sábado, fevereiro 22, 2014

Vida marvada... ou não



Nesses últimos anos acostumei-me a vê-lo ao levar o Dito para sua casa, sempre com o chapelão tipo Stetson, sempre sentado no portão de sua casa ou na escadinha do alpendre e, principalmente, a ouvi-lo. Fosse cantando e tocando sua viola, ou ouvindo, em alto volume, músicas sertanejas num potente equipamento, daqueles que nos acostumamos a ver nos ombros de amantes do hip hop, rock, funk e – por que não? – sertanejo.
Seu nome é Mato Grosso, é o que sei. Nem creio que por nascimento (alguém já viu mato-grossense fora do Mato Grosso?), mas talvez por paixão a uma terra que povoa os sonhos de quem gosta dos grandes espaços dos sertões, terra que povoa as letras de músicas sertanejas, escritas por sonhadores ou saudosos dos sertões.
Na minha cabeça, o quadro do Mato Grosso ficou meio delineado: a viola, chapéu, o som e o carro na garagem, limpinho e brilhante, sempre o oposto do meu próprio e judiado carro. O carro foi a concretização brigada de um sonho. Quando recebeu um dinheirinho, tempos atrás, teve a opção de comprar a boa casinha onde morava. Não quis, preferiu o sonho, comprou o carro.
Coisas da vida.
Ultimamente, reparei que ele não estava lá na frente da sua casa. E o som não se ouvia. Estranho. Apesar disso, não perguntei ao Dito o porquê das ausências, por mero esquecimento ou porque estávamos no meio de alguma conversa e não queria mudar o assunto. Numa das vezes em que levei-o para casa, nessa semana, perguntei-lhe do Mato Grosso.
- Ué, o senhor não sabe? Ele estava se queixando fazia tempo de uma dor na perna (e o Dito aponta para a sua própria perna direita) e não ia no médico, não ia, não precisava, ia tomar um comprimido e foi levando. Aí, outro dia, a dor piorou e ele foi pra Santa Casa, só que não tinha mais jeito: mandaram ele pra Ribeirão Preto e cortaram a perna dele, logo aqui, ó (e mostra com o dedo um ponto pouco abaixo do joelho).
Bateu uma tristeza grande. Chateado, perguntei ao Dito que diabo era aquilo, como foram cortar a perna do cara assim, sem mais nem menos?
- Mas não foi assim sem mais nem menos, seu Emerson, a dor vinha atormentando ele há muito tempo.
- Puxa vida, mas que coisa, hein? E como ele está?
- Ah, eu perguntei a mesma coisa pra ele, outro dia, e ele respondeu que tava bem, tava sem a perna, mas tava sem dor.
E assim segue a vida, pensei cá com meus botões. Sem dor, o que deve ser muito bom. Mas, agora, de que lhe servirá o carrinho bonito e brilhante? Melhor teria sido comprar a casinha, não?
Vida marvada.
Será mesmo tão marvada assim?
Sei lá, já tive muitas respostas para muitas coisas em outros tempos, em outras eras. Hoje tenho muitas perguntas para muitas, infinitas coisas. E não tenho mais as respostas... que achava que tinha.

Gostaria de ver novamente sua figura, chapelão na cabeça, viola na mão, cantando e tocando. Curiosamente, nunca parei para ouvi-lo, mas, passando devagar, cada vez mais devagar, ouvia um bocado do que cantava. Deu saudade.

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Notícias de um campo que já foi bucólico... mas ainda tem seus momentos


O carro tem ficado ao relento. Ontem e hoje amanheceu sequinho, como se tivesse pernoitado numa garagem fechada. Duas madrugadas secas, mas frescas, o que não é bom para as plantas e animais, mas é confortável para nós, os humanos.
Durante o dia vi a fumaça de uma grande queimada, coisa estranhíssima, já que estamos em janeiro, a safra de cana acabou há muito, não há cana disponível por perto, pronta para corte, sem falar que as usinas queimam pouquíssimos talhões, cada ano menos, até chegarem à queimada zero (no ano que vem ou no próximo, não tenho certeza). Ao levar o Dito para casa, no final dessa tarde, vimos o estrago: o canavial de um de nossos vizinhos, na parte alta de sua propriedade, foi queimado. Tudo indica ter sido mais um incêndio criminoso e o fogo foi tocado num dia e hora em que o caminhão-bombeiro mais próximo (a usina Ferrari mantêm caminhões de plantão; um deles salvou meu pequeno canavial e a comida das vacas, ao avistar um fogo criminoso aqui no sítio; o motorista parou e, sozinho, com o potente canhão-d’água, conseguiu debelar o malfeito). Quando o caminhão chegou o fogo já se alastrara. Um prejuízo para a usina, um gigantesco prejuízo para o vizinho, que tem parte de sua renda oriunda do arrendamento da terra para a usina.

(A foto foi tirada de casa, com a resteva do milho em primeiro plano, onde será plantado sorgo; a fumaça ao fundo é do incêndio do canavial.)

Depois de deixar o Dito em casa fui para o Estrelão, o mercadinho do Sergio, no distrito de Santa Cruz da Estrela.
- E aí, chegou a carne? – perguntei-lhe, pois sexta-feira é dia do caminhão do Friboi abastecê-lo.
- Você não imagina o que aconteceu com a minha carne – respondeu-me.
- Que foi, roubaram os bois? – perguntei brincando.
- Um bando de caras armados parou o caminhão na estrada do Porto (Porto Ferreira) para cá, levou pro meio do canavial e roubaram a carne. Não sei se toda, mas roubaram.
- Caraca, Sergio! Sério mesmo?
Sim, era sério mesmo. Essa carne é fácil de roubar, transportar, comercializar. O caminhão já entrega cortada em peças, dentro de caixas de papelão pesando entre 24 e 30 quilos. Somem no meio dos canaviais, desembocam em outras estradas e aí é correr pro churrasco.
Assim vai seguindo a vida no varonil Brasil desse começo de século XXI.
Ah, é verdade, você está pensando por que diabos terá sido criminoso o incêndio no canavial, ?
Quando há motivo, é vingança, mas é raro. É apenas manifestação da doença que cresce a galope por aqui. Mas chamar de doença é perigoso, vão dizer que é psicopatia e não é caso de polícia e sim de tratamento.
Não é doença, é apenas o mal se manifestando por prazer. Nada mais.

Agora à tarde a Boneca pariu. Nasceu Cybele, que fará companhia para a Cynara. Que estava sem nome até essa tarde, mas como o Zé foi categórico com o Cybele... concordei. E tasquei Cynara na filha da Brahma, para quem um amigo indicara Didinha e, confesso, eu havia pensado em Devassa.
Pode isso?
Não, né? Cynara é muito melhor.



(Boneca e Cybele, uns quarenta minutos depois do parto.)

quinta-feira, setembro 12, 2013

11 de Setembro de 2001

11 de Setembro de 2001




Aquele 11 de setembro, o primeiro desse século XXI, era um dia comum e ainda estava ainda em casa trabalhando num roteiro, TV ligada, quando entrou a notícia do choque de um avião com uma das torres.
O susto foi enorme e fiquei pensando em qual das torres, pensamento meio besta, sei, mas essas coisas passam pela cabeça. Numa delas, a Torre Norte, a primeira a ser atacada, tinha um restaurante chamado Windows on the World, lá no alto, nas “nuvens”. Pensei e quase tentei ir até para um jantar, com Manhattan aos pés, mas os preços eram tão altos quanto a localização, definitivamente fora dos meus parcos orçamentos. Nunca fui. Pelo menos fui ao terraço uma vez, mas continuei achando o do Empire State mais bonito e charmoso, fora os filmes e o romantismo e o medo de ver o King Kong (o primeiro) ali no alto.
Digressões à parte, como um avião poderia se chocar com aquele prédio? Que coisa maluca! – pensava enquanto ouvia o pessoal pela televisão. Aí veio o segundo avião dos assassinos e tudo ficou claro: era um atentado terrorista.
Veio a informação de Washington e depois da Pensilvânia. Os Estados Unidos da América estavam sob ataque. O inimaginável acontecia.
Quando o segundo avião se chocou ficou claro que a História tinha mudado ali, naquele momento, aos nossos olhos.
De fato mudou, para pior.
Os assassinos de bin Laden conseguiram parte de seus objetivos, ao fazer o governo, o Congresso e a justiça americanos restringirem os direitos civis. Uma perda irreparável. Como irreparável foi a perda de milhares de vidas.
Esses assassinatos tornaram nossas vidas mais complicadas ainda hoje e por muito mais tempo.
Não reconheço nesses assassinatos valor algum. Foram atos da mais pura barbárie, simplesmente. Há muitos outros na História da humanidade e, infelizmente, outros virão, parece ser da nossa natureza.
Tudo que aconteceu só reforça a necessidade de defendermos e investirmos o que de mais precioso desenvolvemos: a ideia, o conceito, a prática da Democracia.


domingo, setembro 01, 2013

Sem choro, nem vela



O domingão começou tarde hoje (é domingão, !), pouco antes das seis da manhã. Mas o Zé já estava recolhendo as vacas para a ordenha.
Ontem ele picou cana demais para o trato das vacas.
Hoje, sobrou cana demais nos cochos, uma curiosa lei da natureza. 
Portanto, o marmitão aqui começou o dia pegando cana sobrada e jogando fora, deixando os cochos limpos para o trato da tarde. 
Isso feito, piquei um pouco de cana para duas vacas separadas das demais e para a bezerrada. Misturei com feno de alfafa e feno de tifton. Chique... E caro. 

Não vou almoçar na sogra, perderei o almoção dominical mais uma vez, pois quero começar o trato da tarde mais cedo, na esperança quase vã de conseguir assistir o São Paulo contra o Botafogo.
Felizmente, hoje à tarde termina o final de semana. Amanhã é segundona – Thank's God – e não terei que fazer o trato das vacas. 
Oba!
Aqui, no final de semana, empregado folga e o patrão pega no pesado braçal, pois ordenhar é tarefa especializada muito além de minha capacidade, suficiente apenas para pegar cana no garfão, jogar na carriola, misturar ureia e levar para os cochos. À noite meus ombros, meus braços, minha cintura, minhas costas, minhas isso, minhas aquilo, doem.
Sem choro, nem vela e nem gelol,


Segunda-feira é o dia de minha libertação semanal, menos quando é feriado santificado. Mas, nesse caso, diz o bom gosto, o bom senso e a boa educação que não é bom reclamar. Afinal, vai saber o que nos espera, ?

domingo, agosto 18, 2013

Águas dominicais


Esse é um domingão marcado pelas águas.
Levantei até meio tarde, final da madrugada, mas cedo para quem está na praia em “férias”. Depois de uma rápida caminhada pela praia, com vento gelado e garoa idem, entrei e tomei um banho quentinho. Reconfortante.
Mais tarde, já na casa de meu amigo Luiz Antonio, enquanto nos preparávamos para cruzar o Canal e visitar seu veleiro, o “Eleonora”, chegou uma mensagem de socorro de seu filho Francisco. Ele estava no meio do Canal, na água, depois que capotara velejando num pequeno catamarã. Saímos às pressas, Luiz e eu, no barco que fica guardado em sua casa.
O mesmo vento gelado da manhã encapelava as águas, que invadiam o barco conforme avançávamos. Um banho em regra, dos pés à cabeça, durante todo o tempo. Chicão capotou ao tentar uma mudança de bordo rápida. O leme escapou de sua mão e o vento fez o serviço inesperado.
Domingão meio cedo, vento leste, frio, garoa... Ninguém no mar e o socorro demorou para chegar. Com o celular encharcado (como disse Chicão, a eterna lei de Murphy: o celular estava fora da capa impermeável, deixada em São Paulo), tudo que restava era esperar a passagem de alguém ou por nós mesmos, ao cruzarmos o Canal de São Sebastião a caminho da Ilhabela. Felizmente, antes que saíssemos passaram uns pescadores e um deles ligou para o Luiz. Foi a deixa para sairmos às pressas.
Depois de localizá-lo e ele embarcar, tentamos desvirar o catamarã para rebocá-lo com o lado de cima para cima e o de baixo para baixo, naturalmente. Até não faria muita diferença, mas seria mais fácil por causa do mastro e das velas.
Tentamos desvirar o catamarã. As primeiras tentativas foram impedidas pelo vento, que na hora agá jogava contra e empurrava-o de volta para a água. Mudamos de lado e ficamos a favor do vento, mas tampouco deu certo, pois agora era o mastro, com as duas velas ainda presas a ele (felizmente), que impedia a virada. O jeito, portanto, foi rebocá-lo emborcado mesmo para casa, lenta e cuidadosamente, com a garoa forte açoitando o rosto, vira e mexe auxiliada pela água das ondas.
Quando saíamos para o mar, tocou meu celular. De um outro mundo, o Cesar chamava para falar sobre uma vaca no cio e perguntar se havia sêmen sexado disponível para ele inseminá-la no final da tarde. Sim, claro, passa por lá e pega. Amigos e vizinhos são para essas horas, mesmo, o que veremos logo mais em sentido reverso.
Curiosamente, uma coisa unia os dois mundos tão diferentes: o mesmo vento leste, cá e lá. Sei disso porque o Cesar falou do vento e perguntei-lhe de onde ele vinha. Do lado do Sandro, foi a resposta. Como a propriedade do Sandro está entre o Sol nascente e o sítio do Cesar...
Tudo resolvido, mais um banho – o terceiro da manhã. Haja água. Enquanto o Francisco desmontava e cuidadosamente lavava peça por peça de seu catamarã, um dedo de uísque, puro, cowboy, pra dar uma esquentada, junto com alguns dedos de prosa com o Luiz, que ainda levou-me para a casa da Carol e do Rodrigo.
Detalhe: a Rosa disse-me que fiquei melhor nas roupas emprestadas (secas, que maravilha) pelo Luiz que nas minhas.
Foi quando liguei para o sítio, para o Dito, para perguntar se estava tudo em ordem.
Tudo. Ou quase tudo: desde ontem a bomba do poço não está puxando água. Que beleza... Só pra variar, em pleno final de semana. Buenas, foi, então, a minha vez de ligar para o Cesar, que prontificou-se a dar um pulo até o Macaúbas e conferir a bomba (o Cesar entende muito de motores elétricos & acompanhamentos). Pelo jeito, porém, solução de fato só amanhã, segundona, dia de soluções para os problemas do final de semana.
A festinha de 4º aniversário (festinha... que trabalheira fazer festa para crianças hoje em dia, coisa de louco, sô!) do Felipe está para começar. E antes mesmo que ela termine estaremos retornando para São Paulo. Amanhã cedo, com a bomba do poço à minha espera, voltaremos para casa sem tempo para “curtir” algo de Sampa. Com sorte, ainda conseguirei pegar uma meia dúzia ou mais de pães italianos, de preferência na 14 de Julho, se o trânsito permitir.
Paro por aqui, nesse domingão marcado pelas águas, tanto as presentes e controladas dos chuvé ton aqui, pois auirei pegar uma meia dem tempo para "se a dar um pulo at auxiliada pela eiros, como a ausente na saída do cano do poço, mas, principalmente, pelas incontroláveis águas atlânticas empurradas pelo vento leste no Canal de São Sebastião.

Tudo isso é um pouco da vida como ela é, com seus imprevistos grandes e pequenos, junto aos amigos, fisicamente ou não, com o futuro sendo festejado na forma de um bolo e quatro velinhas, enquanto ao lado, ainda no útero aconchegante da mãe, outra parte do futuro estará presente, quem sabe (sim, quem sabe?) já participando do aniversário do priminho.


P.s. 1 – Cesar ligou; o problema da bomba está resolvido e a água está caindo nas caixas. Grande Cesar!
P.s. 2 – Dito ligou, falou que o problema está resolvido e que ele não botou uréia na cana, pois já começou a chover; grande Dito!
P.s. 3 – Vou dormir tranquilo.

terça-feira, agosto 06, 2013

Ele chegou, o agosto



O mês tinha começado há alguns dias, mas não tinha chegado. Era agosto, mas não era. Fazia frio durante a noite e os dias estavam frescos, agradáveis, bons para ficar trabalhando fora de casa. Não era agosto, não importa o que dissessem as folhinhas e agendas e sites internéticos.
Ontem, porém, o calor chegou. No meio do dia parecia que estávamos em pleno dezembro, não fosse a secura do ar já presente. Mas não ventava. Era quase agosto, mas ainda não era o agosto.
Hoje venta. Começou durante a madrugada e não parou.
A grama está seca, pode-se andar por ela de chinelo ou sandália e os pés permanecem secos em plena madrugada.
Está seco, tudo seco.
Já ontem o horizonte estava embaçado, sem a transparência cristalina de um governo europeu ocidental social-democrata, mais com cara e jeito da transparência brasiliana: opaca, pouco penetrável, decididamente fechada aqui e ali.
Isso, sim, tinha a cara de agosto.
Enfim, agosto chegou.
Quente, seco, ventoso, desagradável...
O mês do desgosto. Ameniza-o, e muito, os aniversários de meu neto e minha filha. Não bastam, porém, para mudar o estado dos pastos, a opacidade das folhas das árvores, a poeira depositada sobre tudo e toda parte, os olhos secos, vermelhos, irritados, fazendo do colírio ferramenta obrigatória durante o dia inteiro e até no começo da noite. Nesses dias, o lugar mais confortável da casa é o banheiro, durante o banho, com a umidade tomando conta de tudo. Pena que não pode durar muito.
Até na política agosto tem lá seus desgostos, maiores que os gostos. E na noite de ontem, típica noite agostina, um programa tradicional (que já foi muito melhor, mas continua sendo razoavelmente bom) abriu espaço para uns defensores e praticantes de uma tal “mídia ninja”. Foi bom, sempre é bom vermos cair a máscara de quem se traveste em democrata.
Somente num regime democrático é possível vermos os inimigos do regime falando com total liberdade. É chato, mas é bom à bessa (ou à beça, como bestamente quer a Academia).

Numa democracia há vida, o que não se pode falar do resto.

quinta-feira, julho 04, 2013

O inverno da radicalização útil


Hoje à noite estará bom para assistir ou ver de novo “Game of Thrones”.  Porque se por lá “the winter is coming”, aqui no Sítio das Macaúbas ele já chegou. A manhã de hoje foi mais uma a provar isso: fria, com uns onze graus na sombra e sensação térmica de seis ou sete, no máximo oito graus, devido ao vento constante, cortante, penetrante.
O céu está limpo, azul, bem transparente (ao contrário das contas de viagem da presidente da República) e o Sol não aquece, queima. Mesmo assim não deixa de ser gostoso senti-lo sobre o corpo.
Tempo bom para as vacas, que só começam a ficar desconfortáveis quando a temperatura cai alguns graus abaixo de zero, o que, felizmente, está muito longe de acontecer. Boa parte dos animais sofre mais com o calor do que com o frio, como as galinhas, por exemplo.
Inverno ou verão pouco importa, o trabalho é eterno, dentro do que nossa vã filosofia pode entender por eterno em termos práticos. Nunca ficou tudo feito, tudo pronto, sempre ficou alguma coisa, muitas coisas, na verdade, para amanhã. Ou depois, porque o amanhã, como hoje, não é suficiente para tudo fazer.
Dias atrás o Paul Krugman escreveu a respeito dos lucros gerados pela simples força das marcas. Taí uma coisa das mais perigosas. Gerar dinheiro em cima do nada nunca conduziu a nada saudável na história da humanidade, da mesma forma que concentrar toda a riqueza em poucas mãos. Aqui nessa Terra Brasilis temos muito dos dois e sem grandes perspectivas de mudanças concretas, sustentáveis, daquelas que vêm para ficar.
As manifestações diminuíram, arrefeceram, mas não pararam. Não demora muito e teremos outro pico, é só questão de tempo. Impressiona o quanto uma parte da população tenta diminuir a força e representatividade dessas manifestações, dizendo serem coisas de “elite” ou de “classe média”. Coisas de “direita”, vamos usar o adjetivo que já começam a empregar. Uso tolo, pois quem se opõe ao que o povo nas ruas exige está na contramão da história.
Essa radicalização, apesar da aparência negativa, é muito boa. Há momentos em que os lados precisam ficar mais definidos, mais claros, com menos zonas sombreadas.
Dois são os grandes inimigos do Brasil: a corrupção e a falta de educação, aqui entendidas a falta de educação formal, a falta de cultura, a falta de conhecimento. O pensamento é sempre muito raso e limitado às aparências mais gritantes, sem aprofundamento. Campo fértil para o maniqueísmo que imbeciliza e destrói.

É bom termos em mente que o radicalismo útil a que me referi nada tem a ver com maniqueísmo. São coisas distintas, que talvez aborde qualquer outra hora.

segunda-feira, junho 17, 2013


Madrugada molhada, trabalhosa, cansativa

Duas e meia da manhã. Camiseta seca sobre o corpo úmido de suor. Não vou tomar outro banho, minutos depois de ter saído do chuveiro. Horário estranho, não?
Pois é. Culpa de chuva extemporânea e, pior, mal prevista pelo serviço meteorológico, como de hábito.
Depois de um domingo extenuante tomado por trabalho braçal pesado, caí na cama pouco depois das nove da noite. Quando o sono parecia engrenar a segunda, despertei com a chuva chegando. Que coisa mais irritante! Afinal, no início da noite a Lua estava bonita e, apesar de algumas nuvens, não tinha cara de chuva. Chuva meio miúda, fiquei quieto. Dormi. Acordei às onze, pois a miúda engrossou. Passou a chover pesado. Adeus sono.
Nessa época do ano em que a seca (seca?), o frio e o menor tempo de luz paralisam o crescimento dos capins tropicais, a salvação do rebanho para quem não tem e$trutura para fazer silagem é cortar cana, picá-la, acrescentar ureia e fornecê-la para o gado. O problema é que a ureia pode matar uma ou mais vacas em caso de chuva sobre a cana. A água vai lavar a ureia da cana e acumular-se no cocho, formando uma sopa mortífera. O ideal, naturalmente, é fornecer a cana picada em cochos cobertos que não recebam chuvas, o que é fácil de preconizar e difícil de praticar. Aqui no sítio a maioria das vacas comem em um grande cocho em U, coberto. Ou melhor, descoberto desde julho do ano passado, quando um vendaval destruiu o teto completamente. Ainda não consegui recobri-lo, o que espero fazer nos próximos 60 dias. Enquanto isso, em caso de chuva o jeito é correr e tirar a cana porventura ainda existente, juntamente com a água.
Ué, não tem ralo?
Pois é... Ter, tem, mas não funciona, porque o sujeito que o construiu, autointitulado mestre de obras, simplesmente ignorava leis básicas da natureza e o ralo se situa num nível mais alto que o piso do cocho. Esse, por sinal, é um problema extremamente sério. Ainda não conheci pedreiro ou mestre de obras que faça pisos nivelados corretamente. Dizem que existem, mas sou meio cético. Só acreditarei vendo.
Por volta de uma e pouco a chuva amainou. Saí, agasalhado devidamente, lanterna na mão, boné na cabeça, e fui lá pra cima. Mais uma madrugada de trabalho inglório e parciamente infrutífero, no escuro, embaixo de chuva miúda que em certo momento parou (e agora voltou, escuto). E tome trabalho braçal.
Sem chuva, fiquei encharcado. De suor. Tanto que, serviço meio concluído, entrei e tomei a tal ducha. No meio da dita lembrei-me que não tinha ido olhar os cochos das “goiabeiras”. São de madeira, empoçam pouca água, mas...
Lá fui eu de volta para a madrugada úmida do Macaúbas. Parênteses: bota de borracha de cano alto: sem ela não haveria como existir vida na roça. A minha é dinamarquesa, chique, boa, confortável e carésima. Mas não comprei, ganhei. Bem na hora, pois as vacas já estavam voltando para comer o resto da cana e em um dos cochos tinha água empoçada. Mais trabalho. Para não deixar as moças frustradas, abri um piquete ao lado com um arremedo de capim, mas o bastante para elas se atirarem a ele sofregamente. Vaca adora capim, não há nada melhor, nada que se compare.
Agora, tentando fazer o sono chegar, fico aqui escrevendo, pois estou sem paciência para ler sobre a “primavera tupiniquim”.
Talvez ainda vire uma primavera política de fato, mas tenho dúvidas. Tem muita gente instrumentalizando, tem muita gente aproveitando para bagunçar, mas o sentimento difuso de oposição a “tudo que está aí” é forte. O saco anda cheio e não é só o de quem depende de transporte público.

Não demora muito o dia vai chegar e o meu sono não. Já vi esse filme antes.

quarta-feira, maio 22, 2013

Aconchegante barulho, doce perfume, velha preocupação



Depois de mais de 30 dias de estiagem está chovendo.

A primeira pancada chegou de repente, sem as fanfarras chatas, barulhentas e perigosas das tempestades de verão. Hoje ela chegou em silêncio, simplesmente começou a cair sobre a camada de poeira que recobre as folhas das árvores, os telhados, os carros, o capim miudinho.

Enquanto ouvia o barulho aconchegante da chuva caindo e do pinga-pinga nas laterais da casa, tirava o 
pijama e colocava a roupa de trabalho. Na varanda da cozinha calcei a bota de borracha de cano alto e com a lanterna numa mão e guardachuva na outra, fui ver os cochos das vacas, preocupado com a presença da cana picada à qual adicionamos ureia. No cocho de cima nada mais restava, o que significa que precisaremos aumentar a quantidade amanhã, ao passo que os cochos das goiabeiras tinham somente alguns restos, nada que preocupe.
(A chuva agora está mais forte, continuando sem vento, felizmente.)

Talvez agora a terra fique mesmo molhada, pois a primeira pancada mal e mal, ou malemá, como diziam minha avó, minha mãe e minhas tias (como a Dercy, mãe da minha prima Solange Men), molhou a poeira. Agora não, agora chove de verdade e mais um pouco a água começará a se infiltrar no solo. Pouco ou nada adiantará para nossos pastos, uma vez que para os capins tropicais não basta a umidade, há necessidade de calor e bastante luz – do Sol, claro.

Foi bom demais ir examinar os cochos, pois permitiu sentir o perfume gostoso da terra molhada.
Está ótimo para dormir, mas... 
Cadê o sono que me dominava? Certamente perdi-o lá fora, enquanto andava dos cochos de cima para os cochos das goiabeiras. Espero que volte logo o bandido, pois a hora de deitar já passou.

quinta-feira, abril 25, 2013

39º Aniversário da Revolução dos Cravos


39º Aniversário da Revolução dos Cravos


Até hoje canto e sei de cor e salteado a letra de “Grândola, Vila Morena” (aqui, no youtube), a música de Zeca Afonso que “meio” que transformou-se em hino do movimento militar que veio a derrubar a ditadura fascista de Salazar em Portugal, à época comandada pelo professor Marcelo Caetano.

O ano de 1974 foi duro para nós, brasileiros, que ansiávamos por liberdades democráticas e vivíamos sob o tacão da ditadura militar.

Em fevereiro, se a memória não me trai (não vou pesquisar, escrevo com a memória que tenho e posso cometer um erro ou outro), um grupamento militar comandado pelo major Otelo Saraiva de Carvalho insurgiu-se contra o regime. Foi derrotado sem luta e o major Otelo foi preso. Transformou-se em nosso herói, meu herói, algo mais que natural para quem tinha 19 anos. Mas o levante de Caldas da Rainha foi o sinal que a ditadura salazarista não duraria mais muito tempo.
Os militares estavam organizados no MFA – Movimento das Forças Armadas – que era liderado por um general que tinha lutado nas colônias africanas, Antonio Spinola.

“Em Portugal é a mesma melodia,
Salazar e a sua democracia.
Com Caetano é a mesma porcaria,
As moscas mudam, mas a merda não varia.”

Essa cantiga virou o meu hino e de muitos outros jovens. Cantava-o na escola, para desagrado da direção. Muitos colegas aprenderam e virou um hit (é isso, né?... hehehe).
O clima político em Portugal era tenso – vale uma pesquisa e uma leitura, pessoal – e alguma coisa pairava no ar além dos aviões de carreira. Mesmo aqui, tão longe, com um mar imenso a nos separar, sentíamos isso.
Abril chegou.

De 24 para 25 de abril o movimento eclodiu.
“Grândola” foi uma das músicas transmitidas por uma rádio, sinalizando para as tropas o início do movimento.

E no dia 25 a ditadura caiu.

O general Spinola assumiu o governo, o resto é história. Como disse, vale uma pesquisada e a leitura.

Posteriormente, como é natural e humano, os heróis dos cravos decepcionaram a muitos, a começar pelo major Otelo. A Revolução dos Cravos feneceu, mudou, transformou-se, Portugal evoluiu, cresceu, as colônias d’África viraram nações, outras guerras aconteceram...

É a vida.

Hoje relembro aquele ano, relembro discursos entusiasmados, relembro conhecimentos travados com pessoas que viriam a fazer parte de minha vida por muito tempo.
Aquele foi um ano, foi uma época, em que acreditávamos no Brasil. Lutar por democracia era contagiante e bom demais.
O tempo passou e hoje, muitos lutadores de outrora não passam de reles mensaleiros.
Minha cabeça mudou, minha visão de mundo mudou, meu conhecimento, ainda minúsculo, é menos minúsculo do que era.

Tem um cara que conheci naquela época, em 1973, se não me trai novamente a memória, que permanece fiel aos princípios que já tinha. Embora discorde política e ideologicamente dele em muitas coisas, admiro-o: é o Carlinhos, ou melhor, é o Professor Antonio Carlos Mazzeo, comunista de primeira hora e até hoje fiel às suas crenças e militante do PCB. Como somos modernos, estamos todos no Facebook.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013


Bem-vinda, companheira Yoani

Para começo de conversa: companheiro é substantivo e adjetivo e não é sinônimo de membro de grupo político. Companheiro pode ser aquele que acompanha outro numa luta, numa aventura, numa jornada. Yoani Sanchéz, cubana, blogueira, é companheira na luta pela democracia, na luta por direitos básicos, essenciais, como ir e vir, expressar livremente o que pensa, votar e ser votada, entre outros.
Há anos ela luta contra o regime dos irmãos Castro. Sim, é verdade, às vezes sua presença na mídia chega a ser um pouco cansativa, até pensei assim, mas, querem saber? Melhor ser assim do que o contrário. Finalmente, depois de quase seis anos de tentativas inúteis, Yoani conseguiu seu passaporte e deixou Cuba, para uma viagem por vários países.
Sua primeira parada foi em Recife e em pleno Guararapes, nome que homenageia uma batalha de brasileiros contra os que, então, eram considerados invasores, um grupo de brasileiros manifestou-se contra sua presença, manifestou-se contra sua liberdade essencial de ser humano de poder ir e vir para onde melhor lhe aprouver.
Seria irônico se não fosse trágico.
A própria blogueira, porém, disse tudo a respeito:
 "Viva a democracia, quero também essa democracia no meu país."



É triste que os perseguidos pela polícia política do regime militar hoje exerçam papel semelhante no conteúdo, apenas com os (supostos) sinais trocados.
Democracia é valor, é um princípio, é um direito fundamental a todo ser humano, muito acima e além das reles querelas político-partidárias. Por isso mesmo é tão ameaçada e violentada por esquerdistas, direitistas, centristas, fascistas, nazistas e outros istas.
Em nome, portanto, da democracia, bem-vinda ao Brasil, companheira Yoani Sanchéz.

sábado, fevereiro 02, 2013

Regressão continuada




Nossa câmara alta – vou assim chamar o Senado – tem 81 senadores.
São 81 parlamentares que, em tese, deveriam ser da melhor estirpe política, os melhores dentre os melhores, com experiência de vida e das coisas da política e da república.
Deveriam ser o suprassumo dos representantes do povo, algo como, guardadas as diferenças, devem ou deveriam ser os juízes do Supremo Tribunal Federal. Nessa casa da justiça já sabemos que a coisa não é bem assim.
Na câmara alta da política é ainda pior, muito pior, infinitamente pior.
A eleição de Renan Calheiros para exercer a presidência dessa casa pela terceira vez é boa prova disso.
Que o povo das Alagoas tenha reeleito essa figura uma vez mais é perdoável, dado o alto grau de ignorância política do eleitor brasileiro, do Oiapoque ao Chuí. Que seus pares tenham-no reconduzido à presidência de uma casa que deveria ser nobre e exemplar é tenebroso, é assustador e leva-nos a questionar que futuro nos espera.
Dos 81 senadores, 56 votaram nesse personagem de já tristes lembranças, dois anularam seus votos, espero que por decência e vergonha na cara e dois votaram em branco, algo indigno de quem se dispõe a votar. Três dos senadores não se dignaram a comparecer ao trabalho. Nem por isso serão punidos, ao contrário de nós, cidadãos, que não temos o direito de votar e sim a obrigação de votar, troço muito diferente e nem um pouco democrático, daí chamar de troço e não de coisa.
De senadores do PT e do PMDB não esperava nada diferente. Os números, entretanto, dão praticamente a certeza de que senadores eleitos pelo PSDB votaram no candidato vencedor. Mais uma prova do quão calhorda e sem coluna vertebral tornou-se o partido que foi criado para mudar o Brasil.
Aliás, todo grupo político que se organiza com esse discurso mentiroso acaba caindo na vala comum da mesmice e sem-vergonhice de sempre. O partido que se intitula como sendo dos trabalhadores que o diga, não é mesmo?
O Brasil político do Século XXI sequer tem o pouco da decência que, segundo a história, tinha o Brasil político do Século XIX.
Regredimos.
Tal e qual nossa educação e a chamada “progressão” continuada. 

domingo, dezembro 02, 2012

O “Rosegate” avança



Nunca antes na história dessa república se viu coisa parecida. Pelo menos é o que eu acho.

Não bastasse o Mensalão, do qual um bando de gente bem e poderosa sai direto para as cadeias, além de outros casos e causos, alguns não explicados, alguns inimagináveis (eu continuo considerando inacreditável que dois prefeitos de duas das 20 mais ricas cidades do país pertencendo ambos a um mesmo partido sejam assassinados a tiros num período de poucos meses ou semanas e ainda hoje pouco ou nada se saiba sobre tudo isso) (sem vírgulas, sem pausas), temos agora o “Rosegate”.

Não vou entrar em detalhes, os órgãos de imprensa os têm aos montes, mas algumas coisas são curiosas. Por exemplo, a moçoila apresentar-se como “namorada” do ex-presidente, segundo a revista Época que recém-chegou às bancas e à internet.

Ter participado de grande número de viagens ao exterior, sempre a bordo do nosso "Air Force One", mas só quando a primeira-dama, a oficial, não estava presente.

Bom, aí tem toda aquela lista de apadrinhados, empresas com negócios com o maridão (o oficial nesse caso), etc, etc, reproduzindo as coisas & causos ao redor de Done Erenice, lembram dela? Na verdade, por uma questão de antiguidade e importância, o certo é dizer que as coisas & causos de Dona Erenice, seu maridão e afilhados diversos é que reproduziram as de Dona Rose.

Dona Rose e o ex-presidente relacionam-se (por favor, críticos, consultem no dicionário o verbo relacionar e verão que eu aqui o emprego dentro da mais cândida inocência), afinal de contas, desde o distante ano de 1993.


Como diria um ex-presidente desse imenso bananal, o qual, segundo Chico, tornar-se-ia um “imenso canavial”, nunca antes na história dessa república (...queta?) viu-se coisas tão assombrosas e despudoradas.
Ou não diria? 


Falando em diria ou não diria, o que dirá a respeito de tudo isto a Dona Marisa? Lembram dela? É aquela que foi a primeira-dama, oficial, durante oito anos.

Convém lembrar que Dona Marisa e pimpolhos todos conseguiram cidadania italiana e, por supuesto, passaportes idem. Não esquecendo, claro, que os mimos foram conseguidos durante o governo do maridão. 

Outro importante lembrete: todos tinham passaportes diplomáticos tupiniquins. Bom, tupiniquim ou não, passaporte diplomático é sempre passaporte diplomático, ? Parece que foram todos devolvidos. Parece. Mas... Para que devolver? Não seria mais prático e imediato simplesmente torná-los inválidos e com ordem de apreensão em caso de apresentação?
Deixa quieto.

Pelo sim, pelo não, permaneço curioso: o que dirá Dona Marisa sobre tudo isso?
Há um dito popular sobre o quão terrível é a fúria de uma mulher traída, mas, naturalmente, não é o caso aqui, felizmente. Né?

Enquanto isso, o “Rosegate” avança.

domingo, novembro 18, 2012



Domingão de manhã no Sítio das Macaúbas

O Sol está alto, quase 10 horas, embora os relógios apontem quase 9 horas. É o horário do Estado. Estou correndo o risco de virar anarquista depois de velho, é só o que falta.
O dia começou antes das seis, como de hábito, depois de uma noite excelente de muita prosa e comida boa na casa do Rubens, Dedé, Renato e Luíza, no Sítio dos Pomares, onde mora um bando de vaquinhas Jersey, como aqui. Quando entrei no carro para vir embora, o susto: quase meia-noite. Depois de alguns quilômetros, fechar a porteira, olhar o tanque de refrigeração e passar os olhos nas bezerras, meio de longe pra não sujar o sapato, entrei em casa meia-noite passada. Até vir o sono... Mas valeu muito a pena.
Descobri ontem, pelo Rubens, que o nosso fornecedor de sal mineral e outros produtos essenciais à atividade galactopoética (termo que aprendi em antiga crônica do amigo Eduardo Almeida Reis, ex-emérito produtor de leite e hoje, como sempre, grande e emérito produtor de textos e livros), que vem a ser a produção do leite pela vaca, é também criador de carneiros, dos quais vende kits prontos para churrasco, com ou sem tempero, com pedaços diversos a dedo escolhidos. Ontem comemos do carneiro temperado, na verdade borrego, pois carneiro tem carne dura, e fiquei fã de bate-pronto. Mais um item a ser acrescentado à lista de compras do mês.
Ao atento – e desconfiado – leitor que já correu ao dicionário: também é usado galactopoiética, mas por uma questão de prosa poética eu redundantemente fico com o primeiro, que combina melhor.
O caminhão do leite já veio, pegou a produção de dois dias e se foi. Agora o marmitão aqui vai preparar água e detergente para lavar o componente fundamental para a qualidade do leite: o tanque de expansão ou de refrigeração do leite.
A água está esquentando para a lavagem. Espero chegar a 85 graus centigrados, pois até chegar ao tanque e jogá-la na parede interna e no piso, a temperatura já caiu para a faixa ideal, de 70 a 75 graus. Nessa faixa, a gordura grudada no aço é retirada. Abaixo disso a gordura não sai, acima disso ela “plastifica”. Claro que a água já vai com o detergente alcalino-clorado, essencial para a higienização do tanque.
...
Shit happens...
Parei e fui lavar o tanque. Ao pegar a vasilha do fogão, pela primeira vez caiu um mundo d’água quente, felizmente só em minhas mãos, sem pegar as coxas e os pés, já protegidos pela bota de cano alto, dinamarquesa, chique à bessa (ou à beça, como quer a Academia), que eu já calçava. Imediatamente, sem me preocupar com a água e a vasilha em que foi esquentada já tombada no chão, coloquei as mãos embaixo  de água escorrendo da torneira da pia e ali fiquei uns cinco minutos e sei lá quantos litros d’água. Foi muito bom! Minhas mãos estão ótimas, sem queimaduras, sem bolhas. Devo essa ao Dr. Drausio Varella e ao “Fantástico”, que mostrou uma matéria sobre queimaduras e seus primeiros socorros com o Dr. Dráusio. Valeu, doutor, obrigado.
...
Ok, de volta ao texto, agora com o Sol bem mais alto, bem mais quente, o dia brilhante, ventinho moderado, gostoso, do tipo que não causa prejuízo e nem resseca o solo. Um bom dia, sem dúvida, digno de ser apreciado, o que parece estar sendo feito pela passarinhada.
...
Mais uma parada no texto. Uma gralha gritou, foi o alerta para levantar-me e ir à caça dos ovos já botados. Gralhas, seriemas e teiús, os grandes lagartões carijós, são sócios na produção de ovos. Nós entramos com as galinhas e o milho, eles entram com bicos e bocas para comer os ovos. Não deixa de ser divertido ver uma seriema correndo desajeitada com um ovo no bico. Divertido, mas não deixa de ser um prejuízo.
Assim vai seguindo o domingão, dia de futebol, o que vai obrigar-me a correr com as tarefas da tarde, inclusive as mamadeiras das bezerras, para poder ver o jogo e terminar o serviço depois do apito final do juiz, lavando os equipamentos depois das sete horas da tarde, no horário besta do Estado.
Bom domingo.


sexta-feira, outubro 05, 2012

Last Resort... or the unthinkable



O segundo episódio já foi ao ar nessa semana, por enquanto só nos Estados Unidos.

O USS Colorado, submarino nuclear com 18 mísseis Trident em seus silos, é a estrela por trás das ações de seus tripulantes e do pessoal em terra.

Não posso falar muito a respeito para não estragar expectativas, mas essa série tem tudo para ser fantástica. É um pouco aterrorizante, o que é bom, pois há muito tempo o terror nuclear parece ter sido banido de nossas mentes, o que não é muito bom.


Talvez não por coincidência, ela vai ao ar no momento em que transcorre o 50º aniversário da Crise dos Mísseis, envolvendo Estados Unidos e União Soviética, Kennedy e Krushev. No meio, perdidos e tratados como joguete, Cuba e Fidel, para imensa raiva do dirigente cubano, que não queria esse papel... ignorando que nunca teria outro papel que não fosse esse.
Como o próprio Kennedy reconheceu, o mundo esteve às portas de uma guerra nuclear. Não teria sido o fim da humanidade, mas estaríamos hoje em uma situação econômica global catastrófica, com pequenos governos ditatoriais por toda parte, pouco comércio e mínimo intercâmbio de pessoas e ideias. Que, como de hábito, seriam severamente punidas se não estivessem de acordo com o dono do poder local.



Voltando à série: para quem assistir, recomendo a máxima atenção num diálogo entre o capitão e seu imediato, pouco depois de iniciado o episódio, quando Ronald Reagan é citado. Ela é a chave para entender uma ação extrema do capitão do USS Colorado.

terça-feira, outubro 02, 2012

Um filme que vale a pena




Salmon fishing in the Yemen” – esse é o nome do filme, cujo título em português ficou como “Amor impossível”... É, fala sério, ?



“Salmon fishing” tem muitas qualidades. A história de amor, que existe, sim, se dá em torno de uma história maior, mais envolvente, diferente do habitual. Os árabes, nesse caso iemenitas, são retratados de forma mais natural, mais realista e nada maniqueísta. O sheik não é anedótico, embora miliardário, longe disso. É uma pessoa que tem uma visão para seu povo e seu país. Mas o filme não cai no panfletismo, muito pelo contrário, thank’s God.



E há o humor britânico, delicioso, principalmente quando colocado na boca e nas expressões de uma atriz como Kristin Scott Thomas, com um papel marcante, como assessora de imprensa do primeiro-ministro britânico, embora com poucas aparições. Os burocratas de Sua Majestade maquinam, maquinam e arrancam risadas, talvez amarelas, já que as maquinações são muito realistas.

O par central é formado por Ewan McGregor e Emily Blunt, de quem gosto cada vez mais. Completa o elenco central o ótimo Amr Waked no papel do Sheikh Muhammaed.


Estou com uma dúvida: será mesmo que dá para ter salmões em pleno Yemen? Não só em açudes, mas nos rios, migrando e desovando? Assistam e depois me contem e não se limitem aos peixes, pois o filme oferece muito mais para pensarmos, sem que isso seja forçado ou no maldito tom didático, com cara de cartilha, tão comum entre o pessoal que gosta de “passar mensagens”.

Mesmo dando o que pensar, “Salmon fishing” é diversão da melhor qualidade.

sábado, setembro 29, 2012

Chegou o fim de ano - é o que diz o chocotone




Opa, mas é 29 de setembro ainda! – já sei que tem gente falando, até consigo ouvir. Sim, ainda estamos no mês de começo da primavera (com uma cara de inverno atrasado depois de um final de inverno com cara de verão antecipado), mas há pouco, no sacrossanto café da manhã já passei da metade do primeiro chocotone dessa temporada.
Isso mesmo, para mim chocotone é sinônimo de fim de ano, mesmo chegando ao mercado em pleno setembro, apenas para reforçar o caixa da empresa com o dinheiro dos gulosos impacientes. Obviamente, estou mais que dentro dessa categoria, como já foi possível perceber.
Apesar do acepipe natalino achocolatado, ainda faz frio, ainda restam 12 rodadas para o Campeonato Brasileiro acabar, meu bolso e minhas contas ainda não estão assustados com a necessidade de caixa para o 13º e nada mais distante de Papai Noel e suas gastanças do que minha cabeça... E meu bolso, é claro.
Opa, opa, falei de bolso duas vezes num único e mísero parágrafo... Preocupante. Mas hei de sobreviver, porque sobreviver, mais que verbo da moda, é a saída melhor.
Mais uns trinta ou quarenta dias e já poderemos desmamar as últimas bezerras: Carminha, Menina, Teimosa e Valentina. Estou relutando muito em fazer uma permuta de todas as bezerras por algumas novilhas que estão por parir agora em outubro. Embora um reforço no leite fosse muito bem-vindo, a verdade é que será muito agradável passar quatro meses inteiros sem a necessidade de cuidar de bezerras novas duas vezes por dia, todo dia. Além disso, mais dia, menos dia, as chuvas voltarão para valer. Com elas, o barro e os mosquitos e os carrapatos e o calorão e mais um monte de coisas que mais atrapalham do que ajudam quem cria vacas e bezerras e produz leite. Portanto, não ter bezerras novas tem um forte lado positivo.
As chuvas e o calorão têm, entretanto, um maravilhoso lado positivo: os pastos voltam a ser pastos. O capim cresce aceleradamente, o volume de massa verde enche os olhos da gente e o rúmen das vacas, a produção de leite sobe um pouco... E o preço cai um bocado.
Com as chuvas vêm as tempestades e com essas vêm as quedas no fornecimento de energia.
Como os dias já estão ficando mais longos, o Sol nascendo mais cedo e se pondo mais tarde, teremos a volta do tenebroso horário de verão.
Ó, céus... – diria Hardy, a hiena. Quando morava na grande cidade eu gostava, todos nós gostávamos imensamente do horário transtornado, digo, mudado. Era uma delícia ver o dia de serviço acabar tão cedo, passava uma sensação gostosa de férias ou antecipação das ditas cujas. Hoje, morando na roça e dependente mais do que nunca dos ciclos e tempos da natureza, acho esse horário besta uma tremenda amolação, um atraso de vida.
E paro por aqui, começando, mais que uma sentença, todo um parágrafo com uma conjunção aditiva. Paciência.

terça-feira, setembro 25, 2012

Declaração de voto e posição




Há muitos anos uma frase marcou época e marcou também a mim:
“Bandido é bandido, polícia é polícia.”
Seu autor foi um dos mais famosos bandidos da época, ainda nos anos 70, Lucio Flavio, referindo-se ao fato de que devem manter-se separados e quando se misturam coisa boa não sai.
Estado é Estado, Igreja é Igreja.
Não devem, não podem sob hipótese alguma misturar-se.
Sempre que isso ocorreu os resultados foram péssimos, nos casos mais leves, e trágicos na maioria das vezes.
Religião é questão de foro íntimo, nada é mais pessoa que a fé e a prática religiosa de uma pessoa.
Estado é o braço operacional da sociedade. De toda a sociedade, nunca de uma parte dela.  Seus membros devem obediência e lealdade à constituição, vale dizer, portanto, ao povo, a cada um dos cidadãos.
Claro que o Estado extrapola, por meio de seus funcionários, mormente em países atrasados cultural, política e socialmente, como é o caso dessa Terra de Vera Cruz. Mas corrigir os desmandos do Estado é muito menos difícil que corrigir os desmandos de uma instituição religiosa.
No que me diz respeito, igrejas não devem possuir meios de comunicação de massa. A doutrinação e a pregação são individuais ou em grupos de quem pensa e sente de forma semelhante.
O alcance da Igreja, qualquer que seja ela, deve dar-se somente em relação às pessoas, jamais à sociedade em seu conjunto.
Por tudo isso e muito mais, não consigo enxergar nada de bom na candidatura Russomano na cidade de São Paulo, independentemente até da qualidade do candidato – que deixa muito a desejar.
Penso da mesma forma em relação a candidato que represente qualquer religião, qualquer uma.
Se ainda morasse em São Paulo meu voto seria, uma vez mais, do PSDB e de José Serra. No mais, que Chalita crie juízo e mude sua prática partidária. É um bom candidato perdido pelas más, pelas péssimas companhias.

terça-feira, setembro 18, 2012

Um caronista falante sob o Sol queimante


Nesse setembro com cara de agosto, o Sol parece multiplicado, o calor maior que nunca. Claro que não é bem isso, mas é essa a nossa percepção imediata. Às dez e meia da manhã a estradinha que desce a “serra” da Conceição parecia queimar, sensação aumentada pela poeira e pela secura do ar. Mais à frente, vi um homem descer de um trator, que em seguida entrou numa propriedade. Tão logo me aproximei o homem acenou-me, pedindo carona.
Falante, ouvi-o ainda antes de parar a bravíssima Tempra 94, veterana a caminho do milhão de quilômetros. Entrou, ajeitou-se, ajeitou suas tralhas, típicas de quem deu um pulo até a cidade e agora volta para casa com algumas comprinhas. Conversa vem e conversa vem, pois com certa frequência dou descanso à minha boca e trabalho aos meus ouvidos, contou-me o básico sobre ele.
Aposentado, mora com sua “velha” no sitio do “seu” Fulano, com quem tinha um bom acordo. Já tentara morar na cidade, mas seu salário de aposentado revelou-se muito insuficiente para pagar o aluguel de uma casinha, mais as contas de luz e água. O que sobrava mal dava para a comida de meio mês e, com muito esforço, bastava para comprar os remédios. É, tem uma fase na vida de todos em que remédios são mais importantes que todo o resto.
Pois foi então que surgiu o “seu” Fulano, o dono do sítio. Meu passageiro, sabedor que o sítio do dito cujo estava sem gente, procurou-o e fizeram um acerto: ele moraria no sítio, que tem uma casa muito boa para empregado e receberia a luz sem pagar. Quanto à água, provinda de fonte própria e infinitamente melhor que a água “química” da cidade, era só uma questão de ligar a bomba elétrica.
E o acordo foi feito para a felicidade e, quem sabe, a sobrevivência do meu carona e sua “velha”.
Meu falante passageiro tem todo aquele jeito tranquilo de um cara gente boa e leva jeito de quem trabalha tão bem quanto fala.  Vi o sítio ao deixá-lo na porteira. Bem cuidado, cercas em ordem, gado tranquilo, ruminando pachorrentamente, a parabólica ao lado da casa, a casa sede (que certa vez, há alguns anos, conheci por dentro) parecendo em excelente estado.
Disse meu passageiro que a vida vai bem, obrigado. Seu salário mínimo de aposentado é o bastante para os remédios e umas comprinhas de coisas que a roça não dá. Não são muitas. Carne ele tem e não é pouca. Tem seus porquinhos, galinhas e frangos. O “seu” Fulano matou um porco outro dia e, como sempre faz, deu para ele um quarto do bicho e mais as miudezas suínas, que os povos urbanos desdenham, tal como desdenham as miudezas galináceas. Aliás, como desdenham as coisas miúdas da vida e só têm olhos para as grandes coisas, grandes somas, grandes compras... E grandes dívidas que alimentam e retroalimentam o processo e o sistema. Parece meio falso, não parece. E é, mas deixa quieto, mexe com isso não.
Agradeceu-me efusivamente, além, muito além do necessário. Gentil, claro, mas até meio chato. Embora prolixo no escrever, em certos casos e ocasiões sou amante do resumo resumido. Assim pensando e sob suas bênçãos, lá fui eu buscar mais feno para as bezerras no sítio da famosa e simpática atriz.

sexta-feira, agosto 31, 2012

Luar, Gonzaga e Armstrong


Uma das bezerras novas começou a berrar à meia-noite, praticamente em ponto. Sei lá, parece coisa de lobisomem, ainda mais que foi no momento que o dia mudou de quinta pra sexta-feira e num mês de agosto. Só faltava ser dia 13...
Calcei a bota, coloquei uma blusa e fui lá fora dar uma olhada. Sem lanterna, coisa totalmente desnecessária.
Depois de amanhã, oficialmente, teremos Lua cheia, a última desse inverno, mas há algo errado nessa história. No final da tarde ao levar o Dito reparamos que ela, Jaci, já estava alta sobre o horizonte, um disco prateado perfeito com as manchas de sempre – lembram que diziam que as manchas eram um dragão? E o seu brilho depois que a noite caiu de vez estava intenso. Talvez, que sei eu, sejam as luzes da rave (existe rave ainda?) realizada para receber Neil Armstrong, com todos os holofotes ligados.

E quando vejo um luar assim, não deixo de lembrar da poesia de Luar do Sertão, de Luiz Gonzaga:

"Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão"

Oh! que saudade do luar da minha terra
Lá na serra branquejando folhas secas pelo chão
Este luar cá da cidade tão escuro
Não tem aquela saudade do luar lá do sertão

Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão

Se a lua nasce por detrás da verde mata
Mais parece um sol de prata prateando a solidão
E a gente pega na viola que ponteia
E a canção é a Lua Cheia a nos nascer do coração

Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão

Mas como é lindo ver depois pro entre o mato
Deslizar calmo regato transparente como um véu
No leito azul das suas águas murmurando
E por sua vez roubando as estrelas lá do céu

Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão
Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão