sexta-feira, novembro 09, 2007

Reunião de Cúpula em Washington

(Ou: uma obra de ficção política. Ficção? Tem certeza?)

Washington, DC, um dia qualquer de janeiro de 2012. Na sala da direção de tv lotada com equipamentos eletrônicos, o clima é de tensão e nervosismo. O diretor de tv repete a mesma pergunta a cada dez minutos.

- Onde está o avião da comitiva brasileira? A nevasca está se aproximando e se demorar muito vão ter que desviar para o sul e a reunião de cúpula será um fracasso.

- Calma, Doug, os caras da Força Aérea disseram que está a quinze minutos de vôo, agora. Relaxa, cara, relaxa.

As telas mostram a chegada há uma hora da Presidente Hillary Clinton, ou simplesmente Presidente Hillary, como prefere ser chamada. Deve ter lá seus motivos para essa quebra da tradição, do protocolo e da educação. Apesar do frio e do vento, ela dirigiu-se à pista e recebeu com um caloroso abraço a presidente da Argentina, Dona Cristina, recém-reeleita para mais quatro anos. As duas mulheres dirigiram-se apressadamente para o salão do Aeroporto especialmente preparado para a ocasião. Agora, as câmeras mostravam os diversos grupos espalhados pelo salão em animadas conversas. A roda mais numerosa reunia os primeiros-cavalheiros dos Estados Unidos e da Argentina. Os outrora poderosos presidentes ocupavam agora papéis secundários, apesar dos esforços do Senhor Kirchner em aparecer ao lado e um pouco atrás de sua esposa em todas as solenidades. O comentário geral em Buenos Aires era de isso já era parte de sua campanha para suceder a esposa. Curiosamente, a menor rodinha era formada por apenas duas pessoas, coincidentemente as mais poderosas em seus respectivos países.

- Pombas, mas por que esse avião atrasou tanto? O que foi que houve? O protocolo, as agendas, os horários, tá tudo quebrado, detonado, tudo terá que ser refeito.

- A CIA disse que o atraso foi porque Mr. Lula estava reunido com seu amigo Ricardo Teixeira, aquele que manda em tudo por lá, no Comitê Brasil 2014.

- Mas a Dona Marisa Letícia não alertou-o para o horário?

- Olha, os informes da CIA dizem que ela perdeu poder sobre ele. Agora ele vive mais para essa Copa do que para Brasília e os interesses do Brasil.

- My God...

- Três minutos para o pouso! – o alerta veio do fundo, do rapazinho sardento com um comunicador digital ligando a boca à orelha ou vice-versa. Não importava, o bom é que o negócio funcionava.

Doug olhou para o lado ao ouvir um resmungo. Era o coronel da Força Aérea encarregado de supervisionar o pouso do avião presidencial brasileiro. Percebendo o olhar, o coronel virou-se para ele e começou a reclamar.

- Veja só, um Airbus, uma droga dum avião europeu comprado com o dinheiro que pagamos para eles pelo álcool e pelo café. Deveriam ter tido a decência de comprar um Boeing.

Sem vontade para responder Doug acenou, um gesto que poderia significar qualquer coisa, da concordância total à desconcordância absoluta. Não tinha mais paciência para ouvir as eternas reclamações fardadas.

O avião taxiou e dirigiu-se para a frente da torre. O piloto parou o monstrengo voador exatamente no tapete vermelho parcialmente coberto pela neve. Rapidamente, a porta do aparelho foi aberta e dois agentes da segurança presidencial brasileira apareceram, olhando para tudo. Enquanto um permaneceu ao lado da porta, exposto ao vento ártico, o outro desceu e encontrou-se com seu colega americano, mergulhando em tão profundas quanto desnecessárias conversas sobre a segurança da comitiva.

Um rápido olhar da comissária-chefe, que encostou-se à fuselagem, dando passagem para a Presidente do Brasil, Dona Marisa Letícia. Nesse momento, a banda do Corpo de Fuzileiros Navais começou a executar “Aquarela do Brasil”. Dona Marisa Letícia tinha feito questão de ser recebida com toda a pompa e circunstância a que tinha direito. No pé da escada, as duas presidentes dos dois maiores países das Américas encontraram-se, trocando um abraço e beijos nos rostos. Com aquele vento gelado e os flocos de neve essa não era uma boa idéia, mas,costumes são costumes, e se os brasileiros gostam de se beijar, beije-se, então.

O primeiro-cavalheiro desceu logo depois e trocou demorado e efusivo com Bill, o primeiro-cavalheiro americano. Conversando animadamente com um intérprete entre ambos, dirigiram-se para o salão atrás de suas presidenciais esposas.

Começava naquele momento, para valer, a Reunião de Cúpula das Américas. Em pauta, a invasão da Colômbia comandada pessoalmente por Hugo Chávez, Presidente e Protetor Eterno da República Bolivariana da Venezuela.

- Emerson, Emerson... Emerson... Emerson!

- Hummm? Que é, que foi?

- Levanta, você perdeu hora, já passa das oito.

- Saco!


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segunda-feira, novembro 05, 2007

Beija-flores: alimentar ou não?


(Há algum tempo vinha adiando a publicação desse post, até que recente comentário da Lilly fez-me ver que já era mais que hora.

Lilly, embora eu também não goste muito das garrafinhas, creio que é melhor enfatizar a necessidade dos cuidados diários que devem ser tomados por quem quiser mantê-las.)

Não vou nem discutir a beleza, graça e o prazer que proporciona a visão de um beija-flor se alimentando num bebedouro estrategicamente colocado numa varanda ou numa janela. Aliás, não se deve começar um texto com “não”. Bom, tem um monte de coisas que tampouco são recomendáveis, muito mais sérias que não começar um texto com “não”. Uma dessas coisas, sem dúvida, é pôr o bebedouro com água adoçada com açúcar ou dextrose e não cuidar dele da maneira correta.

O que é essa maneira correta?


Tesourão em flor de mini-grevilea, no Sítio das Macaúbas - Julho 2007.


Reconheço minha ignorância e busco o auxílio não dos “universitários”, mas de Johan e Christian Dalgas Frisch. O trecho que vem a seguir é a transcrição do que eles publicaram no belíssimo e extremamente útil “Jardim dos Beija-Flores”:

“O uso de bebedouros artificiais exige cuidados dos quais o amador de aves não pode descuidar, sob pena de infectar toda a população de beija-flores que freqüenta sua área. Em primeiro lugar, deve-se prestar especial atenção à mistura que será oferecida aos traquilídeos.

Renomadas organizações conservacionistas dos Estados Unidos recomendam a seguinte fórmula: uma parte de açúcar refinado para cada quatro partes de água. Ferve-se a água, adiciona-se o açúcar, espera-se que dissolva completamente e deixa-se esfriar. A mistura deve ser guardada no refrigerador para evitar a fermentação do néctar. A adição de quaisquer outras substancias, como o mel, por exemplo, pode provocar a proliferação de um fungo que infecta o aparelho bucal dos beija-flores e causa morte por asfixia.

Pronto para matar a fome e a sede - bebedouro na chácara dos meus sogros, em Santa Rita do Passa Quatro. Esse pequeno é "invasor", pois quem manda nesse bebedouro é um tesourão.


A higienização dos bebedouros é fundamental para garantir a saúde das aves, já que os fungos se formam em frascos sujos (desenvolvem, ao invés de formam, é mais correto; nota do blog). A água com açúcar deve ser trocada diariamente, para evitar fermentação. Pelo menos duas vezes por semana deve-se colocar as garrafinhas em um balde com água e cândida, para desinfectá-las.

... Tão logo as aves estejam acostumadas com eles (os bebedouros), não se deve mudá-los de lugar. Há tipos de colibris bastante territoriais, que defendem a área bravamente contra representantes da mesma espécie ou outros congêneres, as flores ou o frasco onde estão acostumados a se alimentar. Assim sendo, cada garrafa é verdadeira “propriedade particular” de determinados beija-flores e modificações no seu posicionamento desencadeiam verdadeiras guerras pela posse do espaço vital bruscamente alterado.”

Animais, todos eles, têm amor à rotina. Felicidade é um dia igual ao outro todo dia, ou seja, comida e água à vontade todo dia no mesmo lugar e horário. Colibris não exceções a essa regra, portanto, colocar um bebedouro implica em assumir e manter um compromisso extremamente sério, pois a estabilidade de uma população é sempre definida, em primeiro lugar, pela estabilidade do fornecimento de alimentos de qualidade.

Em Santa Rita do Passa Quatro, minha sogra e meu sogro têm um bebedouro há muitos anos. Mas eles são extremamente “caxias” e cumprem rigorosamente a rotina – frequentemente, no verão, mais de uma vez ao dia – de lavar e abastecer o bebedouro; e lavagem séria, bem feita, e duas ou até três vezes por semana com “banho” em água misturada com água sanitária.

O bebedouro é palco de incontáveis visitas e, naturalmente, brigas diárias. As visitas não se resumem a três ou quatro diferentes beija-flores, mas incluem, também, as cambacicas. Outro cuidado que eles têm é a manutenção de várias plantas com flores do agrado dos bichinhos, principalmente arbustos de camarão.

Eu, particularmente, não sou muito adepto das garrafinhas, e prefiro o plantio de vegetais cujas flores sejam fontes de alimento pelos beija-flores. Temos várias espécies já plantadas no sítio, desde a russélia e o camarão,

Tesourão em flores de russelia, a cerca de 50 centímetros do chão - Sítio das Macaúbas - Julho 2007.


até os ipês e patas-de-vaca, passando pelas mini-grevíleas e diademas, fora as plantas nativas que surgem do nada, como o cipó-de-são-joão e os maracujazeiros nas bordas da matinha. Um plantio de espécies úteis a eles, é muito mais gratificante do que a garrafinha e, por incrível que pareça, dá menos trabalho, e esse pouco de trabalho pode ser muito gratificante. Muitas plantas nem precisam da terra de um jardim e dão-se muito bem em bancadas e vasos, como a russelia e o camarão.

Fornecer alimento a um ou mais animais implica em compromisso. Muitas vezes quem faz isso não entende que está interferindo no curso normal da natureza e que se retirar essa oferta de alimentos, vai interferir ainda mais. Portanto, se possível, ofereça mais flores e menos água com açúcar. Se possível, mesmo fornecendo a água como se deve, não deixe de plantar espécies que alimentem esses pequenos e lindos seres voadores.

Beija-flor em eritrina ou suinã-do-litoral, em alameda na Fazendinha - setembro/2007.


(As fotos desse post foram feitas pelo autor no Sítio das Macaúbas ou nas ruas e alamedas na Granja Viana e na Fazendinha, no município de Carapicuíba, Grande São Paulo.)

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Cuidado! Capivara



A Marginal Pinheiros tem duas situações: parada ou com o trânsito em alta velocidade, alta intensidade, alto número de veículos. Muitos motoristas nunca devem ter reparado nas placas que o pessoal do Projeto Pomar, que fez um belíssimo trabalho de formação de pequenos maciços de árvores e arbustos ao longo de toda a Marginal, colocou para orientação dos motoristas que utilizam a estrada de serviço, e terra, que acompanha o rio.



O trânsito parado permite o tempo de uma rápida olhada, com o capim entre os motoristas e a placa.



Ao fundo, na outra margem, o complexo de prédios do World Trade Center, sede de empresas hightech, como Microsoft e Monsanto, entre muitas outras. Entre a placa e os cérebros, o rio poluído, os trilhos da CPTM, a outra pista da Marginal...
Mundos muito distintos.



Outro dia vi um filhote de capivara. Estava deitado ao lado de um arbusto, tranquilo, talvez pensando na vida ou na morte da bezerra, ser que ele nunca viu e só deve conhecer de ouvir dizer. Vi de relance, o trânsito, aleluia, andava e andava bem.

Elas estão por ali e em outros pontos da Marginal. Bichinhos resistentes, vamos falar a verdade. Mas com algum gosto, afinal, moram ao lado dos metros quadrados que estão entre os mais caros e descolados de Latino América.



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sexta-feira, novembro 02, 2007

Cambacica


Essa simpática figura se alimentando numa flor de eritrina, também costuma visitar os bebedouros para beija-flores.
As duas espécies não se bicam, nos dois sentidos: não são
"amiguinhas", mas tampouco se atracam em brigas ferozes. Apenas convivem na mesma área, visitando as mesmas flores, suportando-se uma à outra.


É a cambacica. Não sei, ainda, porque cargas-d'água, seu outro nome popular é caga-sebo. Se bem que essa história de nome popular está virando lenda. A maioria das pessoas, hoje, desconhece o nome de quase todos os pássaros. Alguns, mais "informados", ainda conhecem as pombas e os pardais, e acho que pára por aí.
Uma pena, pois conhecer é fundamental para preservar.
Ninguém preserva o que não conhece.





A cambacica é outra habitante aqui da Granja Viana e também lá do sítio.



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quarta-feira, outubro 31, 2007

País engraçado


Com esse título acima já fica claro ao leitor e à leitora desse blog que não vou falar sobre a Suíça. Tampouco irei falar sobre o Canadá, Islândia, Suécia ou Noruega. São países chatos, falemos a verdade. Tudo funciona e, geralmente, funciona bem. O povo é saudável e educado, etc e tal, e, em lugares assim, é difícil achar coisas engraçadas. Preconceito? É, talvez, um pouco, um pouquinho só.

País engraçado poderia ser a América, digo, os Estados Unidos da América, mas, sei lá, com essa atual elite dirigente pode-se chamar os USA de qualquer coisa, menos de engraçado.

Itália! Sim, a Itália é engraçada, coisa que outros latinos como a França, Espanha e Portugal não são. São muito sérios, muito empolados, muito cheios de si, enfim, não são engraçados. Alemanha? Hahahahaha... Engraçado é alguém pensar que a Germânia possa ser engraçada. Ah, a Inglaterra, sim, a “velha e pérfida Albion”, essa é engraçada. Um humor oposto ao italiano, mas humor. Mas tampouco falarei desses dois. Agora já deve ter ficado claro que eu, logicamente, vou falar do mais engraçado de todos os países: o Brasil.

O Brasil é tão engraçado que não duvido nem um pouco que nossa primeira-dama lance-se candidata à sucessão do maridão. Se Dona Cristina fez isso na terra dos hermanos ao sul, que na média são mais educados e politizados que nós, por que não Dona Marisa Letícia para Presidenta? O problema seria o que fazer com o primeiro-marido, ou primeiro-cavalheiro da República. Essa questão paralisaria por meses os já paralisados trabalhos do Congresso Nacional. Pergunto-me se o primeiro-cavalheiro viraria papagaio-de-pirata da esposa, reproduzindo o que ela mesma faz hoje com ele, talvez, como aventei há pouco tempo, já em campanha pela sucessão.

O cúmulo da graça tupiniquim seria a reeleição de Dona Marisa Letícia em 2014, ano da Copa no Brasil. E, por que não, com os fantásticos avanços da medicina, em especial na geriatria, lulla da Silva poderia, constitucionalmente, voltar à doce presidência em 2018, com perspectivas de ali permanecer até 2026. O cúmulo da (des)graça, sem dúvida.

Todavia, sendo o Brasil tão engraçado como é, por que não? Inclusive, cúmulo da graça, teríamos como mandatária suprema da nação uma cidadã italiana e os primeiros-filhos seriam,também, cidadãos italianos. Na falta de um povo do primeiro-mundo, teríamos dirigentes do primeiro mundo de carteirinha e tudo.

Crise moral

Estou morrendo de vontade de ler a edição da revista masculina que estampou em sua capa e páginas internas aquela senhora, teúda e manteúda de alto mandatário republicano. O problema é que sou um cara de poucos, mas firmes princípios. E não vou gastar um centavo dos meus já parcos para engordar a já muito gorda conta dessa distinta senhora, da qual, por sinal, nada quero ver, mas que percebe-se, de gorda nada tem, exceto a conta bancária.

Ué, então por que você quer a revista? – pergunta o leitor curioso e a leitora indignada.

Simples, estimada leitora preocupada com minha moral.

Simples, estimado leitor, descrente de meus princípios.

O que me interessa nessa revista são... as entrevistas.

O pior vem agora: podem acreditar, o que digo é vero, é veríssimo.

É fácil entender o porque: dois de meus ídolos estão nas páginas da tal revista masculina, na mesma edição, em duas entrevistas supimpas.

Uma, muito curta, com o técnico do São Paulo, Muricy Ramalho. Meu ídolo.

Outra, a maior, com meu ídolo e leitura obrigatória todo sábado na Veja:

Diogo Mainardi.

Fui cortar o cabelo na sexta-feira. O barbeiro, cujo nome ainda não gravei, discretamente tirou uma revista da gaveta e estendeu-a para mim.

Oba! Era a tal revista.

Ah, não era... Era o número anterior, com uma starlet qualquer, mais uma daquelas que se formou na faculdade de reality show. Nem abri, devolvia, e pedi uma “Caras”. Como disse, eu sou um cara de princípios, e a rápida vista-d’olhos pela “Caras”, além de nesse caso preservar meus princípios, coloca-me em dia com todas as fofocas do mundo das personalidades. Foi assim que descobri que essa revista “tem” um castelo na Toscana, com vinhedo próprio e tudo. Um castelo de verdade e meio velhusco, pelo que pude ver nas fotos, onde um casal – ele ator famoso, ela cantora desconhecida – passeia pelo vinhedo e enche uma cesta de palha com cachos de uva. Puxa, se a revista fosse minha eu recortaria a foto maior dos dois com as uvas e fazia um quadrinho, pra pregar na parede.

Agora, nobres leitores, estou já pensando em como e no que fazer que justifique um convite de “Caras” para alguns dias num castelo toscano.

Enfim, preservei meus firmes princípios e não contribuí pro caixa da teúda e manteúda republicana. Fiquei em dia com as fofocas do mundo do beautiful people tupiniquim e, fantástico, descobri um castelo, descoberta que vai exigir desse pobre escriba a dura labuta de lançar um livro, aparecer no Jô e aí, quem sabe, receber o convite para alguns dias no castelo toscano em meio às vinhas. Mais que isso, só dois disso, nesse país realmente engraçado.


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segunda-feira, outubro 29, 2007

Cenas da Granja Viana e um Sabiá cantando

Primeiro o vídeo com o canto...
Depois a foto do cantor e mais algumas.









Esse é o cantor, um sabiá. Pensei que fosse o poca, mas não é, talvez seja o una.


Um dos nossos visitantes habituais. Essa árvore fica a poucos metros das janelas do lado direito de casa. Os visitantes gostam de banana e mamão, principalmente. Nesse dia, para fotografar, joguei banana sobre o teto do nosso vizinho, mas normalmente colocamos as frutas nas árvores.





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domingo, outubro 28, 2007

O sumiço dos colibris

A primavera já termina seu primeiro terço e as chuvas chegaram. Apesar disso, na caminhada de hoje, retomada depois de algum tempo de ausência, não vi nenhum beija-flor e por um motivo simples: não há flores nesse trecho.

O inverno, curiosamente, é rico em floradas: temos os ipês, as bauínias – a branca, nativa, que é a pata-de-vaca, e a lilás, exótica e prima-irmã -, o cipó-de-são-joão, a eritrina – que permite fotos belíssimas dos beija-flores com suas árvores sem folhas – e mais a diadema, as caliandras e muitas outras mais, tanto árvores como arbustos e cipós. Com a chegada da primavera, vão-se as flores e vêm as folhas e os frutos. Sem aquelas, os beija-flores partem em busca de outros pastos. Aqui na Granja Viana devem encontrar floradas em meio aos pedaços de matas que ainda persistem entre casas e loteamentos.

Isso me leva a pensar que os paisagistas e jardineiros precisam ter uma visão mais abrangente e ecológica. Não basta, simplesmente, plantar determinado número de árvores, é importante que esse plantio seja feito com espécies adequadas, que propiciem alimentação às aves e mesmo às outras espécies que ainda habitam nossa região, como os sagüis, gambás, serelepes e outros pequenos mamíferos que conseguem sobreviver em meio ao que chamamos de civilização.

Para os beija-flores, por exemplo, é importante a presença de plantas florescendo por todo o ano, de forma mais ou menos equilibrada. Um excesso de floradas no inverno, seguida pela escassez na primavera e no verão, é péssimo para os colibris, força-os a deslocamentos nem sempre possíveis nesses dias de crescimento urbano acelerado. As plantas que deram alimento ontem, hoje podem estar tombadas no chão, picotadas, esperando o transporte para algum forno distante. Não custa relembrar que depois das flores vem os frutos, e esses vão alimentar outras espécies. Seria bom que o paisagismo mudasse um pouco, priorizasse menos a estética e contemplasse mais a diversidade e persistência. Isso é ótimo até mesmo em pequenos jardins, e em áreas maiores pode fazer toda a diferença para a manutenção de parte da fauna que ainda resiste.

Os tico-ticos estão entre os que resistem e fazem seus vôos curtos por toda parte. Pousam em galhos, mourões de cercas, muros, e seu canto, que me acompanha desde a primeira infância e primeiras memórias, faz a trilha sonora dominante da caminhada.


Inevitavelmente, penso na seca que ora termina, tarde demais, e penso na Califórnia. Mais de um milhão de desabrigados e desalojados devido aos incêndios. Que nada mais são que o corolário natural da seca persistente associada ao calor excessivo. As casas, bem ou mal, em sua maior parte seguradas, serão reconstruídas. Mas toda a vida animal e vegetal já foi extinta ou espantada. Com sorte, em quinze, vinte anos ela retorna. Ou não...

No sítio, o sol voltou pleno desde ontem. É hora de correr e adubar os piquetes e também o canavial, aproveitando a umidade. Mas olhar para o céu ainda é mandatório, pois choveu pouco e precisamos dela todo dia, de preferência, suave e persistente, molhadeira, criadeira.

Dia a dia, todo dia, toda hora, ou quase isso, por um motivo ou outro, meu pensamento é assaltado pelas lembranças e preocupações com o aquecimento global e o depauperamento de nossos bens mais preciosos, desde os gorilas no Congo até os sagüis aqui perto de casa, com seu habitat sendo tomado por novas e bonitas casas, aceleradamente.

Em algum momento futuro algo mais concreto que escrever, falar e plantar algumas dezenas de árvores será necessário. Por enquanto, o jeito é plantar mais e tentar reciclar o máximo de coisas que pudermos.

Bom domingo e boa semana a todos.


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Este é o primeiro – espero que de muitos – vídeo que posto no blog, e acabou sendo justamente desse personagenzinho pequeno e simpático, presença constante em minha vida, como já escrevi e me repito. Espero que dê certo e todos possam ver e ouvir sem problemas. Mais do que nunca, agradecerei os retornos a respeito, para saber se funciona ou não, se bem, mais ou menos ou mal. :o) ...


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terça-feira, outubro 23, 2007

Seca, calor, fogo...

Outubro está chegando ao final e as chuvas, a bem dizer, ainda não começaram. Esse ano está sendo tão seco e terrível como o de 2005.

No sítio está tudo seco, tudo – terra, plantas, animais – esperando ansiosamente pela água que cai do céu e renova vidas e esperanças.

Nossa situação, porém, não é tão grave como a dos californianos. Uma vez mais a seca, o calor, os ventos fortes e, com certeza, ações criminosas, levaram a mais de 80.000 hectares incendiados, com perdas de centenas de casas, dezenas de feridos e pelo menos uma morte. Mais de 250.000 pessoas abandonaram suas casas em virtude do alto risco de fogo.

O verão foi quente e seco e o outono não está trazendo alívio.

Por aqui, um outono com pouca chuva, inverno seco e a primavera começando seca e quente. As frentes frias que chegaram a São Paulo foram fracas e com pouca umidade. Olho esperançoso o ícone no alto do blog: informa previsão de 49 mm para amanhã, em Santa Rita do Passa Quatro. Tomara...

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domingo, outubro 14, 2007

Duas chegadas e um atraso


Finalmente, chegou o horário de verão oficial. Eu gosto dele, mesmo porque já estamos vivendo o horário de verão aqui em casa, e também no sítio, há um bom tempinho. A passarinhada ignora os relógios oficiais, não ligam para o Jornal Nacional, tampouco para a novela das oito, religiosamente às nove, toda noite, exceto aos domingos, quando, presume-se, descansam os atores e descansamos nós, embora o fantástico show da vida não seja muito chegado a descansos, nem mesmo os semanais. Pergunto-me por que cargas d’água ainda dizemos que a novela é das oito? Digressões filosóficas à parte, a passarinhada acorda e começa sua algazarra ainda antes dos primeiros raios do sol invadirem a cozinha.

A cachorrada não fica atrás e, se há luz, é hora do sagrado café-da-manhã, o pão com leite de todo dia. Para as vacas, é a hora de levantar, preguilçosamente, e esperar pela ordenha matinal, dando leite para os humanos e para os bezerros. Para os gatos, é chegada a hora de dormir, antes, porém, também eles têm direito ao café da manhã, no caso leite puro. Barriga cheia, ou mais cheia, é procurar a cama mais próxima para repor as energias gastas durante a noite de caça.

Os dias agora são mais longos, mas não são mais gostosos por causa disso. Não ainda, pois falta o essencial: a luz chegou, mas as chuvas estão atrasadas. De nada adianta esse mundo de luz sem água. É difícil, também, encontrar a beleza repousante de pastos e árvores verdes, plenos de vida, apesar da explosão de flores dos ipês brancos e rosas, dos jacarandás e várias outras árvores, uma mais bonita que a outra. Não adianta, mesmo que os olhos se concentrem na beleza das flores, outros sentidos apontam para a secura do ar, a poeira que as vacas levantam nos seus trilhos preferidos, e uma vaga sensação de inquietude, impaciência, ansiedade.

No tempo certo, já chegaram o primeiro chocotone e o primeiro panetone. Para mim, é o sinal que o ano terminou, daqui pra frente, agora, são apenas pequenos detalhes para fechar o calendário. 31 de dezembro está logo ali adiante, e com ele, o primeiro dia de um novo ano.

E nada das chuvas, só ameaças e pingos esparsos.

Um pouco como a tal da felicidade.

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sexta-feira, outubro 05, 2007

Uma viagem há trinta anos


Mais ou menos por esses dias completei 30 anos de minha primeira e inesquecível viagem para a região amazônica, se bem que o correto é dizer para uma das muitas regiões amazônicas, pois são muitas e diferentes as diversas Amazônias. Já naquela época existia a gritaria a respeito de queimadas na região, gritaria e queimadas que persistem até hoje, e cujos efeitos fazem-se sentir, menos o dos gritos, mais os das queimadas.

Fui para lá a convite de uma grande empresa multinacional que tinha comprado uma enorme fazenda para a criação de gado. Eram 140.000 hectares, ou 1.400 quilômetros quadrados (o município de São Paulo tem pouco menos de 1.600 quilômetros quadrados, para comparação), localizados na parte sul da floresta amazônica propriamente dita de terra firme.

O motivo da viagem para um grupo de jornalistas (eu, infelizmente, não era, mas fui como gerente da sucursal de uma revista agrícola de prestígio e levei comigo a jornalista que trabalhava para a revista em São Paulo) foi mostrar a fazenda e desmentir o noticiário que já tinha corrido o mundo meses atrás, dizendo que a empresa estava “queimando a Amazônia”.

Precisaria de muito tempo para escrever e muitas laudas para contar o que foi a viagem e seus diversos impactos sobre minha visão do Brasil, do futuro e do mundo. Naquele distante ano de 1977 eu era um idealista militante político de esquerda, frequentemente colocando a ação política acima de minhas obrigações familiares, mas nunca acima de minhas obrigações profissionais (triste, eu sei, mas só vim a reconhecer isso muito tempo depois, arrependendo-me de ter negligenciado a vida familiar em prol da política e da profissão, essa muito menos que aquela). A história completa talvez conte em outra hora.

O que causara as manchetes nos jornais europeus e americanos? Por que a gritaria ganhava foros tão amplos, 15 a 20 anos antes da globalização, internet, comunicações instantâneas entre as pessoas? As fotos feitas a 400 km da Terra pelo Skylab, um misto de estação espacial e satélite que fotografou as grandes queimadas, cobrindo áreas de milhares de quilômetros quadrados. Era tudo muito assustador. Muito mais do que a realidade. Na verdade, o que aparecia como grandes incêndios, era mais o aumento da temperatura a cobertura da camada de fumaça do que o incêndio, a queimada, propriamente dita. A tecnologia de sensoreamento remoto ainda apanhava um pouco na época, mas a tecnologia das manchetes catastróficas já era de pleno domínio por toda parte, desde sempre, aliás.

Curiosamente, ao chegar na fazenda, fui o único dos visitantes que aceitou sobrevoar toda a região num pequeno monomotor Cessna. Os demais passaram o dia desse vôo em agradável descanso na sede da fazenda. Interessante, esse fato, aprendi muito com ele.

Aprendi mais ainda com o vôo, não só por gostar e ter voado muitas horas, mas também por ter um domínio razoável de geografia e saber localizar-me com relativa precisão. Em dois sobrevôos, cobrimos todos os pontos cardeais da fazenda e seu entorno. Durante muito tempo nada vi embaixo da gente que não fosse o verde intenso e sem falhas da floresta. Mas vi, também, as áreas abertas naquela fazenda e nas vizinhas. Do ar e da chão.

No outro dia, andamos pela fazenda num veículo com tração nas quatro rodas. Novamente, a maioria do pessoal ficou pela sede e seus arredores, mas o meu interesse não era ver casas, escola, conversar com pessoas. Até vi e fiz tudo isso, mas rapidamente. O que eu queria, mesmo, era ver pasto, era ver mata, era ver as áreas em processo de abertura, era ver queimada. Vi tudo isso e mais: pegadas de onça numa picada nova, numa área que viria a ser queimada talvez no ano seguinte. Lembro com clareza da emoção que senti ao ver aquelas pegadas na terra vermelho-alaranjada exposta à luz depois de centenas, talvez milhares de anos coberta pela floresta.

Fui tomado por sentimentos contraditórios. De um lado, queria, como sempre quis e quero, a preservação integral e perpétua da floresta. Por outro lado, reconhecia, como reconheço, a necessidade de gerar riquezas, empregos, desenvolvimento, proporcionar vida decente para milhões de pessoas, coisas que, inevitavelmente, conflitam com conceitos como preservação absoluta, por exemplo. Seja aqui, seja na África, Ásia, Oceania, Sibéria, Antártica...

Aquela fazenda era vítima de uma gritaria desproporcionalmente alta em relação à realidade. De sua área total, ela podia, legalmente, desmatar 70.000 hectares, a metade. Todavia, o plano de ocupação e desenvolvimento da fazenda, ocuparia apenas 56.000 hectares, ou seja, os demais 14.000 seriam incorporados à área de preservação permanente. Até aquele momento, no quarto ou quinto ano de ocupação e formação da fazenda, um total de 40.000 hectares haviam sido queimados e preparados para o plantio de pastos. As queimadas eram feitas em áreas delimitadas e controladas, nunca passando de 500 hectares de cada vez, mas geralmente bem menos. Enfim, o diabo era feinho, mas infinitamente menos do que diziam ser.

Ah, sim, as pessoas, não falei delas, ainda.

Muita gente trabalhava na fazenda, a maioria, claro, pessoas ocupadas em trabalhos braçais ou de pequena especialização. Peões de obras, peões de fazenda, vaqueiros, eram a maioria. A empresa levou de São Paulo para lá, assistentes sociais para ensinar às pessoas coisas como o uso de banheiros, vale dizer, o uso das privadas com um luxo como água corrente. As mulheres eram ensinadas a usar... torneiras. Incrível, não? Mas, verdadeiro, eu vi e conversei com essas pessoas.

A molecada era um caso à parte. Na fazenda, todo mundo com menos de 16 anos de idade, estudava e não trabalhava. Algo impensável ainda hoje nos sertões do Brasil. A escola, única, era grande, confortável, janelas teladas, pé-direito alto, em pleno calorão amazônico as salas de aula eram frescas e confortáveis. As professoras, todas, eram recrutadas em São Paulo, donas de excelentes currículos, muito acima da média das professoras de escolas públicas e privadas da metrópole. Todo o material escolar, gratuito, ia de São Paulo para a fazenda. Isso me marcou, marcou muito, para sempre.

Fora tudo isso, o básico para uma comunidade: posto de saúde (muito bem equipado), um clube para o lazer dominical, igreja, templos, etc. Toda a área da sede era servida por energia elétrica, gerada por um “locomovel”, um gerador gigante com cara e jeito de locomotiva a vapor, alimentado pela madeira das áreas abertas para pasto. Funcionava das seis da manhã às dez da noite, para todos, sem exceção, inclusive o presidente mundial da empresa quando por lá passou e pernoitou.

Essas coisas todas somadas davam-me uma doce visão de um futuro possível. Pena que, ao olhar para o horizonte, via os penachos negros da fumaça de uma queimada.

Confesso que ainda não resolvi totalmente essa contradição entre desenvolvimento e preservação em minha cabeça, mas já adiantei bastante a resolução, e ela passa, obrigatoriamente, pelo máximo possível de preservação. Desde então, foram inúmeras minhas viagens pela Amazônia, nos seus mais diferentes pontos e cenários. Tenho claro que o ideal, hoje, seria uma parada total e permanente de qualquer nova abertura, de qualquer nova destruição de florestas, desejo, infelizmente, utópico e motivado, também, por um motivo egoísta, talvez, e que muita gente desconhece: o regime de chuvas do interior do estado de São Paulo, assim como parte do Paraná, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, é determinado pelos “rios voadores”, frentes úmidas que são formadas na Amazônia e empurradas para toda essa região pelas correntes atmosféricas. Chega a ser assustador descobrir esse fato e pensar no que ocorre hoje em toda a região amazônica.

Isso tudo seria uma introdução para falar sobre a expansão da lavoura de cana pela Amazônia, mas o que era introdução virou um texto com vida própria.

A conversa sobre a cana fica para depois.


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sábado, setembro 29, 2007

Ecos do passado


A troco de nada, a lembrança chegou em meio ao banho, momento, aliás, que já me proporcionou vários acessos de criatividade. Bom, pelo menos na minha opinião.

“As rosas desabrocham,

Com a luz do sol,

E a beleza da mulher,

Com o Creme Rugolllll...

Creme Rugollllll...

Creme Rugollllll...”

Depois do jingle, entrava a voz do locutor com um texto falando das vantagens e benefícios que o uso do creme trazia. Lembrança antiga, que vem dos anos cinqüenta, sessenta, quando ouvia esse e muitos outros “reclames” nos programas de rádio. Em termos de mídia era tudo que tínhamos, então. Nossa primeira televisão ainda demoraria alguns anos, e só chegaria em casa em meados dos anos sessenta. Antes disso, o jeito era ser televizinho, quando tínhamos a sorte de ter um vizinho bem de vida, já dono de um maravilhoso televisor, luxo de poucos naquele Brasil tão distante.

Na fazenda, trazida por algum viajante endinheirado, aparecia de vez em quando uma “Cruzeiro”, a grande revista do Brasil, vaga que foi ocupada, depois, pela Manchete e depois, e até hoje, pela Veja. Todas diferentes entre si, mas nenhuma alcançou o sucesso e penetração da “Cruzeiro”, que num país atrasado e periférico com cinqüenta milhões de habitantes, chegou a ter tiragem superior a dois milhões de exemplares. Proporcionalmente, hoje, uma revista teria de vender em bancas quase oito milhões de exemplares. Impensável.

Numa antiga revista encontrei minha primeira paixão. Pois é... Como era bonita! Não só ela, mas sua mãe também (sim, isso é o título de um filme, mas por mera coincidência). Mãe que mostrava a uma amiga e sua filha uma peça de roupa lavada com, hummmmmm, Rinso, talvez. Omo eu tenho certeza que não era. Paixão platônica, claro, de um garoto perdido numa fazenda distante quatorze horas de trem de São Paulo, a cidade grande, onde ela, quem sabe, morava. Isso se não morasse na mítica capital, em vias de deixar de ser, o Rio de Janeiro. Claramente, um amor fadado à não realização.

Como o país era diferente! Bom, que sei eu do país? Só conhecia Marília e São Paulo, onde ainda andávamos de bonde, do bairro para a cidade. Era assim que chamávamos o centro: cidade. Ainda hoje, muitas vezes, ainda nos referimos dessa forma ao Centro Velho e ao Novo.

E volta o mistério do porque eu fui lembrar do antigo jingle do Creme Rugol.

Vai saber...

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Preguiça sem culpa, que coisa boa


Bom demais...

Acordar na manhã de sábado com um friozinho gostoso e a garoa caindo.

Um dia sem cobrança, um dia que já nasce com justificativa para tudo, ou seja, perfeito para fazer nada. Ler o jornal com calma enquanto o café-da-manhã é apreciado lentamente. Ligar ou não ligar o computador passa a ser uma das tarefas do dia, digo, pensar a respeito. Dia bom para ligar televisão, vídeo e gravador de dvd e aproveitar para copiar mais uma ou duas ou três daquelas fitas guardadas. Talvez hoje eu copie o jogo final do Paulistão 98, jogo que marcou o retorno de Raí ao São Paulo, com show de bola, vitória maiúscula e a conquista do título em cima do Corinthians. Eis uma boa tarefa para um sábado já gostoso ficar ainda mais.

Bom mesmo vai ser se amanhã estiver igual, aí já é meio como ganhar na loteria. Claro, não uma megassena sozinho, mas uma quinazinha. Digo isso porque um dia como esse nos livra das tais cobranças que mencionei logo de cara. Nosso estilo de vida não admite pasmaceira, não aceita preguiça, só gosta de gente correndo, de preferência dentro do carro no trânsito parado, onde a corrida física é trocada pela corrida dos nervos rumo ao descontrole. Ritmo, agitação, frenesi, faça isso, faça aquilo, faça sempre alguma coisa.

Eis então que, de repente, surge uma modesta frente fria nesse começo seco de primavera, traz um friozinho, uma garoinha e joga por terra as muitas e chatas possibilidades de fazer alguma coisa num dia em que não há trabalho.

O melhor, portanto, é aproveitar, relaxar, nada fazer, flanar preguiçosamente.

Ah, esqueci do mais importante: o sábado, o friozinho e, principalmente, a garoa, tiram toda e qualquer culpa que com certeza sentiríamos por estarmos fazendo nada.

É isso, uma preguiça sem pecado, uma preguiça livre da culpa.


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segunda-feira, setembro 24, 2007

São Paulo, Comes & Bebes...

... e a Padaria 14 de Julho

O saco plástico com a Veja de sábado chegou pesado e mais volumoso que o normal. Também, pudera, a “Vejinha” estava com cara de catálogo telefônico, não só no peso como no visual, com lombada quadrada, formato de impressão que permite produzir revistas com maior número de páginas. E essa edição caprichou: nada menos que 436 páginas!

- Nossa, mas existe tanta notícia assim? – pergunta o desavisado leitor que não mora nessa megalópole. Sim, há tanta notícia para muito mais, até, só que não é o caso. Essa é a edição anual “Comer & Beber” da Veja São Paulo. Nada menos que 500 (quinhentos, por extenso só para garantir) restaurantes e 250 bares, fora outros 250 lugares para o que eles chamam de “comidinhas”. Essa, que ninguém me ouça, é a melhor parte da lista, com certeza. Lugar de sanduíches maravilhosos, desde um simples cachorro-quente ultra-gostoso e meio requintado, até o nosso tradicional, tradicionalíssimo bauru, passando pelo sanduíche de pernil da 14 de Julho. Sanduíche? Melhor chamar de refeição para dois. Esse pernil é simplesmente maravilhoso, assado no vinho por 14 horas, e com ele preenchem meio filão de pão italiano. Bom, eu como bem, basta ver a fotinho meio defasada para se ter noção de tal fato. Pois bem, apesar disso, parei na 14 de Julho dias atrás na hora do almoço, entre uma reunião e outra. Estava com fome, pedi um sanduba de pernil. Olhei pra cara do bitelo quando chegou e engoli em seco; comi, comi, comi, e o balconista embrulhou metade, que foi o meu jantar. Tudo isso por meros oito reais e setenta centavos. Pouco menos de cinco dólares. Só em São Paulo, mesmo.

Mas a 14 de Julho é infinitamente mais que mera parada para comer um sandubão. É um lugar histórico e de histórias. É um lugar de tentações, ah, sim, é lugar de muitas, muitas tentações. É histórico porque a padaria já tem 110 anos de idade. Foi fundada em 1897, ainda no século XIX, quem diria! No mesmo lugar, o que é mais incrível ainda. O Nono Franciulli entregava o pão para a freguesia de carroça. Aliás, peguei essa fase do pão vendido em carroça. No bairro em que meus pais moravam, o Ipiranga, o carroceiro era um português que passava cedo. A carroça era sofisticada, era uma “carroça-baú”, os pães ficavam lá dentro, protegidos e frescos. Dia de festa era quando o dinheiro de algum vestido que minha mãe fazia permitia a compra de um sonho.

Sonho é aquela coisa com que você sonha durante dias ou semanas, até meses ou anos, e de repente lá está ela em sua frente: uma bolota de massa frita, coberta por uma crosta escura, recoberta de açúcar de confeiteiro por sua vez e, suprema delícia, recheio de creme. Há quem goste de outros recheios. Bom, há gosto para tudo, claro, e eu, digamos, respeito, embora lamente. Sonho é isso. Morando mais na fazenda com meus avós, do que em São Paulo com meus pais, uma de minhas lembranças e vontades da casa paterna era o sonho. Freud deve explicar, acho.

Nunca moramos sequer perto do raio de ação geográfico e temporal da carrocinha da 14 de Julho. Sua descoberta, para mim, foi tardia, já nos anos 90, seguida de paixão à primeira mordida pelo pão italiano, pelo pão recheado com lingüiça – esse, um terrível indutor do pecado da gula – e por issos e mais aquilos, tudo, tudo mesmo sobrepujado pelos avassaladores cannoli.

Lembro do cannoli e minha boca enche-se de água. Tem um filme, não lembro qual, em que um chefe mafioso novaiorquino é louco por cannoli, e presenteia quem ele gosta com um pratinho deles. Mafiosos também têm bom gosto. Trata-se de um canudo de massa folhada assada, preenchido com creme. Há quem prefira o recheio de chocolate; eu entendo, claro, mas não deixo de lamentar, claro, também. Por cima, o bendito açúcar de confeiteiro. Cannoli é creme, para mim. Cannoli é uma dádiva sobre a qual você fecha os dentes, corta um pedaço de massa cuja única função é proteger e segurar o creme e, então, se delicia com uma das grandes descobertas do gênio humano.

Cannoli, sanduíche de pernil, pães, tudo isso é somente parte de algo muito maior. O teto é tomado por salames, queijos e lingüiças pendurados. As laterais tem de tudo um pouco e, logo à entrada, tenebrosa mesa coberta por variados antipasti; e bota variados nisso. Tem massas frescas, que podem ser feitas na hora e aí basta chegar em casa, pegar o garfo e mangiare. Tem bracholas e porpetas, claro, mil coisas com berinjela (outro dia compramos um pão recheado com berinjela que estava absolutamente irresistível, a ponto de ter comido parte dele no carro, dirigindo pela megalópole), azeitonas e outras coisas. A lista de delícias é extensa demais para tão modesto blog.

Ah, mais uma coisa antes de terminar: essas fotos são, mesmo, da padaria. Eu mesmo tirei-as. Pois é, nem parece, né? Nada das luzes e amplos espaços dos tais “templos” de comida de hoje em dia. Essa padaria que as fotos mostram é, basicamente, a mesma e do mesmo jeito que era em 1897.

E, antes que me esqueça, lembra do cannoli? E do chefe mafioso? Pois é...

O nome do cannoli é cannoli siciliano.

Buon apettito!


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sábado, setembro 22, 2007

Às três da manhã


Nada pior que acordar de sono profundo com o telefone tocando.

Antes de atender à chamada olho o mostrador do vídeo: faltam dois minutos para as três da manhã - só pode ser engano, penso, na verdade, torço. Nesse horário, se não for engano, é notícia ruim. Mil coisas e pessoas passam pela minha cabeça: minha mulher e minha mãe estão no litoral, na casa da minha filha. Meu filho está viajando pela Europa. Meus sogros estão no interior, assim como muitos parentes. E tem o sítio, sabe-se lá o que pode acontecer no sítio, que já foi roubado sete vezes. Ergo o fone e escuto a musiquinha da chamada a cobrar. Deve ser coisa do sítio, imagino.

- Pai, me ajuda, pai...

- Hum?

- Me ajuda, pai, fui assaltado.

Passado o impacto inicial de ouvir a palavra pai, em voz chorosa, percebo, numa fração de segundo, que estou sendo vítima de uma tentativa de golpe por parte de vagabundos.

Apesar da chamada ter sido a cobrar, resolvo dar trela ao vagabundo, deixá-lo perder tempo comigo, até ouvir minha voz chamando-o de vagabundo e mandando-o ir trabalhar.

Pena, entretanto, que o vagabundo percebeu que eu não caí em seu golpe e desligou o telefone. Ainda por cima, mal educado.

Fico sentado alguns minutos ao lado do telefone, pensando na situação.

Estou certo que, naqueles momentos, o bandido está tentando aplicar o mesmo golpe em outra pessoa. Penso na dor, na preocupação, que outra pessoa pode estar sentindo. Enquanto penso, procuro por uma pastilha anti-ácida, pois entre o acordar e o momento em que identifiquei o crime, a descarga de adrenalina agiu e provocou uma acidez. Mesmo sabendo que não era meu filho, pela voz e pelo fato dele estar a milhares de quilômetros de distância, em Milão, o despertar, a incerteza e os momentos de angústia que a chamada provoca, e que foram aumentando enquanto tocava a musiquinha da chamada a cobrar, são o bastante para causar estragos.

Demorou para acontecer comigo, penso. Há meses espero, sem esperar, claro, por algo parecido. Felizmente, aconteceu numa noite em que não havia como ter dúvidas a respeito. Teria sido melhor que fosse uma tentativa de obter dinheiro para um resgate. Em minha cabeça o plano há muito estava traçado: conversar, ficar preocupado, chorar, implorar, negociar. Enquanto isso, tentaria ligar para a polícia pelo celular.

No meu planejamento, impecável, a polícia receberia informação preciosa, fosse de um local de encontro, fosse de uma conta para transferência de fundos. E, naturalmente, prenderia os vagabundos em flagrante.

Humpf...

É isso que dá assistir muito CSI isso e aquilo, Numbers, NCIS e congêneres. Vã ilusão, mesmo porque, se tudo funcionasse tão bem, tão roliudianamente, os bandidos estariam soltos em questão de dias ou semanas, com muita sorte em alguns meses, e aí a coisa ficaria muito pior, pois saberiam tudo sobre o denunciante que os levou à prisão, ou seja, eu mesmo. Viveria com uma espada de Dâmocles permanente sobre a cabeça. Seria, não duvido, o maior consumidor de pastilhas anti-ácidas da super-drogaria mais próxima de casa.

O vagabundo desligou, entretanto. Minha representação foi pífia, com certeza. Decididamente, eu e o teatro pouco temos em comum. Pensando bem – é, eu penso muito –, foi até melhor, pois já foi divulgado que há funcionários corruptos nas empresas telefônicas – ora, ora, ora, não diga! –, que vendem informações dos assinantes para a bandidagem. Vai que o vagabundo que me acordou resolvesse dar uma lição ao idiota – eu – que tentou enganá-lo?

Para um bandido, nada mais fácil que isso.

Aqui, nessa terra, em se bandidando tudo dá.

Azar o nosso.

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quinta-feira, setembro 20, 2007

Liberdade, informação e publicidade – Free NYT

Tão logo tive acesso à internet há muitos anos – nem lembro mais quando foi, aliás, alguém lembra se existia vida antes da internet? –, uma de minhas primeiras ações foi cadastrar-me e tornar-me assinante virtual do New York Times.

Desde então, todo dia abro minha caixa de entrada e lá está, presente e confiável como o meu exemplar diário do Estadão, o e-mail com o que NYT diz que está acontecendo de importante no mundo. Mesmo com as restrições de um acesso free, sempre foi uma preciosa fonte de informações, mesmo que meu índice de leitura não seja dos mais altos.

Foi emocionante receber um e-mail dizendo que o NYT inteiro, desde o número 1, estava disponível na net, bastando o trabalho de teclar meia dúzia ou menos de vezes e ler sobre o assassinato de Lincoln, o começo da I Grande Guerra, as matérias dos correspondentes nas frentes de batalha, e por aí afora. Desde então sonho com o dia em que terei todo o Estadão on line, desde os tempos de A Província de S.Paulo, ainda no Império.

Claro, recebi também gentil e-mail, propondo-me a assinatura on line do jornal, por meros US$ 49.95 por ano. Gentilmente, disse não. Mas fiquei chateado, não porque fosse perder alguma coisa, já que nada perdi e, mesmo com a assinatura, eu tinha mais acessos do que antes, mas porque gostaria de assinar pelo simples fato de assinar e colaborar com um órgão que reputo fundamental para a manutenção da liberdade e dos direitos civis. Enfim, como era um pequeno luxo não essencial, disse não, em linha com esses tempos de vacas anoréxicas, que um dia já foram magras.

Agora, leio com prazer a informação que o Times simplesmente aboliiu a assinatura paga e abriu o acesso a, praticamente, todo o jornal. Mais: o acesso gratuito cobre também todo o arquivo do jornal que é domínio público, desde 1851, exceto parte do material do período entre 1923 e 1986. Desde já tenho certeza que as restrições de acesso que ainda persistem não demorarão muito a cair.

Foi bonzinho o Times?

Não, simplesmente sua direção percebeu que o crescimento da publicidade virtual era muito grande e cobria a renda proveniente dessas assinaturas. Mais: boa parte dos leitores que acessavam o NYT faziam-no via Google, Yahoo e outros sites de busca. Agora, com a liberação, espera-se que boa parte dos leitores faça suas buscas diretamente pelo NYT, o que reforçará ainda mais a receita de publicidade.

Ah, a publicidade...

Em breve farei 53 anos. Com isso, estarei completando perto de 37 anos ligado à publicidade em diferentes formas. Orgulho-me disso, principalmente por ter claro na teoria e na prática, que é a publicidade que garante e estimula a imprensa livre. E não há democracia e dificilmente haverá pleno respeito aos direitos dos indivíduos perante essa coisa cada vez mais mastodôntica e ameaçadora que é o Estado, sem a imprensa livre, sem a multiplicidade de órgãos de informação, coisas que só a publicidade farta e abundante pode garantir. Publicidade é uma ferramenta requintada do business, do marketing, do capitalismo, sem dúvida, mas é, também, a mais sofisticada das ferramentas de garantia à liberdade de que dispomos. Sua contrapartida é o deserto tenebroso da “Voz do Brasil” e da tal televisão pública, tão ao gosto de gente como lulla da Silva, Zé Dirceu, Hugo Chávez e outros. Vade retro.

P.s.: meu acesso de hoje foi antecedido por uma mensagem dizendo que, nessa semana, o patrocínio é do cartão American Express; no rodapé, um link pode, se eu quiser, levar-me a algum site do AE; não quis, e segui minha leitura.


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quarta-feira, setembro 19, 2007

Mais do mesmo de sempre

Sabe aquele filme que foi sucesso no cinema há algumas décadas já?

E que a toda hora você vê mais e mais chamadas dele na televisão?

Ora na sessão da tarde (existe ainda?), ora na sessão noturna, ora na sessão das corujas, dos insones e dos porteiros com televisor portátil à mão.

E você pensa com seus botões: “Pombas, de novo? Não dá pra mudar isso?”


Mudar sempre é possível, até mesmo a programação dos filmes da tv, mas para mudar é preciso ter vontade de mudar.

Viu essa foto?

Ela mostra as Cataratas do Iguaçu nesse meio de setembro.



Viu essa foto?

Ela mostra um dos inúmeros parques nacionais assolados pelo fogo nesse meio de setembro e desde, pelo menos, meados de agosto.

Mostra, também, um flagrante da pobre, mas corajosa, tentativa de controle.

Todo ano é a mesma coisa: seca, cai o nível dos rios, cachoeiras secam (às vezes muito, como agora) e o fogo criminoso ou acidental se alastra por preciosos hectares de parques nacionais. Em muitos deles, em especial nos cerrados, o fogo provocado pela própria natureza é parte do processo de preservação do próprio ecossistema. O cerrado precisa do fogo, ocasionalmente, assim como muitos ecossistemas florestais em outras áreas do mundo. Uma coisa, porém, é o fogo do qual a própria natureza se encarrega, outra, bem diferente, é o fogo criminoso, provocado por mãos e desejos humanos.

Seja como for, combater as queimadas de áreas naturais é uma necessidade imperiosa para conservar e proteger, a natureza e o trabalho e moradias de pessoas. Mesmo os incêndios naturais precisam ser combatidos em algum momento, em algumas áreas, pelo menos.

É aqui, entretanto, que o bicho pega.

O combate ao fogo é exercido por brigadas de bombeiros e voluntários, tão corajosos e valorosos quanto mal equipados e mal treinados. Muitas vezes nem equipamentos há, e recorre-se à improvisação de abafadores com folhas de palmeiras. No lugar de máscaras, lenços no nariz. Roupas de proteção, então, só as que Hollywood ou os noticiários mostram, quando equipes dos primeiros mundos combatem os incêndios florestais no hemisfério norte.

Em nossos incêndios há um outro grande ausente: os aviões-bombeiros, tão comuns nos tais primeiros mundos. Há modelos desenvolvidos especificamente para essa finalidade. Já no final dos anos quarenta, os americanos improvisavam bombardeiros da II Guerra, desativados, para transportar e jogar água sobre os incêndios, principalmente no oeste e sudoeste americanos.

Mas aqui no Brasil não existe um só aparelho para combater incêndio. Em alguns parques, em alguns incêndios – e nem sei se é o caso de usar esse plural – que temos por aqui, vemos a presença solitária de um helicóptero transportando de mil a dois mil litros de água em bombonas improvisadas. Difícil até comentar, dada a precariedade de tudo, sem falar no custo elevadíssimo do transporte de cada um dos poucos litros de água que conseguem ser despejados sobre um foco de fogo.

Lembro-me que há alguns anos uma empresa canadense mandou um avião-bombeiro para demonstrações entre nós. Perda de tempo. Nossa proverbial e estúpida auto-suficiência descartou a compra do equipamento. Nem lembro direito dos motivos apresentados, lembro, sim, de minha indignação com o fato. Mas, sou brasileiro, nunca desisto. De ficar conformado.

E assim seguimos, ano após ano, seca depois de seca, incêndio atrás de incêndio.

Tico e Teço, meus dois neurônios semi-aposentados, mas ainda operacionais, sussurram-me que já escrevi post parecido em algum momento do passado não muito remoto. Ao mesmo tempo, sobrecarregando seus circuitos, dizem-me que falarei e escreverei a respeito no ano que vem ou no outro. Ah, mas como são malandros! Para fazer essa previsão não sobrecarregaram circuito nenhum, já que não há o que pensar e calcular.

Todos sabem, até meus dois neurônios meio malandros, que isso vai se repetir e repetir e repetir...



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