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sábado, junho 07, 2008

Uma noite, 29 e 19 anos depois de outras

Quarta-feira, começo de junho, noite fria em São Paulo, mas não muito. Noite paulistana, daquelas que dão um prazer enorme por simplesmente poder sentir o frio gostoso e aconchegar mais a blusa ou a coberta. Essas noites são mais quietas, mais tranqüilas, a cidade que pulsa sem parar cada vez mais e mais depressa... relaxa.

Saímos do cinema no shopping na beira da Raposo Tavares e primeiro meu ouvido, depois meu olhar, foram atraídos pelo espoucar dos fogos e o brilho dos rojões estourando no céu e iluminando a noite sobre o Estádio do Morumbi, a uns três, talvez quatro quilômetros em linha reta. Naquele momento o time do Corinthians entrava em campo e a torcida fazia sua festa. Apesar da paixão pelo futebol, naquele momento meus pensamentos andavam distantes dali, muito distantes e divididos entre os ídolos que vi na tela e o mestre, guru, mentor, sei lá como definir, cujo último, derradeiro livro acabara de comprar.



Indiana Jones IV


Vou falar dos ídolos, primeiro. Spielberg, Lucas, Harrison Ford e, claro, mais importante que eles, Indiana Jones. Reparem não, dou-me o direito dessa liberdade, separando criatura de criadores e dando a ela importância maior do que a quem deu-lhe a vida.

Em outra noite, já perdida na memória, saía de um cinema fascinado por mais uma aventura de Indy, dessa vez ao lado de seu pai, e perguntava-me, perguntávamos todos uns aos outros e a nós mesmos, quando veríamos o Indiana Jones IV. Dependesse de nós, apenas, isso já ocorreria no dia seguinte, ou na semana, no mês, o mais tardar no ano seguinte.

Porém, não foi assim. Passaram-se nada menos que 19 anos, o tempo de uma vida, o tempo de uma geração, para que sonhássemos novamente, com mais uma aventura do professor de arqueologia que conquistou nossos corações e mentes.

Falar o que desse novo Indiana Jones?

O mínimo e o máximo que posso dizer é que é mais um Indiana, e isso, para quem conhece e gosta, já diz tudo.

Nesse episódio, cujo final deixa sutis sinais de um quinto – quem sabe? – episódio, Lucas, Spielberg e Ford não deixam passar em branco o que vive hoje a mais rica e poderosa nação do planeta. O Indy de quem o FBI de Hoover suspeita e do qual ele reclama acidamente, é a personificação da Lei Patriótica de Bush. Sua frase “estão enxergando comunistas por toda parte”, nada mais é que a transcrição da realidade presente, onde as forças de segurança enxergam terroristas onde outrora McCarthy e seus seguidores enxergavam comunistas. Eu gostei, afinal, cresci num tempo em que dissecávamos um pueril verso perdido numa música, procurando nele significados ocultos de crítica ao sistema, ao regime militar. Sou da geração dos caçadores de sinais perdidos que desafiavam a censura dos generais.

O filme tem vários outros sinais, ou referências, facilmente percebidas para quem assistiu os anteriores.

Dezenove anos depois... O tempo passou, mas para minha mente sonhadora parece que foi ontem que deixei o cinema feliz depois de ver o Indy III.



“Carne Viva”


Terminado o filme, não poderia ir embora sem passar pela livraria. Ando em falta com esses locais maravilhosos, tão importantes na minha vida. Carregado de culpas, venho comprando meus livros pela internet, todos eles. É barato, sobretudo, e prático, mas tremendamente sem graça, sem charme, quase sem prazer. Nessa noite de quarta mudei meu script e comprei um livro na livraria sem ser a do aeroporto. Uma compra que não poderia, jamais, deixar de fazer: o último livro de Paulo Francis, para mim, ídolo maior que os cinematográficos e, mais que ídolo, guru, qualquer coisa assim, como já disse.

Comecei a ler Paulo Francis no Pasquim, uma coisa ou outra. Também li no Opinião, antes de começar a lê-lo na Folha, que só comprava nos dois dias da semana em que ele escrevia. Isso foi no começo dos anos setenta e eu nada, ou quase nada, sabia do mundo d’além Brasil. Ou d’além São Paulo e Minas Gerais, que era tudo que conhecia. No final daquela década, mais vivido, mais lido, mais sabido, na minha opinião, e já um quadro partidário, ainda militando numa clandestinidade mais light, por força da distensão lenta, gradual e segura de Geisel, li seu primeiro romance, “Cabeça de Papel”.

Marcou-me.

Antes que os 70 terminassem, veio o segundo, “Cabeça de Negro”, outra cacetada. Na noite de seu lançamento em São Paulo, vi Paulo Francis ao vivo pela única vez na vida. Trocamos meia dúzia de palavras protocolares, enquanto ele punha singela dedicatória e assinava meu exemplar, que conservo com carinho e ciúmes extremos até hoje.

Os dois “Cabeças” fizeram minha cabeça, abriram-na até sem grande dificuldade, pois ela já estava preparada, já percebia ou intuía que muitas de minhas fracas crenças eram mortas e sepultadas, como Inês.

O papel, a ação e a importância das esquerdas, que eu já revia a duras penas, sozinho, ressabiado, inseguro, ganharam novos contornos e certezas com essas leituras.

Descobri que a visão que eu tinha do Brasil, meio bagunçada e com vergonha de expor e comentar, não era coisa unicamente minha. Paradoxalmente, até melhorei minha visão e consolidei minha visão da Revolução de Outubro. Paulo Hesse e Hugo Mann, os protagonistas, fizeram mesmo minha cabeça.

Desde aquela noite ainda mais distante, vivida num outro país, num outro mundo, numa era em tudo diferente dessa e em tudo semelhante, sem tirar nem pôr, esperamos pelo terceiro e prometido “Cabeça”, talvez nunca escrito, talvez rascunhado, o livro que dar-nos-ia a chave para fechar nossa compreensão sobre o Brasil.

“Carne Viva” não é o fechamento da trilogia, é somente o último romance de Francis.

Pena que não seja o final da trilogia, mas não importa, Paulo Francis está nele e isso basta. Comecei a leitura, ainda não acabei. Vários compromissos tiram o tempo que deveria ser da leitura. Ele terminou de escrever “Carne Viva” talvez um ano ou pouco mais antes de morrer, em 1997, mas já deu para perceber que o olhar de Francis continua arguto e, vá lá, usarei a palavra que queria evitar, premonitório, tal como em “Cabeça de Negro”, principalmente.

A noite dessa quarta-feira ficará em minhas lembranças. Não pelo futebol de Corinthians aqui e Fluminense no Rio, mas por esses reencontros tão ansiados, tão sonhados e enfim realizados.

Assistam o filme e, principalmente, leiam Paulo Francis. Ele, melhor que qualquer outro, ajuda muito a entender o Brasil.


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terça-feira, dezembro 11, 2007

Para ler ao Harry Potter final

Alguns anos de minha vida foram marcados por um livro chamado “Para leer al Pato Donald”, impresso no Chile de Allende. O autor, cujo nome ignoro e tenho preguiça de vasculhar entre os livros guardados ou escondidos ou, como diz a Rosa, amontoados e juntando poeira (além de ácaros), dizia que Donald, Mickey, Pateta, Tio Patinhas & cia. bela, nada mais eram que pontas-de-lança da dominação intelectual do sistema capitalista e do imperialismo americano sobre as pobres, despreparadas e ingênuas cabeças ao sul do Equador. Para quem, como eu, leu milhares de gibis, teve toda sua infância dividida entre muitos gibis, livros e brincadeiras de rua – essas em menor proporção, assim como a televisão – aquilo era um atentado à minha formação intelectual, era um atentado à minha infância e às doces lembranças de um tempo gostoso, sonhando com aventuras por esse mundo afora e outros, quando o gibi à mão era Flash Gordon. Ainda hoje acho tudo aquilo abobrinha, por mais verdadeiras que possam ser algumas das colocações.

Lembrei-me desse livro ao fazer o título desse post.

Sim, acabei de ler a saga de Harry Potter. Não só acabei como, do alto dos meus 53 anos, declaro que li, gostei, emocionei-me e sentirei falta de Hogwarths e do mundo mágico todo.

Para quem ainda não leu o sétimo e último livro, um conselho de amigo: releia o penúltimo – “O Príncipe Mestiço” – para poder aproveitar o final plenamente.

Harry Potter foi um verdadeiro fenômeno nesses tempos de mensagens cifradas em computadores e celulares, com economia máxima de vocábulos, principalmente por parte da rapaziada mais jovem. É realmente incrível que leiam os calhamaços que foram cada um dos livros, com sua riqueza de personagens e termos como oclumência e testrágoros, entre outros, inventados para dar vida a capacidades e seres de um mundo imaginário. Não foram livros fáceis de serem lidos, pelo contrário, ainda mais nos livros finais, quando conceitos importantes como tolerância, justiça e outros mais foram ganhando importância e vida própria.

Já sinto saudade de tudo isso, e também inveja de quem ainda não leu “Harry Potter e as Relíquias da Morte”.

Ao fim e ao cabo, o primeiro parágrafo ficou perdido nesse texto, exceto pela lembrança e adaptação do título. Mas foi bom falar daquele livro chato e metido, cuja leitura não recomendo, como, aliás, nunca recomendei. Ao contrário do Donald e do Mickey.


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quarta-feira, fevereiro 07, 2007

“Eu > Deus”



A princípio fiquei curioso com o lançamento do livro, mais devido ao autor, confesso, cujos textos costumo ler diariamente, além de assisti-lo pela tevê em programas sobre futebol. Mas... Sei lá, o título me deixou por muito tempo com a pulga atrás da orelha e mantendo distância. Eu sei que é chato à bessa, e também à beça, escrever esse tipo de coisa, mas, que diabos, ou a gente escreve o que pensa e sente, com um mínimo de educação, ou nada escreve, né? E o título, não sei porque, me fazia pensar em um romance existencialista, ou alguma coisa com cheiro e gosto de Kierkegaard e, francamente, tudo isso é ilógico, sem nexo, divagações da minha cabeça a partir de um título.


Até que tive sorte e achei uma boa sinopse na internet, por sinal, num blog, a nova mídia desse começo de século. E fiquei cativado pelo que li, saindo à procura do romance “Eu > Deus”, do Sidney Garambone (Ed. Record, 288 páginas, lançado em 2006, R$ 37,90).

Comprei-o num sábado, começo de tarde preguiçosa. Voltei pra casa, olhei o gramado precisando ser roçado, olhei pro sol, senti o calor, olhei pro livro... e deixei a grama pro final do dia esticado de verão, quando a temperatura estaria mais civilizada.

Pois é... Jacaré cortou? Nem eu. A grama ficou lá, esperando a roçadeira, e eu fiquei deitado no sofazão, tevê desligada, computador hibernando, devorando página após página do livro. Já no domingo, com a ajuda preciosa de umas pancadas de chuva, cheguei ao final, satisfeito e insatisfeito, o que acontece sempre que gosto do livro. Satisfeito por terminar a leitura, conhecer o destino de personagens que me cativaram ou por quem tomei antipatia, e insatisfeito por ficar na boca o gosto de “quero mais”.

Um grupo de amigos, basicamente dois homens e quatro mulheres, reúne-se nas noites de terça-feira num apartamento do Botafogo. Um deles apresenta três filmes, geralmente clássicos do cinema, uma votação decide qual assistir e, terminada a sessão, conversas e discussões que começam pelo filme e tomam novos rumos a cada terça. Como é natural, ainda mais num grupo de solteiros e neo-solteiros em idade e tempo de deixar de sê-lo, envolvimentos encontram excelente ambiente para nascer e prosperar. E definhar, ou não.

É fácil nos transportarmos para as sessões de cinema, com um nome todo próprio, mas que não contarei aqui. Os personagens são pessoas, parecem conhecidos e conhecidas, amigos e amigas, algumas até mais que amigas em tempos remotos. Essa aparente simplicidade e jeito de algo rotineiro é enganadora. Inevitavelmente, o desenrolar das sessões, conversas, olhares, insinuações, paixões, falsas ou verdadeiras, segue uma curva ascendente, como aqueles gráficos dos lucros dos bancos tupiniquins, alimentada e aumentada pelos textos que o narrador escreve madrugada adentro, logo depois de cada encontro e que, movido por sentimentos conflitantes acaba por distribuir a todos os participantes do grupo pela internet.


E a gente, ou eu, pelo menos, acaba se identificando com alguns comportamentos, algumas situações. Surpreso, e feliz, descubro que gritar dentro do carro fechado, em movimento, não é loucura exclusiva desse escriba. E algumas outras coisas, como o caso das... Deixa pra lá, que cada um descubra suas próprias identidades e afinidades.


A cada texto a sessão do dia está ali, meio transcrita, meio inventada, meio recriada. Como o narrador é um escritor, fica claro que ali está o embrião ou o próprio próximo livro dele. E também fica claro que isso acontece porque a internet existe, já que é difícil imaginar alguém datilografando e depois copiando em xérox ou mimeógrafo (para os mais novos: deve ter alguma no google sobre esse negócio chamado mimeógrafo, equipamento de fundamental importância na resistência aos regimes ditatoriais) o texto com várias páginas para distribuir, toda semana, entre várias pessoas. “Eu > Deus” é uma obra dos tempos da internet, e não me refiro à data de publicação.

Se eu fosse um crítico literário escreveria mais e melhor. Se eu fosse um cronista mais inspirado escreveria mais, ou menos, porém com mais graça e inspiração. Diria dos momentos diversos em que a leitura me pôs pensativo. E falaria, claro, das conversas sobre os filmes, imperdíveis, como diria antigo ministro de não saudosa memória. Mas, não importa, creio que disse o fundamental: é um livro bom e, tão importante quanto isto, muito gostoso de ler.

Opa, já estava esquecendo! Tenho, sim, uma crítica a fazer: ninguém do grupo levou um filme sequer do Eisenstein. Se eu participasse, teria levado na minha vez “Aleksandr Nevsky” e, junto com o DVD, um CD com a cantata de Prokofiev para o filme.

Talvez perdesse o direito às pipocas e ao vinho, mas teria levado.

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segunda-feira, novembro 27, 2006

A caminho da extinção


Gosto de comédias românticas. Se for dirigida pela Nora Ephron e com o Tom Hanks e Meg Ryan, gosto mais ainda, como, por exemplo, “You've Got Mail”, ou “Mensagem Para Você”, em nossos cinemas e locadoras. Nesse filme, a Meg tem uma pequena livraria em Nova York – “The shop around the corner” – especializada em literatura infantil, e vê sua loja ameaçada e, finalmente fechada, com a chegada de uma mega-livraria bem próxima, oferecendo de tudo, de capuccino a livros com descontos. Tom Hanks é o principal executivo desse monstro do mal, claro, e os dois... Bom, quem não viu, veja. Comedinha gostosa para um fim-de-semana chuvoso.

Lembrei disso por conta de matéria no Estadão desse sábado, dando conta que caiu o número de cidades brasileiras com livraria. E cresceu o número das que tem provedor de internet.

De acordo com a matéria, em 1999, apenas 16,4% dos municípios brasileiros tinham provedores de internet para conexão à rede mundial de computadores; esse percentual evoluiu para um espantoso índice de 46% do total de municípios com provedores em 2005. Uma notícia alvissareira como a chuva que cai nesse momento. E esse número deve ser muito maior hoje, um ano depois, já que tudo relacionado à internet move-se a velocidades estonteantes.

Nesse mesmo ano, apenas 30,93% dos municípios da Terra de Vera Cruz tinham livraria, número que era de 35,5% em 1999 e hoje deve ser muito menor, até porque a livraria que tínhamos em Santa Rita do Passa Quatro fechou. Cheguei a comprar alguma coisa, mais para ajudar, mas não adiantou. O Brasil ainda não tem mercado para sustentar esses “luxos” fora das grandes cidades, onde as mega-livrarias, que já colocam no bolso aquela do Tom Hanks, ocupam mais e mais espaço.

Pelos nossos padrões eu sou um grande consumidor de livros, um heavy customer, comprando entre vinte e trinta livros por ano, pelo menos. E sempre fui membro daquela subespécie – Homo sapiens rattus bibliothecae – popularmente conhecida como rato-de-livraria e que parece, pelo andar da carruagem, a caminho da extinção. E com a minha decidida colaboração, pois há tempos nada compro numa livraria, exceto na do Aeroporto de Congonhas, onde comprar um livro ou dois é parte do ritual de viajar. Faço minhas compras pela internet. Confesso envergonhado, mas confesso.

Tanto na livraria do Aeroporto – pela pressa – como pela internet, fico privado de um dos prazeres que os livros nos dão: seus cheiros. Numa velha e boa livraria, às antigas, olho em volta, olho de novo, disfarço e, rapidamente, levo o livro ao nariz e aspiro seu perfume. Cada livro tem um diferente, mesmo nessa era globalizada e pasteurizada. Os livros antigos também têm, assim como também têm ácaros e assemelhados, motivo pelo qual é melhor mantê-los a certa distância do nariz.

Comprando pela internet a economia é sensível e nesses tempos de vacas magras e bolsos vazios, economizar é essencial, mesmo que só dê para sentir o cheiro do livro comprado quando ele chega em casa.

Nesse momento não vejo ibama capaz de reverter essas extinções: a das livrarias-livrarias e a dos ratos-de-livraria. E é chato ver esse movimento de mercado e mais chato ainda ser parte dele, satisfeito, mas a contragosto. Ou seja, é ruim, mas é bom, e vida que segue.

Entenderam? Pois é, nem eu.



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domingo, novembro 05, 2006

Digressões dominicais

“Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade é a leitura de romances policiais. Entre o número áureo e reduzido das horas felizes que a Vida deixa que eu passe, conto por do melhor ano aquelas em que a leitura de Conan Doyle ou de Arthur Morrison me pega na consciência ao colo.

Um volume de um destes autores, um cigarro de 45 ao pacote, a idéia de uma chávena de café – trindade cujo ser-uma é o conjugar a felicidade para mim – resume-se nisto a minha felicidade. Seria pouco para muitos, a verdade é que não pode aspirar a muito mais uma criatura com sentimentos intelectuais e estéticos no meio europeu atual.”

Esse trecho foi extraído do livro “Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas”, de Fernando Pessoa, com organização, introdução e notas de António Quadros, editado por Publicações Europa-América, Lisboa.

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Num aniversário há muito passado e esquecido, ganhei esse livro de presente. Tenho boa recordação de quem presenteou-o, um bom amigo, acompanhado de sua mulher com quem tive pouco contato, pois nosso conhecimento foi todo construído nas horas de trabalho. Quer dizer, se é que o livro foi dado pela pessoa que imagino. Como disse, foi num aniversário há muito passado e esquecido.

Hoje, procurando por um livro que senti vontade de reler – “Libro de Manuel”, Julio Cortazar – deparei com esse Pessoa. Separei-o. Mais tarde, saboreando esse primeiro dia de horário de verão, comecei a leitura pelo “Diário” e deparei com essa pequena pérola datada de 1914, ou seja, apenas seis anos antes de Dame Agatha Christie publicar “The Mysterious Affair at Styles”, seu primeiro e um de seus melhores livros com o genial Hercule Poirot. Creio que Pessoa deve ter gostado de Poirot tanto quanto gostou de Holmes, mesmo porque, sem dúvida, há pontos em comum entre ambos. Não encontrei outra menção sobre isso, mas Pessoa traduziu Poe e Shakespeare, gostava de policiais, então, certamente, deve ter tomado contato com as primeiras e excelentes obras de Agatha Christie, cujo número entre 1920 e 1935 – ano da morte de Pessoa já em seu final (dezembro) – chegou a trinta, entre elas as pequenas obras-primas “Murder on the Orient Express” e “The Murder of Roger Ackroyd”.

Minhas estantes e armários guardam algumas centenas de livros policiais. A maioria meros passatempos de viagens e noites tranqüilas. Alguns, preciosos pelo enredo, criatividade, estilo, elegância. Sou conservador, gosto de heróis definidos, não faço gosto por narrativas com profundezas psicológicas, até porque elas envolvem mergulhar na psique de criminosos e como leio para me divertir, passo batido quando esse é o foco do livro. Tampouco me agradam os detetives macambúzios e solitários que viraram moda com americanos. Não jogo no time dos que gostam do noir, do chiaro-scuro e acham tudo isso apaixonante. Como disse, sou conservador e meio pobre nos meus gostos. Paciência. Além da velha dama inglesa e do Dr. Doyle, gosto de Rex Stout, gosto de outra dama inglesa, notável e, felizmente, viva e produtiva, Lady Phillys Dorothy James e mais um bando enorme.

John Dunning é um dos novos de que mais gosto, principalmente quando o livro tem como personagem o livreiro e ex-policial Cliff Janeway. Recentemente foi lançado entre nós “A Promessa do Livreiro” que, além de uma boa história com os ingredientes básicos e clássicos, ainda por cima trata da vida e obra de Sir Richard Burton, o explorador inglês que passou o século XIX andando por Ceca e Meca – foi o primeiro ocidental a visitar Meca, disfarçado.

E aqui, nesse começo de tarde dominical, abro um parênteses: por que Ceca e Meca e não ceca e meca, simplesmente?

Porque essa expressão “andar por ceca e meca” teve origem, provavelmente, na peregrinação que muçulmanos faziam entre a mesquita de Ceca, em Cordova, a maior em terras ocidentais, e a cidade sagrada de Meca. Como queria referir-me a Richard Burton, usei a expressão pelo seu mais provável significado original, associando-o à ida de Burton – não podemos chama-la de peregrinação – até Meca.

Bom, por hoje é só, até porque meu caminhãozinho já foi longe demais com carga demais. Não dá pra tanto.

Bom domingo.

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“Travessuras da Menina Má”


Ricardo deixou o Peru e foi para Paris, seu velho e mais forte sonho. No Peru ficaram a infância e a adolescência, com suas lembranças a cada dia mais gostosas e perfeitas para a maioria de nós, mas não para ele, com uma exceção. Ficaram as histórias e pequenas aventuras, os namoricos, as amizades primeiras que deveriam ser, também, as últimas, o que neném sempre acontece, a sensação de estranhamento numa terra que não sente como sua, em meio a pessoas que são as suas, mas com as quais tem pouca identidade.

Em Paris ele constrói sua vida e encontra uma figura perdida de seu passado, que se faz cada vez mais presente e ativa em sua vida, ano a ano, modismo após modismo, crise depois de crise, no mundo, na França, na Inglaterra, no Peru.

Tal como na vida real, as mudanças fazem o pano de fundo para o cotidiano, interferindo nele sem que percebamos, na maioria das vezes. De Paris, Ricardo tem uma visão acurada do Peru e - por que não? - de toda a América Latina. Mas o leitor ou leitora a quien no le gusta la politica y sus personajes não ficará aborrecido, pois essa visão é como o café-da-manhã, almoco e janta em nossas vidas, um pano de fundo ao qual vez ou outra prestamos atencão, e cuja presença aceitamos com naturalidade. E não tema a leitora ou leitor que gosta de romance em suas leituras, pois esse ingrediente não falta em "Menina Má".

Aos amantes do panfletismo ideológico o livro deixará a desejar, felizmente.

E, finalmente, aos que gostam de boa literatura, sobretudo aos que gostam daqueles livros aos quais nos grudamos e não conseguimos desgrudar até virar a última página e deparar com a sobrecapa, eis uma indicação segura. Na reta final, só consegui desligar o abajur e dormir depois de deparar com a sobrecapa. E isso madrugada alta, felizmente num começo de fim de semana. Mas como um bom pinot noir, seu gosto ficou em minha memória, e sua riqueza permite combinar diferentes sabores e aromas. Minha primeira leitura de “Travessuras da Menina Má” é pobre e incompleta, bem sei. Com o tempo farei novas leituras, descobrirei aromas e sabores ainda não revelados para o meu paladar pobre, que ficou preso a dois gostos, um dos quais relatei – a visão política sobre Latino América. O outro deixarei quieto, por ora.

Meu exemplar já viajou, tão logo terminei sua leitura. Minha filha, de quem ganhei-o como presente de aniversário, levou-o embora. Espero que goste dele tanto quanto eu gostei.

"Travessuras da Menina Má" é o mais recente livro de Mario Vargas Llosa, um dos meus escritores preferidos desde sempre. Tive a sorte de conhece-lo nos distantes anos 70, logo em seu comeco, lendo no original aquele que foi seu livro mais importante durante muito tempo e transformou-o em escritor de renome, "La Ciudad y los Perros".

Não gosto apenas de seus livros, gosto, também, de sua atuacão na vida como escritor e como político, onde chegou a candidato à presidência, sendo derrotado pelo "Chino", o Alberto Fujimori de triste lembranca. Que pena, Peru.

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