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quinta-feira, julho 24, 2008

Do tempo de Cristo




Há algumas semanas esperávamos pelo jantar na casa do César e da Rose, nossos vizinhos de sítio, papeando, eu e Cesar, sobre futebol ou sobre vacas, meus assuntos prediletos, e agora também os dele. Conversa vai, conversa vem, veio uma bela salada de alface para a mesa. A Rose disse que aquela alface era ‘velha’, era alface plantada pela dona Terezinha, usando sementes que veio guardando ano após ano desde há muito tempo. Ao comer, reparei que o sabor era mais intenso, era um sabor que eu conhecia de outros tempos, o gosto de alface era mais pronunciado. De fato, estava comendo uma alface de outros e velhos tempos.

Lembrei-me, como sempre lembro, de uma passagem de “Fazenda Malabar”, hoje e sempre meu livro de cabeceira sobre ser agricultor e criador, escrito por Louis Bromfield, romancista e agricultor americano, que viveu toda a primeira metade do século XX e poucos, pouquíssimos anos da sua segunda metade. Mais de uma vez Bromfield fala de velhas variedades de frutas e vegetais, desenvolvidas muito antes dos modernos tempos das grandes cidades, grandes populações e grandes distâncias a serem percorridas pelos produtos que vão à mesa dos citadinos, exigindo a produção em larga escala, a baixo custo, de produtos desenvolvidos para suportarem transporte e armazenamento sem perda da qualidade aparente. Aparente, sim, pois nesses produtos, já naquela época, era mais importante uma boa aparência para os incautos consumidores urbanos do que, propriamente, qualidades como sabor e textura.

Já nos anos quarenta, quando “Fazenda Malabar” foi escrito, ou seja, há pouco mais de cinqüenta anos, o mercado consumidor começava orientar o produtor para receber produtos mais bonitos, mais vistosos, que antes de irem à boca enchessem os olhos, que por sua vez iriam cuidar de aguçar o desejo em nossos primitivos cérebros.

Os pêssegos estavam na linha de frente das frutas modificadas. Já eram grandes e bonitos, suculentos, sem dúvida, mas de sabor ausente ou quase nulo. As maçãs tampouco haviam escapado à sina do modernismo agrícola, e por essa rota podíamos seguir enumerando outros produtos. Uma coisa era certa: as maçãs Golden Delicious que os americanos comiam estavam a anos-luz da fruta que a serpente deu para Eva, segundo o relato bíblico.

Isso me leva a pensar: tinha tâmaras na Última Ceia?

É provável que sim, é bem provável, pois a tâmara era alimento de grande importância no Oriente Médio da época de Cristo. E aqui vem o porquê dessa crônica hoje.

Entre 1963 e 1965, arqueólogos descobriram diversas sementes numa escavação na fortaleza de Massada, às margens do Mar Morto, que foi destruído pelos romanos no ano 73 de nossa era. Em 2005, algumas das sementes foram identificadas como sendo de tâmaras e foram datadas pelo Carbono 14 como coletadas no período entre 200 a.C. e 25 d.C. São, portanto, sementes de uma tâmara que não mais existe há muitos séculos.

Três delas foram plantadas em vasos e uma germinou, dois mil anos depois de ter sido colhida.

É a planta cuja foto ilustra esse post. A partir de material genético retirado dela, pesquisadores descobriram que ela é diferente de todas as modernas tamareiras existentes. As mais parecidas são as cultivadas no Iraque, e as mais distantes em termos genéticos são, também, as mais distantes geograficamente, cultivadas no Marrocos.

Restam, ainda, alguns anos para essa tamareira atingir sua maturidade – bom, não deixa de ser meio divertido escrever isso sobre uma planta cuja semente já tinha 2.000 anos – e só então os pesquisadores saberão se essa planta é macho ou fêmea. Se for do sexo feminino, será menos difícil conseguir polinizar suas flores com pólen de tamareiras modernas, gerando frutos com características dos antigos, mas não exatamente iguais. O ideal, para a pesquisa, para o conhecimento e – por que não? – para o paladar e o mercado, seria o plantio das outras sementes, obtendo-se mais plantas, entre as quais, com certeza, machos e fêmeas, possibilitando a produção de frutos com dois mil anos de idade.

Possivelmente, frutos idênticos aos que foram consumidos na Última Ceia.

Mas...

Sempre há um ‘mas’, até para produzir tâmaras do tempo de Cristo.

A objeção, nesse caso, parece vir dos arqueólogos que, pelo que pude entender da matéria, não estariam muito dispostos a ceder outras sementes para plantio e precisariam ser convencidos da grandeza desse gesto. Várias grandezas, desde a biológica, agronômica e genética, até a gastronômica, sem falar do valor religioso.

Que “São” Indiana Jones ilumine as mentes dos arqueólogos guardiões das sementes.


Enquanto isso acontece em terras d’além-mar, em breve estarei na casa da dona Terezinha e do seu Alcindo, para uma visita, um café, uns ‘par’ de dedos de prosa e, quem sabe, meia dúzia de sementes de alface das antigas.



A horta do sítio, agora em processo de reconstrução, agradecerá.


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quinta-feira, julho 03, 2008

Aleluia! Ingrid Bettancourt está livre



Essa era a notícia que milhões de pessoas em todo o mundo, não somente na Colômbia, aguardavam. Finalmente, depois de 6 anos de cativeiro em condições desumanas, a Senadora e candidata à presidência do país quando foi capturada pelos bandidos das chamadas FARCs, foi libertada por uma ação militar do exército colombiano com suporte de inteligência dos Estados Unidos.



O drama, porém, ainda não acabou. Outras 25 pessoas permanecem em poder dos bandidos, duas delas desde 1997, sendo 3 civis e 22 militares. Juntamente com a senadora, outros 14 reféns foram igualmente libertados.

Essa notícia alegrou meu final de noite, ontem, fui dormir com a alma mais leve.

Não sou colombiano, não sou parente de Ingrid, mas seu cativeiro atingia-me como ser humano e como alguém que acredita na democracia e nos direitos que devem contemplar todo ser humano. Abomino de forma particularmente intensa todos que, em nome dos direitos humanos, da justiça e da democracia, atacam, justamente, os direitos de outras pessoas, destroem a democracia e a justiça, ou fazem desta, quando no poder, uma caricatura trágica cujo objetivo é dar suporte formal a governos ditatoriais. São duplamente criminosos, assim como o é o policial que a sociedade paga para defendê-la e que adota a criminalidade como seu meio de vida.

Não chamo os bandidos das tais FARCs de guerrilheiros porque não o são. Não passam de meros bandidos, seqüestradores e traficantes de drogas. Chamá-los de guerrilheiros é conspurcar a memória de muitos que foram, efetivamente, combatentes em prol de um estado mais digno em muitos pontos do mundo. Que também cometeram erros e em diversos momentos fizeram tudo que condenavam nas forças que combatiam, mas nunca fizeram disso seu meio de vida e de luta, sua verdadeira razão de ser, como ocorre com os narcotraficantes e seqüestradores colombianos.

Mostrei a fotografia da felicíssima Ingrid hoje cedo para minha mulher e comentei o quanto ela envelheceu nesses seis anos de cativeiro, que ela própria descreveu como “Voltei de uma viagem à pré-história” – uma descrição sucinta e perfeita não só de seu tempo de sofrimento e privação da liberdade e confortos mínimos, inclusive higiênicos, como também do nível mental de seus captores.

Um 'detalhe': quando foi capturada, seu filho tinha 13 anos de idade. Hoje tem 20 anos. Quantas perdas...


O jornal de hoje foi um companheiro muito agradável no café da manhã.

Como há muito tempo não acontecia.



(A pane nos serviços de internet da Telefônica impediu a publicação desse post na manhã de 3 de julho. Depois de 21 horas sem internet, o que atrapalhou meu trabalho e obrigou-me à terrível tarefa de entrar numa agencia bancária, além de impedir parte do lazer do dia, espero que a Telefônica dê um desconto em meu próximo pagamento. É o mínimo que a companhia pode e deve fazer.)


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terça-feira, junho 24, 2008

Árvore da moda


Esse negócio de genealogia, de fazer ou pesquisar sua árvore genealógica anda encantando a gregos e troianos e também a chineses. Está na moda ou, como podemos dizer no ‘brasilianês’ corrente, tá meio que na moda.

Movido pela curiosidade, certo dia bati o olho num livro sobre brasões portugueses e, claro, procurei pelo brasão dos Gonçalves. E não é que existe um? Não tenho a mínima lembrança de como seja ou deixe de ser, mas vi o desenho no livro. Algum tempo depois, mas também há muito já, bati os olhos em outro livro assaz interessante, que listava todos os sobrenomes italianos. Aqui encaixa melhor um “todos”, pois minha folheada foi o suficiente para descobrir que meu Brassaroto ou Brassarotto materno não está listado. Será que é porque é calabrês e o livro terá sido escrito por gente do norte rico, elegante e metido a nobre? Não sei, e como não comprei o tal livro – por inútil e por ser caro – não tenho também a menor idéia sobre o porquê de tal desfeita conosco, os Brassarotos, ou Brassarottos.

Recolhido novamente à minha insignificância nominal, esqueci o assunto que nunca foi, de fato, um assunto. Até que, recentemente, comecei a receber insistentes e-mails, todos na categoria chata dos spams, propondo traçar minha árvore genealógica. Dada a quantidade de tempo perdido no envio de tantas mensagens, o negócio deve ser muito bom e faturar o bastante para manter ocupados o pessoal ocupado com essa tarefa. Ou tão ruim que isso nada mais é que mero desespero de quem precisa faturar um trocadinho qualquer,e por isso dispara contra tudo e contra todos. Já aviso que estou fora do mercado e não quero saber de minha árvore genealógica, mas sei que isso não resolverá e breve receberei novos e-mails.

Até dá vontade de conversar com o “pesquisador”, só para ver sua cara quando eu disser que minha bisavó materna era uma índia do sertão das Minas Geraes. E aí, ‘mano’, como ficará sua pesquisa?

Entretanto, se o mundo gira, a Lusitana roda e a vida piora, eis que o jornalão da segunda-feira traz interessante matéria sobre o sábio chinês Confúcio. Também conhecido por Kong Fuzi.

O Honorável Kong Fuzi voltou à moda – da qual nunca saiu de verdade – no Império do Meio ou Império do Centro, como se autodenominou a China desde antes de Cristo. Mesmo durante o período de dominação do Camarada Mao e seu Livro Vermelho, Kong Fuzi pareceu-me estar na origem de algumas máximas do líder da Grande Marcha e hoje reconhecido apreciador de meninas na flor da adolescência iniciada. Além disso, por mais revoluções culturais que fossem feitas, uma cultura tão antiga, tão arraigada nos corações e mentes dos chineses não seria extirpada assim, de uma hora para outra. Isso lembra um pouco, sem o banho de sangue, a mania brasileira de querer mudar o mundo, a vida e a realidade por meio de leis, decretos e, muito pior, decretos-lei. Una tontería, por supuesto.

Confúcio voltou a ser estudado nas escolas chinesas e como tudo na China é gigantesco, assim também é o número de estudantes que mergulham em sua obra nesse momento: mais de dez milhões.

A China assusta...

Mestre Kong Fuzi era um sábio que dava extremo valor às virtudes, em especial nos governantes, e à família.

Parênteses: vivesse ele nos dias de hoje em certo país grande e sacana ao sul do Equador e já teria pirado, para dizer o mínimo. Ou teria migrado para algum lugar como Harvard ou Sorbonne, onde falaria sobre esse país grande, sacana e sobretudo bobo.

Por falar em família, e como esse texto começou falando em árvore genealógica, estima-se em três milhões o número de descendentes de Kong Fuzi. Dizem, inclusive, que os modernos Kongs quando se identificam com esse sobrenome, são tratados com mais deferência que os mortais comuns. Se você, leitor, achou três milhões um número muito alto, fique sabendo que o último levantamento digno de crédito, feito em 1998, apontou para 1,3 milhão de tatatatata-qualquer-coisa-neto do Mestre.


É a maior árvore genealógica do mundo.

É gente pra burro, mas também, pudera, estamos já na 80ª geração pC – pós-Confúcio.

Pensando nessa tal deferência e na proximidade dos Jogos Olímpicos, tive um estalo – creio que o próximo, agora, só em 2009 – e associei Gonk com Kong.

Sim, por que não?

Kong e Gonk são próximos foneticamente, e todos sabemos como novos usuários modificam palavras estrangeiras para adaptá-las ao seu falar de todo dia. Um bom exemplo disso pode ser observado ouvindo-se as conversas que rolam entre a garotada. Todos falam um tipo de português que, para mim, precisa de tradução simultânea para entender plenamente.

Quem me diz que Gonk, derivado de Kong, não tenha virado Gonçalves em tempos remotos e medievais?

Isso transformar-me-ia num descendente do Velho Mestre.

Assim sendo, quem garante que o governo da República Popular não convidaria esse modesto pseudo-descendente e blogueiro para alguma solenidade confucionista em plena disputa dos Jogos Olímpicos?

Como vocês podem ver, uma prova a mais de como o mundo é movido por interesses.

Mas é só brincadeira: agora, falando a sério, sou pelo Tibet Livre.

Logo, eu e o governo da RPC não nos bicamos.


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sábado, maio 24, 2008

Notícias do lado de lá do planeta


(Ora, o planeta é um globo, portanto não tem lado, mas quem liga pra isso?)

“...estamos no meio da selva de Java (Grajagan, lembra da foto do por do sol?!) - uma loucura! Essa aventura é para apenas UMA vez na vida! Aqui é jungle mesmo, animais, floresta, mar, e até pessoas...

Mas é uma experiência muito bacana de vida”

O e-mail, curto como os outros, é da minha filha, Carolina, que com o marido anda por Bali, Mentaway, Grajagan, Kuta, nas águas e terras da Indonésia. A caminho de casa, farão mais uma parada, dessa vez na África do Sul, para mais ondas numa praia também famosa pelas visitas dos tubarões brancos. Em outro e-mail ela disse que as ondas são “animais”. Num outro, espantada com a quantidade absurda de turistas em Bali e região, disse que se tivéssemos um terço daqueles turistas nessa Terra de Vera Cruz, ela e o Rodrigo seriam ricos e iriam surfar em Bali & adjacências todo ano.

Eis uma hipótese que não me agrada em nada: eles em Bali & adjacências todo ano.

Cresci lendo e assistindo filmes – lembram de Krakatoa, o Inferno de Java? – rodados (ou não) naquelas montanhas e águas, povoadas por vulcões e caçadores de cabeças. Os primeiros andam adormecidos, felizmente, enquanto os segundos simplesmente espalharam-se por muitas partes.

Desde que eles viajaram, logo depois do ciclone sobre Burma, ou Myanmar, como querem os assassinos uniformizados que dominam o país, olho mais preocupado que o normal para tudo que acontece por lá. Enquanto ainda segue a contagem das vítimas e os órgãos internacionais de socorro humanitário tentam permissão – conseguida a duras penas, com muitas restrições – para entrar no país, acontece o terremoto em Sichuan, terrível, quase 8 na escala Richter, logo seguido por outro, menos intenso, mas que também provocou mais mortes e danos.

Não bastassem os cataclismas naturais, agravados pela insânia humana, essa última se revela agora em toda sua bestialidade, em plena África do Sul, onde os pobres e miseráveis perseguem, torturam, estupram e matam das formas mais cruéis outros pobres e miseráveis. Tudo por causa de emprego, a disputa por poucas vagas de trabalho e míseros salários, insuficientes para nada mais além da mais precária sobrevivência.

A cada novo ano que entra, a cada novo ano que acrescento aos que já vivi, aumenta minha vontade de ficar recolhido ao meu ninho, minha toca, meu buraco. Não sei se isso é conformismo, medo ou comodismo, ou somente preguiça, é um prazer cada dia maior simplesmente ficar em casa, seja na Granja, seja no Sítio, e conviver com as coisas que me são caras.

De certa forma esse desejo é alimentado pelo fato do mundo estar à minha frente todo dia, toda hora, como, por sinal, nesse momento em que escrevo. Acabei de deixar para trás a edição digital do New York Times de hoje. Não perdi tempo lendo sobre a insana batalha de Hillary contra Obama. Bobagem, dará Obama e ponto, quanto antes melhor, na indicação democrata. Depois, contra McCainn, a história será outra, provavelmente com o mesmo final: Obama. As minúcias do dia-a-dia dos três já não me interessam, ao contrário da manchete do NYT: 270 imigrantes ilegais condenados.

A administração Bush parece um tormento sem fim. Já falei antes e repito: nela, o que abomino e deixa-me amedrontado, não é sua sanha intervencionista em outras nações, ao fim e ao cabo limitada ao Iraque (o Afeganistão foi outra história, na minha opinião), mas sim a sua sanha intimidatória e repressora dentro dos Estados Unidos, contra cidadãos, tanto americanos como, principalmente, estrangeiros. O rigor da Imigração contra os ilegais no país recrudesceu. De maneira geral, esse tipo de ação agrada às massas, historicamente.

Esse caso, por exemplo, é típico: as autoridades fizeram um raid, ou blitz, no estado de Iowa, e somente num grande frigorífico prenderam 389 trabalhadores. Desses, nada menos que 270 foram condenados a 4 meses de prisão, após declararem-se culpados. Caso não o fizessem, seriam julgados por uma coleção de outros crimes, cujo resultado seria uma pena mínima de dois anos de detenção. O dramático, perigoso, assustador e verdadeiramente criminoso nessa história toda, é que tudo isso aconteceu em 4 dias. Apenas e tão somente quatro míseros dias. Os ritos processuais foram atropelados em velocidade de Formula 1. Ou de NASCAR, para ficar dentro do gosto americano.

Contra esse rigor policialesco seguido pela administração sumária da justiça, muitas vozes, as mais diversas, ergueram-se contra, mas são vozes liberais, logo, contam menos que desejável. Essas medidas dignas de estados policialescos, como a ditadura instalada em Burma, não se aplicam somente contra estrangeiros, mas também contra cidadãos americanos – claro que, novamente, com maior rigor e freqüência contra aqueles que, mesmo americanos, têm sobrenomes que não são tradicionalmente anglo-saxões.

É isso que me assusta nesse governo infeliz para o país e o povo americanos, e para a humanidade como um todo. Nesse momento, se há um país para o qual não tenho a menor vontade em voltar, apesar da paixão por muitos de seus lugares, é justamente os Estados Unidos. Será diferente com Obama ou McCainn? Duvido. Ou melhor, sim, haverá diferenças, mas nesses casos eu tenho sérias dúvidas que um ou outro desfaça as armações perpetradas pela administração Bush.

Segue a vida, e do outro lado do mundo Carolina informa que passaram uma noite em Jacarta, a caminho de Kuta e dali para Mentaway, em busca de novas e melhores ondas, uma mais perfeita que a outra.

Precisamos todos de novas e melhores ondas, e que uma delas leve George W e sua tralha fundamentalista para o lixo da história.


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domingo, maio 18, 2008

Política de lá e de cá para pensar aqui


O crime de Obama contra o Islã


Há anos li algo sobre os muçulmanos condenarem à morte quem troca de religião. Essa determinação, chocante e absolutamente contrária a tudo que acredito, ficou adormecida em minha memória.

Com o crescimento da candidatura de Barack Obama e sua origem de pai muçulmano, algo me incomodava, mas eu não sabia o que era. Tampouco dei maior importância ao incômodo, afinal, o moleque Barack perdeu o pai, morou com a mãe, cresceu como cristão, logo, não haveria zonas cinzentas nessa história.

Mas há, e ela é muito mais que cinzenta.

O jornal O Estado de S.Paulo de hoje traz uma matéria que julgo ser extremamente importante, infelizmente. Seu título é “O crime do senador contra o Islã” e sua leitura, tenho certeza, é muito importante e, infelizmente, esclarecedora.

Clique no link:

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080518/not_imp174551,0.php

Não deixe de ler, recomendo pela última vez.

Raios e relâmpagos no horizonte

Uma amiga disse que os Estados Unidos estão mais propensos e mesmo prontos a eleger um presidente negro que uma mulher. É uma tese interessante, na qual eu acreditaria piamente, não fosse o poder (suposto) do voto jovem, entendendo-se por jovem os que têm menos 40 e, principalmente, cresceram e moram nas áreas mais evoluídas (na falta de melhor adjetivo) dos Estados Unidos.

Mas... E a força feminina? Perguntei a um grupo de amigas em quem votariam e a resposta foi unânime: Hillary. Será que suas colegas de idade, classe e cabeça votarão do mesmo jeito? Tenho dúvidas.

Obama lutará contra McCain e contra Hillary, também, não se iludam. O primeiro será seu competidor direto e às claras, disputando voto a voto, em novembro, o direito de presidir o maior país do mundo por 4 anos. A segunda será competidora indireta. A ela, definida por muitos como um animal político, de forma alguma interessa uma vitória do candidato de seu partido, fato que deixá-la-ia alijada da disputa pelo poder supremo até 2016, um ano muito distante para ela pensar em qualquer coisa além de doce aposentadoria, controlando, digo, educando os filhos da Chelsea.

Os ares até novembro estarão perigosos, cortados por toda parte por raios lançados por todos os lados. Entre os mais perigosos, ou mais sujos, estarão os raios do fogo amigo.

Enquanto o mundo avança...

O que acontece conosco, sul-americanos?

Por que sonhamos em viver nos Estados Unidos e ao mesmo tempo, aqui, em nossa casa, jogamos no lixo praticamente tudo que nos faz desejar morar em Norte América?

Lugo, no Paraguai...

Torres, no Equador...

Chávez, na Venezuela...

Morales, na Bolívia...

Gostamos do luxo fora e da miséria em casa, será isso?

Nada como o progresso alheio e a miséria pessoal?

Pobre Latino América, tão rica, tão pobre.


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segunda-feira, maio 12, 2008

Ondas e outras coisas


Dia das Mães, por volta das nove e meia toca o telefone.

É minha filha ligando de Bali. Falamos rapidamente, com o devido delay para a voz chegar e voltar, afinal, Bali é longe pra burro, mas não para surfistas. Ela falou só comigo, pois a Rosa tinha saído. Está adorando Bali, é tudo maravilhoso, etc e tal. Ela e o marido não compraram um laptop em Cingapura porque acharam caro. Preferiram deixar para comprar no Brasil, depois que voltarem.

Meu queixo caiu e fiquei sem resposta.

Parece que o real anda mesmo valorizado e o dólar desvalorizado.

Voltando à paradisíaca (dizem, não conheço) Bali, ficarão por ali mais alguns dias, pegando ondas. Depois vão para Mentaway, na ilha de Sumatra. Antes tem outra parada não sei onde, e por fim, já no caminho de volta, Jeffers Bay na África do Sul, lugar aprazível também para ver tubarões-brancos, aqueles mesmos.

Ufa! Só de relatar já fiquei cansado.

Viajar, hoje, é algo plenamente pensável para qualquer cidadão com razoável ficha cadastral, e por razoável entenda-se não ter protestos e ganhar mais de um salário-mínimo. O crédito está fácil, abundante, oferecido e descarado.

Fácil de pegar.

Difícil de pagar.

Como sempre, mas quem pensa nisso?

Felizmente, o casal surfista primeiro guardou os caraminguás e só depois viajou.

Meno male. E certeza que a viagem será lembrada com saudades e carinho.

Mas não estou escrevendo esse post para ser um relato financeiro/familiar/turístico.

O motivo é outro.

Java, Sumatra, Indonésia e outros mais, são nomes que conheço desde moleque. Sempre associados a vulcões, maremotos, terremotos e agora tsunamis. Esse longo passeio por ali tudo, confesso envergonhado, às vezes preocupa-me um pouco.

Por mim, teriam voltado para a verdadeiramente paradisíaca Itacaré – conheçam antes que façam ali um megaporto e destruam tudo – ou para a não menos espetacular Fernando de Noronha.

Mas, o chamado das ondas perfeitas falou mais alto, calou mais fundo em seus desejos.

A ligação para cá foi feita do hotel, imagino. Não quiseram levar seus celulares, talvez com receio de receberem ligações fora de hora e fora de orçamento, o que é pior.

Semana passada meu filho estava em Buenos Aires. Depois de deixá-lo no aeroporto e já na longa viagem de volta de Cumbica para a Granja Viana, lembrei-me de algo a falar com ele. Liguei para seu celular, mas já estava desligado. Bom, paciência, depois eu conto.

Horas depois, ouço o alerta de mensagem chegando no meu celular. Fui olhar e era mensagem do celular dele, já na capital porteña, informando que já estava disponível para receber ligação.

Ora, por que não?

Dito e feito, liguei e quase de imediato começamos a conversar. Assim foi por várias vezes, geralmente uma por dia. Que coisa... É vapt-vupt, liga e alguém atende no outro lado do mundo ou bem ao sul do Rio Grande.

O melhor local e horário para falar ao celular é no trânsito paulistano.

Sim, é proibido, eu sei.

Sim, tem multa, eu sei.

Sim, é perigoso, eu sei.

Porém, quem disse que eu falo com o carro em movimento?

(Até faço isso, mas atire a primeira pedra quem não?)

Falando ao celular o tempo passa e a gente não percebe.

Mesmo à fantástica velocidade de cinco ou seis quilômetros por hora, em algum momento chegamos ao destino e, se conversamos muito e bem, nem sentimos a passagem do tempo.

Para alguma coisa serve o trânsito: conversar pelo telefone.

Para alguma coisa extra serve o celular: suportar o trânsito da Paulicéia.

Queria um livro lá de Buenos Aires, um livro que comprei em conjunto com um amigo, mas, com as mudanças da vida, ficou com ele e nunca mais vi, nem um, nem outro.

A lembrança desse livro me persegue há anos. Agora, com os 40 anos da Primavera de 68, o desejo volta mais forte. Nele, o autor dá imagens inesquecíveis, para mim, do que foi a revolução que não aconteceu, mas mudou o mundo.

O livro é o Ultimo Round, de Cortazar, um de seus livros menos conhecidos e, para mim, um dos melhores. Ora, mas por que eu queria esse livro vindo de Buenos Aires? Porque o que eu quero é o mesmo que eu tive, no comecinho dos 70, a primeira edição, da Siglo XXI mexicana, quebrado em duas partes, como vemos em livros infantis, uma separada, distinta, da outra. Já andei procurando por ele aqui em São Paulo, claro, mas ainda não achei.

Tem na Amazon, claro, mas tá caro pra burro.

Uma palavrinha com São Google e descobri-o em duas ou três livrarias que vendem livros antigos em Buenos Aires. Ah, mas quando vi o preço do livro em melhor estado, desisti: 200 dólares! É muita areia pro meu atual caminhãozinho. Mas hei de encontrar e comprar esse livro. Enquanto isso, se alguém tiver oportunidade, recomendo a leitura. Aliás, recomendo tudo de Julio Cortázar, como, por exemplo, Libro de Manoel, leitura assaz indicada para os dias que correm.

Desisti do Ultimo Round buenairense. Acho que vou encontrar essa obra muito mais em conta por aqui mesmo. Mas ainda vou checar Madrid, Barcelona e México. Afinal, internet e google servem para isso mesmo.


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sábado, abril 05, 2008

Há 14.000 anos...

... como hoje, parte de nossas Américas não tinha serviço de esgoto. Na verdade, há 14.000 anos parte alguma das Américas ou do mundo dispunha de tão valioso serviço. Podemos deduzir a partir disso, que parte do Brasil, talvez a maior, está hoje como estava há 14.000 anos, com uma diferença: com muito mais gente e muito menos mato, capoeira, pântanos, mangues, o que quer que existisse de vegetação naqueles tempos.

Nesse momento, estimada leitora e também estimado leitor, você deve estar se perguntando o porquê dessa introdução tão perdida no tempo como no sentido, não está? Pois bem, vou explicá-la já, antes que esqueça sua razão de ser.

Remexendo na sujeira acumulada de uma caverna no estado americano do Oregon, cientistas descobriram coprólitos humanos cuja análise por meio do Carbono 14, o popularíssimo C14, comprovou sua idade em 14.000 anos. Coprólitos, como bem o sabem os leitores, não passa de um nome metido a besta para fezes fossilizadas.

Caraca! – exclama alguém, com certeza. Pois é, fezes fossilizadas. Não me perguntem como as ditas cujas viraram fósseis, uma vez que o meio de mato e os fundos de cavernas costumam ser habitados pelos mais diferentes tipos de bichos que, digamos, encarregam-se de dar às ditas cujas um digno e escondido final de existência enquanto fezes. Reparem na elegância dessa trecho: “enquanto fezes”. Nele está reunido um dos pontos altos de nossa mais recente criação intelectual, primo-irmão de outro ponto igualmente alto, o popular “a nível de”. Diria a vocês que o uso de enquanto associado a fezes e tudo isso associado à idade das mesmas, tem um profundo significado que não é escatológico, mas do qual não faço a menor idéia qual seja. Portanto, perguntas a respeito são dispensadas a priori.

Enquanto escrevia tão bem traçadas linhas, parte de meu cérebro ocupava-se com uma questão intrigante: o que leva gente instruída, certamente com bacharelados e doutorados em universidades famosas, talvez até daquele circuito do qual saem os grandes líderes mundiais, de Roosevelt a Obama, passando por Rory Gilmore, a cutucar sujeiras em fundos de caverna. Tanto remexeram que trouxeram de volta à luz do dia os coprólitos ali acumulados. Desconfio que se a busca continuar e for feita com esmero encontrarão os restos de uma pintura rupestre indicando se aquele local era de uso feminino ou masculino.

De volta à realidade, essa descoberta significa que nossas Américas já eram povoadas por nossos ancestrais há 14.000 anos ou 140 séculos. Isso é fato científico, pois exames de DNA comprovaram, inclusive, relações com populações da Sibéria e da Ásia Oriental (a Sibéria é parte da Ásia Oriental, mas assim está a transcrição do artigo publicado na edição eletrônica da Science) e é prova irrefutável da antiguidade de nossa chegada aos verdes prados americanos. Apesar disso, há controvérsias a respeito, levantadas por nada menos que uma pesquisadora brasileira de renome, a Dra. Niéde Guidon, brasileira de Jaú, interior paulista, que há mais de 30 anos pesquisa nossa pré-história na Serra da Capivara, no Piauí. Ali, ela encontrou evidências fortíssimas da presença de seres humanos há 50.000 anos, o que entra em choque com a teoria mais aceita e que diz ter o homem entrado na América há cerca de 13.000 anos, tempo que agora, graças aos coprólitos, foi esticado em mais mil anos.

Por trás da não aceitação da teoria da Dra. Niéde Guidon estão algumas dúvidas relacionadas à fixação dessa idade, que em parte foi baseada em evidências indiretas – a datação mais precisa é de restos de fogueira, o que permite a contra-argumentação de que o fogo pode ter tido origem natural –, mas está, também, a velha disputa Norte x Sul, versão mais pobre e discreta da Ocidente x Oriente, ou ainda Centro x Periferia. Afinal, o embasamento da teoria dos 13.000 anos passa pela Ivy League, aquele circuito citado mais acima das oito velhas e famosas universidades da Costa Leste americana (Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Pennsylvania, Princeton e Yale). Acreditem, isso é sério, afinal, mesmo a ciência nada mais é que mera criação desses seres imperfeitos, os humanos.

Se nossos tata-tata-tataravós já caçavam pelo Piauí há 50.000 anos, isso jogará por terra dezenas de anos de trabalhos e pesquisas baseados na crença da chegada mais recente. Tudo terá que ser revisto. Afinal, se os caras já estavam por aqui naquela época, de onde vieram e como vieram parar aqui? Sim, pois de algum lugar eles têm que ter vindo, pois é fato mais que sabido e aceito, que somos todos africanos na origem, entre 4 e 5 milhões de anos atrás, nos planaltos da África Oriental.

Bom, e agora? Dito tudo isto, o que resta a ser dito?

Talvez, quem sabe, isso mostre a importância científica para futuros paleontólogos da inexistência de esgotos no presente. Quem pode dizer se daqui a um ou dois milhões de anos um paleontólogo futurista não descobrirá coprólitos atrás de alguma moita de bananeiras – também fossilizadas, claro, só não sei como – e estabelecerá, com base nos ditos cujos, que aqui floresceu uma grande civilização, que sabiamente usava as bananeiras como ponto para exclusão de resíduos, que ao mesmo tempo fertilizavam as plantas que forneciam alimentos?

O Brasil, com sua falta de esgotos, é muito mais moderno e avançado do que imagina nossa vã filosofia.

Além de prestar valiosa contribuição para o conhecimento futuro da humanidade de hoje.


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segunda-feira, março 24, 2008

Volta pra tua terra


Essa frase, dita por crianças de escolas paulistanas e transcrita em matéria do Estadão de ontem, despertou-me a lembrança de outros tempos já perdidos na memória e idêntica situação.

“Volta pra tua terra” é frase simples, eloqüente, fácil de ser falada e mais ainda de ser compreendida por quem a ouve. Quatro décadas atrás era ouvida por garotos coreanos, árabes e portugueses, cujos pais imigravam para o Brasil em busca de oportunidade de uma vida melhor ou, simplesmente, em busca de paz. Durante um ano um coreano esteve na mesma classe que eu, em processo de adaptação. Mais velho, era um gênio em matemática e ciências, e sofria com a gramática e a história da Terra de Vera Cruz. Sofria, também, com alguns dos colegas de classe. Além de ser o estranho no ninho, atraindo a curiosidade, sempre, a amizade, raramente, era vítima, também, do preconceito de jovens adolescentes que manifestavam sua maldade com frases cortantes como essa.

Creio que tudo era mais cruel com os portugueses, tanto os que vieram da metrópole como os que vieram das colônias africanas. Entendiam a língua e, portanto, além de sentir, também entendiam as frases que eram proferidas contra eles. Uma adolescente, porém, era menos mal tratada que os outros, a “Turquinha”. Nunca soube se ela era turca mesmo ou se era síria, libanesa, palestina. Naquela época, as pessoas referiam-se a qualquer um vindo do Oriente Médio e arredores como “turco”. A diferença em relação à “Turquinha” era o dinheiro de seu pai, que tinha um carrão, um Aero Willys, e morava numa casa grande e bonita. O preconceito é sempre maior, quando não único, contra a pobreza.

A matéria do Estadão entristeceu-me.

São Paulo é terra de migrantes e imigrantes. Meus bisavós maternos desembarcaram em Santos vindos da Calábria. Meu avô materno veio das Minas Gerais para o interior de São Paulo, onde conheceu minha avó italianinha. Meu pai, mesmo, ainda adolescente deixou o cerradão mineiro e veio para São Paulo. Os bisavós de minha esposa vieram da Espanha e da Itália. Cresci comendo macarrão e quibe, charutinho e lasagna, além do arroz com feijão e da feijoada de lei. A diversidade cultural sempre esteve presente na vida paulistana a partir do século XIX.

Hoje, bolivianos, colombianos, argentinos, uruguaios, peruanos, ao lado de angolanos, nigerianos, moçambicanos, árabes de pátrias diversas, chineses, entre pessoas de muitas outras origens, vivem e trabalham nessa cidade. Nas escolas, seus filhos ouvem a mesma coisa que muitos deles também ouvem em seus locais de trabalho:

- Volta pra tua terra.

- Aqui não é teu lugar.

- Não gostamos de você.

Nas escolas, as frases são muitas vezes seguidas pelo roubo puro e simples do dinheiro para o lanche. Há quatro décadas o preconceito era o mesmo e as frases eram as mesmas, mas o roubo não existia.

O preconceito não se revela só contra pessoas de outras nacionalidades. Seria cômico, se não fosse trágico e profundamente triste, saber que as mesmas frases são usadas contra crianças vindas de outros estados. Dessas a matéria não fala, mas os casos existem e não são diferentes. Da mesma forma, ele revela-se mais contra os pobre do que contra os remediados ou ricos. Aliás, é difícil haver preconceito contra ricos, e quando existe fica escondido, exceto nos momentos de conflagração.

Nem tudo é tristeza e dor, entretanto. O artigo fala também das crianças integradas, como um menino e sua irmã, bolivianos, tão bem aceitos ao ponto de expressões em castelhano já fazerem parte do dia-a-dia dos colegas na escola. Nesse caso, todos estão ganhando, conhecendo-se, aprendendo e crescendo como seres humanos.

Essa matéria está disponível no site do Estado de S.Paulo mesmo para quem não é assinante: http://txt.estado.com.br/editorias/2008/03/23/ger-1.93.7.20080323.3.1.xml

Vale a leitura.

Sempre é bom conhecer um pouco mais sobre nós mesmos, os brasileiros.

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segunda-feira, março 03, 2008

Ficção virando realidade?


Há alguns meses escrevi uma minúscula peça de ficção política aqui nesse Olhar Crônico (“Reunião de Cúpula em Washington, postado em 9 de novembro de 2007).

Ela contava a chegada a Washington da Presidente Marisa Letícia para uma reunião de cúpula com as presidentes Hillary Clinton e Cristina Kirchner. Desde então, Hillary parece ter sucumbido ao furacão democrata Obama, Cristina foi eleita, como já era sabido que seria, e Dona Marisa Letícia continua papagaio-pirateando o maridão por toda parte, até na Antártida, mas, sei lá, hoje eu já acho mais provável Dona Dilma, por sinal o nome da minha progenitora, do que Dona Marisa Letícia, a italiana com passaporte brasileiro – ou é o contrário? –, na presidência desse imenso bananal.

O motivo ficcional que gerava essa cúpula americana, todavia, parece próximo de tornar-se realidade, o que, felizmente, não acontecerá: a invasão da Colômbia por tropas venezuelanas de Hugo Chávez.

Pois é...

Ontem, ao regressar do sítio e ligar o computador à noite, fui surpreendido com a notícia da morte do número 2 das chamadas FARC – grupo de bandidos com formação paramilitar – pelas tropas colombianas. Hoje, com mais detalhes, sabe-se que o indivíduo em questão foi morto pela explosão de bomba teleguiada, dois quilômetros dentro de território equatoriano, disparada a partir de um Super-Tucano T-27, fabricado em São José dos Campos e vendido para a FAC – Fuerza Aérea Colombiana. Esse detalhe com dois quilômetros de comprimento – essa era a distância a que o alvo estava da divisa entre Equador e Colômbia – provocou um protesto ensandecido de Chávez, que fechou sua embaixada em Bogotá e mandou dez batalhões de seu exército para a divisa da Venezuela com a Colômbia. Não satisfeito com tão fantástica demonstração de machismo, digo, poder e indignação, foi além, e chamou o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, de “cachorro americano” e “assassino”.

Chávez é um poltrão que gosta falar alto e contar vantagem, sendo ouvido porque senta-se sobre um monte de barris de petróleo. Não o chamo de palhaço porque palhaços não têm poder de vida e morte, somente o de fazer rir ou chorar. Chávez faz rir por conta de muitos de seus atos e pretensões megalomaníacas, faz chorar, e chorar muito, a milhões de pessoas, e tem, sim, o poder de matar, agora multiplicado e em velocidade supersônica, graças aos caças Sukhoy comprados da Rússia e que já ameaçou – como ele gosta de ameaçar – enviar contra os aviões colombianos.

Analistas políticos acreditam que tiro nenhum será disparado por conta dessa movimentação de tropas chaviztas, mas, sabe-se lá, às vezes um espirro fora de hora e lugar dá início a um tiroteio e um tiroteio...

Rafael Correa, que pode ser chamado de “cachorro chavizta”, reagiu protocolarmente ao ataque colombiano, chamando seu embaixador para consultas e exigindo desculpas públicas da Colômbia. Corretíssimo nas duas ações, estritamente dentro do protocolo e do que determinam as boas relações internacionais. O porta-voz de Uribe já adiantou que o país irá desculpar-se pela ação. Isso seria o bastante para encerrar o incidente, mas fica, agora, a ameaça criada pelas tropas venezuelanas.

O número 2 das tais FARC era apenas um bandido a mais. Lamento se alguém dá a esse pessoal o peso de combatentes por alguma causa, mas eu não creio nisso. Não passa, para mim, de movimento formado por grupos paramilitares, que ganham dinheiro com o narcotráfico e o seqüestro e encarceramento em condições degradantes de centenas, até milhares de pessoas. Não há porque lamentar.

Esse é um ano de eleições estaduais e municipais na Venezuela, e o partido de Chávez está muito mal nas pesquisas. Em novembro, Uribe afastou o venezuelano das negociações para a libertação de reféns em poder das FARC, quando sua ânsia por publicidade a qualquer custo ficou mais que evidente, ao ponto de atropelar as autoridades colombianas no processo de discussão. O brilho fácil do falatório demagógico e as manchetes igualmente fáceis proporcionadas por suas ações, eram importantes para continuar passando ao povo venezuelano uma imagem de grande líder que ele não é. O presente fuzuê parece ser apenas um sucedâneo para a ação frustrada de conduzir a libertação dos reféns.

Tiranos e tiranetes, mesmo que eleitos pelo voto popular, adoram esse tipo de coisas. Nossa história, infelizmente, está cheia de exemplos do tipo, como o de um ditador que mandou jovens despreparados para a invasão de um remoto arquipélago no Atlântico
Sul, provocando a morte de centenas e centenas de vidas.

Que Hugo Chávez limite-se à sua poltronice verborrágica.


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quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Eu estarei fora...

... dessa monstruosidade de 19.600.000 habitantes que será a Grande São Paulo em 2010.

Não que hoje, com apenas 18.800.000 habitantes, ela já não seja monstruosa, pois é e muito. Qualquer aglomerado urbano com mais de um milhão de habitantes já merece o rótulo de monstruosidade.

Esses dados fazem parte do documento Perspectivas Mundiais de Urbanização, produzido e distribuído pela ONU, que foi lançado ontem. O planeta como um todo caminha inexoravelmente para uma brutal urbanização, e já nesse ano de 2008 mais da metade dos seres humanos moram em cidades. Em 2050 esse número deverá ser superior a 9 bilhões de habitantes.

Como informação e para pensar um pouco, eis a lista dos maiores aglomerados urbanos do mundo:


Em 2008:

Tóquio 35,7 Milhões de habitantes

Nova York 19

Cidade do México 19

Mumbai 19

São Paulo 18,8



Em 2010:

Tóquio 36,1 Milhões de habitantes

Mumbai 20,1

São Paulo 19,6

Nova York 19,4

Cidade do México 19,4



Em 2025:

Tóquio 36,4 Milhões de habitantes

Mumbai 26,4

Delhi 22,5

Dacar 22

São Paulo 21,4

Enquanto isso, outras monstruosidades continuarão crescendo em terras tupiniquins, embora o verbo mais adequado seja inchar.



Em 2025:

Rio de Janeiro 13,4 Milhões de habitantes

Belo Horizonte 6,7

Porto Alegre 4,6

Recife 4,3

Naturalmente, os governos em todos os seus níveis – federal, estaduais e municipais – ignoram essa realidade futura. Não a desconhecem, longe disso, mas preferem ignorá-la porque não conseguem lidar sequer com o dia de hoje, que dizer com o futuro remoto – que chega numa velocidade impressionante, fazendo com que futuro remoto aplique-se somente a qualquer coisa lá para o século XXII. Infelizmente, o futuro já é hoje e nós não estamos preparados para ele, como tampouco estivemos preparados para o ontem.

Minha casa tem recebido visitas em boa quantidade. São Paulo já nos deu o que tinha que dar. Nós também já demos a São Paulo o que podíamos e estou certo que darei muito mais a essa cidade que, apesar de tudo, é a minha e amo de paixão, estando fora dela, produzindo leite e seus derivados.

Aglomerados urbanos são centros geradores de desequilíbrios em todos os sentidos, são centros geradores de doenças, tanto as físicas como as que atacam a alma. Não que o campo, plácido, bucólico, idílico – tudo falso – também não o seja, mas sem dúvida superpopulações não são benéficas. Já virou lugar comum falar dos inúmeros estudos mostrando como superpopulação afeta radicalmente o comportamento de diferentes animais. Frangos e galinhas bicam-se terrivelmente, até a morte. Porcos partem para o canibalismo. Bois confinados praticam sodomia. Ratos se matam uns aos outros. A lista é longa e muito triste.



A volta ao campo é uma saída?

Não.

A vida no campo é extremamente dura quando comparada aos padrões urbanos. Poucas são as pessoas que gostam de viver no campo, inclusive no próprio campo, onde o sonho dominante é morar na cidade e ter à mão tudo de bom que a civilização proporciona.

Triste engano, é claro. Mas o ser humano adora o engano e vive de sonho.

Com os homens públicos que temos, com suas visões míopes e imediatistas, sem falar no quanto dessas visões é afetada pela corrupção, continuaremos desprovidos de programas que visem ao bem-estar dos “povos das cidades”.

Enquanto isso, em busca de seu próprio bem-estar, os “povos das florestas” seguem fazendo sua parte, abrindo buracos gigantescos na cobertura verde e inchando os aglomerados urbanos no meio do nada.

Esse, contudo, é outro assunto.


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sábado, fevereiro 23, 2008

Impensável... Mas aconteceu


Pois é, o impensável às vezes acontece e nos pega de surpresa. Pensando assim, de repente, lembro-me que não só julgava impensável o fim da Guerra Fria, como também vivia em sobressalto por causa dela. Lia tudo que me aparecia pela frente, e muita coisa aparecia a respeito, desde a capacidade de destruição de um só ICBM até a função dissuassória das forças submarinas de um lado e outro, invisíveis ou quase isso, cada plataforma transportando a morte de centenas de milhões de pessoas. Eis que um dia Richard Nixon desembarca na China, em outro conversa animadamente com Breznehv, mais adiante é Reagan, o cowboy, e de repente o medo nuclear começou a ser jogado para o arquivo morto das preocupações.

O Muro de Berlim...

Sua queda era outra coisa impensável para quem, como eu, nasceu nos cinqüenta.

Portanto, foi com um espanto enorme e a sensação de estar vendo a história em ação e o mundo sendo transformado, que assisti pela às imagens de milhares de pessoas quebrando, a golpes de picaretas, martelos, pás e quaisquer outras coisas à mão, o muro vergonhoso, inominável, palco de mortes e tristeza. Na seqüência, o fim da União Soviética não chegou a causar o mesmo espanto, a mesma surpresa. Só a velocidade com que ela veio abaixo, mas, por incrível que pareça, ainda nos anos 70 já havia lido um trabalho com essa previsão, escrito pelos irmãos Medvedev, Zhores e Roy, intelectuais dissidentes, que previam o esfacelamento da URSS e apontavam as tensões e conflitos étnicos e religiosos como o estopim que conduziria ao fim.

Agora, numa só semana, o impensável bateu na porta duas vezes, e entrou em ambas. Primeiro, Fidel renunciou. Demorou, mas aconteceu. Já o tive como ídolo, mas isso foi há muito, muito tempo, e curiosamente durou pouco. Ter conhecido Cuba ainda enquanto a finada União Soviética era viva, foi bom, fez-me bem, reforçou minha convicção sobre o acerto na mudança de linha do que pensava, vale dizer, o acerto da minha mudança ideológica. A saída de Fidel, agora, nada teve de espetacular e foi apenas patética, tardia, chata. Como diz a rapaziada, demorou.

Finalmente, o impensável dos impensáveis fatos, aconteceu: a dívida externa “acabou”, o mundo nos deve mais do que devemos ao mundo, e não se trata de metáfora ou figura de linguagem ou qualquer outra dessas baboseiras nacionalistas. Não, nada disso, é fato contábil. Não só diminuímos nossa dívida externa pagando o que devíamos – a dívida pública externa foi liquidada – como também temos mais reservas do que dívidas. Inacreditável, preciso concentrar a atenção e os pensamentos para ter a real dimensão desse fato.

Já tivéramos uma avant premiére em 94, com o fim da inflação monstruosa e da correção monetária. A maioria de nós já esqueceu aqueles tempos, não lembra mais das manchetes regulares, a cada trinta dias, dizendo que o mês fechara com 15, 20, 25 e até mesmo fantásticos mais de 80% de inflação! É... Ninguém mais lembra disso, ninguém lembra que o salário recebido já valia dez, vinte, trinta por cento a menos do que seu valor nominal. Nem vou entrar no tititi de jogar na cara do PT e de seus asseclas – um monte enorme de gente – e apoiadores – milhões, iludidos pelo brilho fácil de promessas vãs – as sucessivas e estúpidas manifestações contra o Real, contra a política econômica de Fernando Henrique e Malan, contra a dívida externa, contra tudo, contra todos, preservando apenas a eles próprios como os donos das verdades políticas e econômicas, morais e éticas, eles, os cavaleiros andantes do bem em eterna luta contra as forças e agentes do mal, ou seja, todos os outros que não professavam das mesmas fé e ideais. Bobagem chutar cachorro morto.

Opa! Não, cachorro morto, não, muito pelo contrário, vivo, muito vivo, agindo e quando não, à espreita.

Mas, enfim, o impensável aconteceu também com nossa dívida externa.

Então, por justiça...

A César o que é de César.

A Lula o que é de Lula... e de FHC.

E à agropecuária brasileira o que é de todos: ela e os produtores rurais, humilhados e vilipendiados rotineiramente, são os grandes heróis do “fim” da dívida externa. Pena que quase ninguém sabe ou pensa nisso.


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quinta-feira, setembro 20, 2007

Liberdade, informação e publicidade – Free NYT

Tão logo tive acesso à internet há muitos anos – nem lembro mais quando foi, aliás, alguém lembra se existia vida antes da internet? –, uma de minhas primeiras ações foi cadastrar-me e tornar-me assinante virtual do New York Times.

Desde então, todo dia abro minha caixa de entrada e lá está, presente e confiável como o meu exemplar diário do Estadão, o e-mail com o que NYT diz que está acontecendo de importante no mundo. Mesmo com as restrições de um acesso free, sempre foi uma preciosa fonte de informações, mesmo que meu índice de leitura não seja dos mais altos.

Foi emocionante receber um e-mail dizendo que o NYT inteiro, desde o número 1, estava disponível na net, bastando o trabalho de teclar meia dúzia ou menos de vezes e ler sobre o assassinato de Lincoln, o começo da I Grande Guerra, as matérias dos correspondentes nas frentes de batalha, e por aí afora. Desde então sonho com o dia em que terei todo o Estadão on line, desde os tempos de A Província de S.Paulo, ainda no Império.

Claro, recebi também gentil e-mail, propondo-me a assinatura on line do jornal, por meros US$ 49.95 por ano. Gentilmente, disse não. Mas fiquei chateado, não porque fosse perder alguma coisa, já que nada perdi e, mesmo com a assinatura, eu tinha mais acessos do que antes, mas porque gostaria de assinar pelo simples fato de assinar e colaborar com um órgão que reputo fundamental para a manutenção da liberdade e dos direitos civis. Enfim, como era um pequeno luxo não essencial, disse não, em linha com esses tempos de vacas anoréxicas, que um dia já foram magras.

Agora, leio com prazer a informação que o Times simplesmente aboliiu a assinatura paga e abriu o acesso a, praticamente, todo o jornal. Mais: o acesso gratuito cobre também todo o arquivo do jornal que é domínio público, desde 1851, exceto parte do material do período entre 1923 e 1986. Desde já tenho certeza que as restrições de acesso que ainda persistem não demorarão muito a cair.

Foi bonzinho o Times?

Não, simplesmente sua direção percebeu que o crescimento da publicidade virtual era muito grande e cobria a renda proveniente dessas assinaturas. Mais: boa parte dos leitores que acessavam o NYT faziam-no via Google, Yahoo e outros sites de busca. Agora, com a liberação, espera-se que boa parte dos leitores faça suas buscas diretamente pelo NYT, o que reforçará ainda mais a receita de publicidade.

Ah, a publicidade...

Em breve farei 53 anos. Com isso, estarei completando perto de 37 anos ligado à publicidade em diferentes formas. Orgulho-me disso, principalmente por ter claro na teoria e na prática, que é a publicidade que garante e estimula a imprensa livre. E não há democracia e dificilmente haverá pleno respeito aos direitos dos indivíduos perante essa coisa cada vez mais mastodôntica e ameaçadora que é o Estado, sem a imprensa livre, sem a multiplicidade de órgãos de informação, coisas que só a publicidade farta e abundante pode garantir. Publicidade é uma ferramenta requintada do business, do marketing, do capitalismo, sem dúvida, mas é, também, a mais sofisticada das ferramentas de garantia à liberdade de que dispomos. Sua contrapartida é o deserto tenebroso da “Voz do Brasil” e da tal televisão pública, tão ao gosto de gente como lulla da Silva, Zé Dirceu, Hugo Chávez e outros. Vade retro.

P.s.: meu acesso de hoje foi antecedido por uma mensagem dizendo que, nessa semana, o patrocínio é do cartão American Express; no rodapé, um link pode, se eu quiser, levar-me a algum site do AE; não quis, e segui minha leitura.


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quinta-feira, abril 19, 2007

Uma rotina indiferente

Diariamente, logo cedo e no final do dia, meus vizinhos que criam frangos percorrem os galpões que alojam quase vintém mil cabeças cada um e coletam as aves que morreram. Dependendo do dia, principalmente no calor, são muitas as mortes. É uma rotina, um trabalho como qualquer outro, cuja feitura permite a sobrevivência dos demais.

No sítio é um pouco diferente. Se uma galinha morre é notícia. Seja por alguma doença ou cachorro ou “sei lá o que”, a gente percebe e, por que não, até sente a morte da bichinha.

Se alguma coisa acontecer com algum dos meus vizinhos a comoção será grande. Se, porventura, ouvimos ou vemos algo estranho, ficamos preocupados e a primeira reação é correr a ajudar. Um deles ilumina nossa casa numa madrugada ou outra, quando seus cachorros latem um pouco diferente e despertam a preocupação. Ele pega um potente farolete, daqueles que iluminam longe pra burro, e aponta para nossa casa. Não chega a mostrar, pois há muitas árvores no caminho, além da distância, mas estou certo que é um poderoso elemento de dissuassão de algum mal-feito.

Por aqui, na vida normal e rotineira da cidade grande, desse mundo grande, o assassinato de 32 pessoas numa universidade americana chama a atenção e leio alguma coisa a respeito.

Na seqüência, 19 morrem em tiroteios em dois morros do Rio de Janeiro. Leio alguma coisa a respeito.

Continuando, mais de 100 pessoas morrem em atentados no Iraque. Bom, também leio alguma coisa a respeito.

E, sinceramente, paro por aqui, com essa ação única de ler alguma coisa a respeito.

Perdi minha capacidade de indignação?

Perdi minha sensibilidade?

Perdi a noção de solidariedade?

Penso que sim, acho que não. Tirando o efeito bobinho dessa frase em assunto tão sério, a verdade é que mantenho todos meus sentidos e sentimentos, mas, ao mesmo tempo, é nítido que reservei-os todos para os que me são próximos. Não consigo mais gastar indignação, dó, compaixão, solidariedade com tragédias distantes e ao mesmo tempo corriqueiras.

A morte foi banalizada, é algo corriqueiro, que não mais nos impacta. Simplesmente está aí, presente, tal como as falcatruas, desmandos e calhordices com que nos acostumamos no governo desse imenso bananal, ora em vias de tornar-se imenso canavial. E isso não é uma crítica ao canavial. Provavelmente será melhor que o bananal.

Volto a pensar no sítio, onde a vida é mais focada nos acontecimentos próprios do dia-a-dia e nas pessoas e animais que nos rodeiam. Não consigo deixar de traçar um paralelo entre os frangos que morrem diariamente nos galpões super-povoados e com os quais nos acostumamos como parte inseparável do processo de criar frangos em escala industrial, e as dezenas e centenas de mortes diárias pelo Brasil e pelo mundo, quase todas em cidades superpovoadas, onde carências diversas, desde comida até carinho, são o estopim ou o alimentador desse processo inconsciente deauto-aniquilamento.

Fechamento com o que seria a abertura

Eu tinha pensado nesse texto de forma bem diferente. Ia começá-lo bombástico, copiando a abertura do Manifesto Comunista, de Marx:

“Um espectro ronda o mundo - o espectro da violência.”

Mas achei que seria demais. Preferi o paralelo com os frangos que morrem nos galpões. Tem mais a ver com os acontecimentos dos dias que vivemos.


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sábado, janeiro 20, 2007

Só daqui a 100.000 anos...

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Cometa McNaught é flagrado no céu de Christchurch, Nova Zelândia, anteontem;
visibilidade é melhor em cidades mais ao sul


A seguir, transcrição de entrevista com o descobridor do cometa McNaught,
publicada na edição de hoje da Folha de S.Paulo.
Belo trabalho da Folha, que fez a entrevista com seu correspondente em Sydney,
Rafael Garcia
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O descobridor do cometa que corta o céu do hemisfério Sul neste mês é um astrônomo autodidata que não se considera cientista. "Sou um observador", diz Robert McNaught, um escocês emigrado para a Austrália, que guardou na gaveta seu diploma de psicólogo para trabalhar com astronomia. Desde que começou sua carreira tardia, o homem que dá nome ao cometa mais brilhante dos últimos 42 anos já descobriu outros 31, a maioria deles no Observatório Siding Spring, perto de Sydney. Em entrevista à Folha, McNaught falou um pouco sobre seu trabalho.

FOLHA - Seu site diz que a descoberta do cometa foi fruto de trabalho de rotina. Como é seu dia-a-dia?
McNAUGHT
- Temos três observadores aqui, contando comigo. Fazemos um rodízio. Toda noite com tempo aberto -exceto quando há lua cheia- operamos o telescópio sistematicamente, varrendo o céu do Sul.

FOLHA - O que é o seu projeto?
McNAUGHT
- Procuramos asteróides e cometas que apresentem risco de colisão com a Terra, especialmente os grandes - maiores de um quilômetro. Temos verba para isso até 2008.

FOLHA - Quantos cometas vocês já descobriram?
McNAUGHT
- Até agora foram 29, aqui no Siding Spring. O McNaught foi o último. Eu já batizei 32 cometas, na verdade, mas nenhum deles chega aos pés deste em brilho.

FOLHA - Vocês já calcularam a massa e o período do cometa?
McNAUGHT
- Aqui não analisamos estrutura física ou tamanho de cometas, mas já sabemos que a órbita dele é muito alongada. Ele veio para o Sistema Solar interno [planetas de Mercúrio a Marte] quase como numa parábola [curva aberta]. Ele provavelmente veio da Nuvem de Oort, de uma longa distância no Sistema Solar, e só vai voltar à Terra depois de cerca de 100 mil anos.

FOLHA - Porque o brilho do cometa surpreendeu tanto os astrônomos?
McNAUGHT
- Como não tivemos uma visão próxima do cometa, não sabíamos na realidade como era sua superfície. Não sabíamos se ela era de gelo com poeira ou se era coberta de um manto só de poeira, que impede a radiação do Sol de chegar ao gelo. Também não sabemos se a superfície tem falhas ou se é lisa. Isso tem grande influência no grau de brilho do cometa. Só podíamos estimar o brilho por antecipação comparando-o com outros cometas do passado, mas muitos cometas com órbitas similares não tiveram aumento de brilho tão rápido ao se aproximarem do Sol.
Mas não existe um comportamento típico de cometas. Cada um é um pouco diferente do outro. O McNaught parece estar no extremo de brilho em uma ampla gama de comportamentos [aspectos] dos cometas. Outros cometas, como o Austin [de 1990], tiveram um aumento de brilho rápido no início, mas não o mantiveram.

FOLHA - Qual é a perspectiva de brilho para os próximos dias?
McNAUGHT
- O brilho certamente já está diminuindo, mas o cometa está se movendo para um céu mais escuro, por isso está mais visível agora do que quando atingiu o ponto mais brilhante. Para quem estiver longe das luzes das cidades, o cometa deve ser visto com facilidade na próxima semana e, talvez, durante mais algumas. O céu mais escuro, além disso, permite ver a enorme cauda do cometa. Apesar disso, a Lua está começando a se aproximar daquela região do céu, e dentro de uma semana ela pode atrapalhar a visibilidade do cometa. Então, na verdade, a semana que vem deve ser mesmo a melhor para ver o cometa.

FOLHA - A latitude influencia a qualidade da vista?
McNAUGHT
- Sim. No geral quanto mais ao Sul, melhor. Aqui no Siding Spring estamos a 30 Sul e o cometa está bem posicionado. Quem estiver a até uns 20 Sul [latitude de Belo Horizonte] ainda pode ter uma boa vista do cometa, mas o melhor deverá ser em uns 40 Sul [latitude de Bariloche].

FOLHA - O cometa pode se desintegrar com a radiação do Sol?
McNAUGHT
- Há sempre uma possibilidade de isso acontecer, e acontece com freqüência com cometas que passam muito perto do Sol. Este cometa não passou tão perto, mas outros que estavam à mesma distância já chegaram a soltar alguns fragmentos. Até agora não temos evidência de que isso tenha ocorrido, apesar de ainda poder acontecer.

FOLHA - Quão brilhante é esse cometa, em relação a outros que apareceram nos últimos cem anos?
McNAUGHT
- Existe um grupo de astrônomos amadores que se dedica a compilar dados sobre isso. Segundo eles, o McNaught é o segundo cometa mais brilhante desde 1935. Ele perde para o cometa Ikeya-Seki [em 1965], que foi muito mais brilhante do que este.

FOLHA - Independentemente de sua beleza, o cometa gerou algum interesse científico em especial?
McNAUGHT
- Certamente haverá estudos especiais feitos sobre o cometa. O fato de ele ser tão brilhante significa que é possível estudar sua luz em mais detalhe. [A separação da luz pode revelar a composição do cometa], mas ainda não tive tempo de procurar saber o que está sendo feito.

FOLHA - Fale um pouco sobre sua carreira. Como o sr. virou um caçador de cometas?
McNAUGHT
- Eu me interesso por astronomia desde muito jovem e me tornei um astrônomo amador. Sempre fui ávido por isso, sair por aí para fazer observações com meu próprio telescópio. Então eu tive oportunidades que me levaram nesta direção. Mas não não sou pesquisador, sou um observador.

FOLHA - Em que o sr. se formou?
McNAUGHT
- Em psicologia, mas nunca trabalhei com isso. Assim que me formei, há uns 20 anos, consegui um emprego em astronomia. Sempre foi minha paixão.

FOLHA - Por que o sr. não se matriculou em física, ou algum curso ligado à astronomia?
McNAUGHT
- Eu fiz isso, mas eu larguei o curso porque minhas notas estavam péssimas. Eu fui para psicologia porque gostava do assunto, mas nunca trabalhei na área.

FOLHA - O sr. acha que a passagem de um cometa como este pode tornar os jovens de hoje interessados em astronomia?
McNAUGHT
- Eu já tinha interesse em astronomia antes de ver o cometa Bennet em 1969, mas foi a partir dali que eu fiquei deslumbrado. Aquele cometa era espetacular e certamente aumentou meu interesse em astronomia.



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