sábado, setembro 29, 2007

Ecos do passado


A troco de nada, a lembrança chegou em meio ao banho, momento, aliás, que já me proporcionou vários acessos de criatividade. Bom, pelo menos na minha opinião.

“As rosas desabrocham,

Com a luz do sol,

E a beleza da mulher,

Com o Creme Rugolllll...

Creme Rugollllll...

Creme Rugollllll...”

Depois do jingle, entrava a voz do locutor com um texto falando das vantagens e benefícios que o uso do creme trazia. Lembrança antiga, que vem dos anos cinqüenta, sessenta, quando ouvia esse e muitos outros “reclames” nos programas de rádio. Em termos de mídia era tudo que tínhamos, então. Nossa primeira televisão ainda demoraria alguns anos, e só chegaria em casa em meados dos anos sessenta. Antes disso, o jeito era ser televizinho, quando tínhamos a sorte de ter um vizinho bem de vida, já dono de um maravilhoso televisor, luxo de poucos naquele Brasil tão distante.

Na fazenda, trazida por algum viajante endinheirado, aparecia de vez em quando uma “Cruzeiro”, a grande revista do Brasil, vaga que foi ocupada, depois, pela Manchete e depois, e até hoje, pela Veja. Todas diferentes entre si, mas nenhuma alcançou o sucesso e penetração da “Cruzeiro”, que num país atrasado e periférico com cinqüenta milhões de habitantes, chegou a ter tiragem superior a dois milhões de exemplares. Proporcionalmente, hoje, uma revista teria de vender em bancas quase oito milhões de exemplares. Impensável.

Numa antiga revista encontrei minha primeira paixão. Pois é... Como era bonita! Não só ela, mas sua mãe também (sim, isso é o título de um filme, mas por mera coincidência). Mãe que mostrava a uma amiga e sua filha uma peça de roupa lavada com, hummmmmm, Rinso, talvez. Omo eu tenho certeza que não era. Paixão platônica, claro, de um garoto perdido numa fazenda distante quatorze horas de trem de São Paulo, a cidade grande, onde ela, quem sabe, morava. Isso se não morasse na mítica capital, em vias de deixar de ser, o Rio de Janeiro. Claramente, um amor fadado à não realização.

Como o país era diferente! Bom, que sei eu do país? Só conhecia Marília e São Paulo, onde ainda andávamos de bonde, do bairro para a cidade. Era assim que chamávamos o centro: cidade. Ainda hoje, muitas vezes, ainda nos referimos dessa forma ao Centro Velho e ao Novo.

E volta o mistério do porque eu fui lembrar do antigo jingle do Creme Rugol.

Vai saber...

.

Preguiça sem culpa, que coisa boa


Bom demais...

Acordar na manhã de sábado com um friozinho gostoso e a garoa caindo.

Um dia sem cobrança, um dia que já nasce com justificativa para tudo, ou seja, perfeito para fazer nada. Ler o jornal com calma enquanto o café-da-manhã é apreciado lentamente. Ligar ou não ligar o computador passa a ser uma das tarefas do dia, digo, pensar a respeito. Dia bom para ligar televisão, vídeo e gravador de dvd e aproveitar para copiar mais uma ou duas ou três daquelas fitas guardadas. Talvez hoje eu copie o jogo final do Paulistão 98, jogo que marcou o retorno de Raí ao São Paulo, com show de bola, vitória maiúscula e a conquista do título em cima do Corinthians. Eis uma boa tarefa para um sábado já gostoso ficar ainda mais.

Bom mesmo vai ser se amanhã estiver igual, aí já é meio como ganhar na loteria. Claro, não uma megassena sozinho, mas uma quinazinha. Digo isso porque um dia como esse nos livra das tais cobranças que mencionei logo de cara. Nosso estilo de vida não admite pasmaceira, não aceita preguiça, só gosta de gente correndo, de preferência dentro do carro no trânsito parado, onde a corrida física é trocada pela corrida dos nervos rumo ao descontrole. Ritmo, agitação, frenesi, faça isso, faça aquilo, faça sempre alguma coisa.

Eis então que, de repente, surge uma modesta frente fria nesse começo seco de primavera, traz um friozinho, uma garoinha e joga por terra as muitas e chatas possibilidades de fazer alguma coisa num dia em que não há trabalho.

O melhor, portanto, é aproveitar, relaxar, nada fazer, flanar preguiçosamente.

Ah, esqueci do mais importante: o sábado, o friozinho e, principalmente, a garoa, tiram toda e qualquer culpa que com certeza sentiríamos por estarmos fazendo nada.

É isso, uma preguiça sem pecado, uma preguiça livre da culpa.


.

segunda-feira, setembro 24, 2007

São Paulo, Comes & Bebes...

... e a Padaria 14 de Julho

O saco plástico com a Veja de sábado chegou pesado e mais volumoso que o normal. Também, pudera, a “Vejinha” estava com cara de catálogo telefônico, não só no peso como no visual, com lombada quadrada, formato de impressão que permite produzir revistas com maior número de páginas. E essa edição caprichou: nada menos que 436 páginas!

- Nossa, mas existe tanta notícia assim? – pergunta o desavisado leitor que não mora nessa megalópole. Sim, há tanta notícia para muito mais, até, só que não é o caso. Essa é a edição anual “Comer & Beber” da Veja São Paulo. Nada menos que 500 (quinhentos, por extenso só para garantir) restaurantes e 250 bares, fora outros 250 lugares para o que eles chamam de “comidinhas”. Essa, que ninguém me ouça, é a melhor parte da lista, com certeza. Lugar de sanduíches maravilhosos, desde um simples cachorro-quente ultra-gostoso e meio requintado, até o nosso tradicional, tradicionalíssimo bauru, passando pelo sanduíche de pernil da 14 de Julho. Sanduíche? Melhor chamar de refeição para dois. Esse pernil é simplesmente maravilhoso, assado no vinho por 14 horas, e com ele preenchem meio filão de pão italiano. Bom, eu como bem, basta ver a fotinho meio defasada para se ter noção de tal fato. Pois bem, apesar disso, parei na 14 de Julho dias atrás na hora do almoço, entre uma reunião e outra. Estava com fome, pedi um sanduba de pernil. Olhei pra cara do bitelo quando chegou e engoli em seco; comi, comi, comi, e o balconista embrulhou metade, que foi o meu jantar. Tudo isso por meros oito reais e setenta centavos. Pouco menos de cinco dólares. Só em São Paulo, mesmo.

Mas a 14 de Julho é infinitamente mais que mera parada para comer um sandubão. É um lugar histórico e de histórias. É um lugar de tentações, ah, sim, é lugar de muitas, muitas tentações. É histórico porque a padaria já tem 110 anos de idade. Foi fundada em 1897, ainda no século XIX, quem diria! No mesmo lugar, o que é mais incrível ainda. O Nono Franciulli entregava o pão para a freguesia de carroça. Aliás, peguei essa fase do pão vendido em carroça. No bairro em que meus pais moravam, o Ipiranga, o carroceiro era um português que passava cedo. A carroça era sofisticada, era uma “carroça-baú”, os pães ficavam lá dentro, protegidos e frescos. Dia de festa era quando o dinheiro de algum vestido que minha mãe fazia permitia a compra de um sonho.

Sonho é aquela coisa com que você sonha durante dias ou semanas, até meses ou anos, e de repente lá está ela em sua frente: uma bolota de massa frita, coberta por uma crosta escura, recoberta de açúcar de confeiteiro por sua vez e, suprema delícia, recheio de creme. Há quem goste de outros recheios. Bom, há gosto para tudo, claro, e eu, digamos, respeito, embora lamente. Sonho é isso. Morando mais na fazenda com meus avós, do que em São Paulo com meus pais, uma de minhas lembranças e vontades da casa paterna era o sonho. Freud deve explicar, acho.

Nunca moramos sequer perto do raio de ação geográfico e temporal da carrocinha da 14 de Julho. Sua descoberta, para mim, foi tardia, já nos anos 90, seguida de paixão à primeira mordida pelo pão italiano, pelo pão recheado com lingüiça – esse, um terrível indutor do pecado da gula – e por issos e mais aquilos, tudo, tudo mesmo sobrepujado pelos avassaladores cannoli.

Lembro do cannoli e minha boca enche-se de água. Tem um filme, não lembro qual, em que um chefe mafioso novaiorquino é louco por cannoli, e presenteia quem ele gosta com um pratinho deles. Mafiosos também têm bom gosto. Trata-se de um canudo de massa folhada assada, preenchido com creme. Há quem prefira o recheio de chocolate; eu entendo, claro, mas não deixo de lamentar, claro, também. Por cima, o bendito açúcar de confeiteiro. Cannoli é creme, para mim. Cannoli é uma dádiva sobre a qual você fecha os dentes, corta um pedaço de massa cuja única função é proteger e segurar o creme e, então, se delicia com uma das grandes descobertas do gênio humano.

Cannoli, sanduíche de pernil, pães, tudo isso é somente parte de algo muito maior. O teto é tomado por salames, queijos e lingüiças pendurados. As laterais tem de tudo um pouco e, logo à entrada, tenebrosa mesa coberta por variados antipasti; e bota variados nisso. Tem massas frescas, que podem ser feitas na hora e aí basta chegar em casa, pegar o garfo e mangiare. Tem bracholas e porpetas, claro, mil coisas com berinjela (outro dia compramos um pão recheado com berinjela que estava absolutamente irresistível, a ponto de ter comido parte dele no carro, dirigindo pela megalópole), azeitonas e outras coisas. A lista de delícias é extensa demais para tão modesto blog.

Ah, mais uma coisa antes de terminar: essas fotos são, mesmo, da padaria. Eu mesmo tirei-as. Pois é, nem parece, né? Nada das luzes e amplos espaços dos tais “templos” de comida de hoje em dia. Essa padaria que as fotos mostram é, basicamente, a mesma e do mesmo jeito que era em 1897.

E, antes que me esqueça, lembra do cannoli? E do chefe mafioso? Pois é...

O nome do cannoli é cannoli siciliano.

Buon apettito!


.

sábado, setembro 22, 2007

Às três da manhã


Nada pior que acordar de sono profundo com o telefone tocando.

Antes de atender à chamada olho o mostrador do vídeo: faltam dois minutos para as três da manhã - só pode ser engano, penso, na verdade, torço. Nesse horário, se não for engano, é notícia ruim. Mil coisas e pessoas passam pela minha cabeça: minha mulher e minha mãe estão no litoral, na casa da minha filha. Meu filho está viajando pela Europa. Meus sogros estão no interior, assim como muitos parentes. E tem o sítio, sabe-se lá o que pode acontecer no sítio, que já foi roubado sete vezes. Ergo o fone e escuto a musiquinha da chamada a cobrar. Deve ser coisa do sítio, imagino.

- Pai, me ajuda, pai...

- Hum?

- Me ajuda, pai, fui assaltado.

Passado o impacto inicial de ouvir a palavra pai, em voz chorosa, percebo, numa fração de segundo, que estou sendo vítima de uma tentativa de golpe por parte de vagabundos.

Apesar da chamada ter sido a cobrar, resolvo dar trela ao vagabundo, deixá-lo perder tempo comigo, até ouvir minha voz chamando-o de vagabundo e mandando-o ir trabalhar.

Pena, entretanto, que o vagabundo percebeu que eu não caí em seu golpe e desligou o telefone. Ainda por cima, mal educado.

Fico sentado alguns minutos ao lado do telefone, pensando na situação.

Estou certo que, naqueles momentos, o bandido está tentando aplicar o mesmo golpe em outra pessoa. Penso na dor, na preocupação, que outra pessoa pode estar sentindo. Enquanto penso, procuro por uma pastilha anti-ácida, pois entre o acordar e o momento em que identifiquei o crime, a descarga de adrenalina agiu e provocou uma acidez. Mesmo sabendo que não era meu filho, pela voz e pelo fato dele estar a milhares de quilômetros de distância, em Milão, o despertar, a incerteza e os momentos de angústia que a chamada provoca, e que foram aumentando enquanto tocava a musiquinha da chamada a cobrar, são o bastante para causar estragos.

Demorou para acontecer comigo, penso. Há meses espero, sem esperar, claro, por algo parecido. Felizmente, aconteceu numa noite em que não havia como ter dúvidas a respeito. Teria sido melhor que fosse uma tentativa de obter dinheiro para um resgate. Em minha cabeça o plano há muito estava traçado: conversar, ficar preocupado, chorar, implorar, negociar. Enquanto isso, tentaria ligar para a polícia pelo celular.

No meu planejamento, impecável, a polícia receberia informação preciosa, fosse de um local de encontro, fosse de uma conta para transferência de fundos. E, naturalmente, prenderia os vagabundos em flagrante.

Humpf...

É isso que dá assistir muito CSI isso e aquilo, Numbers, NCIS e congêneres. Vã ilusão, mesmo porque, se tudo funcionasse tão bem, tão roliudianamente, os bandidos estariam soltos em questão de dias ou semanas, com muita sorte em alguns meses, e aí a coisa ficaria muito pior, pois saberiam tudo sobre o denunciante que os levou à prisão, ou seja, eu mesmo. Viveria com uma espada de Dâmocles permanente sobre a cabeça. Seria, não duvido, o maior consumidor de pastilhas anti-ácidas da super-drogaria mais próxima de casa.

O vagabundo desligou, entretanto. Minha representação foi pífia, com certeza. Decididamente, eu e o teatro pouco temos em comum. Pensando bem – é, eu penso muito –, foi até melhor, pois já foi divulgado que há funcionários corruptos nas empresas telefônicas – ora, ora, ora, não diga! –, que vendem informações dos assinantes para a bandidagem. Vai que o vagabundo que me acordou resolvesse dar uma lição ao idiota – eu – que tentou enganá-lo?

Para um bandido, nada mais fácil que isso.

Aqui, nessa terra, em se bandidando tudo dá.

Azar o nosso.

.

quinta-feira, setembro 20, 2007

Liberdade, informação e publicidade – Free NYT

Tão logo tive acesso à internet há muitos anos – nem lembro mais quando foi, aliás, alguém lembra se existia vida antes da internet? –, uma de minhas primeiras ações foi cadastrar-me e tornar-me assinante virtual do New York Times.

Desde então, todo dia abro minha caixa de entrada e lá está, presente e confiável como o meu exemplar diário do Estadão, o e-mail com o que NYT diz que está acontecendo de importante no mundo. Mesmo com as restrições de um acesso free, sempre foi uma preciosa fonte de informações, mesmo que meu índice de leitura não seja dos mais altos.

Foi emocionante receber um e-mail dizendo que o NYT inteiro, desde o número 1, estava disponível na net, bastando o trabalho de teclar meia dúzia ou menos de vezes e ler sobre o assassinato de Lincoln, o começo da I Grande Guerra, as matérias dos correspondentes nas frentes de batalha, e por aí afora. Desde então sonho com o dia em que terei todo o Estadão on line, desde os tempos de A Província de S.Paulo, ainda no Império.

Claro, recebi também gentil e-mail, propondo-me a assinatura on line do jornal, por meros US$ 49.95 por ano. Gentilmente, disse não. Mas fiquei chateado, não porque fosse perder alguma coisa, já que nada perdi e, mesmo com a assinatura, eu tinha mais acessos do que antes, mas porque gostaria de assinar pelo simples fato de assinar e colaborar com um órgão que reputo fundamental para a manutenção da liberdade e dos direitos civis. Enfim, como era um pequeno luxo não essencial, disse não, em linha com esses tempos de vacas anoréxicas, que um dia já foram magras.

Agora, leio com prazer a informação que o Times simplesmente aboliiu a assinatura paga e abriu o acesso a, praticamente, todo o jornal. Mais: o acesso gratuito cobre também todo o arquivo do jornal que é domínio público, desde 1851, exceto parte do material do período entre 1923 e 1986. Desde já tenho certeza que as restrições de acesso que ainda persistem não demorarão muito a cair.

Foi bonzinho o Times?

Não, simplesmente sua direção percebeu que o crescimento da publicidade virtual era muito grande e cobria a renda proveniente dessas assinaturas. Mais: boa parte dos leitores que acessavam o NYT faziam-no via Google, Yahoo e outros sites de busca. Agora, com a liberação, espera-se que boa parte dos leitores faça suas buscas diretamente pelo NYT, o que reforçará ainda mais a receita de publicidade.

Ah, a publicidade...

Em breve farei 53 anos. Com isso, estarei completando perto de 37 anos ligado à publicidade em diferentes formas. Orgulho-me disso, principalmente por ter claro na teoria e na prática, que é a publicidade que garante e estimula a imprensa livre. E não há democracia e dificilmente haverá pleno respeito aos direitos dos indivíduos perante essa coisa cada vez mais mastodôntica e ameaçadora que é o Estado, sem a imprensa livre, sem a multiplicidade de órgãos de informação, coisas que só a publicidade farta e abundante pode garantir. Publicidade é uma ferramenta requintada do business, do marketing, do capitalismo, sem dúvida, mas é, também, a mais sofisticada das ferramentas de garantia à liberdade de que dispomos. Sua contrapartida é o deserto tenebroso da “Voz do Brasil” e da tal televisão pública, tão ao gosto de gente como lulla da Silva, Zé Dirceu, Hugo Chávez e outros. Vade retro.

P.s.: meu acesso de hoje foi antecedido por uma mensagem dizendo que, nessa semana, o patrocínio é do cartão American Express; no rodapé, um link pode, se eu quiser, levar-me a algum site do AE; não quis, e segui minha leitura.


.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Mais do mesmo de sempre

Sabe aquele filme que foi sucesso no cinema há algumas décadas já?

E que a toda hora você vê mais e mais chamadas dele na televisão?

Ora na sessão da tarde (existe ainda?), ora na sessão noturna, ora na sessão das corujas, dos insones e dos porteiros com televisor portátil à mão.

E você pensa com seus botões: “Pombas, de novo? Não dá pra mudar isso?”


Mudar sempre é possível, até mesmo a programação dos filmes da tv, mas para mudar é preciso ter vontade de mudar.

Viu essa foto?

Ela mostra as Cataratas do Iguaçu nesse meio de setembro.



Viu essa foto?

Ela mostra um dos inúmeros parques nacionais assolados pelo fogo nesse meio de setembro e desde, pelo menos, meados de agosto.

Mostra, também, um flagrante da pobre, mas corajosa, tentativa de controle.

Todo ano é a mesma coisa: seca, cai o nível dos rios, cachoeiras secam (às vezes muito, como agora) e o fogo criminoso ou acidental se alastra por preciosos hectares de parques nacionais. Em muitos deles, em especial nos cerrados, o fogo provocado pela própria natureza é parte do processo de preservação do próprio ecossistema. O cerrado precisa do fogo, ocasionalmente, assim como muitos ecossistemas florestais em outras áreas do mundo. Uma coisa, porém, é o fogo do qual a própria natureza se encarrega, outra, bem diferente, é o fogo criminoso, provocado por mãos e desejos humanos.

Seja como for, combater as queimadas de áreas naturais é uma necessidade imperiosa para conservar e proteger, a natureza e o trabalho e moradias de pessoas. Mesmo os incêndios naturais precisam ser combatidos em algum momento, em algumas áreas, pelo menos.

É aqui, entretanto, que o bicho pega.

O combate ao fogo é exercido por brigadas de bombeiros e voluntários, tão corajosos e valorosos quanto mal equipados e mal treinados. Muitas vezes nem equipamentos há, e recorre-se à improvisação de abafadores com folhas de palmeiras. No lugar de máscaras, lenços no nariz. Roupas de proteção, então, só as que Hollywood ou os noticiários mostram, quando equipes dos primeiros mundos combatem os incêndios florestais no hemisfério norte.

Em nossos incêndios há um outro grande ausente: os aviões-bombeiros, tão comuns nos tais primeiros mundos. Há modelos desenvolvidos especificamente para essa finalidade. Já no final dos anos quarenta, os americanos improvisavam bombardeiros da II Guerra, desativados, para transportar e jogar água sobre os incêndios, principalmente no oeste e sudoeste americanos.

Mas aqui no Brasil não existe um só aparelho para combater incêndio. Em alguns parques, em alguns incêndios – e nem sei se é o caso de usar esse plural – que temos por aqui, vemos a presença solitária de um helicóptero transportando de mil a dois mil litros de água em bombonas improvisadas. Difícil até comentar, dada a precariedade de tudo, sem falar no custo elevadíssimo do transporte de cada um dos poucos litros de água que conseguem ser despejados sobre um foco de fogo.

Lembro-me que há alguns anos uma empresa canadense mandou um avião-bombeiro para demonstrações entre nós. Perda de tempo. Nossa proverbial e estúpida auto-suficiência descartou a compra do equipamento. Nem lembro direito dos motivos apresentados, lembro, sim, de minha indignação com o fato. Mas, sou brasileiro, nunca desisto. De ficar conformado.

E assim seguimos, ano após ano, seca depois de seca, incêndio atrás de incêndio.

Tico e Teço, meus dois neurônios semi-aposentados, mas ainda operacionais, sussurram-me que já escrevi post parecido em algum momento do passado não muito remoto. Ao mesmo tempo, sobrecarregando seus circuitos, dizem-me que falarei e escreverei a respeito no ano que vem ou no outro. Ah, mas como são malandros! Para fazer essa previsão não sobrecarregaram circuito nenhum, já que não há o que pensar e calcular.

Todos sabem, até meus dois neurônios meio malandros, que isso vai se repetir e repetir e repetir...



.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Arrependimento e Dúvida



Confesso que não quero pensar no passado.
Não quero pensar que perdi (ia escrever dediquei, mas mudei de idéia) 15 anos de minha vida e até minha família, embora essa eu tenha recuperado, militando feito um imbecil em nome de democracia, direitos civis, eleições diretas, anistia ampla, geral e irrestrita, e não sei o que mais.

Não quero pensar que fiz o que fiz para dar no que deu.

Sorte minha que arrependimento não mata.


Meu filho está na Europa, fazendo um "mochilão", como ele e os amigos disseram. Depois, virá a vida real, um casamento já no horizonte e...
E o que?

Não será melhor eu fazer meu papel de pai e ligar para ele dizendo para ficar por lá?

Como pai, tenho o direito de deixá-lo voltar para esse bananal infecto?

Estou em dúvida.


.



Lamento, leitores, mas o blog Um Olhar Crônico não ficará nem um pouco surpreso se a próxima chapa situacionista para disputar a sucessão de lulla da Silva for essa:


Para a Presidência do bananal: Dona Marisa Letícia da Silva


Para Vice-Presidência do bananal: Senador Renan Calheiros


Será que demora muito conseguir a cidadania italiana da minha nona?

:o(


.

O SENADO MORREU...

O senado estava vivo, mas podre.

Agora acabou de morrer.

Como não será sepultado, esse blog recomenda cuidado com o mau-cheiro.

.

sábado, setembro 08, 2007

Pesadelo ou treinamento?


Primeiro foi um pesadelo e contei-o aqui. Sei lá porque, talvez para dividir com vocês, meia dúzia de amigos, a angústia de que fui tomado. Ou seja, vocês podem ser e são meus amigos, mas não podem dizer o mesmo a meu respeito em relação a vocês. Afinal, com amigos desse naipe, que dividem esse tipo de angústia, pra que inimigos, né?

Agora, persistindo na desconstrução dessa amizade (nunca usei essa palavra, fiquei com vontade, sei lá, talvez se encaixe bem...), vou dividir novamente aquela minha angústia, porém agora de uma forma mais pesada, dolorosa. Sim, porque ela cresceu, a maledeta angústia.


A angústia ampliada, ou quando o pesadelo parece ser a realidade

No começo muitas das gentes achavam, e eu também, que ela estava ali, o tempo todo, em todos os lugares, fazendo marcação homem a homem, ou, em seu caso, mulher a homem. Muitos e perigosos eram os riscos que a liberdade de ação traria: mulheres (diziam as lendas), más companhias (nessa marcação ela falhou ou então as más companhias não passavam dos companheiros do time), bebidas (é, diziam isso, que maldade...) e outras coisas igualmente ruins. Com o passar do tempo, todavia, e hoje mais que nunca, uma coisa me parece certa: desde o começo ela está em fase de treinamento e de familiarização, dela com todos e de todos com ela.

Reparem bem: os motoqueiros americanos vão a Brasília e lá está o trio: ele, a moto e ela. O desfile é em carro aberto pelas ruas da cidade, e lá está o trio: ele, o Rolls impecável e brega, e ela, em pé e acenando, ao invés de sentada e comportada como Jackye. Inauguração de mais uma pedra fundamental – sim, nessa república inaugura-se pedra fundamental – e lá está o trio: ele, a pedra e ela, sorridente e imutável, com o tailleurzinho (é assim que se escreve?) básico de regra, sempre compondo um triunvirato: ele, o factóide do momento e ela.

Ela, nossa trainee de candidata a presidenta da República, Dona Marisa Letícia.

Da Silva.


Post scriptum à guisa de explicação

O Conselho de Redação vetou a publicação de qualquer um dos inumeráveis trios republicanos, uma vez que há muito está decidido que esse blog é contra a candidatura Marisa Letícia, tal como é contra o governo (sic) lulla da Silva.


Post scriptum patriótico

Ontem foi 7 de setembro, Dia da Pátria. Foi noticiado e, naturalmente, desmentido, como de praxe ocorre com todas as verdades, que o “governo” faz pressão pela absolvição de Renan.

Essa, sem dúvida, foi a mais patriótica de todas as notícias sobre ou em torno do Dia da Pátria. Foi, também, a única noticia patriótica que o Editor desse blog achou digna de ser reproduzida.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Quase primavera


O tempo esquentou, já se percebe que as noites estão mais curtas e os ipês continuam em floração, assim como as patas-de-vaca ou bauínias. Algumas árvores já tem vegetação nova, folhas tenras, bem verdes, aparecendo em galhos nus. A primavera está próxima.

Os gramados bem cuidados das casas ricas e bonitas da Granja estão ressecados, tal como o capim seco e amarelado nos barrancos entregues ao deus-dará, mostram que ainda falta uma coisa muito importante para termos a primavera: chuvas. Enquanto elas não chegam tudo que resta é olhar para o céu, torcendo pelas nuvens negras e gordas, cheias de água. Bom, não olhamos mais para o céu que nos cobre, e sim para o desenho de céu chuvoso nas previsões da televisão e, principalmente, nas telinhas dos computadores.

E ontem à tarde o céu escureceu. E foi muito, nuvens cor de chumbo cobriram os céus da Granja Viana, se alongando no rumo de Carapicuíba, Alphaville, Barueri... E começaram os resmungos. Por muito tempo ouvi os resmungos roucos proferidos nas nuvens. Vez ou outra uma trovoada e logo voltava o resmungar contínuo. Como aquelas brigas em família, quando um dos contendores não se dá por vencido e fica ali, remoendo, resmungando, remoendo, resmungando... Sei bem como é isso.

Finalmente, depois de tanto teatro, tanta afinação, veio a chuva. Gotas grossas, pesadas, espaçadas, parecia uma chuva indecisa, talvez paenas uma nuvem cansada do peso despejando uma parte dele e guardando o resto. Mas foi boa, mesmo sendo meio curta. Baixou a poeira, trouxe o cheiro de terra molhada, grama molhada, árvores molhadas, cheiro bom, cheiro de vida. O ar ficou mais fresco, mais gostoso, mais animador. Já era tempo.

Day after...

Não cheguei a ver fotos ou noticiário de televisão e internet sobre a chuva. Ouvi menções ao granizo, “choveu gelo aqui em Carapicuíba”, mas não dei grande bola. Até ver a primeira página do jornal, mostrando nada menos que uma pá carregadeira cheia de gelo, no meio do gelo, limpando uma rua de Alphaville.

Fantástico!

Pá-carregadeira para tirar gelo das ruas?

Coisa de louco, rapaz.

Que que é isso?

E pus-me no meu canto, quieto, a pensar: será um efeito do aquecimento global?

Por que não?

Será que o roteirista de “The day after tomorrow” delirou ou pegou as idéias que movem o filme com os meteorologistas certos?

Ah, mas aquilo foi um filme.

Sim, um filme, mas o roteirista pesquisou, entrevistou, ouviu, pôs o roteiro em discussão com meteorologistas. Por mais ficcional que seja, há uma base científica por trás dos acontecimentos que, no filme, levam a uma nova e quase instantânea era do gelo.

Contudo, Day After à parte, a primavera está tentando chegar, tentando mostrar sua cara por inteiro. Falta pouco. Mesmo porque as amoreiras estão carregadas e o chão em volta de algumas está preto de tanta frutinha esmagada. E a passarinhada anda cantando forte e com gosto.

É, falta pouco, já, já é primavera.

Solta o Tim Maia, maestro!

.

domingo, agosto 26, 2007

Brasilianas de agosto de 2007


Ato criminoso

O governo lulla da Silva deteve e entregou às autoridades da ditadura castrista que domina Cuba dois atletas que fugiram durante os jogos Pan Americanos realizados no Rio de Janeiro. Foi uma atitude covarde e criminosa, pois nada mais foi que um crime aos direitos humanos, os famosos direitos humanos pelos quais esses indivíduos hoje no poder tanto clamaram quando na oposição. Direitos humanos pelos quais tantas pessoas de boa fé e crença na democracia lutaram por anos a fio, enfrentando a ditadura militar que então dominava o Brasil.

O governo lulla da Silva apóia-se em tecnicalidades para dizer que os atletas foram devolvidos à ilha-prisão por livre e espontânea vontade. Mentira.

Fidel decretou que os dois nunca mais poderão disputar competições oficiais e nunca mais poderão sair de Cuba. Tecnicamente, estão presos.

E descobre-se agora que o jato especialmente designado para levar os dois atletas de volta à prisão é venezuelano. Mais: parece ter sido o mesmo avião que levou oitocentos mil dólares clandestinos para a Argentina.

Chávez, lulla da Silva, Morales e, parece, o casal Kirchner...

Que futuro nos aguarda?


Cansei

Virou moda criticar o movimento.

É coisa de dondocas e de milionários.

Coisa de quem está bem de vida.

A pobreza intelectual e a indigência moral desses críticos é aterradora.

Uma prova que nada entendem de democracia.

Desconhecem o sistema, quer como prática, quer como filosofia.

Pior: sequer conhecem o significado da palavra, disponível em qualquer dicionário.


Chefes fora

O STF não vai processar o ex-primeiro-ministro Zé Dirceu. Tampouco processará Delúbio... Silvinho “Land Rover”... Zé Genoíno, o que nada sabia, antecipando a ignorância do chefe supremo.

O STF me deixa envergonhado e desesperançado.


Medo

Será que minhas palavras no texto anterior podem servir de base para que eu mesmo seja processado?

Afinal, será que é permitido a um brasileiro dizer que sente vergonha de sua Corte Suprema? Se não for permitido, estou frito.


Os mesmos de sempre

Renan continua na ativa. Continua presidindo o Senado da República.

Jader Barbalho está a mil por hora na Câmara. Articula a montagem de uma CPI contra a revista Veja – a essência é essa, o resto é conversa fiada – por “inspiração” de Renan. Todos os caras indiciados no Mensalão assinaram o pedido de CPI, assim como 59 deputados do partido dos trambiqueiros, também conhecido por pt. Ah, sim, redundei: um monte desses 59 também está na lista do Mensalão.

Esses caras nos governam, esses caras são o nosso parlamento.


50 milhões para Rainha

Pois é, o tal de Rainha, indivíduo com vasta coleção de processos nas costas e acusações mal desfeitas, se é que alguma foi desfeita, vai receber 50 milhões de reais do governo para fazer uma usina de biodiesel.

Vai ter festa no Pontal do Paranapanema.

Às custas sabe-se de quem.


Demorou...

... mas Dona Denise Abreu enfim renunciou.

Agora falta o restante, a começar pela mais alta posição.


Sim, estou meio raivoso hoje e nem li, ainda, o meu jornalão desse domingão.

Sabe Deus o que nele virá.


.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Domingão, dia de Estadão


Meu jornalão de hoje está especial.

Não é merchandising. Se alguém achar que é, paciência.

Dentro de dois meses farei 53 anos de idade. Leio o “Estado” desde os oito. Portanto, já lá se vão 45 anos de leitura semanal, no começo, mais adiante bi ou tri-semanal, até virar diária ainda na adolescência, em pleno regime militar.

Isso, entretanto, é outra história. Portanto, falar desse jornal pode ser tudo, menos propaganda.

Como é sagrado, começo pelo caderno de esportes. Não fala muito do meu time, apenas o normal. O cronista de futebol do domingo escreveu um texto interessante, até gostei, ao contrário do habitual. Dos cronistas do Estado, gosto, mesmo, de um só, o mais “futebolista” deles, digamos. Futebol é futebol, quando abro o caderno de esportes quero ler sobre futebol. Outras coisas embaralham e irritam. Pulo e passo adiante. O caderno de hoje traz uma matéria bonita, falando da escolinha que o Vasco mantém para seus jovens atletas. Muitos chegam sem saber coisa alguma, sequer, a bem dizer, escrever. Coisas de Brasil, claro.

No caderno Aliás, uma entrevista, ou melhor, uma “senhora” entrevista com o ex-correspondente do NYT no Brasil, Larry Rother. Uma entrevista como deve ser: nada menos que duas páginas do caderno. Uma introdução boa, no tamanho e com as informações na dose certa, e depois a conversa com o Larry. Como deve ser uma conversa inteligente. Ele fala de seus muitos anos de Brasil, em dois tempos, conta breves “causos” daqui e de outros países sul-americanos, fala um pouco sobre jornalismo e fala, muito, do estrepitoso affaire Governo x NYT, quando ele escreveu a matéria dizendo que o hábito de “bebericar” do presidente atrapalhava o governo. Dizem que a verdade dói, e essa matéria doeu. Mas o jornalista, com justiça, não conta tudo: reserva mais coisas para o livro que está escrevendo sobre seus anos aqui entre nós. Naturalmente, vou comprar e ler no lançamento.

No primeiro caderno, uma matéria sobre a Juréia.

E com ela meu humor balança. O Parque da Juréia é um lugar maravilhoso, extremamente bonito, onde a Serra do Mar encosta nas ondas do Atlântico, até literalmente, em alguns pontos. As praias são desertas e muito bonitas. A mata atlântica em todo seu esplendor original ocupa todos os espaços, morro acima, morro abaixo, nos vales e planícies.

Correção: ocupava todos os espaços. Palmiteiros, madeireiros e bananeiros devastam parte da área do Parque. E, a auxiliá-los e livrá-los da prisão, índios guaranis.

Ah, os índios têm direito, né?

Pois sim. Esses índios foram aqui introduzidos pela FUNAI, trazidos de não sei onde, tal como foi feito com os pataxós do entorno do Parque Nacional do Monte Pascoal, no sul da Bahia. Instalados na Juréia, os guaranis, tão logo viram as costas dos burocratas governamentais, mudaram-se com armas e bagagens para as cidades mais próximas, no Vale do Ribeira. Nenhum deles quis saber de morar na mata. Mas todos vão até a mata. Derrubam palmeiras juçaras, coletam orquídeas e bromélias, e postam-se à beira dos “asfaltos” vendendo o fruto da pilhagem. Proibido por lei para todos, menos para os índios. Que ganham algum dinheiro com o corte de mais juçaras. É assim: uma palmeira juçara com mais de 4 metros de altura e que demorou dez, doze ou mais anos para chegar àquele ponto, é encontrada por um palmiteiro que, em seguida, simplesmente bota-a abaixo. Seu ponteiro é cortado e dele tirado o tolete de palmito com cerca de 40 centímetros de comprimento. Tanta destruição por meros quarenta centímetros. A destruição não se limita à palmeira em si, fonte de alimento para dezenas de espécies animais, mas se estende ao seu redor, pois, ao cair, ela destrói outras pequenas árvores, arbustos e cipós. Depois de abaterem mais de duzentas palmeiras, em recantos cada vez mais remotos, os palmiteiros pegam a estrada e levam o fruto do crime para fabriquetas clandestinas ou para vendedores de palmito fresco. Em cada viagem, em cada deslocamento do caminhão, um índio guarani está junto, pronto a dizer que o palmito é seu e sobre ele tem direito legal. De fato, tem direito legal.

Bom, a matéria segue por outras coisas, como plantações ilegais de banana sob a sombra das grandes árvores. A subvegetação é cortada e mudas de bananeiras são plantadas. Quando elas ficam adultas, as árvores são derrubadas, dando lugar a um bananal que, em breve, será ponto de início de erosões.

A matéria é boa e rica. No site tem mais fotos, ainda. O jornalista a tudo vê e documenta. As autoridades nada vêem e nada fazem.

E assim prossegue o jornal

Cada domingão um novo jornalão com coisas de um velho e lamentável Brasil.

A cada domingão procuro pelas boas notícias, e até encontro. O diabo é que o peso das más notícias é mais e mais avassalador.

Bom, depois dessa lembrança sobre a Juréia perdi a vontade de falar do resto. Economia, explicando o recente quase-crash, Metrópole, com mais informes sobre o CAN – Caos Aéreo Nacional – e a vergonhosa, para não dizer criminosa, ação ou inação das autoridades, o “mistério” acerca da pilhagem dos cadáveres e bens pessoais das vítimas do 1907 (que vergonha, a que ponto de degradação moral chegamos!), Cultura, com alguns livros ótimos na seção de lançamentos, etc.

Ah, claro, tem também as últimas sobre o caso Renan, outra vergonha nacional, outra amostra da degenerescência de nosso sistema e de nossos “representantes” no parlamento.

E pensar que, mesmo assim, com tudo isso, eu ainda anseio e não tomo meu café de todas as manhãs sem o meu jornal, aos domingos um jornalão.

.

sábado, agosto 18, 2007

Raiva e Desânimo versus Indignação

Tenho escrito pouco porque tenho tido muitos momentos de raiva.

E, acreditem, raiva e escrita não são coisas que combinem.

Quando a raiva passa vem um sentimento de desânimo, outro poderoso impeditivo da escrita com um grau mínimo de legibilidade.

Um sentimento que ajuda a escrever é a indignação. Victor Hugo, muito provavelmente, estava indignado quando sentou-se e escreveu “J’Acuse”. Estivesse ele enraivecido e teríamos uma obra-prima a menos na literatura universal. Mas a indignação precisa de um ambiente propício, não para aparecer, mas para se impor. E o nosso problema, hoje, partindo desse ponto de vista, é que vivemos em terreno fértil para indignações mil, mas, justamente por serem tantas, tão abundantes, tão diversificadas, uma sucedendo a outra em velocidade vertiginosa, nenhuma indignação consegue empolgar, consegue sobrepor-se às demais por um tempo mínimo que seja para surtir efeito.

E aqui, possivelmente, pode estar a chave do sucesso governamental: afoguemo-los com indignidades, uma maior que a outra, serão tantas que, num certo momento, deixarão de ser percebidas como tal e simplesmente farão parte da paisagem, estarão incorporadas aos usos & costumes sociais.

Essa teoria explica muita coisa, sem dúvida, mas não me ajuda a escrever algo decente e legível.

Ontem à noite, mesmo, dedilhei um irônico e virulento comentário sobre a diretora da ANAC, aquela senhora flagrada em alegre festa soteropolitana fumando respeitável charuto, enquanto milhares de brasileiros penavam nos aeroportos da vida. E porque escrevi tal ataque? Porque Dona Denise citou um de meus ídolos, Winston Spencer Churchill, ao defender-se e explicar-se sobre o porque do charuto. E, ao citá-lo, Dona Denise disse que ele, Churchill, provinha de família humilde.

Ora, faça-me o favor! Como pode tão alta autoridade republicana, dona de currículo de 13 minutos de duração para ser lido em audiência do Senado, dizer tamanha abobrinha? Nem o fato não-curricular de ter sido colega de faculdade de Zé Dirceu, ex-primeiro-ministro e atual primeira-eminence-grise da República, a perdoa por erro tão crasso. Quanto ao resto, prefiro nada falar, pode ser mais saudável.

Porém, como dizia, ontem à noite escrevi um monte sobre e contra Dona Denise. Reli, reli, reli e deletei. Aí fui dormir, coisa até meio custosa, pois ainda estava raivoso.

As manhãs têm sempre o dom de deixar-me motivado. Um novo dia é sempre o habitual clichê, na linha de promessas que com ele nascem, patati patatá. Clichê ou não, um novo dia é sempre algo animador, além de bonito. Mesmo que logo cedo eu dedilhe algumas mal traçadas e nelas entre Dona Denise.

Estou indignado? Apenas o de sempre.

Mas não estou raivoso. Nem enraivecido.


.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Voando no CAN - Primeira Parte

Congonhas estava ótimo na noite de terça-feira, dia 14.

Céu claro, estrelado, pouca gente no desembarque, pouca gente no embarque.

O check in foi rápido e tranqüilo, o vôo estava no horário, tudo estava bem. Parecia que tínhamos voltado dez anos ou mais.

Pouca gente na livraria e assim circulei com calma, vendo um livro aqui, outro ali. Tudo tranqüilo também na passagem pela revista eletrônica, exceto pela desatenção ou prepotência da funcionária com o detetor manual.

Uma mulher logo à minha frente disparou o alarme ao passar. E a funcionária desatenciosa ou prepotente ou tudo junto, o mais provável, mandou-me passar novamente. Ciente que com essas pessoas investidas de alguma autoridade todo cuidado é pouco, reclamei que o alarme não tocara para mim já obedecendo, como bom carneirinho. Passei novamente, olhando-a diretamente nos olhos, com a cara fechada, recém-terminando uma frase sobre aquilo ser um absurdo.

Grande coisa. Ela nem deve ter dormido de tanta preocupação com meu olhar “assusta burocrata” número 27.

O piso superior de Congonhas é muito bonito e, por que não dizer? – bem luxuoso. Chega a ser chique mesmo. Custou caro e, aleluia, as cadeiras têm descanso para os braços independentes, portanto, dá para sentar sem ficar encostado, disputando espaço com o cara do lado. Pensei em comer um sanduíche, mas desisti. O preço é tão luxuoso quanto as instalações e achei um abuso pagar onze reais e não sei quantos centavos por um sanduichinho bonitinho, mas, provavelmente, ordinário.

Tudo caminhava bem, eu estava sentado, lendo um livro fascinante quando meu sexto ou sétimo sentido (o mesmo que uma única vez falhou e por causa disso voltei de Porto Alegre de jatinho) alertou-me para um aviso: devido a remanejamento de aeronaves, patati, patatá, o embarque para o meu vôo dar-se-ia por outro portão. Meno male que seria, também, num dos portões que dão acesso direto aos aviões, via “finger”.

Ok, vamos para o outro portão. E lá se foi a manada, termo exagerado, claro, mas que, posteriormente, revelar-se-ia muito adequado. E chega de mesóclises nesse texto. Duas já é passar do limite do razoável.

Outros vôos também mudavam de portão. Aliás, pelo jeito da coisa, todos os vôos estavam mudando de portão de embarque. Uma festa.

Falemos a verdade: se colocar esse pessoal da INFRAERO e da ANAC num serviço de estacionamento, a empresa vai à falência no primeiro mês. Os caras não conseguem sequer distribuir os aviões pelas duas dúzias de vagas, o que dirá de estacionar duzentos carros em hora de pico? É um mais perdido e mais incompetente que o outro. Ainda não me saiu da cabeça o “técnico” de não sei qual das duas que deveria verificar a lâmina d’água de Congonhas e o fez de dentro do carro, quebrando o galho para o encarregado do serviço que tinha faltado.

De volta à sala de embarque.

O vôo atrasou.

Normal, não? Faz parte, claro. Sem comentários adicionais.

Atrasou pouco, quase uma hora, apenas. Embarcamos e decolamos já batendo onze da noite. Péssima notícia, claro, afinal, ainda teríamos de pegar um táxi para nos levar de Curitiba até Araucária. É perto, mas mesmo assim chegaríamos de madrugada. Eis que em pleno vôo vem a boa notícia: Joinville estava fechado e pousaríamos em Curitiba.

A notícia pegou a tripulação de surpresa, com o serviço de bordo em andamento e que precisou ser interrompido às pressas. Tive sorte, consegui comer meu sanduíche e enganar a fome que não valia onze reais.

Pena que não consegui comer lendo meu livro. Não cabia, o espaço era insuficiente. Antes, tinha tentado ler a revista de bordo, com bela matéria sobre Bonito e o Pantanal – aliás, matéria para ser vista, pois a leitura, descobri, era pouca e fraca, típica das revistas de bordo ou típica da nova era, apesar dos calhamaços que são cada um dos Harry Potter? – e tampouco consegui. Como o passageiro da frente reclinou sua poltrona, o espaço que sobrou não era suficiente para manter a revista aberta. Isso, dirá a companhia aérea, foi porque eu não reclinei minha poltrona. Verdade, eu não gosto, minha coluna é chata e prefere os encostos mais próximos de um ângulo reto. Bom, como o novo ministro da defesa já tocou nesse assunto do espaço, tá tudo resolvido, ou seja, nada mudará, exceto se for para pior.

Descer direto em Curitiba foi sorte para uns, azar azar para outros. O pessoal que contava estar nas camas joinvilleanas antes de uma da manhã iria de ônibus para a bela cidade catarinense. Cama mesmo, que é bom, só depois das quatro.

E foi assim que o vôo chegou em Curitiba, onde um táxi e seu motorista já meio cansado e sonolento aguardava os passageiros de São Paulo.

Fim da primeira parte.


.

domingo, agosto 12, 2007

E se...


Peguei o jornal no gramado em frente de casa.

Sobre ele, uma flor amarela caída do ipê dava um toque de cor mais viva às notícias da primeira página.

Em destaque, uma grande foto da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, chegando em Brasília para a posse presidencial. Dividindo o espaço com a presidente hermana, a foto mostrava o café da manhã da família presidencial: à cabeceira, em seu último dia de mandato, o presidente Luiz Inácio Lulla da Silva. À sua direita, em seu último dia como primeira-dama, a presidente-eleita, Dona Mariza Letícia da Silva.

Senti um frio na barriga, uma dor no peito, uma congestão na respiração. Meus olhos ficaram cheios de lágrimas: era tudo verdade, não era um delírio.

A dor no peito aumentou e a falta de ar ficou pior.

O medo me tomou, associado a uma desesperança mais dolorosa que as dores.

Meu ombro começou a se agitar, estranhamente.

Emerson... Chamava uma voz, suavemente, repetindo mais algumas vezes.

Atendi ao chamado da voz.

Acordei. Era a Rosa me chamando, preocupada com meus tremores, gemidos e agitação.

Estava em minha cama, ao lado da minha mulher que me olhava preocupada, já com a luz acesa.

Estava de volta à realidade aconchegante da minha cama.

O susto passou. Tranqüilizei-a, mas não contei o pesadelo. Disse que tinha esquecido.

Tentei relaxar a cabeça sobre o travesseiro.

Que bom, foi tudo um pesadelo, não passou de um sonho mau, muito mau.

No íntimo do meu ser, contudo, uma fagulha de medo persistia...

E se...


.

domingo, agosto 05, 2007

Cunha


Depois de muitos anos, estive ontem em Cunha, nos altos da Serra do Mar, entre Guaratinguetá e Paraty.
Uma cidade gostosa e bonita.

Fiz várias fotos das torres da igreja matriz, motivado pelo azul do céu, os fiapos brancos de nuvem cortada por fortes ventos de entrada de frente fria, as cores da igreja e os galhos desfolhados de uma árvore.


Tão pelados como os galhos dessa árvore estão os inumeráveis morros que cercam a cidade, aliás, não somente essa, mas todas as outras do Vale do Paraíba.

Apesar de tudo que já sabemos sobre a necessidade de conservar as matas nos topos de morros e imperiosa necessidade de não mexer com o solo em encostas muito íngremes, os morros, sistematicamente, ficam carecas e as encostas perdem o verde protetor e mostram tons de cinza e amarelo do solo exposto e, em muitos casos, do próprio subsolo.

Assustador.




A eterna corrida contra o relógio não me permitiu mais fotos.

Quem sabe um dia?


.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Bom dia? Como assim?


Bom dia.

Bom dia. Ué, que que houve? Tá com cara de quem comeu e não gostou.

Quase isso. É que o café-da-manhã foi triste, meio chato, e isso apesar do meu time ter jogado e vencido ontem à noite, o que bastaria para tornar o desjejum de hoje delicioso, independentemente do que estiver à mesa.

Ora, mas por que, então, essa tristeza?

Porque hoje, por um desses insondáveis mistérios da vida, a gigantesca máquina que monta meu jornalão esqueceu de pôr o caderno de esportes no meu exemplar. Tive que fazer minha primeira e mais importante refeição do dia sem a minha leitura predileta. Foi traumático.

Ah, mas que exagero! O jornalão é grande, pega qualquer outra parte e leia!

É, isso é fácil de falar para quem não liga, para quem não presta atenção ao que lê ou simplesmente não lê. Não é o meu caso.

Você está exagerando, tá over reacting, como se costuma dizer.

Não, não estou over não-sei-o-que coisíssima nenhuma!

Claro que está, cara! Imagina só se todos os problemas do mundo se resumissem a isso!

Pois é, imagine que mundo quase perfeito não seria. Você é que não está entendendo a importância do caderno de esportes no desjejum do brasileiro médio amante de futebol e leitor de jornais.

Ah, é? Eu que não estou entendendo?

Exatamente. Você enxerga o detalhe e perde o todo, fica cego para tudo o mais que cerca o detalhe, que, como se sabe, é apenas uma pequena parte de algo muito maior.

Ah, sei, sei... Como o gol, né? Um mero detalhe ou, como você diz, uma mera pequena parte de algo maior que é uma partida de futebol. Sei, eu só queria entender mesmo.

Ora, essa ironia barata não pega bem, esse lance do gol ser detalhe não é bem assim, é uma deturpação, e além disso você atropelou meu pensamento e não me deixou terminar.

Tá bom, embora meu time não tenha vencido ontem à noite eu estou bem humorado hoje. Go ahead.

Gol de quem?

Larga a mão de ser palhaço, você fala inglês melhor que eu. Desembucha logo isso aí.

Ah, é verdade, go ahead é sinônimo de desembucha logo. Aliás, desembucha e logo são meio sinônimos, não são? Afinal, quando a gente solta um “desembucha”, já tá implícito que tem que ser já, agora, imediatamente, logo, no sentido de já. Portanto, desembucha logo é uma redundância. Você precisa aprender a ser mais econômico com as palavras. Fala demais.

Minha nossa, ninguém merece. Eu preciso ser mais econômico e você gasta meia hora com essa baboseira... Fala logo aí do... Do que mesmo? Tá vendo? Você fala tanto e desvia tanto que eu já esqueci o assunto. Ah, lembrei, o negócio do jornal.

Ok, vamos lá. Tempos atrás o Sulzberger disse que não estava preocupado com o próximo, na opinião dele, fim do jornal impresso, tal como o conhecemos hoje. O importante, segundo ele, era que o NYT continuasse vivo e informando as pessoas, não importando sua forma.

Sim, é verdade, acho que ele falou isso em Davos, no inverno.

Exato. Bom, embora eu viva em frente ao computador, opinião reforçada e aumentada por algumas línguas familiares, simplesmente não gosto muito de ler meu jornal numa tela. Gosto das folhas, gosto de abrir uma a uma e deparar com notícias as mais diversas possível. Isso é parte do encantamento de ler jornal, a surpresa no virar de cada página.

Descambou pra poesia... Isso vai longe.

Não, já tô acabando. Então, essa coisa do jornal logo cedo tem todo um ritual, sabe? Geralmente escuto quando o motoqueiro chega e joga o jornal. Se está chovendo, levanto correndo e, mesmo sob chuva e no escuro, corro até a frente de casa e pego o jornal. E você conhece minha casa, portanto sabe que tenho que vencer uns bons “par” de metros até o portão, abrir o dito cujo e andar mais alguns metros até chegar à zona de pouso do jornal, quase sempre no gramado embaixo do ipê-amarelo, quase sempre meio alto, o que me deixa com pés e barra da calça molhados. Veja só a que sacrifícios me submeto, sem tugir, nem mugir.

É verdade, estou impressionado. Tua mulher, com certeza, adoraria que você se sacrificasse a metade disto e fosse ao teatro com ela.

Ehhhhh, pode parar, estou falando do jornal ao café-da-manhã e lá vem você com teatro. Agora fui eu que perdi o fio da meada. Ah, encontrei, o ritual. Pois é, tem um ritual e ele começa com essa caminhada matinal...

Hahahahahahahahaha... Cara, fala sério, você chama de “caminhada” ir até o gramado da frente pegar o jornal? Mais um pouco você nem vai precisar caminhar pra isso, basta ir rolando! Hahahahahahahahahahahaha...

Realmente, uma mente não privilegiada como a sua não é capaz de entender as sutilezas da vida. Bom, sorte tua que estou quase bem humorado também, apesar dessa tristeza difusa. Como dizia, começa com essa caminhada e aí vem todo aquele lance do café, sabe? Todo o processo: pão com manteiga, leite com nescafé, uma fatia de pão com requeijão, um copo de suco, coisas assim, simples, singelas. E o jornal ali, sobre a mesa, o caderno de esportes dobrado e encostado em algum apoio, facilitando a leitura, deixando a comida ainda mais gostosa do que já é, e, isto é muito importante, deixando-me pronto para começar bem o dia. E com isso, eu também colaboro para a preservação do jornal em seu formato atual. Vai ser muito chato botar o computador em cima da mesa com o café-da-manhã.

(Virou delírio, mas, vá lá.) Certo, e daí? Hoje não veio o caderno de esportes, mas o resto do jornal estava lá. Então, qual o problema?

O problema, meu amigo, é que apesar de bem humorado, graças à vitória do meu time, estou com um terrível processo de indigestão e fortes cólicas. Por culpa da maledetta máquina que não me mandou o caderno de esportes!

Mas, como assim?

Como assim? Pô, eu tive que ler o jornal propriamente dito e fui obrigado a começar o dia lendo as patacoadas desse presidente e os desmandos e inações da camarilha que o rodeia! Pombas, foi isso. E isso acaba com o dia de qualquer vivente!

Mas, poxa, você sempre lê tudo isso todo dia.

Sim, leio tudo isso, todo santo dia, infelizmente, mas leio já amortecido, preparado, vacinado, digamos, pela leitura das coisas do futebol, por mais torpes que sejam. A verdade, meu amigo, é que não estou preparado para ler sobre o Brasil de hoje sem antes ter o preventivo esportivo. É ele que me protege disso tudo que está aí.

É, é verdade... De repente, perdi meu bom humor.


.

quarta-feira, agosto 01, 2007