação de chuvas.

Pastos verdes, telhados destelhados, lavouras bonitas, erosões querendo aparecer, sol forte, tropicalíssimo, seguido por ventos de respeito.

Entre prós e contras, vida que segue.


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terça-feira, novembro 20, 2007

Voçoroca – um antes triste e um depois feliz


Decididamente não morro de amores pela lavoura de cana e pelas usinas de açúcar e álcool. São industriais demais para o meu gosto, mecanizadas demais para minha mentalidade pré-Revolução Industrial (às vezes, nem sempre). Apesar dessa postura, não critico a expansão da lavoura canavieira e das usinas, pelo contrário, defendo ardorosamente por motivos muitos e variados. A começar pelo emprego de bons contingentes de mão-de-obra em troca de salários e condições de trabalho mais gratificantes uns e saudáveis outras do que existe nesse imenso – ainda – bananal.

Trabalho escravo? Trabalho excessivo? Trabalho em más condições?

Sim, os dois últimos até podem existir, o primeiro já é coisa diferente e dá-se o nome de trabalho “escravo” com muita facilidade. Curiosamente, quando as denúncias, inúmeras, de trabalho dito “escravo” chegam aos tribunais e provas são julgadas, de fato, nenhuma condenação aparece, apenas multas por situações em desacordo com legislação trabalhista. Aliás, pela concepção de trabalho “escravo” que é aplicada no campo, o popular instituto de pesquisas “DataCrônico”, órgão estreitamente ligado a esse blog e ao blog Um Olhar Crônico Esportivo, constatou que nada menos que 98,63% das domésticas brasileiras podem ser enquadradas como trabalhadoras “escravas”.

Uma usina de cana é investimento de porte monstruoso no tamanho e na quantidade de dinheiro envolvida. Não dá para brincar com isso ou, pior ainda, fazer uma administração incompetente e perdulária. Se na vida política e na administração pública coisas desse tipo conduzem ao sucesso, ao estrelado, a inúmeras vitórias eleitorais, na vida real conduzem tão somente à bancarrota, à falência, ao desemprego e opróbrio de quem mal administrou.

Agricultor nenhum, pequeno ou gigante, pode dar-se ao luxo de ver seu adubo pago a preço de petróleo (ouro é bobagem, petróleo é mais valioso) escorrer enxurrada abaixo por conta de agricultura mal feita. Existe, claro, mas não nos grandes projetos. Até pelos valores envolvidos, ou somente por conta disso, os cuidados com o solo são grandes e bons, o que já é muito bom, fantástico, mesmo, pois cuidar bem do solo é proteger a natureza. Bem ao lado do sítio, a coisa de dois ou três mil metros de distância, apenas, pude acompanhar a recuperação de um pedaço de terra condenado à erosão. Como vocês poderão ver, as próprias fotos falarão por si próprias.

A voçoroca, no final de janeiro/2007 - reparem nas vacas em sua beirada, dão uma boa idéia de seu tamanho


Essa enorme voçoroca crescia a olhos vistos chuva após chuva. Toda a terra tirada do enorme buracão era carregada para o coitado do Rio Clarinho, já muito assoreado. Os muitos poços de outrora, cheios de lambaris graúdos, carás, bagres, piaus e traíras, deixaram de existir, pois a água foi trocada pela areia e os peixes foram expulsos, perderam seu habitat e desapareceram. Historinha típica do interior do Brasil, com casos infinitamente maiores e mais graves, de uma tristeza imensa, como o Rio Taquari, uma das principais calhas pantaneiras. Muito, muito triste, mesmo.


Há poucos dias, uma das usinas que operam na região, plantando cana em terras arrendadas, chegou nesse pasto com seu exército de máquinas: tratores de esteiras, motoniveladoras, tratores pesados de pneus, grades, adubadeiras, carretas com adubos, caminhão-oficina, etc. Um pequeno corpo de exército, mesmo, só faltando os fuzis e metralhadoras para deixar de ser metáfora e virar realidade.

A mesma área em meados de novembro/2007, já recomposta, sem o buracão criado pelas águas graças à incúria humana


Em poucos dias de serviço os estragos provocados pela péssima gestão de proprietários anteriores da área, foram corrigidos, a um custo impossível de ser pago por um produtor rural comum e inviável para uma prefeitura (algumas até têm, em teoria, serviços parecidos... mas, quem consegue usá-los?).

A voçoroca foi eliminada, a área está recuperada e em cerca de sessenta dias o tom claro do solo pobre e arenoso estará transformado no verde-esmeralda de um canavial bem plantado e cultivado, que vai produzir, por baixo, 90 toneladas de cana por hectare, com o número mais para cima de 100 toneladas do que para baixo. Em termos de massa verde, esse valor deverá ser ainda maior (na conta da produtividade não entram as partes verde e a que já está seca da planta, mas que são importantes em termos de seqüestro de carbono atmosférico), algo, talvez, como até 120 toneladas de massa total por hectare. Desse número, a maior parte da massa seca, ou seja, sem a água, será constituída por carbono. E o destino final dessa produção será, com certeza, a produção de etanol, aliviando duplamente o ambiente e colaborando duplamente na questão do aquecimento global.

Ao mesmo tempo, a chuva passará a se infiltrar no solo, deixando de escorrer pela superfície, arrastando terra para o curso dos rios.

Verdade seja dita: o ambiente agradece.

A paisagem volta ao normal, sem buraco, e em breve estará coberta pelo verde da cana


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sexta-feira, novembro 09, 2007

Reunião de Cúpula em Washington

(Ou: uma obra de ficção política. Ficção? Tem certeza?)

Washington, DC, um dia qualquer de janeiro de 2012. Na sala da direção de tv lotada com equipamentos eletrônicos, o clima é de tensão e nervosismo. O diretor de tv repete a mesma pergunta a cada dez minutos.

- Onde está o avião da comitiva brasileira? A nevasca está se aproximando e se demorar muito vão ter que desviar para o sul e a reunião de cúpula será um fracasso.

- Calma, Doug, os caras da Força Aérea disseram que está a quinze minutos de vôo, agora. Relaxa, cara, relaxa.

As telas mostram a chegada há uma hora da Presidente Hillary Clinton, ou simplesmente Presidente Hillary, como prefere ser chamada. Deve ter lá seus motivos para essa quebra da tradição, do protocolo e da educação. Apesar do frio e do vento, ela dirigiu-se à pista e recebeu com um caloroso abraço a presidente da Argentina, Dona Cristina, recém-reeleita para mais quatro anos. As duas mulheres dirigiram-se apressadamente para o salão do Aeroporto especialmente preparado para a ocasião. Agora, as câmeras mostravam os diversos grupos espalhados pelo salão em animadas conversas. A roda mais numerosa reunia os primeiros-cavalheiros dos Estados Unidos e da Argentina. Os outrora poderosos presidentes ocupavam agora papéis secundários, apesar dos esforços do Senhor Kirchner em aparecer ao lado e um pouco atrás de sua esposa em todas as solenidades. O comentário geral em Buenos Aires era de isso já era parte de sua campanha para suceder a esposa. Curiosamente, a menor rodinha era formada por apenas duas pessoas, coincidentemente as mais poderosas em seus respectivos países.

- Pombas, mas por que esse avião atrasou tanto? O que foi que houve? O protocolo, as agendas, os horários, tá tudo quebrado, detonado, tudo terá que ser refeito.

- A CIA disse que o atraso foi porque Mr. Lula estava reunido com seu amigo Ricardo Teixeira, aquele que manda em tudo por lá, no Comitê Brasil 2014.

- Mas a Dona Marisa Letícia não alertou-o para o horário?

- Olha, os informes da CIA dizem que ela perdeu poder sobre ele. Agora ele vive mais para essa Copa do que para Brasília e os interesses do Brasil.

- My God...

- Três minutos para o pouso! – o alerta veio do fundo, do rapazinho sardento com um comunicador digital ligando a boca à orelha ou vice-versa. Não importava, o bom é que o negócio funcionava.

Doug olhou para o lado ao ouvir um resmungo. Era o coronel da Força Aérea encarregado de supervisionar o pouso do avião presidencial brasileiro. Percebendo o olhar, o coronel virou-se para ele e começou a reclamar.

- Veja só, um Airbus, uma droga dum avião europeu comprado com o dinheiro que pagamos para eles pelo álcool e pelo café. Deveriam ter tido a decência de comprar um Boeing.

Sem vontade para responder Doug acenou, um gesto que poderia significar qualquer coisa, da concordância total à desconcordância absoluta. Não tinha mais paciência para ouvir as eternas reclamações fardadas.

O avião taxiou e dirigiu-se para a frente da torre. O piloto parou o monstrengo voador exatamente no tapete vermelho parcialmente coberto pela neve. Rapidamente, a porta do aparelho foi aberta e dois agentes da segurança presidencial brasileira apareceram, olhando para tudo. Enquanto um permaneceu ao lado da porta, exposto ao vento ártico, o outro desceu e encontrou-se com seu colega americano, mergulhando em tão profundas quanto desnecessárias conversas sobre a segurança da comitiva.

Um rápido olhar da comissária-chefe, que encostou-se à fuselagem, dando passagem para a Presidente do Brasil, Dona Marisa Letícia. Nesse momento, a banda do Corpo de Fuzileiros Navais começou a executar “Aquarela do Brasil”. Dona Marisa Letícia tinha feito questão de ser recebida com toda a pompa e circunstância a que tinha direito. No pé da escada, as duas presidentes dos dois maiores países das Américas encontraram-se, trocando um abraço e beijos nos rostos. Com aquele vento gelado e os flocos de neve essa não era uma boa idéia, mas,costumes são costumes, e se os brasileiros gostam de se beijar, beije-se, então.

O primeiro-cavalheiro desceu logo depois e trocou demorado e efusivo com Bill, o primeiro-cavalheiro americano. Conversando animadamente com um intérprete entre ambos, dirigiram-se para o salão atrás de suas presidenciais esposas.

Começava naquele momento, para valer, a Reunião de Cúpula das Américas. Em pauta, a invasão da Colômbia comandada pessoalmente por Hugo Chávez, Presidente e Protetor Eterno da República Bolivariana da Venezuela.

- Emerson, Emerson... Emerson... Emerson!

- Hummm? Que é, que foi?

- Levanta, você perdeu hora, já passa das oito.

- Saco!


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segunda-feira, novembro 05, 2007

Beija-flores: alimentar ou não?


(Há algum tempo vinha adiando a publicação desse post, até que recente comentário da Lilly fez-me ver que já era mais que hora.

Lilly, embora eu também não goste muito das garrafinhas, creio que é melhor enfatizar a necessidade dos cuidados diários que devem ser tomados por quem quiser mantê-las.)

Não vou nem discutir a beleza, graça e o prazer que proporciona a visão de um beija-flor se alimentando num bebedouro estrategicamente colocado numa varanda ou numa janela. Aliás, não se deve começar um texto com “não”. Bom, tem um monte de coisas que tampouco são recomendáveis, muito mais sérias que não começar um texto com “não”. Uma dessas coisas, sem dúvida, é pôr o bebedouro com água adoçada com açúcar ou dextrose e não cuidar dele da maneira correta.

O que é essa maneira correta?


Tesourão em flor de mini-grevilea, no Sítio das Macaúbas - Julho 2007.


Reconheço minha ignorância e busco o auxílio não dos “universitários”, mas de Johan e Christian Dalgas Frisch. O trecho que vem a seguir é a transcrição do que eles publicaram no belíssimo e extremamente útil “Jardim dos Beija-Flores”:

O uso de bebedouros artificiais exige cuidados dos quais o amador de aves não pode descuidar, sob pena de infectar toda a população de beija-flores que freqüenta sua área. Em primeiro lugar, deve-se prestar especial atenção à mistura que será oferecida aos traquilídeos.

Renomadas organizações conservacionistas dos Estados Unidos recomendam a seguinte fórmula: uma parte de açúcar refinado para cada quatro partes de água. Ferve-se a água, adiciona-se o açúcar, espera-se que dissolva completamente e deixa-se esfriar. A mistura deve ser guardada no refrigerador para evitar a fermentação do néctar. A adição de quaisquer outras substancias, como o mel, por exemplo, pode provocar a proliferação de um fungo que infecta o aparelho bucal dos beija-flores e causa morte por asfixia.

Pronto para matar a fome e a sede - bebedouro na chácara dos meus sogros, em Santa Rita do Passa Quatro. Esse pequeno é "invasor", pois quem manda nesse bebedouro é um tesourão.


A higienização dos bebedouros é fundamental para garantir a saúde das aves, já que os fungos se formam em frascos sujos (desenvolvem, ao invés de formam, é mais correto; nota do blog). A água com açúcar deve ser trocada diariamente, para evitar fermentação. Pelo menos duas vezes por semana deve-se colocar as garrafinhas em um balde com água e cândida, para desinfectá-las.

... Tão logo as aves estejam acostumadas com eles (os bebedouros), não se deve mudá-los de lugar. Há tipos de colibris bastante territoriais, que defendem a área bravamente contra representantes da mesma espécie ou outros congêneres, as flores ou o frasco onde estão acostumados a se alimentar. Assim sendo, cada garrafa é verdadeira “propriedade particular” de determinados beija-flores e modificações no seu posicionamento desencadeiam verdadeiras guerras pela posse do espaço vital bruscamente alterado.

Animais, todos eles, têm amor à rotina. Felicidade é um dia igual ao outro todo dia, ou seja, comida e água à vontade todo dia no mesmo lugar e horário. Colibris não exceções a essa regra, portanto, colocar um bebedouro implica em assumir e manter um compromisso extremamente sério, pois a estabilidade de uma população é sempre definida, em primeiro lugar, pela estabilidade do fornecimento de alimentos de qualidade.

Em Santa Rita do Passa Quatro, minha sogra e meu sogro têm um bebedouro há muitos anos. Mas eles são extremamente “caxias” e cumprem rigorosamente a rotina – frequentemente, no verão, mais de uma vez ao dia – de lavar e abastecer o bebedouro; e lavagem séria, bem feita, e duas ou até três vezes por semana com “banho” em água misturada com água sanitária.

O bebedouro é palco de incontáveis visitas e, naturalmente, brigas diárias. As visitas não se resumem a três ou quatro diferentes beija-flores, mas incluem, também, as cambacicas. Outro cuidado que eles têm é a manutenção de várias plantas com flores do agrado dos bichinhos, principalmente arbustos de camarão.

Eu, particularmente, não sou muito adepto das garrafinhas, e prefiro o plantio de vegetais cujas flores sejam fontes de alimento pelos beija-flores. Temos várias espécies já plantadas no sítio, desde a russélia e o camarão,

Tesourão em flores de russelia, a cerca de 50 centímetros do chão - Sítio das Macaúbas - Julho 2007.


até os ipês e patas-de-vaca, passando pelas mini-grevíleas e diademas, fora as plantas nativas que surgem do nada, como o cipó-de-são-joão e os maracujazeiros nas bordas da matinha. Um plantio de espécies úteis a eles, é muito mais gratificante do que a garrafinha e, por incrível que pareça, dá menos trabalho, e esse pouco de trabalho pode ser muito gratificante. Muitas plantas nem precisam da terra de um jardim e dão-se muito bem em bancadas e vasos, como a russelia e o camarão.

Fornecer alimento a um ou mais animais implica em compromisso. Muitas vezes quem faz isso não entende que está interferindo no curso normal da natureza e que se retirar essa oferta de alimentos, vai interferir ainda mais. Portanto, se possível, ofereça mais flores e menos água com açúcar. Se possível, mesmo fornecendo a água como se deve, não deixe de plantar espécies que alimentem esses pequenos e lindos seres voadores.

Beija-flor em eritrina ou suinã-do-litoral, em alameda na Fazendinha - setembro/2007.


(As fotos desse post foram feitas pelo autor no Sítio das Macaúbas ou nas ruas e alamedas na Granja Viana e na Fazendinha, no município de Carapicuíba, Grande São Paulo.)

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Cuidado! Capivara



A Marginal Pinheiros tem duas situações: parada ou com o trânsito em alta velocidade, alta intensidade, alto número de veículos. Muitos motoristas nunca devem ter reparado nas placas que o pessoal do Projeto Pomar, que fez um belíssimo trabalho de formação de pequenos maciços de árvores e arbustos ao longo de toda a Marginal, colocou para orientação dos motoristas que utilizam a estrada de serviço, e terra, que acompanha o rio.



O trânsito parado permite o tempo de uma rápida olhada, com o capim entre os motoristas e a placa.



Ao fundo, na outra margem, o complexo de prédios do World Trade Center, sede de empresas hightech, como Microsoft e Monsanto, entre muitas outras. Entre a placa e os cérebros, o rio poluído, os trilhos da CPTM, a outra pista da Marginal...
Mundos muito distintos.



Outro dia vi um filhote de capivara. Estava deitado ao lado de um arbusto, tranquilo, talvez pensando na vida ou na morte da bezerra, ser que ele nunca viu e só deve conhecer de ouvir dizer. Vi de relance, o trânsito, aleluia, andava e andava bem.

Elas estão por ali e em outros pontos da Marginal. Bichinhos resistentes, vamos falar a verdade. Mas com algum gosto, afinal, moram ao lado dos metros quadrados que estão entre os mais caros e descolados de Latino América.



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sexta-feira, novembro 02, 2007

Cambacica


Essa simpática figura se alimentando numa flor de eritrina, também costuma visitar os bebedouros para beija-flores.
As duas espécies não se bicam, nos dois sentidos: não são
"amiguinhas", mas tampouco se atracam em brigas ferozes. Apenas convivem na mesma área, visitando as mesmas flores, suportando-se uma à outra.


É a cambacica. Não sei, ainda, porque cargas-d'água, seu outro nome popular é caga-sebo. Se bem que essa história de nome popular está virando lenda. A maioria das pessoas, hoje, desconhece o nome de quase todos os pássaros. Alguns, mais "informados", ainda conhecem as pombas e os pardais, e acho que pára por aí.
Uma pena, pois conhecer é fundamental para preservar.
Ninguém preserva o que não conhece.





A cambacica é outra habitante aqui da Granja Viana e também lá do sítio.



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quarta-feira, outubro 31, 2007

País engraçado


Com esse título acima já fica claro ao leitor e à leitora desse blog que não vou falar sobre a Suíça. Tampouco irei falar sobre o Canadá, Islândia, Suécia ou Noruega. São países chatos, falemos a verdade. Tudo funciona e, geralmente, funciona bem. O povo é saudável e educado, etc e tal, e, em lugares assim, é difícil achar coisas engraçadas. Preconceito? É, talvez, um pouco, um pouquinho só.

País engraçado poderia ser a América, digo, os Estados Unidos da América, mas, sei lá, com essa atual elite dirigente pode-se chamar os USA de qualquer coisa, menos de engraçado.

Itália! Sim, a Itália é engraçada, coisa que outros latinos como a França, Espanha e Portugal não são. São muito sérios, muito empolados, muito cheios de si, enfim, não são engraçados. Alemanha? Hahahahaha... Engraçado é alguém pensar que a Germânia possa ser engraçada. Ah, a Inglaterra, sim, a “velha e pérfida Albion”, essa é engraçada. Um humor oposto ao italiano, mas humor. Mas tampouco falarei desses dois. Agora já deve ter ficado claro que eu, logicamente, vou falar do mais engraçado de todos os países: o Brasil.

O Brasil é tão engraçado que não duvido nem um pouco que nossa primeira-dama lance-se candidata à sucessão do maridão. Se Dona Cristina fez isso na terra dos hermanos ao sul, que na média são mais educados e politizados que nós, por que não Dona Marisa Letícia para Presidenta? O problema seria o que fazer com o primeiro-marido, ou primeiro-cavalheiro da República. Essa questão paralisaria por meses os já paralisados trabalhos do Congresso Nacional. Pergunto-me se o primeiro-cavalheiro viraria papagaio-de-pirata da esposa, reproduzindo o que ela mesma faz hoje com ele, talvez, como aventei há pouco tempo, já em campanha pela sucessão.

O cúmulo da graça tupiniquim seria a reeleição de Dona Marisa Letícia em 2014, ano da Copa no Brasil. E, por que não, com os fantásticos avanços da medicina, em especial na geriatria, lulla da Silva poderia, constitucionalmente, voltar à doce presidência em 2018, com perspectivas de ali permanecer até 2026. O cúmulo da (des)graça, sem dúvida.

Todavia, sendo o Brasil tão engraçado como é, por que não? Inclusive, cúmulo da graça, teríamos como mandatária suprema da nação uma cidadã italiana e os primeiros-filhos seriam,também, cidadãos italianos. Na falta de um povo do primeiro-mundo, teríamos dirigentes do primeiro mundo de carteirinha e tudo.

Crise moral

Estou morrendo de vontade de ler a edição da revista masculina que estampou em sua capa e páginas internas aquela senhora, teúda e manteúda de alto mandatário republicano. O problema é que sou um cara de poucos, mas firmes princípios. E não vou gastar um centavo dos meus já parcos para engordar a já muito gorda conta dessa distinta senhora, da qual, por sinal, nada quero ver, mas que percebe-se, de gorda nada tem, exceto a conta bancária.

Ué, então por que você quer a revista? – pergunta o leitor curioso e a leitora indignada.

Simples, estimada leitora preocupada com minha moral.

Simples, estimado leitor, descrente de meus princípios.

O que me interessa nessa revista são... as entrevistas.

O pior vem agora: podem acreditar, o que digo é vero, é veríssimo.

É fácil entender o porque: dois de meus ídolos estão nas páginas da tal revista masculina, na mesma edição, em duas entrevistas supimpas.

Uma, muito curta, com o técnico do São Paulo, Muricy Ramalho. Meu ídolo.

Outra, a maior, com meu ídolo e leitura obrigatória todo sábado na Veja:

Diogo Mainardi.

Fui cortar o cabelo na sexta-feira. O barbeiro, cujo nome ainda não gravei, discretamente tirou uma revista da gaveta e estendeu-a para mim.

Oba! Era a tal revista.

Ah, não era... Era o número anterior, com uma starlet qualquer, mais uma daquelas que se formou na faculdade de reality show. Nem abri, devolvia, e pedi uma “Caras”. Como disse, eu sou um cara de princípios, e a rápida vista-d’olhos pela “Caras”, além de nesse caso preservar meus princípios, coloca-me em dia com todas as fofocas do mundo das personalidades. Foi assim que descobri que essa revista “tem” um castelo na Toscana, com vinhedo próprio e tudo. Um castelo de verdade e meio velhusco, pelo que pude ver nas fotos, onde um casal – ele ator famoso, ela cantora desconhecida – passeia pelo vinhedo e enche uma cesta de palha com cachos de uva. Puxa, se a revista fosse minha eu recortaria a foto maior dos dois com as uvas e fazia um quadrinho, pra pregar na parede.

Agora, nobres leitores, estou já pensando em como e no que fazer que justifique um convite de “Caras” para alguns dias num castelo toscano.

Enfim, preservei meus firmes princípios e não contribuí pro caixa da teúda e manteúda republicana. Fiquei em dia com as fofocas do mundo do beautiful people tupiniquim e, fantástico, descobri um castelo, descoberta que vai exigir desse pobre escriba a dura labuta de lançar um livro, aparecer no Jô e aí, quem sabe, receber o convite para alguns dias no castelo toscano em meio às vinhas. Mais que isso, só dois disso, nesse país realmente engraçado.


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segunda-feira, outubro 29, 2007

Cenas da Granja Viana e um Sabiá cantando

Primeiro o vídeo com o canto...
Depois a foto do cantor e mais algumas.









Esse é o cantor, um sabiá. Pensei que fosse o poca, mas não é, talvez seja o una.


Um dos nossos visitantes habituais. Essa árvore fica a poucos metros das janelas do lado direito de casa. Os visitantes gostam de banana e mamão, principalmente. Nesse dia, para fotografar, joguei banana sobre o teto do nosso vizinho, mas normalmente colocamos as frutas nas árvores.





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domingo, outubro 28, 2007

O sumiço dos colibris

A primavera já termina seu primeiro terço e as chuvas chegaram. Apesar disso, na caminhada de hoje, retomada depois de algum tempo de ausência, não vi nenhum beija-flor e por um motivo simples: não há flores nesse trecho.

O inverno, curiosamente, é rico em floradas: temos os ipês, as bauínias – a branca, nativa, que é a pata-de-vaca, e a lilás, exótica e prima-irmã -, o cipó-de-são-joão, a eritrina – que permite fotos belíssimas dos beija-flores com suas árvores sem folhas – e mais a diadema, as caliandras e muitas outras mais, tanto árvores como arbustos e cipós. Com a chegada da primavera, vão-se as flores e vêm as folhas e os frutos. Sem aquelas, os beija-flores partem em busca de outros pastos. Aqui na Granja Viana devem encontrar floradas em meio aos pedaços de matas que ainda persistem entre casas e loteamentos.

Isso me leva a pensar que os paisagistas e jardineiros precisam ter uma visão mais abrangente e ecológica. Não basta, simplesmente, plantar determinado número de árvores, é importante que esse plantio seja feito com espécies adequadas, que propiciem alimentação às aves e mesmo às outras espécies que ainda habitam nossa região, como os sagüis, gambás, serelepes e outros pequenos mamíferos que conseguem sobreviver em meio ao que chamamos de civilização.

Para os beija-flores, por exemplo, é importante a presença de plantas florescendo por todo o ano, de forma mais ou menos equilibrada. Um excesso de floradas no inverno, seguida pela escassez na primavera e no verão, é péssimo para os colibris, força-os a deslocamentos nem sempre possíveis nesses dias de crescimento urbano acelerado. As plantas que deram alimento ontem, hoje podem estar tombadas no chão, picotadas, esperando o transporte para algum forno distante. Não custa relembrar que depois das flores vem os frutos, e esses vão alimentar outras espécies. Seria bom que o paisagismo mudasse um pouco, priorizasse menos a estética e contemplasse mais a diversidade e persistência. Isso é ótimo até mesmo em pequenos jardins, e em áreas maiores pode fazer toda a diferença para a manutenção de parte da fauna que ainda resiste.

Os tico-ticos estão entre os que resistem e fazem seus vôos curtos por toda parte. Pousam em galhos, mourões de cercas, muros, e seu canto, que me acompanha desde a primeira infância e primeiras memórias, faz a trilha sonora dominante da caminhada.


Inevitavelmente, penso na seca que ora termina, tarde demais, e penso na Califórnia. Mais de um milhão de desabrigados e desalojados devido aos incêndios. Que nada mais são que o corolário natural da seca persistente associada ao calor excessivo. As casas, bem ou mal, em sua maior parte seguradas, serão reconstruídas. Mas toda a vida animal e vegetal já foi extinta ou espantada. Com sorte, em quinze, vinte anos ela retorna. Ou não...

No sítio, o sol voltou pleno desde ontem. É hora de correr e adubar os piquetes e também o canavial, aproveitando a umidade. Mas olhar para o céu ainda é mandatório, pois choveu pouco e precisamos dela todo dia, de preferência, suave e persistente, molhadeira, criadeira.

Dia a dia, todo dia, toda hora, ou quase isso, por um motivo ou outro, meu pensamento é assaltado pelas lembranças e preocupações com o aquecimento global e o depauperamento de nossos bens mais preciosos, desde os gorilas no Congo até os sagüis aqui perto de casa, com seu habitat sendo tomado por novas e bonitas casas, aceleradamente.

Em algum momento futuro algo mais concreto que escrever, falar e plantar algumas dezenas de árvores será necessário. Por enquanto, o jeito é plantar mais e tentar reciclar o máximo de coisas que pudermos.

Bom domingo e boa semana a todos.


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Este é o primeiro – espero que de muitos – vídeo que posto no blog, e acabou sendo justamente desse personagenzinho pequeno e simpático, presença constante em minha vida, como já escrevi e me repito. Espero que dê certo e todos possam ver e ouvir sem problemas. Mais do que nunca, agradecerei os retornos a respeito, para saber se funciona ou não, se bem, mais ou menos ou mal. :o) ...


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terça-feira, outubro 23, 2007

Seca, calor, fogo...

Outubro está chegando ao final e as chuvas, a bem dizer, ainda não começaram. Esse ano está sendo tão seco e terrível como o de 2005.

No sítio está tudo seco, tudo – terra, plantas, animais – esperando ansiosamente pela água que cai do céu e renova vidas e esperanças.

Nossa situação, porém, não é tão grave como a dos californianos. Uma vez mais a seca, o calor, os ventos fortes e, com certeza, ações criminosas, levaram a mais de 80.000 hectares incendiados, com perdas de centenas de casas, dezenas de feridos e pelo menos uma morte. Mais de 250.000 pessoas abandonaram suas casas em virtude do alto risco de fogo.

O verão foi quente e seco e o outono não está trazendo alívio.

Por aqui, um outono com pouca chuva, inverno seco e a primavera começando seca e quente. As frentes frias que chegaram a São Paulo foram fracas e com pouca umidade. Olho esperançoso o ícone no alto do blog: informa previsão de 49 mm para amanhã, em Santa Rita do Passa Quatro. Tomara...

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domingo, outubro 14, 2007

Duas chegadas e um atraso


Finalmente, chegou o horário de verão oficial. Eu gosto dele, mesmo porque já estamos vivendo o horário de verão aqui em casa, e também no sítio, há um bom tempinho. A passarinhada ignora os relógios oficiais, não ligam para o Jornal Nacional, tampouco para a novela das oito, religiosamente às nove, toda noite, exceto aos domingos, quando, presume-se, descansam os atores e descansamos nós, embora o fantástico show da vida não seja muito chegado a descansos, nem mesmo os semanais. Pergunto-me por que cargas d’água ainda dizemos que a novela é das oito? Digressões filosóficas à parte, a passarinhada acorda e começa sua algazarra ainda antes dos primeiros raios do sol invadirem a cozinha.

A cachorrada não fica atrás e, se há luz, é hora do sagrado café-da-manhã, o pão com leite de todo dia. Para as vacas, é a hora de levantar, preguilçosamente, e esperar pela ordenha matinal, dando leite para os humanos e para os bezerros. Para os gatos, é chegada a hora de dormir, antes, porém, também eles têm direito ao café da manhã, no caso leite puro. Barriga cheia, ou mais cheia, é procurar a cama mais próxima para repor as energias gastas durante a noite de caça.

Os dias agora são mais longos, mas não são mais gostosos por causa disso. Não ainda, pois falta o essencial: a luz chegou, mas as chuvas estão atrasadas. De nada adianta esse mundo de luz sem água. É difícil, também, encontrar a beleza repousante de pastos e árvores verdes, plenos de vida, apesar da explosão de flores dos ipês brancos e rosas, dos jacarandás e várias outras árvores, uma mais bonita que a outra. Não adianta, mesmo que os olhos se concentrem na beleza das flores, outros sentidos apontam para a secura do ar, a poeira que as vacas levantam nos seus trilhos preferidos, e uma vaga sensação de inquietude, impaciência, ansiedade.

No tempo certo, já chegaram o primeiro chocotone e o primeiro panetone. Para mim, é o sinal que o ano terminou, daqui pra frente, agora, são apenas pequenos detalhes para fechar o calendário. 31 de dezembro está logo ali adiante, e com ele, o primeiro dia de um novo ano.

E nada das chuvas, só ameaças e pingos esparsos.

Um pouco como a tal da felicidade.

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sexta-feira, outubro 05, 2007

Uma viagem há trinta anos


Mais ou menos por esses dias completei 30 anos de minha primeira e inesquecível viagem para a região amazônica, se bem que o correto é dizer para uma das muitas regiões amazônicas, pois são muitas e diferentes as diversas Amazônias. Já naquela época existia a gritaria a respeito de queimadas na região, gritaria e queimadas que persistem até hoje, e cujos efeitos fazem-se sentir, menos o dos gritos, mais os das queimadas.

Fui para lá a convite de uma grande empresa multinacional que tinha comprado uma enorme fazenda para a criação de gado. Eram 140.000 hectares, ou 1.400 quilômetros quadrados (o município de São Paulo tem pouco menos de 1.600 quilômetros quadrados, para comparação), localizados na parte sul da floresta amazônica propriamente dita de terra firme.

O motivo da viagem para um grupo de jornalistas (eu, infelizmente, não era, mas fui como gerente da sucursal de uma revista agrícola de prestígio e levei comigo a jornalista que trabalhava para a revista em São Paulo) foi mostrar a fazenda e desmentir o noticiário que já tinha corrido o mundo meses atrás, dizendo que a empresa estava “queimando a Amazônia”.

Precisaria de muito tempo para escrever e muitas laudas para contar o que foi a viagem e seus diversos impactos sobre minha visão do Brasil, do futuro e do mundo. Naquele distante ano de 1977 eu era um idealista militante político de esquerda, frequentemente colocando a ação política acima de minhas obrigações familiares, mas nunca acima de minhas obrigações profissionais (triste, eu sei, mas só vim a reconhecer isso muito tempo depois, arrependendo-me de ter negligenciado a vida familiar em prol da política e da profissão, essa muito menos que aquela). A história completa talvez conte em outra hora.

O que causara as manchetes nos jornais europeus e americanos? Por que a gritaria ganhava foros tão amplos, 15 a 20 anos antes da globalização, internet, comunicações instantâneas entre as pessoas? As fotos feitas a 400 km da Terra pelo Skylab, um misto de estação espacial e satélite que fotografou as grandes queimadas, cobrindo áreas de milhares de quilômetros quadrados. Era tudo muito assustador. Muito mais do que a realidade. Na verdade, o que aparecia como grandes incêndios, era mais o aumento da temperatura a cobertura da camada de fumaça do que o incêndio, a queimada, propriamente dita. A tecnologia de sensoreamento remoto ainda apanhava um pouco na época, mas a tecnologia das manchetes catastróficas já era de pleno domínio por toda parte, desde sempre, aliás.

Curiosamente, ao chegar na fazenda, fui o único dos visitantes que aceitou sobrevoar toda a região num pequeno monomotor Cessna. Os demais passaram o dia desse vôo em agradável descanso na sede da fazenda. Interessante, esse fato, aprendi muito com ele.

Aprendi mais ainda com o vôo, não só por gostar e ter voado muitas horas, mas também por ter um domínio razoável de geografia e saber localizar-me com relativa precisão. Em dois sobrevôos, cobrimos todos os pontos cardeais da fazenda e seu entorno. Durante muito tempo nada vi embaixo da gente que não fosse o verde intenso e sem falhas da floresta. Mas vi, também, as áreas abertas naquela fazenda e nas vizinhas. Do ar e da chão.

No outro dia, andamos pela fazenda num veículo com tração nas quatro rodas. Novamente, a maioria do pessoal ficou pela sede e seus arredores, mas o meu interesse não era ver casas, escola, conversar com pessoas. Até vi e fiz tudo isso, mas rapidamente. O que eu queria, mesmo, era ver pasto, era ver mata, era ver as áreas em processo de abertura, era ver queimada. Vi tudo isso e mais: pegadas de onça numa picada nova, numa área que viria a ser queimada talvez no ano seguinte. Lembro com clareza da emoção que senti ao ver aquelas pegadas na terra vermelho-alaranjada exposta à luz depois de centenas, talvez milhares de anos coberta pela floresta.

Fui tomado por sentimentos contraditórios. De um lado, queria, como sempre quis e quero, a preservação integral e perpétua da floresta. Por outro lado, reconhecia, como reconheço, a necessidade de gerar riquezas, empregos, desenvolvimento, proporcionar vida decente para milhões de pessoas, coisas que, inevitavelmente, conflitam com conceitos como preservação absoluta, por exemplo. Seja aqui, seja na África, Ásia, Oceania, Sibéria, Antártica...

Aquela fazenda era vítima de uma gritaria desproporcionalmente alta em relação à realidade. De sua área total, ela podia, legalmente, desmatar 70.000 hectares, a metade. Todavia, o plano de ocupação e desenvolvimento da fazenda, ocuparia apenas 56.000 hectares, ou seja, os demais 14.000 seriam incorporados à área de preservação permanente. Até aquele momento, no quarto ou quinto ano de ocupação e formação da fazenda, um total de 40.000 hectares haviam sido queimados e preparados para o plantio de pastos. As queimadas eram feitas em áreas delimitadas e controladas, nunca passando de 500 hectares de cada vez, mas geralmente bem menos. Enfim, o diabo era feinho, mas infinitamente menos do que diziam ser.

Ah, sim, as pessoas, não falei delas, ainda.

Muita gente trabalhava na fazenda, a maioria, claro, pessoas ocupadas em trabalhos braçais ou de pequena especialização. Peões de obras, peões de fazenda, vaqueiros, eram a maioria. A empresa levou de São Paulo para lá, assistentes sociais para ensinar às pessoas coisas como o uso de banheiros, vale dizer, o uso das privadas com um luxo como água corrente. As mulheres eram ensinadas a usar... torneiras. Incrível, não? Mas, verdadeiro, eu vi e conversei com essas pessoas.

A molecada era um caso à parte. Na fazenda, todo mundo com menos de 16 anos de idade, estudava e não trabalhava. Algo impensável ainda hoje nos sertões do Brasil. A escola, única, era grande, confortável, janelas teladas, pé-direito alto, em pleno calorão amazônico as salas de aula eram frescas e confortáveis. As professoras, todas, eram recrutadas em São Paulo, donas de excelentes currículos, muito acima da média das professoras de escolas públicas e privadas da metrópole. Todo o material escolar, gratuito, ia de São Paulo para a fazenda. Isso me marcou, marcou muito, para sempre.

Fora tudo isso, o básico para uma comunidade: posto de saúde (muito bem equipado), um clube para o lazer dominical, igreja, templos, etc. Toda a área da sede era servida por energia elétrica, gerada por um “locomovel”, um gerador gigante com cara e jeito de locomotiva a vapor, alimentado pela madeira das áreas abertas para pasto. Funcionava das seis da manhã às dez da noite, para todos, sem exceção, inclusive o presidente mundial da empresa quando por lá passou e pernoitou.

Essas coisas todas somadas davam-me uma doce visão de um futuro possível. Pena que, ao olhar para o horizonte, via os penachos negros da fumaça de uma queimada.

Confesso que ainda não resolvi totalmente essa contradição entre desenvolvimento e preservação em minha cabeça, mas já adiantei bastante a resolução, e ela passa, obrigatoriamente, pelo máximo possível de preservação. Desde então, foram inúmeras minhas viagens pela Amazônia, nos seus mais diferentes pontos e cenários. Tenho claro que o ideal, hoje, seria uma parada total e permanente de qualquer nova abertura, de qualquer nova destruição de florestas, desejo, infelizmente, utópico e motivado, também, por um motivo egoísta, talvez, e que muita gente desconhece: o regime de chuvas do interior do estado de São Paulo, assim como parte do Paraná, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, é determinado pelos “rios voadores”, frentes úmidas que são formadas na Amazônia e empurradas para toda essa região pelas correntes atmosféricas. Chega a ser assustador descobrir esse fato e pensar no que ocorre hoje em toda a região amazônica.

Isso tudo seria uma introdução para falar sobre a expansão da lavoura de cana pela Amazônia, mas o que era introdução virou um texto com vida própria.

A conversa sobre a cana fica para depois.


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