terça-feira, junho 24, 2008

Árvore da moda


Esse negócio de genealogia, de fazer ou pesquisar sua árvore genealógica anda encantando a gregos e troianos e também a chineses. Está na moda ou, como podemos dizer no ‘brasilianês’ corrente, tá meio que na moda.

Movido pela curiosidade, certo dia bati o olho num livro sobre brasões portugueses e, claro, procurei pelo brasão dos Gonçalves. E não é que existe um? Não tenho a mínima lembrança de como seja ou deixe de ser, mas vi o desenho no livro. Algum tempo depois, mas também há muito já, bati os olhos em outro livro assaz interessante, que listava todos os sobrenomes italianos. Aqui encaixa melhor um “todos”, pois minha folheada foi o suficiente para descobrir que meu Brassaroto ou Brassarotto materno não está listado. Será que é porque é calabrês e o livro terá sido escrito por gente do norte rico, elegante e metido a nobre? Não sei, e como não comprei o tal livro – por inútil e por ser caro – não tenho também a menor idéia sobre o porquê de tal desfeita conosco, os Brassarotos, ou Brassarottos.

Recolhido novamente à minha insignificância nominal, esqueci o assunto que nunca foi, de fato, um assunto. Até que, recentemente, comecei a receber insistentes e-mails, todos na categoria chata dos spams, propondo traçar minha árvore genealógica. Dada a quantidade de tempo perdido no envio de tantas mensagens, o negócio deve ser muito bom e faturar o bastante para manter ocupados o pessoal ocupado com essa tarefa. Ou tão ruim que isso nada mais é que mero desespero de quem precisa faturar um trocadinho qualquer,e por isso dispara contra tudo e contra todos. Já aviso que estou fora do mercado e não quero saber de minha árvore genealógica, mas sei que isso não resolverá e breve receberei novos e-mails.

Até dá vontade de conversar com o “pesquisador”, só para ver sua cara quando eu disser que minha bisavó materna era uma índia do sertão das Minas Geraes. E aí, ‘mano’, como ficará sua pesquisa?

Entretanto, se o mundo gira, a Lusitana roda e a vida piora, eis que o jornalão da segunda-feira traz interessante matéria sobre o sábio chinês Confúcio. Também conhecido por Kong Fuzi.

O Honorável Kong Fuzi voltou à moda – da qual nunca saiu de verdade – no Império do Meio ou Império do Centro, como se autodenominou a China desde antes de Cristo. Mesmo durante o período de dominação do Camarada Mao e seu Livro Vermelho, Kong Fuzi pareceu-me estar na origem de algumas máximas do líder da Grande Marcha e hoje reconhecido apreciador de meninas na flor da adolescência iniciada. Além disso, por mais revoluções culturais que fossem feitas, uma cultura tão antiga, tão arraigada nos corações e mentes dos chineses não seria extirpada assim, de uma hora para outra. Isso lembra um pouco, sem o banho de sangue, a mania brasileira de querer mudar o mundo, a vida e a realidade por meio de leis, decretos e, muito pior, decretos-lei. Una tontería, por supuesto.

Confúcio voltou a ser estudado nas escolas chinesas e como tudo na China é gigantesco, assim também é o número de estudantes que mergulham em sua obra nesse momento: mais de dez milhões.

A China assusta...

Mestre Kong Fuzi era um sábio que dava extremo valor às virtudes, em especial nos governantes, e à família.

Parênteses: vivesse ele nos dias de hoje em certo país grande e sacana ao sul do Equador e já teria pirado, para dizer o mínimo. Ou teria migrado para algum lugar como Harvard ou Sorbonne, onde falaria sobre esse país grande, sacana e sobretudo bobo.

Por falar em família, e como esse texto começou falando em árvore genealógica, estima-se em três milhões o número de descendentes de Kong Fuzi. Dizem, inclusive, que os modernos Kongs quando se identificam com esse sobrenome, são tratados com mais deferência que os mortais comuns. Se você, leitor, achou três milhões um número muito alto, fique sabendo que o último levantamento digno de crédito, feito em 1998, apontou para 1,3 milhão de tatatatata-qualquer-coisa-neto do Mestre.


É a maior árvore genealógica do mundo.

É gente pra burro, mas também, pudera, estamos já na 80ª geração pC – pós-Confúcio.

Pensando nessa tal deferência e na proximidade dos Jogos Olímpicos, tive um estalo – creio que o próximo, agora, só em 2009 – e associei Gonk com Kong.

Sim, por que não?

Kong e Gonk são próximos foneticamente, e todos sabemos como novos usuários modificam palavras estrangeiras para adaptá-las ao seu falar de todo dia. Um bom exemplo disso pode ser observado ouvindo-se as conversas que rolam entre a garotada. Todos falam um tipo de português que, para mim, precisa de tradução simultânea para entender plenamente.

Quem me diz que Gonk, derivado de Kong, não tenha virado Gonçalves em tempos remotos e medievais?

Isso transformar-me-ia num descendente do Velho Mestre.

Assim sendo, quem garante que o governo da República Popular não convidaria esse modesto pseudo-descendente e blogueiro para alguma solenidade confucionista em plena disputa dos Jogos Olímpicos?

Como vocês podem ver, uma prova a mais de como o mundo é movido por interesses.

Mas é só brincadeira: agora, falando a sério, sou pelo Tibet Livre.

Logo, eu e o governo da RPC não nos bicamos.


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sexta-feira, junho 13, 2008

Estação das flores, agora

Em plena boca do inverno?

Exato! Por incrível que pareça, final de outono e todo o inverno, até o começo da primavera, é para mim uma verdadeira estação das flores. Talvez por causa da floração dos ipês-amarelos, roxos, brancos e rosas.


A caminho do sítio, a Via Anhanguera é uma festa roxa nesse momento. Ou já foi, pois a florada do ipê-roxo e de seus primos não é muito persistente.

Há duas semanas, em nossa última viagem, algumas árvores estavam cobertas pelas flores roxas, enquanto outras já mostravam parte dos galhos, que ficarão expostos até o começo das chuvas. Amanhã ainda é possível que vejamos os ipês-roxos retardatários.

Se acontecer, vou parar o carro e “perder” alguns minutos, olhando, andando, procurando um bom ângulo para uma foto.


Agora já dá para fotografar de novo, com o retorno da minha câmera das terras e águas de Malásia, Indonésia, Cingapura e África do Sul, por onde ela perambulou a tiracolo de minha filha e meu genro. Estou certo que minha brava H 7 ficará feliz em voltar a fotografar flores, vacas, gatos e pastos, depois de uma verdadeira overdose de ondas, ondas, ondas e surfistas.


Não são apenas os ipês que dão o ar da graça nessa época.

Tem o cipó-de-são-joão, cobrindo barrancos, cercas e até arvores.




No (tentativa de) jardim do sítio, as russelias, diademas e grevíleas já estão a postos, recebendo os beija-flores, assim como os camarões e algumas unhas-de-vaca nos arredores.



O que também gosto nessa época do ano é que os beija-flores são mais visíveis, talvez por não haver muita abundância de flores nas matas, o que faz com que eles visitem os jardins com mais freqüência, facilitando as fotos.




Nem vou falar das temperaturas de outono e inverno, devidamente aproveitadas com vinho, sopas e fondues. Ou melhor, até falarei, mas não agora. Enquanto não faço novas fotos “modelo 2008”, deixo algumas de 2007.



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sábado, junho 07, 2008

Uma noite, 29 e 19 anos depois de outras

Quarta-feira, começo de junho, noite fria em São Paulo, mas não muito. Noite paulistana, daquelas que dão um prazer enorme por simplesmente poder sentir o frio gostoso e aconchegar mais a blusa ou a coberta. Essas noites são mais quietas, mais tranqüilas, a cidade que pulsa sem parar cada vez mais e mais depressa... relaxa.

Saímos do cinema no shopping na beira da Raposo Tavares e primeiro meu ouvido, depois meu olhar, foram atraídos pelo espoucar dos fogos e o brilho dos rojões estourando no céu e iluminando a noite sobre o Estádio do Morumbi, a uns três, talvez quatro quilômetros em linha reta. Naquele momento o time do Corinthians entrava em campo e a torcida fazia sua festa. Apesar da paixão pelo futebol, naquele momento meus pensamentos andavam distantes dali, muito distantes e divididos entre os ídolos que vi na tela e o mestre, guru, mentor, sei lá como definir, cujo último, derradeiro livro acabara de comprar.



Indiana Jones IV


Vou falar dos ídolos, primeiro. Spielberg, Lucas, Harrison Ford e, claro, mais importante que eles, Indiana Jones. Reparem não, dou-me o direito dessa liberdade, separando criatura de criadores e dando a ela importância maior do que a quem deu-lhe a vida.

Em outra noite, já perdida na memória, saía de um cinema fascinado por mais uma aventura de Indy, dessa vez ao lado de seu pai, e perguntava-me, perguntávamos todos uns aos outros e a nós mesmos, quando veríamos o Indiana Jones IV. Dependesse de nós, apenas, isso já ocorreria no dia seguinte, ou na semana, no mês, o mais tardar no ano seguinte.

Porém, não foi assim. Passaram-se nada menos que 19 anos, o tempo de uma vida, o tempo de uma geração, para que sonhássemos novamente, com mais uma aventura do professor de arqueologia que conquistou nossos corações e mentes.

Falar o que desse novo Indiana Jones?

O mínimo e o máximo que posso dizer é que é mais um Indiana, e isso, para quem conhece e gosta, já diz tudo.

Nesse episódio, cujo final deixa sutis sinais de um quinto – quem sabe? – episódio, Lucas, Spielberg e Ford não deixam passar em branco o que vive hoje a mais rica e poderosa nação do planeta. O Indy de quem o FBI de Hoover suspeita e do qual ele reclama acidamente, é a personificação da Lei Patriótica de Bush. Sua frase “estão enxergando comunistas por toda parte”, nada mais é que a transcrição da realidade presente, onde as forças de segurança enxergam terroristas onde outrora McCarthy e seus seguidores enxergavam comunistas. Eu gostei, afinal, cresci num tempo em que dissecávamos um pueril verso perdido numa música, procurando nele significados ocultos de crítica ao sistema, ao regime militar. Sou da geração dos caçadores de sinais perdidos que desafiavam a censura dos generais.

O filme tem vários outros sinais, ou referências, facilmente percebidas para quem assistiu os anteriores.

Dezenove anos depois... O tempo passou, mas para minha mente sonhadora parece que foi ontem que deixei o cinema feliz depois de ver o Indy III.



“Carne Viva”


Terminado o filme, não poderia ir embora sem passar pela livraria. Ando em falta com esses locais maravilhosos, tão importantes na minha vida. Carregado de culpas, venho comprando meus livros pela internet, todos eles. É barato, sobretudo, e prático, mas tremendamente sem graça, sem charme, quase sem prazer. Nessa noite de quarta mudei meu script e comprei um livro na livraria sem ser a do aeroporto. Uma compra que não poderia, jamais, deixar de fazer: o último livro de Paulo Francis, para mim, ídolo maior que os cinematográficos e, mais que ídolo, guru, qualquer coisa assim, como já disse.

Comecei a ler Paulo Francis no Pasquim, uma coisa ou outra. Também li no Opinião, antes de começar a lê-lo na Folha, que só comprava nos dois dias da semana em que ele escrevia. Isso foi no começo dos anos setenta e eu nada, ou quase nada, sabia do mundo d’além Brasil. Ou d’além São Paulo e Minas Gerais, que era tudo que conhecia. No final daquela década, mais vivido, mais lido, mais sabido, na minha opinião, e já um quadro partidário, ainda militando numa clandestinidade mais light, por força da distensão lenta, gradual e segura de Geisel, li seu primeiro romance, “Cabeça de Papel”.

Marcou-me.

Antes que os 70 terminassem, veio o segundo, “Cabeça de Negro”, outra cacetada. Na noite de seu lançamento em São Paulo, vi Paulo Francis ao vivo pela única vez na vida. Trocamos meia dúzia de palavras protocolares, enquanto ele punha singela dedicatória e assinava meu exemplar, que conservo com carinho e ciúmes extremos até hoje.

Os dois “Cabeças” fizeram minha cabeça, abriram-na até sem grande dificuldade, pois ela já estava preparada, já percebia ou intuía que muitas de minhas fracas crenças eram mortas e sepultadas, como Inês.

O papel, a ação e a importância das esquerdas, que eu já revia a duras penas, sozinho, ressabiado, inseguro, ganharam novos contornos e certezas com essas leituras.

Descobri que a visão que eu tinha do Brasil, meio bagunçada e com vergonha de expor e comentar, não era coisa unicamente minha. Paradoxalmente, até melhorei minha visão e consolidei minha visão da Revolução de Outubro. Paulo Hesse e Hugo Mann, os protagonistas, fizeram mesmo minha cabeça.

Desde aquela noite ainda mais distante, vivida num outro país, num outro mundo, numa era em tudo diferente dessa e em tudo semelhante, sem tirar nem pôr, esperamos pelo terceiro e prometido “Cabeça”, talvez nunca escrito, talvez rascunhado, o livro que dar-nos-ia a chave para fechar nossa compreensão sobre o Brasil.

“Carne Viva” não é o fechamento da trilogia, é somente o último romance de Francis.

Pena que não seja o final da trilogia, mas não importa, Paulo Francis está nele e isso basta. Comecei a leitura, ainda não acabei. Vários compromissos tiram o tempo que deveria ser da leitura. Ele terminou de escrever “Carne Viva” talvez um ano ou pouco mais antes de morrer, em 1997, mas já deu para perceber que o olhar de Francis continua arguto e, vá lá, usarei a palavra que queria evitar, premonitório, tal como em “Cabeça de Negro”, principalmente.

A noite dessa quarta-feira ficará em minhas lembranças. Não pelo futebol de Corinthians aqui e Fluminense no Rio, mas por esses reencontros tão ansiados, tão sonhados e enfim realizados.

Assistam o filme e, principalmente, leiam Paulo Francis. Ele, melhor que qualquer outro, ajuda muito a entender o Brasil.


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quarta-feira, junho 04, 2008

Machismo no Sítio das Macaúbas

Pois é, vejam só, contrariando o momento histórico presente em que o machismo apresenta nítido viés de baixa (obrigado, companheiros economistas do BC e arredores), por sinal corroborado por amigo meu, escritor de muito saber e observador arguto da vida nas grandes cidades, no Sítio das Macaúbas o maledeto desvio apresenta franco e preocupante viés de alta.

Que digo? Viés?

Nada disso, já deixou de ser tendência para assumir claríssima predominância. Digo, entristecido, que a situação fugiu ao controle que, diga-se, nunca tive, e hoje é uma das minhas fontes de aborrecimento e, por extensão, de prejuízo. Justamente agora...

Nos últimos sessenta dias recebi – contei direitinho – nada menos que sete ligações de interessados em comprar minhas bezerras e novilhas e até mesmo as minhas vaquinhas adultas remanescentes. Como sete é conta de mentiroso, o número real de ligações foi de nove ou dez, mas o número de interessados é de sete mesmo. Não declino seus nomes aqui por tratar-se de assunto que envolve o sigilo comprador-vendedor de gado, mesmo que, na atual conjuntura, eu não mais seja vendedor de gado. Mas garanto o sigilo, sabem como é, noblesse oblige.

Tantos telefonemas têm sua razão de ser: estão todos entusiasmados com o leite. Minha mulher, cética, olha tudo e diz que já viu esse filme antes. Eu, igualmente entusiasmado, retruco dizendo que também já vi esse filme de incontáveis reprises, mas saco do bolso do colete que não tenho os nomes mágicos: China e Índia. Falo da preocupação da ONU com a alta dos preços dos alimentos, manejo com certa maestria, modéstia às favas, os números de habitantes e crescimento dos PIBs dos distantes e populosos países asiáticos, com a emergência do que se pode chamar, neles, de classe média, contadas de dezenas em dezenas de milhões de pessoas, e mais o crescimento das áreas agrícolas voltadas à produção de biocombustíveis, com a conseqüente diminuição das ditas áreas destinadas à produção de alimentos, inclusive leite e laticínios, como os danoninhos da vida, concluindo, meio professoral, meio bobo alegre, que a melhoria dos preços, dessa vez, é sustentável.

Abro um parêntesis: quer impressionar e ver uma fala ou um texto passar batido pela platéia ou leitores, deixando em todos a sensação de que você entende do que fala e tem informações que mortais comuns ignoram? Quer mesmo? É fácil: use “sustentável” ou, de preferência, “sustentabilidade”. É tiro e queda, garanto. Não importa que você não faça a mínima idéia se isso ou aquilo tem ou é passível de ter auto-sustentação. Pode usar uma dessas palavras, é tiro e queda. Lembra da fase em que “cidadania” e “republicano” eram as palavras de ordem? Pois então, é meio por aí.

Como dizia, dessa vez eu acredito que a melhora nos preços dos alimentos é mais firme, é mais estrutural que conjuntural, logo, é sustentável, sim. A menos, é claro, que uma catástrofe planetária abata-se sobre nós, mas aí, vamos e venhamos, não há sustentabilidade que resista. Só sei que o leite está em alta firme, todo mundo anda querendo produzir mais leite, aumentar sua produção, voltar a produzir, entrar no mercado como produtor de leite é uma febrezinha, coisa aí de uns trinta e oito graus, longe ainda dos quarenta, mas uma febre.

Na manhã de segunda-feira, estava na Casa da Lavoura entregando minha nota de compra de vacina contra aftosa com o respectivo relatório com o número de cabeças e coisa e tal, e, como de hábito e manda a boa educação, trocava dois dedos de prosa com uma pessoa importante para todos nós, criadores pequenos: um negociante de gado. Há quem fale mal deles, mas eu falo bem. São eles que dão liquidez ao mercado e, pagando pouco ou mais ou menos, nas horas de aperto podemos recorrer a eles para desatar os nós que nos apertam. Pois bem, lá estávamos de bate-papo sobre as minhas novilhas e bezerrinhas (sim, ele foi um dos sete), quando chega um cara com todo o jeito de produtor de leite (o relatório de vacinação nas mãos foi mero detalhe) e, depois de cumprimento rápido, solta um “Me arranja umas vacas, tô precisando de leite!” e entra no escritório dando risada. Ora, falar tal coisa para um negociante é o mesmo que pedir para cobrar o que quiser cobrar, estou disposto a pagar. E o produtor que soltou tal pérola, totalmente contrária às mais elementares normas de conduta no mundo dos negócios e do leite em particular, não era novato entusiasmado e bobo como eu, não mesmo, era produtor vivido, já adentrado em anos, e leite-dependente ou, para ser chique, galactodependente (pois aprendi com o amigo escritor citado na abertura que galacto e leite são a mesma coisa, e nada como ser chique e instrutivo num texto como esse).

Portanto, aí está, vacas, novilhas e bezerras estão na crista da onda em Santa Rita do Passa Quatro e por toda parte, o que me deixa feliz, mas também meio entristecido, dado o pequeno detalhe que tenho poucas de cada e nem posso pensar em vendê-las, sob pena de ficar a zero.

Ah, é verdade, o machismo. Você, leitor, do sexo masculino, já nem lembrava mais do início dessas garatujas eletrônicas, mas, esteja certo, as companheiras leitoras (sorry... vício de linguagem) com certeza lembram e já estão a cobrar desse escrevinhador uma explicação para esse machismo que assola o Sítio das Macaúbas.

O diabo é que o trem descontrolou e, ao menos por ora, não sei como fazer para recolocar as coisas nos trilhos. Na natureza, o comum, normal e desejável é que a cada dois nascimentos um seja de macho e um seja de fêmea. Ou, numa base maior, cinco para cada lado a cada dez nascimentos, podendo chegar a 51x49 a cada cem, ora pendendo para o lado da setinha, ora para o lado da cruzinha. Todavia, no Macaúbas, os últimos 4 nascimentos foram de machos. Quatro em quatro, justamente nesse momento. É como eu ouvia na infância: pobre é tão azarado que quando chover sopa, todo mundo estará de colher e ele de garfo.

Estou de garfo nessa chuva de sopa de leite.


Para adoçar a opinião das leitoras sobre esse escriba, segue a foto de mãe e filho. O danado é machinho, mas é bonitinho e muito esperto.


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sábado, maio 24, 2008

Notícias do lado de lá do planeta


(Ora, o planeta é um globo, portanto não tem lado, mas quem liga pra isso?)

“...estamos no meio da selva de Java (Grajagan, lembra da foto do por do sol?!) - uma loucura! Essa aventura é para apenas UMA vez na vida! Aqui é jungle mesmo, animais, floresta, mar, e até pessoas...

Mas é uma experiência muito bacana de vida”

O e-mail, curto como os outros, é da minha filha, Carolina, que com o marido anda por Bali, Mentaway, Grajagan, Kuta, nas águas e terras da Indonésia. A caminho de casa, farão mais uma parada, dessa vez na África do Sul, para mais ondas numa praia também famosa pelas visitas dos tubarões brancos. Em outro e-mail ela disse que as ondas são “animais”. Num outro, espantada com a quantidade absurda de turistas em Bali e região, disse que se tivéssemos um terço daqueles turistas nessa Terra de Vera Cruz, ela e o Rodrigo seriam ricos e iriam surfar em Bali & adjacências todo ano.

Eis uma hipótese que não me agrada em nada: eles em Bali & adjacências todo ano.

Cresci lendo e assistindo filmes – lembram de Krakatoa, o Inferno de Java? – rodados (ou não) naquelas montanhas e águas, povoadas por vulcões e caçadores de cabeças. Os primeiros andam adormecidos, felizmente, enquanto os segundos simplesmente espalharam-se por muitas partes.

Desde que eles viajaram, logo depois do ciclone sobre Burma, ou Myanmar, como querem os assassinos uniformizados que dominam o país, olho mais preocupado que o normal para tudo que acontece por lá. Enquanto ainda segue a contagem das vítimas e os órgãos internacionais de socorro humanitário tentam permissão – conseguida a duras penas, com muitas restrições – para entrar no país, acontece o terremoto em Sichuan, terrível, quase 8 na escala Richter, logo seguido por outro, menos intenso, mas que também provocou mais mortes e danos.

Não bastassem os cataclismas naturais, agravados pela insânia humana, essa última se revela agora em toda sua bestialidade, em plena África do Sul, onde os pobres e miseráveis perseguem, torturam, estupram e matam das formas mais cruéis outros pobres e miseráveis. Tudo por causa de emprego, a disputa por poucas vagas de trabalho e míseros salários, insuficientes para nada mais além da mais precária sobrevivência.

A cada novo ano que entra, a cada novo ano que acrescento aos que já vivi, aumenta minha vontade de ficar recolhido ao meu ninho, minha toca, meu buraco. Não sei se isso é conformismo, medo ou comodismo, ou somente preguiça, é um prazer cada dia maior simplesmente ficar em casa, seja na Granja, seja no Sítio, e conviver com as coisas que me são caras.

De certa forma esse desejo é alimentado pelo fato do mundo estar à minha frente todo dia, toda hora, como, por sinal, nesse momento em que escrevo. Acabei de deixar para trás a edição digital do New York Times de hoje. Não perdi tempo lendo sobre a insana batalha de Hillary contra Obama. Bobagem, dará Obama e ponto, quanto antes melhor, na indicação democrata. Depois, contra McCainn, a história será outra, provavelmente com o mesmo final: Obama. As minúcias do dia-a-dia dos três já não me interessam, ao contrário da manchete do NYT: 270 imigrantes ilegais condenados.

A administração Bush parece um tormento sem fim. Já falei antes e repito: nela, o que abomino e deixa-me amedrontado, não é sua sanha intervencionista em outras nações, ao fim e ao cabo limitada ao Iraque (o Afeganistão foi outra história, na minha opinião), mas sim a sua sanha intimidatória e repressora dentro dos Estados Unidos, contra cidadãos, tanto americanos como, principalmente, estrangeiros. O rigor da Imigração contra os ilegais no país recrudesceu. De maneira geral, esse tipo de ação agrada às massas, historicamente.

Esse caso, por exemplo, é típico: as autoridades fizeram um raid, ou blitz, no estado de Iowa, e somente num grande frigorífico prenderam 389 trabalhadores. Desses, nada menos que 270 foram condenados a 4 meses de prisão, após declararem-se culpados. Caso não o fizessem, seriam julgados por uma coleção de outros crimes, cujo resultado seria uma pena mínima de dois anos de detenção. O dramático, perigoso, assustador e verdadeiramente criminoso nessa história toda, é que tudo isso aconteceu em 4 dias. Apenas e tão somente quatro míseros dias. Os ritos processuais foram atropelados em velocidade de Formula 1. Ou de NASCAR, para ficar dentro do gosto americano.

Contra esse rigor policialesco seguido pela administração sumária da justiça, muitas vozes, as mais diversas, ergueram-se contra, mas são vozes liberais, logo, contam menos que desejável. Essas medidas dignas de estados policialescos, como a ditadura instalada em Burma, não se aplicam somente contra estrangeiros, mas também contra cidadãos americanos – claro que, novamente, com maior rigor e freqüência contra aqueles que, mesmo americanos, têm sobrenomes que não são tradicionalmente anglo-saxões.

É isso que me assusta nesse governo infeliz para o país e o povo americanos, e para a humanidade como um todo. Nesse momento, se há um país para o qual não tenho a menor vontade em voltar, apesar da paixão por muitos de seus lugares, é justamente os Estados Unidos. Será diferente com Obama ou McCainn? Duvido. Ou melhor, sim, haverá diferenças, mas nesses casos eu tenho sérias dúvidas que um ou outro desfaça as armações perpetradas pela administração Bush.

Segue a vida, e do outro lado do mundo Carolina informa que passaram uma noite em Jacarta, a caminho de Kuta e dali para Mentaway, em busca de novas e melhores ondas, uma mais perfeita que a outra.

Precisamos todos de novas e melhores ondas, e que uma delas leve George W e sua tralha fundamentalista para o lixo da história.


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domingo, maio 18, 2008

Política de lá e de cá para pensar aqui


O crime de Obama contra o Islã


Há anos li algo sobre os muçulmanos condenarem à morte quem troca de religião. Essa determinação, chocante e absolutamente contrária a tudo que acredito, ficou adormecida em minha memória.

Com o crescimento da candidatura de Barack Obama e sua origem de pai muçulmano, algo me incomodava, mas eu não sabia o que era. Tampouco dei maior importância ao incômodo, afinal, o moleque Barack perdeu o pai, morou com a mãe, cresceu como cristão, logo, não haveria zonas cinzentas nessa história.

Mas há, e ela é muito mais que cinzenta.

O jornal O Estado de S.Paulo de hoje traz uma matéria que julgo ser extremamente importante, infelizmente. Seu título é “O crime do senador contra o Islã” e sua leitura, tenho certeza, é muito importante e, infelizmente, esclarecedora.

Clique no link:

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080518/not_imp174551,0.php

Não deixe de ler, recomendo pela última vez.

Raios e relâmpagos no horizonte

Uma amiga disse que os Estados Unidos estão mais propensos e mesmo prontos a eleger um presidente negro que uma mulher. É uma tese interessante, na qual eu acreditaria piamente, não fosse o poder (suposto) do voto jovem, entendendo-se por jovem os que têm menos 40 e, principalmente, cresceram e moram nas áreas mais evoluídas (na falta de melhor adjetivo) dos Estados Unidos.

Mas... E a força feminina? Perguntei a um grupo de amigas em quem votariam e a resposta foi unânime: Hillary. Será que suas colegas de idade, classe e cabeça votarão do mesmo jeito? Tenho dúvidas.

Obama lutará contra McCain e contra Hillary, também, não se iludam. O primeiro será seu competidor direto e às claras, disputando voto a voto, em novembro, o direito de presidir o maior país do mundo por 4 anos. A segunda será competidora indireta. A ela, definida por muitos como um animal político, de forma alguma interessa uma vitória do candidato de seu partido, fato que deixá-la-ia alijada da disputa pelo poder supremo até 2016, um ano muito distante para ela pensar em qualquer coisa além de doce aposentadoria, controlando, digo, educando os filhos da Chelsea.

Os ares até novembro estarão perigosos, cortados por toda parte por raios lançados por todos os lados. Entre os mais perigosos, ou mais sujos, estarão os raios do fogo amigo.

Enquanto o mundo avança...

O que acontece conosco, sul-americanos?

Por que sonhamos em viver nos Estados Unidos e ao mesmo tempo, aqui, em nossa casa, jogamos no lixo praticamente tudo que nos faz desejar morar em Norte América?

Lugo, no Paraguai...

Torres, no Equador...

Chávez, na Venezuela...

Morales, na Bolívia...

Gostamos do luxo fora e da miséria em casa, será isso?

Nada como o progresso alheio e a miséria pessoal?

Pobre Latino América, tão rica, tão pobre.


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Reflexões e revelações de uma noite sabatina

Não tenho mais por onde fugir.


(E se você, leitor paciente, já fugiu desse texto iniciado com um “não”, não se preocupe, não irei reclamar de sua ação; sim, não irei porque sei que não se começa um texto com não).


Os argentinos descobriram-me, agora o jeito é ceder e embarcar. Aguardo apenas a passagem e a confirmação da suíte no hotel buenairense de minha escolha, pois o congresso acontecerá na linda capital portenha, embora eu preferisse, mesmo, que fosse na muito mais linda San Carlos de Bariloche, no fantástico Lau Lau. Porém, aprendi em outras eras que a cavalo dado não se olha os dentes. Hoje, contudo, dado o preço do feno, das vacinas, das rações e outras coisinhas mais necessárias ao bem-estar eqüino, não só é o caso de olhar-se muito bem os dentes, como também de pensar bastante a respeito de tal presente. Os custos atuais estão fazendo de todos os simpáticos e maravilhosos cavalos... cavalos de Tróia. Nem por isso, entretanto, abrirei mão de manter o Brioso comodamente instalado no Sítio das Macaúbas, além do que, tão logo me mude, darei a ele a companhia de um ou dois parceiros de pasto & feno. Cavalo é paixão e paixão não tem preço. Tal e qual as minhas vaquinhas.


Os argentinos... Pois é, os hermanos descobriram meus pendores para a arte médica e meus profundos conhecimentos a respeito, associados ao gosto que tenho pelas causas jurídicas que rendem grandes debates nos tribunais, chegando, inclusive, à Suprema Corte.


Ah, vocês desconheciam essas minhas facetas?

Pois não deveriam.


A prova está no convite que recebo a cada oito ou dez dias, lembrando-me, instando-me, mesmo, a participar do VII Congreso Argentino de Derecho Médico y de Salud, a realizar-se brevemente em Buenos Aires.

Não, nem adianta pedir-me consulta médica ou jurídica. Apesar do convite para o Congresso citado, não sou médico e menos ainda jurista. Esse último menos ainda tem sua razão de ser, uma vez que, em relação ao primeiro, como diz o povo, de médico e de louco...


Apesar de ser um sem-diploma na vida, e já em dúvida se o meu diploma da vida é verdadeiro ou veio da China via Ciudad del Este, sou um perito nessas artes, como já disse. Consegui chegar onde cheguei graças ao inestimável aprendizado com os Doutores Gregory House e Alan Shore.


O primeiro, para quem não conhece, médico de grande prestígio entre o povo dos Estados Unidos e do Brasil, mas aqui somente entre os felizes espectadores das tevês a cabo. Dr. House tem muito prestígio, também, entre as classes dos artistas e publicitários. O segundo, o Alan Shore, é advogado de enorme prestígio em Boston, terra de grandes juristas de tradição liberal.


Estamos juntos toda semana, eles na telinha e eu no sofazão, e dessa forma damo-nos muito bem.


Sou craque em diagnósticos estranhos. Já vou adiantando que, dependendo do jeito que a pessoa está à minha frente, de cara já sei se se trata de um caso de lupus ou sarcoidose. Ressonâncias e tomografias são comigo mesmo. Diante de um tomógrafo de última geração, comporto-me da mesma forma que diante de portentosa ilha de edição. Sou fera no assunto. Ao contrário do Greg, porém, meu cinismo é tímido, mais mental que oral. Uma vantagem, segundo alguns, uma enorme desvantagem, segundo a maioria dos pensantes.


Como o Alan, sou liberal e conservador ao mesmo tempo. Gosto de velhos valores (ainda mais se ao portador e penhoráveis), mas apego-me ao seu espírito, não às suas letras, pois também gosto das coisas novas. Sou novidadeiro, se alguém quiser me conquistar é simples: um McBook com 4 gigas de memória RAM, HD de 200 gigas, todo equipado com tudo de direito e muito mais. Taí um negócio simples e que, certeza absoluta, conquista-me totalmente.


De alguma forma a organização do VII Congreso Argentino de Derecho Médico y de Salud descobriu-me e às minhas qualificações. Os vendedores de livros já conhecem meus gostos e enviam-me tentadoras propostas literárias, tão tentadoras quanto as propostas de mirabolantes viagens por todo o mundo. Por sinal, trabalho mal empregado, pois de todo o mundo só interessam-me, a rigor, a Toscana, a Provence, as estepes da Ásia Central, o Himalaia, o Kilimanjaro e a Grande Barreira de Recifes, além de ver ao vivo e a cores alguns grandes jogos em Barcelona e Madrid, principalmente. Portanto, poupem-me das ofertas para Los Angeles, Chicago, mesmo New York – essa, só depois que Obama assumir – e, principalmente, Miami. Tudo, menos isso. De repente dou de cara com o tal Horatio, aquele do CSI Miami, com sua eterna cara de quem comeu demais e não gostou de nada.


De tudo que recebo em minha caixa de entrada internética, tenho ficado incomodado somente com repetidos, inumeráveis e originalíssimos e-mails que me prometem mais 4 polegadas! Mas que diabos vou fazer com mais 4 polegadas?


Um verdadeiro absurdo, principalmente se lembrarmos que a formosa Marta Rocha perdeu o cetro universal porque tinha 2 polegadas a mais.


Eu, hein?


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quarta-feira, maio 14, 2008

Ambiente ao deus-dará

Dona Marina pediu as contas e foi embora. Assim, de repente.

Discordo de muitas coisas de sua ação e omissão como ministra, mas reconheço nela uma batalhadora pela preservação da floresta, principalmente. Nesse ponto o país perde. Mas ganha, na minha opinião, na questão dos transgênicos, que sempre foram combatidos de forma extremada por ela e seu ministério. Um verdadeiro paradoxo, pois os transgênicos permitem a prática de uma agricultura de alta produtividade com menor dispêndio de energia, aqui entendido tanta a energia propriamente dita, na forma de combustíveis e eletricidade, mas também a energia em seu contexto mais amplo.

Ganha o país na questão do etanol e dos biocombustíveis, mas é um ganho perigoso se não houver fiscalização e controle na expansão das áreas cultivadas.

Perdemos, porém, na questão das hidrelétricas na Amazônia. Ainda agora não consigo enxergar com bons olhos as hidrelétricas de Rondônia e, fora de qualquer discussão, Monte Belo, no Alto Xingu, é apavorante, apesar de promessas de baixo impacto e coisa e tal. Para mim não cola.

Quem sabe o país ganhe com a chegada de alguém que ponha o dedo nas feridas ambientais provocadas por militantes ditos “sem terra” e índios? Utopia, ninguém vai mexer com esse pessoal.

Essa minha visão não é “assassina” ou coisa que o valha, é simplesmente realista.

Os invasores messetistas devastam todas e quaisquer áreas, ignorando solenemente compromissos de preservação de 20, 30, 50 e até 70% da área. Abastecem, de forma legal e “legal” o comércio de madeira em muitas regiões, mesma prática adotada por muitas tribos indígenas, hoje muito mais plugadas em antenas parabólicas do que em andar pelados, caçando e pescando com arco-e-flecha. Foi-se o tempo.

Uma área é certa que seguirá perdendo de goleada: a transposição do São Francisco. Nessa, ninguém mexe, é absolutamente intocável, a “grande pirâmide” de Luiz Inácio. Dona Marina omitiu-se vergonhosamente. Isso, tirou-me quase todo o respeito que eu tinha por ela, sobrou apenas o respeito básico devido a todo ser humano e um pequeno respeito por algumas ações, sempre ligadas às florestas.

Agora é ver o que virá. Essa é mais uma demonstração que Lula faz o Governo Lula, jamais o governo que seus defensores imaginavam. Mas isso todo mundo já sabe há muito tempo. Quanto ao ambiente, continuará como sempre ao deus-dará.


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segunda-feira, maio 12, 2008

Ondas e outras coisas


Dia das Mães, por volta das nove e meia toca o telefone.

É minha filha ligando de Bali. Falamos rapidamente, com o devido delay para a voz chegar e voltar, afinal, Bali é longe pra burro, mas não para surfistas. Ela falou só comigo, pois a Rosa tinha saído. Está adorando Bali, é tudo maravilhoso, etc e tal. Ela e o marido não compraram um laptop em Cingapura porque acharam caro. Preferiram deixar para comprar no Brasil, depois que voltarem.

Meu queixo caiu e fiquei sem resposta.

Parece que o real anda mesmo valorizado e o dólar desvalorizado.

Voltando à paradisíaca (dizem, não conheço) Bali, ficarão por ali mais alguns dias, pegando ondas. Depois vão para Mentaway, na ilha de Sumatra. Antes tem outra parada não sei onde, e por fim, já no caminho de volta, Jeffers Bay na África do Sul, lugar aprazível também para ver tubarões-brancos, aqueles mesmos.

Ufa! Só de relatar já fiquei cansado.

Viajar, hoje, é algo plenamente pensável para qualquer cidadão com razoável ficha cadastral, e por razoável entenda-se não ter protestos e ganhar mais de um salário-mínimo. O crédito está fácil, abundante, oferecido e descarado.

Fácil de pegar.

Difícil de pagar.

Como sempre, mas quem pensa nisso?

Felizmente, o casal surfista primeiro guardou os caraminguás e só depois viajou.

Meno male. E certeza que a viagem será lembrada com saudades e carinho.

Mas não estou escrevendo esse post para ser um relato financeiro/familiar/turístico.

O motivo é outro.

Java, Sumatra, Indonésia e outros mais, são nomes que conheço desde moleque. Sempre associados a vulcões, maremotos, terremotos e agora tsunamis. Esse longo passeio por ali tudo, confesso envergonhado, às vezes preocupa-me um pouco.

Por mim, teriam voltado para a verdadeiramente paradisíaca Itacaré – conheçam antes que façam ali um megaporto e destruam tudo – ou para a não menos espetacular Fernando de Noronha.

Mas, o chamado das ondas perfeitas falou mais alto, calou mais fundo em seus desejos.

A ligação para cá foi feita do hotel, imagino. Não quiseram levar seus celulares, talvez com receio de receberem ligações fora de hora e fora de orçamento, o que é pior.

Semana passada meu filho estava em Buenos Aires. Depois de deixá-lo no aeroporto e já na longa viagem de volta de Cumbica para a Granja Viana, lembrei-me de algo a falar com ele. Liguei para seu celular, mas já estava desligado. Bom, paciência, depois eu conto.

Horas depois, ouço o alerta de mensagem chegando no meu celular. Fui olhar e era mensagem do celular dele, já na capital porteña, informando que já estava disponível para receber ligação.

Ora, por que não?

Dito e feito, liguei e quase de imediato começamos a conversar. Assim foi por várias vezes, geralmente uma por dia. Que coisa... É vapt-vupt, liga e alguém atende no outro lado do mundo ou bem ao sul do Rio Grande.

O melhor local e horário para falar ao celular é no trânsito paulistano.

Sim, é proibido, eu sei.

Sim, tem multa, eu sei.

Sim, é perigoso, eu sei.

Porém, quem disse que eu falo com o carro em movimento?

(Até faço isso, mas atire a primeira pedra quem não?)

Falando ao celular o tempo passa e a gente não percebe.

Mesmo à fantástica velocidade de cinco ou seis quilômetros por hora, em algum momento chegamos ao destino e, se conversamos muito e bem, nem sentimos a passagem do tempo.

Para alguma coisa serve o trânsito: conversar pelo telefone.

Para alguma coisa extra serve o celular: suportar o trânsito da Paulicéia.

Queria um livro lá de Buenos Aires, um livro que comprei em conjunto com um amigo, mas, com as mudanças da vida, ficou com ele e nunca mais vi, nem um, nem outro.

A lembrança desse livro me persegue há anos. Agora, com os 40 anos da Primavera de 68, o desejo volta mais forte. Nele, o autor dá imagens inesquecíveis, para mim, do que foi a revolução que não aconteceu, mas mudou o mundo.

O livro é o Ultimo Round, de Cortazar, um de seus livros menos conhecidos e, para mim, um dos melhores. Ora, mas por que eu queria esse livro vindo de Buenos Aires? Porque o que eu quero é o mesmo que eu tive, no comecinho dos 70, a primeira edição, da Siglo XXI mexicana, quebrado em duas partes, como vemos em livros infantis, uma separada, distinta, da outra. Já andei procurando por ele aqui em São Paulo, claro, mas ainda não achei.

Tem na Amazon, claro, mas tá caro pra burro.

Uma palavrinha com São Google e descobri-o em duas ou três livrarias que vendem livros antigos em Buenos Aires. Ah, mas quando vi o preço do livro em melhor estado, desisti: 200 dólares! É muita areia pro meu atual caminhãozinho. Mas hei de encontrar e comprar esse livro. Enquanto isso, se alguém tiver oportunidade, recomendo a leitura. Aliás, recomendo tudo de Julio Cortázar, como, por exemplo, Libro de Manoel, leitura assaz indicada para os dias que correm.

Desisti do Ultimo Round buenairense. Acho que vou encontrar essa obra muito mais em conta por aqui mesmo. Mas ainda vou checar Madrid, Barcelona e México. Afinal, internet e google servem para isso mesmo.


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sexta-feira, maio 02, 2008

Site ou sítio?


Sabem os leitores desse Olhar Crônico e desse Olhar Crônico Esportivo, ou deveriam saber, que sou um amante da língua portuguesa. Também o sou da língua portuguesa falada no Brasil. Não é difícil vocês encontrarem palavras e expressões que no dia-a-dia nosso estão em desuso ou já trancafiadas no arquivo morto.

Desuso e trancafiadas: duas palavras não muito comuns, né?

Para ajudar, esse “né”, que o Houaiss não só reconhece como classifica na mui digna e útil família dos advérbios.

Aliás, até mesmo esse “Houaiss” tem significado próprio, tendo sido empregado como sinônimo de e referência a um dicionário.

Marketing é palavra usual nos meus escritos, mormente no Olhar Crônico Esportivo e, confesso meio sem graça, já usei o vocábulo mercadologia, porém muito mais como uma curiosidade do que propriamente como sinônimo de marketing. Nem dá para comparar um e outro, não é mesmo? Claro que vocês, leitores cultos e bem informados, sabem que esse mormente empregado aí atrás e principalmente ou sobretudo são a mesma coisa, assim como maiormente, do qual mormente é uma contratura – não muscular, mas gramatical. Embora qualquer guri “analfabetizado” por nosso sistema de ensino saiba o que é uma contratura muscular, ele ignora, desconhece, não tem a menor idéia do que seja uma contratura gramatical. Se bem que, verdade seja dita, o comum e correto é dizer contração gramatical e não contratura gramatical. Contudo, contratura é sinônimo de contração, logo, é perfeitamente lógico usá-la para explicar o né e o mormente.

Contudo, contratura, contração... Com tudo isso a razão de ser desse texto perdeu-se em algum lugar lá pra (mais uma contração ou contratura) trás.

Graças ao meu GPS específico para textos, principalmente os metidos a besta, descobri onde foi que fiquei perdido: logo no início. Voltemos, portanto, a ele.

Sabem, também, os leitores, sobretudo os do Olhar Crônico, que sou o feliz, embora acabrunhado, proprietário do Sítio das Macaúbas. Sabem todos os brasileiros leitores desses blogs que sítio é um pedaço de terra usado para a prática agrícola ou para a criação de animais, vacuns na maior parte, os populares bovinos, mas também porcinos, caprinos, ovinos, eqüinos e outros, até mesmo girinos e alevinos, que depois crescem e, mudando de tamanho, mudam de nome, passando a serem chamados de rãs e peixes. Isso é um sítio, local costumeiramente contemplado com belas e desertas piscinas, sonho de onze em cada dez urbanícolas que sonham com uma vida mais doce, quieta, realizadora...

Dizem os dicionários, e somente eles, que sítio é o mesmo que local, lugar, e é, também, endereço.

Apegados a essa visão dicionaresca da cultura e da vida, muita gente boa e muita gente nem tanto, como certo deputado, prega o uso dessa palavra em lugar de site – sáite, em bom português tupiniquim – para designar endereços de internet, as populares romipeiges, ou homepages, como falamos no moderno português praticado nesse imenso bananal.

Que sandice! Coisa mais boba dizer para um amigo: “Acessa o sítio do Emerson, ele escreveu mais abobrinhas.”

“Acessa o sítio... mais abobrinhas.”

Tenebrosa combinação.

A sandice, todavia, não pára em site x sítio. Imaginem, estimadíssimos, que querem deletar de nossas vidas até mesmo o verbo deletar!

Absurdo!

Nada mais latino, nada mais puro, nada mais “última flor do Lácio” do que deletar, derivado do latim delere e deletum. Por sinal, o post anterior do Olhar Crônico foi, justamente, Delenda Itaipu. Sendo assim, não vou alongar-me nesse ponto, mas recomendo a leitura ou releitura de “Delenda Itaipu”. Caso queira, aproveite e printe esse texto na sua impressora, mas procure usar papel reciclado. Esse blog, ou site, ou homepage, é a favor do ambiente, de preferência por inteiro e não pelo meio. Portanto, olhos à obra na leitura ou releitura recomendada. Afinal, chove a cântaros nessa sexta-feira meio-feriado e nada melhor que perder tempo com um pouco de abobrinhas escritas por um blogueiro que gosta da língua viva e em constante crescimento, não necessariamente mutação.

Capisce?


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segunda-feira, abril 28, 2008

Delenda Itaipu


No Senado romano, pouco menos de dois séculos antes de Cristo, Catão terminava seus discursos com uma frase que ficou célebre:

“Delenda Carthago”

Hoje, qualquer bom jogador de vídegame e com algum poder de observação e inteligência, traduziria a frase sem maiores problemas:

“Deleta Carthago!”

E estaria correto, eis a verdade. Porque a raiz de to delete é latina – delere e deletum, o verbo e seu particípio passado – e o português nada mais é que uma derivação do latim, assim como boa parte do inglês. Apesar disso, dizem as autoridades lingüísticas brasileiras que não é recomendável usar o verbo – já é um verbo, ao menos em minha opinião – deletar. Os dicionários e seus autores e, com certeza, aquele deputado que insiste em dar um fim ao uso de palavras estrangeiras em nossa língua –– indignam-se com tamanho estrangeirismo.

Antes de avançar no assunto, um pequeno parênteses: a depender da vontade do nobre parlamentar – tão atarefado com os problemas desse imenso bananal que permite-se ao luxo de desfilar pelas dependências de seu clube do coração abraçado a um dos pais do famoso, burro e há muito sepulto Plano Cruzado – a nós, brasilianos, somente seria permitido falar o mais puro e intocado tupi-guarani, pois nem o nheengatu do Brasil Colônia seria admissível, posto que contaminado por lusitanismos e latinórios diversos. Com certeza, herança deixada por Anchieta, Nóbrega e outros doutos jesuítas que d’além-mar para cá vieram com a Verdade e a Palavra, além de muitas roupas, para civilizar essa Terra de Vera Cruz. Percebe-se, a uma simples mirada, que apenas conseguiram barbarizar o que já era civilizado.

Deletem tudo isso de suas cabeças, pois voltaremos agora ao fio da meada desse texto: “Deletem Carthago!” Como a grande e guerreira cidade-estado da norte-africana margem do Mediterrâneo é só uma lembrança em livros de história e blogs metidos a besta, vamos de uma vez por toda à razão de ser desse texto, ou post, dependendo de onde você o lê, leitora amiga, leitor idem.

Deletem Itaipu!

O novo presidente paraguaio, Dom Lugo, e o “dom” aqui tem duplo sentido, quer porque quer que o Brasil aumente uma barbaridade o preço da energia produzida por Itaipu. Pelo menos 500% de aumento!

O governo bananeiro de Brasília, diz que não pagará um centavo a mais. Quando muito, poderá antecipar pagamentos como prova de amor & carinho pela terra guarani, dessa forma dando uma mãozinha ao governo do país-irmão em sua busca pela felicidade, dólares, euros, ienes, rublos e até reais – não me perguntem em que ordem devem ser citados esses fatores.

Temos um impasse à vista, algo mais chato e que será mais discutido que o gás do Palestra Itália e a falha do juiz no último jogo, qualquer que seja ele. Muito mais chato, até, do que ler a respeito dos múltiplos e indecentes acordos políticos unindo Aécio ao PT, Serra e Kassab ao Orestes. Haja estômago para tanta porcaria.

De um modo ou de outro, com a eleição de Dom Lugo e antes mesmo de sua posse, temos um impasse nesse momento.

Como resolvê-lo?

De preferência, é bom dizer, antes que certo coronel venezuelano arribe em Assunção e resolva peitar o bananal a bordo de seus espetaculares Sukhoy 35.

Para mim a resposta é simples:

“Delenda Itaipu!” – e não se fala mais nisso.

Deletem Itaipu e dêem-nos de volta as portentosas Sete Quedas, que tive o prazer de visitar pouco antes do fim, alguns dias antes do trágico acidente que vitimou um grande número de pessoas que cruzavam uma das suas assim chamadas “pontes”.

Acabemos com o imenso e barrento lago, local preferido por onze de cada dez contrabandistas como rota para seu enorme comércio. O destino de Itaipu, não muito distante já (lembro-me que foi feito um estudo no início dos oitenta, que apontava 2025 como data-limite para seu uso pleno), é a inviabilidade operacional por conta do gigantesco assoreamento de que é vítima a cada nova estação chuvosa. Talvez por conta do maravilhoso plantio direto, prática agrícola que elimina a aração e gradeação e em conseqüência reduz muito, e até elimina as perdas de solo pelas chuvas e ventos, a barragem e sua represa monstruosa tenham ganho alguns anos de lambuja. Mas não há salvação no horizonte, essa é a verdade. Então, antecipemos o seu fim. Quero as Sete Quedas de volta

Melhor isso do que uma nova Guerra do Paraguai.

Quanto à substituição da energia gerada por Itaipu é simples: construam-se cinco ou seis centrais nucleares de médio porte espalhadas pelas áreas de maior consumo e pronto, está resolvida a questão e, como brinde, ganhamos o fim do monstrengo chamado “linhão de Itaipu”. A paisagem agradece.

Ah, energia nuclear é ruim e vai levar à destruição do planeta?

Ok, sem problemas. Voltemos às tabas, malocas e cavernas e não se fala mais nisso.


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quinta-feira, abril 17, 2008

Chegou!


Chegou?

Olha, acho que sim, acho que chegou sim. Jantei sopa duas vezes nessa semana, o cálice de Porto está mais desejado e melhor saboreado, os dias estão mais cinzentos e gostosos e, por último, mas não menos significante, já peguei a minha gripe da temporada.

Sim, ele chegou, o frio.

A mídia já mostrou imagens de Santa Catarina coberta de gelo. Claro que não o estado inteiro, que por sinal tem lugares bem quentinhos, mas uma ou outra localidade em que a geada chegou de madrugada e deixou aquela película fina sobre as plantas, alegria dos turistas e dos desinformados e tristeza dos agricultores. Se bem que agricultor das áreas frias catarinenses não deve ter muito que temer de geadas, mesmo nesse meado de abril.

Falei, propositalmente, “Santa Catarina coberta de gelo”, assim como não me referi a jornais e emissoras de TV, e sim à mídia. Generalizações... A primeira, completamente desprovida de lógica e correção. A segunda corretíssima. Todo aquele Vale do Baixo Itajaí,por exemplo, é região quente, a linda Blumenau que o diga. Assim é por conta da geografia, pois a proximidade do mar, a altitude em relação ao mesmo e a localização das montanhas próximas determina um microclima mais ameno, ou mais quente, para a região. Já a mídia...

Como cresceu a mídia!

Sua leitura inconseqüente desse texto idem, prezada leitora e prezado leitor, é uma prova dessa afirmativa. Sem entrar no mérito de sua qualidade, esse Olhar Crônico é parte da mídia. Com um pouquinho menos de peso que a Veja e o Estadão, claro, típicos representantes da mídia, mas também parte desse conjunto. As duas publicações são parte do subconjunto “mídia impressa”, enquanto esse blog seria parte da “mídia...”, sei lá, eletrônica? Não, essa designação é exclusividade das emissoras de rádio e TV. Cibernética? Bom, taí, gosto desse nome: mídia cibernética. Que seja. Mas tudo é mídia e ela tudo cobre, instantaneamente, seja uma geada em algum recanto catarina, seja a última gafe ou mentira de Lula e Bush, ou ambas as coisas para ambos os líderes. Um, que deveria ser, mas nunca foi aceito como tal depois dos primeiros discursos, o líder do chamado mundo livre. O outro, bom, no que me diz respeito deixou de ser líder quando deixou a vida sindical. Como o meu gosto pessoal não é lá muito relevante, ele segue líder de um monte de gente e gente muito boa.

Alto lá!

Preconceito aqui, não!

Antes de tudo tento ser um cara justo. Os liderados por Lula são, em sua maioria, pessoas excelentes, com suas belíssimas qualidades como pais, filhos, maridos, esposas, sobrinhos, amigos, amantes – ué, faz parte, né? – e outras categorias mais, pessoas como você e como eu. Infelizmente, não posso dizer o mesmo dos associados a ele na condução do poder, seja na burocracia estatal em suas diferentes formas e poderes, seja na burocracia partidária. Sobre esses, porém, não perderei o meu e o seu tempo dedilhando linhas e linhas a respeito. Passo e voto nulo.

Ora, e o inverno, razão de ser desse texto que se pretende crônica? Já volto a ele. É que não acho correto ser um cronista alienado, e se tenho que escrever sobre a beleza cinzenta dos dias invernais que se aproximam, é justo e socialmente correto que gaste algumas linhas para lembrar a todos que nem tudo nessa vida é sopa e vinho do Porto, há também o Zé Dirceu – ex-primeiro-ministro bananeiro – e o Marco Aurélio Garcia – ministro plenipotenciário das relações exteriores – que fazem parte da dita cuja, igualmente.

Estamos naquela que é, para mim, a época mais gostosa do ano. Faz frio, os dias são acinzentados e garoentos, chove ocasionalmente, e é nisso que reside sua beleza e graça, o frio associado à chuva e aos chuviscos. Porque eu sou, antes de tudo, ligado à terra e às coisas da terra, e não há terra, nesse sentido de produtora de alimentos, prazeres e confortos, sem chuva, chuviscos, garoas e chuvões. O grande mal do frio propriamente dito, aqui por São Paulo e arredores, é a ausência da chuva. Sim, como compensação, porém, temos fantásticas noites de céu transparente, ora sem a presença da Lua, e aí o céu é tomado pelo esplendor de estrelas incontáveis e pela Via Láctea, ora com a linda senhora – para mim, a Lua é uma senhora – em seu máximo esplendor, gorda, corada, brilhante, iluminando a noite sertaneja com tanta força que cria sombras perfeitas umas, assustadoras outras, inda mais quando caminhamos no meio do pasto sem lanterna e sem companhia, nem mesmo da cachorrada que prefere dormir pachorrentamente na varanda.

Em noites assim, solitárias em locais ermos, e quando sopra um vento gelado vindo do sul, então... o coração se apequena, não há como evitar, e o calor e a segurança de casa, seja ela barraco ou casa-grande, é tudo que queremos e apressamos o passo em busca desse aconchego.

Ontem, a noite parecia ser desse tipo, mas se foi, de fato, não faço a menor idéia. Voltar para casa dentro do carro, cruzando as ruas da megalópole, pode ser tudo e qualquer coisa, até assustador, mas, com certeza, de poesia nada tem.

Entendeu agora algumas menções que esse texto traz?

Pois é. Nem tudo na vida é poesia ou motivo para poetar.

Até porque, noites lindas ou não, estreladas ou enluaradas, eu ainda prefiro as noites cobertas de nuvens negras carregadas de chuvas. Nisso, sim, há muita poesia.

Para mim.


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sábado, abril 12, 2008

Crônica de adoentado


A “marvada” me pegou


Estou derrubado.

O corpo dói, principalmente pernas, garganta e cabeça.

O nariz dá um trabalhão, quando não está aos espirros que provocam dores generalizadas, está escorrendo, ou melhor, querendo escorrer e eu, bom...

Deixa pra lá.

Minha avó, se viva fosse, diria como já disse no passado que “homem é tudo mole, mesmo”. Ela se foi, mas, acreditem, há outras mulheres que falam o mesmo no lugar dela. Não me importo, estão falando a pura verdade, pois essas coisinhas me derrubam mesmo, deixam-me irritado ainda por cima.

Essa marvada gripe tem nome: é a Gripe Dilma.

Pra curar, só com um dossiê de remédios.

Rá rá rá...

Sim, isso foi uma tentativa de risada. Não bastasse estar assim, ainda estou assim por causa da ex-futura-presidente-sem-ser-a-papagaio-de-pirata.

Humpf...

Não creio que seja dengue, meno male. Doencinha besta e velha que está em franca evolução em boa parte do planeta e que vai crescer mais ainda devido ao aquecimento global. É a mais recente previsão da OMS. No Brasil ela parece ter encontrado seu melhor habitat, não por causa de nossas belezas naturais, ou do nosso ambiente, aqui chamado de meio ambiente, ou nossas muitas águas, nada disso. Aqui ela se dá bem à beça por conta da ausência de Governo.

- Ué, como assim, se o que mais temos por aqui são governos?

- Eu disse Governo, companheiro... Governo, entendeu?
Com gê maiúsculo.
Sacou agora? Beleza.

Há vários anos nós - eu e minha equipe - produzimos um belo vídeo com uma proposta interessante. Basicamente, a idéia era que cada prefeitura comprasse um pacote de produtos e ações de uma companhia multinacional. Na linha de frente, os inseticidas contra os vetores da dengue e raticidas. Com esse pacote, uma parte com produtos e algumas ações da empresa, e outra parte com ações da prefeitura, seria criado um programa de trabalho preventivo e educativo nos municípios, atacando diretamente os pontos de infestação. Creio que fizemos esse trabalho ainda no final do século passado, talvez em 99.

Combater a dengue já era uma necessidade mais que evidente. O número de pessoas contaminadas crescia, o combate começava, mas pouco evoluía. O governo federal comprou um monte de coisas, como adora fazer todo governo. Montes de gente em várias partes foram contratados, e com esses montes criou-se uma bela burocracia.

Nada de resultados, porém, e ano a ano a doença espalhou-se à vontade. Hoje, nem vou falar sobre a situação no Rio de Janeiro, que já passou da fase "preocupante" há muito.

Puxa, tomara que eu esteja só com a Gripe Dilma.



46,4 %

Peraí, volto já... O telefone tá tocando.



- Alô! Quem fala?

- Eu.

- Eu quem? É o Emerson?

- Eu, o dono desse aparelho e dessa linha celular.

- É o Emerson?

- Claro que sou eu, pombas.

- Emerson?

- Eu mesmo, reconhece não?

- Ah, reconheci agora, pois meio bobo assim só conheço você.

- Que é isso rapaz, nós estamos falando no meu blog, se liga!

- Como assim falando no seu blog?

- É, eu estou com essa ligação no blog.

- Puxa, que legal.

- Pois é.

- Ué, mas por que você me passou um e-mail pedindo pra te ligar?

- Nada importante, não.

- Como assim?

- Calma, relaxa, liguei pra você só pra você dar uma graninha pro governo.

- Ah, pára com isso, pô! Coisa mais chata.

- Pois é, fica bravo não. Olha, essa nossa ligação tão cheia de conteúdo, demonstrações de amizade e coisa e tal, que está sendo feita do celular, vai custar uns 4 reais pra você, e assim você vai dar dois reais – arredondados – pro governo que você ama.

- Pára de sacanagem e diz logo o que você quer.

- Eu já disse, é só pra você pag... Xiiii, desligou. Acho que perdi o amigo, mas ganhei um post pro Olhar Crônico.


Pois é, estimadíssimas leitoras e, vá lá, estimados leitores. Essa ligação hipotética de um pobre amigo para mim, falando sei lá de onde, custar-lhe-ia por volta de 4 reais. Desses 4 reais, dois teriam ido pro governo.

Porque o bananal é o país com a maior taxação do mundo sobre ligações via celulares. Quase a metade, ou melhor, a metade mesmo da tua conta do telefoninho vai diretinha pros cofres federais.

Dizem que esse dinheirinho abastece as contas, infla os números do superávit primário, o que nos permite viver nesse mundo paradisíaco. Somos o povo, entre as nações com economias com algum destaque, que menos fala ao celular. Todos falam mais que a gente e todos pagam muito menos que nós. As contas médias são mais baixas e o tempo falado é bem maior.

Esses caras de fora são todos umas antas, não sabem ganhar dinheiro mesmo. Deviam estagiar aqui antes de administrarem seus países.

Agora, se me dão licença, tenho que contribuir com os cofres federais, pois tenho alguém para acalmar e trazer de volta para a lista de amigos.

Esse post tá ficando meio caro.


Post scriptum

Meu irmão mora em Nova Iguaçu. Depois de muitos anos no Maranhão e Pará, voltou pro Sul Maravilha. Representa uma empresa paraense que produz polpa de açaí.

Acho legal, a extração do açaí preserva a floresta e preserva o próprio açaizeiro, ao contrário da extração de palmito que mata uma palmeira de 4 metros ou mais para pegar um cilindro de palmito com 40 centímetros de comprimento.

Esse post scriptum é por causa da dengue e não do açaí que meu irmão vende. Explico: ele disse-me que suas vendas diminuíram porque, provavelmente, segundo ele, diminuiu o consumo de gelados. Logo, vende menos açaí.

Pode ser, não duvido de mais nada.

Minha mãe mora com ele. Apesar do calorzinho da Baixada e dela mesma ser calorenta ou friorenta, dependendo mais do humor que do clima, usa calça comprida o dia inteiro e gasta tubos e tubos de repelentes.

Combinamos que, no caso de um deles pegar dengue – cruz credo, tomara que não aconteça! – virão imediatamente para São Paulo em busca de hospital, provavelmente para a minha casa mesmo. A menos que a situação do atendimento médico melhore muito, o que parece difícil pelo que ele contou.

Na Baixada está todo mundo apavorado com a doença do mosquitinho e os hospitais & assemelhados estão lotados, com filas dignas de consulado americano para tirar visto.

É... Welcome to Brazil.

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