segunda-feira, abril 28, 2008

Delenda Itaipu


No Senado romano, pouco menos de dois séculos antes de Cristo, Catão terminava seus discursos com uma frase que ficou célebre:

“Delenda Carthago”

Hoje, qualquer bom jogador de vídegame e com algum poder de observação e inteligência, traduziria a frase sem maiores problemas:

“Deleta Carthago!”

E estaria correto, eis a verdade. Porque a raiz de to delete é latina – delere e deletum, o verbo e seu particípio passado – e o português nada mais é que uma derivação do latim, assim como boa parte do inglês. Apesar disso, dizem as autoridades lingüísticas brasileiras que não é recomendável usar o verbo – já é um verbo, ao menos em minha opinião – deletar. Os dicionários e seus autores e, com certeza, aquele deputado que insiste em dar um fim ao uso de palavras estrangeiras em nossa língua –– indignam-se com tamanho estrangeirismo.

Antes de avançar no assunto, um pequeno parênteses: a depender da vontade do nobre parlamentar – tão atarefado com os problemas desse imenso bananal que permite-se ao luxo de desfilar pelas dependências de seu clube do coração abraçado a um dos pais do famoso, burro e há muito sepulto Plano Cruzado – a nós, brasilianos, somente seria permitido falar o mais puro e intocado tupi-guarani, pois nem o nheengatu do Brasil Colônia seria admissível, posto que contaminado por lusitanismos e latinórios diversos. Com certeza, herança deixada por Anchieta, Nóbrega e outros doutos jesuítas que d’além-mar para cá vieram com a Verdade e a Palavra, além de muitas roupas, para civilizar essa Terra de Vera Cruz. Percebe-se, a uma simples mirada, que apenas conseguiram barbarizar o que já era civilizado.

Deletem tudo isso de suas cabeças, pois voltaremos agora ao fio da meada desse texto: “Deletem Carthago!” Como a grande e guerreira cidade-estado da norte-africana margem do Mediterrâneo é só uma lembrança em livros de história e blogs metidos a besta, vamos de uma vez por toda à razão de ser desse texto, ou post, dependendo de onde você o lê, leitora amiga, leitor idem.

Deletem Itaipu!

O novo presidente paraguaio, Dom Lugo, e o “dom” aqui tem duplo sentido, quer porque quer que o Brasil aumente uma barbaridade o preço da energia produzida por Itaipu. Pelo menos 500% de aumento!

O governo bananeiro de Brasília, diz que não pagará um centavo a mais. Quando muito, poderá antecipar pagamentos como prova de amor & carinho pela terra guarani, dessa forma dando uma mãozinha ao governo do país-irmão em sua busca pela felicidade, dólares, euros, ienes, rublos e até reais – não me perguntem em que ordem devem ser citados esses fatores.

Temos um impasse à vista, algo mais chato e que será mais discutido que o gás do Palestra Itália e a falha do juiz no último jogo, qualquer que seja ele. Muito mais chato, até, do que ler a respeito dos múltiplos e indecentes acordos políticos unindo Aécio ao PT, Serra e Kassab ao Orestes. Haja estômago para tanta porcaria.

De um modo ou de outro, com a eleição de Dom Lugo e antes mesmo de sua posse, temos um impasse nesse momento.

Como resolvê-lo?

De preferência, é bom dizer, antes que certo coronel venezuelano arribe em Assunção e resolva peitar o bananal a bordo de seus espetaculares Sukhoy 35.

Para mim a resposta é simples:

“Delenda Itaipu!” – e não se fala mais nisso.

Deletem Itaipu e dêem-nos de volta as portentosas Sete Quedas, que tive o prazer de visitar pouco antes do fim, alguns dias antes do trágico acidente que vitimou um grande número de pessoas que cruzavam uma das suas assim chamadas “pontes”.

Acabemos com o imenso e barrento lago, local preferido por onze de cada dez contrabandistas como rota para seu enorme comércio. O destino de Itaipu, não muito distante já (lembro-me que foi feito um estudo no início dos oitenta, que apontava 2025 como data-limite para seu uso pleno), é a inviabilidade operacional por conta do gigantesco assoreamento de que é vítima a cada nova estação chuvosa. Talvez por conta do maravilhoso plantio direto, prática agrícola que elimina a aração e gradeação e em conseqüência reduz muito, e até elimina as perdas de solo pelas chuvas e ventos, a barragem e sua represa monstruosa tenham ganho alguns anos de lambuja. Mas não há salvação no horizonte, essa é a verdade. Então, antecipemos o seu fim. Quero as Sete Quedas de volta

Melhor isso do que uma nova Guerra do Paraguai.

Quanto à substituição da energia gerada por Itaipu é simples: construam-se cinco ou seis centrais nucleares de médio porte espalhadas pelas áreas de maior consumo e pronto, está resolvida a questão e, como brinde, ganhamos o fim do monstrengo chamado “linhão de Itaipu”. A paisagem agradece.

Ah, energia nuclear é ruim e vai levar à destruição do planeta?

Ok, sem problemas. Voltemos às tabas, malocas e cavernas e não se fala mais nisso.


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quinta-feira, abril 17, 2008

Chegou!


Chegou?

Olha, acho que sim, acho que chegou sim. Jantei sopa duas vezes nessa semana, o cálice de Porto está mais desejado e melhor saboreado, os dias estão mais cinzentos e gostosos e, por último, mas não menos significante, já peguei a minha gripe da temporada.

Sim, ele chegou, o frio.

A mídia já mostrou imagens de Santa Catarina coberta de gelo. Claro que não o estado inteiro, que por sinal tem lugares bem quentinhos, mas uma ou outra localidade em que a geada chegou de madrugada e deixou aquela película fina sobre as plantas, alegria dos turistas e dos desinformados e tristeza dos agricultores. Se bem que agricultor das áreas frias catarinenses não deve ter muito que temer de geadas, mesmo nesse meado de abril.

Falei, propositalmente, “Santa Catarina coberta de gelo”, assim como não me referi a jornais e emissoras de TV, e sim à mídia. Generalizações... A primeira, completamente desprovida de lógica e correção. A segunda corretíssima. Todo aquele Vale do Baixo Itajaí,por exemplo, é região quente, a linda Blumenau que o diga. Assim é por conta da geografia, pois a proximidade do mar, a altitude em relação ao mesmo e a localização das montanhas próximas determina um microclima mais ameno, ou mais quente, para a região. Já a mídia...

Como cresceu a mídia!

Sua leitura inconseqüente desse texto idem, prezada leitora e prezado leitor, é uma prova dessa afirmativa. Sem entrar no mérito de sua qualidade, esse Olhar Crônico é parte da mídia. Com um pouquinho menos de peso que a Veja e o Estadão, claro, típicos representantes da mídia, mas também parte desse conjunto. As duas publicações são parte do subconjunto “mídia impressa”, enquanto esse blog seria parte da “mídia...”, sei lá, eletrônica? Não, essa designação é exclusividade das emissoras de rádio e TV. Cibernética? Bom, taí, gosto desse nome: mídia cibernética. Que seja. Mas tudo é mídia e ela tudo cobre, instantaneamente, seja uma geada em algum recanto catarina, seja a última gafe ou mentira de Lula e Bush, ou ambas as coisas para ambos os líderes. Um, que deveria ser, mas nunca foi aceito como tal depois dos primeiros discursos, o líder do chamado mundo livre. O outro, bom, no que me diz respeito deixou de ser líder quando deixou a vida sindical. Como o meu gosto pessoal não é lá muito relevante, ele segue líder de um monte de gente e gente muito boa.

Alto lá!

Preconceito aqui, não!

Antes de tudo tento ser um cara justo. Os liderados por Lula são, em sua maioria, pessoas excelentes, com suas belíssimas qualidades como pais, filhos, maridos, esposas, sobrinhos, amigos, amantes – ué, faz parte, né? – e outras categorias mais, pessoas como você e como eu. Infelizmente, não posso dizer o mesmo dos associados a ele na condução do poder, seja na burocracia estatal em suas diferentes formas e poderes, seja na burocracia partidária. Sobre esses, porém, não perderei o meu e o seu tempo dedilhando linhas e linhas a respeito. Passo e voto nulo.

Ora, e o inverno, razão de ser desse texto que se pretende crônica? Já volto a ele. É que não acho correto ser um cronista alienado, e se tenho que escrever sobre a beleza cinzenta dos dias invernais que se aproximam, é justo e socialmente correto que gaste algumas linhas para lembrar a todos que nem tudo nessa vida é sopa e vinho do Porto, há também o Zé Dirceu – ex-primeiro-ministro bananeiro – e o Marco Aurélio Garcia – ministro plenipotenciário das relações exteriores – que fazem parte da dita cuja, igualmente.

Estamos naquela que é, para mim, a época mais gostosa do ano. Faz frio, os dias são acinzentados e garoentos, chove ocasionalmente, e é nisso que reside sua beleza e graça, o frio associado à chuva e aos chuviscos. Porque eu sou, antes de tudo, ligado à terra e às coisas da terra, e não há terra, nesse sentido de produtora de alimentos, prazeres e confortos, sem chuva, chuviscos, garoas e chuvões. O grande mal do frio propriamente dito, aqui por São Paulo e arredores, é a ausência da chuva. Sim, como compensação, porém, temos fantásticas noites de céu transparente, ora sem a presença da Lua, e aí o céu é tomado pelo esplendor de estrelas incontáveis e pela Via Láctea, ora com a linda senhora – para mim, a Lua é uma senhora – em seu máximo esplendor, gorda, corada, brilhante, iluminando a noite sertaneja com tanta força que cria sombras perfeitas umas, assustadoras outras, inda mais quando caminhamos no meio do pasto sem lanterna e sem companhia, nem mesmo da cachorrada que prefere dormir pachorrentamente na varanda.

Em noites assim, solitárias em locais ermos, e quando sopra um vento gelado vindo do sul, então... o coração se apequena, não há como evitar, e o calor e a segurança de casa, seja ela barraco ou casa-grande, é tudo que queremos e apressamos o passo em busca desse aconchego.

Ontem, a noite parecia ser desse tipo, mas se foi, de fato, não faço a menor idéia. Voltar para casa dentro do carro, cruzando as ruas da megalópole, pode ser tudo e qualquer coisa, até assustador, mas, com certeza, de poesia nada tem.

Entendeu agora algumas menções que esse texto traz?

Pois é. Nem tudo na vida é poesia ou motivo para poetar.

Até porque, noites lindas ou não, estreladas ou enluaradas, eu ainda prefiro as noites cobertas de nuvens negras carregadas de chuvas. Nisso, sim, há muita poesia.

Para mim.


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sábado, abril 12, 2008

Crônica de adoentado


A “marvada” me pegou


Estou derrubado.

O corpo dói, principalmente pernas, garganta e cabeça.

O nariz dá um trabalhão, quando não está aos espirros que provocam dores generalizadas, está escorrendo, ou melhor, querendo escorrer e eu, bom...

Deixa pra lá.

Minha avó, se viva fosse, diria como já disse no passado que “homem é tudo mole, mesmo”. Ela se foi, mas, acreditem, há outras mulheres que falam o mesmo no lugar dela. Não me importo, estão falando a pura verdade, pois essas coisinhas me derrubam mesmo, deixam-me irritado ainda por cima.

Essa marvada gripe tem nome: é a Gripe Dilma.

Pra curar, só com um dossiê de remédios.

Rá rá rá...

Sim, isso foi uma tentativa de risada. Não bastasse estar assim, ainda estou assim por causa da ex-futura-presidente-sem-ser-a-papagaio-de-pirata.

Humpf...

Não creio que seja dengue, meno male. Doencinha besta e velha que está em franca evolução em boa parte do planeta e que vai crescer mais ainda devido ao aquecimento global. É a mais recente previsão da OMS. No Brasil ela parece ter encontrado seu melhor habitat, não por causa de nossas belezas naturais, ou do nosso ambiente, aqui chamado de meio ambiente, ou nossas muitas águas, nada disso. Aqui ela se dá bem à beça por conta da ausência de Governo.

- Ué, como assim, se o que mais temos por aqui são governos?

- Eu disse Governo, companheiro... Governo, entendeu?
Com gê maiúsculo.
Sacou agora? Beleza.

Há vários anos nós - eu e minha equipe - produzimos um belo vídeo com uma proposta interessante. Basicamente, a idéia era que cada prefeitura comprasse um pacote de produtos e ações de uma companhia multinacional. Na linha de frente, os inseticidas contra os vetores da dengue e raticidas. Com esse pacote, uma parte com produtos e algumas ações da empresa, e outra parte com ações da prefeitura, seria criado um programa de trabalho preventivo e educativo nos municípios, atacando diretamente os pontos de infestação. Creio que fizemos esse trabalho ainda no final do século passado, talvez em 99.

Combater a dengue já era uma necessidade mais que evidente. O número de pessoas contaminadas crescia, o combate começava, mas pouco evoluía. O governo federal comprou um monte de coisas, como adora fazer todo governo. Montes de gente em várias partes foram contratados, e com esses montes criou-se uma bela burocracia.

Nada de resultados, porém, e ano a ano a doença espalhou-se à vontade. Hoje, nem vou falar sobre a situação no Rio de Janeiro, que já passou da fase "preocupante" há muito.

Puxa, tomara que eu esteja só com a Gripe Dilma.



46,4 %

Peraí, volto já... O telefone tá tocando.



- Alô! Quem fala?

- Eu.

- Eu quem? É o Emerson?

- Eu, o dono desse aparelho e dessa linha celular.

- É o Emerson?

- Claro que sou eu, pombas.

- Emerson?

- Eu mesmo, reconhece não?

- Ah, reconheci agora, pois meio bobo assim só conheço você.

- Que é isso rapaz, nós estamos falando no meu blog, se liga!

- Como assim falando no seu blog?

- É, eu estou com essa ligação no blog.

- Puxa, que legal.

- Pois é.

- Ué, mas por que você me passou um e-mail pedindo pra te ligar?

- Nada importante, não.

- Como assim?

- Calma, relaxa, liguei pra você só pra você dar uma graninha pro governo.

- Ah, pára com isso, pô! Coisa mais chata.

- Pois é, fica bravo não. Olha, essa nossa ligação tão cheia de conteúdo, demonstrações de amizade e coisa e tal, que está sendo feita do celular, vai custar uns 4 reais pra você, e assim você vai dar dois reais – arredondados – pro governo que você ama.

- Pára de sacanagem e diz logo o que você quer.

- Eu já disse, é só pra você pag... Xiiii, desligou. Acho que perdi o amigo, mas ganhei um post pro Olhar Crônico.


Pois é, estimadíssimas leitoras e, vá lá, estimados leitores. Essa ligação hipotética de um pobre amigo para mim, falando sei lá de onde, custar-lhe-ia por volta de 4 reais. Desses 4 reais, dois teriam ido pro governo.

Porque o bananal é o país com a maior taxação do mundo sobre ligações via celulares. Quase a metade, ou melhor, a metade mesmo da tua conta do telefoninho vai diretinha pros cofres federais.

Dizem que esse dinheirinho abastece as contas, infla os números do superávit primário, o que nos permite viver nesse mundo paradisíaco. Somos o povo, entre as nações com economias com algum destaque, que menos fala ao celular. Todos falam mais que a gente e todos pagam muito menos que nós. As contas médias são mais baixas e o tempo falado é bem maior.

Esses caras de fora são todos umas antas, não sabem ganhar dinheiro mesmo. Deviam estagiar aqui antes de administrarem seus países.

Agora, se me dão licença, tenho que contribuir com os cofres federais, pois tenho alguém para acalmar e trazer de volta para a lista de amigos.

Esse post tá ficando meio caro.


Post scriptum

Meu irmão mora em Nova Iguaçu. Depois de muitos anos no Maranhão e Pará, voltou pro Sul Maravilha. Representa uma empresa paraense que produz polpa de açaí.

Acho legal, a extração do açaí preserva a floresta e preserva o próprio açaizeiro, ao contrário da extração de palmito que mata uma palmeira de 4 metros ou mais para pegar um cilindro de palmito com 40 centímetros de comprimento.

Esse post scriptum é por causa da dengue e não do açaí que meu irmão vende. Explico: ele disse-me que suas vendas diminuíram porque, provavelmente, segundo ele, diminuiu o consumo de gelados. Logo, vende menos açaí.

Pode ser, não duvido de mais nada.

Minha mãe mora com ele. Apesar do calorzinho da Baixada e dela mesma ser calorenta ou friorenta, dependendo mais do humor que do clima, usa calça comprida o dia inteiro e gasta tubos e tubos de repelentes.

Combinamos que, no caso de um deles pegar dengue – cruz credo, tomara que não aconteça! – virão imediatamente para São Paulo em busca de hospital, provavelmente para a minha casa mesmo. A menos que a situação do atendimento médico melhore muito, o que parece difícil pelo que ele contou.

Na Baixada está todo mundo apavorado com a doença do mosquitinho e os hospitais & assemelhados estão lotados, com filas dignas de consulado americano para tirar visto.

É... Welcome to Brazil.

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quarta-feira, abril 09, 2008

Cueca por 1 real...

...usada.

Flashback: toda vez que começo um texto, principalmente para esse Olhar Crônico, tenho que me policiar e controlar fortemente, pois a tendência é escrever “Confesso que...”
Ora, mas que mania besta de confessionário! Confesso, porém, que esse aqui comecei bem diferente - pronto! - mas não deixei de usar o verbinho cuja conjugação na primeira do singular tanto evitava nos tempos das aulas de catecismo. Os únicos, por sinal, que viram-me ligado à religião de maneira formal e, muito menos que isso, presencial, tirando as benditas aulas ainda no primário, pois sem elas não teria primeira comunhão. Ou seja, eu sou daqueles que da missa nunca sabem sequer a metade, ou até parte alguma, pois nunca freqüentei-as de moto e interesse próprios, exceto por motivos políticos em uma outra era já perdida no tempo e nos costumes.

Comprovando que o que mais há nos mármores do inferno é o pessoal cheio de boas intenções, aqui estou eu com as minhas e já com pecados e pecadilhos de infância confessados – de novo o verbo – sem algum texto que tenha a ver com o título completo desse post, que inclui aquela palavrinha de tenebrosas possibilidades para esse caso e peça, “usada”.
Então, com pequeno atraso indigno de uma ANAC, vamos a ele, o texto.

Ontem cedo, por mero acaso, deparei com uma notinha perdida no jornal dizendo que a Polícia Federal, ou a Receita idem, faria um bazar com objetos interessantes, entre os quais uma grande quantidade de garrafas de cristal com vinho do Porto, encomendadas por Edemar Cid Ferreira, aquele que era dono de um banco, presidia a Bienal e mora numa mansão cinematográfica, para presentear amigos & cia. Dizia também a notinha que essas garrafas estariam no leilão por se encontrarem entre os bens apreendidos do famoso traficante Abadia. Ou, provavelmente, foram levadas ao bazar dos bens do traficante para aproveitar a oportunidade.

Esse tipo de gente – Abadia e Cid Ferreira – nunca me interessou. Tampouco seus bens, embora uma das fazendas do bandido seja de dar água na boca, não nego. Todavia, vinho do Porto é líquido de minha especial predileção, seja aqui na Granja, seja no Sítio das Macaúbas. Sou eclético ou sem gosto, dependendo de quem analisa, pois gosto dele ao natural, como deve ser, e também com duas pedrinhas de gelo no começo de uma tarde quente depois do almoço ou no final de uma manhã igualmente quente, antes do almoço. Gosto é gosto, digo em minha defesa, e à noite meu copinho metido a besta não sabe o que é gelo. Se do vinho sou consumidor esporádico, apesar do prazer que ele proporciona, garrafas de cristal não fazem parte da minha listinha de compras nos “valmartis”, “extras” e “carrefurs” da vida. Se além de feitas em cristal da melhor qualidade, provavelmente em algum lugar de nome esquisito da antiga Tchecoslováquia, ainda por cima, ou por dentro, contiverem vinho do Porto de qualidade similar e idade avançada... Bom, aí é que não fará parte de qualquer uma de minhas listinhas de compra.

Lida a notícia, meus neurônios associados às papilas gustativas puseram-se a funcionar. Durante dois, talvez três minutos, acalentei a idéia de pegar o carro e dar um pulinho no Jockey para ver o tal bazar. Mas só de lembrar na encheção que é estacionar o carro, o trânsito e não sei o que mais, desisti e fui cuidar de meus afazeres, multiplicados pela solidão temporária nesse casarão, misturando roteiros e telefonemas com vassouradas e aspiradas de pó.

...

É... Pegou mal, ainda mais num texto em que há menções a um traficante. Explico, para que dúvidas não pairem: as aspiradas de pó citadas não passam disso: reúno o pó e o pelo caído dos cachorros com a vassoura e em seguida ligo uma máquina maravilhosa que tudo aspira, o aspirador de pó. Esse escriba, portanto, continua escrevendo suas sandices habituais unicamente com a ajuda de neurônios de má qualidade, mas naturais, sem nenhum turbinamento.

Nessa manhã seguinte ao bazar, a primeira página do jornal é tomada pela chama olímpica maculada, apagada, reacesa com a chama de algum isqueiro, enfim, uma ridícula chama olímpica digna do governo do país que vai abrigar os próximos Jogos Olímpicos.

A manchete principal, porém, diz que a Polícia Federal apreendeu computadores da Casa Civil do governo federal.
O mensalão, como se pode ver, nunca acabou, no que diz respeito ao envolvimento permanente desse governo com forças policiais. Entre outras chamadas que não vêm ao caso, uma chama minha atenção e leva-me a lê-la antes da sacrossanta leitura do caderno de esportes: “Bazar de Abadia termina em tumulto”.

Ora, ora...

Centenas de pessoas ficaram de fora, sem poder entrar.
Um rapaz saiu de Sorocaba em plena madrugada, chegou às 07:30 da manhã, passou o dia inteiro em pé esperando para entrar e nada. Como ele, mais um monte de histórias na linha “cheguei cedo, fiquei o dia inteiro, não me deixaram entrar”. Um dos felizardos que entrou saiu carregado de compras, inclusive toda a roupa do corpo e mais o boné, sendo confundido, ou “confundido”, com o traficante. Diz a reportagem que entre os muitos bens vendidos – brinquedos, perfumes, quinquilharias, roupas, tinha cuecas usadas – presumo que pelo traficante – que foram vendidas a 1 real.

Cueca usada por um traficante vendida por 1 real.

Ok, não vejo problemas nisso.

Mas, faço eu parte da mesma espécie biológica que abriga seres capazes de comprar cuecas usadas por um traficante de drogas, ainda que por 1 mísero real?

Sim, infelizmente faço, fazemos todos.

Antes que apontem seus dedos acusadores para mim: vinho do Porto em garrafa de cristal de trambiqueiro do mercado financeiro não é a mesma coisa. Até parece, mas não é.

Eu acho...


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sábado, abril 05, 2008

Há 14.000 anos...

... como hoje, parte de nossas Américas não tinha serviço de esgoto. Na verdade, há 14.000 anos parte alguma das Américas ou do mundo dispunha de tão valioso serviço. Podemos deduzir a partir disso, que parte do Brasil, talvez a maior, está hoje como estava há 14.000 anos, com uma diferença: com muito mais gente e muito menos mato, capoeira, pântanos, mangues, o que quer que existisse de vegetação naqueles tempos.

Nesse momento, estimada leitora e também estimado leitor, você deve estar se perguntando o porquê dessa introdução tão perdida no tempo como no sentido, não está? Pois bem, vou explicá-la já, antes que esqueça sua razão de ser.

Remexendo na sujeira acumulada de uma caverna no estado americano do Oregon, cientistas descobriram coprólitos humanos cuja análise por meio do Carbono 14, o popularíssimo C14, comprovou sua idade em 14.000 anos. Coprólitos, como bem o sabem os leitores, não passa de um nome metido a besta para fezes fossilizadas.

Caraca! – exclama alguém, com certeza. Pois é, fezes fossilizadas. Não me perguntem como as ditas cujas viraram fósseis, uma vez que o meio de mato e os fundos de cavernas costumam ser habitados pelos mais diferentes tipos de bichos que, digamos, encarregam-se de dar às ditas cujas um digno e escondido final de existência enquanto fezes. Reparem na elegância dessa trecho: “enquanto fezes”. Nele está reunido um dos pontos altos de nossa mais recente criação intelectual, primo-irmão de outro ponto igualmente alto, o popular “a nível de”. Diria a vocês que o uso de enquanto associado a fezes e tudo isso associado à idade das mesmas, tem um profundo significado que não é escatológico, mas do qual não faço a menor idéia qual seja. Portanto, perguntas a respeito são dispensadas a priori.

Enquanto escrevia tão bem traçadas linhas, parte de meu cérebro ocupava-se com uma questão intrigante: o que leva gente instruída, certamente com bacharelados e doutorados em universidades famosas, talvez até daquele circuito do qual saem os grandes líderes mundiais, de Roosevelt a Obama, passando por Rory Gilmore, a cutucar sujeiras em fundos de caverna. Tanto remexeram que trouxeram de volta à luz do dia os coprólitos ali acumulados. Desconfio que se a busca continuar e for feita com esmero encontrarão os restos de uma pintura rupestre indicando se aquele local era de uso feminino ou masculino.

De volta à realidade, essa descoberta significa que nossas Américas já eram povoadas por nossos ancestrais há 14.000 anos ou 140 séculos. Isso é fato científico, pois exames de DNA comprovaram, inclusive, relações com populações da Sibéria e da Ásia Oriental (a Sibéria é parte da Ásia Oriental, mas assim está a transcrição do artigo publicado na edição eletrônica da Science) e é prova irrefutável da antiguidade de nossa chegada aos verdes prados americanos. Apesar disso, há controvérsias a respeito, levantadas por nada menos que uma pesquisadora brasileira de renome, a Dra. Niéde Guidon, brasileira de Jaú, interior paulista, que há mais de 30 anos pesquisa nossa pré-história na Serra da Capivara, no Piauí. Ali, ela encontrou evidências fortíssimas da presença de seres humanos há 50.000 anos, o que entra em choque com a teoria mais aceita e que diz ter o homem entrado na América há cerca de 13.000 anos, tempo que agora, graças aos coprólitos, foi esticado em mais mil anos.

Por trás da não aceitação da teoria da Dra. Niéde Guidon estão algumas dúvidas relacionadas à fixação dessa idade, que em parte foi baseada em evidências indiretas – a datação mais precisa é de restos de fogueira, o que permite a contra-argumentação de que o fogo pode ter tido origem natural –, mas está, também, a velha disputa Norte x Sul, versão mais pobre e discreta da Ocidente x Oriente, ou ainda Centro x Periferia. Afinal, o embasamento da teoria dos 13.000 anos passa pela Ivy League, aquele circuito citado mais acima das oito velhas e famosas universidades da Costa Leste americana (Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Pennsylvania, Princeton e Yale). Acreditem, isso é sério, afinal, mesmo a ciência nada mais é que mera criação desses seres imperfeitos, os humanos.

Se nossos tata-tata-tataravós já caçavam pelo Piauí há 50.000 anos, isso jogará por terra dezenas de anos de trabalhos e pesquisas baseados na crença da chegada mais recente. Tudo terá que ser revisto. Afinal, se os caras já estavam por aqui naquela época, de onde vieram e como vieram parar aqui? Sim, pois de algum lugar eles têm que ter vindo, pois é fato mais que sabido e aceito, que somos todos africanos na origem, entre 4 e 5 milhões de anos atrás, nos planaltos da África Oriental.

Bom, e agora? Dito tudo isto, o que resta a ser dito?

Talvez, quem sabe, isso mostre a importância científica para futuros paleontólogos da inexistência de esgotos no presente. Quem pode dizer se daqui a um ou dois milhões de anos um paleontólogo futurista não descobrirá coprólitos atrás de alguma moita de bananeiras – também fossilizadas, claro, só não sei como – e estabelecerá, com base nos ditos cujos, que aqui floresceu uma grande civilização, que sabiamente usava as bananeiras como ponto para exclusão de resíduos, que ao mesmo tempo fertilizavam as plantas que forneciam alimentos?

O Brasil, com sua falta de esgotos, é muito mais moderno e avançado do que imagina nossa vã filosofia.

Além de prestar valiosa contribuição para o conhecimento futuro da humanidade de hoje.


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segunda-feira, março 24, 2008

Volta pra tua terra


Essa frase, dita por crianças de escolas paulistanas e transcrita em matéria do Estadão de ontem, despertou-me a lembrança de outros tempos já perdidos na memória e idêntica situação.

“Volta pra tua terra” é frase simples, eloqüente, fácil de ser falada e mais ainda de ser compreendida por quem a ouve. Quatro décadas atrás era ouvida por garotos coreanos, árabes e portugueses, cujos pais imigravam para o Brasil em busca de oportunidade de uma vida melhor ou, simplesmente, em busca de paz. Durante um ano um coreano esteve na mesma classe que eu, em processo de adaptação. Mais velho, era um gênio em matemática e ciências, e sofria com a gramática e a história da Terra de Vera Cruz. Sofria, também, com alguns dos colegas de classe. Além de ser o estranho no ninho, atraindo a curiosidade, sempre, a amizade, raramente, era vítima, também, do preconceito de jovens adolescentes que manifestavam sua maldade com frases cortantes como essa.

Creio que tudo era mais cruel com os portugueses, tanto os que vieram da metrópole como os que vieram das colônias africanas. Entendiam a língua e, portanto, além de sentir, também entendiam as frases que eram proferidas contra eles. Uma adolescente, porém, era menos mal tratada que os outros, a “Turquinha”. Nunca soube se ela era turca mesmo ou se era síria, libanesa, palestina. Naquela época, as pessoas referiam-se a qualquer um vindo do Oriente Médio e arredores como “turco”. A diferença em relação à “Turquinha” era o dinheiro de seu pai, que tinha um carrão, um Aero Willys, e morava numa casa grande e bonita. O preconceito é sempre maior, quando não único, contra a pobreza.

A matéria do Estadão entristeceu-me.

São Paulo é terra de migrantes e imigrantes. Meus bisavós maternos desembarcaram em Santos vindos da Calábria. Meu avô materno veio das Minas Gerais para o interior de São Paulo, onde conheceu minha avó italianinha. Meu pai, mesmo, ainda adolescente deixou o cerradão mineiro e veio para São Paulo. Os bisavós de minha esposa vieram da Espanha e da Itália. Cresci comendo macarrão e quibe, charutinho e lasagna, além do arroz com feijão e da feijoada de lei. A diversidade cultural sempre esteve presente na vida paulistana a partir do século XIX.

Hoje, bolivianos, colombianos, argentinos, uruguaios, peruanos, ao lado de angolanos, nigerianos, moçambicanos, árabes de pátrias diversas, chineses, entre pessoas de muitas outras origens, vivem e trabalham nessa cidade. Nas escolas, seus filhos ouvem a mesma coisa que muitos deles também ouvem em seus locais de trabalho:

- Volta pra tua terra.

- Aqui não é teu lugar.

- Não gostamos de você.

Nas escolas, as frases são muitas vezes seguidas pelo roubo puro e simples do dinheiro para o lanche. Há quatro décadas o preconceito era o mesmo e as frases eram as mesmas, mas o roubo não existia.

O preconceito não se revela só contra pessoas de outras nacionalidades. Seria cômico, se não fosse trágico e profundamente triste, saber que as mesmas frases são usadas contra crianças vindas de outros estados. Dessas a matéria não fala, mas os casos existem e não são diferentes. Da mesma forma, ele revela-se mais contra os pobre do que contra os remediados ou ricos. Aliás, é difícil haver preconceito contra ricos, e quando existe fica escondido, exceto nos momentos de conflagração.

Nem tudo é tristeza e dor, entretanto. O artigo fala também das crianças integradas, como um menino e sua irmã, bolivianos, tão bem aceitos ao ponto de expressões em castelhano já fazerem parte do dia-a-dia dos colegas na escola. Nesse caso, todos estão ganhando, conhecendo-se, aprendendo e crescendo como seres humanos.

Essa matéria está disponível no site do Estado de S.Paulo mesmo para quem não é assinante: http://txt.estado.com.br/editorias/2008/03/23/ger-1.93.7.20080323.3.1.xml

Vale a leitura.

Sempre é bom conhecer um pouco mais sobre nós mesmos, os brasileiros.

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quarta-feira, março 19, 2008

Domenica matina in San Paolo



Manhã de domingo no Mercado Municipal e depois na Padaria 14 de Julho deixa com vontade de falar e escrever em italiano. Pena que o meu italiano não dá para tanto, muito pelo contrário, apesar da vontade da minha Nona.

La domenica matina in San Paolo é particularmente gostosa porque não tem trânsito. Ou melhor, tem e até muito, mas ele flui que é uma beleza. A gente redescobre nas grandes avenidas a “onda verde”, passando sorridente por um, dois, três, vários sinais no verde. Que coisa boa! O ar também é mais gostoso, a paisagem é mais clara, tudo é mais bonito. A cidade está mais bonita, agora livre da poluição visual de cartazes, placas, fachadas de lojas, paredes e muros com propaganda, outdoors, faixas, etc. Parabéns, Prefeito Gilberto Kassab! Valeu a sua briga e que prazer é poder elogiar um homem público, coisa extremamente rara nesse Brasil varonil, nessa manhã com céu de anil, combinando com as muitas cores à minha espera.


O Mercado Municipal de São Paulo é um local de cores em profusão. Até mesmo sua estrutura do início do Século XX, devid
amente limpa e mantida em ordem, é bonita.

Tem cor de solidez antiga.


Mas é em seu interior que as cores brilham e brincam, começando pelos vitrais.



À explosão de cores dos vitrais, corresponde a multiplicidade de cores das frutas.

Brilhantes, refletindo a luz filtrada pelos vitrais e pela comprida clarabóia que ilumina o grande interior de ponta a ponta.


Frutas de todas as partes do mundo, a maioria, por

mais incrível que pareça, já cultivadas aqui mesmo.




Inúmeros tipos, alguns desconhecidos, outros surpreendentes.


Desconhecida, por exemplo, é

a achachaia boliviana.


Sua presença é explicada pela existência de colônia boliviana em São Paulo.


Como surpreendente é o nosso selvagem e nativo jatobá.


Tanto desconhecido como surpreendente é o jamelón, que o fruteiro diz ser um tipo de melão caipira, mas...


Sei não, nunca vi assim.



E esse tal de zarbão?

Pergunto ao dono da banca se é um tipo de grapefruit, que é o que parece, e minha pergunta cai no vazio.

Como surdo ele não é, pois ouviu outras, concluo que é apenas grosseiro, uma vez que estou apenas fotografando. Faz parte...

Encontro até abio, quem diria!


Mas o Mercado oferece muito mais, e já falei dele em outro post ou, quem sabe, posts. Visitá-lo e nada escrever a respeito é difícil.


Tem as azeitonas.

Da Grécia, de Portugal, Espanha, Itália...



Do Chile, temperadas...


É o paraíso dos amantes do bacalhau, como eu.

Do Porto, da Noruega, do Pacífico, vários tipos.

No Empório Chiapetta vem tudo explicado: origem, tipo, características...

A boca enche-se d’água, reflexo pavloviano básico, e o jeito é parar novamente num dos bares espalhados em seu interior.

A primeira parada, logo à chegada, foi para um rápido café-da-manhã básico. Afinal, dia de Mercado é dia de sair de casa em jejum.

Essa parada de agora é diferente, não é para matar a fome e sim a vontade, a permanente vontade de comer bacalhau, que vem em forma de enorme e saboroso, muito saboroso bolinho.

Mais um expresso e uma mineral com gás.

Bom demais...

A comida, o ambiente, os ruídos, os cheiros, as imagens, o vai-e-vem das pessoas, o espresso quente e forte, de fato, ir ao Mercado Municipal é um exercício de prazer.

Mas só nas manhãs de domingo.

Com o trânsito livre, é obrigatório parar na velha 14 de Julho na volta. Abri mão de comer um canoli na hora, preferi a sardinha escabeche com cebola. Uau! E pedaços de pão italiano, o verdadeiro pão italiano, recém-saido do forno, quente, cheiroso e delicioso.

Como diz aquele filme, e para terminar no mesmo idioma do começo, pois simetria é importante, la vitta è bella!


Mas só nas manhãs de domingo.


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Universidade para o povo (?)


Esse título foi, também, uma das palavras de ordem de Maio 68 em Paris.

É, também, a idéia básica que norteou a criação de universidades públicas por todo o Brasil.

É, também e finalmente, uma decorrência lógica de uma universidade ser daqueles que a sustentam, ou seja, o povo.

Bom, com relação à Universidade de São Paulo, a USP, a primeira frase é mera utopia.

A segunda frase é tão somente retórica política.

A terceira frase é uma manifestação de idiotia de quem acredita que o contribuinte, o povo, tenha direito a algo que faça parte da estrutura do Estado tupiniquim. Aqui, o Estado é para si próprio e seus apaniguados e funcionários, jamais para o povo.

E por que toda essa discurseira raivosa contra uma instituição tão fantástica como a USP? Sim, porque é tão somente da USP que estou tratando, embora, com toda certeza, tudo que vem a seguir aplica-se a todas as demais universidades públicas dessa Terra de Vera Cruz.

Criada para ser popular, a USP tornou-se elitista, pois o acesso a seus cursos depende de excelente pontuação no vestibular, o que só é conseguido, basicamente, por quem vem de boas escolas e estudou bem e bastante. Pobres, portanto, estão excluídos, até porque as escolas que os pobres freqüentam, gratuitamente, pois da rede municipal ou estadual, não passam de depósitos de jovens e centros de má-formação.

Criada para servir, ela mais serve a si própria que à comunidade que a sustenta.

Finalmente, há pouco mais de dez anos, a USP fechou-se, fisicamente, para a população. O passeio de fim-de-semana de milhares de pessoas, em boa parte famílias inteiras com crianças e idosos, inclusive, acabou. A Universidade fechou seus portões ao povo, com medo dos estupros, roubos e assaltos.

Numa típica solução autoritária, comodista e voltada para o próprio umbigo, proibiu-se o acesso das pessoas sob a desculpa esfarrapada da segurança. Houve, sem dúvida, uma diminuição nos números de casos, mas não a extinção dos problemas.

Em nenhum momento a Universidade pensou em trabalhar em conjunto com a Polícia Militar. Ah, não, isso jamais, onde já se viu permitir a entrada das forças repressoras do Estado no solo sagrado onde o saber é gerado?

Em momento algum a Universidade pensou em algo como ser policiada pelos cadetes da Academia da Polícia Militar e por soldados em fase de treinamento. Ambas as categorias – cadetes e soldados – começariam suas vidas de policiais trabalhando com uma elite intelectual e ciosa de seus direitos e prerrogativas. Poderia, quem sabe, ser um excelente começo para que depois fossem para as ruas onde vive o povo real, a população que sustenta a Universidade.

Foi mais fácil fechar os portões.

Há duas semanas, num fim de tarde de sábado, fui à USP para assistir “Antígone”, no Teatro da ECA – Escola de Comunicações e Artes. Para entrar no campus demorou cerca de cinco minutos, aguardando a segurança liberar um carro de cada vez. Quando chegou a minha vez disse “Teatro” e fui liberado. Como sou cidadão de bons bofes e hábitos, e seguidor das leis, fui para o teatro, bonitinho. Assim como poderia ter ido para qualquer outro lugar. Como fizeram alguns visitantes no sábado e no domingo anteriores. Em dois roubos, levaram mais de 120 mil reais de caixas automáticos, fizeram reféns, bateram, aterrorizaram e saíram incólumes, sem nenhum problema, inclusive os ladrões do dia seguinte.

Na USP é assim: o cidadão não pode passear com sua família, mas os ladrões podem fazer a festa à vontade. Afinal, no solo sagrado da geração do saber é proibida, também, a entrada da polícia. Exceto para recolher as sobras dos roubos e, qualquer dia, os corpos das vítimas.

A Universidade cria e é criada pelo monstro que é o Estado brasileiro e sua burocracia.

Definitivamente, a universidade não é do povo e não é para o povo.


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domingo, março 16, 2008

Blablablá glamoroso e os OGM

Bom dia, boa tarde, boa noite, boa madrugada, quem sabe.

Ando em falta com esse Olhar Crônico, lamento e peço desculpas.

Vida atribulada é a melhor e também a pior resposta, mas verdadeira.

Dia 8 último, o Dia Internacional da Mulher, um grupo de “companheiras”, grávidas à frente, empunhando foices e enxadas invadiram a estação da Monsanto em Santa Cruz das Palmeiras, pertinho do Sítio das Macaúbas, e local onde já gravei inúmeras vezes para a Monsanto. O motivo da invasão: depredar instalações e áreas de testes com variedades de milho transgênico.

Muita gente, principalmente entre os “companheiros e companheiras”, mas também fora do mundinho deles, é contrária aos organismos geneticamente modificados, ou, popularmente, plantas transgênicas. Curiosamente, isso é, para mim, uma enorme contradição, tanto em termos presentes como futuros. Uma variedade modificada geneticamente apresenta grandes vantagens em relação a variedades comuns. No caso das plantas de milho e algodão, por exemplo, resistentes a alguns insetos (lagartas), elas permitem a não aplicação de muitos milhares de litros ou quilos de venenos diversos destinados ao combate dessas pragas. Ora, ao evitar essas pulverizações, o ambiente, chamado no Brasil de meio ambiente, é preservado, deixa de ser atingido por agentes poluidores. Esse é apenas um exemplo entre muitos.

Em todo o mundo a população rural diminui a olhos vistos e em velocidade acelerada. Trabalhar no campo, glamour à parte, é muito ruim, é muito cansativo, é totalmente desprovido de charme e de valor.

Essa é a verdade. Raras são as pessoas urbanas que dão valor de fato às lides agrícolas. A maioria enxerga nelas uma condição de atraso de vida, uma atividade destinada a pessoas sem capacidade ou habilitação para “vencerem” e ganharem dinheiro nas cidades. Pior: grande parte dos rurícolas se enxerga da mesma forma, o que é muito triste. Além disso e muito pior que isso, a cidade desvaloriza o produto do campo e super-valoriza seus próprios produtos. As relações de troca campo-cidade sempre foram e estão cada vez mais desequilibradas.

Há uma falsa ilusão, propagandeada principalmente por urbanóides que nunca pegaram no cabo de uma enxada, que felicidade é ir pro campo e produzir alguma coisa, às custas da reforma agrária governamental, e, naturalmente, sem usar venenos e produtos químicos.

Triste ilusão na qual milhões acreditam. Pior ainda, acreditam que a humanidade, a caminho de seu sétimo-bilionésimo habitante, pode ser alimentada, vestida, abrigada, protegida, dessa forma. Lamento, mas tal coisa é impossível. Só seria possível se ao invés de sete bilhões, fôssemos apenas uns quinhentos milhões, no máximo, bem distribuídos por todas as terras agricultáveis do mundo. Mesmo assim... Sei não, acho que duzentos milhões seria um número mais factível.

É nesse cenário que surgem as plantas transgênicas, os “ogm” – organismos geneticamente modificados.

Eles permitem e permitirão cada vez mais, a produção de mais alimentos com menores dispêndios de energia. Nossa sobrevivência, e isso é uma certeza minha, está atrelada aos avanços genéticos aplicados à produção de alimentos. Refiro-me, claro, à nossa sobrevivência com um mínimo de dignidade e barriga cheia.

É contra isso que as pobres “companheiras” grávidas foram levadas, iludidas, a empunhar foices e enxadas para invadir e destruir mais uma estação de pesquisas. Infelizmente, temos também nossos fundamentalistas, tão toscos e ignorantes quanto os fundamentalistas muçulmanos e os fundamentalistas de Bush.

Para mim, e desculpem o termo, é tudo da mesma laia, é tudo a mesma corja.

Nosso futuro depende da preservação dos recursos naturais fundamentais, como ar, água e terra, ao lado da produção de mais e melhores alimentos em abundância, suficientes para todos. Plantas transgênicas e preservação da natureza não são antagônicas, muito antes pelo contrário.


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sexta-feira, março 14, 2008

Ética ou liberdade?


“Não há moral, ética, nada”, disse o diretor da Federação Cubana de Futebol, Antonio Garcés, em relação à fuga de sete atletas da seleção cubana sub-23 que disputava o Pré-Olímpico em Tampa, na Florida.

Primeiro foram 5 atletas de uma só vez, incluindo o capitão da equipe. Depois de brilhante empate em 1x1 com a seleção americana, comemorado efusivamente na ilha (ainda) de Fidel, os jogadores, durante a madrugada, abandonaram o hotel. Na madrugada de ontem mais dois atletas fugiram e, comenta-se, ainda sem confirmação, que o mesmo fez um membro da comissão técnica cubana.

Com isso, o grupo de 18 atletas viu-se reduzido a 11, mas com um deles suspenso, Cuba entrou em campo para jogar contra Honduras com apenas 10 jogadores em campo e nenhum no banco. O jogo terminou em2x0 para Honduras, para alegria da delegação cubana que temia uma goleada retumbante e ainda mais desmoralizante.

A regra permite que uma equipe entre em campo com um mínimo de 7 jogadores – a mesma regra que já levou jogos ao final prematuro por conta de expulsões e contusões.

Os primeiros atletas a desertar estão negociando a ida para o Miami FC, que disputa a MLS – Major League Soccer e tem um grande contingente de torcedores cubanos em sua base.

Então, volta a pergunta: falta de ética ou desejo de liberdade?

A liberdade, para quem a tem, é algo vago, difuso, nunca considerado para nada na vida, afinal, como considerar algo “inexistente”?

A falta dela, todavia, é “existente”, é concreta, é dura, é pesada, é triste.

Ao ser humano, quase tudo é permitido na luta pela liberdade. Antigamente, tudo era permitido e aceito. Hoje, com atentados terroristas que matam inocentes, essa aceitação já é mais restrita, mas, certamente, a fuga de um regime ditatorial não é condenada. Exceto por aqueles que nada enxergam da realidade sem as lentes fortes da ideologia.

Já durante o Pan Americano, no Rio de Janeiro, três atletas e um treinador cubanos desertaram. Dois permaneceram no Brasil, já tinham tudo planejado. Dois atletas, porém, foram capturados pela Polícia Federal – mesmo sem nenhum crime ter sido cometido – e entregues ao governo cubano, que mandou um avião especialmente para levá-los de volta à ilha. Os atletas não tiveram tempo e apoio para pensar, para raciocinar sem pressões. Poucas vezes tive tanta vergonha do governo brasileiro como dessa feita. Negamos nossa história, para dizer o mínimo. Esse risco, pelo menos, os atletas que fugiram nos Estados Unidos não correrão.

Que sejam felizes no novo lar, em liberdade, ainda e sempre nosso bem mais precioso.

Pois não há agressão à ética nesse caso, há, tão somente, a fuga para a liberdade.

Mesmo porque, na visão do dirigente cubano, ético seria retornar à virtual prisão que é a ilha de Fidel e de Raul. E isso, convenhamos, nada tem de ético.


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quarta-feira, março 05, 2008

Pela Colômbia, contra o cerco “bolivariano”

A primeira reação de Rafael Correa ao ataque colombiano dentro de seu território foi calma e ponderada. Horas depois, e não por coincidência depois de ter conversado com Hugo Chávez, Correa partiu para o ataque, inclusive ordenando o deslocamento imediato de quase quatro mil soldados para a fronteira com a Colômbia. Agora está fazendo um périplo sul-americano, pedindo aos presidentes visitados que condenem a Colômbia. Enquanto isso, Chávez deita e rola e se diverte. Mandou dez mil soldados, com apoio de tanques, para a fronteira colombiana. Fala pelos cotovelos, ofendendo Álvaro Uribe e, de quebra, atacando os Estados Unidos. Com tanto barulho, é de duvidar que algum presidente tenha a coragem política de fazer a coisa certa e apoiar a Colômbia, ou, ao menos, recusar-se a condená-la, exceto no aspecto formal e legal de condenação à invasão de território. A idéia de fundo é isolar a Colômbia politicamente e, depois disso, sabe-se lá o que poderá acontecer. Chávez já recebeu dinheiro das FARC quando esteve preso. Documentos capturados na ação militar dão conta que ele teria entregue 300 milhões de dólares aos terroristas recentemente, “comprando” a libertação de reféns como parte de sua campanha publicitária de grande líder. Correa não combate os aquartelamentos terroristas em sua terra e há indícios que, mais que isso, dar-lhes-ia mais que apoio político. Tudo se explica quando se sabe que as FARC começam a considerar-se “bolivarianas”.

Preocupa-me, como de hábito, a posição brasileira, que já foi vergonhosa e covarde na questão de Darfur, quando o Brasil absteve-se de condenar o regime assassino do Sudão, e agora corremos o risco de ver nosso país condenar uma clara ação de defesa da Colômbia contra terroristas e narcotraficantes que partem de bases em santuários equatorianos e venezuelanos, para atacar, matar e sequestrar cidadãos colombianos e de outros países que estão trabalhando no país. Lembrando que a Colômbia é uma nação que, mesmo submetida às atrocidades dos terroristas e narcotraficantes, vive sob regime democrático há décadas. Nada impediria que esses supostos “guerrilheiros” defendessem seus ideais (?) pela via democrática do voto livre. Não o fazem, todavia, preferem o terror, gostam do lucro fácil e assassino dos narcóticos.

Terroristas são inimigos da humanidade.

Narcotraficantes são inimigos da humanidade.

Caçá-los e eliminá-los é tarefa necessária a todo estado, a toda sociedade organizada.

Simplesmente não pode haver meios-termos.

Que o Brasil condene, sim, como é de protocolo, a invasão, mas que condene também, e duramente, a leniência dos governos do Equador e Venezuela com a presença de assassinos que se abrigam em seus territórios. Essa é a posição correta, é a única posição possível a uma nação democrática e amante da paz. Historicamente, o Brasil é assim. Que não mude agora.

Peço desculpas pelo tom desse post, mas entendo que há assuntos que exigem a tomada de posição clara e inequívoca. Esse é um deles.


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terça-feira, março 04, 2008

Grandes loucuras, grandes cidades


Esse post é, em parte, uma resposta aos comentários – muito interessantes – do Carlos Emerson Jr. e do Guido Cavalcante.

Caro tocaio (descobri esse termo gaúcho para xará no imperdível “Os Varões Assinalados”, o romance da Guerra dos Farrapos escrito por Tabajara Ruas, autor também, entre outros, de “Netto Perde Sua Alma”), à São Paulo não basta ter a montanha de gente que comentamos em post anterior. No último dia 21 de fevereiro a cidade atingiu a marca de 6 milhões de veículos registrados, fora a frota dos demais municípios da região metropolitana e mais os itinerantes. Sem falar na enorme quantidade de veículos registrados no Paraná e agora também em Tocantins, para pagar IPVA de menor valor.

E, não por coincidência, o caderno Metrópole do Estadão de hoje, traz como manchete o aumento no congestionamento matinal, sempre pior que o vespertino. Realmente, já há alguns meses a gente percebe uma demora ainda maior para ir a qualquer lugar entre as seis e quinze e dez horas da manhã. Isso não é exagero. Depois das seis e meia, todas as vias paulistanas de alguma importância já estão com trânsito parado.

Há 20 anos, digamos, quando o número de veículos girava ao redor de dois milhões ou pouco menos, o total de quilômetros de avenidas, vias expressas e ruas de grande circulação era pouca coisa menor que o número atual, quase o mesmo, na verdade.

Como os carros, ônibus e caminhões multiplicaram-se por três, temos congestionamentos que não se sucedem, já são permanentes.

Dirigir em São Paulo nas manhãs e tardes de sábado é certeza de irritação. Imaginamos um dia tranqüilo, sossegado, trânsito fluindo e... Nada. Tudo quase igual a um dia útil. Hoje, o único bom momento que resta para se dirigir com prazer em São Paulo é a manhã de domingo. Pelo menos por enquanto.

E, como você disse, xará, a insanidade move-se para as cidades pequenas. A própria Santa Rita do Passa Quatro tem lá seus “congestionamentos” também.

Guido, de um lado você é pessimista, com viés para realista.

Por outro, porém, é extremamente otimista. Não acredito que consigamos dominar nenhuma forma de transporte em algo próximo à velocidade da luz em menos de dois, quem sabe três séculos. Mas, sei lá... Tudo parece possível ao engenho e arte do moderno macaco-sem-pelo.

Apesar de todos os pesares, encaro, ainda, com relativo otimismo o futuro.

Acredito, ainda, que conseguiremos contornar ou amenizar os problemas mais graves e tenebrosos, exceto, muito provavelmente, a corrupção tupiniquim, algo que persistirá mesmo depois de árabes e israelenses andarem de braços dados – sem algemas – pelas ruas livres de uma futura Jerusalém.

Apesar da crueza, gostei do poema. Dê mais informações a respeito, por favor.

Abraços a ambos.


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segunda-feira, março 03, 2008

Ficção virando realidade?


Há alguns meses escrevi uma minúscula peça de ficção política aqui nesse Olhar Crônico (“Reunião de Cúpula em Washington, postado em 9 de novembro de 2007).

Ela contava a chegada a Washington da Presidente Marisa Letícia para uma reunião de cúpula com as presidentes Hillary Clinton e Cristina Kirchner. Desde então, Hillary parece ter sucumbido ao furacão democrata Obama, Cristina foi eleita, como já era sabido que seria, e Dona Marisa Letícia continua papagaio-pirateando o maridão por toda parte, até na Antártida, mas, sei lá, hoje eu já acho mais provável Dona Dilma, por sinal o nome da minha progenitora, do que Dona Marisa Letícia, a italiana com passaporte brasileiro – ou é o contrário? –, na presidência desse imenso bananal.

O motivo ficcional que gerava essa cúpula americana, todavia, parece próximo de tornar-se realidade, o que, felizmente, não acontecerá: a invasão da Colômbia por tropas venezuelanas de Hugo Chávez.

Pois é...

Ontem, ao regressar do sítio e ligar o computador à noite, fui surpreendido com a notícia da morte do número 2 das chamadas FARC – grupo de bandidos com formação paramilitar – pelas tropas colombianas. Hoje, com mais detalhes, sabe-se que o indivíduo em questão foi morto pela explosão de bomba teleguiada, dois quilômetros dentro de território equatoriano, disparada a partir de um Super-Tucano T-27, fabricado em São José dos Campos e vendido para a FAC – Fuerza Aérea Colombiana. Esse detalhe com dois quilômetros de comprimento – essa era a distância a que o alvo estava da divisa entre Equador e Colômbia – provocou um protesto ensandecido de Chávez, que fechou sua embaixada em Bogotá e mandou dez batalhões de seu exército para a divisa da Venezuela com a Colômbia. Não satisfeito com tão fantástica demonstração de machismo, digo, poder e indignação, foi além, e chamou o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, de “cachorro americano” e “assassino”.

Chávez é um poltrão que gosta falar alto e contar vantagem, sendo ouvido porque senta-se sobre um monte de barris de petróleo. Não o chamo de palhaço porque palhaços não têm poder de vida e morte, somente o de fazer rir ou chorar. Chávez faz rir por conta de muitos de seus atos e pretensões megalomaníacas, faz chorar, e chorar muito, a milhões de pessoas, e tem, sim, o poder de matar, agora multiplicado e em velocidade supersônica, graças aos caças Sukhoy comprados da Rússia e que já ameaçou – como ele gosta de ameaçar – enviar contra os aviões colombianos.

Analistas políticos acreditam que tiro nenhum será disparado por conta dessa movimentação de tropas chaviztas, mas, sabe-se lá, às vezes um espirro fora de hora e lugar dá início a um tiroteio e um tiroteio...

Rafael Correa, que pode ser chamado de “cachorro chavizta”, reagiu protocolarmente ao ataque colombiano, chamando seu embaixador para consultas e exigindo desculpas públicas da Colômbia. Corretíssimo nas duas ações, estritamente dentro do protocolo e do que determinam as boas relações internacionais. O porta-voz de Uribe já adiantou que o país irá desculpar-se pela ação. Isso seria o bastante para encerrar o incidente, mas fica, agora, a ameaça criada pelas tropas venezuelanas.

O número 2 das tais FARC era apenas um bandido a mais. Lamento se alguém dá a esse pessoal o peso de combatentes por alguma causa, mas eu não creio nisso. Não passa, para mim, de movimento formado por grupos paramilitares, que ganham dinheiro com o narcotráfico e o seqüestro e encarceramento em condições degradantes de centenas, até milhares de pessoas. Não há porque lamentar.

Esse é um ano de eleições estaduais e municipais na Venezuela, e o partido de Chávez está muito mal nas pesquisas. Em novembro, Uribe afastou o venezuelano das negociações para a libertação de reféns em poder das FARC, quando sua ânsia por publicidade a qualquer custo ficou mais que evidente, ao ponto de atropelar as autoridades colombianas no processo de discussão. O brilho fácil do falatório demagógico e as manchetes igualmente fáceis proporcionadas por suas ações, eram importantes para continuar passando ao povo venezuelano uma imagem de grande líder que ele não é. O presente fuzuê parece ser apenas um sucedâneo para a ação frustrada de conduzir a libertação dos reféns.

Tiranos e tiranetes, mesmo que eleitos pelo voto popular, adoram esse tipo de coisas. Nossa história, infelizmente, está cheia de exemplos do tipo, como o de um ditador que mandou jovens despreparados para a invasão de um remoto arquipélago no Atlântico
Sul, provocando a morte de centenas e centenas de vidas.

Que Hugo Chávez limite-se à sua poltronice verborrágica.


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quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Eu estarei fora...

... dessa monstruosidade de 19.600.000 habitantes que será a Grande São Paulo em 2010.

Não que hoje, com apenas 18.800.000 habitantes, ela já não seja monstruosa, pois é e muito. Qualquer aglomerado urbano com mais de um milhão de habitantes já merece o rótulo de monstruosidade.

Esses dados fazem parte do documento Perspectivas Mundiais de Urbanização, produzido e distribuído pela ONU, que foi lançado ontem. O planeta como um todo caminha inexoravelmente para uma brutal urbanização, e já nesse ano de 2008 mais da metade dos seres humanos moram em cidades. Em 2050 esse número deverá ser superior a 9 bilhões de habitantes.

Como informação e para pensar um pouco, eis a lista dos maiores aglomerados urbanos do mundo:


Em 2008:

Tóquio 35,7 Milhões de habitantes

Nova York 19

Cidade do México 19

Mumbai 19

São Paulo 18,8



Em 2010:

Tóquio 36,1 Milhões de habitantes

Mumbai 20,1

São Paulo 19,6

Nova York 19,4

Cidade do México 19,4



Em 2025:

Tóquio 36,4 Milhões de habitantes

Mumbai 26,4

Delhi 22,5

Dacar 22

São Paulo 21,4

Enquanto isso, outras monstruosidades continuarão crescendo em terras tupiniquins, embora o verbo mais adequado seja inchar.



Em 2025:

Rio de Janeiro 13,4 Milhões de habitantes

Belo Horizonte 6,7

Porto Alegre 4,6

Recife 4,3

Naturalmente, os governos em todos os seus níveis – federal, estaduais e municipais – ignoram essa realidade futura. Não a desconhecem, longe disso, mas preferem ignorá-la porque não conseguem lidar sequer com o dia de hoje, que dizer com o futuro remoto – que chega numa velocidade impressionante, fazendo com que futuro remoto aplique-se somente a qualquer coisa lá para o século XXII. Infelizmente, o futuro já é hoje e nós não estamos preparados para ele, como tampouco estivemos preparados para o ontem.

Minha casa tem recebido visitas em boa quantidade. São Paulo já nos deu o que tinha que dar. Nós também já demos a São Paulo o que podíamos e estou certo que darei muito mais a essa cidade que, apesar de tudo, é a minha e amo de paixão, estando fora dela, produzindo leite e seus derivados.

Aglomerados urbanos são centros geradores de desequilíbrios em todos os sentidos, são centros geradores de doenças, tanto as físicas como as que atacam a alma. Não que o campo, plácido, bucólico, idílico – tudo falso – também não o seja, mas sem dúvida superpopulações não são benéficas. Já virou lugar comum falar dos inúmeros estudos mostrando como superpopulação afeta radicalmente o comportamento de diferentes animais. Frangos e galinhas bicam-se terrivelmente, até a morte. Porcos partem para o canibalismo. Bois confinados praticam sodomia. Ratos se matam uns aos outros. A lista é longa e muito triste.



A volta ao campo é uma saída?

Não.

A vida no campo é extremamente dura quando comparada aos padrões urbanos. Poucas são as pessoas que gostam de viver no campo, inclusive no próprio campo, onde o sonho dominante é morar na cidade e ter à mão tudo de bom que a civilização proporciona.

Triste engano, é claro. Mas o ser humano adora o engano e vive de sonho.

Com os homens públicos que temos, com suas visões míopes e imediatistas, sem falar no quanto dessas visões é afetada pela corrupção, continuaremos desprovidos de programas que visem ao bem-estar dos “povos das cidades”.

Enquanto isso, em busca de seu próprio bem-estar, os “povos das florestas” seguem fazendo sua parte, abrindo buracos gigantescos na cobertura verde e inchando os aglomerados urbanos no meio do nada.

Esse, contudo, é outro assunto.


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