domingo, fevereiro 07, 2016

Roça, domingão e (o santo) whatsapp



Domingão e de Carnaval, ainda por cima, não que isso faça alguma diferença. Às seis e dez, com pequeno atraso, a ordenhadeira já funcionava.
As baixadas próximas estavam encobertas pela névoa, sinal de mais um dia quente pra burro, com um Sol senegalês. Se bem que, embora não conheça o Senegal, diria que lá o Sol forte é chamado “Sol de Bangu”.  Ou o “Sol de Carinhanha”, igualmente quente, quente pra dedéu.


Estou lavando uns equipamentos e entra uma mensagem no whatsapp. É da Rosa, que foi mais cedo hoje pra casa da sua mãe. Da porteira, onde ela parou para abrir o cadeado e depois deixa-la aberta, ela diz que tem um grande galho caído e que vai impedir a passagem do caminhão do leite, além de dificultar muito a passagem do carro.
Ok, logo mais o marmitão aqui vai lá pra ver o que pode ser feito.


Estou pondo a leitura em dia, preparando alguma coisa pra escrever e entram duas ou três mensagens no zapzap...
É o caminhoneiro do leite.  Está tentando me ligar no celular, mas não conseguiu.
Claro que não! O sinal da TIM é a mesma coisa que uma nota de sete reais.
Aí ele lembrou do zapzap e...


Ele está com o caminhão cravado, atolado, no alto da estrada de ligação da Usina Ferrari com a vicinal do Brejão, cuja continuação é a nossa vicinal, a Jayme Nori. Está tentando ligar pra casa do Rubens e do Renato pra pedir auxílio, mas não consegue.
Normal. Eles têm telefone fixo. Ou melhor, eles “têm”, pois o fixo da Vivo é o mesmo que uma nota de três reais. Passo pra ele os celulares dos dois e digo pra ele ligar via whatsapp. Embora distante, principalmente para ir de trator, é a ajuda mais próxima à qual ele pode recorrer.
Em pleno domingão, claro...


Ligo pra usina... O telefone que tenho só funciona nos horários comerciais. Que beleza...
Ligo pro celular do responsável da prefeitura pelas estradas, mas ele não atende. Pena. Não ia pedir pra socorrer, ia pedir o telefone do “operacional” da usina, pois em 10 ou 15 minutos eles teriam um trator onde o caminhão do Thiago está atolado, poupando o Renato de umas duas horas, ida e volta, só de estrada.


Entra outra msg: o Thiago conseguiu falar com o Renato – santo whatsapp – e ele já está a caminho.
Ótimo.
Ao invés de um domingo estragado, temos dois.



Resolvida essa questão, e agora o Thiago vai chegar aqui tarde pra burro, sem falar que vai chegar de volta no laticínio ainda mais tarde, depois de sair dali no auge da madrugada (legal, né?), vou lá pra fora ver o tal galho.

Pego o celular, claro, não só por ligações, mas pra atender um programa idiota que ele tem que vive me enchendo os picuás pra caminhar mais, ser mais ativo.
Ora, vá se catar, bicho besta!

Enfim, ponho o trem no bolso do calção, pego um facão afiado e lá vou eu em busca do galho caído, um Indiana Jones roceiro e sem chapéu.


Quem me vê de média distância pensa, com certeza, que sou um pescador de atum de mares quentes em plena faina a bordo do barco.
Bota preta, dinamarquesa, de borracha, até o joelho, com biqueira de aço protegida por borracha; calção; camiseta; óculos escuros.
Chique. E, cá pra nós, bonitão. Pelo menos é o que minha avó diria.

(Lembrando da “doce” avozinha do Sheldon, no episódio dessa semana de The Big Bang Theory – esse é um trecho só pros iniciados.)


No caminho vou decepando todos os pés de joá-amarelo que vejo. Malditos joazeiros-amarelos e seus espinhos! Delenda est joazeiros!
Viro a “esquina” das duas figueiras e a meio caminho entre elas e a porteira está o galho tombado, mas ainda preso à árvore.

Saco!

Um galhão cheio de galhos e galhinhos. Vou ter que quebrar galho a dar com o pau.
Nunca serei tão brasileiro como nesses próximos minutos...
Quebrando galhos.

Na verdade, cortando, mas o quebrando ficou mais legalzinho.
Esse pobre braço direito que já dói ao digitar as usuais mal digitadas de todo dia, doía ainda mais pelos ataques aos invasores de frutinhos amarelos e espinhos mortíferos.
Decepar os galhos e empilhá-los acabou de completar  a obra.


Deixando de lado o chororô, finda a quebração de galhos fui até a porteira, mais pra satisfazer o programa imbecil implantado em meu smartphone.

Até que foi bom.
As lofanteras da entrada estão bem floridas.
As pessoas passam e perguntam e até telefonam, como ocorreu duas vezes nessa semana que passou, perguntando que árvore é aquela.

Lofantera. Ou lanterneira. Nativa do Tapajós, mas bem adaptada aqui nessas terras altas de Santa Rita do Passa Quatro.

Fiz as fotos abaixo e voltei pra casa. Agora é esperar o caminhão, lavar o tanque e... ops, já será hora de começar a ordenha da tarde.




(As fotos foram feitas no contraluz; somente à tarde será possível fotografá-las com uma luz favorável; tentarei. Se der, troco, se não der, não troco.)


A vida real e o IPBPP




Bom dia. Nada melhor que começar esse domingo momesco (ainda existe isso?), sétimo dia do segundo mês do décimo-sexto ano do vigésimo –primeiro século da Era Cristã, com essa manchete da Folha de S.Paulo:

“País caminha para a pior recessão de sua história”

Essa, sem dúvida é a maior – e única, analisando bem – conquista do lulopetismo.
E antes que alguém de esquerda ou direita fale alguma coisa, isso não tem a ver com o Bolsa Família, criação de Dona Ruth Cardoso, implementada no governo Fernando Henrique, ampliada no primeiro governo Lula. Até aqui nada demais.
O erro, que leva muita gente a criticar o programa, foi sua transformação em curral eleitoral, ferramenta chique dos modernos “coronéis” de uma esquerda atrasada, ultrapassada e muito mais ignorante que a média das esquerdas burras do planeta. E, transformado em ferramenta eleitoral, foi ampliado além do limite da razão e transformado em esmola ao invés de ferramenta transitória para melhoria de vida de boas parcelas da população.

Há esquerdas inteligentes? Sim, há, e são saudáveis para a democracia, gostem disso ou não os radicais que se julgam de direita.
A verdade, porém, é que não temos direita e esquerda modernas e inteligentes em Pindorama. Pelo menos não organizadas partidariamente.


Há coisa de um ano, já imaginava, pressentia, que o PIB cairia 4%, o dobro do que pensavam alguns analistas sérios.
Pessimismo meu? Antes fosse.
O fato é que “lavouras” como Inflação e Queda do PIB se auto-adubam. Se auto-alimentam. Crescem como bactérias malignas, por multiplicação celular.
Quando a inflação atinge a marca fatal e diabólica dos dois dígitos, as pessoas começam a perder a noção da realidade de custos.
Começam a se defender.

Já contei a história do brócolis que compro muitas semanas do ano de um mesmo fornecedor há pelo menos 3 anos.
Em setembro de 2014, quando esse indivíduo da espécie Mulher sapiens investida em presidente dessa república autorizou o aumento do diesel em 5 ou 5,5% (algo assim), o vendedor de brócolis aumentou o preço de seu produto de 2,00 para 2,50.
Era o “custo do frete”.
Ora, pílulas, o novo custo do frete deveria impactar o preço de venda de seu produto em meros, ridículos, 3 ou 4 centavos e isso já com grandiosa margem de lucro.
Mas, esperto e inteligente, esse agente econômico, que vou chamar de player, gostem ou não alguns puristas, percebeu que se não aumentasse bem o preço de seu produto ele ficaria para trás e começaria a perder dinheiro, pois ele mesmo já começaria a pagar mais caro por outros insumos. E preveniu-se, claro.
De 2,00 para 2,50. Um aumento de 25%.

Há quase um mês, esse mesmo player econômico estava com a cabeça de brócolis a 4 reais.
R$ 4,00
Um aumento de 100% sobre o preço de setembro de 2014, apenas 17 meses antes.
100% de aumento! O produto dobrou de preço.

Nesse mesmo período de 17 meses, a inflação acumulada foi de 15,26% pelo INPC.
Se usarmos o IGP-M, o índice é de 14,15%.
Todavia, se usarmos o IPBPP – Índice do Produtor de Brócolis Prevenido e Preventivo – o aumento foi de 100,00%.


Curiosa, trágica e desgraçadamente, nesses 17 meses caiu o nível de emprego. Caiu a renda média das pessoas. Caiu a produção industrial. Caiu a economia. Caiu o PIB.

O meu fornecedor de brócolis não é o único a se comportar assim.

Como produtor de leite eu vivi um processo inverso: o preço pago pelo meu produto caiu nominalmente aos valores de 2011 e de 2012. Se descontar a inflação acumulada, conta que, por motivos de ordem médica recusei-me a fazer, devo estar recebendo hoje o mesmo ou até menos do que recebia em... 2009. Feliz ou infelizmente, não é a realidade de uma produção primária e basicamente doméstica, como essa, que determina o comportamento do mercado.
O que determina o mercado e o comportamento dos preços, porém, é a postura do player padrão, que vem a ser o meu fornecedor de brócolis.

É isso.




Transcrevo, a seguir, alguns trechos da matéria da Folha:

o 0 o 0 o

A economia brasileira corre o risco de mergulhar em um período de três anos seguidos de contração, fato inédito desde 1901, início da série histórica.
Dados muito negativos de atividade econômica referentes ao fim de 2015 e o início deste ano têm levado as projeções de analistas para o desempenho do PIB em 2016 (Produto Interno Bruto) a continuar piorando.
O banco Credit Suisse esperava contração de 3,5% do PIB, mas agora já trabalha com número mais próximo de 4%, mesma estimativa da instituição para 2015. E, para 2017, projeta um terceiro recuo, entre 0,5% e 1%.
A última vez que o PIB encolheu por dois anos seguidos foi no biênio 1930-1931, quando a economia global passava por crise severa após a quebra da Bolsa de Nova York. Um período de três anos de contração nunca ocorreu.

o 0 o 0 o

O Itaú Unibanco anunciou na sexta (5) esperar contração de 4% do PIB em 2016. Antes, projetava recuo de 2,8%. Para 2017, estima expansão modesta de 0,3%.
A consultoria MB Associados trabalha com cenários alternativos: com e sem a presidente Dilma Rousseff.
Se a presidente deixar o governo, espera queda de 3% do PIB neste ano e expansão de 0,6% no próximo.
Caso Dilma sobreviva ao processo de impeachment, os números mudam para duas contrações de 4,1% e 1%.


Uma observação minha: será que o governo vai pressionar a MB Associados para demitir seu economista-chefe, Sergio Vale, responsável por essas projeções? Lembram do ridículo, grotesco caso da analista do Santander que foi demitida a pedido do grande líder lulopetista?  Pois é... E, vejam só, as previsões daquela profissional revelaram-se até muito mais favoráveis do que o que veio a acontecer realmente.


o 0 o 0 o

“...nações cujos mercados de trabalho se comportam de forma semelhante ao brasileiro tiveram, em média, alta anual na taxa de desemprego de 2,9 pontos percentuais quando viveram contrações maiores que 2% por, pelo menos, dois anos seguidos.
O resultado ajuda a embasar a expectativa do Credit Suisse de que a taxa de desemprego —medida pela pesquisa Pnad Contínua (IBGE)—, que foi de 6,8% em 2014 e deve ter chegado a 8,3% em 2015, alcançará 13,5% em 2017.
O Itaú Unibanco também espera que o desemprego ultrapasse 13% no próximo ano. ”

o 0 o 0 o


Era isso. Bom domingo. Bom Carnaval. 

domingo, janeiro 31, 2016

Um janeiro normal e a sorte com o silo

O mês termina com 268 mm registrados aqui no Sítio das Macaúbas.

Um volume respeitável de chuvas, mas absolutamente dentro da média para o mês.

Dias atrás, porém, enquanto tivemos aqui 25 mm, na cidade choveu mais de 100 mm!
A represa, quase totalmente seca há poucos meses, transbordou. A água invadiu e cobriu o asfalto. Desceu um pequeno desnível e cobriu de água uma bela horta, parte em estufa, parte a céu aberto. 

Curiosamente, na véspera ou antevéspera desse dilúvio, ao passar por ali a caminho da cidade vi a horta sendo irrigada, com todos os aspersores funcionando, molhando as verduras. No dia seguinte o local parecia uma lagoa.

Prejuízo total para o horticultor e mais o prejuízo em diversas instalações e até em duas ou três das estufas mais próximas, também invadidas pela água.

- Nossa, como a verdura tá cara hoje!

Sim, minha senhora, meu senhor, é a chuva.

Às vezes ela falta, às vezes ela abunda.
(Abundar é um verbo feio, mas é um bom verbo.)


Aqui tivemos sorte.

De segunda pra terça caiu um mundaréu de água aqui pertinho, na Estrela. Na propriedade do Rubens o pluviômetro registrou mais de 30 mm, o que prejudicou os trabalhos no dia seguinte.
Enquanto isso, tivemos somente 10 mm aqui em casa e no dia seguinte, a terça-feira, começamos a cortar o milho para encher o silo. Armou chuva de terça pra quarta, mas, felizmente, não choveu.

A quarta amanheceu com cara de muita chuva. Medo.

Terminamos o corte e o transporte do milho, fechamos o silo como manda (quase) o figurino (faltou colocar uns cordões de sacos com areia ou terra sobre ele, mas, paciência) e...
Caiu a chuva durante a ordenha da tarde.

Tivemos muita, muita sorte mesmo!
De vez em quando é bom.


Seguem fotos do processo de ensilagem – o corte na lavoura (a planta é cortada próxima da base, picada inteira, inclusive as espigas com o milho passado do ponto de pamonha), a descarga num dos nossos dois silos-trincheira (gostaria de ter mais uns quatro, mas faltam-nos barrancos), a esparramação e compactação da massa picada pelo trator e o silo pronto, já coberto.
Por baixo uma lona nova (tá cara à bessa/beça), por cima a lona do ano passado.

Na base, no chão do silo, colocamos feno para fazer um piso. Ele protege o silo do contato com o solo e na hora de retirar e levar pras vacas não temos perda alguma. O próprio feno, molhado e temperado com a água perdida pelo milho, fica cheiroso, muito palatável, e as vacas comem tudo. 

Nesse ano inovei: cobri o milho com mais feno e só então colocamos as lonas.  Em maio, ou junho (de preferência), verei o resultado.

O feno que colocamos é tipo B ou C e nessa época do ano seu preço é muito baixo. B ou C acaba sendo teoria, pois não conseguimos achar fardos ruins, de fato, então o feno que foi pro chão é o mesmo que as bezerras e novilhas comem durante a noite.

A cada carreta aplicamos inoculante, que acelera a fermentação e melhora a qualidade do silo. O inoculante é como se fosse um fermento, tal como se usa nas cozinhas e padarias. Meio caro, mas compensa.

Fechamos o silo com alguma coisa entre 52.000 e 55.000 kg de milho picado. Isso é peso de entrada, peso bruto. O peso líquido, ou melhor, o peso seco, daqui a quatro meses ou pouco mais quando começarmos a usa-lo, terá caído uns 25 a 30%. Perda de água.

Um pouco mais de custo, um bocado a mais de qualidade.







sábado, janeiro 23, 2016

A Lua prateada, saudade da minha terra, saudade de Padre Nóbrega e dos tempos d’eu criança

A foto abaixo mostra o céu ocidental na madrugada desse sabadão, uns quarenta minutos antes do começo da ordenha da manhã.
Passava um pouco das cinco da manhã. Tinha acabado de fazer o primeiro café do dia e abri a cortina da janela da cozinha, que fica, justamente, voltada para o oeste ou, como diriam os anúncios de imóveis, tem face oeste.
E lá estava ela, a terra pisada por Neil Armstrong e mais alguns humanos, a Lua, em seu primeiro dia de cheia.
A Lua prateada da canção, clareando a estrada e o mundo.



A foto é pobre, sinto. Ela deveria mostrar a Lua emoldurada pelas árvores, um cenário bonito demais.
E quieto, sossegado, um pouco antes da passarada, fazendo alvorada, começar a cantar.

Depois veio o dia. Cheio, trabalhoso, cansativo.
Mudei a programação de corte do milho lá do Zé Fernandes de segunda pra terça. Hoje consegui o trator do novo vizinho, gente boa. Emprestou-me o Fordão com que, habitualmente, compactamos o milho picado no silo-trincheira.
Pra ganhar tempo, puxei pra amanhã a coleta e pesagem do leite de todas as vacas, individualmente, pra não atrasar os resultados e também para não sobrecarregar o meio da semana, quando a feitura do silo tomará todo nosso tempo fora das ordenhas e trato das vacas. Sobrou pro Dito. Amanhã vou busca-lo de madrugada. Enquanto eu fico na ordenha fazendo a coleta e a pesagem, ele cuidará dos bezerros.
Será mais um domingão como tantos outros, talvez com alguma chuva, já prevista para hoje.
Bom, nem sempre a previsão se realiza... Vamos ver.

Deixo para quem quiser ler, a letra de uma de minhas músicas mais queridas, especialmente nas vozes de Chitãozinho e Xororó: “Saudade de minha terra” – composição, verdadeiro poema, de Goiá e Belmonte.

“De que me adianta viver na cidade
Se a felicidade não me acompanhar

Adeus, paulistinha do meu coração
Lá pro meu sertão, eu quero voltar
Ver a madrugada, quando a passarada
Fazendo alvorada, começa a cantar
Com satisfação, arreio o burrão
Cortando estradão, saio a galopar
E vou escutando o gado berrando
Sabiá cantando no jequitibá

Por Nossa Senhora,
Meu sertão querido
Vivo arrependido por ter te deixado
Esta nova vida aqui na cidade
De tanta saudade, eu tenho chorado
Aqui tem alguém, diz
Que me quer bem
Mas não me convém,
eu tenho pensado
eu fico com pena, mas esta morena
não sabe o sistema em que eu fui criado
Tô aqui cantando, de longe escutando
Alguém está chorando,
Com o rádio ligado

Que saudade imensa do
Campo e do mato
Do manso regato que
Corta as Campinas
Aos domingos ia passear de canoa
Nas lindas lagoas de águas cristalinas
Que doce lembrança
Daquelas festanças
Onde tinham danças e lindas meninas
Eu vivo hoje em dia sem Ter alegria
O mundo judia, mas também ensina
Estou contrariado, mas não derrotado
Eu sou bem guiado pelas
mãos divinas

Pra minha mãezinha já telegrafei
E já me cansei de tanto sofrer
Nesta madrugada estarei de partida
Pra terra querida que me viu nascer
Já ouço sonhando o galo cantando
O nhambu piando no escurecer
A lua prateada clareando a estrada
A relva molhada desde o anoitecer
Eu preciso ir pra ver tudo ali
Foi lá que nasci, lá quero morrer.”

Ouço muito essa música, vira e mexe me ponho a cantarola-la, coisa em que sou um prodígio... De ruim.
E toda vez, toda vez, toda santa vez que escuto:
Nesta madrugada estarei de partida
Pra terra querida que me viu nascer
Toda vez minha memória voa pros tempos d’eu criança, saindo da casa dos meus pais com um tio ou amigo da família e indo pra Estação da Luz, onde, no final da madrugada, pegava o “trem de luxo” da Cia. Paulista de Estradas de Ferro (uma das ferrovias destruídas pelo governo burro de JK, trabalho continuado pelos governos cegos dos militares e dos que a eles se seguiram). Nunca viajei na primeira classe, só na segunda, que era uma maravilha. Mas bem que gostaria de uma vez só, uma vezinha só, ter viajado na primeirona...
Pra Marília, ou melhor, pra doce e querida Padre Nóbrega, onde o trem parava por um minuto ou dois, eram pouco mais de dez horas de viagem.
Pra Flórida Paulista, onde ficava a Fazenda Saudade, que meu avô administrava, eram catorze horas.
Catorze horas!
No mínimo umas três ou quatro eu passava na plataforma, vendo a paisagem, sonhando com a minha própria fazenda num dia futuro.
Memórias indeléveis. Mais que memórias, tudo isso é parte do meu DNA. Estou certo, nem preciso de teste para confirmar.


sábado, janeiro 02, 2016

Chove chuva, chove sem parar... E da chuva para a crítica

Chove chuva, chove sem parar... E da chuva para a crítica

Chove no Macaúbas.

Uma pancada de respeito agora à tarde acrescentou mais 25,0 mm ao ano em curso. A soma já  vai em 43,0 mm e estamos no segundo dia do mês e do ano.
Nos últimos 10 dias são 125,0 mm acumulados.

O leite quebrou um pouco – tradução: a produção de leite das vacas sofreu uma queda. Chuva demais, conforto a menos.

O barro abunda.
A frase é horrorosa, mas quem disse que a realidade não é, por vezes, horrorosa?







Um vizinho veio buscar uns sacos de adubo bem a tempo de pegarmos o início do chuvão e nos molharmos mais que o desejável.

Virei praticante do velho escambo.

O escambo é necessário à sobrevivência. 

Estou usando o adubo de uso futuro e de uso presente suspenso pela impossibilidade de fazer investimentos para pagar parte da conta da comida que as vacas comeram na seca que há muito ficou para trás.

Meu caixa, que é mera teoria numérico-contábil, dá uma respirada (teoria respira?) (sim, teoria respira) e a gente empurra tudo para o futuro.


Há quem diga que o ano será bom para nós, os produtores de leite. 
Analista de respeito disse que a queda observada na produção levará, forçosamente, a um aumento no preço pago a nós da ordem de 15%.

Uau! Que maravilha...

Só que não.

Esse “nós” do analista tem como base os produtores de mil litros diários para cima. 
Pequenos como eu, hoje com duzentos, em fevereiro com trezentos se nada acontecer errado, não estão na alça de mira dos analistas. Nossos aumentos são menores.

Por outro lado, o mesmo analista diz que teremos uma alta de pelo menos 12% nos custos, especialmente de ração.

Ora... Bom, deixa quieto. 
Esse analista é discípulo fiel e cego dos propagandistas do governo, que estouram champanhes pelos onze e cacetada porcento de “aumento” do salário mínimo, quando a inflação do ano foi de... 11%.

Inflação oficial e teórica, posto que na prática, na tal de vida real, ela foi muito superior.


Outro problema com analistas e suas análises: focados nos grandes, eles ignoram que nós, os pequenos, temos custos maiores porque não temos capacidade e volume para conseguir descontos e para fazer compras antecipadas aproveitando ofertas. 

A gente almoça o leite que será produzido na janta, isso, é claro, se tivermos sorte. 

Na verdade, estamos almoçando hoje o leite que será produzido no mês seguinte.


Então, é assim.
Há uma crise.
Há, na verdade, duas crises.
Uma é geral, genérica, formal, oficial e grandiosa.
É a crise que se comenta em grandes discursos.

É a crise que os defensores “disso tudo que está aí” dizem que não existe ou que é exagerada. Ou, cientes do tamanho do monstro, aproveitam qualquer coisinha, por mínima que seja, para desviar o assunto, o foco e o rumo.


A outra crise é miserável, específica, desconhecida dos “grandões” (como uma amiga suíça se referia aos donos dos poderes). É a crise minúscula da falta de dinheiro para o aluguel da casinha minúscula e já miserável na periferia da periferia das cidades. 

É a crise que os "defensores" dos trabalhadores desconhecem. 
Nem podem conhecer, pois, na maioria, eles só conhecem “trabalhadores” dos sindicatos e para esses é tudo sempre uma beleza, sem chuvas, nem trovoadas.


Essa outra crise, a crise dos miseráveis, é também a crise dos pequenos produtores de leite, dos pequenos produtores rurais de tudo, dos pequenos industriais, dos pequenos comerciantes, dos pequenos empresários...

É uma crise que os donos do poder e seus defensores – tão cegos quanto calhordas – também ignoram. 
E ainda nos chamam de “coxinhas” quando reclamamos.


Um dia, espero que não, mas, sei lá...
Um dia hei de dizer em alto e bom som tudo que penso dessas pessoas.
Serei execrado.
Serei chamado de um monte de nomes.
Perderei um monte de amigos.

E meu fígado agradecer-me-á profundamente.
E viverei em paz com ele, meu precioso fígado.


sexta-feira, janeiro 01, 2016

Um ano molhado

Um ano molhado

Assim foi 2015: molhado.
O ano fechou ontem com 28,5 mm durante a noite, antes de começarem os fogos da passagem.
Dezembro fechou com 187,0 mm.
Na soma com o incrível novembro o total foi de 500,0 mm!
E o ano inteiro acabou com 1.468,0 mm.

Bom demais, claro, apesar do barro.
As terras do Sítio das Macaúbas são bem permeáveis, um solo areno-argiloso que absorve bem as águas. Nosso lençol freático deve estar bem cheio.


Um ano molhado, sim, mas nem tanto


Essa precipitação total próxima de 1.500 mm não é, porém, nada de extraordinário. A média de chuvas aqui em Santa Rita do Passa Quatro, de acordo com dados da UNICAMP  e seu Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura é de 1506,8 mm. Portanto, o ano ainda esteve 2,6% abaixo da média.
Mesmo assim, foi bom demais.

Por sinal, a média geral do Estado de São Paulo gira um pouco para cima dos 1.500 mm anuais.


Um problema, nesse ano de 2015 e em quase todo ano, é a forte concentração de chuvas num período curto e sua ausência em outros. 
Se em novembro tivemos 313,0 mm, tanta chuva que foi até ruim, em julho tivemos 13,0 mm e no tenebroso agosto apenas 4,0 mm, fator agravado pelo Sol terrível e pelos ventos secos, que, literalmente, chupam a umidade do solo, secando-o e ressecando-o. 
Chegou setembro e com ele chegaram as antigas e sumidas chuvas da primavera. Ficaram concentradas, porém, num período de dois ou três dias logo no início do mês, entre os dias 7 e 12, com 115,0 mm. Depois... 
Depois a repetição de agosto, com Sol inclemente e os malditos ventos secos, voltando a chover apenas no finalzinho do mês.

Esses períodos secos, quentes e com muito vento são mortíferos para as plantas e deprimentes para os animais. E humanos.


Agora, é torcer para 2016 se manter na média histórica, o que já será fantástico.

O Sistema Cantareira teve um bom ano, mas 2016 pode e precisa ser melhor. É ficar na torcida. 

Para voltar à normalidade de reservas, o Sistema precisa de três temporadas de chuvas normais. 

Historicamente, esse é um comportamento climático normal para a região e para o Estado. 

Lembrando que entre 1º de julho de 1891 e 30 de junho de 2013, o estado de SP teve apenas 5 anos com precipitações inferiores a 1.000 mm (na verdade, inferiores a 950 mm) e todos esses anos secos foram seguidos por anos molhados, o que não aconteceu entre o final de 2012 e 2014.  

Nesse período o comportamento foi duplamente anormal: em relação ao volume total de chuvas e em relação à duração do período seco, que pegou, praticamente, três diferentes temporadas.


Então, é isso. Hoje, primeiro dia do ano, o tempo com cara de chuva.
Que assim seja.


quinta-feira, dezembro 24, 2015

Meu cartão de Natal e Ano Novo

Meu cartão de Natal de 2015

Feliz Natal!
Feliz e esperançoso 2016!


Esse é o meu "cartão de Natal".
Não tem Papai Noel, não tem a "árvore", não tem renas.
Tem a capa de Veja e nela a foto de Sergio Moro.


Um homem comum, como somos a maioria.
Não é o Superman ou Batman ou qualquer coisa parecida.
É, acima de tudo, um profissional competente.
Infelizmente, pelo que é o Brasil, sou obrigado a completar com mais um adjetivo: é honesto.
Infelizmente porque, numa nação séria como seremos um dia, honestidade será algo meramente incorporado, tal como o ato de respirar. Hoje, porém, para diferenciar e explicar, precisamos dizer de muita gente: É honesto.


Quando coloco nesse "cartão de Natal" a foto (até meio feia) de Moro, a imagem que tenho é de meu neto Felipe e minha neta Isadora.


Porque esse brasileiro da foto, o Sergio Moro, pode ter salvado, e salvou, 2015, mas o mais importante é que o seu trabalho e do grupo de profissionais da Justiça e da Polícia Federal junto dele, estão salvando o futuro desse país.



Somente o trabalho deles, porém, não é e não será o bastante para termos um futuro digno desse nome e para termos um país no qual as pessoas tenham vontade de viver e não, como hoje, vontade de abandonar.


Pense com muito cuidado quando for eleger o vereador e o prefeito de sua cidade. Não se omita. Pense. Vote.


Vote localmente pensando nacionalmente.


Escolha um partido. Escolha candidatos.
Não dê ouvidos à propaganda fascista – por parte dos inteligentes e bem informados – e burra – por parte de quem apenas repete mantras idiotas – de que nenhum político "presta", nenhum partido "presta".


Isso é mentira!


Para não deixar mais irritados muitos que isso dizem e não são fascistas ou burros, mas são, sim, inocentes úteis a serviço do status quo, concordo que há muitos políticos vagabundos e ladrões em todos os partidos, mas "estranhamente" agrupados como um enorme cardume de rêmoras ao redor de alguns partidos-tubarões (rêmoras não formam cardumes, mas os rêmoras da política brasileira formam). Na natureza as rêmoras são comensalistas, na política brasileira não passam de vis parasitas.


Podem também esses políticos, ser chamados de carrapatos, esse ácaro vagabundo que atormenta as vacas, sugando seu sangue, vivendo de seu sangue, sem para elas em nada contribuir.
Ingerem o sangue, engordam, ficam enormes, cheios (cheias) de ovos, deixam-se cair no chão e botam seus milhares de ovos que gerarão novos milhares de parasitas à custa de quem trabalha.


Portanto, por favor, não para mim, mas para seus descendentes, pense.
Vote conscientemente em 2016. E em 2018. E sempre.


Respeito, embora discorde ideologicamente, quem acredita na esquerda, como eu mesmo o fiz durante parte de minha vida.
Para quem assim ainda pensa, vale tudo que escrevi acima.
Nem todos os membros desse partido que se assenhoreou do poder junto ao que de pior existe no "empresariado" nacional, são da mesma estirpe vil e criminosa que vemos nas lideranças e direções. Se você acredita, limpe essa escumalha. Depois, mais adiante, num Brasil melhor, voltaremos a nos encontrar nas urnas, democraticamente.



Democracia não é somente voto.
O voto é antes uma ferramenta da democracia do que sua razão de ser.
Portanto, tampouco existe democracia sem voto.


E tudo isso pressupõe a necessidade de partidos políticos.
Não faça com a política e os partidos o mesmo que você faz com as reuniões de seu condomínio.
Compareça.
Participe.
Influa.
Eventualmente, por que não, seja o síndico. Entre para o Conselho. Atue.


Aja localmente pensando nacionalmente.

Aja em pequena escala atuando globalmente.

Quanto mais longe você estiver dos partidos e da política, mais "os caras" – quaisquer que sejam as bandeiras partidárias – estarão à vontade.
Claro, você não estará lá para contrariá-los, para apresentar uma alternativa.
Você e muitos milhões.
Mesmo que você não entre num partido (hoje eu mesmo estou afastado de um partido, situação que talvez mude nesse 2016), atue. Leia. Ouça. Veja. Converse. Debata. Exponha o que pensa.
Converse por e-mail com o seu deputado e com outros deputados.
Pressione!
Acredite, mesmo que o deputado pessoalmente não leia, um assessor lê e transmite para ele. Isso também é participar. E não escreva só para o seu deputado ou do seu partido. Escreva para qualquer um que você, num certo momento, julgar necessário.
É seu direito e, diria eu, é seu dever como cidadão.

Então, é isso.

Feliz Natal.
Feliz 2016.
Vamos trabalhar para que 2016 seja o primeiro ano de um novo Brasil.

Mais de acordo com nossos sonhos ou a caminho de nossos sonhos.


segunda-feira, novembro 30, 2015

313,0 mm – Novembro foi uma água só


Às 22h10 fui até o pluviômetro. Marcava mais 32,0 mm depois dos 35,0 da manhã e madrugada.
Faltando ainda, naquele momento, pouco menos de 2 horas para acabar o dia, tínhamos um total de 67,0 mm de chuva. No acumulado dos 30 dias o número do título: 313,0 mm.
Continua chovendo, mas essa chuva de agora vai entrar para a conta de dezembro. Bom, a menos que a Brahma continue berrando atrás do bezerro que nasceu no final da tarde. O infeliz parece ter um gosto especial em passar por baixo do fio que divide o piquete e se afastar da mãe, que berra. Aí, lá vai o marmitão embaixo de chuva tocar o bichinho pra perto da mãe novamente. Haja paciência... Tudo porque ela adiantou o parto 5 dias, pegando-nos de surpresa, e não pôde ser levada para o que chamamos piquete-maternidade.
Por que não?
Porque desde sua cria anterior, a Betina, ainda em janeiro desse ano, a Brahma mudou o comportamento e passou a ficar agressiva quando tentamos nos aproximar do bezerro ou bezerra para cuidar do umbigo e ajuda-lo na primeira mamada. Com isso, e para não estressá-la com corda e força e o escarcéu correspondente, optamos por deixa-la no pasto. Péssima decisão, com toda essa chuva que não imaginávamos.
Essa mudança comportamental dela foi uma coisa muito estranha, para a qual não encontramos explicação, pois as vacas Jersey e Holandesas, como é o caso dela, há mais de século ou século e meio não oferecem resistência alguma ao manejo, mesmo recém-paridas. Por conta dessas idas & vindas ao pasto já tomei dois banhos extras. Pensei que fosse tomar mais um agora, mas não foi preciso. Meno male.

Sim, eu sei, eu reclamei terrivelmente da seca.
Só há uma coisa pior que a seca para um produtor rural: o excesso de chuvas.
É, não somos nós que somos complicados, é a nossa atividade.
Sem chuva, sem comida.
Com chuva, muita comida.
Com chuva em excesso, comida de menos ou nenhuma.
Também precisamos de luz e calor, o que fica por conta do Sol. A luz para a fotossíntese, o milagroso mecanismo que permite a existência de vida nesse planetinha azul. Calor para que nossas plantas, todas subtropicais ou tropicais, se desenvolvam.

O que são 67 mm (a caminho dos 70 somente hoje) de chuva?
Dias atrás, durante 30 minutos choveu um total de 58 mm em São Carlos.
Ruas e avenidas foram inundadas, a ponto de carros se transformarem em desajeitos jet skis sem direção.
A marcação de 1 mm – um milímetro – de  chuva, significa a queda de 1 litro de água em uma área de um metro quadrado – 1 m² (um quadrado com 1 metro de lado).
Em um hectare, unidade padrão para áreas agrícolas, que tem 10.000 m² de área, uma chuva de 1 mm significa que 10.000 litros de água caíram sobre aquela área. Aqui no sítio hoje, até as 22h10, tínhamos um total de 670.000 litros de chuva por hectare, ou seja, 67 litros por metro quadrado.
Nesse mês de novembro que ora se encerra, o total de água por m² foi de 313 litros.
Cada um dos 12 hectares do Sítio das Macaúbas recebeu a bagatela de 3.130.000 litros de água durante o mês. Digamos, como se 313 caminhões-tanque de 10.000 litros viessem para cá e espalhassem sua carga em cada hectare. Ou seja, para o sítio inteiro... quase 4.000 caminhões-tanque de 10.000 litros cada.

Tal como aconteceu em São Carlos, o problema está no cruzamento de volume com tempo. Ora, 58 mm em meia hora é uma tromba-d’água! Já os 67 mm em cerca de 20 horas é chuva demais, encheção de saco demais, mas não configura uma situação de problemas graves. A menos que haja ventos e hoje teve. Um dos galhos de uma das lofanteras do nosso gramado caiu e por meio metro não caiu sobre a varanda-garagem.
Que beleza...

Precisamos do Sol agora. Vários dias seguidos, para o capim crescer absurdamente, para os animais voltarem a ficar confortáveis, para o barro secar, para a vida voltar a um ritmo mais normal e, também para nós, humanos, mais confortável.

quarta-feira, outubro 21, 2015

Chuva de presente com direito a efeitos especiais



A chuva chegou. Tarde, atrasada, em pleno dia 20 de outubro, mas chegou.

Depois de um setembro atípico, com 125,0 mm até o dia 13, parou de chover. Para o resto do mês já estava bom, afinal, outubro estava logo ali e com ele boas chuvas.

As previsões e as esperanças não se concretizaram. Essa chuva, com muita pirotecnia e efeitos sonoros assustadores, começou tão logo caiu a noite. Nesse momento, completávamos 37 longos e tenebrosos dias sem uma gota de chuva aqui no sítio. 

Novamente, não estaria tão ruim graças às chuvas de setembro, mas o calor foi excessivo, absurdo, por toda parte. Há poucos dias, o Rio de Janeiro registrou 43,8 graus centígrados, o terceiro dia mais quente em 100 anos. Nesse mesmo dia, tivemos aqui assustadores 40,0 graus. 


Como tudo que está ruim pode ficar ainda pior, os ventos dos últimos dias secaram tudo que ainda restava de umidade nas camadas superiores do solo. Ventos secos, quentes, provocando enorme desconforto, fisicamente depressores e espiritualmente deprimentes.

Muitos vizinhos plantaram milho para produzir silagem logo no início do mês, alguns, corajosos, até no final de setembro. As previsões dos institutos prometiam chuvas dentro dos primeiros dez dias do mês. Não vieram. 
O milho nasceu bonito, vistoso e encheu a todos de esperança. 
Sem chuvas e com as altas temperaturas, a lavoura começou a sentir. 
Pelas manhãs, nas primeiras horas de cada dia, as pequenas plantas estavam viçosas, as folhas brilhando ao Sol. Já no meio do dia, porém, o cenário mudava e ao começar a tarde, o viço já estava perdido e as plantas murchavam. 
No dia seguinte, porém, novamente amanheciam bonitas, novamente davam esperança, para logo depois definharem. 
Enquanto as plantas se recuperam, a lavoura está viva e é viável, mas, chega um momento em que elas amanhecem murchas. 
É o triste sinal de que a lavoura está morta, não tem mais salvação, um novo plantio precisa ser feito. 
Novas despesas, grandes prejuízos.


Vivemos nosso drama aqui no sítio na mesma linha. 
Os piquetes de capins Mombaça e Tanzânia começaram a crescer com as chuvas de setembro. Já sem comida, tomei a decisão de soltar as vacas nos piquetes, economizando dinheiro e, principalmente, economizando feno. 
Porque, finalmente, o feno de nosso fornecedor acabara. 
Porque também lá o capim que era para ser fenado... acabara.


As vacas entraram em piquetes com um terço ou menos da altura ideal para pastejo. Para aumentar a oferta de comida, abrimos dois piquetes por noite ao invés de um.
Assim se passarem cerca de 10 dias, quando novamente bateu o desespero da falta de comida e a corrida ao feno.


À espera dessas chuvas fiz uma loucura necessária, loucura financeira, bem entendido, e comprei adubos. Desde ontem (agora anteontem) estamos adubando os piquetes, confiantes que com alguma sorte choveria amanhã, que já é hoje, e depois de amanhã, ou simplesmente amanhã.  

A chuva nos surpreendeu agradavelmente e chegou hoje, na verdade ontem, como vocês entenderão logo mais.

Durante a noite a luz piscou uma, duas, três vezes, e já num horário bem adiantado as piscadas se somaram aos relâmpagos cada vez mais fortes e com menor intervalo entre um e outro. 
Parecia claro, tinha  toda a pinta que a luz cairia de vez. 

Coloquei uma camiseta já usada, calção, uma blusa sobre a camiseta apesar do calor (para prevenir nova safra de dores dos músculos próximos aos pulmões) e calcei a bota de cano longo, sem meia, só de calção. 
Chique. 
Jeito de modelo, mas não me convidem para o ridículo desfile com o pessoal se trocando em frente ao público. Tô fora.


Fui para o barracão da ordenha para desligar o tanque de refrigeração na tomada, mas a temperatura do leite estava alta, com 4,7 graus, próximo de iniciar um novo ciclo de resfriamento até levar o leite a 2,9 graus.
Cocei a cabeça, pensei e liguei o tanque no manual – agitador e refrigerador. Para passar o tempo fui ver o pluviômetro e as vacas.
O pluviômetro só não foi decepcionante porque já esperava mesmo pouco volume de água – apenas 2,5 mm. Joguei fora essa água e deixei-o zerado. Barulho demais, chuva de menos. Vamos ver amanhã.

O lote das Jersey estava na pista de alimentação, sob o abrigo do teto. No cocho mais nada, já tinham comido todo o feno. 
Os olhares compridos e pidões me deixaram com dó e passei alguns minutos desfiando e colocando mais feno, ao qual se atiraram com uma vontade que, para vacas leiteiras, pode ser chamada de voracidade.

Ao voltar para o barracão a temperatura do leite já estava em 0,9 grau e um pouco mais ia virar picolé de leite. Desliguei tudo, retirei o conector da tomada trifásica e voltei pra casa.

Molhado e suado ou molhado e molhado. Depois de me enxugar e recolocar a bermuda e camiseta de dormir, liguei o notebook e comecei a escrever.

O dia 21 de outubro já começara há algum tempo.
Há algum tempo eu já estava um ano mais velho.

Entrei em meu 61º aniversário embaixo de chuva, ventos e relâmpagos,  desligando tanque e dando feno para as vacas.

A chuva foi meu presente. Um presentão muito bem-vindo.

Agora só falta o sono chegar. Deve estar perdido lá pra cima, no meio do pasto.

Coisa rara em minha vida, fui à geladeira peguei uma Bud estupidamente gelada e bebi. Na garrafa. Gostosamente. Ainda tem um restinho, ainda bem gelado e acho que antes desse restinho acabar o sono vai aparecer para tomar um golinho. 
Aí eu pego ele. E levo pra cama.




Tarde do dia 21 – com toda a pirotecnia que avançou madrugada adentro, com todo o exagero celeste dos efeitos sonoros, tivemos só mais 2,5 mm de chuva. Totalizou 5,0. 

Tá bom. 
Tem promessa de mais para esses dias. 

E hoje o resto dos piquetes foi adubado. Agora, é esperar pelo capim. 

Junto com o Kindle que a Rosa me deu hoje cedo, essa chuvinha de cinco milímetros foi meu melhor presente. 

Tá bom. Tô bem de presentes. Que continue assim.