quarta-feira, abril 25, 2007

Uma curta carta...

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Estou pensando simploriamente...

Em relação ao aquecimento global a importância da vegetação reside no seqüestro e posterior fixação do carbono atmosférico. Basicamente.

Temos hoje nesse planeta – e particularmente nesse país – algumas centenas de milhões de hectares mal ou subaproveitados. Principalmente em áreas em processo de degradação, onde as manchas de solo exposto e nu ganham terreno chuva a chuva, seca a seca. Essas áreas estão quase zeradas em termos de seqüestro de carbono. Em termos de tudo, na verdade. Além disso tudo, ainda servem de fornecedoras de material para assoreamento de mananciais diversos, córregos, rios, etc, além de não serem bacias de captação de águas subterrâneas.

Paralelamente, temos grandes focos de tensão provocados pelo acúmulo de gente e escassez de trabalho. Pior que isso: boa parte dessas pessoas, mesmo nada tendo, sonham em ter trabalhos mais próximos do sonho urbano que da dureza rural. Nada como trabalhar só oito horas por dia, ter descanso no sábado e no domingo, ou então umas belas horas extras, além de um serviço menos pesado (mesmo quando no campo) e a assistência médica chique de um convênio. Outro ponto: boa parte desse povo, se largado à solta em lotes rurais, nada mais será que um destruidor implacável de tudo e qualquer coisa que se relacione com a natureza. Logo, diria ser de bom alvitre “confinar” esse pessoal nas cidades com empregos urbanos ou agroindustriais.

Continuando com minha linha simplória, sem grandes derivativos, acredito que 1+1=2. E, nesse caso, 2 para mim é transformar essas terras inúteis em áreas geradoras de empregos, que, ao mesmo tempo, sustentem uma lavoura voraz em carbono, que ainda vai gerar um combustível que permitirá o menor uso, quiçá a substituição, de um combustível cujo maior predicado é encher a atmosfera de mais gases que aumentam o aquecimento.

Uma floresta em crescimento seqüestra carbono de monte.

Uma floresta de eucalipto – e essa está em “eterno” crescimento – consome tanto ou mais carbono que uma linda e correta floresta nativa, que seqüestra, cresce e entra em equilíbrio, basicamente substituindo folhas.

Um canavial seqüestra menos carbono, claro, mas creio que, depois de um hectare de árvores, um hectare de cana sadia e produtiva seja um grande sorvedouro de carbono. Não só a cana. Qualquer lavoura sadia e bonita é uma grande seqüestradora de carbono, não é?

Ainda, então, na linha 1+1=2, sou a favor de mais agricultura.

Agricultura bem feita, técnica, caprichada, produtiva. Não é tarefa para sem-terra ou sem-conhecimento. Mas é tarefa banal para sojicultores e usinas de açúcar e álcool, assim como papeleiras e reflorestadoras.

Concentra renda?

Não, distribui, na medida em que geram empregos melhor remunerados e criam grandes estruturas de serviços.

Distribui pouca renda?

Sim, por obra e graça desse bananal.

São benéficas ao ambiente?

Atrevo-me a dizer que sim, pois mau plantador faz duas safras e jamais consegue a terceira. Não há boa safra, hoje, sem solo protegido e uso correto – e, por extensão, econômico – de adubos e defensivos. E não há lavoura produtiva e lucrativa sem esses pré-requisitos.

Precisa derrubar a floresta?

Bobagem. A floresta tem que ser protegida a todo custo e em toda parte. Não pra ser bonzinho com bichinhos e plantinhas, mas para proteger-nos. Sabe-se, hoje mais que antes, que boa parte das chuvas do Sudeste e Centro-Oeste e até do Sul, são geradas na Amazônia.

E onde vai pastar o boi?

Ora, o boi que coma silagem e paste em pastos bem plantados, de preferência numa rotação de longo prazo com a soja, milho, sorgo e até cana. E que a população toda pague um pouco mais pela carne. É justo e é necessário (e pelo leite também, por favor!).

E vai tudo virar cana ou soja?

Vai nada! Se o risco acontecer os preços dos outros produtos trarão produtores de volta.

E por aí vai...

Como eu disse, tudo simplório, claro. Mas creio que tudo factível.

Vou tentar pensar a respeito durante a viagem. Escrevi agora de sopetão, mas, em síntese, é isso que penso.

Ah, sim, e nada de madeireira fazendo “manejo sustentável” de mata amazônica. Isso é pura abobrinha. Não pode mexer nada na mata e ponto final. Agora, tem que dar um jeito de dar dinheiro pros “povos das florestas”, ou eles mesmos vão derrubar tudo e trocar por uma parabólica.


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quinta-feira, abril 19, 2007

Uma rotina indiferente

Diariamente, logo cedo e no final do dia, meus vizinhos que criam frangos percorrem os galpões que alojam quase vintém mil cabeças cada um e coletam as aves que morreram. Dependendo do dia, principalmente no calor, são muitas as mortes. É uma rotina, um trabalho como qualquer outro, cuja feitura permite a sobrevivência dos demais.

No sítio é um pouco diferente. Se uma galinha morre é notícia. Seja por alguma doença ou cachorro ou “sei lá o que”, a gente percebe e, por que não, até sente a morte da bichinha.

Se alguma coisa acontecer com algum dos meus vizinhos a comoção será grande. Se, porventura, ouvimos ou vemos algo estranho, ficamos preocupados e a primeira reação é correr a ajudar. Um deles ilumina nossa casa numa madrugada ou outra, quando seus cachorros latem um pouco diferente e despertam a preocupação. Ele pega um potente farolete, daqueles que iluminam longe pra burro, e aponta para nossa casa. Não chega a mostrar, pois há muitas árvores no caminho, além da distância, mas estou certo que é um poderoso elemento de dissuassão de algum mal-feito.

Por aqui, na vida normal e rotineira da cidade grande, desse mundo grande, o assassinato de 32 pessoas numa universidade americana chama a atenção e leio alguma coisa a respeito.

Na seqüência, 19 morrem em tiroteios em dois morros do Rio de Janeiro. Leio alguma coisa a respeito.

Continuando, mais de 100 pessoas morrem em atentados no Iraque. Bom, também leio alguma coisa a respeito.

E, sinceramente, paro por aqui, com essa ação única de ler alguma coisa a respeito.

Perdi minha capacidade de indignação?

Perdi minha sensibilidade?

Perdi a noção de solidariedade?

Penso que sim, acho que não. Tirando o efeito bobinho dessa frase em assunto tão sério, a verdade é que mantenho todos meus sentidos e sentimentos, mas, ao mesmo tempo, é nítido que reservei-os todos para os que me são próximos. Não consigo mais gastar indignação, dó, compaixão, solidariedade com tragédias distantes e ao mesmo tempo corriqueiras.

A morte foi banalizada, é algo corriqueiro, que não mais nos impacta. Simplesmente está aí, presente, tal como as falcatruas, desmandos e calhordices com que nos acostumamos no governo desse imenso bananal, ora em vias de tornar-se imenso canavial. E isso não é uma crítica ao canavial. Provavelmente será melhor que o bananal.

Volto a pensar no sítio, onde a vida é mais focada nos acontecimentos próprios do dia-a-dia e nas pessoas e animais que nos rodeiam. Não consigo deixar de traçar um paralelo entre os frangos que morrem diariamente nos galpões super-povoados e com os quais nos acostumamos como parte inseparável do processo de criar frangos em escala industrial, e as dezenas e centenas de mortes diárias pelo Brasil e pelo mundo, quase todas em cidades superpovoadas, onde carências diversas, desde comida até carinho, são o estopim ou o alimentador desse processo inconsciente deauto-aniquilamento.

Fechamento com o que seria a abertura

Eu tinha pensado nesse texto de forma bem diferente. Ia começá-lo bombástico, copiando a abertura do Manifesto Comunista, de Marx:

“Um espectro ronda o mundo - o espectro da violência.”

Mas achei que seria demais. Preferi o paralelo com os frangos que morrem nos galpões. Tem mais a ver com os acontecimentos dos dias que vivemos.


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sexta-feira, abril 13, 2007

Ipanema no Sítio das Macaúbas...



... Ou, lembranças de um Reveillon


Dias atrás, caminhando pelo sítio lembrei-me que alguns de seus habitantes vieram de Ipanema. Alguns prosperaram, outros definharam e sumiram.

Foi assim.

Vi o sítio pela primeira no distante novembro de 1999, logo depois de uma seca terrível. E isso foi bom, pois pude ver que o sítio se mantivera em ordem e a fonte principal não fora muito afetada pela estiagem severa e prolongada.

Alguns dias depois voltei, dessa vez acompanhado pelo representante do proprietário. Andei por toda parte, entrei na pequena casinha, olhei e gostei mais ainda do sítio. A certeza que eu já tinha que ele seria meu ficou mais forte. Vieram as conversas, a negociação e chegou o Reveillon, o Reveillon da falsa passagem do milênio, mas que valeu, oras, que diabos, como verdadeira.

Comprei umas garrafinhas pequenas, individuais, de Don Perignon. Gastei, é bem verdade, mas valeu a pena, pois já naquela época desconfiava que aquela seria a única passagem de milênio que eu veria. Tenho certeza que há muito ter-me-ei ido na próxima virada, de 2999 para 3000, embora o correto, claro, seja de 3000 para 3001. Mas quem se importa?

E, assim, lá estávamos nós – Rosa, Rogério, Sonia e eu – em plena areia de Copacabana, espremidos entre muitos milhares de pessoas, esperando pelos fogos para ver, abrir as garrafinhas e entornar o champagne direto na boca, sem taça e sem finesse, mas com muita alegria e esperança, artigo ainda abundante naquele tempo.

O assunto que dominou nossa estada no gostoso apartamento da Nascimento e Silva naqueles dias foi o sítio. Meu amigo Rogério, agrônomo, taquaritinguense deslocado multinacionalmente para Ipanema, presenteou-me com mudas de árvores que ele preparava com sementes colhidas em suas caminhadas pela beira da Lagoa e pelas ruas do bairro. Eu nem havia comprado o sítio e já tinha o que nele plantar. De certa forma, posso dizer, esses ipanemenses foram os primeiros novos habitantes do sítio sob nova direção, a minha.

Na hora de ir embora, lá foram as mudas para o carro: uma muda de oiti, duas ou três de abricó-de-macaco, e umas três ou quatro de umas “cássias”, árvores da enorme família das leguminosas, com caules e galhos espinhentos. E pegamos estrada. E paramos. As chuvas fortes tinham derrubado barreiras na Dutra. Saí dessa estrada e fui pra Barra do Piraí, onde encontramos o Rio Paraíba quase passando por cima da ponte, que estava, naturalmente, interditada. Por sinal, foi interditada uns quinze minutos antes de chegarmos. Bom, dirigir é coisa que gosto, ainda, e gostava muito mais. Assim, peguei de novo a estrada e fui sair em Bananal, no alto da Serra do Mar, já em São Paulo. E de lá para casa, onde me esperava a tratativa final para a compra do sítio. Alta expectativa.

As mudas ficaram em casa. Só em fevereiro foram para seu novo lar, onde eu mesmo plantei-as. Não lembro ao certo, mas creio que já contei com o ajutório do Ismael no plantio de algumas.

Sete anos se passaram e elas vêm crescendo lentamente. É assim mesmo com mudas de pé-franco, preparadas diretamente da semente, sem enxertia.

De todas, a mais bonita é o pé de oiti, plantado ao lado da varanda do tanque, na cozinha. Tá bonitona a danada, como dá pra ver na foto.

Essas duas cássias, cuja espécie ainda não identificamos, também vão bem e o gado já se abriga em suas sombras não muito grandes.

A idéia era essa mesma, sombrear um pedaço de pasto.

Tem mais uma perdida lá pra parte de baixo, num buraco deixado por um pé de ponkan que bateu as botas.

Os abricós-de-macaco sumiram, não deixaram rastro, deles ninguém sabe, ninguém viu. Pra ser sincero, não sei se sinto a falta deles, pois, afinal, um dia dariam frutos e, com eles, trariam aquele cheiro... Que cheiro.

Não é sempre, mas muitas vezes olho para o oiti e para as cássias e lembro-me de meu amigo Rogério e da Sonia, sua esposa. Lembro de nossa amizade e lembro do Reveillon da virada do milênio. Fake, sim, mas quem se importa?

Ao fim e ao cabo, o que lembro, mesmo, é da amizade tão gostosa e de pessoas tão queridas. E é sempre um pouco de Ipanema no Sítio das Macaúbas.


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quarta-feira, abril 11, 2007

Animais macaubenses – Abril de 2007

Os gatos vão bem. As três gatinhas que foram operadas voltaram para casa a tempo de passar a Páscoa com toda a família. Depois de quinze dias fora, estranharam um pouco, tiveram um pouco de medo – uma delas teve que ser tirada da caixa de transporte – e coisa e tal, mas em questão de horas estavam de novo integradas e à vontade.



Estávamos preocupados com a Pretinha, uma das gatas mais velhas. Todo dia, no fim da tarde, ela e o Fred e mais os cachorros, acompanhavam-nos no passeio até a porteira ou numa ida ao curral. Com o tempo, o Fred passou a dar mais valor à sua cesta acolchoada que aos passeios, mas ela não, pelo contrário, até. Ao lado da Panda, a cachorra do Esrael que ficou de vez pelo sítio, ela a
companhava a Rosa nas idas ao pomar de lima, afastando-se bastante de casa. E, tal como a Panda, curiosa, andando por toda parte, ora adiante, ora atrás, às vezes pulando sobre touceiras de capim. Enfim, divertindo-se à larga.

Foi com tristeza que não a vimos duas semanas antes da Páscoa. Perguntado a respeito, o Ismael disse que, de fato, ela não aparecia já há dois ou três dias. Bom, a tristeza aumentou, pois a Pretinha era dengosa e carinhosa, ao seu jeito, além de companheira nas andanças.


Por tudo isso, foi muito legal vê-la de novo a bordo quando chegamos para a Páscoa. Lá estava ela, toda fagueira, como se nunca tivesse se afastado dali. Disse o Ismael que ela reapareceu meio louca, correndo, miando, morta de fome, brigando com todo mu
ndo, enfim, fazendo de seu retorno um verdadeiro acontecimento. Comeu ração, tomou leite e foi se aquietando, mas ainda brigou com seus irmãos e sobrinhos por mais dois dias. Gostaria muito de saber por onde andou a aventureira. E porque. Por sexo é que não foi, pois ela foi operada há meses. Um mistério.



Dez para as três da manhã. A Panda late sem parar. O latido é típico: ela acuou um bicho. Saco! Saio da cama na madrugada quase fria para ver o que se passa. Logo na entrada da varanda lateral, a meros três metros e meio da janela do nosso quarto, um ouriço balançando no alto de um arbusto que decora a entrada, ao lado da coluna. O Stanley e a Manchinha só olham, pois a Panda late por ela e por eles. Inteligentes, economizam latidos. Bom, só tem um jeito: a Rosa chama os três pra cozinha, fecha a porta e eu fico por ali, curioso para ver o que o coandú vai fazer. Entro, pego uma blusa, saio novamente e minutos depois ele desce do arbusto e se encaminha para o pasto de baixo. Espero mais alguns minutos, solto os cachorros e me arrependo, pois a Panda “pega” seu cheiro e dispara atrás dele. Felizmente, ou perdeu a trilha deixada pelo cheiro ou desistiu de ir mais longe, pois volta e se deita na varanda para dormir. Nós também voltamos pra cama pra tentar aproveitar o resto da madrugada, o melhor horário do sono. Coisas da vida na roça. Faz parte.



Numa outra madrugada, há um pouco mais de tempo, a chuva veio
forte, precedida por ventos fortíssimos que derrubaram coisas, quebraram galhos e inclusive algumas árvores em sítios vizinhos. E choveu pra burro, choveu a cântaros. Isso foi por volta de uma da manhã. Acordamos às quatro, ou melhor, a Rosa acordou e foi ver o motivo da barulheira feita pelos cachorros. Os picaretas estavam acuando o galo vermelho – galo meio criado no “colo”, que habituou-se a seguir a Rosa para ganhar petiscos, como pão, bolo, frutas diversas – num canto da casa.

Peraí, um galo no chão no escuro da alta madrugada?

Pois é. O coitado virou um “sem teto” pela força dos ventos. Deve ter sido derrubado da árvore onde dormia e ficou no chão. Ora, os cachorros, como outros predadores, têm um sentido aguçado para perceber tudo que é estranho, fora do normal e, em se tratando de possível presa, não perdem tempo e atacam. Era o que faziam com o galo vermelho, já privado de seu vistoso rabo, quando a Rosa abriu a porta e gritou com eles. Foram colocados para dentro de casa e se aquietaram. Ela ficou preocupada com o galo, achando que estava ferido, mas nada. Perdeu o rabo, mas não a vida. No dia seguinte estava já lépido e fagueiro andando por toda parte. O rabo já cresceu, mas está longe de ter a beleza e porte do original perdido para os cachorros.


A presença dos gatos, e o crescimento da família antes das operações, acabaram por trazer um benefício agradável: espantou os pardais de casa e, com eles, os ninhos e a sujeira que faziam dentro da cozinha nova (isso porque não refizemos os fios em volta da casa, excelentes para espantarem os sujismundos). Outros hóspedes que foram afastado foram as maritacas, que há anos passavam parte da temporada no nosso teto, fazendo uma barulheira danada a noite inteira. Bom, gosto das maritacas, dos pardais nem tanto, mas ficou tudo melhor sem eles dentro ou sobre nossa casa. São os gatos justificando a ração, o leite e as cirurgias.


A última safra de gatos veio com três machos e uma fêmea apenas, o que foi uma excelente notícia. Dos três machinhos, um deles, todo preto com um pouco de branco no peito, criando uma cor meio esfumaçada, já virou hóspede em casa. Aprendeu a subir pra cesta do Fred e aninhar-se com ele, que, por enquanto, divide a cesta com o sobrinho sem maiores dramas. Resta saber até quando.

E pensar que tudo isso começou com a Sophia abandonada por alguém na porteira do sítio...



O Brioso está redondo, quase gordo, bem bonito. Tem trabalhado pouco, pois o leite voltou a ser recolhido no sítio. Com isso, seu trabalho resume-se a ir buscar a cana cortada. O sem-vergonha, no bom sentido, tão logo vê a Rosa já fica animado. Sabe que vai ganhar cenoura e, manjar dos manjares, maçã. Vive bem o rapaz, o que me deixa feliz. A melhor prova disso é que jamais se afastou para fugir ao arreamento, por exemplo. Mas tão logo termina a descarga da cana ele mesmo toma o rumo da garagem para ser desarreado.

Esperto ele...


As noites estão bem frescas, até um pouco frias em algumas madrugadas. O tempo começa a ficar ao gosto das vacas. Ao meu também, diga-se. O número de insetos já diminuiu, deixando as varandas “habitáveis” no fim da tarde e começo da noite. Já, já, teremos o retorno das sopas e a chegada de algumas garrafas de vinho. O fogão a lenha fica mais e mais gostoso a cada dia.

A maioria dos animais fica muito confortável nas temperaturas mais baixas, para as quais têm boas defesas. Os cavalos e as vacas têm a pelagem de inverno, mais densa e protetora. As galinhas sofrem com o calor e se deliciam com o frio, graças à proteção das camadas de penas e penugem. Já dá para ver que os bezerros estão mais preguiçosos de manhã cedo, assim como algumas vacas. Essa é a melhor época do ano no sítio, pois a par de tudo isso ainda temos algumas chuvas. Sem dúvida, o melhor dos mundos.


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Devaneios canavieiros


Todo dia a gente corta, transporta e pica duas carroças de cana para suplementar o pastejo das vacas. Sempre sobra alguma coisa nos cochos, e essa cana que sobrou já fermentou, inda mais em dias quentes. A fermentação da cana gera um produto de muito agrado dos humanos em todas as alturas e latitudes, o álcool. E ao remexer essa cana fermentada lá vem o cheiro – por que não dizer perfume? – da iguaria proporcionada pela ação da temperatura e fungos (leveduras, quando cultivados com a finalidade de fermentar cana ou malte ou farinha) naturalmente presentes na cana. É um cheiro gostoso, inebriante. Talvez eu tenha cheirado demais nesses dias, dando, como resultado, esse texto.

(Percebo, em releitura, que esse “cheirado demais” ficou estranho e perigoso; mudá-lo, porém, significaria sucumbir à censura, no caso a auto, coisa que assaz me desagrada; portanto, cheirei demais, mesmo, a cana fermentada.)

Os canaviais estão cercando o Sítio das Macaúbas, sem falar que ele mesmo já dispõe de seu próprio canavial, chiquitito pero cumplidor, felizmente. Algumas áreas ainda resistem com seus pés de laranja, mas, sei não, pelo andar da carruagem, mais dia, menos dia, tudo virará imenso canavial, cumprindo-se a profecia de antiga música de antigo artista tupiniquim. A cana vem descendo o morro e tomando a paisagem


Santa Rita do Passa Quatro tem uma usina de açúcar e álcool em seu território, a Santa Rita. E mais algumas nos arredores, das quais a Ferrari, em Santa Cruz das Palmeiras, é a mais próxima. Falando nisso, quando tiver dinheiro e estiver morando no sítio, vou comprar um pedacinho qualquer de terra só para arrendá-lo pra Ferrari. Como fornecedor, terei direito a abastecer meu carro a álcool nas bombas da usina, pagando menos da metade do preço cobrado nos postos da região. E a usina ainda lucra ao vender o álcool por menos da metade de seu preço oficial. Também, pudera, esse álcool não precisa viajar até Paulínia, na Petrobrás, para depois voltar, num processo idiota, estúpido, imbecil, burro e quantos outros adjetivos possam existir nos Aurélios da vida. Dizem que essa é uma exigência da Petrobrás. Petroleiros dizem que a exigência é do governo. Não importa, o que conta, ao fim e ao cabo, é que o combustível poderia custar a metade do que custa para o consumidor, se fosse distribuído e vendido onde é produzido. Ao invés disso, circula centenas de quilômetros gastando combustível, dissipando energia, contribuindo para o efeito estufa, agregando custos e, o mais importante, somando impostos para alimentar a voracidade da máquina pública. Danem-se o ambiente, o consumidor e o futuro.

Pois bem, como dizia, um dia ainda arrendarei um pedacinho de terra pra usina, e virei a fazer parte do feliz mundo dos sustentados no todo ou em parte pela cana. Sim, sim, a cana sustenta. Trabalhar na usina é o sonho da rapaziada em toda parte onde há uma usina. Nem dá para comparar o brutal trabalho na roça, de sol a sol, de chuva a chuva, com o trabalho na usina, regido pelos horários, ritmos, salários e benefícios da indústria. O dinheirinho, pensando em termos tupiniquins, é bom, muito bom. O sujeito baseia sua vida nessa realidade e toca em frente, feliz ou menos infeliz, dependendo do gosto de cada um.

Bóia-fria, ou trabalhador temporário, sem o qual a agricultura não vive, é cada dia mais e mais difícil. Os que a gente encontra são os que estão arrolados no Departamento de Tranqueiras. Nenhum, quase, presta. É um povo que gosta do emprego, mas não do trabalho. Que exige a paga no fim do dia ou da semana, mas não deixa contrapartida sequer razoável em troca. É um pessoal tão tranqueira que não conseguiu trabalhar para nenhuma das usinas, para onde correm todos ao menor chamado. Bom, não são só as usinas que empregam o melhor da mão-de-obra volante, pois os laranjeiros também o fazem. A disputa é dura e o pior sobra para nós, que não somos usineiros ou laranjeiros.

A verdade é que a cana gera muito emprego, e esse emprego é melhor remunerado que a média de cada região onde tem cana.

Embora bonito de ver, não sou muito chegado às vastas paisagens tomadas pelos canaviais. Prefiro a diversidade, o mosaico multicolorido de culturas e pastagens, com seus limites ora arredondados, ora retilíneos, com diferentes coisas acontecendo em diferentes momentos do ano. Mas é difícil não concordar com o valor e importância dessa lavoura e sua indústria correlata, mormente quando se vive numa região em que ambas estão presentes.

As usinas têm capital, parques de máquinas, know how, corpos técnicos e profissionais capacitados para plantar, cultivar, colher, processar a cana e seus dejetos. Com isso, trabalham cada vez mais com maior qualidade e cuidados, o que se reflete na conservação do solo em toda a região. É comum o proprietário rural entregar sua terra para arrendamento já meio degradada, com problemas de erosão pipocando por toda parte. É quando chegam as máquinas da usina. São grandes, potentes, poderosas, produtivas... Chegam como as tropas americanas depois do Dia D, em grandes comboios desfilando suas cores pela paisagem. Em minutos ou horas dão conta de trabalhos de correção totalmente fora do alcance de qualquer produtor rural. Poucas semanas depois, o verde da cana já tomou conta de mais uma área onde vacas pastavam um pastinho ralo ou laranjeiras doentes definhavam à espera da motoserra.

Ao plantar e cultivar corretamente, com medidas de conservação e prevenção da erosão, as usinas preservam os cursos d’água impedindo seu assoreamento pelo escorrimento das terras superficiais. Ao mesmo tempo, incrementam os lençóis freáticos que vão alimentar fontes que, por sua vez, alimentarão os regatos e riachos e córregos diversos. O ideal é que tudo isso ocorra com a rigorosa preservação dos trechos de matas ainda existentes, geralmente pequenas áreas em grotas e áreas de fontes. Melhor ainda seria se houvesse um grande acordo envolvendo governo, sociedade e usinas, que as incentivassem (mais do que obrigassem) a criar novas áreas de preservação permanente.

Esse é, a meu ver, o grande pulo do gato para a expansão da cana pelas grandes áreas de pastagens degradadas de todo o Centro-Oeste e parte do Norte do Brasil. Por ali, muito mais que em São Paulo e Paraná, por exemplo, existem plenas condições para permitir o estabelecimento de grandes talhões de lavouras, cortados, divididos, por áreas de matas e matas ciliares. Vejo como plenamente factível, graças à importância e aos preços praticados, que uma nova área de plantio só possa ser tocada em frente com o compromisso de preservar o que já existe de vegetação nativa – o que é o óbvio e o mínimo – e, acima de tudo, com o compromisso, mais que isso, a missão de criar ou recriar novas áreas com vegetação nativa, protegendo fontes, rios, riachos, flora, fauna, ambiente, ajudando-nos a ter um futuro digno desse nome e sentido (futuro quase sempre é algo com conotação positiva).

Gostaria muito de ver usinas como a Nova Olímpia, do Mato Grosso, criadas em meio ao vazio populacional dos cerrados. Sim, lamento pelos cerrados, mas a verdade é que boa parte deles já se foi e meia dúzia de empregos foram gerados. Com uma usina, a cana toma o lugar da pastagem, as pessoas têm trabalho, fertilizantes e defensivos são aplicados para garantir boas safras e mais álcool estará sendo permitindo que nosso padrão e estilo de vida seja mantido com menor consumo de gasolina e menor geração de CO2.

Bom, mudar nosso estilo de vida, mudar nosso padrão de vida (nosso o que?), já é outra história, em outras esferas e tampouco impede ou tira a importância e necessidade de produzirmos mais álcool, junto com novos empregos.

Bom, nessa altura da manhã os efeitos da cheiração de cana fermentada no sítio já vão passando. Da cozinha chega outro cheiro, o do café sendo coado, e vou em busca dele. Se tem gente e carros movidos a álcool, creio que eu mesmo sou movido a cheiros. Bons, é claro.

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terça-feira, abril 03, 2007

Tá explicado



Agora ficou fácil de entender.


Quando vi a fumante diretora da ANAC mamando um charuto em nababesca festa de casamento de filho de político baiano de alto coturno, antes de ficar indignado, sentimento que por aqui é fora de moda e perda de tempo, fiquei curioso sobre quem seria essa figura e quem seria seu padrinho.

Sim, padrinho, pois por aqui, e notadamente nesse governo "companheiro", altos postos da administração pública são entregues a qualquer um, desde que bem indicado, ou seja, desde que tenha bom QI - quem indica.

Na coluna Persona de hoje, no Estadão, César Giobbi revela: Dona Denise Abreu é indicação de José Dirceu.

Isso mesmo, aquele Zé Dirceu, o próprio, que, tal como Palocci e outros, continua dando ordens, continua importante, continua respeitável e respeitado na república bananeira, digo, companheira.

O outro diretor da ANAC presente ao regabofe e que se auto-proclamava como o "próximo presidente da ANAC" é apadrinhado de Itamar Franco, aquele obscuro vice que virou presidente e surgiu para o mundo ao lado de recatada moça sem calcinha, com as "partes pudendas" expostas, em pleno Sambódromo, na frente de dezenas e dezenas de jornalistas e milhares de pessoas.

E a TAM ainda tem coragem de pintar em seus aviões "orgulho de ser brasileira"...

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domingo, abril 01, 2007

Crime e Acinte





Dona Denise Abreu é diretora da ANAC, a Agência Nacional de Aviação Civil, supostamente responsável por tudo que diz respeito ao transporte aéreo no Brasil. Vejo nessa manhã de domingo, logo cedo, belas (sic) fotos de Dona Denise mamando respeitável charuto, não tão respeitável como os que mamava Churchill, mas, ainda assim peça de respeito.

Dona Denise estava em fantástico regabofe, em Salvador, capital da Bahia. Por ali, em meio aos espumantes e escoceses, circulavam outras autoridades republicanas, inclusive mais algumas ligadas à ANAC. Clima, cara e jeitão de festa, afinal, era o casamento do filho ou filha de político baiano de nomeada. E a gente sabe como são festas de políticos, né?

Nessa festa, diz o pai de um dos nubentes que gastou apenas oitenta mil reais. Papagaio! Isso é que é saber comprar bem! Infelizmente, porém, estimativa por baixo de jornalistas a partir dos preços cobrados pelo buffet, apontam o gasto em cerca de duzentos mil reais, pelo menos. Fora as bebidas, claro, além de outras coisinhas. Bom, isso é picuinha de pobre, de classe média falida e invejosa das festas dos nababos.

Mas enquanto rolava a festa, enquanto Dona Denise mamava seus charutos, enquanto as autoridades republicanas esbaldavam-se no consumo de algumas centenas de espumantes espanhóis e algumas dezenas de escoceses, muitos milhares de pessoas perdiam o dia e a noite acampados em aeroportos tupiniquins. Perdiam, também, casamentos, com certeza não tão nababescos, perdiam funerais, perdiam festinhas de aniversário, batizados, comunhões... Perdiam um dia ou dois com os familiares distantes, perdiam conexões, perdiam dias de serviço e talvez negócios importantes.

Uma dessas pessoas perdeu mais que todas as demais: perdeu a vida em Curitiba, vítima de fulminante infarto. Difícil não dizer que tal desdita não tenha sido provocada pelo caos aeroportuário. Talvez seja o caso de dizer que ele foi assassinado, por que não? Nesse caso, o homicídio deve ser imputado à malta de controladores e à malta de autoridades à frente dos destinos desse imenso bananal.

Em outras condições eu poderia ser simpático à causa dos controladores de vôo, mas não sou. Eles foram, claramente, os responsáveis pela morte de 155 pessoas no acidente com o avião da Gol e o jatinho americano. Quando ficou clara sua culpa, encheram-se de brios corporativos e deflagraram suas operações-tartaruga, operações-padrão, chegando ao ridículo de uma greve de fome. Infelizmente, foram interrompidos em tão nobre e útil propósito.

Eles ganham pouco, muito pouco mesmo, e não estou ironizando, pelo contrário. Fiquei assombrado com a baixíssima media salarial da categoria. Não têm preparo – mais de 90% nada fala de inglês, além de um prosaico “tanquiú” e “gudibai”, e olhe lá. Exercem uma das mais estressantes profissões do mundo.

Mas durante anos e anos mantiveram-se mudos e ovinamente conformados com equipamentos sucateados, equipamentos sem manutenção, salários, condições de trabalho, etc e tal. Só despertaram quando tantas mortes também despertaram alguma investigação. E, desde então, querem cantar de galo, penalizando, para isso, dezenas de milhares de pessoas que nada têm a ver com seus problemas, sua falta de consciência profissional, seu acarneiramento contumaz.

Os controladores de vôo e as autoridades republicanas merecem-se uns aos outros. Não estou bem certo com relação a nós, mas... Sei lá, acho que também merecemos.

Mais um acintoso charuto, Dona Denise?


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quarta-feira, março 28, 2007

Nas estradas da vida

A tarde de começo de outono ia do meio para o fim, a temperatura já estava mais gostosa e a proximidade do sítio tornava tudo ainda melhor, completando a sensação de bem-estar e “em paz com o mundo e a vida” iniciada quase uma hora antes, numa barraquinha/Kombi meio mambembe, na beira da estradona entre Araraquara e São Carlos.

Naquele trecho há um monte de peruas transformadas em quiosques vendendo garapa e outras coisas. Mas a garapa, ou caldo-de-cana, é o carro-chefe. Toda vez que passo por aquele trecho e o calor é forte e o tempo permite, paro e tomo meu caldo-de-cana. Esse pequeno hábito, ainda que muito espaçado, é coisa que me acompanha desde sei lá quando, mas acho que desde os meados dos anos setenta.

É, o tempo passa...

Comento isso com o garapeiro que tem toda a pinta de ex-alguma-coisa desempregado, que comprou uma Kombi véia e foi pra beira da estrada ganhar a vida. Além da garapa ele vende ovos caipiras, mel, doces diversos, e sei lá mais o que, nada que me interesse. Os ovos são meio caros, como tudo mais na beira da estrada. Uma pilha de embalagens com ovos grandes se destaca. Diz ele que são caipiras com duas gemas.

Hummmmmmm...

Sou capaz de apostar alto que são ovos de granja, isso sim. As galinhas caipiras botam poucos ovos com duas gemas e são criações pequenas. A quantidade de ovos naquela barraca só poderia ser gerada numa grande criação, com milhares de galinhas poedeiras. Logo, numa granja. Estatisticamente fácil de se perceber. Logo, o simpático kombeiro-garapeiro não é lá muito honesto no quesito “ovos”, mas o é no que importa a mim, o caldo-de-cana, gelado, doce e saboroso.

O garapeiro conta que a cana, fininha e até meio feia, é mesmo muito doce e é toda fornecida pelo Picinin, um situante dali de perto, que entrega pra ele e todos os outros garapeiros daquele trecho. E faz isso há muitos anos já, pelo jeito, a vida toda. Não duvido, respondo pra ele, afinal, eu mesmo passo por ali há trinta anos ou pouco mais e lembro-me da garapa ser sempre boa, confiável, doce ao extremo.

Termino meu copo, ele enche novamente e lá vai goela abaixo, refrescante e energizante. Mal termino, ele enche o copo pela terceira vez e ainda me ameaça com o que sobrou na jarra e que, certamente, renderá mais um, o quarto copo. Entristecido, mas satisfeito e de barriga cheia, declino. Aumento em 1/3 o valor que tenho a pagar e ele protesta, dizendo que não precisa, os copos extras são cortesia da Kombi, digo, da casa. Sim, sim, eu sei que são cortesia, e esse algo mais no pagamento também é cortesia. O atendimento foi excelente, super-gentil, o produto estava excelente, delicioso e bem gelado, me botou de bem com a vida (não que eu estivesse de mal com ela, mas, sempre é bom estar, explicitamente, de bem) e achei justo deixar um pouco mais. Apesar da história dos ovos de duas gemas serem caipiras. Um pecadilho menor e que serve muito bem para mostrar-nos como somos, os brasileiros. Somos legais, mesmo com um pouco de ilegalidade aqui e ali.

E depois de tudo isso, de novo na estrada, outra estrada, e outra, e, finalmente, a estradinha vicinal pro Sítio das Macaúbas. E, nela, já perto do Brejão, a visão da paineira, tão bonita que força uma nova parada.

Por puro prazer.




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A paineira se destaca na paisagem tomada pela cana nos dois lados da estrada.



É bonita a danada, e cheia...



... tão cheia que esconde outras duas logo atrás dela, embora não tão bonitonas.




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quinta-feira, março 22, 2007

Água


A cristalina, transparente e vital linfa (arghhhhhh) ficou tão importante que tem até um dia só para ela, o Dia Mundial da Água.

Que é hoje.

Por toda parte vemos e ouvimos cadernos especiais, programas especiais, menções, imagens e discursos, muitos discursos. Nada resolve, claro, mas pelo menos temos o Dia da Água, para conscientizar a todos, etc e tal.

Água, desmatamento e desertificação são coisas que me preocupam desde há muito e estão intimamente interligadas, assim como a poluição.

Bom, sinceramente, não estou com muita disposição para escrever sobre água, hoje. Abro o blog e vejo que a previsão é de mais um pouco de chuva no sítio, amanhã. Maravilha, são as águas de março que fecharam o verão e estão abrindo o outono.

Caronistas desejáveis


De antemão já peço desculpas pelas fotos que não vão conseguir mostrar o que eu vi e fotografei. Ou pensei ter fotografado.

Algumas aves vivem perto dos bois, vacas, cavalos e búfalos, além de ovelhas e cabras. Ficam por ali, ora pegando uma carrapata gorda, cheia de sangue e ovos, ora comendo os insetos que fogem das patas dos animais. Basta um olhar um pouco mais atento e a gente observa essas curiosas relações.

Aqui, um bando de gaviões-carrapateiros, também conhecidos como gaviãozinho e pega-pinto, passeava entre as búfalas do Tião, algumas pastando, outras descansando, dormindo, mesmo, como essa da foto.



Essas ovelhas deslanadas são da raça Santa Inês, criada no Nordeste a partir de animais trazidos pelos primeiros colonizadores europeus. Adaptaram-se bem às condições de vida do agreste e do semi-árido, e agora são criadas para fornecer carne com bastante sucesso. Esses exemplares são de um sítio próximo, onde há mais de cem cabeças. Disseram-me que o dono está louco para vender tudo, pois não consegue comercializar os animais para abate. Pelo menos nesse interior paulista, carneiro ainda é carne meio cerimoniosa, distante das panelas do dia-a-dia. Com um olhar atento e uma grande dose de boa vontade talvez dê para perceber um casal de siriris sobre o dorso da ovelha, em sua faina habitual de procura de comida.



Há controvérsias sobre a origem dessas garças-brancas-pequenas, já chamadas de garças-carrapateiras. Alguns especialistas dizem que elas migraram da África para o Brasil, enquanto outros dizem ser ela nativa. Curiosamente, minha tendência é apostar na imigração. Quando criança, essas cenas misturando gado e garças eram inexistentes. As poucas garças que víamos eram as grandes e sempre em beira de grandes rios. Ver uma garça era uma festa... Hoje, felizmente, é lugar-comum, tanto em volta das vacas e búfalas como dos cavalos. Escolhi essa foto feita numa várzea na entrada de Santa Rita do Passa Quatro, caminho de passagem entre o sítio e a cidade.


Certa feita, no Haras Desempenho, em Cachoeira de Macacus, no Rio de Janeiro, avistei uma garça vindo em um longo vôo pelo vale e pousar, meio destrambelhada, no dorso de uma égua mangalarga que pastava e continuou pastando,sem dar maior atenção à amazona inesperada.

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Miscelânea de dias e acontecimentos


Dias confusos.

Corridos, preocupantes, ocupados ao extremo, agravados pela implantação de três pontes de safena em meu sogro, e depois um AVC, felizmente leve, mas, assim mesmo, traumatizante e muito preocupante. Lentamente a vida vai voltando ao seu eixo, e até por conta disso, acabei ficando bastante tempo em Santa Rita do Passa Quatro, dividido entre o sítio e a cidade.

Choveu, finalmente, e choveu bem, a chuva certa, do jeito certo, na hora certa. Mansa, sem causar enxurradas, sem provocar erosão, caindo levezinha por horas a fio. As noites já ficaram mais frescas ainda no verão que findou, dando lugar a esse outono que começa gostoso: fresco e úmido.

Março e abril parecem meses em que se torna mais fácil avistar animais que moram em nossa região. Nesse final de semana, contrariando minhas instruções, o rapaz que cuida dos cascos e ferraduras do Brioso viu uma jararaca próxima à mina e matou-a. Inutilmente, atrevo-me a dizer, apesar de sua ponderação que ela “ia sair dali e podia pegar uma vaca, uma novilha...” Sim, é verdade, ela poderia sair dali, do entorno da mina e do córrego, no meio do capão de mato que protege a água. Mas, por que sairia do seu habitat natural e predileto? É raro encontrarmos jararacas fora da matinha da mina, onde o gado não entra, a menos que por acidente (até porque o gado não deve ter acesso à água em córregos ou açudes, e sim nos cochos). Curiosamente, porém, é comum encontrarmos jibóias nas proximidades da mata, e até no barracão do curral há algumas semanas. E cascavéis, claro, mas, apesar desse plural, vi somente uma cascavel nesses anos todos, e dentro do barracão. Consegui capturá-la e trouxe-a para o Butantan, uma senhora cobra de 1,3 m de comprimento.

Também nesse final de semana avistei, uma vez mais, o que me parece ser uma irara, já terminando de cruzar o asfalto e entrar na macega que margeia o Rio Clarinho. Não foi a primeira vez que avistei esse animal, de corpo esguio e preto, pelo brilhante, cauda longa. E esperto como o diabo, pois nunca consegui flagrá-lo de corpo inteiro, sempre só a metade traseira e o rabo, já adentrando a vegetação que margeia a estrada. Perto da chácara do meu sogro, como gosto de entrar por uma estrada de terra que corta uma área que deveria ser uma reserva, avistei um mutum-pinima bebendo água numa das poças d’água criadas pelas chuvas. Tão logo viu o bico do meu carro, virou-se e entrou no cerradão que marca o local. Aqui, na Granja Viana, eles eram comuns, inclusive freqüentando as árvores do terreno ao lado de casa, mas agora sumiram. Creio que a construção de mais casas e o conseqüente desmatamento, afastou-os daqui; uma pena, e em breve os sagüis – que hoje apareceram cedo em busca de comida – terão sua área tão diminuída que irão, simplesmente, desaparecer.

No sítio fechamos o primeiro silo, uma mistura de capim com milho. Ficou pequeno e muito caro. Incrível como o dinheiro é consumido em qualquer coisa, qualquer atividade realizada no sítio. E, para entrar... Bom, velha e triste história. Pronto o silo, descobri que seria 40% mais barato comprar silagem pronta, de milho, de qualidade muito superior à recém-feita. Agora, Inês é morta e não adianta chorar. Nos próximos dias terei de fazer outro silo, esse de cana, e no tamanho certo: por volta de 45 toneladas. Vai ficar caro, também, mas não há outro jeito, pois a seca já se avizinha e, de repente, não mais que de repente, a gente acorda e vê que não tem pasto algum pras vacas.

E a vida vai seguindo enquanto isso.

Doei um bezerro Jersey pro leilão de arrecadação de fundos para ajudar as obras da reforma da igreja de Santa Rita. Dá dó ver o bichinho ir embora.

O pessoal admirou-se com sua mansidão e docilidade. Basta dizer que nem precisamos tocá-lo para o embarcadouro: o motorista do caminhão, o Ismael e eu conseguimos levantá-lo e colocá-lo no caminhão. Ficou na memória seus grandes olhos escuros olhando para mim e para os irmãos no piquete, comendo o feno que ele também estava comendo. Não gosto dessa parte da vida no sítio, mas é assim que ela é, seja no sítio ou na cidade. O Gilberto, nosso leiloeiro “oficial”, disse que procuraria destacar que o bichinho é bom para ser criado como touro para cobrir vacas mestiças ou holandesas. Tomara que seja esse seu destino e viva confortavelmente.

Isso, por sinal, consolidou minha decisão de trabalhar com inseminação artificial o mais breve possível, usando sêmen sexado, ou seja, sêmen que vai gerar fêmeas com 95% de certeza. Custa caro, é claro, mas mesmo assim compensa, pois é mais barato criar uma fêmea do que um macho, além de evitar o dissabor de ter de se livrar de bezerros machos.

Peguei uma caixinha de leite no mercado...

R$ 1,70...

Para pagar essa única caixinha, preciso produzir e vender cerca de 18 litros de leite, pois, se estiver ganhando muito bem, estou ganhando coisa aí duns oito ou dez centavos por litro produzido.

A caixinha é “longa vida”, chique no úrtimo, coisa de país rico. Em países pobres, como os Estados Unidos, o leite é comprado em embalagens plásticas com um galão de capacidade (quase 4 litros). Essa embalagem custa mais barato que uma única das nossas caixinhas “longa vida”. Coisa de gente rica essa de comprar tudo em caixinhas “longa vida”. Um dia,ainda, os americanos chegarão ao nosso nível.

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terça-feira, fevereiro 27, 2007

Verdades convenientes e nem tanto


Al Gore disse que não é e não vai se candidatar ao governo dos Estados Unidos, pois está muito envolvido com a causa ambiental.

Sinceramente?


Não importa. Mesmo que ele mude de idéia e venha a ser candidato – coisa, por sinal, que seria extremamente justa –, sua dedicação à luta pelo ambiente rende frutos importantes e de longa duração, e a conquista do Oscar para o ducumentário An Inconvenient Truth (Uma Verdade Inconveniente) foi uma alavancada poderosa em sua luta.


Uma luta que precisa ser a mesma de todo cidadão desse planeta e que precisa de ações positivas e não de discursos ou ações tolas como dar nome a alguma obra, digamos, “Estádio da Sustentabilidade”.

Essa é a postura brasileira típica, nomeia-se alguma coisa em homenagem a alguém ou alguma causa e pronto, os braços se cruzam e ficamos esperando que as soluções dos problemas caiam do céu.

Uma mentira conveniente.



Uma torcida conveniente

Desde já torço pela Honda na Formula 1 2007.


Não só pelo fato do Rubinho ser um dos pilotos e por eu gostar dele, mas, sobretudo, pela fantástica postura social e de marketing da Honda, que abdicou dos patrocínios em seus carros e pintou-os com a imagem do planeta visto do espaço. Além de muito bonitos, abriram espaço nos corações de quem acredita que há solução para a Terra.


Se eu fosse trocar de carro hoje, com certeza e com prazer, meu próximo carro seria um Honda.





What can I do?

Visite esse site, vale a pena:

Take Action - www.climatecrisis.net/takeaction/

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sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Água, Comida e Desemprego




Desemprego e gente empregada


O jornal dá a notícia em manchete, letras garrafais no caderno de economia, com chamada na capa da edição:

“Desemprego no mundo é recorde”

Em letras bem menores, um subtítulo:

“São 195,2 milhões de pessoas sem emprego e setor de serviços já ocupa mais mão-de-obra que a agricultura”

Serei sincero: a manchete chamou minha atenção, sem dúvida, mas o que me levou a ler a matéria e agora comenta-la aqui, foi o subtítulo, com a nota de menor importância dando ciência que menos gente trabalha na agricultura que na área de serviços.

Acredito que pela primeira vez na história da humanidade há mais pessoas prestando serviços que produzindo alimentos.

Esses números e os que virão a seguir são da OIT, acredito eu que insuspeita mesmo aos olhos mais radicais dos políticos de certos países. No ano de 2006 era de 2,9 bilhões o número de pessoas trabalhando nas indústrias, nos campos e nas lojas e outras empresas da vasta área de “serviços”.

2006 marca, também, o ano em que pela primeira vez mais pessoas moram nas cidades que nos campos em todo o planeta, mas a matéria só diz que o número, obviamente, é maior que 50%.

Do total de 2,9 bilhões de trabalhadores, o setor de serviços ocupa 40%, a agricultura 38,7% e a indústria 21,3% do total. Isso quer dizer, a grosso modo, que cada trabalhador na agricultura precisa produzir grãos, fibras, carnes, leite, ovos para si próprio e para pouco mais de cinco pessoas. Essa proporção cresce rapidamente, à medida que mais pessoas deixam os campos e migram para as cidades, deixam as duras tarefas agrícolas e vão em busca de melhores condições de trabalho, conforto e possibilidade de progresso. A vida no campo para quem é pequeno produtor é muito ingrata ainda nos dias de hoje. Não por maldade ou por culpa de supostos “terratenientes”, ou ainda do moderno “agronegócio”, mas simplesmente porque os mercados do mundo inteiro não dão valor aos alimentos. Comprar um minúsculo chip custa o equivalente a centenas de quilos de feijão ou muitas centenas de litros de leite. Tanto o inventor como os operários que pensaram e produziram a pecinha não sobrevivem mais que uma semana, em média, sem o arroz com feijão, bife, ovo e salada de todo dia. E em boa quantidade, pois, em caso contrário, não terão neurônios suficientes para pensar em nada mais que pedir comida. Ou, não muito fracos, lutar por ela.

E ninguém poderá comer chips. Por mais revolucionários e poderosos que sejam, sua complexidade não chega aos pés de um simples grão de arroz ou feijão. E não há como digerir os negocinhos, diga-se de passagem.



Não é só a produção de comida...


... que está ameaçada. Com poucos dias de diferença o jornal informou que, segundo a também insuspeita FAO, em 20 anos ou menos cerca de 60% da população mundial terá problemas com a escassez de água.

A FAO calcula que até 2025 pelo menos 1,8 bilhão de pessoas viverão em países ou regiões com “drásticos” problemas de acesso à água.

Já nesse 2007 começado há pouco, mais de 1 bilhão de pessoas já tem problemas com falta de água potável para suas necessidades diárias. Em algumas regiões do planeta, agricultores já entram em severas disputas por fontes de água. Cabe dizer que esse problema já existe em algumas regiões agrícolas do Brasil, e seu número e abrangência cresce ano a ano.

Completando esse quadro, nada menos que 2,6 bilhões de pessoas não têm instalações aceitáveis de saneamento. Isso reflete pesadamente sobre a água existente, contaminando-a e tornando-a imprestável para consumo humano e animal.

Esses números são assustadores e estão casados com outros que apontam para o aumento da pobreza, apesar dos anos seguidos de crescimento econômico que atravessou o planeta.

A Terra de Vera Cruz tem terras agricultáveis abundantes e, ainda, muita água. Todavia, não tem projeto, plano, idéia, nem mesmo um grupo de estudos ou uma comissão inter-ministerial para pensar e cuidar dessas coisas. Avançamos pelo mundo como um cego sem bengala, sem cão-guia e surdo, ainda por cima, atravessando uma larga avenida paulistana na hora do rush, mas com o trânsito em movimento. O risco de atropelamento fatal é grande, quase total.

Ah, sim, com tudo isso o jornal destacou o desemprego.

Questão de perspectiva.

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segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Tempestade!




A segunda-feira de Carnaval recém-começara quando a chuva chegou, violenta como poucas vezes vi antes. Era de se esperar, pois o calor, a umidade e a pressão barométrica estavam por demais da conta. É interessante como essa combinação de fatores provoca dores de cabeça reais, não figuradas. Cefaléias, de fato. Tanto ontem como anteontem minha cabeça já sinalizara para isso, sinalização devidamente afogada em comprimidos de Neosaldina, santo remédio para essas e outras horas.

O que assusta nas grandes tempestades é o vento. Ao redor da casa as árvores literalmente dançavam ao seu sabor e humor. Meu pensamento primeiro foi para os bezerros e depois para as vacas, mas aquietei-me, eles convivem com isso há centenas de milhares de anos. Mesmo assim, a vontade de sair e ver como estão é grande, mas resisto.

Os cachorros e os gatos correram a se esconder. A Manchinha foi a última, pois procurou abrigo na porta da cozinha, justamente para onde o vento dirigiu catadupas d’água, apesar da proteção da varanda. A bichinha, até outro dia uma “sem-teto” ou “sem-tudo”, deve ter indagado aos céus o porque de tudo aquilo. Curiosamente, vários sapos ocuparam a varanda da cozinha. Temos aqui sapos para todos os gostos, de todos os tamanhos. São ignorados, temidos ou respeitados pelos carnívoros de plantão.

Ruídos típicos tiraram-me da cama: goteiras, muitas, uma delas uma verdadeira torneira, justamente embaixo da antena da internet. Já vi tudo: a rapaziada, em seu passeio teto acima, deve ter quebrado ou deslocado um monte de telhas. Que ótimo, começamos bem.

Antes de deitar, previdente, desliguei os equipamentos eletrônicos das tomadas. Seguro morreu de velho, e fiz bem, pois, aparentemente, caíram vários raios por perto. Essa é outra característica interessante de Santa Rita do Passa Quatro: raios em profusão. Na verdade, segundo o INPE, essa é uma das regiões com maior incidência de raios no Brasil.

Tempestades como essa não nos são desconhecidas, sempre existiram. Todavia, a impressão que temos e confirmada pelos estudos meteorológicos, é que elas estão acontecendo com maior frequência. O que era um evento lembrado por alguns anos, agora se sucede a cada estação. Tudo indica que por conta do aquecimento global. Em meus planos para os próximos anos, estou considerando secas mais prolongadas e chuvas mal distribuídas e mais violentas. Tudo isso implica em mais despesas, em gastos muitos maiores com a conservação do solo e produção de alimentos de reserva para o gado. Paradoxalmente, ao mesmo tempo, os preços dos produtos agrícolas – sem os quais ninguém sobrevive por aqui, inclusive o Bill Gates e o Steve Jobb – caem a níveis insustentáveis, só permitindo a sobrevivência de grandes produtores, capazes de ganhar e investir graças aos ganhos de escala.

Como dizia uma campanha de assinaturas do Estadão, o mundo está ficando mais complicado. E bota complicado nisso.

Apesar da curta duração, tempestades como essa provocam danos de monta. Agora, o melhor é dormir, aproveitando a refrescada no tempo, para logo cedo proceder ao levantamento e estimativa de danos.

E pisar com cuidado para não enfiar o pé numa poça-d’água a caminho da cama.


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domingo, fevereiro 18, 2007

Macaúbas on Line - Carnaval 2007





Já falta chuva

Domingo de Carnaval, para nós é como outro qualquer.

A última chuva caiu no domingo anterior, portanto estamos no sétimo dia sem chuva. Dias quentes de sol forte, inclemente, tudo fica seco muito depressa, e hoje, ontem, anteontem, já precisamos de chuva. Começo a ficar com medo de ter muita gente pedindo pra chuva parar. Vai que alguém influente ouve e...



Manchinha

Nossa nova moradora permanente é engraçadinha, simpática, afetuosa e desde o começo muito ligada a todos nós. Começa a ficar confiada bem depressa, uma característica nossa, impossível de ser evitada; é assim que somos.

Por algum motivo que desconheço ela gosta de entrar na vasilha de água para beber. Lá fora, numa das muitas vasilhas usadas por galinhas, cachorros, gatos e à noite pelos sapos, isso não causa grandes problemas. Porém, dentro de casa complica, pois ela entra na vasilha com leite e como ela é menor que as de água, vira a vasilha e suja tudo.

Essa mania, aliás, rendeu-lhe belo castigo ontem. Ela entrou no cocho de água que fica embaixo da cerca do bezerreiro de baixo, ao lado do corredor de passagem das vacas que estão no leite. Estava lá, satisfeita, quando levantou-se mais do que devia e encostou no arame da cerca. Eletrificado. Coitada... Deu um baita pulo e saiu ganindo. A água intensifica o choque, para azar dela. Mas, para sua sorte, o choque da cerca elétrica é apenas um pulso e não oferece risco, mesmo dentro d’água. Pelo menos ali acho que ela não tornará a entrar. O aprendizado pode ser um processo doloroso.

Ontem ela cruzou com o Stanley duas vezes. Ele, claro, não desgruda dela, passa o dia inteiro ao seu lado, pra cima e pra baixo. Isso significa mais uma despesa com veterinário, mas, como dizia um filósofo, faz parte. Logo depois do Carnaval ela vai pra clínica para ser operada, junto com algumas gatinhas.



Internet

É muito bom ter internet no sítio. Na prática, isso significa que já podemos nos mudar para cá em definitivo, basta vender a casa da Granja Viana.

Mais uma etapa em nossas vidas.

Mudar é uma coisa boa, estimulante, com seus desafios e novos conhecimentos e hábitos. Deixar para trás toda uma vida urbana, povoada por sonhos rurais, e encarar a realidade, o dia-a-dia do sítio, sem a perspectiva de voltar “para casa” na segunda ou na terça-feira, será diferente e verdadeiramente novo.

Só falta vender a casa...



Sete!

Diz o povo que sete é conta de mentiroso, mas pela sétima vez, pela sétima safra, meus preciosos pequis foram roubados!

Há apenas vinte dias estavam na árvore, bonitos, e eu babando por eles, não para comer, mas para tirar as sementes e formar o máximo de mudas que fosse possível.

Humpf...

Pra variar, uma vez mais, algum vagabundo parou na beirada do asfalto, passou pela cerca e arrancou os frutos, e com eles galhos inteiros. Esse é o último pequiseiro nativo num raio de alguns quilômetros; eram abundantes antigamente, tanto que eram queimados e cortados, para não atrapalhar a formação de pomares, pastos e canaviais. Desde meu primeiro ano aqui venho sonhando em formar mudas e plantar novas árvores...

Continuarei só com a vontade.



Será?

O céu sobre nossas cabeças – sem o risco de cair sobre elas, apesar do que pensavam os gauleses – está estrelado, mas a leste e sul as nuvens escondem as estrelas. Em intervalos curtos grandes clarões iluminam as nuvens, gerados por descargas elétricas em grandes altitudes. Ocasionalmente, uma trovoada se faz ouvir. Fica a esperança da chuva chegar pela madrugada, chegada sempre bem-vinda. O barulho da água no telhado, logo seguido pelo frescor que pede por um lençol. Tomara que chova, afinal, é Carnaval, e não lembro de Carnaval sem chuva.

Vou dormir com a velha marchinha na cabeça:

“Tomara que chova, três dias sem parar...”


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sábado, fevereiro 17, 2007

Macaúbas on Line


Sob o olhar curioso dos gatos e dos cachorros conecto pela primeira vez diretamente do Sítio das Macaúbas.

Tá quente pra burro, as vacas estão nas sombras, os bezerros dormem, a passarinhada tá meio aquietada também.

E a internet funciona aqui pela primeira vez.

Aleluia!

O melhor de dois mundos: sertão hightech.
Recomendo.

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