terça-feira, fevereiro 27, 2007

Verdades convenientes e nem tanto


Al Gore disse que não é e não vai se candidatar ao governo dos Estados Unidos, pois está muito envolvido com a causa ambiental.

Sinceramente?


Não importa. Mesmo que ele mude de idéia e venha a ser candidato – coisa, por sinal, que seria extremamente justa –, sua dedicação à luta pelo ambiente rende frutos importantes e de longa duração, e a conquista do Oscar para o ducumentário An Inconvenient Truth (Uma Verdade Inconveniente) foi uma alavancada poderosa em sua luta.


Uma luta que precisa ser a mesma de todo cidadão desse planeta e que precisa de ações positivas e não de discursos ou ações tolas como dar nome a alguma obra, digamos, “Estádio da Sustentabilidade”.

Essa é a postura brasileira típica, nomeia-se alguma coisa em homenagem a alguém ou alguma causa e pronto, os braços se cruzam e ficamos esperando que as soluções dos problemas caiam do céu.

Uma mentira conveniente.



Uma torcida conveniente

Desde já torço pela Honda na Formula 1 2007.


Não só pelo fato do Rubinho ser um dos pilotos e por eu gostar dele, mas, sobretudo, pela fantástica postura social e de marketing da Honda, que abdicou dos patrocínios em seus carros e pintou-os com a imagem do planeta visto do espaço. Além de muito bonitos, abriram espaço nos corações de quem acredita que há solução para a Terra.


Se eu fosse trocar de carro hoje, com certeza e com prazer, meu próximo carro seria um Honda.





What can I do?

Visite esse site, vale a pena:

Take Action - www.climatecrisis.net/takeaction/

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sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Água, Comida e Desemprego




Desemprego e gente empregada


O jornal dá a notícia em manchete, letras garrafais no caderno de economia, com chamada na capa da edição:

“Desemprego no mundo é recorde”

Em letras bem menores, um subtítulo:

“São 195,2 milhões de pessoas sem emprego e setor de serviços já ocupa mais mão-de-obra que a agricultura”

Serei sincero: a manchete chamou minha atenção, sem dúvida, mas o que me levou a ler a matéria e agora comenta-la aqui, foi o subtítulo, com a nota de menor importância dando ciência que menos gente trabalha na agricultura que na área de serviços.

Acredito que pela primeira vez na história da humanidade há mais pessoas prestando serviços que produzindo alimentos.

Esses números e os que virão a seguir são da OIT, acredito eu que insuspeita mesmo aos olhos mais radicais dos políticos de certos países. No ano de 2006 era de 2,9 bilhões o número de pessoas trabalhando nas indústrias, nos campos e nas lojas e outras empresas da vasta área de “serviços”.

2006 marca, também, o ano em que pela primeira vez mais pessoas moram nas cidades que nos campos em todo o planeta, mas a matéria só diz que o número, obviamente, é maior que 50%.

Do total de 2,9 bilhões de trabalhadores, o setor de serviços ocupa 40%, a agricultura 38,7% e a indústria 21,3% do total. Isso quer dizer, a grosso modo, que cada trabalhador na agricultura precisa produzir grãos, fibras, carnes, leite, ovos para si próprio e para pouco mais de cinco pessoas. Essa proporção cresce rapidamente, à medida que mais pessoas deixam os campos e migram para as cidades, deixam as duras tarefas agrícolas e vão em busca de melhores condições de trabalho, conforto e possibilidade de progresso. A vida no campo para quem é pequeno produtor é muito ingrata ainda nos dias de hoje. Não por maldade ou por culpa de supostos “terratenientes”, ou ainda do moderno “agronegócio”, mas simplesmente porque os mercados do mundo inteiro não dão valor aos alimentos. Comprar um minúsculo chip custa o equivalente a centenas de quilos de feijão ou muitas centenas de litros de leite. Tanto o inventor como os operários que pensaram e produziram a pecinha não sobrevivem mais que uma semana, em média, sem o arroz com feijão, bife, ovo e salada de todo dia. E em boa quantidade, pois, em caso contrário, não terão neurônios suficientes para pensar em nada mais que pedir comida. Ou, não muito fracos, lutar por ela.

E ninguém poderá comer chips. Por mais revolucionários e poderosos que sejam, sua complexidade não chega aos pés de um simples grão de arroz ou feijão. E não há como digerir os negocinhos, diga-se de passagem.



Não é só a produção de comida...


... que está ameaçada. Com poucos dias de diferença o jornal informou que, segundo a também insuspeita FAO, em 20 anos ou menos cerca de 60% da população mundial terá problemas com a escassez de água.

A FAO calcula que até 2025 pelo menos 1,8 bilhão de pessoas viverão em países ou regiões com “drásticos” problemas de acesso à água.

Já nesse 2007 começado há pouco, mais de 1 bilhão de pessoas já tem problemas com falta de água potável para suas necessidades diárias. Em algumas regiões do planeta, agricultores já entram em severas disputas por fontes de água. Cabe dizer que esse problema já existe em algumas regiões agrícolas do Brasil, e seu número e abrangência cresce ano a ano.

Completando esse quadro, nada menos que 2,6 bilhões de pessoas não têm instalações aceitáveis de saneamento. Isso reflete pesadamente sobre a água existente, contaminando-a e tornando-a imprestável para consumo humano e animal.

Esses números são assustadores e estão casados com outros que apontam para o aumento da pobreza, apesar dos anos seguidos de crescimento econômico que atravessou o planeta.

A Terra de Vera Cruz tem terras agricultáveis abundantes e, ainda, muita água. Todavia, não tem projeto, plano, idéia, nem mesmo um grupo de estudos ou uma comissão inter-ministerial para pensar e cuidar dessas coisas. Avançamos pelo mundo como um cego sem bengala, sem cão-guia e surdo, ainda por cima, atravessando uma larga avenida paulistana na hora do rush, mas com o trânsito em movimento. O risco de atropelamento fatal é grande, quase total.

Ah, sim, com tudo isso o jornal destacou o desemprego.

Questão de perspectiva.

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segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Tempestade!




A segunda-feira de Carnaval recém-começara quando a chuva chegou, violenta como poucas vezes vi antes. Era de se esperar, pois o calor, a umidade e a pressão barométrica estavam por demais da conta. É interessante como essa combinação de fatores provoca dores de cabeça reais, não figuradas. Cefaléias, de fato. Tanto ontem como anteontem minha cabeça já sinalizara para isso, sinalização devidamente afogada em comprimidos de Neosaldina, santo remédio para essas e outras horas.

O que assusta nas grandes tempestades é o vento. Ao redor da casa as árvores literalmente dançavam ao seu sabor e humor. Meu pensamento primeiro foi para os bezerros e depois para as vacas, mas aquietei-me, eles convivem com isso há centenas de milhares de anos. Mesmo assim, a vontade de sair e ver como estão é grande, mas resisto.

Os cachorros e os gatos correram a se esconder. A Manchinha foi a última, pois procurou abrigo na porta da cozinha, justamente para onde o vento dirigiu catadupas d’água, apesar da proteção da varanda. A bichinha, até outro dia uma “sem-teto” ou “sem-tudo”, deve ter indagado aos céus o porque de tudo aquilo. Curiosamente, vários sapos ocuparam a varanda da cozinha. Temos aqui sapos para todos os gostos, de todos os tamanhos. São ignorados, temidos ou respeitados pelos carnívoros de plantão.

Ruídos típicos tiraram-me da cama: goteiras, muitas, uma delas uma verdadeira torneira, justamente embaixo da antena da internet. Já vi tudo: a rapaziada, em seu passeio teto acima, deve ter quebrado ou deslocado um monte de telhas. Que ótimo, começamos bem.

Antes de deitar, previdente, desliguei os equipamentos eletrônicos das tomadas. Seguro morreu de velho, e fiz bem, pois, aparentemente, caíram vários raios por perto. Essa é outra característica interessante de Santa Rita do Passa Quatro: raios em profusão. Na verdade, segundo o INPE, essa é uma das regiões com maior incidência de raios no Brasil.

Tempestades como essa não nos são desconhecidas, sempre existiram. Todavia, a impressão que temos e confirmada pelos estudos meteorológicos, é que elas estão acontecendo com maior frequência. O que era um evento lembrado por alguns anos, agora se sucede a cada estação. Tudo indica que por conta do aquecimento global. Em meus planos para os próximos anos, estou considerando secas mais prolongadas e chuvas mal distribuídas e mais violentas. Tudo isso implica em mais despesas, em gastos muitos maiores com a conservação do solo e produção de alimentos de reserva para o gado. Paradoxalmente, ao mesmo tempo, os preços dos produtos agrícolas – sem os quais ninguém sobrevive por aqui, inclusive o Bill Gates e o Steve Jobb – caem a níveis insustentáveis, só permitindo a sobrevivência de grandes produtores, capazes de ganhar e investir graças aos ganhos de escala.

Como dizia uma campanha de assinaturas do Estadão, o mundo está ficando mais complicado. E bota complicado nisso.

Apesar da curta duração, tempestades como essa provocam danos de monta. Agora, o melhor é dormir, aproveitando a refrescada no tempo, para logo cedo proceder ao levantamento e estimativa de danos.

E pisar com cuidado para não enfiar o pé numa poça-d’água a caminho da cama.


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domingo, fevereiro 18, 2007

Macaúbas on Line - Carnaval 2007





Já falta chuva

Domingo de Carnaval, para nós é como outro qualquer.

A última chuva caiu no domingo anterior, portanto estamos no sétimo dia sem chuva. Dias quentes de sol forte, inclemente, tudo fica seco muito depressa, e hoje, ontem, anteontem, já precisamos de chuva. Começo a ficar com medo de ter muita gente pedindo pra chuva parar. Vai que alguém influente ouve e...



Manchinha

Nossa nova moradora permanente é engraçadinha, simpática, afetuosa e desde o começo muito ligada a todos nós. Começa a ficar confiada bem depressa, uma característica nossa, impossível de ser evitada; é assim que somos.

Por algum motivo que desconheço ela gosta de entrar na vasilha de água para beber. Lá fora, numa das muitas vasilhas usadas por galinhas, cachorros, gatos e à noite pelos sapos, isso não causa grandes problemas. Porém, dentro de casa complica, pois ela entra na vasilha com leite e como ela é menor que as de água, vira a vasilha e suja tudo.

Essa mania, aliás, rendeu-lhe belo castigo ontem. Ela entrou no cocho de água que fica embaixo da cerca do bezerreiro de baixo, ao lado do corredor de passagem das vacas que estão no leite. Estava lá, satisfeita, quando levantou-se mais do que devia e encostou no arame da cerca. Eletrificado. Coitada... Deu um baita pulo e saiu ganindo. A água intensifica o choque, para azar dela. Mas, para sua sorte, o choque da cerca elétrica é apenas um pulso e não oferece risco, mesmo dentro d’água. Pelo menos ali acho que ela não tornará a entrar. O aprendizado pode ser um processo doloroso.

Ontem ela cruzou com o Stanley duas vezes. Ele, claro, não desgruda dela, passa o dia inteiro ao seu lado, pra cima e pra baixo. Isso significa mais uma despesa com veterinário, mas, como dizia um filósofo, faz parte. Logo depois do Carnaval ela vai pra clínica para ser operada, junto com algumas gatinhas.



Internet

É muito bom ter internet no sítio. Na prática, isso significa que já podemos nos mudar para cá em definitivo, basta vender a casa da Granja Viana.

Mais uma etapa em nossas vidas.

Mudar é uma coisa boa, estimulante, com seus desafios e novos conhecimentos e hábitos. Deixar para trás toda uma vida urbana, povoada por sonhos rurais, e encarar a realidade, o dia-a-dia do sítio, sem a perspectiva de voltar “para casa” na segunda ou na terça-feira, será diferente e verdadeiramente novo.

Só falta vender a casa...



Sete!

Diz o povo que sete é conta de mentiroso, mas pela sétima vez, pela sétima safra, meus preciosos pequis foram roubados!

Há apenas vinte dias estavam na árvore, bonitos, e eu babando por eles, não para comer, mas para tirar as sementes e formar o máximo de mudas que fosse possível.

Humpf...

Pra variar, uma vez mais, algum vagabundo parou na beirada do asfalto, passou pela cerca e arrancou os frutos, e com eles galhos inteiros. Esse é o último pequiseiro nativo num raio de alguns quilômetros; eram abundantes antigamente, tanto que eram queimados e cortados, para não atrapalhar a formação de pomares, pastos e canaviais. Desde meu primeiro ano aqui venho sonhando em formar mudas e plantar novas árvores...

Continuarei só com a vontade.



Será?

O céu sobre nossas cabeças – sem o risco de cair sobre elas, apesar do que pensavam os gauleses – está estrelado, mas a leste e sul as nuvens escondem as estrelas. Em intervalos curtos grandes clarões iluminam as nuvens, gerados por descargas elétricas em grandes altitudes. Ocasionalmente, uma trovoada se faz ouvir. Fica a esperança da chuva chegar pela madrugada, chegada sempre bem-vinda. O barulho da água no telhado, logo seguido pelo frescor que pede por um lençol. Tomara que chova, afinal, é Carnaval, e não lembro de Carnaval sem chuva.

Vou dormir com a velha marchinha na cabeça:

“Tomara que chova, três dias sem parar...”


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sábado, fevereiro 17, 2007

Macaúbas on Line


Sob o olhar curioso dos gatos e dos cachorros conecto pela primeira vez diretamente do Sítio das Macaúbas.

Tá quente pra burro, as vacas estão nas sombras, os bezerros dormem, a passarinhada tá meio aquietada também.

E a internet funciona aqui pela primeira vez.

Aleluia!

O melhor de dois mundos: sertão hightech.
Recomendo.

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sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Vai piorar...


Tempos atrás, logo antes do Natal, queixei-me nessa telinha que não andava muito inspirado para escrever por causa do assassinato bárbaro da família de Bragança Paulista, queimada viva dentro de um carro. O menino de 5 anos ainda foi tirado do inferno do fogo com vida, por uma moça amiga de seus pais e que estava também no carro. Em vão; ambos, o menino e sua salvadora, sobreviveram mais alguns dias e morreram.

Depois foi a vez de um ônibus no Rio de Janeiro, incendiado com mais de vinte pessoas dentro, das quais sete morreram.

Agora foi outro crime para o qual, assim como para esses anteriores, fica difícil encontrar adjetivos. Falo da morte do menino João Helio, no Rio de Janeiro, também, arrastado fora do carro, preso ao cinto de segurança, por nada menos que sete quilômetros por quatro diferentes bairros cariocas.

Como ser humano relativamente normal, a única coisa que desejo para todos os culpados é o linchamento pelos mesmos métodos que empregaram para matar e desgraçar para sempre a vida de muitas famílias.

Claro, meu desejo é selvagem e tão bárbaro quanto os atos dos assassinos. É o que dizem a moral e o direito, ou melhor, a “ciência do Direito”, como fui corrigido nesses dias por uma blogueira.

É, não deixa de ser correto, e bem sei que, com tais desejos, estou entrando no reino da barbárie, respondendo da mesma forma.

Bom...

Está certo, sejamos civilizados.

E daí?

Se a coisa que atende pelo nome de Congresso Nacional votar e aprovar a lei que endurece o tratamento penal aos autores de crimes hediondos for aprovada, os indivíduos que os perpetram “só” poderão receber o benefício da prisão semi-aberta – e outros – depois de cumprirem módicos 40% da pena.

40%!

Esse é o valor da vida humana no Brasil.

Uma pechincha. Poucas liquidações vendem seus produtos encalhados tão barato assim.

Pior ainda: na prática, na vida real, sabemos que nem mesmo esses 40% serão cumpridos pelos assassinos. E mais: viverão à larga nas prisões, mandando e desmandando, falando aos celulares, consumindo suas drogas prediletas, recebendo visitas “íntimas”. E nem por sonho irão para celas individuais, sem contato com outros assassinos. A legislação penal brasileira considera isso desumano e estabelece prazos máximos para manter os assassinos em tais celas, por sinal existentes em apenas dois presídios em todo o país.

Esse é um lado da questão.

O outro lado é mais triste. E ainda mais preocupante.

Há alguns anos, coisa de três ou quatro, um pesquisador americano encontrou uma causa interessante para o declínio da criminalidade nos Estados Unidos: a aprovação, no início dos anos 80, da liberalização do aborto. A relação, uma vez conhecidos os fatos e colocados lado a lado, é óbvia: liberado o aborto, houve uma redução no nascimento de crianças sem famílias ou em famílias de baixa renda, que não teriam condições de proporcionar a elas ambiente saudável e educação razoável.

Falar esse tipo de coisa pega mal na Terra de Vera Cruz. Quem fala isso já é associado com a “direita”, palavra no Brasil associada a tudo de ruim que o ser humano já criou, enquanto sua contrapartida, a “esquerda”, é a responsável por tudo de bom criado pela humanidade. A “direita” é a personificação do mal.

A “esquerda” e seu braço útil, a igreja católica tupiniquim – pronto, isso já basta para caracterizer-me como um radical de extrema-direita –, têm boa parte, para não dizer toda, da responsabilidade pelo quadro que vivemos hoje: crianças nascem aos montes, paridas por meninas de treze, quatorze, quinze anos, que depois do primeiro parto engatam mais um, dois, três...

Milhões de crianças vêm ao mundo sem lar e sem família, sem acesso a uma educação que seja no mínimo razoável. Isso quando têm acesso a alguma educação.

Não tenho dados à mão, mas sabe-se que a capacidade intelectual, o famoso QI, anda muito em baixa junto aos extratos mais pobres da sociedade. Inteligência e capacidade de aprendizado estão intimamente ligados ao consumo de proteínas e outros nutrientes desde a gravidez, associados, depois do nascimento, a ambientes saudáveis e estimulantes. O que vemos hoje é um círculo vicioso: crianças já deficientes nesse ponto trazendo ao mundo outras iguais ou piores.

Isso é triste, mas não é falso. Boa parte dos jovens e já não tão jovens de hoje são semi-alfabetizados. São, como disse um educador que não recordo, analfabetos funcionais. E o mundo, hoje e cada vez mais, só tem trabalho para pessoas capazes de ler e entender e aprender como lidar com máquinas mais e mais sofisticadas, com softwares que dominam nossas vidas minuto por minuto. Para trabalhar, é preciso mais que mãos e pés, é preciso uma cabeça com um mínimo de condições e conhecimentos acumulados.

Nossa população está crescendo no rumo oposto.

Que futuro está reservado a esses muitos milhões de bebês, crianças e jovens?

Tenho medo de pensar a respeito.

Enquanto isso, a única coisa “real e prática” que a sociedade consegue fazer é dar o nome do menino assassinado nas ruas cariocas a um estádio de futebol.


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quarta-feira, fevereiro 07, 2007

“Eu > Deus”



A princípio fiquei curioso com o lançamento do livro, mais devido ao autor, confesso, cujos textos costumo ler diariamente, além de assisti-lo pela tevê em programas sobre futebol. Mas... Sei lá, o título me deixou por muito tempo com a pulga atrás da orelha e mantendo distância. Eu sei que é chato à bessa, e também à beça, escrever esse tipo de coisa, mas, que diabos, ou a gente escreve o que pensa e sente, com um mínimo de educação, ou nada escreve, né? E o título, não sei porque, me fazia pensar em um romance existencialista, ou alguma coisa com cheiro e gosto de Kierkegaard e, francamente, tudo isso é ilógico, sem nexo, divagações da minha cabeça a partir de um título.


Até que tive sorte e achei uma boa sinopse na internet, por sinal, num blog, a nova mídia desse começo de século. E fiquei cativado pelo que li, saindo à procura do romance “Eu > Deus”, do Sidney Garambone (Ed. Record, 288 páginas, lançado em 2006, R$ 37,90).

Comprei-o num sábado, começo de tarde preguiçosa. Voltei pra casa, olhei o gramado precisando ser roçado, olhei pro sol, senti o calor, olhei pro livro... e deixei a grama pro final do dia esticado de verão, quando a temperatura estaria mais civilizada.

Pois é... Jacaré cortou? Nem eu. A grama ficou lá, esperando a roçadeira, e eu fiquei deitado no sofazão, tevê desligada, computador hibernando, devorando página após página do livro. Já no domingo, com a ajuda preciosa de umas pancadas de chuva, cheguei ao final, satisfeito e insatisfeito, o que acontece sempre que gosto do livro. Satisfeito por terminar a leitura, conhecer o destino de personagens que me cativaram ou por quem tomei antipatia, e insatisfeito por ficar na boca o gosto de “quero mais”.

Um grupo de amigos, basicamente dois homens e quatro mulheres, reúne-se nas noites de terça-feira num apartamento do Botafogo. Um deles apresenta três filmes, geralmente clássicos do cinema, uma votação decide qual assistir e, terminada a sessão, conversas e discussões que começam pelo filme e tomam novos rumos a cada terça. Como é natural, ainda mais num grupo de solteiros e neo-solteiros em idade e tempo de deixar de sê-lo, envolvimentos encontram excelente ambiente para nascer e prosperar. E definhar, ou não.

É fácil nos transportarmos para as sessões de cinema, com um nome todo próprio, mas que não contarei aqui. Os personagens são pessoas, parecem conhecidos e conhecidas, amigos e amigas, algumas até mais que amigas em tempos remotos. Essa aparente simplicidade e jeito de algo rotineiro é enganadora. Inevitavelmente, o desenrolar das sessões, conversas, olhares, insinuações, paixões, falsas ou verdadeiras, segue uma curva ascendente, como aqueles gráficos dos lucros dos bancos tupiniquins, alimentada e aumentada pelos textos que o narrador escreve madrugada adentro, logo depois de cada encontro e que, movido por sentimentos conflitantes acaba por distribuir a todos os participantes do grupo pela internet.


E a gente, ou eu, pelo menos, acaba se identificando com alguns comportamentos, algumas situações. Surpreso, e feliz, descubro que gritar dentro do carro fechado, em movimento, não é loucura exclusiva desse escriba. E algumas outras coisas, como o caso das... Deixa pra lá, que cada um descubra suas próprias identidades e afinidades.


A cada texto a sessão do dia está ali, meio transcrita, meio inventada, meio recriada. Como o narrador é um escritor, fica claro que ali está o embrião ou o próprio próximo livro dele. E também fica claro que isso acontece porque a internet existe, já que é difícil imaginar alguém datilografando e depois copiando em xérox ou mimeógrafo (para os mais novos: deve ter alguma no google sobre esse negócio chamado mimeógrafo, equipamento de fundamental importância na resistência aos regimes ditatoriais) o texto com várias páginas para distribuir, toda semana, entre várias pessoas. “Eu > Deus” é uma obra dos tempos da internet, e não me refiro à data de publicação.

Se eu fosse um crítico literário escreveria mais e melhor. Se eu fosse um cronista mais inspirado escreveria mais, ou menos, porém com mais graça e inspiração. Diria dos momentos diversos em que a leitura me pôs pensativo. E falaria, claro, das conversas sobre os filmes, imperdíveis, como diria antigo ministro de não saudosa memória. Mas, não importa, creio que disse o fundamental: é um livro bom e, tão importante quanto isto, muito gostoso de ler.

Opa, já estava esquecendo! Tenho, sim, uma crítica a fazer: ninguém do grupo levou um filme sequer do Eisenstein. Se eu participasse, teria levado na minha vez “Aleksandr Nevsky” e, junto com o DVD, um CD com a cantata de Prokofiev para o filme.

Talvez perdesse o direito às pipocas e ao vinho, mas teria levado.

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segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Conversando sobre árvores e carbono

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- Bom, estava pensando sobre o sítio, o aquecimento global e o que podemos fazer... Venho pensando muito nisso, ultimamente.

- Também não é pra menos, né? Não dá pra pensar em outra coisa de tanto que se fala sobre isso.

- É...

- E o que você andou pensando?

- Bom, vou reformar os pastos de braquiária, plantar tifton e tanzânia neles. São capins que produzem muita massa verde em boa parte do ano e quanto mais massa verde produzida, mais carbono seqüestrado à atmosfera.

- Mas só plantar capim resolve? E por que não plantar árvores?

- Ué, e quem disse que não vou plantar árvores? Minha idéia é plantar uns 200 a 300 pés de eucaliptos em diversas faixas. Além deles, mais umas 200 árvores diferentes, agora todas nativas, e de preferência da nossa região mesmo. Imagino plantar umas 500 árvores pelo menos.

- Por que não planta tudo eucalipto? Não é melhor?

- É bom, mas eu quero plantar essências nativas no meio do pasto para sombrear e o gado ter mais conforto. Nesse caso, penso principalmente em leguminosas, porque elas retiram nitrogênio do ar e fixam-no ao solo, na forma de nitrato, que é

aproveitado pelas outras plantas, no nosso caso os capins. E, com isso, economizamos uns bons quilos de adubos nitrogenados, a maioria deles à base de petróleo e caros pra burro.

- Legal isso. Eu não sabia que essas árvores tiravam o nitrogênio do ar.

- Na verdade não são as árvores e sim bactérias, principalmente do gênero Rhyzobium, que vivem em simbiose das plantas da família das leguminosas. É o caso da soja e do feijão, por exemplo, e de árvores enormes como a copaíba e a sibipiruna, entre algumas dezenas. Mas não vou plantar só leguminosas, precisa diversificar e ter árvores que sirvam à fauna, também, que produzam frutas diversas.

- Essas 500 já incluem as que já foram plantadas? E quando começam os plantios?

- As já plantadas são passado, não contam mais, já estão por lá fazendo seu papel. As 500 serão novas, e vamos começar já, com as mudas que peguei sábado no Michelin: 2 nogueiras-pecã, 2 castanheiras-portuguesas, 2 pés de jambo, e 1de uvaia, cajá-manga, lichia e abio. Vão ficar faltando só 490. Mas vai demorar pra plantar todas. E os eucaliptos vão ficar pra outubro, nas outras águas. Essas já estão perto do fim e o dinheiro também.

- Se o dinheiro já está curto porque você não vende créditos de carbono na Europa?

- Hahahahahahahahaa... Tá ficando esperta, hein? Até que seria uma boa idéia, aí daria ate pra plantar mais algumas árvores. Mas esse negócio é complicado, e no fim acaba sendo exclusivo de ongs e grandes empresas formadas só pra isso. E, além disso, eu não vou querer ninguém, europeu ou não, metendo o bedelho no sítio.

- E esse negócio de plantar árvore pra tirar carbono do ar funciona?

- Funciona. Pensa bem, o que é uma planta? Do que ela é formada? Em sua maior parte por carbono, todo ele tirado do ar e, graças à fotossíntese, na presença da luz solar, ele é transformado e constitui a maior parte de todos os seres vivos do planeta. As plantas são, com certeza, o maior milagre, a grande dádiva da natureza para nós. Elas transformam elementos inertes, gasosos e minerais, em matéria orgânica, em matéria viva da qual nos alimentamos todos, dos fungos decompositores às baleias-azuis.

- Então, plantar árvores vai salvar o planeta?


- Sim. E não. Vai ajudar muito, mas só plantar árvores nada resolve, se não for acompanhado por outras medidas, todas aquelas que o Protocolo de Kyoto preconizou. De uma forma ou de outra, por bem ou por mal, todos teremos de mudar nossos modos de vida nesse planeta.

Mas por agora já deu, tô pregado. Falamos mais depois.


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domingo, fevereiro 04, 2007

Pane!



Calma, gente, calma, não é no clima...
Ainda.

É só no meu computador e já foi parcialmente sanada.
O problema é que a cura foi daquelas que mata a doença e o paciente fica moribundo. Ele foi formatado e, no processo, meu precioso outlook com milhares de e-mails, lembranças preciosas, lembranças valiosas, lembranças comerciais, foi pra caixa-prego.

Com ele foi também meu Catálogo de Endereços.

Nessa semana sequer consegui comunicar-me com dois fornecedores! Um caos.

Enfim, paciência, o leite já caiu, já se espalhou, já se infiltrou... Agora é tentar corrigir, e é esse o motivo desse post.

Com muitos de vocês eu trocava e-mails, regular ou ocasionalmente.

Gostaria que essas pessoas, inclusive amigos próximos, vizinhos de sítio (Raquel, César, Monika, Miro...), amigos distantes ns oropas, franças, bahias e states da vida enviassem um e-mail para esse endereço:

emersonsrpq@gmail.com

Se possível, e não for pedir muito, com telefones e skype também. :o)

'Brigadão e bom final de domingo.



Emerson

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terça-feira, janeiro 30, 2007

Conectado com o mundo

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Essa antena "grelha" em cima da casa recebe o sinal de rádio...



Contrariando um pouco a ordem natural das coisas, o Sítio das Macaúbas há muito estava conectado com o universo, particularmente nas noites escuras de inverno, sem luar e sem nuvens, a atmosfera limpa, mais transparente que o habitual, e toda a
abóbada celeste tomada por estrelas, a Via Láctea destacada, deixando a noite tão clara depois de alguns minutos de acomodação dos olhos, que até sombras aparecem. Parado no meio do carreador, entre as mangueiras e araucárias, ou na beirada do pasto, meu olhar se perde nas estrelas e sinto que há uma ligação com tudo aquilo. Sim, há muito tempo o Macaúbas tem conexão com o universo.

E agora tem conexão plena com o mundo, esse mundo azulado de cocuruto ainda branco em que vivemos: a internet chegou!


Via rádio, banda larga, 128 kbps e, chique no úrtimo, wireless! – e confesso que para minha surpresa. Só falta, agora, o computador, um notebook, claro, afinal, deixar um micro em casa é pedir para perde-lo, mas sobre isso nem vale a pena pensar agora.

Instalando uma webcam no bichinho, poderei, por exemplo, escrever e mostrar em tempo real as vacas no pasto, desde que a câmera tenha zoom, claro. Mas isso é bobagem, há coisas muito, muito mais importantes. A começar pelo telefone, claro.


Entusiasmei-me, mas também, pudera, o motivo é justo. Tanto que explica e justifica escrever “abóbada celeste”.


... que vem da antena emissora localizada no alto do Morro do Itatiaia, com as antenas escondidas pela nuvem baixa cheia d'água.

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quarta-feira, janeiro 24, 2007

Starbucks! Eu fui...

Sim, conseguiram tirar-me de casa em plena noite de sexta-feira. Pensando nas companhias agradáveis e nas boas conversas, cedi, e, temeroso, encarei a aventura de sair da Granja Viana e ir para o Shopping Morumbi no pior dia e no pior horário possíveis: a noite de sexta-feira.

Para minha surpresa, não tinha muita gente e estacionei no 3º piso, sem precisar chegar ao 4º e rodar meia hora à espera de uma vaga. Foi um bom sinal.

Dentro do templo, digo, do shopping, bastante gente, claro, mas nada excessivo, parecia até civilizado.

Por uma questão de gosto, optamos pela Starbucks anexa à megastore da Saraiva. Sempre gostei da combinação café & livros. Não tinha muita gente e, alvíssaras, descolamos simpática mesinha em aconchegante cantinho.

(Isso tá parecendo texto recusado de anúncio...)



Saudoso do “café americano”, pedi um tall para mim. É a menor embalagem e contém algo como meio litro de café. No copo fechado e com um protetor para as mãos devido à temperatura, o café se conserva quente e gostoso por muito, muito tempo.

Eu disse gostoso?

Xiiiiiii, escapou!

Mas é verdadeiro. É um café “aguado”, mas não é bem assim. A verdade é que eu até gostava desse troço e foi bom tomar de novo. É o meu novo “uísque de festa”, aquele copo básico com 19 pedras de gelo e dois dedinhos de uísque, que me mantém com as mãos ocupadas e enturmado em qualquer festa ou coquetel ou assemelhado. O tall da Starbucks é quase isso: fica ali, gostoso, quentinho, duradouro, aquecendo a boca e a conversa. Nem preciso dizer que o ar condicionado do Shopping funcionava às mil maravilhas, e nada como um bom café pra espantar o frio.

A Rosa e o casal de amigos que conseguiu a proeza de tirar-me da caverna, digo, de casa, tomaram outros cafés, mais elaborados, mais isso, mais aquilo. Simples e troglodita como sou, dei-me por satisfeito com o meu “americano” puro. Mas beberiquei o capuccino, muito saboroso. E belisquei o muffin de mussarela de búfala, também muito bom.

Enquanto passava os olhos pelos folders bonitos, informativos e elegantes, pensei que a Starbucks poderia comprar só leite de vacas Jersey e agregar mais valor aos seus produtos: cafés finos com leite de Jersey, o melhor leite do mundo.

O pessoal é bem treinado e muito gentil, nem parece que trabalham em empresa americana. Ah, é verdade, é americana, sim, mas está no Brasil e são brasileiros. Está explicada a gentileza. Não que americanos não o sejam. Bom... Não são mesmo, mas são eficientes e objetivos, um tipo de gentileza com o qual não estamos acostumados, criados que fomos à base de salamaleques e rapapés.

E o ambiente... Ah, o ambiente... Bom demais, foi a moldura perfeita pra mais de hora de conversa, durante a qual falamos mal do governo, criticamos nossa história e formação, falamos do futuro e outras coisas assim gostosas. Por incrível que pareça, nada disso estragou o sabor dos cafés e muffins.

A Starbucks está aprovada. Pena que fique dentro de um shopping e não tenha aquele charme próprio de uma cafeteria numa rua do Upper East Side, mas nem tudo é perfeito, né?

Em tempo: não, leitora amiga, leitor amigo, não me critique, não diga que isso é coisa de paulista. Você também irá tomar café numa Starbucks na primeira oportunidade possível. Pensa que eu não sei?

Bom final de semana prolongado pros paulistanos.

E bom meio-de-semana pra quem não é de São Paulo.

Ops!

Parabéns, São Paulo, felicidades e muitos anos de vida e coisa e tal.


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sábado, janeiro 20, 2007

Só daqui a 100.000 anos...

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Cometa McNaught é flagrado no céu de Christchurch, Nova Zelândia, anteontem;
visibilidade é melhor em cidades mais ao sul


A seguir, transcrição de entrevista com o descobridor do cometa McNaught,
publicada na edição de hoje da Folha de S.Paulo.
Belo trabalho da Folha, que fez a entrevista com seu correspondente em Sydney,
Rafael Garcia
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O descobridor do cometa que corta o céu do hemisfério Sul neste mês é um astrônomo autodidata que não se considera cientista. "Sou um observador", diz Robert McNaught, um escocês emigrado para a Austrália, que guardou na gaveta seu diploma de psicólogo para trabalhar com astronomia. Desde que começou sua carreira tardia, o homem que dá nome ao cometa mais brilhante dos últimos 42 anos já descobriu outros 31, a maioria deles no Observatório Siding Spring, perto de Sydney. Em entrevista à Folha, McNaught falou um pouco sobre seu trabalho.

FOLHA - Seu site diz que a descoberta do cometa foi fruto de trabalho de rotina. Como é seu dia-a-dia?
McNAUGHT
- Temos três observadores aqui, contando comigo. Fazemos um rodízio. Toda noite com tempo aberto -exceto quando há lua cheia- operamos o telescópio sistematicamente, varrendo o céu do Sul.

FOLHA - O que é o seu projeto?
McNAUGHT
- Procuramos asteróides e cometas que apresentem risco de colisão com a Terra, especialmente os grandes - maiores de um quilômetro. Temos verba para isso até 2008.

FOLHA - Quantos cometas vocês já descobriram?
McNAUGHT
- Até agora foram 29, aqui no Siding Spring. O McNaught foi o último. Eu já batizei 32 cometas, na verdade, mas nenhum deles chega aos pés deste em brilho.

FOLHA - Vocês já calcularam a massa e o período do cometa?
McNAUGHT
- Aqui não analisamos estrutura física ou tamanho de cometas, mas já sabemos que a órbita dele é muito alongada. Ele veio para o Sistema Solar interno [planetas de Mercúrio a Marte] quase como numa parábola [curva aberta]. Ele provavelmente veio da Nuvem de Oort, de uma longa distância no Sistema Solar, e só vai voltar à Terra depois de cerca de 100 mil anos.

FOLHA - Porque o brilho do cometa surpreendeu tanto os astrônomos?
McNAUGHT
- Como não tivemos uma visão próxima do cometa, não sabíamos na realidade como era sua superfície. Não sabíamos se ela era de gelo com poeira ou se era coberta de um manto só de poeira, que impede a radiação do Sol de chegar ao gelo. Também não sabemos se a superfície tem falhas ou se é lisa. Isso tem grande influência no grau de brilho do cometa. Só podíamos estimar o brilho por antecipação comparando-o com outros cometas do passado, mas muitos cometas com órbitas similares não tiveram aumento de brilho tão rápido ao se aproximarem do Sol.
Mas não existe um comportamento típico de cometas. Cada um é um pouco diferente do outro. O McNaught parece estar no extremo de brilho em uma ampla gama de comportamentos [aspectos] dos cometas. Outros cometas, como o Austin [de 1990], tiveram um aumento de brilho rápido no início, mas não o mantiveram.

FOLHA - Qual é a perspectiva de brilho para os próximos dias?
McNAUGHT
- O brilho certamente já está diminuindo, mas o cometa está se movendo para um céu mais escuro, por isso está mais visível agora do que quando atingiu o ponto mais brilhante. Para quem estiver longe das luzes das cidades, o cometa deve ser visto com facilidade na próxima semana e, talvez, durante mais algumas. O céu mais escuro, além disso, permite ver a enorme cauda do cometa. Apesar disso, a Lua está começando a se aproximar daquela região do céu, e dentro de uma semana ela pode atrapalhar a visibilidade do cometa. Então, na verdade, a semana que vem deve ser mesmo a melhor para ver o cometa.

FOLHA - A latitude influencia a qualidade da vista?
McNAUGHT
- Sim. No geral quanto mais ao Sul, melhor. Aqui no Siding Spring estamos a 30 Sul e o cometa está bem posicionado. Quem estiver a até uns 20 Sul [latitude de Belo Horizonte] ainda pode ter uma boa vista do cometa, mas o melhor deverá ser em uns 40 Sul [latitude de Bariloche].

FOLHA - O cometa pode se desintegrar com a radiação do Sol?
McNAUGHT
- Há sempre uma possibilidade de isso acontecer, e acontece com freqüência com cometas que passam muito perto do Sol. Este cometa não passou tão perto, mas outros que estavam à mesma distância já chegaram a soltar alguns fragmentos. Até agora não temos evidência de que isso tenha ocorrido, apesar de ainda poder acontecer.

FOLHA - Quão brilhante é esse cometa, em relação a outros que apareceram nos últimos cem anos?
McNAUGHT
- Existe um grupo de astrônomos amadores que se dedica a compilar dados sobre isso. Segundo eles, o McNaught é o segundo cometa mais brilhante desde 1935. Ele perde para o cometa Ikeya-Seki [em 1965], que foi muito mais brilhante do que este.

FOLHA - Independentemente de sua beleza, o cometa gerou algum interesse científico em especial?
McNAUGHT
- Certamente haverá estudos especiais feitos sobre o cometa. O fato de ele ser tão brilhante significa que é possível estudar sua luz em mais detalhe. [A separação da luz pode revelar a composição do cometa], mas ainda não tive tempo de procurar saber o que está sendo feito.

FOLHA - Fale um pouco sobre sua carreira. Como o sr. virou um caçador de cometas?
McNAUGHT
- Eu me interesso por astronomia desde muito jovem e me tornei um astrônomo amador. Sempre fui ávido por isso, sair por aí para fazer observações com meu próprio telescópio. Então eu tive oportunidades que me levaram nesta direção. Mas não não sou pesquisador, sou um observador.

FOLHA - Em que o sr. se formou?
McNAUGHT
- Em psicologia, mas nunca trabalhei com isso. Assim que me formei, há uns 20 anos, consegui um emprego em astronomia. Sempre foi minha paixão.

FOLHA - Por que o sr. não se matriculou em física, ou algum curso ligado à astronomia?
McNAUGHT
- Eu fiz isso, mas eu larguei o curso porque minhas notas estavam péssimas. Eu fui para psicologia porque gostava do assunto, mas nunca trabalhei na área.

FOLHA - O sr. acha que a passagem de um cometa como este pode tornar os jovens de hoje interessados em astronomia?
McNAUGHT
- Eu já tinha interesse em astronomia antes de ver o cometa Bennet em 1969, mas foi a partir dali que eu fiquei deslumbrado. Aquele cometa era espetacular e certamente aumentou meu interesse em astronomia.



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sexta-feira, janeiro 19, 2007

Tudo muito estranho



Estranho janeiro...

Aqui na Granja Viana temos dormido com edredon e em algumas madrugadas o frio tem ficado meio brabo. Sem dúvida, a arquitetura (digamos assim) do nosso quarto e a janela francesa sem a proteção das portas de vidro contribuem para tanto frescor. Assim mesmo, contudo, as temperaturas têm andado na parte mais baixa do termômetro.

O cometa McNaught está passeando por nosso céu, na boca da noite, no horizonte ocidental. Mas quem diz que se consegue ver o dito cujo? A espessa camada de nuvens da frente fria tampa tudo, até S.Excia., o Astro-rei. Isso é bom por um lado, nunca canso de repetir, mas por outro bem que eu gostaria de uma janelinha de um ou dois dias de céu aberto. Gosto dessa coisa de ver cometa, mas ver, mesmo, de verdade, vi duas vezes, em duas noites viajantes. A primeira no interior de São Paulo, na beirada de uma Castelo Branco deserta, e o cometa era um ponto luminoso dois graus acima da categoria “ridículo”. A segunda vez foi melhor, pois o cometa estava uns quatro ou cinco graus acima da tal categoria retro-citada. Parei o carro numa estradinha no sertão do Mato Grosso e fiquei quieto alguns minutos, deixando os olhos se acostumarem com a noite, seus brilhos, seus contornos. E lá no alto estava o cometa.

Precisaria pesquisar para lembrar os nomes das duas excelsas visitas, mas não creio que seja tão relevante, afinal, o cometa com mais nome e mais fama, o Halley, não passou de grande e invisível mico, capaz de levar-me a dirigir 90 km em busca de um bom lugar para vê-lo e nada. Mas vi Saturno, o que já foi bom demais.

Esse McNaught está por aí até o final do mês. Quem sabe conseguirei vê-lo no outro final de semana, já no sítio?

E voltando à vaca fria terráquea, e bota fria nisso, o frio intenso destrói 75% da safra de laranjas da Califórnia. Na Florida ainda não?

Que pena...

Coisa feia isso, né? Mas, fazer o que? É tanta a disparidade e, principalmente, é tão aviltado o preço que os ricos pagam por nossos produtos primários que não consigo pensar diferente. Tristeza de uns, alegria de muitos. Sim, porque 40% da safra de laranjas da Florida foi perdida para problemas climáticos, notadamente furacões, além do frio e da seca. Com isso, os preços para nossas laranjas têm se elevado, o que é bom para nossa balança comercial e, principalmente, seria bom para nossos produtores de laranjas, meia dúzia dos quais são vizinhos e amigos. Mas... Bom, a verdade é que quando essa meia dúzia for beneficiada, é capaz do Halley dar as caras por aqui novamente, e em grande estilo.

“The same old story...”

E também dá pra trocar “story” por “history”, nesse caso.

E por falar em velha história, e não estória, surgiram vestígios de forte aquecimento sei lá quantos e quantos séculos atrás. Isso sempre me deixa com uma pulga atrás da orelha sobre o aquecimento global. E também a muitos cientistas. Apesar de nossos avanços científicos e coisa e tal, pouco conhecemos, ainda, sobre o clima, principalmente sobre seus longos ciclos, alguns, possivelmente, medidos em milhares e milhares de anos.

Paro por aqui.

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quinta-feira, janeiro 18, 2007

Uma tragédia urbana


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Durante quase seis anos esse prédio foi minha casa profissional.

Nesse período, nos primeiros tempos meu carro ficava no estacionamento externo. Hoje, e desde a tarde do dia 12 desse mês, ele não existe mais, foi substituído pela cratera. A bem da verdade, ele já não existia há meses, pois virou canteiro de obras para as obras do metrô.

Promovido, passei a deixar meu carro na garagem subterrânea do prédio. Pegava o elevador e, da minha sala, contemplava as colinas do Morumbi e o Butantã. Se eu fosse para a sala de algum colega olhava o campus da USP. Abaixando a vista, já daria para ver o estacionamento que já não existe.

Dizem que o prédio está seguro, sem a menor ameaça. Creio que sim, parece que sim. Egoísta, confesso-me feliz por não mais trabalhar no Edifício Passarelli. Não sei se conseguiria trabalhar tranqüilo, algumas dezenas de metros acima do solo, tendo uma cratera com outras dezenas de metros de profundidade e quase com a mesma área que um campo de futebol, bem ao lado, até precisando tomar cuidado para não escorregar e despencar buraco abaixo.

Frequentemente meus pensamentos vão para as pessoas que estavam na van, umas trabalhando, outras a caminho de compromissos ou apenas indo para casa. E para a velha senhora, com 75 anos de idade, que fazia aulas de surf e caminhava pela rua quando foi tragada, literalmente, pela terra que se abriu. Impossível pensar em todo o terror e sofrimento que foram os minutos finais, com toneladas de terra por todos os lados, a escuridão absoluta.


Que descansem em paz.


O governador tem acompanhado tudo de perto. Nesse momento é ele a única esperança que resta às famílias das vítimas dessa tragédia de serem socorridas e não sofrerem ainda mais, agora materialmente, com as perdas de seus pais, maridos e filhos.

E a culpa?

E a causa?

Já são muitas as hipóteses, assim como as acusações.

Cabe esperar pela apuração de tudo que ocorreu. Sair acusando a torto e a direito, agora, em nada ajuda e a nada conduz.

As cinco empresas envolvidas na obra e, em tese, responsáveis por tudo, são as maiores do Brasil na área de engenharia e construção civil. Não lhes falta capacitação técnica, recursos, experiência, pelo contrário, pois, justamente por terem tudo isso é que foram escolhidas.

A tragédia já aconteceu, vidas foram perdidas.

Não vejo cabimento nas declarações de membros do Ministério Público que querem manter a cratera tal como está, como “prova”. Em nada se incomodarão com o atraso dessa linha do metrô, em nome da “segurança e da justiça”, que poderão ser atendidas sem prejuízos, mesmo com a obra seguindo. O metrô não é luxo, é necessidade vital há décadas.


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segunda-feira, janeiro 15, 2007

Home alone ou...

Não-Aventuras de um Homem Casado Sozinho em São Paulo



Começo da tarde de Sexta-feira; termina a edição de um vídeo trabalhoso e começa o meu final de semana. A família foi tomar chuva em Santa Catarina, fiquei sozinho com os cachorros, a casa, a internet, a tv por assinatura e a geladeira e o frezer cheios. Bom, ficaram, também, vassouras, rodos, aspirador de pó, louça, gramado, cocô da cachorrada – aliás, muito cocô da cachorrada -, etc e tal, mas isso é outra história.

Trabalho concluído, nada melhor que pequena celebração com um churrasco maneiro. Fomos comer num restaurante por quilo perto da produtora. No cardápio diário tem churrasco, mas às sextas-feiras a coisa muda para melhor: costelão e “vazio”. E o churrasqueiro amigo guardou costelão para nós, felizmente. Essa é, para mim, a carne mais saborosa entre todas: uma costela bem assada. Ponho um bocado de fibras vegetais no prato, na forma de rúcula e agrião, um punhado de carbohidratos na forma de um arroz branco, simples, e farinha, na forma de farofa (nem tudo é perfeito). E tome costela, vazio, picanha e cupim, tudo acompanhado por água mineral com gás, gelo e rodelas de limão.

Que festa!

Passo a noite de sexta-feira em casa; nem janto, como só meia maçã e uma caneca de leite desnatado com cereais. Depois de tanta carne, isso é um santo remédio para todo o sistema digestivo. Sintomaticamente, durmo cedo e bem.

E as aventuras?

Pois é, as aventuras... Quem sabe no sábado?



O Sábado paulistano é um dia maravilhoso, cheio de ofertas e promessas. Claro, para quem está com os bolsos recheados é ainda melhor; não é o meu caso, infelizmente. As promessas podem ser muitas – e são – e não necessariamente ligadas a aventuras, digamos, com o sexo oposto, esporte assaz aprazível, mas que deixo pra rapaziada descompromissada.

Esclarecido tão importante pormenor, voltemos à vaca fria das aventuras paulistanas.

Há quem goste de explorar restaurantes, no sentido de descoberta, e não no sentido de tirar o couro do pobre dono do mesmo, coisa para a qual um amigo é particularmente dotado. Ele freqüenta rodízios diversos, de sushi a pizza, passando pelo churrasco, e também alguns “por kilo” de boa cepa e que fazem, num dia fraco da semana, a promoção do coma quanto quiser a preço fixo. Tanto explora os restaurantes essa figura, que, apesar do salário, anda num carro 2006 e já pensa num 2008. Estou certo que consegue tal milagre com a economia na alimentação, pois só toma café da manhã e depois o lauto almoço. O resto do dia e a noite, só água, uma frutinha ou uma cervejinha com tira-gosto, devidamente rachada com amigos diversos. já os bons exploradores de restaurantes e não exploradores dos donos de restaurantes, saem de casa à caça do novo, do inusitado, do exótico. Vão ao Fasano comer omelete com trufas brancas, assim como vão ao Mercado Municipal se empanturrar com um daqueles gigantescos sanduíches de mortadela. Já joguei nesse time em tempos distantes. Não jogo mais. Teria que olhar meu saldo bancário antes de sair e quem precisa fazer isto não tem caixa para explorar restaurantes. Melhor ficar no “por kilo” amigo e economizar na balança. Faz bem pra saúde do corpo e do bolso.

Outra boa aventura paulistana é andar pelos sebos. Claro, para isso tem que gostar muito de livros. E bota muito nisso. Tempos atrás fui à casa de família de nossas relações. Sozinho, meio abandonado, flagrei-me fazendo o óbvio (para mim): procurando um bom jogo na tv. Não tinha. Passei, então, para o item número 2 da pesquisa de coisas para passar o tempo: procurei livros.

Jacaré achou?

Nem eu.

Nem unzinho para fazer um chá de emergência. Nada, nadica, neca de pitibiriba. Pensando bem, se tivesse algum seria de auto-ajuda e aí eu é que estaria fora.

Mas, concordo, andar por sebos e manusear livros velhos é tarefa meio chata, além de propensa a provocar espirros e alergias a pessoas mais sensíveis. Meu lado troglodita me poupa desses dissabores.

Todavia, nesse sábado em particular, talvez por estar bem abastecido de livros novos e releitura de velhos, não me senti animado a calcorrear sebos.

Ah, sim, sábado seria o dia perfeito para sair de casa cedo e chegar ao shopping de madrugada – dez horas da manhã -, quando ele ainda está vazio. Aí, era só dar um pulo a uma das duas cafeterias Starbucks, onde poderia, enfim, provar um ou dois de seus tão famosos cafés, agora presentes aqui na Terra de Vera Cruz, sem pegar fila, que mesmo sendo charmosa, como disse um amigo que suportou-a, continuaria sendo uma fila, coisa que eu detesto sobremaneira. Pois muito bem, isso, sim, seria uma aventura digna desse nome, digna de merecer uma crônica, que, além disso, far-me-ia mais bem visto aos olhos de meus sete ou oito leitores de ambos os sexos.

Hummmmmmm...

Chuvinha fina, tudo tranquilo, cachorros cuidados e dorminhocos, uma cama gostosa e um livro cativante e... peguei no sono, acordei quase onze horas da manhã, e aí, adeus Starbucks. Fica para outro dia tão deliciosa aventura.

Criei coragem e botei os pés fora de casa. Na falta de uma Starbucks, parei na Kopenhagen aqui da Granja mesmo, ao lado da livraria, onde folheei dois ou três livros e comprei uma revista. Com ela na mão, entrei no templo das perdições, digo, na Kopenhagen, e tomei um capuccino como se deve.

Voltei para casa, onde li, editei vídeos, assisti a um joguinho gostoso e fui dormir cedo.

Para a aventura, ou aventuras, ficou o domingão.



Domingo logo cedo, os cachorros e os jovens vizinhos fizeram-me o favor de acordar antes das cinco da manhã. A rapaziada chegou da balada e acharam por bem prolongar a dita cuja a uns vinte metros dos meus ouvidos.

Despertada antes do tempo, a cachorrada achou que já era hora do café e fez o pedido como de costume, aos latidos. Retruquei no mesmo tom e aquietaram-se, mas Inês era morta e o sono perdido. Peguei um livro e li até seis e meia, quando o dia começou.

Caminhei, o que, sem dúvida, foi uma aventura, visto que escapei da chuva e corri o risco de ser pego em meio a terrível tempestade com raios aos montes. Nada disso aconteceu, mas poderia, né? É o que basta para configurar uma aventura.

Contudo, o domingão é dia de aventura, para isso basta ter a coragem de abrir o Estadão e a Veja. É batata! São tantas as tragédias e riscos ali relatados que a leitura em si é uma aventura de certa periculosidade. Primeiro, para o humor, vítima contumaz dessas leituras. Segundo, para a saúde dos corações sensíveis. Terceiro, para a fé e a esperança no futuro e...

Caraca, deixa isso quieto, essa crônica deveria ser leve, exceção feita ao churrasco inaugural.

E assim se passou o tempo, praticamente duas semanas que agora findaram, no esqueminha home alone. Não posso negar que vivi portentosa aventura, ao comprar uma pequena peça de bacon, escolhida a olho e dedo, e depois fatia-la fininha, de cabo a rabo, e tacá-la na frigideira. Bem frito o bacon, por cima joguei dois ovos mexidos e, por último, queijo. No prato, pão integral, no copo, Diet Pepsi. Eu sou um cara assim, sem meias medidas: adoro viver perigosamente. Claro que, depois, cereais, maçã, etc e tal.

As tarefas domésticas e caninas tomaram-me tanto tempo que pouco dele restou pra ficar escrevendo e lendo na internet. Pensei que sofreria uma overdose de programas esportivos, mas qual! Pouco assistí, em parte por certo enfado motivado por essa época do ano vazia de emoções futebolísticas nessa Terra de Vera Cruz, em parte por falta de tempo, mesmo.

Colhi acerolas, tarefa agradável e divertida e acho que foi só.


Como “cigarra” solto na grande cidade eu sou um completo fracasso. Pra azar de quem leu até aqui, esperando por uma escorregadela, uma pisada na bola, uma besteira qualquer.

Sorry.


P.s.: fica a promessa de ir à Starbucks qualquer dia desses; depois eu conto tudo.


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sexta-feira, janeiro 12, 2007

Colhendo frutas e pensamentos à toa


“Triste vida, triste sina,

Ser poeta de latrina.”

Inesquecíveis versos dos tempos de infância e adolescência. Esses versinhos singelos decoravam todas as portas de todos os banheiros públicos – escola e restaurantes, basicamente – em que a gente entrava numa hora ou noutra. Aliás, parece-me que naqueles tempos movidos a ônibus e até bondes, usar banheiro fora de casa era mais comum que hoje, quando só nos movemos a carro particular, garantia falsa de chegar mais cedo em casa a tempo de fazer tudo que se precisa fazer em casa mesmo.

Essa velocidade maior da vida moderna talvez tenha acabado com esses poetas marginais, capazes de criar versos tão simples como imorredouros.

A grande questão que esses versos levantam, entretanto, é outra: a troco de que apareceram nesse blog, nesse momento? Que estranhos mistérios terão conduzido meus desocupados neurônios a algum arquivo perdido nos meandros da memória para resgatá-los? Não sei, ignoro totalmente. Falta de ter o que fazer não é. Ainda hoje preciso varrer a casa, passar aspirador, lavar a louça, preparar alguma coisa pro almoço, limpar o gramado (eufemismo para catar cocô de cachorro), etc. Das tarefas previstas para hoje, só fiz uma: colhi mais acerolas e guardei-as no freezer.

Colher é uma das mais fascinantes e, com certeza, a mais antiga tarefa da humanidade. Antes de sermos caçadores fomos coletores de frutos e raízes. Com elas, alguns insetos, ovos, um ou outro passarinho bobo... Até que um dia aprendemos a andar eretos e aprendemos a caçar, a fazer armas, a fazer fogo, a comer comida cozida e não mais crua. Assim nasceu o rodízio de carnes, também chamado de espeto corrido, a centenas de milhares de anos nos planaltos do Kenya.

Colher uma fruta é algo primitivo e fascinante, e ao mesmo tempo gratificante, ainda mais se a árvore tiver sido plantada com suas próprias mãos. É inevitável nessas horas um sentimento de gratidão e respeito pela natureza nos dominar. Nesses momentos, fica clara nossa dependência não de chips e celulares da hora, mas de coisas mais prosaicas como uma fruta, um grão, um ovo, um pedaço de carne de outro ser antes vivo como nós. Na Idade Média, o paganismo estava associado justamente às pessoas do campo, que punham a comida na mesa e por ela agradeciam, não necessariamente ao mesmo deus dos cristãos, embora eu ache que se tratava apenas de uma diferença semântica. Creio que mesmo um cristão não deixa de reconhecer a presença de Deus na natureza e suas muitas manifestações.

Enquanto colho as acerolas os cachorros se divertem. Pegam as frutinhas, verdes e maduras, que pendem dos galhos mais baixos. Às vezes, para pegar alguma mais alta, erguem-se sobre as patas traseiras e praticamente se debruçam sobre um galho que se verga até tocar o chão. Pegam, mais por farra, as frutinhas, mastigam e engolem, com semente e tudo. Em mais dois milhões de anos é capaz que um ramo evolutivo leve-os a se tornarem vegetarianos.

Esse pé de acerola e o ipê na entrada de casa mantêm-nos em permanente ligação com o campo. As frutas já bicadas deixo para os passarinhos, assim como as mais altas, difíceis para mim, fáceis para eles. Sanhaços e sabiás são as visitas mais freqüentes, mas já vi saíras coloridas pulando de galho em galho. Na pracinha em frente de casa, uma ameixeira meio escondida por outras árvores, faz a festa dos sagüis e dos pássaros.

Normalmente o jornal do dia é jogado próximo das árvores. Logo cedo, enquanto o leite pras cachorras esquenta no fogão, vou até a rua e pego o meu exemplar. Enquanto as árvores, frutas, flores, pássaros, sagüis ficam para trás, tiro o jornal de seu saco plástico e começo a passar os olhos pelas manchetes.

Descobri. Acho que foi isso que me trouxe à mente a velha poesia:

“Triste vida, triste sina,

Ser poeta de latrina.”


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