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quinta-feira, dezembro 27, 2007

Cunha, belezas e feiúra

(Esse post repete, um pouco, o de 5 de agosto de 2007. )




A igreja é antiga, as datas na torre contam um pouco de uma história que começou no século XVIII, ainda.

O café ainda não era uma realidade, sequer conhecido era. Algumas décadas passariam até sua chegada aos morros do Vale.





Com o café veio o dinheiro farto, abundante.
Todo mundo enricou.
Não, Cunha e o Vale do Paraíba estão no Brasil, portanto, alguns poucos enricaram.
Belas casas, belas sedes de fazendas, belas igrejas foram alguns dos resultados do dinheiro do café.



A nova face da igreja combina com os novos tempos de Cunha: beleza nas construções, combinando com a paisagem, trazendo os turistas das grandes cidades.




O céu do inverno seco, do qual o ipê é testemunha, fecha o pacote de uma das muitas belezas de Cunha.



Aqui já teve café.

Antes, porém, era tudo mata, Mata Atlântica.

Foi derrubada e queimada e o café foi plantado.


O café exauriu esses morros e em seu lugar vieram pastos, cada vez mais fracos, cada vez sustentando menos gado, cada vez mandando mais terra para os cursos d'água nas enxurradas.

Essa é a herança triste e empobrecedora do café.

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sexta-feira, outubro 05, 2007

Uma viagem há trinta anos


Mais ou menos por esses dias completei 30 anos de minha primeira e inesquecível viagem para a região amazônica, se bem que o correto é dizer para uma das muitas regiões amazônicas, pois são muitas e diferentes as diversas Amazônias. Já naquela época existia a gritaria a respeito de queimadas na região, gritaria e queimadas que persistem até hoje, e cujos efeitos fazem-se sentir, menos o dos gritos, mais os das queimadas.

Fui para lá a convite de uma grande empresa multinacional que tinha comprado uma enorme fazenda para a criação de gado. Eram 140.000 hectares, ou 1.400 quilômetros quadrados (o município de São Paulo tem pouco menos de 1.600 quilômetros quadrados, para comparação), localizados na parte sul da floresta amazônica propriamente dita de terra firme.

O motivo da viagem para um grupo de jornalistas (eu, infelizmente, não era, mas fui como gerente da sucursal de uma revista agrícola de prestígio e levei comigo a jornalista que trabalhava para a revista em São Paulo) foi mostrar a fazenda e desmentir o noticiário que já tinha corrido o mundo meses atrás, dizendo que a empresa estava “queimando a Amazônia”.

Precisaria de muito tempo para escrever e muitas laudas para contar o que foi a viagem e seus diversos impactos sobre minha visão do Brasil, do futuro e do mundo. Naquele distante ano de 1977 eu era um idealista militante político de esquerda, frequentemente colocando a ação política acima de minhas obrigações familiares, mas nunca acima de minhas obrigações profissionais (triste, eu sei, mas só vim a reconhecer isso muito tempo depois, arrependendo-me de ter negligenciado a vida familiar em prol da política e da profissão, essa muito menos que aquela). A história completa talvez conte em outra hora.

O que causara as manchetes nos jornais europeus e americanos? Por que a gritaria ganhava foros tão amplos, 15 a 20 anos antes da globalização, internet, comunicações instantâneas entre as pessoas? As fotos feitas a 400 km da Terra pelo Skylab, um misto de estação espacial e satélite que fotografou as grandes queimadas, cobrindo áreas de milhares de quilômetros quadrados. Era tudo muito assustador. Muito mais do que a realidade. Na verdade, o que aparecia como grandes incêndios, era mais o aumento da temperatura a cobertura da camada de fumaça do que o incêndio, a queimada, propriamente dita. A tecnologia de sensoreamento remoto ainda apanhava um pouco na época, mas a tecnologia das manchetes catastróficas já era de pleno domínio por toda parte, desde sempre, aliás.

Curiosamente, ao chegar na fazenda, fui o único dos visitantes que aceitou sobrevoar toda a região num pequeno monomotor Cessna. Os demais passaram o dia desse vôo em agradável descanso na sede da fazenda. Interessante, esse fato, aprendi muito com ele.

Aprendi mais ainda com o vôo, não só por gostar e ter voado muitas horas, mas também por ter um domínio razoável de geografia e saber localizar-me com relativa precisão. Em dois sobrevôos, cobrimos todos os pontos cardeais da fazenda e seu entorno. Durante muito tempo nada vi embaixo da gente que não fosse o verde intenso e sem falhas da floresta. Mas vi, também, as áreas abertas naquela fazenda e nas vizinhas. Do ar e da chão.

No outro dia, andamos pela fazenda num veículo com tração nas quatro rodas. Novamente, a maioria do pessoal ficou pela sede e seus arredores, mas o meu interesse não era ver casas, escola, conversar com pessoas. Até vi e fiz tudo isso, mas rapidamente. O que eu queria, mesmo, era ver pasto, era ver mata, era ver as áreas em processo de abertura, era ver queimada. Vi tudo isso e mais: pegadas de onça numa picada nova, numa área que viria a ser queimada talvez no ano seguinte. Lembro com clareza da emoção que senti ao ver aquelas pegadas na terra vermelho-alaranjada exposta à luz depois de centenas, talvez milhares de anos coberta pela floresta.

Fui tomado por sentimentos contraditórios. De um lado, queria, como sempre quis e quero, a preservação integral e perpétua da floresta. Por outro lado, reconhecia, como reconheço, a necessidade de gerar riquezas, empregos, desenvolvimento, proporcionar vida decente para milhões de pessoas, coisas que, inevitavelmente, conflitam com conceitos como preservação absoluta, por exemplo. Seja aqui, seja na África, Ásia, Oceania, Sibéria, Antártica...

Aquela fazenda era vítima de uma gritaria desproporcionalmente alta em relação à realidade. De sua área total, ela podia, legalmente, desmatar 70.000 hectares, a metade. Todavia, o plano de ocupação e desenvolvimento da fazenda, ocuparia apenas 56.000 hectares, ou seja, os demais 14.000 seriam incorporados à área de preservação permanente. Até aquele momento, no quarto ou quinto ano de ocupação e formação da fazenda, um total de 40.000 hectares haviam sido queimados e preparados para o plantio de pastos. As queimadas eram feitas em áreas delimitadas e controladas, nunca passando de 500 hectares de cada vez, mas geralmente bem menos. Enfim, o diabo era feinho, mas infinitamente menos do que diziam ser.

Ah, sim, as pessoas, não falei delas, ainda.

Muita gente trabalhava na fazenda, a maioria, claro, pessoas ocupadas em trabalhos braçais ou de pequena especialização. Peões de obras, peões de fazenda, vaqueiros, eram a maioria. A empresa levou de São Paulo para lá, assistentes sociais para ensinar às pessoas coisas como o uso de banheiros, vale dizer, o uso das privadas com um luxo como água corrente. As mulheres eram ensinadas a usar... torneiras. Incrível, não? Mas, verdadeiro, eu vi e conversei com essas pessoas.

A molecada era um caso à parte. Na fazenda, todo mundo com menos de 16 anos de idade, estudava e não trabalhava. Algo impensável ainda hoje nos sertões do Brasil. A escola, única, era grande, confortável, janelas teladas, pé-direito alto, em pleno calorão amazônico as salas de aula eram frescas e confortáveis. As professoras, todas, eram recrutadas em São Paulo, donas de excelentes currículos, muito acima da média das professoras de escolas públicas e privadas da metrópole. Todo o material escolar, gratuito, ia de São Paulo para a fazenda. Isso me marcou, marcou muito, para sempre.

Fora tudo isso, o básico para uma comunidade: posto de saúde (muito bem equipado), um clube para o lazer dominical, igreja, templos, etc. Toda a área da sede era servida por energia elétrica, gerada por um “locomovel”, um gerador gigante com cara e jeito de locomotiva a vapor, alimentado pela madeira das áreas abertas para pasto. Funcionava das seis da manhã às dez da noite, para todos, sem exceção, inclusive o presidente mundial da empresa quando por lá passou e pernoitou.

Essas coisas todas somadas davam-me uma doce visão de um futuro possível. Pena que, ao olhar para o horizonte, via os penachos negros da fumaça de uma queimada.

Confesso que ainda não resolvi totalmente essa contradição entre desenvolvimento e preservação em minha cabeça, mas já adiantei bastante a resolução, e ela passa, obrigatoriamente, pelo máximo possível de preservação. Desde então, foram inúmeras minhas viagens pela Amazônia, nos seus mais diferentes pontos e cenários. Tenho claro que o ideal, hoje, seria uma parada total e permanente de qualquer nova abertura, de qualquer nova destruição de florestas, desejo, infelizmente, utópico e motivado, também, por um motivo egoísta, talvez, e que muita gente desconhece: o regime de chuvas do interior do estado de São Paulo, assim como parte do Paraná, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, é determinado pelos “rios voadores”, frentes úmidas que são formadas na Amazônia e empurradas para toda essa região pelas correntes atmosféricas. Chega a ser assustador descobrir esse fato e pensar no que ocorre hoje em toda a região amazônica.

Isso tudo seria uma introdução para falar sobre a expansão da lavoura de cana pela Amazônia, mas o que era introdução virou um texto com vida própria.

A conversa sobre a cana fica para depois.


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domingo, agosto 05, 2007

Cunha


Depois de muitos anos, estive ontem em Cunha, nos altos da Serra do Mar, entre Guaratinguetá e Paraty.
Uma cidade gostosa e bonita.

Fiz várias fotos das torres da igreja matriz, motivado pelo azul do céu, os fiapos brancos de nuvem cortada por fortes ventos de entrada de frente fria, as cores da igreja e os galhos desfolhados de uma árvore.


Tão pelados como os galhos dessa árvore estão os inumeráveis morros que cercam a cidade, aliás, não somente essa, mas todas as outras do Vale do Paraíba.

Apesar de tudo que já sabemos sobre a necessidade de conservar as matas nos topos de morros e imperiosa necessidade de não mexer com o solo em encostas muito íngremes, os morros, sistematicamente, ficam carecas e as encostas perdem o verde protetor e mostram tons de cinza e amarelo do solo exposto e, em muitos casos, do próprio subsolo.

Assustador.




A eterna corrida contra o relógio não me permitiu mais fotos.

Quem sabe um dia?


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terça-feira, maio 22, 2007

Professeur Bové / Eu, rainmaker



Monsieur le Professeur Joseph Bové

Hoje foi um dia proveitoso em minha vida, ou melhor, mais proveitoso que a média, já que todo dia – por que não? – é proveitoso. Digo isso sobre hoje porque tive o prazer de conhecer o Prof. Bové, pesquisador, cientista na acepção da palavra, com muitos trabalhos e descobertas na área da sanidade vegetal, particularmente nas plantas cítricas.

O Prof. Bové é pai daquele desmiolado Bové – José Bové – que, levado por vagabu... ops, militantes do MST, invadiu a estação experimental da Monsanto em Não-Me-Toque, Rio Grande do Sul, totalmente destruída pelos bravos companheiros. José Bové foi candidato a presidente da França na recente eleição, embora sua candidatura tenha sido mais simbólica e geradora de propaganda do que propriamente para valer. Se Mme. Royal tivesse vencido, dava-se como certo que Bové seria seu Ministro da Agricultura. Vade retro...

Enquanto o filho destrói laboratórios, o pai pesquisa, estuda e contribui decisivamente para o progresso da ciência e, por extensão, do bem estar das pessoas. Coisas da vida, claro.

Bom, esquecendo o filho e falando do pai: ele vem regularmente ao Brasil há alguns anos, colaborando com o pessoal que trabalha na pesquisa de doenças que afetam as plantas cítricas, sua grande especialidade. Conversamos muito rapidamente, infelizmente, por conta das velhas coisas de sempre: sair correndo dum lado para o outro para gravar alguma coisa. Pena que nunca levei realmente a sério meu estudo de francês, pois teria sido muito interessante conversar com ele em sua língua nativa e não em inglês. Se bem que, para ser sincero, é ótimo conversar em inglês com outro não-nativo.

A gente se entende com perfeição.



Eu, rainmaker

Hoje me ofereceram emprego como chuveiro.

Isso mesmo, chuveiro, o cara que faz chuva, um fazedor de chuva.

Em língua corrente, um rainmaker, entenderam?

Pois é, basta ter gravação agendada, fazermos toda a produção, pega isso, pega aquilo, arruma aqui, ajeita acolá, trezentos, quatrocentos quilômetros de estrada, cansaço, quase nada de tempo para dormir e... Chuva! Logo cedo, abençoada e deliciosa chuva em pleno terço final de maio. Eu é que não vou reclamar, apesar dos atrasos no trabalho.

E dadas tantas coincidências – três vezes já – estão falando em meu nome como rainmaker, o fazedor de chuvas do pedaço. Se bobear, breve estarei recebendo convites para visitas estratégicas ao Nordeste. Com todo o prazer.


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quarta-feira, março 28, 2007

Nas estradas da vida

A tarde de começo de outono ia do meio para o fim, a temperatura já estava mais gostosa e a proximidade do sítio tornava tudo ainda melhor, completando a sensação de bem-estar e “em paz com o mundo e a vida” iniciada quase uma hora antes, numa barraquinha/Kombi meio mambembe, na beira da estradona entre Araraquara e São Carlos.

Naquele trecho há um monte de peruas transformadas em quiosques vendendo garapa e outras coisas. Mas a garapa, ou caldo-de-cana, é o carro-chefe. Toda vez que passo por aquele trecho e o calor é forte e o tempo permite, paro e tomo meu caldo-de-cana. Esse pequeno hábito, ainda que muito espaçado, é coisa que me acompanha desde sei lá quando, mas acho que desde os meados dos anos setenta.

É, o tempo passa...

Comento isso com o garapeiro que tem toda a pinta de ex-alguma-coisa desempregado, que comprou uma Kombi véia e foi pra beira da estrada ganhar a vida. Além da garapa ele vende ovos caipiras, mel, doces diversos, e sei lá mais o que, nada que me interesse. Os ovos são meio caros, como tudo mais na beira da estrada. Uma pilha de embalagens com ovos grandes se destaca. Diz ele que são caipiras com duas gemas.

Hummmmmmm...

Sou capaz de apostar alto que são ovos de granja, isso sim. As galinhas caipiras botam poucos ovos com duas gemas e são criações pequenas. A quantidade de ovos naquela barraca só poderia ser gerada numa grande criação, com milhares de galinhas poedeiras. Logo, numa granja. Estatisticamente fácil de se perceber. Logo, o simpático kombeiro-garapeiro não é lá muito honesto no quesito “ovos”, mas o é no que importa a mim, o caldo-de-cana, gelado, doce e saboroso.

O garapeiro conta que a cana, fininha e até meio feia, é mesmo muito doce e é toda fornecida pelo Picinin, um situante dali de perto, que entrega pra ele e todos os outros garapeiros daquele trecho. E faz isso há muitos anos já, pelo jeito, a vida toda. Não duvido, respondo pra ele, afinal, eu mesmo passo por ali há trinta anos ou pouco mais e lembro-me da garapa ser sempre boa, confiável, doce ao extremo.

Termino meu copo, ele enche novamente e lá vai goela abaixo, refrescante e energizante. Mal termino, ele enche o copo pela terceira vez e ainda me ameaça com o que sobrou na jarra e que, certamente, renderá mais um, o quarto copo. Entristecido, mas satisfeito e de barriga cheia, declino. Aumento em 1/3 o valor que tenho a pagar e ele protesta, dizendo que não precisa, os copos extras são cortesia da Kombi, digo, da casa. Sim, sim, eu sei que são cortesia, e esse algo mais no pagamento também é cortesia. O atendimento foi excelente, super-gentil, o produto estava excelente, delicioso e bem gelado, me botou de bem com a vida (não que eu estivesse de mal com ela, mas, sempre é bom estar, explicitamente, de bem) e achei justo deixar um pouco mais. Apesar da história dos ovos de duas gemas serem caipiras. Um pecadilho menor e que serve muito bem para mostrar-nos como somos, os brasileiros. Somos legais, mesmo com um pouco de ilegalidade aqui e ali.

E depois de tudo isso, de novo na estrada, outra estrada, e outra, e, finalmente, a estradinha vicinal pro Sítio das Macaúbas. E, nela, já perto do Brejão, a visão da paineira, tão bonita que força uma nova parada.

Por puro prazer.




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A paineira se destaca na paisagem tomada pela cana nos dois lados da estrada.



É bonita a danada, e cheia...



... tão cheia que esconde outras duas logo atrás dela, embora não tão bonitonas.




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sábado, novembro 18, 2006

Desculpe o incômodo


Saímos cedo de São Paulo, mas com o sol já alto. Horário de verão é a melhor coisa do verão; o dia começa mais cedo, mais gostoso e termina da mesma forma. Para quem trabalha em vídeo, como eu, com a maior parte do trabalho a campo, é uma delícia, pois o dia rende, rende muito mais. Na roça, então, nem se fala. Na verdade, no sítio nosso horário de verão começa muito antes do horário oficial, afinal, as vacas não têm a mínima noção dessas invencionices ligadas à divisão do dia em horas, minutos e segundos, tampouco conhecendo semanas ou meses. Vivem de acordo com as estações e suas mudanças, ou viviam, até que nós aparecemos e mudamos tudo.

A caminho do local de nossa gravação, uma granja produtora de ovos, um pedágio. Paguei com prazer. As obras na Raposo Tavares ficaram prontas, finalmente, e agora atravessamos Cotia e Vargem Grande sem parar, a 90 ou 100 km horários, numa estrada boa, protegida do trânsito nas laterais, em pistas expressas. Ah, se ainda morasse na chácara de outrora, quando a estrada tinha pistas simples e cruzava um vazio urbano que ficou cheio de tudo: gente, lojas, carros, ônibus, caminhões e lombadas, muitas lombadas.

Há mudanças que são muito boas.

Subimos a Serra de São Roque, cujo nome indígena é mais bonito e sonoro: Serra da Taxaquara; descemos e seguimos em frente por um bom trecho, deixando duas cidades para trás. Basta entrar em uma área de campo e minha atenção redobra. Olho a paisagem sempre com os olhos de quem poderia estar ali, vivendo, trabalhando, criando. Deve ser resquício dos devaneios de viagem a bordo do “trem de luxo” da Paulista, quando me projetava em toda fazenda, em todo sítio, em toda beira de rio que enxergava da janela ou da plataforma do vagão.

Essa região em especial me agrada muito. Gosto de sua altitude, gosto do frio e da umidade, das manhãs e tardes tomadas pela neblina em parte do ano, brincando um jogo de mostrar e esconder. Gosto das árvores e do cheiro gostoso do capim-gordura e gosto mais ainda quando deparo com araucárias, não muito comuns, mas tampouco raras. E tudo fica melhor quando o asfalto se transforma em terra batida onde rodamos pouco, pois a granja que procuramos está próxima.

Passamos por uma entrada bonita, hortênsias exuberantes acompanhando uma pequena cerca de tábuas brancas de cada lado da porteira aberta e convidativa. Ou não muito, pois ao lado uma placa é curta e grossa: “Não temos galinhas”. Ok, está bem, temos que seguir em frente mesmo. E quem disse que eu quero galinhas?

Rodamos mais um trecho olhando atentamente nas entradas de sítios que apareciam e nada de aparecer a granja. Algo, porém, me incomodava e tinha a ver com a placa das galinhas, ou melhor, da ausência de galinhas.

Meia-volta, volver. (O velho comando presente em todo episódio de Rin-tin-tin, o mais fantástico de todos os filmes, como julgava do alto de meus oito, nove anos de idade, e ainda não perdido na memória...)

A impressão inicial revelou-se correta e a granja era aquela mesma, a "Não temos galinhas". Passamos pelas hortências e subimos um pouco pelo carreador ladeado por pequenos arbustos que devem ficar carregados de flores em outra época e mais algumas moitas de hortêncas, com seu colorido, tamanho e forma meio escandalosos. Logo avistamos os galpões onde as galinhas ficam alojadas. Gravar galinhas não me agrada, assim como não gravo mais criações de porcos, devido ao confinamento dos animais. No caso das galinhas é muito pior, pois as infelizes ficam a vida inteira presas numa pequena gaiola metálica, apenas comendo, bebendo, botando e defecando. Essa é uma das criações mais tristes que existem. Mas hoje não vou falar dela e nem das galinhas do sítio, às voltas com suas disputas pelo galho mais alto para dormir, fugindo dos galos, levando seus pintinhos por toda parte atrás de grãos, insetos e tudo o mais que seja comestível e que, no caso de galinhas, esses pequenos dinossauros empenados, é tudo que seja comestível.

Os cachorros nos recepcionaram, dois entre muitos, a maioria retirados do canil municipal e vivendo, agora, a vida que todo cachorro pediu ao grande Deus Canino. Meu estado de espírito melhorou. O granjeiro, de segunda geração, é um cara novo, simpático, boa conversa. O trabalho flui com facilidade, a conversa rola, o depoimento é ensaiado, testado, repetido e finalmente fico satisfeito com duas versões boas. Sua esposa aparece com a terceira geração pelas mãos, um menino e uma menina. Ela, com roupa de ballet a caminho da academia. Ele, com a pequena mão apertando o nariz para não sentir o cheiro das galinhas. Tenho a impressão que a terceira geração estará distante das galinhas e seus ovos no futuro, como acontece com grande parte dos produtores de alimentos que conheço.

(Produtor de alimento diz algo mais que produtor rural, não é?)

A luz ajudou, com o sol ainda coberto por um renque de velhos eucaliptos e a sombra em todo o campo abarcado pela lente. Realmente, nada como o horário de verão para quem trabalha em atividades externas. Fiz amizade com os cachorros, inclusive um akita com seu porte senhorial e cara sempre séria, gravamos a coleta dos ovos – cerca de 25.000 por dia – e a distribuição de ração para as galinhas e a hora de ir embora chegou. Não sem que antes chegasse um casal para comprar galinhas. É comum isso: moradores da região vão até lá e compram galinhas que estão prestes a serem descartadas, vale dizer, abatidas. Embora já não sejam lucrativas para a granja, pois custam mais em ração do que produzem em ovos, elas são bastante produtivas para quem as criar soltas, com a ajudinha de um pouco de ração ou mesmo milho.

Ao passar pela porteira vejo a placa novamente. De nada adianta dizer que não tem galinhas, pois ninguém acredita e todo mundo entra. E acaba saindo com as galinhas pretendidas.

A placa não termina com a negativa das galinhas, e tem mais uma frase embaixo, bem típica de um povo e de um tempo que já não encontramos com facilidade nessa Terra de Vera Cruz:

“Desculpe o incômodo.”

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quarta-feira, setembro 06, 2006

Ouro Preto d'Oeste



No começo desse ano andei novamente por Rondônia.

Escrevi a respeito na época.

Naveguei pelo Madeira como das outras vezes e fui para regiões que ainda não conhecia, como Cerejeiras e Colorado d'Oeste.

Uma vez mais passei por Ouro Preto d'Oeste. Dessa vez com alguns minutos a mais, o bastante até para permitir uma parada na beira da estrada e uma foto ao lado do símbolo do município, uma grande vaca preta e branca com um retireiro fazendo a ordenha. Senti-me em casa.

Desde a primeira vez que passei por ali fiquei com vontade de mudar com malas, cuias e vacas e estabelecer-me por ali mesmo, numa fazendinha leiteira.

Ah, os sonhos que as paisagens despertam. Nesse ponto sou meio cigano. Tão cigano que até fazenda no Nepal, no sopé do Himalaia, sonhei em ter. Ora, francamente, tirar leite de iaques embaixo do Everest? Coisa de maluco.

Ouro Preto d'Oeste tem vacas, tem leite, tem castanheiras, tem florestas, é uma terra cheia de coisas bonitas. Mas é quente pra burro!

Quando lembro do calor, o lado rondoniense - ou rondoniano? - do meu coração se volta para Vilhena.

Mas que Ouro Preto d'Oeste é bonita, ah, isso é. E cheia de vacas.

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P.s.: fico devendo a foto, ou melhor, o sistema blogger fica devendo; desde que mudou e entrou a versão beta, tudo ficou mais difícil; agora, nem foto sozinha estou conseguindo postar.

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sábado, setembro 02, 2006

Itá – Santa Catarina

Itá ou ita significa pedra, em tupi-guarani.

Itá era o nome de uma cidade do sudoeste catarinense, fundada por imigrantes alemães e italianos, vindos do Rio Grande do Sul, em 1916, às margens do Rio Uruguai. Viveu pacatamente, às custas da exploração de madeira e da agropecuária, até o começo dos anos 80, quando desapareceu sob as águas da Barragem de Itá, represamento do Rio Uruguai para a produção de eletricidade.

A velha cidade era pequena, com uma rua principal que vinha da direção do rio e terminava em frente à igreja, já num local mais, e atrás da qual começava a morraria. Com a inundação, apenas as duas torres da igreja permaneceram fora d’água. Diante disso, a Eletrosul criou uma “ilha”, soterrando a nave e mantendo as torres, que se erguem da terra como se nela estivessem plantadas. Virou atração turística.

A Nova Itá foi pensada, planejada e criada num alto de colina. Suas ruas são largas, modernas, é uma cidade agradável. E mais salubre, mais arejada – aliás, muito arejada – e, provavelmente, até mais bonita. Não conversei com seus moradores, não posso dizer que são mais felizes ou infelizes no alto do que eram na baixada. Mas, se conheço um pouco do ser humano, se sentem bem agora, mas lamentam o passado perdido, sempre muito melhor que o presente. Só na imaginação, claro.

Gravamos na granja que aparece nas fotos 1 e 2, de propriedade do Ildo Dalla Lastri. Além dos frangos, ele, como muitos outros proprietários, tem umas vaquinhas Jersey.

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As torres de Itá Velha

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As torres, cercadas pela água.
Nas outras fotos, feitas nessa semana, a água está mais baixa, bem mais baixa.
Efeito da seca.
(Foto do site da cidade de Itá.)

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Sob as águas...

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Sob essas águas, em meio a essa morraria, a Velha Itá repousa.
Por cima dos velhos tetos, os barcos navegam.

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Itá – Santa Catarina

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quinta-feira, agosto 31, 2006

Fora do mundo

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Dois dias inteiros no interior de Santa Catarina e volto sem saber do que anda acontecendo. Culpa do interior catarinense? Não, longe disso. Culpa de meus próprios hábitos, a cada dia mais e mais imutáveis. Ou imexíveis, como talvez dissesse antigo ministro de tempos que achávamos tétricos. É... Nada como um dia depois do outro, mostrando aquilo que a gente teima em não acreditar: o poço pode ser sempre mais fundo.

Em meu habitat normal, estou cercado por meu computador com acesso banda-larga conectado full time, minha tevê recebendo o mundo por mini-parabólica e mostrando-o em dezenas e dezenas de canais, e mais meu sagrado jornalão diário, companheiro inseparável de todo café-da-manhã, além da também inseparável revista semanal. Se por algum motivo, coisa que por sinal é igualmente mais e mais rara, tenho que sair, costumo ligar o radio do carro em uma estação AM. Ouço o noticiário radiofônico e a cobertura idem para a vida na megalópole.

No oeste catarinense estive fora do meu habitat. No meu quarto de hotel tinha uma tevê, mas há muito tempo perdi o hábito de assistir ao noticiário por essa mídia. Além disso, estamos em plena vigência do maledeto horário político, outra lembrança da ditadura militar, convenientemente aproveitada e mantida pelos democratas de sempre, interessados primeiro e acima de tudo em sua própria manutenção e reprodutibilidade. Coisa básica em qualquer ser vivo, e única nos seres chamados inferiores nos reinos animal e vegetal: bactérias, fungos, protozoários, vermes e políticos.

Sem acesso à internet e sem assistir à televisão, trabalhando duro e corrido o dia inteiro e sem coragem para bater perna pela cidade nas noites geladas, mergulhei de cabeça no último livro da Patrícia D. Cornwell lançado entre nós, vivenciando as aventuras da Dra. Kay Scarpetta & Cia. bela.

Na manhã de hoje retomei meu contato com a, digamos, realidade da vida e das coisas. Hummmmm... Sim, com as contas também, pois as infelizes fazem parte da dita cuja realidade.

E, constato, sem surpresa, que nada mudou. Nadica de nada.

lulla da Silva segue em sua retumbante marcha rumo à reeleição. Para surpresa do mercado, o COPOM altera sua sacrossanta política e reduz a taxa básica em meio ponto percentual, ao invés do quarto de ponto rotineiro. Parece bobagem, é bobagem, mas num quadro mais amplo tem lá seus efeitos. E benesses para o candidato oficial.

Em São Paulo o governo estadual aperta o regime prisional dos chefes do crime organizado e a resposta é imediata: ataques terroristas. Mais do que nunca é nítida e clara que a onda terrorista não é devida a um recrudescimento na criminalidade ou mesmo a uma brutal falha na segurança estadual. É o que sempre foi e poucos quiseram enxergar e anunciar: uma atitude de revanche e desafio ao único governo que ousou endurecer o regime nas prisões, isolando pelo RDD – Regime Disciplinar Diferenciado – os chefes da bandidagem. Essa é a verdade, e assombra-me a incompetência do governo do Estado presente e passado, que não bota a boca no trombone e dá nome aos bois como se deve.

No horizonte, a nuvem chinesa – e não é a do cogumelo nuclear – segue crescendo. E assustando, menos às autoridades tupiniquins, que enxergam nos camaradas apenas bons possíveis parceiros ideológicos na luta contra o reino do mal. Quando acordarem, se acordarem, será muito tarde.

Relativa calma no Líbano. Mas o chefe de Assuntos Humanitários da ONU denuncia Israel por usar bombas de dispersão, cada uma com centenas de pequenas bombas. Pior: segundo ele, muitas dessas bombas não explodiram ainda. Apesar de minha permanente postura pró-direito de Israel de existir e seguir sua vida, nesse momento considero o estado israelense um estado terrorista. Igualou-se aos estados terroristas que sempre combateu. Tempos atrás li algo a respeito, não me lembro de quem, infelizmente. Em essência, dizia o autor que o combate continuado ao crime e a conseqüente exposição prolongada aos criminosos, acaba provocando a transformação moral de quem combate o crime, que julga poder usar os mesmos métodos que os terroristas, nesse caso, usam, contra eles próprios. Nada mais equivocado. O estado deve ser sempre sábio e não-revanchista.

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Bom, no sítio estamos às voltas com uma epidemia.

Sim, uma epidemia, imaginem. Uma epidemia de partos, pode? Só nessa semana foram três, com dois machinhos e uma só fêmea. As vacas vão bem, ainda, obrigado. Que venham as chuvas, que venham os dias longos e as temperaturas altas, estimulando e fazendo o capim crescer. Preciso de capim nos pastos, muito capim.

Minhas vacas merecem.


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segunda-feira, agosto 28, 2006

Fora do ar

Este blog estará meio fora do ar até quinta-feira, 31 de agosto, porque o blogueiro estará em Santa Catarina, gravando frangos, porcos, paisagens, carretas frigorificadas e o interior de uma indústria de processamento de frangos e suínos.

Por conta disso não fui para o sítio nesse fim-de-semana, pois preciso cumprir um período mínimo de 72 horas de "Vazio Sanitário", para poder entrar nas granjas de aves e suínos.

Vou de Fokker 100, mesmo. :o)

E voltarei do mesmo jeito.

Na volta, comentários e fotos, talvez.

Viajo preocupado com a China. Digo, com os efeitos da economia chinesa sobre a nossa. Tanta coisa boa pra ter na cabeça e tenho isso.

:o)

Boa semana para todos.
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sexta-feira, agosto 04, 2006

Pássaros, calor e uma terma na beira do Pantanal

“Já ontem, ao caminhar lá fora sob um sol de esturricar os miolos, a temperatura beirando os 40, vi um bando de pássaros na calçada. Todos eles de bico aberto, ofegantes! Nunca vi isso. Espero nunca ver de novo.”

Tirei esse relato do blog de um amigo que não mora em São Paulo.

Não, tampouco mora nos arredores do Raso da Catarina, na caatinga baiana. Parece até uma descrição de alguma cidade à margem do Pantanal Matogrossense no alto verão, mas não é. E não é, também, nenhuma cidade no meio do imenso pampa.

Meu amigo C J Ballantyne (e que não se deixe levar pelo belo e sugestivo e, vá lá, saboroso nome) mora em Washington, DC. Isso mesmo, ele mora na mesma cidade em que mora o George Walker, conhecido popularmente como Presidente Bush. E, com essa proximidade (vai ver tomam café na mesma padaria...), me pergunto se Mr. Bush chegou a ver outro bando de pássaros ofegantes, com os bicos abertos, nos jardins imaculados da Casa Branca?

Duvido. Mr. Bush não me parece o tipo de sujeito que olha para uma cena

como essa. E também não se deixa sensibilizar por ela. Aliás, Mr. Bush não se sensibiliza nem com Kyoto, que dizer de um bando de passarinhos?

Bom, mas falei demais nesse personagem que me desagrada profundamente. Não tanto por suas ações externas, digamos, mas muito mais pelas internas, reduzindo e ameaçando a maior contribuição dos Estados Unidos à humanidade: o respeito aos direitos civis. Mas disso falo em qualquer outra hora, não agora.

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Há coisa de dois ou três meses eu estava no Mato Grosso, viajando por todo o estado, gravando fazendas, armazéns, lavouras, o de sempre, o que gosto. Tínhamos chegado cedo à fazenda, localizada na borda do Pantanal. Aqui cabe uma explicação. O Pantanal do Mato Grosso é uma grande bacia, que foi um mar há algum tempo atrás, coisa de poucos milhões de anos: Mar de Xaraés. É uma região baixa, entre 100 e 140 metros acima do nível do mar. Sua grande calha de escoamento, o Rio Paraguai, tem um desnível médio quase imperceptível, coisa de 1 a 1,2 centímetro por quilômetro. No Brasil, suas divisas ao norte, nordeste, leste e parcialmente sudeste, são as escarpas do Planalto Central. Em alguns pontos são abruptas, e despencam 150, 200 metros. No alto das escarpas, no Planalto, planta-se soja, milho, algodão. Cria-se gado. Estávamos numa dessas fazendas em abril, e a seca desse Ano da Graça de 2006 já tinha começado. Mas naqueles dias algumas chuvas passageiras visitavam a região.

Enquanto meu cinegrafista gravava a região, sem espaço para mim no pequeno aparelho voador, um ultraleve, fiquei em terra, olhando o céu, olhando as árvores, passeando pelo pomar cheio de ninhos e passarinhos.

De volta à sede e ao escritório da fazenda, protegido pela gostosa sombra de um fícus, voltei minha atenção para um grande bando de pássaros-pretos. A manhã já ia adiantada, o sol alto, o calor forte e a passarinhada saía do pomar e pousava numa poça grande de água de chuva na beirada da rua de terra batida que ligava os silos e a oficina ao escritório. Uma testemunha solitária de uma chuvarada isolada. O bando, com muito mais de cem passarinhos, descia em meio a uma forte algazarra e pintava de preto boa parte do contorno da poça.

Subitamente, por nada ou por alguma coisa de mim desconhecida, todos levantavam vôo e voltavam para as árvores do pomar. Não demorava 15 minutos, estavam de volta, e recomeçavam os banhos, o tititi e o converseio em volta da piscina.

Numa das voltas encontraram alguns canários-da-terra e rolinhas. Não houve acordo, não houve conversa, e foram todos expulsos. Gostam de exclusividade os pássaros-pretos, ou talvez não gostem de platéia para seus banhos. O sol foi subindo no céu, o mercúrio na escala do termômetro.

Pouco depois, em novo retorno à terma, pois, com o calor, era nisso que se transformara a poça d’água de chuva, lá estavam os canários-da-terra novamente. Dessa vez, contudo, não levantaram vôo, continuaram a se banhar. Apesar dos protestos indignados de parte do bando, nada foi feito e todo mundo ficou por ali, aproveitando a manhã quente e a água gostosa.

Passado algum tempo meu pessoal retornou e fomos pra cantina, onde matrinchãs preparadas com capricho nos esperavam. A seca continuaria, como continua até agora e continuará por muitas semanas mais. Fiquei pensando onde aqueles bandos barulhentos iriam encontrar água para seus banhos e para beber, no meio do cerrado transformado em lavoura. Os pássaros ofegantes e de bicos abertos de Washington lembraram-me dos banhistas da terma da poça-d’água.

Como estarão eles agora? Os do sul e os do norte?

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terça-feira, abril 25, 2006

Uma cachorrinha e um sonho lotérico


Desci do carro numa fazenda no interior do Mato Grosso e os cachorros vieram correndo em minha direção. Não precisava ter medo, de longe sabia que eram amistosos. Mais que isso, estavam loucos de vontade de nos ter como amigos.

Eram dois, um macho e uma fêmea. O macho saltitava ao redor, com vontade de pular em nossas pernas, vontade domada pelo medo de um castigo. A fêmea gania, abaixa-se, balançava com imensa força seu rabo fino e comprido. Para não abocanhar a gente na demonstração de alegria, trazia na boca um papel. Mais que um papel, um volante de loteria. Com jeito, pedi-lhe que me desse o papel. Ela deu. Imediatamente, pegou do chão uma folha seca de uma árvore qualquer e ficou com ela na boca. Treino, medo ou simples mania? Nunca saberei.

Esperançoso, olhei o volante.

Vazio.

Nenhum número marcado.

Mas, aqui e ali, manchas de sujeira. Com boa vontade e alguma adivinhação, poderiam passar por indicações.

Bobagem da grossa? Quem sabe? Quem é que conhece os caminhos e atalhos com que a sorte nos presenteia?

Dobrei o volante e guardei-o no bolso. Abaixei-me e acariciei a cachorrinha, nessa altura mais que uma nova amiga, uma mensageira da boa fortuna. Ué, por que não? Tudo, nesse mundo, é possível. Além de carinhos em sua cabeça, como um prêmio extra, arranquei alguns carrapatos já graúdos, cheios de sangue, pequenas azeitonas escuras se destacando contra sua pelagem branca. Bonzinho, fiz o mesmo, porém um pouco menos, no macho. Só depois disso fui atrás do meu pessoal que já estava bem à frente, preocupados em fazer o trabalho dentro do prazo, gravando imagens para uso futuro, enquanto eu me detinha em festinhas para cachorros e devaneios com prêmios de loterias.

Agora, passados vários dias, já joguei na loteria, tentando adivinhar se as marcas de sujeira estavam no 39 ou no 22. E sonhei, claro. Nada ganhei. Acho que a Dona Sorte esqueceu de marcar os números ou a cachorrinha pegou o volante errado. Não faz mal. Naquele momento nós nos divertimos e vivemos alguns bons minutos, os dois cachorrinhos e eu. Não é pouca coisa.


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quinta-feira, abril 20, 2006

Mato Grosso, Céus & Chuvas - 8

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Mato Grosso, Céus & Chuvas - 7

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Mato Grosso, Céus & Chuvas - 6

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Meios de transporte

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Gosto dessa variedade de meios de transporte. Faltou um barco dessa vez, muito presentes em outras.

Um bimotor Seneca II, fabricado sob licença pela EMBRAER, e no qual já acumulei milhagem e horas de vôo suficientes para... hummmm... Para nada. hehehe

Uma pickup cabine dupla, com tração nas 4 rodas ("traçada").

E um ultraleve, vindo de Canarana, para uso nas gravações.

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Mato Grosso, Céus & Chuvas - 5

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E embaixo de chuva ficamos e abastecemos.

A terra vermelha virou barro, mas nada sério, só precisamos de um pouco mais de jeito e força para mover o Seneca II.

Coisas do Mato Grosso.

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