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quarta-feira, abril 09, 2008

Cueca por 1 real...

...usada.

Flashback: toda vez que começo um texto, principalmente para esse Olhar Crônico, tenho que me policiar e controlar fortemente, pois a tendência é escrever “Confesso que...”
Ora, mas que mania besta de confessionário! Confesso, porém, que esse aqui comecei bem diferente - pronto! - mas não deixei de usar o verbinho cuja conjugação na primeira do singular tanto evitava nos tempos das aulas de catecismo. Os únicos, por sinal, que viram-me ligado à religião de maneira formal e, muito menos que isso, presencial, tirando as benditas aulas ainda no primário, pois sem elas não teria primeira comunhão. Ou seja, eu sou daqueles que da missa nunca sabem sequer a metade, ou até parte alguma, pois nunca freqüentei-as de moto e interesse próprios, exceto por motivos políticos em uma outra era já perdida no tempo e nos costumes.

Comprovando que o que mais há nos mármores do inferno é o pessoal cheio de boas intenções, aqui estou eu com as minhas e já com pecados e pecadilhos de infância confessados – de novo o verbo – sem algum texto que tenha a ver com o título completo desse post, que inclui aquela palavrinha de tenebrosas possibilidades para esse caso e peça, “usada”.
Então, com pequeno atraso indigno de uma ANAC, vamos a ele, o texto.

Ontem cedo, por mero acaso, deparei com uma notinha perdida no jornal dizendo que a Polícia Federal, ou a Receita idem, faria um bazar com objetos interessantes, entre os quais uma grande quantidade de garrafas de cristal com vinho do Porto, encomendadas por Edemar Cid Ferreira, aquele que era dono de um banco, presidia a Bienal e mora numa mansão cinematográfica, para presentear amigos & cia. Dizia também a notinha que essas garrafas estariam no leilão por se encontrarem entre os bens apreendidos do famoso traficante Abadia. Ou, provavelmente, foram levadas ao bazar dos bens do traficante para aproveitar a oportunidade.

Esse tipo de gente – Abadia e Cid Ferreira – nunca me interessou. Tampouco seus bens, embora uma das fazendas do bandido seja de dar água na boca, não nego. Todavia, vinho do Porto é líquido de minha especial predileção, seja aqui na Granja, seja no Sítio das Macaúbas. Sou eclético ou sem gosto, dependendo de quem analisa, pois gosto dele ao natural, como deve ser, e também com duas pedrinhas de gelo no começo de uma tarde quente depois do almoço ou no final de uma manhã igualmente quente, antes do almoço. Gosto é gosto, digo em minha defesa, e à noite meu copinho metido a besta não sabe o que é gelo. Se do vinho sou consumidor esporádico, apesar do prazer que ele proporciona, garrafas de cristal não fazem parte da minha listinha de compras nos “valmartis”, “extras” e “carrefurs” da vida. Se além de feitas em cristal da melhor qualidade, provavelmente em algum lugar de nome esquisito da antiga Tchecoslováquia, ainda por cima, ou por dentro, contiverem vinho do Porto de qualidade similar e idade avançada... Bom, aí é que não fará parte de qualquer uma de minhas listinhas de compra.

Lida a notícia, meus neurônios associados às papilas gustativas puseram-se a funcionar. Durante dois, talvez três minutos, acalentei a idéia de pegar o carro e dar um pulinho no Jockey para ver o tal bazar. Mas só de lembrar na encheção que é estacionar o carro, o trânsito e não sei o que mais, desisti e fui cuidar de meus afazeres, multiplicados pela solidão temporária nesse casarão, misturando roteiros e telefonemas com vassouradas e aspiradas de pó.

...

É... Pegou mal, ainda mais num texto em que há menções a um traficante. Explico, para que dúvidas não pairem: as aspiradas de pó citadas não passam disso: reúno o pó e o pelo caído dos cachorros com a vassoura e em seguida ligo uma máquina maravilhosa que tudo aspira, o aspirador de pó. Esse escriba, portanto, continua escrevendo suas sandices habituais unicamente com a ajuda de neurônios de má qualidade, mas naturais, sem nenhum turbinamento.

Nessa manhã seguinte ao bazar, a primeira página do jornal é tomada pela chama olímpica maculada, apagada, reacesa com a chama de algum isqueiro, enfim, uma ridícula chama olímpica digna do governo do país que vai abrigar os próximos Jogos Olímpicos.

A manchete principal, porém, diz que a Polícia Federal apreendeu computadores da Casa Civil do governo federal.
O mensalão, como se pode ver, nunca acabou, no que diz respeito ao envolvimento permanente desse governo com forças policiais. Entre outras chamadas que não vêm ao caso, uma chama minha atenção e leva-me a lê-la antes da sacrossanta leitura do caderno de esportes: “Bazar de Abadia termina em tumulto”.

Ora, ora...

Centenas de pessoas ficaram de fora, sem poder entrar.
Um rapaz saiu de Sorocaba em plena madrugada, chegou às 07:30 da manhã, passou o dia inteiro em pé esperando para entrar e nada. Como ele, mais um monte de histórias na linha “cheguei cedo, fiquei o dia inteiro, não me deixaram entrar”. Um dos felizardos que entrou saiu carregado de compras, inclusive toda a roupa do corpo e mais o boné, sendo confundido, ou “confundido”, com o traficante. Diz a reportagem que entre os muitos bens vendidos – brinquedos, perfumes, quinquilharias, roupas, tinha cuecas usadas – presumo que pelo traficante – que foram vendidas a 1 real.

Cueca usada por um traficante vendida por 1 real.

Ok, não vejo problemas nisso.

Mas, faço eu parte da mesma espécie biológica que abriga seres capazes de comprar cuecas usadas por um traficante de drogas, ainda que por 1 mísero real?

Sim, infelizmente faço, fazemos todos.

Antes que apontem seus dedos acusadores para mim: vinho do Porto em garrafa de cristal de trambiqueiro do mercado financeiro não é a mesma coisa. Até parece, mas não é.

Eu acho...


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quarta-feira, março 19, 2008

Universidade para o povo (?)


Esse título foi, também, uma das palavras de ordem de Maio 68 em Paris.

É, também, a idéia básica que norteou a criação de universidades públicas por todo o Brasil.

É, também e finalmente, uma decorrência lógica de uma universidade ser daqueles que a sustentam, ou seja, o povo.

Bom, com relação à Universidade de São Paulo, a USP, a primeira frase é mera utopia.

A segunda frase é tão somente retórica política.

A terceira frase é uma manifestação de idiotia de quem acredita que o contribuinte, o povo, tenha direito a algo que faça parte da estrutura do Estado tupiniquim. Aqui, o Estado é para si próprio e seus apaniguados e funcionários, jamais para o povo.

E por que toda essa discurseira raivosa contra uma instituição tão fantástica como a USP? Sim, porque é tão somente da USP que estou tratando, embora, com toda certeza, tudo que vem a seguir aplica-se a todas as demais universidades públicas dessa Terra de Vera Cruz.

Criada para ser popular, a USP tornou-se elitista, pois o acesso a seus cursos depende de excelente pontuação no vestibular, o que só é conseguido, basicamente, por quem vem de boas escolas e estudou bem e bastante. Pobres, portanto, estão excluídos, até porque as escolas que os pobres freqüentam, gratuitamente, pois da rede municipal ou estadual, não passam de depósitos de jovens e centros de má-formação.

Criada para servir, ela mais serve a si própria que à comunidade que a sustenta.

Finalmente, há pouco mais de dez anos, a USP fechou-se, fisicamente, para a população. O passeio de fim-de-semana de milhares de pessoas, em boa parte famílias inteiras com crianças e idosos, inclusive, acabou. A Universidade fechou seus portões ao povo, com medo dos estupros, roubos e assaltos.

Numa típica solução autoritária, comodista e voltada para o próprio umbigo, proibiu-se o acesso das pessoas sob a desculpa esfarrapada da segurança. Houve, sem dúvida, uma diminuição nos números de casos, mas não a extinção dos problemas.

Em nenhum momento a Universidade pensou em trabalhar em conjunto com a Polícia Militar. Ah, não, isso jamais, onde já se viu permitir a entrada das forças repressoras do Estado no solo sagrado onde o saber é gerado?

Em momento algum a Universidade pensou em algo como ser policiada pelos cadetes da Academia da Polícia Militar e por soldados em fase de treinamento. Ambas as categorias – cadetes e soldados – começariam suas vidas de policiais trabalhando com uma elite intelectual e ciosa de seus direitos e prerrogativas. Poderia, quem sabe, ser um excelente começo para que depois fossem para as ruas onde vive o povo real, a população que sustenta a Universidade.

Foi mais fácil fechar os portões.

Há duas semanas, num fim de tarde de sábado, fui à USP para assistir “Antígone”, no Teatro da ECA – Escola de Comunicações e Artes. Para entrar no campus demorou cerca de cinco minutos, aguardando a segurança liberar um carro de cada vez. Quando chegou a minha vez disse “Teatro” e fui liberado. Como sou cidadão de bons bofes e hábitos, e seguidor das leis, fui para o teatro, bonitinho. Assim como poderia ter ido para qualquer outro lugar. Como fizeram alguns visitantes no sábado e no domingo anteriores. Em dois roubos, levaram mais de 120 mil reais de caixas automáticos, fizeram reféns, bateram, aterrorizaram e saíram incólumes, sem nenhum problema, inclusive os ladrões do dia seguinte.

Na USP é assim: o cidadão não pode passear com sua família, mas os ladrões podem fazer a festa à vontade. Afinal, no solo sagrado da geração do saber é proibida, também, a entrada da polícia. Exceto para recolher as sobras dos roubos e, qualquer dia, os corpos das vítimas.

A Universidade cria e é criada pelo monstro que é o Estado brasileiro e sua burocracia.

Definitivamente, a universidade não é do povo e não é para o povo.


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terça-feira, fevereiro 05, 2008

Carnavalices



Em Dublin, Irlanda Contra x Irlanda Pró

Nada mais brasileiro que a CBF – Confederação Brasileira de Futebol –, a entidade monárquica que rege os destinos de nosso principal esporte e componente básico, ao que dizem, da brasilidade.

Nada mais brasileiro, também, que o desleixo, improvisação e indigência com que um de nossos principais produtos de exportação, a carne bovina, tem sido tratado por esse governo e por outros mais. Na verdade, por todos.

A bem da verdade, porém, esse atual superou-se e superou os antigos, ao mandar uma lista-fantasma – creio ser esse o melhor nome – de fazendas em ordem para exportar carne para ninguém menos que a autoridade européia responsável pelo controle desse produto. O fato todo foi tão ridículo que os europeus perderam a fala, isso aqueles que gostam, conhecem e defendem esse imenso bananal.

Outros europeus, irlandeses principalmente, só faltaram sair às ruas fazendo um carnaval esquisito na neve e na lama gélida que recobre parte das cidades da Irlanda.

A mesma Irlanda que quarta-feira verá um jogo caça-níqueis do time da CBF – outrora conhecido como Seleção Brasileira – e para isso já esgotou todos os mais de 80.000 ingressos disponíveis para a partida.

Será um confronto interessante. Mais ainda seria se o time da CBF jogasse com alguma coisa do tipo “Brazilian meat – eat it!” estampado na camiseta, e o time irlandês o fizesse com “Don’t eat Brazilian meat” ou qualquer coisa parecida. O interessante desse confronto será somente isso, sua realização simultânea com essa crise na exportação de carne, pois, fora isso, como jogo, é tolo, dispensável, sem sentido, sem nexo, sem valor, sem, sem, sem...

Mas, com dólares.

Ao fim e ao cabo, é a única coisa que conta no reino da CBF.




Nenhuma nudez será castigada

Tão certo como os desabamentos e mortes de todo verão nas regiões serranas, numa repetição quase cronométrica e sem surpresas – talvez, por isso, desconcertando e deixando sem ação as autoridades (ir)responsáveis, abro o jornal e dou de cara com bela mulher nua. Totalmente. Ou quase, pois discretíssimo tapa-sexo cobre o desnecessário, nessa altura do campeonato.

Lamento,mas não vejo graça, nunca vi. Até porque na fase em que veria graça e babaria por isso, a nudez era algo muito privado, tão privado, naqueles tempos de censura, que nem nas revistas de “mulher pelada” ela aparecia.

Não entendam mal minhas palavras, por favor. Não vou alongar-me em explicações por serem desnecessárias, mas digo apenas uma coisa: a exposição absoluta da nudez tira todo o mistério, todo o encantamento, toda a imaginação, todo o erotismo que o corpo humano pode despertar. É coisa, dessa forma, sem graça.

Algumas imagens ligadas a açougues e animais vivos em seus habitats passaram por minha cabeça,mas não se preocupem, esse texto já está no fim, e vocês ficam poupados dessas cenas que minha cabeça visualizou.

Ok, sim, pode ser verdade, talvez eu seja um conservador chato e sem graça.




De volta à carne

De volta por que? – se nunca saímos dela nesse post?

Hehehehehe... Um pouco de veneno.

Enquanto tudo isso acontece, na extensa, aconchegante e interessante fronteira com o Paraguai, bois, vacas e bezerros hermanos trafegam candidamente pelos dois lados da dita cuja. Não há placas, o que não faria efeito, já que bois, vacas e bezerros não sabem ler. Não há vigilância, não há controle, nada há, enfim, a separar os dois países. Tudo nos une, principalmente a aftosa, mal controlada do lado de lá e que ao entrar no bananal e contaminar nossas vacas, derruba nossas exportações em dois a três bilhões de dólares por vez.

No bananal, tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Isso, sim, é o que se pode chamar de um país confiável.

Parodiando H L Mencken – “Nunca ninguém perdeu dinheiro por subestimar a inteligência do povo americano” – podemos dizer que nunca alguém perderá dinheiro por subestimar a inteligência dos políticos brasileiros.

É isso. Por enquanto.




Post scriptum

Os políticos tupiniquins presos pelo clima na Antártida, ou Antártica, voltaram para casa; ficaram 5 dias no continente gelado e tiveram – pasmem, leitores! – que lavar a própria roupa; o avião escalado para trazê-los apresentou um defeito, retardando mais um pouco a volta, que, finalmente, aconteceu.

Voltou por que?

Por que voltou?

:o)

domingo, janeiro 27, 2008

“· 19:52

· Clima barra volta da Antártida de parlamentares do País”

Acabei de ver na página do Estadão.

Não sei quem são os políticos e, sinceramente, não estou interessado em saber.

Também não sei quantos são, mas, infelizmente, não são todos os milhares que infernizam nossa vida e mantêm o país no século XIX, claro que com o precioso auxílio de milhões de nós mesmos. Mas isso é para outra hora.

Por enquanto, fica só essa notícia saborosa."

quarta-feira, outubro 31, 2007

País engraçado


Com esse título acima já fica claro ao leitor e à leitora desse blog que não vou falar sobre a Suíça. Tampouco irei falar sobre o Canadá, Islândia, Suécia ou Noruega. São países chatos, falemos a verdade. Tudo funciona e, geralmente, funciona bem. O povo é saudável e educado, etc e tal, e, em lugares assim, é difícil achar coisas engraçadas. Preconceito? É, talvez, um pouco, um pouquinho só.

País engraçado poderia ser a América, digo, os Estados Unidos da América, mas, sei lá, com essa atual elite dirigente pode-se chamar os USA de qualquer coisa, menos de engraçado.

Itália! Sim, a Itália é engraçada, coisa que outros latinos como a França, Espanha e Portugal não são. São muito sérios, muito empolados, muito cheios de si, enfim, não são engraçados. Alemanha? Hahahahaha... Engraçado é alguém pensar que a Germânia possa ser engraçada. Ah, a Inglaterra, sim, a “velha e pérfida Albion”, essa é engraçada. Um humor oposto ao italiano, mas humor. Mas tampouco falarei desses dois. Agora já deve ter ficado claro que eu, logicamente, vou falar do mais engraçado de todos os países: o Brasil.

O Brasil é tão engraçado que não duvido nem um pouco que nossa primeira-dama lance-se candidata à sucessão do maridão. Se Dona Cristina fez isso na terra dos hermanos ao sul, que na média são mais educados e politizados que nós, por que não Dona Marisa Letícia para Presidenta? O problema seria o que fazer com o primeiro-marido, ou primeiro-cavalheiro da República. Essa questão paralisaria por meses os já paralisados trabalhos do Congresso Nacional. Pergunto-me se o primeiro-cavalheiro viraria papagaio-de-pirata da esposa, reproduzindo o que ela mesma faz hoje com ele, talvez, como aventei há pouco tempo, já em campanha pela sucessão.

O cúmulo da graça tupiniquim seria a reeleição de Dona Marisa Letícia em 2014, ano da Copa no Brasil. E, por que não, com os fantásticos avanços da medicina, em especial na geriatria, lulla da Silva poderia, constitucionalmente, voltar à doce presidência em 2018, com perspectivas de ali permanecer até 2026. O cúmulo da (des)graça, sem dúvida.

Todavia, sendo o Brasil tão engraçado como é, por que não? Inclusive, cúmulo da graça, teríamos como mandatária suprema da nação uma cidadã italiana e os primeiros-filhos seriam,também, cidadãos italianos. Na falta de um povo do primeiro-mundo, teríamos dirigentes do primeiro mundo de carteirinha e tudo.

Crise moral

Estou morrendo de vontade de ler a edição da revista masculina que estampou em sua capa e páginas internas aquela senhora, teúda e manteúda de alto mandatário republicano. O problema é que sou um cara de poucos, mas firmes princípios. E não vou gastar um centavo dos meus já parcos para engordar a já muito gorda conta dessa distinta senhora, da qual, por sinal, nada quero ver, mas que percebe-se, de gorda nada tem, exceto a conta bancária.

Ué, então por que você quer a revista? – pergunta o leitor curioso e a leitora indignada.

Simples, estimada leitora preocupada com minha moral.

Simples, estimado leitor, descrente de meus princípios.

O que me interessa nessa revista são... as entrevistas.

O pior vem agora: podem acreditar, o que digo é vero, é veríssimo.

É fácil entender o porque: dois de meus ídolos estão nas páginas da tal revista masculina, na mesma edição, em duas entrevistas supimpas.

Uma, muito curta, com o técnico do São Paulo, Muricy Ramalho. Meu ídolo.

Outra, a maior, com meu ídolo e leitura obrigatória todo sábado na Veja:

Diogo Mainardi.

Fui cortar o cabelo na sexta-feira. O barbeiro, cujo nome ainda não gravei, discretamente tirou uma revista da gaveta e estendeu-a para mim.

Oba! Era a tal revista.

Ah, não era... Era o número anterior, com uma starlet qualquer, mais uma daquelas que se formou na faculdade de reality show. Nem abri, devolvia, e pedi uma “Caras”. Como disse, eu sou um cara de princípios, e a rápida vista-d’olhos pela “Caras”, além de nesse caso preservar meus princípios, coloca-me em dia com todas as fofocas do mundo das personalidades. Foi assim que descobri que essa revista “tem” um castelo na Toscana, com vinhedo próprio e tudo. Um castelo de verdade e meio velhusco, pelo que pude ver nas fotos, onde um casal – ele ator famoso, ela cantora desconhecida – passeia pelo vinhedo e enche uma cesta de palha com cachos de uva. Puxa, se a revista fosse minha eu recortaria a foto maior dos dois com as uvas e fazia um quadrinho, pra pregar na parede.

Agora, nobres leitores, estou já pensando em como e no que fazer que justifique um convite de “Caras” para alguns dias num castelo toscano.

Enfim, preservei meus firmes princípios e não contribuí pro caixa da teúda e manteúda republicana. Fiquei em dia com as fofocas do mundo do beautiful people tupiniquim e, fantástico, descobri um castelo, descoberta que vai exigir desse pobre escriba a dura labuta de lançar um livro, aparecer no Jô e aí, quem sabe, receber o convite para alguns dias no castelo toscano em meio às vinhas. Mais que isso, só dois disso, nesse país realmente engraçado.


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segunda-feira, junho 04, 2007

Pescando para escrever




Escrever tem um quê de pescaria. Pelo menos se a gente se dispõe a escrever crônicas, muitas vezes temos que sair à procura de algo que nos motive a pegar a pena, tinta e papel, sentar e escrever. Isso fica mais fácil quando a necessidade para começar resume-se a apertar o botão do computador e esperar um pouco, clicando para acessar o editor de textos. O bom desses softwares - não queria usar palavras como essa, mas, como fazer para comunicar o que quero? - é que eles mesmos se ocupam com as maiúsculas e os acentos, pelo menos a maioria deles. Isso facilita a escrita, porque o português tem acentos demais! Um verdadeiro despautério, cuja única utilidade, penso egoisticamente, foi me ajudar a tirar boas notas em gramática.

Mas comecei a falar em pescaria e parei. Essa pescaria se dá nos arquivos mortos, teoricamente vivos, guardados aqui mesmo no computador. Às vezes é fascinante passear por velhos textos, a maioria apenas iniciados e largados, ora por preguiça, ora por falta de tempo, ora por falta de capacidade pura e simples para terminá-los de forma decente. Alguns, verdade seja dita, nada têm de fascinantes, muito pelo contrário. E me ponho a pensar no que me levou a escrevê-los. Nesses passeios por velhos arquivos eletrônicos sempre acabo encontrando algo interessante, geralmente para uso futuro e nunca para o momento presente e a necessidade premente - isso é uma rima pobre, não é?
Ainda há pouco, deparei com uma carta/crônica de sei lá quando em que falo de banheiros! Só pode ser brincadeira, mas não, tá lá, tintim por tintim. Acho que a única coisa prestável ali é quando falo que gosto dos banheiros do Serra Azul, aquele shopping suspenso sobra a Bandeirantes. Ali, enquanto a natureza segue seu curso, ao invés de ficar olhando para o infinito de uma parede, olho pelos janelões para a paisagem da região de Valinhos, colinas com árvores, pastos, lavouras e parreirais. Bom, enxergo também o Hopy Hari, mas, tudo bem, nem tudo pode ser perfeito. E olho a estrada, os carros indo em busca de seus destinos por esse interior afora...

Outra boa pescaria é pelos jornais recortados.

Ah! Os jornais recortados, os jornais guardados, fontes permanentes de cobranças e pequenas discussões. O pior é que me dói profundamente desfazer-me de tempos em tempos de pilhas e pilhas laboriosamente dobradas de páginas de jornais. Quanta informação, quanta coisa interessante, quanto saber acumulado aquelas páginas revelam, e tudo vai para o chão, servir de piso "mole" e absorvente para as noites da Mel e da Branca. Melhor destino teriam se servissem para embrulhar hoje as sardinhas do almoço de amanhã. Lembro dos versinhos dos banheiros escolares de há quarenta anos:

"Triste vida, triste sina,
Ser poeta de latrina."

É, não deixam de fazer sentido com esse texto e, sobretudo, com o pobre destino das páginas com tanto saber.
O que me leva aos trabalhos curraleiros no sítio. Há que tirar a bosta das vacas e levar tudo para a esterqueira. A bosta de hoje é o adubo de amanhã que, por sua vez, irá gerar as abobrinhas futuras e as abobrinhas presentes que vocês estão a suportar bravamente.

Mas não vou falar de alguma página catada a esmo, senão esse texto não termina e depois dessas abobrinhas é melhor terminar.

Fui.


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terça-feira, maio 15, 2007

Piorando, ao invés de...


Pois é, quem procura sinais de otimismo precisa procurar muito.

Lembro da lenda hindu do homem que passou toda sua vida procurando pelo seixo que transformava qualquer metal em ouro. Procurou-o por décadas, sem resultado. Um dia, parou para descansar à sombra de uma árvore e olhou para a velha fivela de metal barato de seu cinto, na qual batia os seixos, dia após dia. E ela brilhava, refulgia até na sombra do arvoredo. Primeiro, desanimou, mas logo recuperou seu ânimo e, mesmo alquebrado pelo peso dos anos, retomou sua caminhada, agora em sentido contrário.

É... Pensando bem, ainda não descobri porque cargas d’água meus neurônios ligaram a busca do otimismo com a busca do seixo mágico. Talvez porque de vez em quando a gente encontre um sinal otimista, mas, tomados por um desânimo que começa a parecer genético, não acreditamos no que vemos e seguimos em frente.

Nesse momento, os sinais negativos abundam. Apesar de todos os riscos, apesar da certeza dos terríveis problemas futuros, dos quais já vislumbramos algumas amostras grátis hoje, ninguém desiste de seu way of life e muda em prol do futuro. Parece que o viver bem aqui e agora é mais importante. E essa postura tem mesmo tudo a ver com o imediatismo de nosso tempo, que nos leva a viver em alta velocidade. Ou melhor, que nos leva a cruzar esse tempo em que vivemos de forma apressada, sem tempo para apreciar nada do muito que temos e poderíamos apreciar. Vivemos sob o signo da urgência e da pressa. É uma civilização que parece querer esgotar-se.

Voltando ao que deveria ter sido o começo, meio e fim dessa crônica, queria dizer que a Suprema Corte dos Estados Unidos, autora de decisões brilhantes em prol do homem, proferiu a que talvez venha a ser a sua mais desastrada e impensada decisão: autorizou a EPA – Environmental Protection Agency – a legislar sobre a emissão de gás carbônico. Não se pode legislar sobre algo que é fonte da vida como a conhecemos. Sem o CO2 tão mal-afamado e criticado, não há vida sobre a Terra. Porque é dele que as plantas precisam para se estruturarem e, ao lado da água e da luz solar, produzir a fotossíntese, liberar oxigênio e produzir a base da alimentação de todos os seres vivos sobre a face do planeta, inclusive as mocinhas desfilantes que parecem viver de brisa e nada mais.

O que provoca o aquecimento global não é o gás carbônico, nem mesmo o que se origina das queimadas. É o gás carbônico que sai do consumo desenfreado dos combustíveis fósseis para fins energéticos. O aquecimento global é filho único, praticamente, do petróleo e do carvão.

Mas a Suprema Corte não poderia legislar sobre o direito sagrado de cada cidadão americano ter sua própria SUV e com ela desfilar por toda parte, desde pegar as crianças na escola e ir ao supermercado até viajar no final de semana para longe da cidade poluída, em busca de um ar puro que começa a virar mito e lembrança remota.

A Suprema Corte não quis submeter os americanos ao risco de se sacrificarem por algo, por mais nobre que seja. É uma sociedade que já não aceita o sacrifício por nada, quase não o aceita nem mesmo por uma boa guerra. Tanto lá como cá, sacrifício é algo irrevogavelmente fora de moda e antiquado. Nada pode se interpor entre nosso prazer e nossa consciência. O último estágio dessa escalada parece estar sendo cumprido na China e na Índia. Também por lá a busca do prazer imediato, do conforto e da posse, está em alta.

O panorama é tão complicado que o próprio Papa Bento XVI incluiu a natureza, a Amazônia, os bosques brasilianos em seus discursos.

Sensação ruim passa tudo isso.


Mas a fivela do meu cinto continua sendo de metal barato.

Já é alguma coisa.

Eu acho.


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Genéricos em promoção



Visitas de impacto

O Papa veio, andou, falou e já se foi.

A cidade parou, parte para ver o Papa, parte por causa do Papa.

A primeira vez que um papa veio ao Brasil foi mais impactante.

Lembro razoavelmente da confusão, lembro, também, que foi período conturbado em minha vida pessoal.

Da primeira vez tínhamos, numa visão mais ampla, um país a recuperar e construir. Hoje, já tivemos um país e não tivemos a menor idéia do que fazer com ele. Deu no que está dando agora.

O Al Gore também veio e já se foi. Acho que já se foi, pois foi tudo meio discreto.

Cometerei uma blasfêmia se disser que hoje, e para o futuro, o Al é mais importante que o Bento?

Poderia e deveria ser diferente, mas, sei lá... A Igreja Católica anda meio presa a velharias em total desacordo com o presente e com o futuro. Nessas terras de LatinoAmerica, em particular, de um lado a rapaziada pinta e borda e os bons e velhos conceitos e preceitos de moral, civilidade, respeito e outros, perdem-se em meio à esbórnia geral. De outro, os pregadores se metem a líderes de movimentos vários, talvez para aplacar antigas culpas, talvez por acreditarem que o caminho da fé passa por atos concretos revolucionários.

Não gosto de ver a igreja, qualquer igreja, ou seja, qualquer religião, com as rédeas do poder nas mãos. Apavorante e perigoso. Tanto a história como o presente estão repletos de tristes exemplos.

Falei mais da igreja do que do ambiente. O Gore veio para falar sobre o ambiente, algo que nos afeta independentemente de nosso credo religioso, ou ausência de credo. Ainda não terminei a revisão do documentário sobre o escurecimento global. Parei na metade, em parte por estar meio assustado com as conseqüências que ele descortina. Passei parte dos últimos dias procurando sinais de otimismo verdadeiro no horizonte, todavia, os que encontrei estão cheios de ressalvas ou trazem consigo acusações de serem forjados para não assustarem demasiado as pessoas.

Ah... O frio, finalmente

De tanto ler, ouvir e falar sobre o aquecimento global, mais do que em anos anteriores eu estava saudoso do frio, desejoso de ver esses dias cinzentos e sentir sobre a cabeça descoberta os pingos minúsculos de garoas em diversas intensidades, desde um sereno mais grosso até um garoão.

Enquanto escrevo, um pezinho de brisa gelada entra pela janela e dá para sentir pequena amostra de uma garoinha ligeira. Um dia perfeito, do qual já tenho saudades por antecipação. Por aqui, antes do aquecimento global tivemos o aquecimento paulistano, que cometeu o crime de matar a garoa que foi nossa marca registrada como cidade. Uma cidade que já foi mais civilizada, com menos asfalto, menos concreto, menos gente e mais garoa, mais frio, mais prazeres que não os atuais e supostos prazeres, movidos a rios de dinheiro e falsos como notas de sete reais. O aquecimento paulistano, um fato, é uma boa amostra, ainda que em pequena escala, do que pode representar o aquecimento global.

E vou parando por aqui.

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sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Vai piorar...


Tempos atrás, logo antes do Natal, queixei-me nessa telinha que não andava muito inspirado para escrever por causa do assassinato bárbaro da família de Bragança Paulista, queimada viva dentro de um carro. O menino de 5 anos ainda foi tirado do inferno do fogo com vida, por uma moça amiga de seus pais e que estava também no carro. Em vão; ambos, o menino e sua salvadora, sobreviveram mais alguns dias e morreram.

Depois foi a vez de um ônibus no Rio de Janeiro, incendiado com mais de vinte pessoas dentro, das quais sete morreram.

Agora foi outro crime para o qual, assim como para esses anteriores, fica difícil encontrar adjetivos. Falo da morte do menino João Helio, no Rio de Janeiro, também, arrastado fora do carro, preso ao cinto de segurança, por nada menos que sete quilômetros por quatro diferentes bairros cariocas.

Como ser humano relativamente normal, a única coisa que desejo para todos os culpados é o linchamento pelos mesmos métodos que empregaram para matar e desgraçar para sempre a vida de muitas famílias.

Claro, meu desejo é selvagem e tão bárbaro quanto os atos dos assassinos. É o que dizem a moral e o direito, ou melhor, a “ciência do Direito”, como fui corrigido nesses dias por uma blogueira.

É, não deixa de ser correto, e bem sei que, com tais desejos, estou entrando no reino da barbárie, respondendo da mesma forma.

Bom...

Está certo, sejamos civilizados.

E daí?

Se a coisa que atende pelo nome de Congresso Nacional votar e aprovar a lei que endurece o tratamento penal aos autores de crimes hediondos for aprovada, os indivíduos que os perpetram “só” poderão receber o benefício da prisão semi-aberta – e outros – depois de cumprirem módicos 40% da pena.

40%!

Esse é o valor da vida humana no Brasil.

Uma pechincha. Poucas liquidações vendem seus produtos encalhados tão barato assim.

Pior ainda: na prática, na vida real, sabemos que nem mesmo esses 40% serão cumpridos pelos assassinos. E mais: viverão à larga nas prisões, mandando e desmandando, falando aos celulares, consumindo suas drogas prediletas, recebendo visitas “íntimas”. E nem por sonho irão para celas individuais, sem contato com outros assassinos. A legislação penal brasileira considera isso desumano e estabelece prazos máximos para manter os assassinos em tais celas, por sinal existentes em apenas dois presídios em todo o país.

Esse é um lado da questão.

O outro lado é mais triste. E ainda mais preocupante.

Há alguns anos, coisa de três ou quatro, um pesquisador americano encontrou uma causa interessante para o declínio da criminalidade nos Estados Unidos: a aprovação, no início dos anos 80, da liberalização do aborto. A relação, uma vez conhecidos os fatos e colocados lado a lado, é óbvia: liberado o aborto, houve uma redução no nascimento de crianças sem famílias ou em famílias de baixa renda, que não teriam condições de proporcionar a elas ambiente saudável e educação razoável.

Falar esse tipo de coisa pega mal na Terra de Vera Cruz. Quem fala isso já é associado com a “direita”, palavra no Brasil associada a tudo de ruim que o ser humano já criou, enquanto sua contrapartida, a “esquerda”, é a responsável por tudo de bom criado pela humanidade. A “direita” é a personificação do mal.

A “esquerda” e seu braço útil, a igreja católica tupiniquim – pronto, isso já basta para caracterizer-me como um radical de extrema-direita –, têm boa parte, para não dizer toda, da responsabilidade pelo quadro que vivemos hoje: crianças nascem aos montes, paridas por meninas de treze, quatorze, quinze anos, que depois do primeiro parto engatam mais um, dois, três...

Milhões de crianças vêm ao mundo sem lar e sem família, sem acesso a uma educação que seja no mínimo razoável. Isso quando têm acesso a alguma educação.

Não tenho dados à mão, mas sabe-se que a capacidade intelectual, o famoso QI, anda muito em baixa junto aos extratos mais pobres da sociedade. Inteligência e capacidade de aprendizado estão intimamente ligados ao consumo de proteínas e outros nutrientes desde a gravidez, associados, depois do nascimento, a ambientes saudáveis e estimulantes. O que vemos hoje é um círculo vicioso: crianças já deficientes nesse ponto trazendo ao mundo outras iguais ou piores.

Isso é triste, mas não é falso. Boa parte dos jovens e já não tão jovens de hoje são semi-alfabetizados. São, como disse um educador que não recordo, analfabetos funcionais. E o mundo, hoje e cada vez mais, só tem trabalho para pessoas capazes de ler e entender e aprender como lidar com máquinas mais e mais sofisticadas, com softwares que dominam nossas vidas minuto por minuto. Para trabalhar, é preciso mais que mãos e pés, é preciso uma cabeça com um mínimo de condições e conhecimentos acumulados.

Nossa população está crescendo no rumo oposto.

Que futuro está reservado a esses muitos milhões de bebês, crianças e jovens?

Tenho medo de pensar a respeito.

Enquanto isso, a única coisa “real e prática” que a sociedade consegue fazer é dar o nome do menino assassinado nas ruas cariocas a um estádio de futebol.


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domingo, fevereiro 04, 2007

Pane!



Calma, gente, calma, não é no clima...
Ainda.

É só no meu computador e já foi parcialmente sanada.
O problema é que a cura foi daquelas que mata a doença e o paciente fica moribundo. Ele foi formatado e, no processo, meu precioso outlook com milhares de e-mails, lembranças preciosas, lembranças valiosas, lembranças comerciais, foi pra caixa-prego.

Com ele foi também meu Catálogo de Endereços.

Nessa semana sequer consegui comunicar-me com dois fornecedores! Um caos.

Enfim, paciência, o leite já caiu, já se espalhou, já se infiltrou... Agora é tentar corrigir, e é esse o motivo desse post.

Com muitos de vocês eu trocava e-mails, regular ou ocasionalmente.

Gostaria que essas pessoas, inclusive amigos próximos, vizinhos de sítio (Raquel, César, Monika, Miro...), amigos distantes ns oropas, franças, bahias e states da vida enviassem um e-mail para esse endereço:

emersonsrpq@gmail.com

Se possível, e não for pedir muito, com telefones e skype também. :o)

'Brigadão e bom final de domingo.



Emerson

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domingo, dezembro 31, 2006

Perdas & Danos... Ou: Adeus, 2006


É assim que recordo esse ano prestes a terminar. Meio triste, meio chateado.

Talvez pela permanência de lulla da Silva por mais 4 anos.

Talvez pelo lento sentimento de inviabilidade que começa a ficar mais e mais palpável sempre que penso no país.

Talvez pelo absurdo da impunidade sobre tudo e todos.

Talvez eu esteja assim pela morte da família de Bragança, queimada viva em seu carro. E, agora, a morte de mais sete pessoas, queimadas vivas dentro de um ônibus no Rio de Janeiro. E a certeza de que os autores desses crimes tão bárbaros nada sofrerão. E, se condenados, não ficarão mais que doze, talvez quinze anos, numa prisão.

E, para agravar esse sentimento, teve a seca. A cruel seca de 2006 que pôs abaixo parte de meus sonhos. Por outro lado, é claro, trouxe lições. Mas as perdas e o sentimento de derrota estão difíceis de serem superados. Foram muito fortes; são, ainda.


Não é um bom final de ano, lamento.

Tento pensar em alguma coisa para justificar um novo título, algo como Perdas & Ganhos.

... Tentei, mas não cheguei a parte alguma. Claro, no plano pessoal mais próximo estamos todos bem, e isso já é muita coisa. As vacas estão bem, apesar dos pesares, o pasto de tanzânia está bem implantado, o canavial também, e essas foram duas conquistas, sem dúvida, aliadas a um controle razoável das águas das chuvas. Todavia, fica um sentimento de insuficiência, de faltar alguma coisa.

... O ano termina com uma demonstração inequívoca de como estou deslocado no mundo publicitário. Nesses últimos dias entrou um trabalho novo e um pouco diferente: escrever o roteiro para um vídeo já criado e entrando em fase de produção acelerada. Desde o primeiro contato telefônico, entretanto, senti que não era um trabalho para mim. Senti que não conseguiria escrever o que as pessoas esperavam.

E o que elas esperavam e estavam dispostas a pagar para ter?

Palavras de estímulo ao consumo de um serviço na área de saúde.

Queriam um vídeo vendedor.

Foi quando comecei a entrar em choque comigo mesmo. De um lado, a necessidade de trabalhar, abrir um novo mercado, fazendo algo que gosto e para o qual estou capacitado. De outro, porém, minha velha, minha antiga postura de repúdio a vender alguma coisa para alguém. E, para isso, usando palavras, dourando pílulas que sei não serem tão douradas. Coisa difícil demais. Já era difícil antes, ficou muito mais difícil agora.( Tal como escrever um texto otimista e positivo, hoje, sobre esse ano que finda. Não dá.)

Tive sorte: o cliente reclamou de todos os custos e acabei cortado de maneira nada elegante, mas faz parte, né?

No íntimo, gostei.

Isso já é alguma coisa: saber o que não quero, o que não gosto, o que me desagrada.

É sempre bom começar um novo ano com algumas certezas.

Então, é isso: que venha 2007.

Que venha com chuvas bem distribuídas.

Que não seja tão violento e cruel como foi 2006.

Que não seja tão sujo e criminoso nas cúpulas de poder espalhadas pelo Brasil como foi em 2006. A começar pelo poder maior, ancorado no Planalto.

Que venham as chuvas, e que venham bem distribuídas.

E que todos tenham muita saúde & paz em suas vidas, com chuvas abundantes, regulares, criadeiras, tanto figurativa como realmente.

Chuva é vida. Feliz 2007.

“Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.

Ambos existem; cada um como é.”

Fernando Pessoa (“Ficções do Interlúdio” – Poemas Completos de A. Caeiro)


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sexta-feira, dezembro 22, 2006

Feliz Natal!




Ontem, às 22:20, começou o verão.

Mero formalismo, já que nos termômetros ele começou faz tempo.

Com o começo oficial do verão o ano termina. Antes dessa passagem emblemática, porém, temos outra, que é a chegada do Natal.

Quando criança, era uma época mágica. Passávamos o ano inteiro à espera dessa data e tudo que se relaciona a ela: castanhas, nozes, panetones e presentes. A vida era simples na nossa ótica infantil, e mais simples ainda naqueles tempos distantes em que internet, por exemplo, não existia nem na ficção cientifica. Computador era chamado de cérebro eletrônico e também não existia, era coisa de livrinho de ficção científica. Sim, telefone já existia, por favor, né? Mas eram poucos e privilégios das boas casas comerciais e das famílias da elite econômica ou social (todo mundo sabe que essas elites nem sempre coabitam), sem falar que uma ligação para outra cidade era feita via telefonista. No decorrer de meados dos 70, impressionei-me com uma matéria em revista científica, dizendo que, caso o sistema telefônico americano ainda dependesse das telefonistas de outrora, sua operação precisaria de mais de 20 milhões de operators nos horários de pico. Santo computador!

O Natal tinha, também, aquele negócio bom de famílias reunidas e boas comidas, além de relativa abundância de refrigerantes. Lembro-me que sempre checava o estoque de vasilhames para guaraná e coca-cola, cuidando para que nenhum se quebrasse e reduzisse o abastecimento de tão preciosos líquidos.

Observação para as novas gerações: vasilhame era o nome dado às garrafas de qualquer coisa que precisavam voltar ao comércio e à indústria quando comprávamos novas unidades. hoje está voltando à moda e à prática do dia-a-dia em países pobres e atrasados, como a Alemanha. Nos países ricos e desenvolvidos, como é, felizmente, nosso caso, compramos tudo novo e jogamos tudo que é usado no lixo.

De volta ao Natal. Com o tempo, a gente cresce, vira adulto e aprende que Natal é mais que uma festa para ganhar presentes, comer e beber bem. Natal é confraternização, é boa vontade, é amor, é tudo isso que a gente vê nos anúncios e desejamos uns aos outros.

No que me diz respeito, desejo a todos vocês um


Feliz Natal, pleno de harmonia e amor.


E cheio de boas comidas, boas bebidas, boas risadas e também presentes,

dados de coração, quando todos são bons e belos.


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segunda-feira, dezembro 18, 2006

Sem assunto


A tela se ilumina e o espaço em branco aparece, apenas esperando pelas palavras que povoam minha mente e querem sair em busca do papel que já não existe, ou, então, apenas mudou de forma.

Os assuntos são muitos, tantos que chega a ser difícil escolher um. E tem para todos os gostos. Por exemplo, a vergonhosa atitude dos parlamentares concedendo-se um imoral – ou amoral? – aumento de quase 100% em seus vencimentos que já eram, digamos, generosos.

Tem, também, o aquecimento global, tema terrível que parecia ficção, depois parecia coisa para um futuro longínquo e que nunca chegaria, pois antes dele a ciência dar-nos-ia novas respostas e soluções. Depois ele passou a ser ameaça futura mais próxima, mas geograficamente muito longe dessa idílica Terra de Vera Cruz. Agora, o aquecimento está batendo às nossas portas e. ao olha-lo, percebemos que tem passaporte com passagens e paragens no mundo todo. Algo precisa ser feito e já.

A internet diz que a casa de um dos assassinos que incendiaram uma família, ainda viva, foi pichada com ameaças e ofensas. Amedrontada, a família mudou-se. Os assassinos também mudaram-se, foram transferidos para outro presídio. A crueldade dessas mortes é inaudita, é algo impossível de ser entendido. Por mais que pense e tente ser racional e civilizado, tudo que penso é que os dois assassinos devem morrer da mesma forma, e já, quanto antes melhor. Têm que ser justiçados. Precisamos da barbárie para salvar a civilização. O que resta dela, pelo menos.

No Japão, em Yokohama, mais um time brasileiro conquista o título mundial de clubes. Há um ano, exato, eu mesmo vivia essa emoção intensa, única, fantástica. O futebol faz bem às nossas almas feridas.

A China continua tomando mercados e diminuindo nosso comércio externo. Não demora e só teremos grãos e outros produtos agrícolas para exportar.

É tanto assunto que me vejo sem assunto e em dúvida: jogo freecell ou desligo o computador e vou dormir?

Vou dormir. Boa noite ou bom dia, ao gosto.


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sexta-feira, outubro 27, 2006

Prazeres ardidos

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(Aviso aos desavisados:

Apesar do título, essa é só uma inocente crônica.)


A pimenta cumari é nativa no sítio. Encontramos seus pés pelas beiradas da matinha da mina e da matinha do pasto. A passarinhada se diverte com a cumari e o fruto dessa diversão é a presença de cumarizeiros onde eles param, descansam e... semeiam com esterco, para não dizer defecam, palavra que fica meio feiosa num texto com pretensão a ser elegante. E apetitoso, pois comida é o que motiva essas mal digitadas.

Diz a sabedoria popular que a cumari faz bem pra saúde, que é boa pra muita coisa, inclusive pra próstata.

Como? Boa pra próstata?

É, fulano, beltrano, sicrano, todos dizem isso, porque tem gente conhecida que...

Ok, dispenso os exemplos das gentes conhecidas, até porque para mim são desconhecidas.

Mas, quer dizer, então, que a cumari é boa pra próstata, é?

Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm...

Claro que a profunda reflexão que tal informação ensejou foi mais rápida que esse “hummm” aí atrás. Como bom humano e bom brasileiro, na hora mesma incorporei a cumari ao meu cardápio habitual. E, pensando bem, essa pimentinha deve ser muito boa mesmo, afinal, o tanto que a passarinhada come e não tem problema... Eu, pelo menos, metido que sou a saber um monte de coisa, nunca soube de passarinho com problemas nessas partes. O fato deles não as terem tal como nós, é irrelevante.

Não damos conta das cumaris que o sítio produz e os passarinhos deixam. Pegamos um pouco, que vai pra conserva com óleo de canola ou girassol misturado com azeite. Algumas semanas de repouso ao abrigo da luz, vidros bem fechados e pronto: é pingar algumas gotículas e cortar pedacinhos da bolinha verde ardida. E saborear.

Outras pimentas, essas plantadas, são misturadas, batidas no liquidificador com óleo e azeite e depois vão para a mesa. Tem umas redondas, que ganhei no Mato Grosso e disseram-me ser pimenta-de-cheiro, uma, e pimenta-de-bode outra, e tem mais dois ou três tipos, todas misturadas, numa combinação deliciosa. Pimentas são muitas, difícil é saber o nome delas, fora as mais comuns, como a malagueta, a dedo-de-moça e a terrível pimenta-do-reino, que o que tem de saborosa tem de maldosa com o trato intestinal. E da qual, com desgosto e a contragosto, mantenho prudente distância.

Em tempo de feijão novo, de preferência o carioquinha, pois, pra paulista, feijão preto só tem lugar na feijoada, a vontade é comer pratos e pratos dessa delícia sem mais nada além da pimenta e farinha de mandioca para dar liga e mais um gosto. O arroz branco pode entrar, afinal, discreto e modesto, ele se presta bem às combinações, contribuindo sem se apoderar.

E a pimenta... Como “abre o apetite” essa danada! (Como se eu precisasse que meu apetite fosse aberto...)

São muitas as histórias sobre a importância e utilidade da pimenta em tempos passados. Ficam para uma outra vez.

É comida que pede o complemento de uma boa leitura, nada trágico, mas que seja agradável. Por exemplo, o caderno de esportes ou o Caderno 2. Ora, por que a leitura? – perguntará o leitor desavisado. Porque é uma delícia e um hábito de toda uma vida comer e ler. Uma coisa não interfere com a outra.

Mas, cuidado para não levar á mesa certas crônicas de certos cronistas...

Bom fim de semana.

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quarta-feira, outubro 18, 2006

Fernando Gasparian


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Curioso, nunca conheci o Gasparian, mesmo fotos acho que vi duas, três, talvez. Mas esse "burguês progressista" mudou minha vida. Ou melhor, foi parte de um processo de mudança , talvez o agente catalisador. E, por favor, "burguês progressista" é um elogio, e está entre aspas porque foi assim que um antigo companheiro descreveu o dono do Opinião, há mais de trinta anos.

A grana era curta, mal dava pros ônibus e um sanduíche frio, mas dava um jeito de economizar pra comprar o jornal. Por ele a gente respirava. Cada número do Opinião era uma aula multidisciplinar. Política, cinema, artes plásticas, sociologia, história, literatura...

Adolescente e empolgado, a cada número esperava encontrar uma receita pra revolução, um jeito certo e rápido de transformar tudo aquilo que nos rodeava e enchia de angústia, sem falar do medo. Nunca apareceu tal receita e, se apareceu, não li. Para ser sincero, aliás, muita coisa que ali estava eu não entendia. Algumas vim a entender com a passagem do tempo e o acúmulo de conhecimentos e vivências. Outras, desconheço até hoje. E não são poucas.

Foi um artigo do Opinião, combinado com "Os subterrâneos da liberdade" em leitura escondida dos companheiros que achavam Jorge Amado um atraso, além de stalinista, que mudou minha maneira de fazer política e minha visão de mundo. O artigo, acho que já o citei em outra oportunidade, fez-me entender que as instituições são mudadas por dentro e era um chamado a botar as mãos na merda que era a política, tal como a víamos. Não tenho total certeza, bom, acho até que tenho certeza, seu autor era um professor que fora da USP e fora cassado, Fernando Henrique Cardoso, que naquele momento era dirigente e fundador do CEBRAP, um centro de estudos e pesquisas que seria vítima de um atentado a bomba anos depois. Talvez por ser financiado, em parte, pela Fundação Ford. Mentes obscuras até hoje não entendem o papel e a importância que muitas dessas fundações tiveram em muitas partes do mundo, apoiando e ajudando a sobrevivência de pessoas com idéias em nada parecidas com as do velho Henry Ford e outros.

Refleti muito depois dessa leitura, pensei bastante, as idéias colocadas ali faziam todo o sentido do mundo na minha cabeça e decidi-me. Entrei no velho MDB, onde fui trabalhar para o deputado do Partidão, o Alberto Goldman. Nosso primeiro trabalho foi fazer campanha pro Quércia ao Senado, em 74. Grande vitória, grandes vitórias, elegendo os senadores de 16 dos então 22 estados. Não foi pouca coisa. E foi maravilhoso.

Vieram os anos de millitância, até que parei com tudo aquilo em 85.

Gasparian, através do Opinião, influiu decisivamente na minha vida por doze anos.

Descanse em paz.

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quinta-feira, outubro 12, 2006

Sem pauta


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Ao contrário do meu amigo Ballantyne, editor do Notas Avulsas, não tenho uma reunião de pauta com estagiárias simpáticas e bonitas (nessa ordem de importância, por favor; boniteza sem simpatia é desperdício de recursos da natureza). Geralmente, valho-me mesmo do velho, bom, vetusto e simpático Estadão. Companheiro de longa data, sempre presente, confiável. Vez ou outra atrasado, é bem verdade, mas sempre por nobres motivos dos entregadores (de acordo com meus levantamentos, em 99,7% dos casos o motivo foi a chuva, que costuma atrapalhar a vida nessa cidade erguida nos Campos de Piratininga, aliás, a primeira cidade fundada no interior, no sertão do Brasil).

Mesmo nesses tempos internéticos, é o peso do papel e sua manipulação à mesa durante o café-da-manhã que me transmitem o prazer de entrar em contato com o que aconteceu e acontece pelo mundo. Prazer? Vá lá, que seja, ainda que o teor costumeiro das notícias não seja nenhum prazer. Tudo isso substitui a charmosa reunião de pauta do Balla, na poderosa Washington, DC. Ali, por sinal, é fácil arrumar assunto: basta olhar por cima do muro e ver o que o vizinho está fazendo. O Balla pode mudar o “Notas...” para “Vizinho do George” e, tal como o nosso famoso “Vizinho do Jefferson”, contar as novas a partir das entradas e saídas na White House.

Bom, meus vizinhos aqui na Granja são meio invisíveis. Os que mais vejo são os sagüis que aparecem por aqui procurando bananas, mamões, mangas e outros acepipes. Não são boas pautas, não com freqüência. Portanto, vamos ao Estadão dessa 5ª-feira, 12 de outubro, mais um feriado nacional.

...

Hum hum...

Hum hum...

Hummmmmmmmmmmmm...

Nada. Nada que mereça uma pauta nesse Olhar Crônico.

Nada, nadica de nada?

Nada. Nada interessante ou diferente, tudo igual.

Quer ver só? Vamos lá...

- lulla x Alckmin: nada de novo no front, o blábláblá diário.

- Um avião pequeno se choca contra um prédio em Nova York.

- No futebol, três times brasileiros são eliminados por três times argentinos.

- Um terço do maior roubo do mundo já está em mãos – e bolsos – de policiais cariocas e paulistas, que correm atrás dos 100%.

- Luiz Fernando Verissimo comemora sua chegada aos 70 na crônica; interessante, mas nem tanto; depois da Velhinha e do Analista eu esfriei com LFV; ficou tudo com cara de replay em slow motion, leu um, leu tudo, a começar por seu apoio ao lulla.

- Em São Paulo a prefeitura diz que o imposto pode subir 10%; Alckmin agradece a honestidade.

- Em Buenos Aires, o governo Néstor mantém restrições aos calçados brasileiros (nem por isso lulla e cia. deixam de lamber os pés de Néstor).

- Em São Paulo as megalivrarias seguem fazendo sucesso. Parece que já se pode comprar carros zero km, além de congelados e vinhos para o jantar com livros; tô fora.

- Em Washington, George Walker, o vizinho do Balla, diz que não tem intenção de atacar a Coréia.


EPA!!!

Eis a pauta:

BUSH VAI ATACAR A CORÉIA DO NORTE

“Mas ele disse que não tem intenção” – argumenta arguta leitora imaginária. E eu respondo:

“Read my lips: No more taxes” – e, logo depois de eleito, George pai aumentou os impostos.

“Ah, mas foi o pai dele, não ele” – replica a imaginária e arguta leitora.

“Ora, estimada leitora, quem sai aos seus não degenera a raça” – treplico daqui. E, na seqüência, fecho com chave de ouro:

“Tal pai, tal filho.”

Balla, taí uma pauta legal pro Notas Avulsas. Manda bala.

E bom feriado.

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domingo, setembro 24, 2006

Correndo atrás de bola


Já vai correr atrás de bola? Estudar que é bom, nada, né?

Quantas e quantas vezes todo brasileiro não ouviu essa frase na infância e adolescência? Incontáveis vezes, com certeza.

Mas correr atrás de bola não é prazer apenas de garotos, adolescentes e marmanjos de todas as idades.


Isso mesmo. A cachorrada adora correr atrás de uma bola.


Aqui em casa é uma bolinha de tênis, que um dia foi amarela.

Elas (4 fêmeas e um macho) ficam loucas pela brincadeira, esperam por ela e, se demora, pedem. Resmungam, fazem ar pidão, o terrível ar pidão que os cachorros são mestres em fazer. Resistir não há como.

E, no gramado, atiram-se atrás da bolinha com voracidade, como nenhum atleta por mais bem pago que seja consegue fazer.

Chocam-se, batem-se, rolam no chão, disputam duramente a posse do objeto tão cobiçado...

Tudo jogo limpo, todos os contatos são válidos, ninguém xinga, ninguém morde. Na disputa pela bola os cachorros são de uma civilidade que dá gosto de ver. E inveja.

A posse dela é transitória, como as taças valiosas. Dura o tempo necessário para correrem até o lançador, depositarem a bola aos seus pés e se colocarem de prontidão, à espera do novo arremesso.

São felizes assim.

Correndo atrás de bola.

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sexta-feira, setembro 15, 2006

Estranho cheiro no ar

Há um cheiro de intolerância no ar. Demorei pra descobrir porque nunca imaginei que a intolerância cheirasse. Mas cheira. É azedo e rançoso, mas é também rancoroso e amargo. É nauseabundo, mas nem sempre a gente percebe isso, porque ele é envolvente a tal ponto que deixa de ser percebido, passa a ser apenas mais um componente do ar que respiramos.

Depois que tomamos conhecimento de sua existência, ele deixa sua invisibilidade e revela-se para nós a toda hora, em toda parte.

Na internet, nos blogs e chats, sua presença é de uma normalidade assustadora. Onde ele chega, normalmente, provoca a retirada da civilidade. Naturalmente, sua presença elimina por oposição a tolerância. Que vira fumaça, ou nem isso, e desaparece.

Se tudo está bem, no melhor dos mundos, e por algum motivo a política e as eleições entram na conversa, ela, a intolerância, automaticamente entra e se faz presente em questão de minutos.

Não anda sozinha a bacana. É vista com freqüência quase absoluta ao lado do desengano, também conhecido por desencanto. Se por acaso cruzarem, nossa! – nem quero imaginar o fruto de tal união.

Ontem à noite, um jovem jogador do Botafogo, perdeu um pênalti durante a disputa por penalidades para definir o vencedor do jogo com o Fluminense. Cobrou mal, muito mal, tão mal que só pode ter sido um acidente. Em poucas horas, sua página pessoal no orkut recebeu quase 5.000 (cinco mil!) recados, um pior que o outro. Um portal de notícias definiu como “linchamento pela internet”.

A intolerância está feliz, nadando de braçada. O que não é nem um pouco ruim com esse calorão senegalesco. Espero que o desencanto não se junte a ela e nade em outra praia.

terça-feira, setembro 12, 2006

500!

Já se vai pouco mais de 20 meses do começo desse blog.

A primeira frase de meu primeiro post tem lá seus significados:

“Hoje é dia de escrever. Não sei porquê, mas sei que hoje é dia de escrever.”

E hoje, tal como em 31 de janeiro de 2005, e tal como sempre antes dele, continua sendo dia de escrever.

Deveria ter escrito ontem, onze de setembro, 11 do 9, ou 9/11, nine-eleven. Quinto aniversário do assassinato em massa de milhares de pessoas, aniversário, triste, do dia em que o mundo foi mudado para pior por um bando de assassinos loucos.

Recuso-me sequer a chamá-los de terroristas. Não passam de reles assassinos. Motivos? Inexistem. Assassinos não têm motivos.

Aquele dia começou bonito e gostoso como muitos outros. Levantei cedo e fui montar na hípica próxima de casa. Um começo de manhã como deveriam ser todos. Temperatura fresca, o aquecimento do cavalo no chão e depois montado, o sol subindo e com ele a temperatura. Nessa Granja Viana a temperatura é mais amiga, um presente das árvores ainda abundantes.

Banho tomado, café da manhã com o sagrado jornalão do dia, meia hora de trânsito e estava no escritório começando a trabalhar.

O trabalho naquele onze de setembro limitou-se a ser começado. Nada foi terminado. Como de hábito, liguei a tv da minha sala para acompanhar os programas rurais e, como de hábito, dei uma olhada na programação, inclusive na CNN. Foi logo no início da transmissão ao vivo de Nova York.

Naquele momento ninguém sabia o que havia acontecido. Até se falava de um avião que tinha se chocado contra a Torre, mas, como assim? Um avião? Impensável, claro, pois o avião em que pensávamos era um teco-teco de algum maluco se exibindo em meio aos prédios. E um aviãozinho daqueles jamais faria algo parecido a uma torre como aquela.

Não me lembro se a primeira imagem do 767 indo de encontro à Torre apareceu no ar antes ou depois do segundo avião. Acho que foi antes, porque, por alguns poucos minutos, ainda deu para pensar que o piloto tinha morrido, o co-piloto também, algo assim, hipóteses malucas trazidas à mente pela lembrança de “Aeroporto”, filme de sucesso já perdido no tempo.

Ver o segundo 767 indo de encontro à Torre Sul desfez, definitivamente, toda e qualquer ilusão de acidente.

Aquela imagem destruiu nossa visão do mundo. Uma visão que já não era muito boa, toda cheia de rachaduras e remendos, estilhaçou-se de vez, quebrada definitivamente.

E ainda entraram no ar as cenas do Pentágono, em Washington, e o United 93 em pedaços no solo, em algum lugar da Pensilvânia. Durante muitas horas vivemos em vigília, aguardando pela notícia de outro choque, outro atentado, outro assassinato. Que, felizmente, não aconteceu, sabemos hoje que por motivos operacionais.

Um dia terrível.

A primeira imagem da Torre Norte em chamas...

O segundo 767 chocando-se contra a Torre Sul...

Uma camisa branca sendo agitada de uma janela quebrada em algum andar no alto de uma das torres...

Essas três imagens estão vívidas em minhas lembranças.

...

Nunca fui jantar no Windows of the World, o restaurante que ficava no alto da Torre Norte.

Mas subi ao Top of the World, o observatório para turistas no alto da Torre Sul. Foi numa manhã de inverno e o dia estava claro. Uma vista impressionante, inesquecível. Tanto quanto a vista da noite anterior, do alto do Empire State, com o mesmo céu limpo, mas com a lua cheia.

Confesso que ainda não consegui captar toda a dimensão dessa tragédia. Fico pensando que preciso voltar a Nova York para ver o vazio e tomar consciência, de fato, da realidade.

Mas...

Era fácil ir para Nova York. Não é mais. Uma das piores heranças dos assassinos foi a restrição a muitos direitos civis nos Estados Unidos e restrições ainda maiores à entrada de estrangeiros em território americano. Nem pedi renovação de meu visto quando venceu. Por enquanto, Nova York continuará sendo apenas imagens nas telas e na memória.

...

É, e assim termino meu post número 500.

Do mesmo jeito como começou:

Hoje é dia de escrever.

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