quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Eu estarei fora...

... dessa monstruosidade de 19.600.000 habitantes que será a Grande São Paulo em 2010.

Não que hoje, com apenas 18.800.000 habitantes, ela já não seja monstruosa, pois é e muito. Qualquer aglomerado urbano com mais de um milhão de habitantes já merece o rótulo de monstruosidade.

Esses dados fazem parte do documento Perspectivas Mundiais de Urbanização, produzido e distribuído pela ONU, que foi lançado ontem. O planeta como um todo caminha inexoravelmente para uma brutal urbanização, e já nesse ano de 2008 mais da metade dos seres humanos moram em cidades. Em 2050 esse número deverá ser superior a 9 bilhões de habitantes.

Como informação e para pensar um pouco, eis a lista dos maiores aglomerados urbanos do mundo:


Em 2008:

Tóquio 35,7 Milhões de habitantes

Nova York 19

Cidade do México 19

Mumbai 19

São Paulo 18,8



Em 2010:

Tóquio 36,1 Milhões de habitantes

Mumbai 20,1

São Paulo 19,6

Nova York 19,4

Cidade do México 19,4



Em 2025:

Tóquio 36,4 Milhões de habitantes

Mumbai 26,4

Delhi 22,5

Dacar 22

São Paulo 21,4

Enquanto isso, outras monstruosidades continuarão crescendo em terras tupiniquins, embora o verbo mais adequado seja inchar.



Em 2025:

Rio de Janeiro 13,4 Milhões de habitantes

Belo Horizonte 6,7

Porto Alegre 4,6

Recife 4,3

Naturalmente, os governos em todos os seus níveis – federal, estaduais e municipais – ignoram essa realidade futura. Não a desconhecem, longe disso, mas preferem ignorá-la porque não conseguem lidar sequer com o dia de hoje, que dizer com o futuro remoto – que chega numa velocidade impressionante, fazendo com que futuro remoto aplique-se somente a qualquer coisa lá para o século XXII. Infelizmente, o futuro já é hoje e nós não estamos preparados para ele, como tampouco estivemos preparados para o ontem.

Minha casa tem recebido visitas em boa quantidade. São Paulo já nos deu o que tinha que dar. Nós também já demos a São Paulo o que podíamos e estou certo que darei muito mais a essa cidade que, apesar de tudo, é a minha e amo de paixão, estando fora dela, produzindo leite e seus derivados.

Aglomerados urbanos são centros geradores de desequilíbrios em todos os sentidos, são centros geradores de doenças, tanto as físicas como as que atacam a alma. Não que o campo, plácido, bucólico, idílico – tudo falso – também não o seja, mas sem dúvida superpopulações não são benéficas. Já virou lugar comum falar dos inúmeros estudos mostrando como superpopulação afeta radicalmente o comportamento de diferentes animais. Frangos e galinhas bicam-se terrivelmente, até a morte. Porcos partem para o canibalismo. Bois confinados praticam sodomia. Ratos se matam uns aos outros. A lista é longa e muito triste.



A volta ao campo é uma saída?

Não.

A vida no campo é extremamente dura quando comparada aos padrões urbanos. Poucas são as pessoas que gostam de viver no campo, inclusive no próprio campo, onde o sonho dominante é morar na cidade e ter à mão tudo de bom que a civilização proporciona.

Triste engano, é claro. Mas o ser humano adora o engano e vive de sonho.

Com os homens públicos que temos, com suas visões míopes e imediatistas, sem falar no quanto dessas visões é afetada pela corrupção, continuaremos desprovidos de programas que visem ao bem-estar dos “povos das cidades”.

Enquanto isso, em busca de seu próprio bem-estar, os “povos das florestas” seguem fazendo sua parte, abrindo buracos gigantescos na cobertura verde e inchando os aglomerados urbanos no meio do nada.

Esse, contudo, é outro assunto.


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sábado, fevereiro 23, 2008

Impensável... Mas aconteceu


Pois é, o impensável às vezes acontece e nos pega de surpresa. Pensando assim, de repente, lembro-me que não só julgava impensável o fim da Guerra Fria, como também vivia em sobressalto por causa dela. Lia tudo que me aparecia pela frente, e muita coisa aparecia a respeito, desde a capacidade de destruição de um só ICBM até a função dissuassória das forças submarinas de um lado e outro, invisíveis ou quase isso, cada plataforma transportando a morte de centenas de milhões de pessoas. Eis que um dia Richard Nixon desembarca na China, em outro conversa animadamente com Breznehv, mais adiante é Reagan, o cowboy, e de repente o medo nuclear começou a ser jogado para o arquivo morto das preocupações.

O Muro de Berlim...

Sua queda era outra coisa impensável para quem, como eu, nasceu nos cinqüenta.

Portanto, foi com um espanto enorme e a sensação de estar vendo a história em ação e o mundo sendo transformado, que assisti pela às imagens de milhares de pessoas quebrando, a golpes de picaretas, martelos, pás e quaisquer outras coisas à mão, o muro vergonhoso, inominável, palco de mortes e tristeza. Na seqüência, o fim da União Soviética não chegou a causar o mesmo espanto, a mesma surpresa. Só a velocidade com que ela veio abaixo, mas, por incrível que pareça, ainda nos anos 70 já havia lido um trabalho com essa previsão, escrito pelos irmãos Medvedev, Zhores e Roy, intelectuais dissidentes, que previam o esfacelamento da URSS e apontavam as tensões e conflitos étnicos e religiosos como o estopim que conduziria ao fim.

Agora, numa só semana, o impensável bateu na porta duas vezes, e entrou em ambas. Primeiro, Fidel renunciou. Demorou, mas aconteceu. Já o tive como ídolo, mas isso foi há muito, muito tempo, e curiosamente durou pouco. Ter conhecido Cuba ainda enquanto a finada União Soviética era viva, foi bom, fez-me bem, reforçou minha convicção sobre o acerto na mudança de linha do que pensava, vale dizer, o acerto da minha mudança ideológica. A saída de Fidel, agora, nada teve de espetacular e foi apenas patética, tardia, chata. Como diz a rapaziada, demorou.

Finalmente, o impensável dos impensáveis fatos, aconteceu: a dívida externa “acabou”, o mundo nos deve mais do que devemos ao mundo, e não se trata de metáfora ou figura de linguagem ou qualquer outra dessas baboseiras nacionalistas. Não, nada disso, é fato contábil. Não só diminuímos nossa dívida externa pagando o que devíamos – a dívida pública externa foi liquidada – como também temos mais reservas do que dívidas. Inacreditável, preciso concentrar a atenção e os pensamentos para ter a real dimensão desse fato.

Já tivéramos uma avant premiére em 94, com o fim da inflação monstruosa e da correção monetária. A maioria de nós já esqueceu aqueles tempos, não lembra mais das manchetes regulares, a cada trinta dias, dizendo que o mês fechara com 15, 20, 25 e até mesmo fantásticos mais de 80% de inflação! É... Ninguém mais lembra disso, ninguém lembra que o salário recebido já valia dez, vinte, trinta por cento a menos do que seu valor nominal. Nem vou entrar no tititi de jogar na cara do PT e de seus asseclas – um monte enorme de gente – e apoiadores – milhões, iludidos pelo brilho fácil de promessas vãs – as sucessivas e estúpidas manifestações contra o Real, contra a política econômica de Fernando Henrique e Malan, contra a dívida externa, contra tudo, contra todos, preservando apenas a eles próprios como os donos das verdades políticas e econômicas, morais e éticas, eles, os cavaleiros andantes do bem em eterna luta contra as forças e agentes do mal, ou seja, todos os outros que não professavam das mesmas fé e ideais. Bobagem chutar cachorro morto.

Opa! Não, cachorro morto, não, muito pelo contrário, vivo, muito vivo, agindo e quando não, à espreita.

Mas, enfim, o impensável aconteceu também com nossa dívida externa.

Então, por justiça...

A César o que é de César.

A Lula o que é de Lula... e de FHC.

E à agropecuária brasileira o que é de todos: ela e os produtores rurais, humilhados e vilipendiados rotineiramente, são os grandes heróis do “fim” da dívida externa. Pena que quase ninguém sabe ou pensa nisso.


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segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Fim de papo, mãos à obra

A princípio eu não queria,mas como precisava, aceitei.

Coloquei o sítio à venda. As vacas também.

Tudo ia bem, aquele “bem” em que deixamos tudo como está para ver como é que fica, até que num mesmo dia, numa manhã de sexta-feira, as vacas foram compradas, justamente as minhas melhores, as originais. E, ao mesmo tempo, enquanto o comprador olhava a Feiticeira, a Imagem & Cia. bela, na cozinha, tomando um café, recebi uma oferta firme pelo sítio. À vista, bem perto do que eu pedia.

Foram dias de angústia a partir de então.

Fui tomado pela sensação dolorosa de perda.

E foram dias, também, de ouvir recriminações ao meu apego às coisas.


Bom, o sítio nunca foi uma coisa e as vacas menos ainda, assim como meus livros.


Não são coisas, jamais serão, e sempre terei apego a todos eles, esteja isso certo ou errado em termos materiais, filosóficos, espirituais, administrativos, econômicos, o que seja. Carro, por exemplo, é uma coisa, um mero monte de lata e plástico e já vendi inúmeros sem a mínima dor ou má-vontade, muito pelo contrário.

No caso do sítio fiz uma contraproposta. Coisa pouca para o comprador (compradores, pai e filho), mas grande para mim. Queria mais dez por cento em relação à proposta. Vários sinais indicavam que o negócio estava fechado, principalmente pela posição do lado de lá. Que recebeu o dinheiro da safra de laranja e...

Bom, começaram a demorar um pouco. Mas, enquanto isso, vistoriavam o sítio mais uma vez e outra, avaliavam, olhavam a casa, ponderavam, agora já com a presença de uma das filhas. Estava tudo certo, logicamente, afinal, não é por nada, não, mas o Sítio das Macaúbas é recanto de muitos encantos, até mesmo para plantar tudo com laranja ou cana e ganhar dinheiro.


Responderam à minha contraproposta anteontem, sábado, com um valor ligeiramente menor e dizendo que do lado deles estava tudo certo. Bom, ok, está bem, está de bom tamanho. Fiquei de ir ao sítio na segunda (hoje) ou terça-feira para a gente sentar e acertar. Ainda pretendia mais um troquinho, mas já me acostumava ao valor proposto. Na verdade, já estava aceito.



Ontem pela manhã, pleno domingão, tudo mudou.

Ligaram desistindo do negócio.

Coisa estranha em se tratando desse pessoal que conheço bem e há muito tempo.

São sérios, não voltam atrás, têm solidez. A voz do meu interlocutor, o filho e que está à frente do trabalho propriamente dito, todo santo dia, demonstrava constrangimento, muito visivelmente. Reclamou que os custos estão altos, o dinheiro não dá para nada e coisa e tal. É verdade, tudo isso é verdade. Falou mais um pouco até que contou o verdadeiro motivo da desistência: duas das outras irmãs reclamaram, dizendo que estão com problemas de dinheiro, que era loucura comprar mais terra e coisa e tal. Como se trata de negócio em comum de vários irmãos, embora só um trabalhe e conduza tudo (o meu interlocutor), a decisão acabou sendo pela desistência da compra, com certeza para evitar mais atritos familiares. Talvez a irmã que disse ser loucura comprar mais terra ache melhor comprar um carro. Sei lá, tudo é possível.




Bom, agora é voltar à vida real.

Já estava acostumado à necessidade da venda, já estava acostumado à idéia de sua realização, bem no íntimo já contava com o dinheiro para várias coisas. Para chegar a esse ponto, contudo, durante 24 dias vivi um processo muito doloroso de aceitação da perda, do reconhecimento do fracasso, do afastamento de coisas às quais dou imenso valor, embora pareçam tolas. Como o pé de oiti, cuja muda ganhei de um grande amigo, e que plantei perto de casa, já bonito e grande, com sete anos de idade. Ou o pé do meio raro genipapo, que plantei bem ao lado do curral e as minhas araucárias e outras árvores, cada uma com um propósito, cada uma com sua própria história.

Doía, sobretudo, saber que tudo viria terra abaixo para dar lugar a pomares de laranja. Preocupava-me a sobrevivência dos ouriços brigões da matinha. Enfim, era muita coisa para ser processada e quando, finalmente, eu já estava em relativa paz a respeito de tudo isso, vem essa desistência.

Paciência, o sítio continua sendo meu, continua sendo o Sítio das Macaúbas.

Nesses dias, pensei muito, pensei em meus fracassos, mas também nos sucessos, que existiram, sim. Repassei os muitos pontos positivos do sítio, bem como também repassei os negativos, que já havia esquecido e cuja volta à lembrança ajudou-me no processo de aceitação. Há muita coisa nos dois lados, vantagens e desvantagens, como tudo na vida. O que resta, agora, é encarar as vantagens e nelas buscar ânimo. Encarar, também, as desvantagens, e começar a eliminá-las. Pois a vida segue, com o sítio, mas sem as minhas melhores e mais queridas vacas.

Fica, agora, somente a torcida pela venda da casa.

Quanto antes, melhor.

Sim, porque em nenhum momento passou pela minha cabeça desistir, muito pelo contrário. Tanto que já tinha outro sítio em vista, pronto para entrar em negociação, com algum prazo para quitar e algum dinheiro em mãos para começar a tocar, corrigindo erros do passado. O que já está mais do que decidido, é sair de São Paulo, sair da Grande São Paulo, e dar um novo rumo à vida, o rumo, na verdade, com que sonho a minha vida inteira. Está na hora.

Ah, sim, também espero recobrar a vontade e o prazer de escrever, que andaram amortecidos. O motivo vocês agora entendem.







Obs.: as fotos Google, tiradas de satélite, são bem antigas; desde então o Sítio das Macaúbas mudou bastante, mas servem como referência.


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terça-feira, fevereiro 05, 2008

Carnavalices



Em Dublin, Irlanda Contra x Irlanda Pró

Nada mais brasileiro que a CBF – Confederação Brasileira de Futebol –, a entidade monárquica que rege os destinos de nosso principal esporte e componente básico, ao que dizem, da brasilidade.

Nada mais brasileiro, também, que o desleixo, improvisação e indigência com que um de nossos principais produtos de exportação, a carne bovina, tem sido tratado por esse governo e por outros mais. Na verdade, por todos.

A bem da verdade, porém, esse atual superou-se e superou os antigos, ao mandar uma lista-fantasma – creio ser esse o melhor nome – de fazendas em ordem para exportar carne para ninguém menos que a autoridade européia responsável pelo controle desse produto. O fato todo foi tão ridículo que os europeus perderam a fala, isso aqueles que gostam, conhecem e defendem esse imenso bananal.

Outros europeus, irlandeses principalmente, só faltaram sair às ruas fazendo um carnaval esquisito na neve e na lama gélida que recobre parte das cidades da Irlanda.

A mesma Irlanda que quarta-feira verá um jogo caça-níqueis do time da CBF – outrora conhecido como Seleção Brasileira – e para isso já esgotou todos os mais de 80.000 ingressos disponíveis para a partida.

Será um confronto interessante. Mais ainda seria se o time da CBF jogasse com alguma coisa do tipo “Brazilian meat – eat it!” estampado na camiseta, e o time irlandês o fizesse com “Don’t eat Brazilian meat” ou qualquer coisa parecida. O interessante desse confronto será somente isso, sua realização simultânea com essa crise na exportação de carne, pois, fora isso, como jogo, é tolo, dispensável, sem sentido, sem nexo, sem valor, sem, sem, sem...

Mas, com dólares.

Ao fim e ao cabo, é a única coisa que conta no reino da CBF.




Nenhuma nudez será castigada

Tão certo como os desabamentos e mortes de todo verão nas regiões serranas, numa repetição quase cronométrica e sem surpresas – talvez, por isso, desconcertando e deixando sem ação as autoridades (ir)responsáveis, abro o jornal e dou de cara com bela mulher nua. Totalmente. Ou quase, pois discretíssimo tapa-sexo cobre o desnecessário, nessa altura do campeonato.

Lamento,mas não vejo graça, nunca vi. Até porque na fase em que veria graça e babaria por isso, a nudez era algo muito privado, tão privado, naqueles tempos de censura, que nem nas revistas de “mulher pelada” ela aparecia.

Não entendam mal minhas palavras, por favor. Não vou alongar-me em explicações por serem desnecessárias, mas digo apenas uma coisa: a exposição absoluta da nudez tira todo o mistério, todo o encantamento, toda a imaginação, todo o erotismo que o corpo humano pode despertar. É coisa, dessa forma, sem graça.

Algumas imagens ligadas a açougues e animais vivos em seus habitats passaram por minha cabeça,mas não se preocupem, esse texto já está no fim, e vocês ficam poupados dessas cenas que minha cabeça visualizou.

Ok, sim, pode ser verdade, talvez eu seja um conservador chato e sem graça.




De volta à carne

De volta por que? – se nunca saímos dela nesse post?

Hehehehehe... Um pouco de veneno.

Enquanto tudo isso acontece, na extensa, aconchegante e interessante fronteira com o Paraguai, bois, vacas e bezerros hermanos trafegam candidamente pelos dois lados da dita cuja. Não há placas, o que não faria efeito, já que bois, vacas e bezerros não sabem ler. Não há vigilância, não há controle, nada há, enfim, a separar os dois países. Tudo nos une, principalmente a aftosa, mal controlada do lado de lá e que ao entrar no bananal e contaminar nossas vacas, derruba nossas exportações em dois a três bilhões de dólares por vez.

No bananal, tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Isso, sim, é o que se pode chamar de um país confiável.

Parodiando H L Mencken – “Nunca ninguém perdeu dinheiro por subestimar a inteligência do povo americano” – podemos dizer que nunca alguém perderá dinheiro por subestimar a inteligência dos políticos brasileiros.

É isso. Por enquanto.




Post scriptum

Os políticos tupiniquins presos pelo clima na Antártida, ou Antártica, voltaram para casa; ficaram 5 dias no continente gelado e tiveram – pasmem, leitores! – que lavar a própria roupa; o avião escalado para trazê-los apresentou um defeito, retardando mais um pouco a volta, que, finalmente, aconteceu.

Voltou por que?

Por que voltou?

:o)

domingo, fevereiro 03, 2008

Desencantos e outras coisas


Lamento.

Lamento por várias coisas, entre elas ter deixado esse Olhar Crônico meio abandonado. A alternativa teria sido escrever ranhetices, tristezas, reclamações. Sequer consegui um tom irônico às coisas que até pensei em postar. Sendo assim, fui empurrando com a barriga, empurrando, empurrando... Nem mesmo sei se o momento certo de retorno é esse, mas, vamos lá. A vantagem da internet é que o teclado é cheio de recursos para deixar um texto chato de lado.

Bom, entrou a Abertura do “Barbeiro de Sevilha”, de Rossini, e é sempre um bom motivo para passar boas imagens para o papel. Papel eletrônico, nesse caso.


Bombinhas

Paradisíaca, ou quase isso, nesse início de século XXI. Nem tanto pela praia, muito mais pelas águas cheias de vida, que permitem mergulhos facílimos e simplesmente fantásticos. Os experts vão me perdoar pelo aparente exagero, é claro que há locais com muito mais vida, sem dúvida. Pensando, porém, no turista comum, praticamente de qualquer idade, Bombinhas permite belas visões do mundo subaquático, apenas beirando as pedras, algumas das quais em meio á areia da praia. Vi, por baixo, mais de vinte diferentes espécies de peixes, além de anêmonas, coral-cérebro – esse, infelizmente, com muitas áreas mortas, algumas delas pelos pés com nadadeiras de turistas desinformados –, estrelas-do-mar, ouriços, carangueijos e até mesmo um pepino-do-mar.


Não só. Vi, também, águas-vivas. Milhões, acho, não me dei ao trabalho de contar, nem poderia. Foi assim: fazia o primeiro mergulho do dia, usando uma camiseta para proteger-me dos raios solares (que penetram, sem problema algum, a até 40 centimetros de profundidade, queimando tanto quanto se a pessoa ficar na areia, “bronzeando-se”). Em certo momento comecei a sentir umas picadas incômodas, uma ardência em vários pontos do corpo, todos mais ou menos próximos ao pescoço. Cheguei a ficar preocupado, achando que estivesse com algum processo alérgico em andamento, mas não dei muita atenção. Um pouco depois fui obrigado, sim, a dar atenção. Os pontos se multiplicavam e só então foi que pensei no óbvio (e que já tinha esquecido...): água-viva, eu estava sendo alvo, ou vítima, de um ataque de águas-vivas. Tive a confirmação ao levantar a cabeça – faço snorkeling com a cabeça enfiada na água, literalmente, olhando para baixo, principalmente onde há motivos para isso, como em Bombinhas – e, favorecido pela incidência da luz no ângulo certo, vi montes de minúsculos guarda-chuvas, pouco mais que microscópicos. Em alguns pontos a água tinha uma aparência leitosa. Bom, tempo de cair fora, claro. Foi o que fiz, mais que depressa. Na praia, vários mergulhadores reclamavam, também. Foi, todavia, uma passagem fugaz, vieram com uma corrente e um vento, voltaram com outro.

E o que fazer nessas horas?

Como eram pequenos celenterados, nada de extraordinário, um pouco de urina jogada sobre a área já seria suficiente para aliviar a queimadura. Certo, fora o lado curioso, isso é bom pro Tom Hanks abandonado numa ilha deserta. No meu caso, fui pra casa, a poucos metros da praia (Santa Catarina é ótima!) e joguei vinagre por cima da camiseta mesmo. O alívio foi imediato e total. A uréia da urina e o ácido acético do vinagre, pelo que sei, aliviam a sensação de queimadura.

Em casos mais graves, como os dos banhistas na Praia Grande, no reveillon, o certo e imediato é procurar socorro médico.

De águas-vivas para beija-flores.

Os danados estão sumidos. O verão é bem mais farto em oferta de alimentos e eles devem permanecer em áreas mais fechadas por aqui. No inverno é diferente e eles freqüentam as árvores e arbustos plantados pelos jardineiros, o que facilita sua visão, sem dúvida.

Na caminhada de hoje, fazendo o circuito “completo” da Fazendinha, nada fotografei. Por incrível que pareça.

Caminhar pela Granja Viana tem me deixado meio deprimido, meio triste, meio revoltado, meio sem-vontade de caminhar. As placas “Vende-se” sucedem-se em monótona procissão. Se estivessem em frente de casas não daria bola, mas, não, estão em todos os terrenos. Com eles, em breve vai acontecer o mesmo que ao terreno a cinquenta metros de casa: o ataque inclemente das motosserras. O resultado aqui em casa foi o sumiço dos sagüis que vinham comer banana e mamão a poucos metros de nossas janelas. Outro resultado: abandonei de vez todo o pudor e resolvi que meu ciclo na Granja terminou. Covardemente, se assim quiserem, não quero estar por aqui presenciando, impotente, a destruição do que resta de vegetação e fauna. O avanço imobiliário é inexorável.

Curiosamente, falta visão ou algo parecido aos granjeiros, boa parte dos quais podem ser chamados de pessoas com recursos. A eles e às prefeituras de Cotia e Carapicuíba, se bem que esperar visão desse pessoal...

A compra dos terrenos e a manutenção dos mesmos como áreas de preservação poderiam manter a Granja com suas características, mantendo os preços dos imóveis em alta, ainda mais num horizonte de dez anos (que passam voando). Infelizmente, não há visão e desprendimento de um lado, e visão e inteligência do outro. Sobra apenas o imediatismo por mais dinheiro no bolso e mais dinheiro nos cofres. Uma pena.

Esse, hoje, é meu maior desencanto, pela proximidade com minha vida cotidiana.

Sobre o Sítio das Macaúbas falarei em outro post. Adianto que as vacas vão bem, a Nita pariu uma bezerrinha, a Vitória e a Hora estão por parir, os gatos vão bem, as galinhas idem, exceto pelo assédio dos galos, que precisam urgentemente de algumas panelas como destino. Ou mudar para outros galinheiros, pois são tão bonitos que dá dó mandá-los, simplesmente, virarem coq au vin.


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domingo, janeiro 27, 2008

“· 19:52

· Clima barra volta da Antártida de parlamentares do País”

Acabei de ver na página do Estadão.

Não sei quem são os políticos e, sinceramente, não estou interessado em saber.

Também não sei quantos são, mas, infelizmente, não são todos os milhares que infernizam nossa vida e mantêm o país no século XIX, claro que com o precioso auxílio de milhões de nós mesmos. Mas isso é para outra hora.

Por enquanto, fica só essa notícia saborosa."

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Senado? Para que?


Eram dois senadores por estado, ao lado de uma Câmara com um monte de deputados.

Em 1977, numa manobra destinada a tirar poder da oposição que crescia, o governo militar criou o terceiro senador por estado. Mexeu, também, na representatividade da Câmara, fazendo com que estados mais desenvolvidos e populosos, São Paulo, principalmente, ficassem sub-representados. Foi criado o eleitor brasileiro de 2ª classe, o eleitor brasileiro que reside e vota em São Paulo, mas também no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, embora com perdas menores.

Ao lado de tudo isso, no Brasil existe uma excrescência chamada “suplente de senador”. Geralmente é um sujeito endinheirado, que financia campanhas dos sujeitos bons de voto e, se esses morrem ou vão para alguma sinecura ainda mais interessante que a senatorial, os suplentes assumem, sem voto, sem representatividade, sem mandato legítimo, mas dotados de poder, voz e voto como qualquer outro senador. Nem sempre o suplente é um sujeito endinheirado, pode ser um parente querido, também. Aliás, é o caso presente: Edson Lobão – que não se perca pelo nome – foi indicado para assumir o Ministério das Minas e Energia. Em seu lugar, no Senado, assumirá Edson Lobão Filho.

Bom, se o pai nada entende de energia e confessa candidamente sua ignorância, o filho, por sua vez, mais com cara e jeito de playboy do que de vetusto senador da república, assumirá a cadeira do papai a bordo de acusações de sonegação, desvio de dinheiro, estelionato e falsidade ideológica. O bravo rapaz, com o luxuoso auxílio de seu tio, irmão de seu pai, transferiu uma empresa e todas as suas imensas dívidas para uma empregada doméstica, analfabeta funcional, dona do portentoso salário mensal de 380 reais e uma dívida de 5,5 milhões de reais só para bancos, fora as dívidas fiscais não anunciadas. O garotão assume, reconhece a laranjice, e dela se arrepende, dizendo que hoje não faria a mesma coisa.

Qui bunitinho! Qui gracinha, não é mesmo?

Como prova de sua honestidade e firmeza de propósitos e caráter, ele diz que não pode ser penalizado por essa dívida bancária, pois nem usufruiu do dinheiro. Coitadinho... Claro, nada disso impediu-o de continuar rico – deve ser fortuna antiga, de família, algo que remonta aos tempos de criação das capitanias hereditárias – e comprar um helicóptero. Mas não para seu deleite, apressa-se a dizer a doce figura filian, e sim para uso de mamãe em sua campanha eleitoral.

Ah, sim, mamãe é deputada federal.

Para quem não sabe, a família Lobão é do Maranhão, aquela capitania hereditária da família Sarney, e também o estado com o menor IDH do Brasil pelo menos até o ano retrasado. Confesso que não tive estômago para procurar o atual IDH maranhense.

Portanto, brasileiras e brasileiros – ops, foi maus... – meus estimados leitores, essa doce criança assume uma cadeira no senado, com papai ministro e mamãe deputada federal. No mesmo senado – melhor usar letra minúscula – que absolveu Renan Calheiros, que continua ativo e influente como se nada tivesse acontecido. O mesmo senado que não passa de um clube de velhos – em sua maior parte – amigos, algo como uma Academia Brasileira de Letras, com o agravante de custarem centenas e centenas de milhões de reais à República. Ou, melhor ainda, bilhões e bilhões de reais. Tudo isso para fazer o que?

Nada.

Nada que seja relevante.

Nada que não pudesse ser feito por uma Câmara dos Deputados atuante e composta por pessoas sérias.

Mas esperar o que de uma Câmara que, nesse ano, com boa vontade, trabalhará somente 4 meses? Ah, sim, pois o resto do tempo estará tomado por férias, recessos e a dedicação em tempo integral à campanha eleitoral, pois 2008 é ano de eleições, pois a pujante democracia brasileira, ano sim, outro não, pára o país por conta das campanhas eleitorais.

É...

Pois é, esse texto tem um cheiro ruim, tem um ranço perigoso de aversão à democracia, não tem?

Até pode ser feita tal leitura, mas não é o que eu penso. Sou radicalmente a favor da democracia e de todas as liberdades democráticas, pelas quais militei boa parte de minha vida. Porém, isso tudo que aí está provoca-me engulhos. Sendo mais direto:

Me dá nojo!

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quarta-feira, janeiro 16, 2008

Mais de um bilhão...


...quase um bilhão e meio de menções à palavra “google”. É isso que se encontra ao procurar por “google” no Google. Isso deixa uma questão bastante séria: como verificar todas essas menções? Um bilhão, quatrocentos e sessenta milhões de resultados na busca por essa palavrinha que até pouco tempo atrás era desconhecida ou mesmo inexistente.

Narcisisticamente, digitei “Emerson Gonçalves”... Olhei o resultado... Desisti. Nada menos que 840.000 resultados. Claro, descobre-se ao fazer algo tão básico que devem existir zilhões de “Emerson Gonçalves” por aí afora, a maioria deles mais produtivos socialmente do que eu, como o xará que é presidente do Rotary Sul, em Sorocaba, creio, pelo código telefônico e menções à cidade em outras páginas. Outro xará é pesquisador de peso e respeito na área de madeiras, com vários trabalhos publicados, currículo no Lattes e tal e coisa.

Eu, hein?

Bom, minha gente, continuei dando vazão à minha veia “narciso” e digitei “sítio macaúbas”, sem o “das” para não cansar o buscador do Google. Bom, agora a coisa começou a ficar mais civilizada e apareceram tão somente 16.200 resultados. Na primeira página, várias menções ao meu Sítio das Macaúbas, dos diversos posts desse blog falando da terrinha. Mas, eis que sou surpreeendido por um relato de estranho caso envolvendo uma vaca leiteira no Sítio Macaúbas do Sr. Cícero, em Arceburgo, Minas Gerais.

Resumidamente, a vaca apareceu sem as orelhas, decepadas de forma misteriosa durante a noite. Mais mistério: os cortes estavam fechados, cauterizados, e sem isso a vaca teria morrido de hemorragia, pois as orelhas são muito vascularizadas e o sangue simplesmente esguicharia pelos cortes. Um veterinário foi chamado, examinou, achou tudo estranhíssimo, passou uns anti-inflamatórios e antibióticos e a vaca voltou pro pasto, onde viveu mais um bom tempo, inclusive parindo, até ir para o corte.

Ninguém conseguiu explicar o mistério dos cortes cauterizados.

Findo o relato, olhei com mais atenção o site no qual o mesmo estava, inclusive com fotos do sítio, do veterinário, do Sr. Cícero e da heroína do “causo”, a vaca “desorelhada”, e descobri que estava no CUB – Centro Ufologia Brasileiro – e justamente na seção de casos aqui ocorridos. Aliás, está tudo ali para quem quiser conferir e ver as fotos.

Voltei ao Google. Antes de sair das muitas páginas macaubenses, olhei um pouco mais adiante e encontrei menção ao sítio em meu antigo blog – Pykaretagens & Cia. Curioso, fui lá rever o passado e encontrei umas coisas escritas que me agradaram. Ainda bem.

Como dizia, voltei ao Google, pensei, pensei, pensei e digitei um monte de coisas, mas aí já tinha perdido a graça.

Graça que começou com o It Crowd de ontem. Para quem não conhece, é uma sitcom inglesa simplesmente hilariante. Dizem, e por motivos desconhecidos eu acredito, que o Bill Gates assiste e gosta muito. Para começo de conversa, é inglesa. Portanto, já sai na frente com alguns corpos de vantagem. E ela retrata, bom, não vou usar adjetivos, pois eu sou um it-dependente e não posso ficar mal com a rapaziada da área. Só vou dizer que ela retrata de forma muito divertida o povo de information technology das grandes corporações. Ontem, a chefe do departamento, uma figura absolutamente ignorante do assunto, cujo único conhecimento da área limita-se a saber mandar e-mails, caiu numa brincadeira de seus subordinados nerds e disse na reunião de todos os chefes de departamento da corporação que ninguém podia pesquisar “google” no Google. Se alguém fizesse isso, travaria a internet em todo o mundo. Contando assim não tem graça, mas a cena toda foi divertidíssima. E hoje cedo, uma das primeiras coisas que fiz foi pesquisar “google” no Google, e com isso, para azar de vocês que conseguiram chegar também até aqui, bom, aqui estamos nós.

Depois disso, obrigado pela leitura, obrigado pela paciência e bom dia a todos.

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sexta-feira, janeiro 04, 2008

Férias...

O título original desse post era “Subprime – ela ainda vai mudar tua vida”.

Uma certa falta de tempo associada a uma certa dose de preguiça, levaram-me a não escrever sobre a dita cuja. Por algum motivo insondável, ao invés de deletar a página iniciada e não salva no word, preferi marcar as duas ou três linhas escritas e começar esse novo texto.

A princípio esse post seria para comunicar – como se isso tivesse alguma importância – que amanhã estarei em viagem para Santa Catarina, mais precisamente para a praia de Bombinhas, onde permanecerei por alguns dias, talvez oito, talvez doze, vamos ver quanto tempo agüentarei.

Levo livros, claro. Não achei minhas nadadeiras, mas achei minha máscara de mergulho e meu snorkel. Esse está ok, mas a máscara, coitada, não tem mais condições de uso. Fosse eu um cara previdente e já teria comprado uma máscara nova. Não sou, viajarei sem, confiante em comprar uma por lá mesmo.

Livros na praia? Claro! Não gosto de praia, eu gosto de água, gosto do mar, mas a praia em si não é do meu particular agrado, exceto por algumas meias-horas. Logo cedo, e à tardinha, e quanto menos gente na areia, melhor. São os horários bons para caminhar. Fora deles, é uma chateação. O sol, o calor, a areia que incomoda, o corpo melado, mesmo sem os “perfumados” protetores e bronzeadores... Não, obrigado, incluam-me fora dessas tribos arenícolas, por favor. Nesses horários, poderei ser encontrado na sala, deitado, lendo.

Vamos ver...

A Turma – Charles McCarry – o autor é um ex-agente da CIA e a história parece boa, um bom thriller para as férias.

O Balneário – Manuel Vazquez Montalbán – um pecado sua morte prematura, ele tinha muitos livros por escrever ainda, todos, de preferência, com o detetive Pepe Carvalho rodando por Barcelona e pelo mundo.

De costas para o mundo – Asne Seierstad – a mesma autora de “O livreiro de Cabul”. Esse livro é sobre a Iugoslávia e a Sérvia e a guerra e... Só espero que não me apareça um “Agora de frente para o mundo”, contestando-a, tal como foi contestada no “Eu sou o livreiro de Cabul”.

O legado da perda – Kiran Desai – é uma autora, é indiana, escreve uma história passada nos sopés do Himalaia, para onde um juiz indiano aposentado se retira. Leitura de férias? Pois é, talvez fosse melhor trocar pelo último John Grisham...

A dança dos deuses – Hilário Franco Júnior – o melhor livro sobre futebol lançado nos últimos tempos. Já li. Vou reler. Vou fazer anotações.

Fútbol y pátria – Pablo Alabarces – o autor é argentino e o subtítulo é “El fútbol y las narrativas de la nación en la Argentina”... Pareceu-me fascinante, comprei, só falta ler, agora.

Além desses livros, terei mais um à espera, presente de Natal atrasado que receberei ao vivo e, excelente, como surpresa. O título, não o presente.

Creio que serão suficientes. O mais provável é que volte com apenas dois terminados. Sabem como é, não dá pra ficar fechado na sala lendo todo o tempo desejável. É um jogo de buraco, é conversação fiada, é uma saída para jantar, essas coisas típicas de quem está em férias. Uma coisa, porém, é certa: se viajar sem livros eu surto, simplesmente. Não há chance.

Há outros livros para levar e ler, mas os dois que mais me interessam não combinam com o local e o clima: “Ulisses”, na nova tradução que os críticos juram ser mais agradável e legível que a de Houaiss, e “Em busca do tempo perdido”, há anos na estante esperando... esperando... esperando... Um dia lerei, já prometi a mim mesmo. Indoutrodia, o Jabor disse ter relido e ter sido, uma vez mais, uma experiência arrebatadora, devastadora, não sei mais o que. Bom, não vejo a hora de viver tudo isso. Quem sabe no próximo inverno?

Em horas como essa é que um notebook faz falta. Com certeza terei vontade de escrever, com certeza textos incríveis passarão por minha cabeça, mas, também com certeza, perder-se-ão nas brumas da memória sem chegar aos dedos e destes ao word.

Por enquanto, é isso.

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segunda-feira, dezembro 31, 2007

Brasilidades de fim de ano antes que o ano acabe


Pequenos tópicos, sem profundidade, captados aqui e ali pela imprensa nos últimos sessenta, oitenta dias. Aumentar essa colheita para todo o ano, bem como fazê-la com um olhar mais atento que um mero olhar crônico, seria impossível para um mero ser humano como eu. Fica, então, só essa colheitinha, uma pequena amostra...


- Para acabar com o caos aéreo...

O governo e a ANAC (que é, mas não deveria ser governo) vão aumentar as tarifas de Congonhas. A proposta é dobrar o valor da taxa de embarque para o passageiro e multiplicar por doze – repito: doze – os custos das empresas para operarem em Congonhas, custos que, naturalmente, serão incorporados às passagens aéreas dos... passageiros, os mesmos que terão a taxa de embarque multiplicada por dois. Essa tática é velha: acabe com a doença, mate o doente.


- Um choque de eficiência

A cada trimestre, todo trimestre...

A cada semestre, todo semestre...

A cada ano, todo santo ano...

A mesma história e as mesmas manchetes se repetem nos últimos anos: crescimentos assombrosos nos lucros do Bradesco, do Itaú & Cia. Bella. Números espantosos, tão portentosos que até fariam corar velhos barões capitalistas e reis da banca, como os Rothschild, Morgan e Rockfeller, entre outros.

Quebrando essa mesmice chata, repetitiva, sem graça, a Caixa (a Federal, claro), anunciou um baita prejuízo no penúltimo trimestre de 2007.

Coisa de gênios, sem a menor dúvida.

Se bem que a explicação foi boa: gastos com pessoal.

Ah, entendi...



- Minério vai por nada e vagões vêm por pouco, mas muito mais

A Vale vai comprar 10.000 vagões ferroviários.

Alvoroço no mercado.

Mas a Vale não joga dinheiro fora e quer preços competitivos da indústria nacional.

Competitivos com a indústria chinesa de vagões.

As empresas brasileiras chiam, em parte com razão.

As empresas chinesas pensam em comprar mais ferro do Brasil.

Sim, vendemos minério de ferro para a China. O frete Tubarão/Xangai é mais caro que o custo do minério.

Os chineses usam o minério brasileiro, fazem chapas de aço e outras coisas, e com elas fabricam vagões ferroviários.

Embarcam esses vagões em grandes navios até os portos de Tubarão e Itaqui, onde eles chegam muito mais barato que os vagões fabricados aqui mesmo.

A diferença maior, entre outras, é que os vagões chineses chegam vazios aos portos tupiniquins, ao passo que os vagões brasilianos chegam carregados...

De impostos.


- Criar boi para importar sapato

A Europa e o mundo curvam-se diante de nossa criação de bois.

Menos a China e os chineses.

Eles compram o couro de nossos bois, já curtidos.

O processo de curtição é muito ruim, fedido e poluente, e é feito todo aqui.

Eles cortam e recortam e moldam os pedaços de couro.

Fazem um, dois, dez, cem, trocentos mil pares de calçados diversos.

Colocam-nos em grandes containers, que vão para grandes navios, que trazem-nos para o Brasil, terra do couro.

Dos navios para as lojas a preço de banana.

Nos últimos anos, a indústria calçadista fechou, encerrou, eliminou, deletou, mais de trinta mil vagas nas indústrias de calçados no interior paulista e gaúcho.

Nada como ser malandro, é o que eu sempre digo.


- As chuvas chegaram!

Mas não o socorro para as vítimas da seca.

Uma parte do sertão do Piauí vem sofrendo barbaramente com a seca inclemente.

Há cinco meses foi aprovada, depois de muitas delongas e muito nhenhenhém, uma verba de 3,2 milhões de reais – é, esse miserê mesmo, coisa de dez por cento ou menos de um único mês de mensalão – para reativar cem poços artesianos e pagar o transporte de água em caminhões-pipa.

Tudo isso coisa para gente pobre, ou melhor, miserável, aquelas pessoas que deram seus votos... Bom, deixa pra lá.

Cinco meses...

A verba ainda dorme nos cofres federais.

As chuvas, felizmente, chegaram ao sertão.

Em novembro ainda era pouca a chuva e a verba fazia-se necessária.

Tem-se notícias de mais chuvas, mas não se tem notícias da liberação real e verdadeira dos míseros três milhões e duzentos mil.


- A vanguarda do atraso

Sob esse título milhões de coisas podem ser descritas e escritas, no Brasil e em toda a América Latina.

Todo governador tupiniquim quer porque quer indústrias em seu estado. Não importa qual seja o estado, não importa qual seja a indústria.

Há que ter indústrias.

Há que ter progresso.

Há que ter riquezas.

Há que ter, sobretudo, os muitos empregos que uma indústria gera.

A CAOA, grupo tupiniquim, é dona da fábrica Hyundai em Anápolis, cidade entre Brasília e Goiânia, que abriga a mais importante base aérea do país, de onde decolavam, antes de virarem sucata, os Mirage do Grupo de Caça da FAB.

A CAOA vai investir cem milhões de dólares na fábrica de Anápolis em 2008.

A CAOA vai comprar cem milhões de dólares em robôs, para uso na linha de montagem.

Depois todo mundo critica as usinas de açúcar que fazem colheita mecânica da cana, porque acabam com o “emprego” de milhares de brasileiros.

Nada como ter perspectiva.


- Meia volta, volver!

lulla da Silva mudou o discurso.

Depois de empurrar goela abaixo as usinas do Madeira e a transposição das águas do São Francisco, ele agora promete para 2008 nova e rigorosa lei de proteção ambiental, etc e tal.

Enquanto seus projetos faraônicos eram bombardeados por conta dos imensos – e não solucionados riscos ambientais – ele dizia que o progresso não podia ser detido por causa dos “bagres” de um rio. Dizia, também, que sete ou nove ou dez ou doze milhões de pessoas (os números sempre variaram de acordo com o humor) não poderiam morrer de sede enquanto as águas do Velho Chico corriam sem uso ali “por perto”.

Agora, com as pirâmides, digo, usinas e transposição já em construção ou prestes a começar, viva o ambiente, viva a preservação do que temos e do futuro que precisamos.


Chega! Daqui a pouco será hora de abrir champagne, prosecco ou um simples lambrusco, para não dizer uma ainda mais simples cidra, e bebemorar a passagem de 2007 para 2008.

Para que pensar em brasilidades?

Tenho que pensar na compra de um carrinho básico e nas 99 prestações do bichinho.


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Muito obrigado


Escrever é tarefa que dá muito prazer e traz, também, muito prazer.


Bom, nem sempre, é verdade. Vez ou outra algum espírito de porco – nada a ver com os torcedores palestrinos, é só a velha expressão popular – aparece e perturba, irrita, até. Não faz mal, entretanto. É baixo preço a pagar pelo muito que tantos outros outros espíritos alegres, inteligentes, agradáveis, proporcionam.




Nesse ano de 2007 o Um Olhar Crônico ficou um tanto abandonado. Espero corrigir isso em 2008. Acreditem, não foi por falta de vontade. Não chegou a ser por falta de tempo em parte desse ano tão veloz. Foi mais por falta de inspiração, mesmo. Outro tanto foi por achar melhor deletar textos que saíram raivosos, chatos, cheios de reclamações, com muita escuridão e pouca luz. É, teve disso, também. Em quase metade do ano a seca detonou, deletou meu humor. Tudo fica melhor quando chove, mesmo com esse calorão brabo.

Em 2007 escrevi muito mais no Olhar Crônico Esportivo, invertendo a ordem como vinham as coisas. Falar futebol em si não é minha praia, confesso. Como já escrevi inclusive no meu perfil, há muito mais gente capacitada, muito melhor capacitada para isso do que eu. Acabei dando maior importância ao que o Marcelo Damato denominou “extracampo”. É bem por aí. Sou mais atraído pelos bastidores, pelos números, pelos planos, do que propriamente pelas jogadas, pelos esquemas táticos, pelas eternas discussões em torno da bola de fulano ou beltrano. A bola, qualquer que seja, qualquer que seja o modo como é jogada, é mais e mais fruto dos bastidores. Tudo que acontece no campo é cada dia mais ditado pelo que acontece extracampo. Essa é a minha praia, não que eu nade bem nela, mas é a minha praia preferencial.

Os blogs fecham 2007 com a média de mais de 8.000 visitas por mês, um número que me enche de orgulho. Negar, seria tolice e presunção. No decorrer do ano, percebi que minha relação com os dois blogs mudou, na verdade, está mudando.

Não abro mão de escrever somente o que penso, mesmo que isso signifique remar na contramão de alguma maioria.

Não abro mão de parecer contraditório e – por que não? – de ser contraditório, mesmo. Tanto posso elogiar Lula, como criticar lulla da Silva. Infelizmente, para todos nós, acho que mais critiquei lulla da Silva do que elogiei Lula. Lamento, mas a culpa por esse desequilíbio não é minha.

Tenho medo das verdades únicas, fundamentalistas. George Bush é assim, Khomeini também era. Assim também o são muitos militantes de muitos partidos políticos, inclusive um tupiniquim.

Sou fundamentalista numa coisa e dela não abro mão: a defesa da democracia. Porém, como a democracia é o oposto do fundamentalismo, ao defendê-la encarniçadamente não sou fundamentalista. Sou apenas um democrata.

Alonguei-me, pra variar.


Muito obrigado pela amizade, pela presença, pelas palavras, pelo incentivo que vocês me deram.



Que 2008 seja um ano melhor do que foi 2007 para todos nós e para esse imenso bananal que todos amamos e gostamos de chamar de Brasil.


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quinta-feira, dezembro 27, 2007

Cunha, belezas e feiúra

(Esse post repete, um pouco, o de 5 de agosto de 2007. )




A igreja é antiga, as datas na torre contam um pouco de uma história que começou no século XVIII, ainda.

O café ainda não era uma realidade, sequer conhecido era. Algumas décadas passariam até sua chegada aos morros do Vale.





Com o café veio o dinheiro farto, abundante.
Todo mundo enricou.
Não, Cunha e o Vale do Paraíba estão no Brasil, portanto, alguns poucos enricaram.
Belas casas, belas sedes de fazendas, belas igrejas foram alguns dos resultados do dinheiro do café.



A nova face da igreja combina com os novos tempos de Cunha: beleza nas construções, combinando com a paisagem, trazendo os turistas das grandes cidades.




O céu do inverno seco, do qual o ipê é testemunha, fecha o pacote de uma das muitas belezas de Cunha.



Aqui já teve café.

Antes, porém, era tudo mata, Mata Atlântica.

Foi derrubada e queimada e o café foi plantado.


O café exauriu esses morros e em seu lugar vieram pastos, cada vez mais fracos, cada vez sustentando menos gado, cada vez mandando mais terra para os cursos d'água nas enxurradas.

Essa é a herança triste e empobrecedora do café.

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Caos – s.m.


... 3 – mistura de coisas em total desequilíbrio; desarrumação, confusão.

Assim define, entre outras, o Houaiss. Eu, particularmente, gosto de “total desequilíbrio”, pois é a definição que melhor se aplica, em todos os sentidos, à cidade de São Paulo e, particularmente, ao seu trânsito e ao número de veículos que ela abriga. Nesse ano que ora termina, a megalópole cresceu a bagatela de 330.000 novos veículos em sua frota. Deslocar-se de carro por suas ruas e avenidas não é aventura, é suplício, é tormento, é provação.

São Paulo hoje tem menos de dois habitantes para cada veículo registrado. Antes de ser prova de riqueza, é prova de burrice extremada, desleixo e desespero. A burrice extrema e o desleixo idem referem-se às autoridades de anteontem, ontem, hoje e, com certeza, amanhã. O desespero fica por conta dos paulistanos que só enxergam no carro próprio um meio relativamente decente, menos desconfortável e menos inseguro para se locomover.

Enquanto a cidade cresce 330.000 veículos, seu sistema viário não deve ter aumentado nem 10.000 metros. Aliás, o ideal seria até o oposto, que parte do sistema viário revertesse à condição de solo coberto por vegetação pura e simplesmente. Como isso é utópico, resta uma obviedade: se os locais por onde os carros trafegam não aumentam, e como o número de carros aumenta, e aumenta muito, teremos mais carros ao mesmo tempo nos mesmos lugares, resultando em congestionamentos mais e mais monstruosos e uma situação ainda mais caótica.

A prefeitura já pensa em ampliar a restrição de circulação de veículos, que hoje proíbe o trânsito de dois finais de placa a cada um dos dias úteis da semana. A hipótese que se considera, agora, é simplesmente mais que dobrar essa restrição, permitindo a circulação de placas com final ímpar num dia e final par no outro, alternadamente. Duvido que isso vá resultar em grandes benefícios. A única chance de realmente melhorar a situação, deixá-la mais próxima de algo com cara civilizada, é criar uma situação em que os próprios donos de veículos convençam-se que é melhor usar um meio de transporte coletivo para seus deslocamentos.

Utopia...

Vida longa ao caos. Não que eu deseje, mas é o que teremos.


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sábado, dezembro 22, 2007

Friozinho gostoso... Começou o verão


Tenho uma vaga lembrança de frio e desconforto, depois mexe e remexe até encontrar a coberta, o calor, o conforto e o sono de volta. Um pouco mais tarde, meio acordado, meio sonolento ainda, deixei a cama com alguma má vontade, recordando mal e mal o frio da madrugada. Enquanto pegava uma blusa, pensei que estava tudo maluco, afinal, como pensar em aquecimento global com esse frio, ou quase isso, em dezembro, na antevéspera da véspera de Natal? Claro, em Nova York e em Zurich está frio. Também em Madrid e Londres, Paris e Berlim, sem falar da gélida Moscou, mas por lá está tudo certo, o outono está passando o bastão para o inverno, o General Inverno que ajudou os russos a derrotarem as tropas de Napoleão e Hitler. Aqui, todavia, é a primavera que passa o bastão para o verão. Curiosamente, isso aconteceu justamente nessa madrugada, às 04:08, mais ou menos no horário em que acordei com frio e me cobri. Estamos, nós e o tempo, meio fora de prumo e rumo.

Justamente esse estar fora da condição normal, levou-me a beber, satisfeito, umas taças de vinho tinto durante a semana. Esse frio extemporâneo deixa as noites mais gostosas e as manhãs estimulantes. Esquenta, é claro, durante o dia, mas nada como um bom frio matinal, um bom friozinho, como agora, que serve para aumentar a disposição de fazer coisas, além da vontade de tomar mais café. O café-com-leite e o pão com manteiga ficam mais saborosos e criam um dos grandes momentos desses dias. A bebida quente, antes de alimentar, aquece e desperta, aumenta o prazer. No meio da manhã, a xícara de café quente, recém feito, melhora o dia ainda mais.

Não sou somente eu que aprecio o frio, longe disso. Os cachorros também gostam muito desse tempo e dormem preguiçosamente, aproveitando as manhãs. Só quando o sol já apareceu e esquentou o gramado é que eles deixam suas camas e vão se esticar sobre a grama, espreguiçando gostosamente.

O frio dá prazer.

Felizmente, porém, seus dias estão contados. O calor vem vindo e chegará com força total. Embora não seja do meu particular agrado, é do agrado e necessidade das plantas e dos animais. Os pastos crescerão mais depressa, estimulados pela combinação de chuvas, luz e calor, assim como as lavouras todas. A terra, uma vez mais, estará dando o melhor de si para mantermos nossas vidas e – por que não dizer? – nossos estilos de vida.

Mesmo não sendo um grande apreciador do calor, aproveitarei bastante algumas de suas comodidades, principalmente durante os vindouros dias praianos de janeiro em Santa Catarina, onde as águas ainda estarão meio frias, mas nem por isso menos gostosas.

Afinal, o calor também dá prazer. Mas ainda prefiro esse friozinho gostoso.


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