quarta-feira, outubro 31, 2007

País engraçado


Com esse título acima já fica claro ao leitor e à leitora desse blog que não vou falar sobre a Suíça. Tampouco irei falar sobre o Canadá, Islândia, Suécia ou Noruega. São países chatos, falemos a verdade. Tudo funciona e, geralmente, funciona bem. O povo é saudável e educado, etc e tal, e, em lugares assim, é difícil achar coisas engraçadas. Preconceito? É, talvez, um pouco, um pouquinho só.

País engraçado poderia ser a América, digo, os Estados Unidos da América, mas, sei lá, com essa atual elite dirigente pode-se chamar os USA de qualquer coisa, menos de engraçado.

Itália! Sim, a Itália é engraçada, coisa que outros latinos como a França, Espanha e Portugal não são. São muito sérios, muito empolados, muito cheios de si, enfim, não são engraçados. Alemanha? Hahahahaha... Engraçado é alguém pensar que a Germânia possa ser engraçada. Ah, a Inglaterra, sim, a “velha e pérfida Albion”, essa é engraçada. Um humor oposto ao italiano, mas humor. Mas tampouco falarei desses dois. Agora já deve ter ficado claro que eu, logicamente, vou falar do mais engraçado de todos os países: o Brasil.

O Brasil é tão engraçado que não duvido nem um pouco que nossa primeira-dama lance-se candidata à sucessão do maridão. Se Dona Cristina fez isso na terra dos hermanos ao sul, que na média são mais educados e politizados que nós, por que não Dona Marisa Letícia para Presidenta? O problema seria o que fazer com o primeiro-marido, ou primeiro-cavalheiro da República. Essa questão paralisaria por meses os já paralisados trabalhos do Congresso Nacional. Pergunto-me se o primeiro-cavalheiro viraria papagaio-de-pirata da esposa, reproduzindo o que ela mesma faz hoje com ele, talvez, como aventei há pouco tempo, já em campanha pela sucessão.

O cúmulo da graça tupiniquim seria a reeleição de Dona Marisa Letícia em 2014, ano da Copa no Brasil. E, por que não, com os fantásticos avanços da medicina, em especial na geriatria, lulla da Silva poderia, constitucionalmente, voltar à doce presidência em 2018, com perspectivas de ali permanecer até 2026. O cúmulo da (des)graça, sem dúvida.

Todavia, sendo o Brasil tão engraçado como é, por que não? Inclusive, cúmulo da graça, teríamos como mandatária suprema da nação uma cidadã italiana e os primeiros-filhos seriam,também, cidadãos italianos. Na falta de um povo do primeiro-mundo, teríamos dirigentes do primeiro mundo de carteirinha e tudo.

Crise moral

Estou morrendo de vontade de ler a edição da revista masculina que estampou em sua capa e páginas internas aquela senhora, teúda e manteúda de alto mandatário republicano. O problema é que sou um cara de poucos, mas firmes princípios. E não vou gastar um centavo dos meus já parcos para engordar a já muito gorda conta dessa distinta senhora, da qual, por sinal, nada quero ver, mas que percebe-se, de gorda nada tem, exceto a conta bancária.

Ué, então por que você quer a revista? – pergunta o leitor curioso e a leitora indignada.

Simples, estimada leitora preocupada com minha moral.

Simples, estimado leitor, descrente de meus princípios.

O que me interessa nessa revista são... as entrevistas.

O pior vem agora: podem acreditar, o que digo é vero, é veríssimo.

É fácil entender o porque: dois de meus ídolos estão nas páginas da tal revista masculina, na mesma edição, em duas entrevistas supimpas.

Uma, muito curta, com o técnico do São Paulo, Muricy Ramalho. Meu ídolo.

Outra, a maior, com meu ídolo e leitura obrigatória todo sábado na Veja:

Diogo Mainardi.

Fui cortar o cabelo na sexta-feira. O barbeiro, cujo nome ainda não gravei, discretamente tirou uma revista da gaveta e estendeu-a para mim.

Oba! Era a tal revista.

Ah, não era... Era o número anterior, com uma starlet qualquer, mais uma daquelas que se formou na faculdade de reality show. Nem abri, devolvia, e pedi uma “Caras”. Como disse, eu sou um cara de princípios, e a rápida vista-d’olhos pela “Caras”, além de nesse caso preservar meus princípios, coloca-me em dia com todas as fofocas do mundo das personalidades. Foi assim que descobri que essa revista “tem” um castelo na Toscana, com vinhedo próprio e tudo. Um castelo de verdade e meio velhusco, pelo que pude ver nas fotos, onde um casal – ele ator famoso, ela cantora desconhecida – passeia pelo vinhedo e enche uma cesta de palha com cachos de uva. Puxa, se a revista fosse minha eu recortaria a foto maior dos dois com as uvas e fazia um quadrinho, pra pregar na parede.

Agora, nobres leitores, estou já pensando em como e no que fazer que justifique um convite de “Caras” para alguns dias num castelo toscano.

Enfim, preservei meus firmes princípios e não contribuí pro caixa da teúda e manteúda republicana. Fiquei em dia com as fofocas do mundo do beautiful people tupiniquim e, fantástico, descobri um castelo, descoberta que vai exigir desse pobre escriba a dura labuta de lançar um livro, aparecer no Jô e aí, quem sabe, receber o convite para alguns dias no castelo toscano em meio às vinhas. Mais que isso, só dois disso, nesse país realmente engraçado.


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segunda-feira, outubro 29, 2007

Cenas da Granja Viana e um Sabiá cantando

Primeiro o vídeo com o canto...
Depois a foto do cantor e mais algumas.









Esse é o cantor, um sabiá. Pensei que fosse o poca, mas não é, talvez seja o una.


Um dos nossos visitantes habituais. Essa árvore fica a poucos metros das janelas do lado direito de casa. Os visitantes gostam de banana e mamão, principalmente. Nesse dia, para fotografar, joguei banana sobre o teto do nosso vizinho, mas normalmente colocamos as frutas nas árvores.





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domingo, outubro 28, 2007

O sumiço dos colibris

A primavera já termina seu primeiro terço e as chuvas chegaram. Apesar disso, na caminhada de hoje, retomada depois de algum tempo de ausência, não vi nenhum beija-flor e por um motivo simples: não há flores nesse trecho.

O inverno, curiosamente, é rico em floradas: temos os ipês, as bauínias – a branca, nativa, que é a pata-de-vaca, e a lilás, exótica e prima-irmã -, o cipó-de-são-joão, a eritrina – que permite fotos belíssimas dos beija-flores com suas árvores sem folhas – e mais a diadema, as caliandras e muitas outras mais, tanto árvores como arbustos e cipós. Com a chegada da primavera, vão-se as flores e vêm as folhas e os frutos. Sem aquelas, os beija-flores partem em busca de outros pastos. Aqui na Granja Viana devem encontrar floradas em meio aos pedaços de matas que ainda persistem entre casas e loteamentos.

Isso me leva a pensar que os paisagistas e jardineiros precisam ter uma visão mais abrangente e ecológica. Não basta, simplesmente, plantar determinado número de árvores, é importante que esse plantio seja feito com espécies adequadas, que propiciem alimentação às aves e mesmo às outras espécies que ainda habitam nossa região, como os sagüis, gambás, serelepes e outros pequenos mamíferos que conseguem sobreviver em meio ao que chamamos de civilização.

Para os beija-flores, por exemplo, é importante a presença de plantas florescendo por todo o ano, de forma mais ou menos equilibrada. Um excesso de floradas no inverno, seguida pela escassez na primavera e no verão, é péssimo para os colibris, força-os a deslocamentos nem sempre possíveis nesses dias de crescimento urbano acelerado. As plantas que deram alimento ontem, hoje podem estar tombadas no chão, picotadas, esperando o transporte para algum forno distante. Não custa relembrar que depois das flores vem os frutos, e esses vão alimentar outras espécies. Seria bom que o paisagismo mudasse um pouco, priorizasse menos a estética e contemplasse mais a diversidade e persistência. Isso é ótimo até mesmo em pequenos jardins, e em áreas maiores pode fazer toda a diferença para a manutenção de parte da fauna que ainda resiste.

Os tico-ticos estão entre os que resistem e fazem seus vôos curtos por toda parte. Pousam em galhos, mourões de cercas, muros, e seu canto, que me acompanha desde a primeira infância e primeiras memórias, faz a trilha sonora dominante da caminhada.


Inevitavelmente, penso na seca que ora termina, tarde demais, e penso na Califórnia. Mais de um milhão de desabrigados e desalojados devido aos incêndios. Que nada mais são que o corolário natural da seca persistente associada ao calor excessivo. As casas, bem ou mal, em sua maior parte seguradas, serão reconstruídas. Mas toda a vida animal e vegetal já foi extinta ou espantada. Com sorte, em quinze, vinte anos ela retorna. Ou não...

No sítio, o sol voltou pleno desde ontem. É hora de correr e adubar os piquetes e também o canavial, aproveitando a umidade. Mas olhar para o céu ainda é mandatório, pois choveu pouco e precisamos dela todo dia, de preferência, suave e persistente, molhadeira, criadeira.

Dia a dia, todo dia, toda hora, ou quase isso, por um motivo ou outro, meu pensamento é assaltado pelas lembranças e preocupações com o aquecimento global e o depauperamento de nossos bens mais preciosos, desde os gorilas no Congo até os sagüis aqui perto de casa, com seu habitat sendo tomado por novas e bonitas casas, aceleradamente.

Em algum momento futuro algo mais concreto que escrever, falar e plantar algumas dezenas de árvores será necessário. Por enquanto, o jeito é plantar mais e tentar reciclar o máximo de coisas que pudermos.

Bom domingo e boa semana a todos.


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Este é o primeiro – espero que de muitos – vídeo que posto no blog, e acabou sendo justamente desse personagenzinho pequeno e simpático, presença constante em minha vida, como já escrevi e me repito. Espero que dê certo e todos possam ver e ouvir sem problemas. Mais do que nunca, agradecerei os retornos a respeito, para saber se funciona ou não, se bem, mais ou menos ou mal. :o) ...


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terça-feira, outubro 23, 2007

Seca, calor, fogo...

Outubro está chegando ao final e as chuvas, a bem dizer, ainda não começaram. Esse ano está sendo tão seco e terrível como o de 2005.

No sítio está tudo seco, tudo – terra, plantas, animais – esperando ansiosamente pela água que cai do céu e renova vidas e esperanças.

Nossa situação, porém, não é tão grave como a dos californianos. Uma vez mais a seca, o calor, os ventos fortes e, com certeza, ações criminosas, levaram a mais de 80.000 hectares incendiados, com perdas de centenas de casas, dezenas de feridos e pelo menos uma morte. Mais de 250.000 pessoas abandonaram suas casas em virtude do alto risco de fogo.

O verão foi quente e seco e o outono não está trazendo alívio.

Por aqui, um outono com pouca chuva, inverno seco e a primavera começando seca e quente. As frentes frias que chegaram a São Paulo foram fracas e com pouca umidade. Olho esperançoso o ícone no alto do blog: informa previsão de 49 mm para amanhã, em Santa Rita do Passa Quatro. Tomara...

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domingo, outubro 14, 2007

Duas chegadas e um atraso


Finalmente, chegou o horário de verão oficial. Eu gosto dele, mesmo porque já estamos vivendo o horário de verão aqui em casa, e também no sítio, há um bom tempinho. A passarinhada ignora os relógios oficiais, não ligam para o Jornal Nacional, tampouco para a novela das oito, religiosamente às nove, toda noite, exceto aos domingos, quando, presume-se, descansam os atores e descansamos nós, embora o fantástico show da vida não seja muito chegado a descansos, nem mesmo os semanais. Pergunto-me por que cargas d’água ainda dizemos que a novela é das oito? Digressões filosóficas à parte, a passarinhada acorda e começa sua algazarra ainda antes dos primeiros raios do sol invadirem a cozinha.

A cachorrada não fica atrás e, se há luz, é hora do sagrado café-da-manhã, o pão com leite de todo dia. Para as vacas, é a hora de levantar, preguilçosamente, e esperar pela ordenha matinal, dando leite para os humanos e para os bezerros. Para os gatos, é chegada a hora de dormir, antes, porém, também eles têm direito ao café da manhã, no caso leite puro. Barriga cheia, ou mais cheia, é procurar a cama mais próxima para repor as energias gastas durante a noite de caça.

Os dias agora são mais longos, mas não são mais gostosos por causa disso. Não ainda, pois falta o essencial: a luz chegou, mas as chuvas estão atrasadas. De nada adianta esse mundo de luz sem água. É difícil, também, encontrar a beleza repousante de pastos e árvores verdes, plenos de vida, apesar da explosão de flores dos ipês brancos e rosas, dos jacarandás e várias outras árvores, uma mais bonita que a outra. Não adianta, mesmo que os olhos se concentrem na beleza das flores, outros sentidos apontam para a secura do ar, a poeira que as vacas levantam nos seus trilhos preferidos, e uma vaga sensação de inquietude, impaciência, ansiedade.

No tempo certo, já chegaram o primeiro chocotone e o primeiro panetone. Para mim, é o sinal que o ano terminou, daqui pra frente, agora, são apenas pequenos detalhes para fechar o calendário. 31 de dezembro está logo ali adiante, e com ele, o primeiro dia de um novo ano.

E nada das chuvas, só ameaças e pingos esparsos.

Um pouco como a tal da felicidade.

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sexta-feira, outubro 05, 2007

Uma viagem há trinta anos


Mais ou menos por esses dias completei 30 anos de minha primeira e inesquecível viagem para a região amazônica, se bem que o correto é dizer para uma das muitas regiões amazônicas, pois são muitas e diferentes as diversas Amazônias. Já naquela época existia a gritaria a respeito de queimadas na região, gritaria e queimadas que persistem até hoje, e cujos efeitos fazem-se sentir, menos o dos gritos, mais os das queimadas.

Fui para lá a convite de uma grande empresa multinacional que tinha comprado uma enorme fazenda para a criação de gado. Eram 140.000 hectares, ou 1.400 quilômetros quadrados (o município de São Paulo tem pouco menos de 1.600 quilômetros quadrados, para comparação), localizados na parte sul da floresta amazônica propriamente dita de terra firme.

O motivo da viagem para um grupo de jornalistas (eu, infelizmente, não era, mas fui como gerente da sucursal de uma revista agrícola de prestígio e levei comigo a jornalista que trabalhava para a revista em São Paulo) foi mostrar a fazenda e desmentir o noticiário que já tinha corrido o mundo meses atrás, dizendo que a empresa estava “queimando a Amazônia”.

Precisaria de muito tempo para escrever e muitas laudas para contar o que foi a viagem e seus diversos impactos sobre minha visão do Brasil, do futuro e do mundo. Naquele distante ano de 1977 eu era um idealista militante político de esquerda, frequentemente colocando a ação política acima de minhas obrigações familiares, mas nunca acima de minhas obrigações profissionais (triste, eu sei, mas só vim a reconhecer isso muito tempo depois, arrependendo-me de ter negligenciado a vida familiar em prol da política e da profissão, essa muito menos que aquela). A história completa talvez conte em outra hora.

O que causara as manchetes nos jornais europeus e americanos? Por que a gritaria ganhava foros tão amplos, 15 a 20 anos antes da globalização, internet, comunicações instantâneas entre as pessoas? As fotos feitas a 400 km da Terra pelo Skylab, um misto de estação espacial e satélite que fotografou as grandes queimadas, cobrindo áreas de milhares de quilômetros quadrados. Era tudo muito assustador. Muito mais do que a realidade. Na verdade, o que aparecia como grandes incêndios, era mais o aumento da temperatura a cobertura da camada de fumaça do que o incêndio, a queimada, propriamente dita. A tecnologia de sensoreamento remoto ainda apanhava um pouco na época, mas a tecnologia das manchetes catastróficas já era de pleno domínio por toda parte, desde sempre, aliás.

Curiosamente, ao chegar na fazenda, fui o único dos visitantes que aceitou sobrevoar toda a região num pequeno monomotor Cessna. Os demais passaram o dia desse vôo em agradável descanso na sede da fazenda. Interessante, esse fato, aprendi muito com ele.

Aprendi mais ainda com o vôo, não só por gostar e ter voado muitas horas, mas também por ter um domínio razoável de geografia e saber localizar-me com relativa precisão. Em dois sobrevôos, cobrimos todos os pontos cardeais da fazenda e seu entorno. Durante muito tempo nada vi embaixo da gente que não fosse o verde intenso e sem falhas da floresta. Mas vi, também, as áreas abertas naquela fazenda e nas vizinhas. Do ar e da chão.

No outro dia, andamos pela fazenda num veículo com tração nas quatro rodas. Novamente, a maioria do pessoal ficou pela sede e seus arredores, mas o meu interesse não era ver casas, escola, conversar com pessoas. Até vi e fiz tudo isso, mas rapidamente. O que eu queria, mesmo, era ver pasto, era ver mata, era ver as áreas em processo de abertura, era ver queimada. Vi tudo isso e mais: pegadas de onça numa picada nova, numa área que viria a ser queimada talvez no ano seguinte. Lembro com clareza da emoção que senti ao ver aquelas pegadas na terra vermelho-alaranjada exposta à luz depois de centenas, talvez milhares de anos coberta pela floresta.

Fui tomado por sentimentos contraditórios. De um lado, queria, como sempre quis e quero, a preservação integral e perpétua da floresta. Por outro lado, reconhecia, como reconheço, a necessidade de gerar riquezas, empregos, desenvolvimento, proporcionar vida decente para milhões de pessoas, coisas que, inevitavelmente, conflitam com conceitos como preservação absoluta, por exemplo. Seja aqui, seja na África, Ásia, Oceania, Sibéria, Antártica...

Aquela fazenda era vítima de uma gritaria desproporcionalmente alta em relação à realidade. De sua área total, ela podia, legalmente, desmatar 70.000 hectares, a metade. Todavia, o plano de ocupação e desenvolvimento da fazenda, ocuparia apenas 56.000 hectares, ou seja, os demais 14.000 seriam incorporados à área de preservação permanente. Até aquele momento, no quarto ou quinto ano de ocupação e formação da fazenda, um total de 40.000 hectares haviam sido queimados e preparados para o plantio de pastos. As queimadas eram feitas em áreas delimitadas e controladas, nunca passando de 500 hectares de cada vez, mas geralmente bem menos. Enfim, o diabo era feinho, mas infinitamente menos do que diziam ser.

Ah, sim, as pessoas, não falei delas, ainda.

Muita gente trabalhava na fazenda, a maioria, claro, pessoas ocupadas em trabalhos braçais ou de pequena especialização. Peões de obras, peões de fazenda, vaqueiros, eram a maioria. A empresa levou de São Paulo para lá, assistentes sociais para ensinar às pessoas coisas como o uso de banheiros, vale dizer, o uso das privadas com um luxo como água corrente. As mulheres eram ensinadas a usar... torneiras. Incrível, não? Mas, verdadeiro, eu vi e conversei com essas pessoas.

A molecada era um caso à parte. Na fazenda, todo mundo com menos de 16 anos de idade, estudava e não trabalhava. Algo impensável ainda hoje nos sertões do Brasil. A escola, única, era grande, confortável, janelas teladas, pé-direito alto, em pleno calorão amazônico as salas de aula eram frescas e confortáveis. As professoras, todas, eram recrutadas em São Paulo, donas de excelentes currículos, muito acima da média das professoras de escolas públicas e privadas da metrópole. Todo o material escolar, gratuito, ia de São Paulo para a fazenda. Isso me marcou, marcou muito, para sempre.

Fora tudo isso, o básico para uma comunidade: posto de saúde (muito bem equipado), um clube para o lazer dominical, igreja, templos, etc. Toda a área da sede era servida por energia elétrica, gerada por um “locomovel”, um gerador gigante com cara e jeito de locomotiva a vapor, alimentado pela madeira das áreas abertas para pasto. Funcionava das seis da manhã às dez da noite, para todos, sem exceção, inclusive o presidente mundial da empresa quando por lá passou e pernoitou.

Essas coisas todas somadas davam-me uma doce visão de um futuro possível. Pena que, ao olhar para o horizonte, via os penachos negros da fumaça de uma queimada.

Confesso que ainda não resolvi totalmente essa contradição entre desenvolvimento e preservação em minha cabeça, mas já adiantei bastante a resolução, e ela passa, obrigatoriamente, pelo máximo possível de preservação. Desde então, foram inúmeras minhas viagens pela Amazônia, nos seus mais diferentes pontos e cenários. Tenho claro que o ideal, hoje, seria uma parada total e permanente de qualquer nova abertura, de qualquer nova destruição de florestas, desejo, infelizmente, utópico e motivado, também, por um motivo egoísta, talvez, e que muita gente desconhece: o regime de chuvas do interior do estado de São Paulo, assim como parte do Paraná, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, é determinado pelos “rios voadores”, frentes úmidas que são formadas na Amazônia e empurradas para toda essa região pelas correntes atmosféricas. Chega a ser assustador descobrir esse fato e pensar no que ocorre hoje em toda a região amazônica.

Isso tudo seria uma introdução para falar sobre a expansão da lavoura de cana pela Amazônia, mas o que era introdução virou um texto com vida própria.

A conversa sobre a cana fica para depois.


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sábado, setembro 29, 2007

Ecos do passado


A troco de nada, a lembrança chegou em meio ao banho, momento, aliás, que já me proporcionou vários acessos de criatividade. Bom, pelo menos na minha opinião.

“As rosas desabrocham,

Com a luz do sol,

E a beleza da mulher,

Com o Creme Rugolllll...

Creme Rugollllll...

Creme Rugollllll...”

Depois do jingle, entrava a voz do locutor com um texto falando das vantagens e benefícios que o uso do creme trazia. Lembrança antiga, que vem dos anos cinqüenta, sessenta, quando ouvia esse e muitos outros “reclames” nos programas de rádio. Em termos de mídia era tudo que tínhamos, então. Nossa primeira televisão ainda demoraria alguns anos, e só chegaria em casa em meados dos anos sessenta. Antes disso, o jeito era ser televizinho, quando tínhamos a sorte de ter um vizinho bem de vida, já dono de um maravilhoso televisor, luxo de poucos naquele Brasil tão distante.

Na fazenda, trazida por algum viajante endinheirado, aparecia de vez em quando uma “Cruzeiro”, a grande revista do Brasil, vaga que foi ocupada, depois, pela Manchete e depois, e até hoje, pela Veja. Todas diferentes entre si, mas nenhuma alcançou o sucesso e penetração da “Cruzeiro”, que num país atrasado e periférico com cinqüenta milhões de habitantes, chegou a ter tiragem superior a dois milhões de exemplares. Proporcionalmente, hoje, uma revista teria de vender em bancas quase oito milhões de exemplares. Impensável.

Numa antiga revista encontrei minha primeira paixão. Pois é... Como era bonita! Não só ela, mas sua mãe também (sim, isso é o título de um filme, mas por mera coincidência). Mãe que mostrava a uma amiga e sua filha uma peça de roupa lavada com, hummmmmm, Rinso, talvez. Omo eu tenho certeza que não era. Paixão platônica, claro, de um garoto perdido numa fazenda distante quatorze horas de trem de São Paulo, a cidade grande, onde ela, quem sabe, morava. Isso se não morasse na mítica capital, em vias de deixar de ser, o Rio de Janeiro. Claramente, um amor fadado à não realização.

Como o país era diferente! Bom, que sei eu do país? Só conhecia Marília e São Paulo, onde ainda andávamos de bonde, do bairro para a cidade. Era assim que chamávamos o centro: cidade. Ainda hoje, muitas vezes, ainda nos referimos dessa forma ao Centro Velho e ao Novo.

E volta o mistério do porque eu fui lembrar do antigo jingle do Creme Rugol.

Vai saber...

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Preguiça sem culpa, que coisa boa


Bom demais...

Acordar na manhã de sábado com um friozinho gostoso e a garoa caindo.

Um dia sem cobrança, um dia que já nasce com justificativa para tudo, ou seja, perfeito para fazer nada. Ler o jornal com calma enquanto o café-da-manhã é apreciado lentamente. Ligar ou não ligar o computador passa a ser uma das tarefas do dia, digo, pensar a respeito. Dia bom para ligar televisão, vídeo e gravador de dvd e aproveitar para copiar mais uma ou duas ou três daquelas fitas guardadas. Talvez hoje eu copie o jogo final do Paulistão 98, jogo que marcou o retorno de Raí ao São Paulo, com show de bola, vitória maiúscula e a conquista do título em cima do Corinthians. Eis uma boa tarefa para um sábado já gostoso ficar ainda mais.

Bom mesmo vai ser se amanhã estiver igual, aí já é meio como ganhar na loteria. Claro, não uma megassena sozinho, mas uma quinazinha. Digo isso porque um dia como esse nos livra das tais cobranças que mencionei logo de cara. Nosso estilo de vida não admite pasmaceira, não aceita preguiça, só gosta de gente correndo, de preferência dentro do carro no trânsito parado, onde a corrida física é trocada pela corrida dos nervos rumo ao descontrole. Ritmo, agitação, frenesi, faça isso, faça aquilo, faça sempre alguma coisa.

Eis então que, de repente, surge uma modesta frente fria nesse começo seco de primavera, traz um friozinho, uma garoinha e joga por terra as muitas e chatas possibilidades de fazer alguma coisa num dia em que não há trabalho.

O melhor, portanto, é aproveitar, relaxar, nada fazer, flanar preguiçosamente.

Ah, esqueci do mais importante: o sábado, o friozinho e, principalmente, a garoa, tiram toda e qualquer culpa que com certeza sentiríamos por estarmos fazendo nada.

É isso, uma preguiça sem pecado, uma preguiça livre da culpa.


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segunda-feira, setembro 24, 2007

São Paulo, Comes & Bebes...

... e a Padaria 14 de Julho

O saco plástico com a Veja de sábado chegou pesado e mais volumoso que o normal. Também, pudera, a “Vejinha” estava com cara de catálogo telefônico, não só no peso como no visual, com lombada quadrada, formato de impressão que permite produzir revistas com maior número de páginas. E essa edição caprichou: nada menos que 436 páginas!

- Nossa, mas existe tanta notícia assim? – pergunta o desavisado leitor que não mora nessa megalópole. Sim, há tanta notícia para muito mais, até, só que não é o caso. Essa é a edição anual “Comer & Beber” da Veja São Paulo. Nada menos que 500 (quinhentos, por extenso só para garantir) restaurantes e 250 bares, fora outros 250 lugares para o que eles chamam de “comidinhas”. Essa, que ninguém me ouça, é a melhor parte da lista, com certeza. Lugar de sanduíches maravilhosos, desde um simples cachorro-quente ultra-gostoso e meio requintado, até o nosso tradicional, tradicionalíssimo bauru, passando pelo sanduíche de pernil da 14 de Julho. Sanduíche? Melhor chamar de refeição para dois. Esse pernil é simplesmente maravilhoso, assado no vinho por 14 horas, e com ele preenchem meio filão de pão italiano. Bom, eu como bem, basta ver a fotinho meio defasada para se ter noção de tal fato. Pois bem, apesar disso, parei na 14 de Julho dias atrás na hora do almoço, entre uma reunião e outra. Estava com fome, pedi um sanduba de pernil. Olhei pra cara do bitelo quando chegou e engoli em seco; comi, comi, comi, e o balconista embrulhou metade, que foi o meu jantar. Tudo isso por meros oito reais e setenta centavos. Pouco menos de cinco dólares. Só em São Paulo, mesmo.

Mas a 14 de Julho é infinitamente mais que mera parada para comer um sandubão. É um lugar histórico e de histórias. É um lugar de tentações, ah, sim, é lugar de muitas, muitas tentações. É histórico porque a padaria já tem 110 anos de idade. Foi fundada em 1897, ainda no século XIX, quem diria! No mesmo lugar, o que é mais incrível ainda. O Nono Franciulli entregava o pão para a freguesia de carroça. Aliás, peguei essa fase do pão vendido em carroça. No bairro em que meus pais moravam, o Ipiranga, o carroceiro era um português que passava cedo. A carroça era sofisticada, era uma “carroça-baú”, os pães ficavam lá dentro, protegidos e frescos. Dia de festa era quando o dinheiro de algum vestido que minha mãe fazia permitia a compra de um sonho.

Sonho é aquela coisa com que você sonha durante dias ou semanas, até meses ou anos, e de repente lá está ela em sua frente: uma bolota de massa frita, coberta por uma crosta escura, recoberta de açúcar de confeiteiro por sua vez e, suprema delícia, recheio de creme. Há quem goste de outros recheios. Bom, há gosto para tudo, claro, e eu, digamos, respeito, embora lamente. Sonho é isso. Morando mais na fazenda com meus avós, do que em São Paulo com meus pais, uma de minhas lembranças e vontades da casa paterna era o sonho. Freud deve explicar, acho.

Nunca moramos sequer perto do raio de ação geográfico e temporal da carrocinha da 14 de Julho. Sua descoberta, para mim, foi tardia, já nos anos 90, seguida de paixão à primeira mordida pelo pão italiano, pelo pão recheado com lingüiça – esse, um terrível indutor do pecado da gula – e por issos e mais aquilos, tudo, tudo mesmo sobrepujado pelos avassaladores cannoli.

Lembro do cannoli e minha boca enche-se de água. Tem um filme, não lembro qual, em que um chefe mafioso novaiorquino é louco por cannoli, e presenteia quem ele gosta com um pratinho deles. Mafiosos também têm bom gosto. Trata-se de um canudo de massa folhada assada, preenchido com creme. Há quem prefira o recheio de chocolate; eu entendo, claro, mas não deixo de lamentar, claro, também. Por cima, o bendito açúcar de confeiteiro. Cannoli é creme, para mim. Cannoli é uma dádiva sobre a qual você fecha os dentes, corta um pedaço de massa cuja única função é proteger e segurar o creme e, então, se delicia com uma das grandes descobertas do gênio humano.

Cannoli, sanduíche de pernil, pães, tudo isso é somente parte de algo muito maior. O teto é tomado por salames, queijos e lingüiças pendurados. As laterais tem de tudo um pouco e, logo à entrada, tenebrosa mesa coberta por variados antipasti; e bota variados nisso. Tem massas frescas, que podem ser feitas na hora e aí basta chegar em casa, pegar o garfo e mangiare. Tem bracholas e porpetas, claro, mil coisas com berinjela (outro dia compramos um pão recheado com berinjela que estava absolutamente irresistível, a ponto de ter comido parte dele no carro, dirigindo pela megalópole), azeitonas e outras coisas. A lista de delícias é extensa demais para tão modesto blog.

Ah, mais uma coisa antes de terminar: essas fotos são, mesmo, da padaria. Eu mesmo tirei-as. Pois é, nem parece, né? Nada das luzes e amplos espaços dos tais “templos” de comida de hoje em dia. Essa padaria que as fotos mostram é, basicamente, a mesma e do mesmo jeito que era em 1897.

E, antes que me esqueça, lembra do cannoli? E do chefe mafioso? Pois é...

O nome do cannoli é cannoli siciliano.

Buon apettito!


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sábado, setembro 22, 2007

Às três da manhã


Nada pior que acordar de sono profundo com o telefone tocando.

Antes de atender à chamada olho o mostrador do vídeo: faltam dois minutos para as três da manhã - só pode ser engano, penso, na verdade, torço. Nesse horário, se não for engano, é notícia ruim. Mil coisas e pessoas passam pela minha cabeça: minha mulher e minha mãe estão no litoral, na casa da minha filha. Meu filho está viajando pela Europa. Meus sogros estão no interior, assim como muitos parentes. E tem o sítio, sabe-se lá o que pode acontecer no sítio, que já foi roubado sete vezes. Ergo o fone e escuto a musiquinha da chamada a cobrar. Deve ser coisa do sítio, imagino.

- Pai, me ajuda, pai...

- Hum?

- Me ajuda, pai, fui assaltado.

Passado o impacto inicial de ouvir a palavra pai, em voz chorosa, percebo, numa fração de segundo, que estou sendo vítima de uma tentativa de golpe por parte de vagabundos.

Apesar da chamada ter sido a cobrar, resolvo dar trela ao vagabundo, deixá-lo perder tempo comigo, até ouvir minha voz chamando-o de vagabundo e mandando-o ir trabalhar.

Pena, entretanto, que o vagabundo percebeu que eu não caí em seu golpe e desligou o telefone. Ainda por cima, mal educado.

Fico sentado alguns minutos ao lado do telefone, pensando na situação.

Estou certo que, naqueles momentos, o bandido está tentando aplicar o mesmo golpe em outra pessoa. Penso na dor, na preocupação, que outra pessoa pode estar sentindo. Enquanto penso, procuro por uma pastilha anti-ácida, pois entre o acordar e o momento em que identifiquei o crime, a descarga de adrenalina agiu e provocou uma acidez. Mesmo sabendo que não era meu filho, pela voz e pelo fato dele estar a milhares de quilômetros de distância, em Milão, o despertar, a incerteza e os momentos de angústia que a chamada provoca, e que foram aumentando enquanto tocava a musiquinha da chamada a cobrar, são o bastante para causar estragos.

Demorou para acontecer comigo, penso. Há meses espero, sem esperar, claro, por algo parecido. Felizmente, aconteceu numa noite em que não havia como ter dúvidas a respeito. Teria sido melhor que fosse uma tentativa de obter dinheiro para um resgate. Em minha cabeça o plano há muito estava traçado: conversar, ficar preocupado, chorar, implorar, negociar. Enquanto isso, tentaria ligar para a polícia pelo celular.

No meu planejamento, impecável, a polícia receberia informação preciosa, fosse de um local de encontro, fosse de uma conta para transferência de fundos. E, naturalmente, prenderia os vagabundos em flagrante.

Humpf...

É isso que dá assistir muito CSI isso e aquilo, Numbers, NCIS e congêneres. Vã ilusão, mesmo porque, se tudo funcionasse tão bem, tão roliudianamente, os bandidos estariam soltos em questão de dias ou semanas, com muita sorte em alguns meses, e aí a coisa ficaria muito pior, pois saberiam tudo sobre o denunciante que os levou à prisão, ou seja, eu mesmo. Viveria com uma espada de Dâmocles permanente sobre a cabeça. Seria, não duvido, o maior consumidor de pastilhas anti-ácidas da super-drogaria mais próxima de casa.

O vagabundo desligou, entretanto. Minha representação foi pífia, com certeza. Decididamente, eu e o teatro pouco temos em comum. Pensando bem – é, eu penso muito –, foi até melhor, pois já foi divulgado que há funcionários corruptos nas empresas telefônicas – ora, ora, ora, não diga! –, que vendem informações dos assinantes para a bandidagem. Vai que o vagabundo que me acordou resolvesse dar uma lição ao idiota – eu – que tentou enganá-lo?

Para um bandido, nada mais fácil que isso.

Aqui, nessa terra, em se bandidando tudo dá.

Azar o nosso.

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quinta-feira, setembro 20, 2007

Liberdade, informação e publicidade – Free NYT

Tão logo tive acesso à internet há muitos anos – nem lembro mais quando foi, aliás, alguém lembra se existia vida antes da internet? –, uma de minhas primeiras ações foi cadastrar-me e tornar-me assinante virtual do New York Times.

Desde então, todo dia abro minha caixa de entrada e lá está, presente e confiável como o meu exemplar diário do Estadão, o e-mail com o que NYT diz que está acontecendo de importante no mundo. Mesmo com as restrições de um acesso free, sempre foi uma preciosa fonte de informações, mesmo que meu índice de leitura não seja dos mais altos.

Foi emocionante receber um e-mail dizendo que o NYT inteiro, desde o número 1, estava disponível na net, bastando o trabalho de teclar meia dúzia ou menos de vezes e ler sobre o assassinato de Lincoln, o começo da I Grande Guerra, as matérias dos correspondentes nas frentes de batalha, e por aí afora. Desde então sonho com o dia em que terei todo o Estadão on line, desde os tempos de A Província de S.Paulo, ainda no Império.

Claro, recebi também gentil e-mail, propondo-me a assinatura on line do jornal, por meros US$ 49.95 por ano. Gentilmente, disse não. Mas fiquei chateado, não porque fosse perder alguma coisa, já que nada perdi e, mesmo com a assinatura, eu tinha mais acessos do que antes, mas porque gostaria de assinar pelo simples fato de assinar e colaborar com um órgão que reputo fundamental para a manutenção da liberdade e dos direitos civis. Enfim, como era um pequeno luxo não essencial, disse não, em linha com esses tempos de vacas anoréxicas, que um dia já foram magras.

Agora, leio com prazer a informação que o Times simplesmente aboliiu a assinatura paga e abriu o acesso a, praticamente, todo o jornal. Mais: o acesso gratuito cobre também todo o arquivo do jornal que é domínio público, desde 1851, exceto parte do material do período entre 1923 e 1986. Desde já tenho certeza que as restrições de acesso que ainda persistem não demorarão muito a cair.

Foi bonzinho o Times?

Não, simplesmente sua direção percebeu que o crescimento da publicidade virtual era muito grande e cobria a renda proveniente dessas assinaturas. Mais: boa parte dos leitores que acessavam o NYT faziam-no via Google, Yahoo e outros sites de busca. Agora, com a liberação, espera-se que boa parte dos leitores faça suas buscas diretamente pelo NYT, o que reforçará ainda mais a receita de publicidade.

Ah, a publicidade...

Em breve farei 53 anos. Com isso, estarei completando perto de 37 anos ligado à publicidade em diferentes formas. Orgulho-me disso, principalmente por ter claro na teoria e na prática, que é a publicidade que garante e estimula a imprensa livre. E não há democracia e dificilmente haverá pleno respeito aos direitos dos indivíduos perante essa coisa cada vez mais mastodôntica e ameaçadora que é o Estado, sem a imprensa livre, sem a multiplicidade de órgãos de informação, coisas que só a publicidade farta e abundante pode garantir. Publicidade é uma ferramenta requintada do business, do marketing, do capitalismo, sem dúvida, mas é, também, a mais sofisticada das ferramentas de garantia à liberdade de que dispomos. Sua contrapartida é o deserto tenebroso da “Voz do Brasil” e da tal televisão pública, tão ao gosto de gente como lulla da Silva, Zé Dirceu, Hugo Chávez e outros. Vade retro.

P.s.: meu acesso de hoje foi antecedido por uma mensagem dizendo que, nessa semana, o patrocínio é do cartão American Express; no rodapé, um link pode, se eu quiser, levar-me a algum site do AE; não quis, e segui minha leitura.


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quarta-feira, setembro 19, 2007

Mais do mesmo de sempre

Sabe aquele filme que foi sucesso no cinema há algumas décadas já?

E que a toda hora você vê mais e mais chamadas dele na televisão?

Ora na sessão da tarde (existe ainda?), ora na sessão noturna, ora na sessão das corujas, dos insones e dos porteiros com televisor portátil à mão.

E você pensa com seus botões: “Pombas, de novo? Não dá pra mudar isso?”


Mudar sempre é possível, até mesmo a programação dos filmes da tv, mas para mudar é preciso ter vontade de mudar.

Viu essa foto?

Ela mostra as Cataratas do Iguaçu nesse meio de setembro.



Viu essa foto?

Ela mostra um dos inúmeros parques nacionais assolados pelo fogo nesse meio de setembro e desde, pelo menos, meados de agosto.

Mostra, também, um flagrante da pobre, mas corajosa, tentativa de controle.

Todo ano é a mesma coisa: seca, cai o nível dos rios, cachoeiras secam (às vezes muito, como agora) e o fogo criminoso ou acidental se alastra por preciosos hectares de parques nacionais. Em muitos deles, em especial nos cerrados, o fogo provocado pela própria natureza é parte do processo de preservação do próprio ecossistema. O cerrado precisa do fogo, ocasionalmente, assim como muitos ecossistemas florestais em outras áreas do mundo. Uma coisa, porém, é o fogo do qual a própria natureza se encarrega, outra, bem diferente, é o fogo criminoso, provocado por mãos e desejos humanos.

Seja como for, combater as queimadas de áreas naturais é uma necessidade imperiosa para conservar e proteger, a natureza e o trabalho e moradias de pessoas. Mesmo os incêndios naturais precisam ser combatidos em algum momento, em algumas áreas, pelo menos.

É aqui, entretanto, que o bicho pega.

O combate ao fogo é exercido por brigadas de bombeiros e voluntários, tão corajosos e valorosos quanto mal equipados e mal treinados. Muitas vezes nem equipamentos há, e recorre-se à improvisação de abafadores com folhas de palmeiras. No lugar de máscaras, lenços no nariz. Roupas de proteção, então, só as que Hollywood ou os noticiários mostram, quando equipes dos primeiros mundos combatem os incêndios florestais no hemisfério norte.

Em nossos incêndios há um outro grande ausente: os aviões-bombeiros, tão comuns nos tais primeiros mundos. Há modelos desenvolvidos especificamente para essa finalidade. Já no final dos anos quarenta, os americanos improvisavam bombardeiros da II Guerra, desativados, para transportar e jogar água sobre os incêndios, principalmente no oeste e sudoeste americanos.

Mas aqui no Brasil não existe um só aparelho para combater incêndio. Em alguns parques, em alguns incêndios – e nem sei se é o caso de usar esse plural – que temos por aqui, vemos a presença solitária de um helicóptero transportando de mil a dois mil litros de água em bombonas improvisadas. Difícil até comentar, dada a precariedade de tudo, sem falar no custo elevadíssimo do transporte de cada um dos poucos litros de água que conseguem ser despejados sobre um foco de fogo.

Lembro-me que há alguns anos uma empresa canadense mandou um avião-bombeiro para demonstrações entre nós. Perda de tempo. Nossa proverbial e estúpida auto-suficiência descartou a compra do equipamento. Nem lembro direito dos motivos apresentados, lembro, sim, de minha indignação com o fato. Mas, sou brasileiro, nunca desisto. De ficar conformado.

E assim seguimos, ano após ano, seca depois de seca, incêndio atrás de incêndio.

Tico e Teço, meus dois neurônios semi-aposentados, mas ainda operacionais, sussurram-me que já escrevi post parecido em algum momento do passado não muito remoto. Ao mesmo tempo, sobrecarregando seus circuitos, dizem-me que falarei e escreverei a respeito no ano que vem ou no outro. Ah, mas como são malandros! Para fazer essa previsão não sobrecarregaram circuito nenhum, já que não há o que pensar e calcular.

Todos sabem, até meus dois neurônios meio malandros, que isso vai se repetir e repetir e repetir...



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quarta-feira, setembro 12, 2007

Arrependimento e Dúvida



Confesso que não quero pensar no passado.
Não quero pensar que perdi (ia escrever dediquei, mas mudei de idéia) 15 anos de minha vida e até minha família, embora essa eu tenha recuperado, militando feito um imbecil em nome de democracia, direitos civis, eleições diretas, anistia ampla, geral e irrestrita, e não sei o que mais.

Não quero pensar que fiz o que fiz para dar no que deu.

Sorte minha que arrependimento não mata.


Meu filho está na Europa, fazendo um "mochilão", como ele e os amigos disseram. Depois, virá a vida real, um casamento já no horizonte e...
E o que?

Não será melhor eu fazer meu papel de pai e ligar para ele dizendo para ficar por lá?

Como pai, tenho o direito de deixá-lo voltar para esse bananal infecto?

Estou em dúvida.


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Lamento, leitores, mas o blog Um Olhar Crônico não ficará nem um pouco surpreso se a próxima chapa situacionista para disputar a sucessão de lulla da Silva for essa:


Para a Presidência do bananal: Dona Marisa Letícia da Silva


Para Vice-Presidência do bananal: Senador Renan Calheiros


Será que demora muito conseguir a cidadania italiana da minha nona?

:o(


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O SENADO MORREU...

O senado estava vivo, mas podre.

Agora acabou de morrer.

Como não será sepultado, esse blog recomenda cuidado com o mau-cheiro.

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sábado, setembro 08, 2007

Pesadelo ou treinamento?


Primeiro foi um pesadelo e contei-o aqui. Sei lá porque, talvez para dividir com vocês, meia dúzia de amigos, a angústia de que fui tomado. Ou seja, vocês podem ser e são meus amigos, mas não podem dizer o mesmo a meu respeito em relação a vocês. Afinal, com amigos desse naipe, que dividem esse tipo de angústia, pra que inimigos, né?

Agora, persistindo na desconstrução dessa amizade (nunca usei essa palavra, fiquei com vontade, sei lá, talvez se encaixe bem...), vou dividir novamente aquela minha angústia, porém agora de uma forma mais pesada, dolorosa. Sim, porque ela cresceu, a maledeta angústia.


A angústia ampliada, ou quando o pesadelo parece ser a realidade

No começo muitas das gentes achavam, e eu também, que ela estava ali, o tempo todo, em todos os lugares, fazendo marcação homem a homem, ou, em seu caso, mulher a homem. Muitos e perigosos eram os riscos que a liberdade de ação traria: mulheres (diziam as lendas), más companhias (nessa marcação ela falhou ou então as más companhias não passavam dos companheiros do time), bebidas (é, diziam isso, que maldade...) e outras coisas igualmente ruins. Com o passar do tempo, todavia, e hoje mais que nunca, uma coisa me parece certa: desde o começo ela está em fase de treinamento e de familiarização, dela com todos e de todos com ela.

Reparem bem: os motoqueiros americanos vão a Brasília e lá está o trio: ele, a moto e ela. O desfile é em carro aberto pelas ruas da cidade, e lá está o trio: ele, o Rolls impecável e brega, e ela, em pé e acenando, ao invés de sentada e comportada como Jackye. Inauguração de mais uma pedra fundamental – sim, nessa república inaugura-se pedra fundamental – e lá está o trio: ele, a pedra e ela, sorridente e imutável, com o tailleurzinho (é assim que se escreve?) básico de regra, sempre compondo um triunvirato: ele, o factóide do momento e ela.

Ela, nossa trainee de candidata a presidenta da República, Dona Marisa Letícia.

Da Silva.


Post scriptum à guisa de explicação

O Conselho de Redação vetou a publicação de qualquer um dos inumeráveis trios republicanos, uma vez que há muito está decidido que esse blog é contra a candidatura Marisa Letícia, tal como é contra o governo (sic) lulla da Silva.


Post scriptum patriótico

Ontem foi 7 de setembro, Dia da Pátria. Foi noticiado e, naturalmente, desmentido, como de praxe ocorre com todas as verdades, que o “governo” faz pressão pela absolvição de Renan.

Essa, sem dúvida, foi a mais patriótica de todas as notícias sobre ou em torno do Dia da Pátria. Foi, também, a única noticia patriótica que o Editor desse blog achou digna de ser reproduzida.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Quase primavera


O tempo esquentou, já se percebe que as noites estão mais curtas e os ipês continuam em floração, assim como as patas-de-vaca ou bauínias. Algumas árvores já tem vegetação nova, folhas tenras, bem verdes, aparecendo em galhos nus. A primavera está próxima.

Os gramados bem cuidados das casas ricas e bonitas da Granja estão ressecados, tal como o capim seco e amarelado nos barrancos entregues ao deus-dará, mostram que ainda falta uma coisa muito importante para termos a primavera: chuvas. Enquanto elas não chegam tudo que resta é olhar para o céu, torcendo pelas nuvens negras e gordas, cheias de água. Bom, não olhamos mais para o céu que nos cobre, e sim para o desenho de céu chuvoso nas previsões da televisão e, principalmente, nas telinhas dos computadores.

E ontem à tarde o céu escureceu. E foi muito, nuvens cor de chumbo cobriram os céus da Granja Viana, se alongando no rumo de Carapicuíba, Alphaville, Barueri... E começaram os resmungos. Por muito tempo ouvi os resmungos roucos proferidos nas nuvens. Vez ou outra uma trovoada e logo voltava o resmungar contínuo. Como aquelas brigas em família, quando um dos contendores não se dá por vencido e fica ali, remoendo, resmungando, remoendo, resmungando... Sei bem como é isso.

Finalmente, depois de tanto teatro, tanta afinação, veio a chuva. Gotas grossas, pesadas, espaçadas, parecia uma chuva indecisa, talvez paenas uma nuvem cansada do peso despejando uma parte dele e guardando o resto. Mas foi boa, mesmo sendo meio curta. Baixou a poeira, trouxe o cheiro de terra molhada, grama molhada, árvores molhadas, cheiro bom, cheiro de vida. O ar ficou mais fresco, mais gostoso, mais animador. Já era tempo.

Day after...

Não cheguei a ver fotos ou noticiário de televisão e internet sobre a chuva. Ouvi menções ao granizo, “choveu gelo aqui em Carapicuíba”, mas não dei grande bola. Até ver a primeira página do jornal, mostrando nada menos que uma pá carregadeira cheia de gelo, no meio do gelo, limpando uma rua de Alphaville.

Fantástico!

Pá-carregadeira para tirar gelo das ruas?

Coisa de louco, rapaz.

Que que é isso?

E pus-me no meu canto, quieto, a pensar: será um efeito do aquecimento global?

Por que não?

Será que o roteirista de “The day after tomorrow” delirou ou pegou as idéias que movem o filme com os meteorologistas certos?

Ah, mas aquilo foi um filme.

Sim, um filme, mas o roteirista pesquisou, entrevistou, ouviu, pôs o roteiro em discussão com meteorologistas. Por mais ficcional que seja, há uma base científica por trás dos acontecimentos que, no filme, levam a uma nova e quase instantânea era do gelo.

Contudo, Day After à parte, a primavera está tentando chegar, tentando mostrar sua cara por inteiro. Falta pouco. Mesmo porque as amoreiras estão carregadas e o chão em volta de algumas está preto de tanta frutinha esmagada. E a passarinhada anda cantando forte e com gosto.

É, falta pouco, já, já é primavera.

Solta o Tim Maia, maestro!

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domingo, agosto 26, 2007

Brasilianas de agosto de 2007


Ato criminoso

O governo lulla da Silva deteve e entregou às autoridades da ditadura castrista que domina Cuba dois atletas que fugiram durante os jogos Pan Americanos realizados no Rio de Janeiro. Foi uma atitude covarde e criminosa, pois nada mais foi que um crime aos direitos humanos, os famosos direitos humanos pelos quais esses indivíduos hoje no poder tanto clamaram quando na oposição. Direitos humanos pelos quais tantas pessoas de boa fé e crença na democracia lutaram por anos a fio, enfrentando a ditadura militar que então dominava o Brasil.

O governo lulla da Silva apóia-se em tecnicalidades para dizer que os atletas foram devolvidos à ilha-prisão por livre e espontânea vontade. Mentira.

Fidel decretou que os dois nunca mais poderão disputar competições oficiais e nunca mais poderão sair de Cuba. Tecnicamente, estão presos.

E descobre-se agora que o jato especialmente designado para levar os dois atletas de volta à prisão é venezuelano. Mais: parece ter sido o mesmo avião que levou oitocentos mil dólares clandestinos para a Argentina.

Chávez, lulla da Silva, Morales e, parece, o casal Kirchner...

Que futuro nos aguarda?


Cansei

Virou moda criticar o movimento.

É coisa de dondocas e de milionários.

Coisa de quem está bem de vida.

A pobreza intelectual e a indigência moral desses críticos é aterradora.

Uma prova que nada entendem de democracia.

Desconhecem o sistema, quer como prática, quer como filosofia.

Pior: sequer conhecem o significado da palavra, disponível em qualquer dicionário.


Chefes fora

O STF não vai processar o ex-primeiro-ministro Zé Dirceu. Tampouco processará Delúbio... Silvinho “Land Rover”... Zé Genoíno, o que nada sabia, antecipando a ignorância do chefe supremo.

O STF me deixa envergonhado e desesperançado.


Medo

Será que minhas palavras no texto anterior podem servir de base para que eu mesmo seja processado?

Afinal, será que é permitido a um brasileiro dizer que sente vergonha de sua Corte Suprema? Se não for permitido, estou frito.


Os mesmos de sempre

Renan continua na ativa. Continua presidindo o Senado da República.

Jader Barbalho está a mil por hora na Câmara. Articula a montagem de uma CPI contra a revista Veja – a essência é essa, o resto é conversa fiada – por “inspiração” de Renan. Todos os caras indiciados no Mensalão assinaram o pedido de CPI, assim como 59 deputados do partido dos trambiqueiros, também conhecido por pt. Ah, sim, redundei: um monte desses 59 também está na lista do Mensalão.

Esses caras nos governam, esses caras são o nosso parlamento.


50 milhões para Rainha

Pois é, o tal de Rainha, indivíduo com vasta coleção de processos nas costas e acusações mal desfeitas, se é que alguma foi desfeita, vai receber 50 milhões de reais do governo para fazer uma usina de biodiesel.

Vai ter festa no Pontal do Paranapanema.

Às custas sabe-se de quem.


Demorou...

... mas Dona Denise Abreu enfim renunciou.

Agora falta o restante, a começar pela mais alta posição.


Sim, estou meio raivoso hoje e nem li, ainda, o meu jornalão desse domingão.

Sabe Deus o que nele virá.


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segunda-feira, agosto 20, 2007

Domingão, dia de Estadão


Meu jornalão de hoje está especial.

Não é merchandising. Se alguém achar que é, paciência.

Dentro de dois meses farei 53 anos de idade. Leio o “Estado” desde os oito. Portanto, já lá se vão 45 anos de leitura semanal, no começo, mais adiante bi ou tri-semanal, até virar diária ainda na adolescência, em pleno regime militar.

Isso, entretanto, é outra história. Portanto, falar desse jornal pode ser tudo, menos propaganda.

Como é sagrado, começo pelo caderno de esportes. Não fala muito do meu time, apenas o normal. O cronista de futebol do domingo escreveu um texto interessante, até gostei, ao contrário do habitual. Dos cronistas do Estado, gosto, mesmo, de um só, o mais “futebolista” deles, digamos. Futebol é futebol, quando abro o caderno de esportes quero ler sobre futebol. Outras coisas embaralham e irritam. Pulo e passo adiante. O caderno de hoje traz uma matéria bonita, falando da escolinha que o Vasco mantém para seus jovens atletas. Muitos chegam sem saber coisa alguma, sequer, a bem dizer, escrever. Coisas de Brasil, claro.

No caderno Aliás, uma entrevista, ou melhor, uma “senhora” entrevista com o ex-correspondente do NYT no Brasil, Larry Rother. Uma entrevista como deve ser: nada menos que duas páginas do caderno. Uma introdução boa, no tamanho e com as informações na dose certa, e depois a conversa com o Larry. Como deve ser uma conversa inteligente. Ele fala de seus muitos anos de Brasil, em dois tempos, conta breves “causos” daqui e de outros países sul-americanos, fala um pouco sobre jornalismo e fala, muito, do estrepitoso affaire Governo x NYT, quando ele escreveu a matéria dizendo que o hábito de “bebericar” do presidente atrapalhava o governo. Dizem que a verdade dói, e essa matéria doeu. Mas o jornalista, com justiça, não conta tudo: reserva mais coisas para o livro que está escrevendo sobre seus anos aqui entre nós. Naturalmente, vou comprar e ler no lançamento.

No primeiro caderno, uma matéria sobre a Juréia.

E com ela meu humor balança. O Parque da Juréia é um lugar maravilhoso, extremamente bonito, onde a Serra do Mar encosta nas ondas do Atlântico, até literalmente, em alguns pontos. As praias são desertas e muito bonitas. A mata atlântica em todo seu esplendor original ocupa todos os espaços, morro acima, morro abaixo, nos vales e planícies.

Correção: ocupava todos os espaços. Palmiteiros, madeireiros e bananeiros devastam parte da área do Parque. E, a auxiliá-los e livrá-los da prisão, índios guaranis.

Ah, os índios têm direito, né?

Pois sim. Esses índios foram aqui introduzidos pela FUNAI, trazidos de não sei onde, tal como foi feito com os pataxós do entorno do Parque Nacional do Monte Pascoal, no sul da Bahia. Instalados na Juréia, os guaranis, tão logo viram as costas dos burocratas governamentais, mudaram-se com armas e bagagens para as cidades mais próximas, no Vale do Ribeira. Nenhum deles quis saber de morar na mata. Mas todos vão até a mata. Derrubam palmeiras juçaras, coletam orquídeas e bromélias, e postam-se à beira dos “asfaltos” vendendo o fruto da pilhagem. Proibido por lei para todos, menos para os índios. Que ganham algum dinheiro com o corte de mais juçaras. É assim: uma palmeira juçara com mais de 4 metros de altura e que demorou dez, doze ou mais anos para chegar àquele ponto, é encontrada por um palmiteiro que, em seguida, simplesmente bota-a abaixo. Seu ponteiro é cortado e dele tirado o tolete de palmito com cerca de 40 centímetros de comprimento. Tanta destruição por meros quarenta centímetros. A destruição não se limita à palmeira em si, fonte de alimento para dezenas de espécies animais, mas se estende ao seu redor, pois, ao cair, ela destrói outras pequenas árvores, arbustos e cipós. Depois de abaterem mais de duzentas palmeiras, em recantos cada vez mais remotos, os palmiteiros pegam a estrada e levam o fruto do crime para fabriquetas clandestinas ou para vendedores de palmito fresco. Em cada viagem, em cada deslocamento do caminhão, um índio guarani está junto, pronto a dizer que o palmito é seu e sobre ele tem direito legal. De fato, tem direito legal.

Bom, a matéria segue por outras coisas, como plantações ilegais de banana sob a sombra das grandes árvores. A subvegetação é cortada e mudas de bananeiras são plantadas. Quando elas ficam adultas, as árvores são derrubadas, dando lugar a um bananal que, em breve, será ponto de início de erosões.

A matéria é boa e rica. No site tem mais fotos, ainda. O jornalista a tudo vê e documenta. As autoridades nada vêem e nada fazem.

E assim prossegue o jornal

Cada domingão um novo jornalão com coisas de um velho e lamentável Brasil.

A cada domingão procuro pelas boas notícias, e até encontro. O diabo é que o peso das más notícias é mais e mais avassalador.

Bom, depois dessa lembrança sobre a Juréia perdi a vontade de falar do resto. Economia, explicando o recente quase-crash, Metrópole, com mais informes sobre o CAN – Caos Aéreo Nacional – e a vergonhosa, para não dizer criminosa, ação ou inação das autoridades, o “mistério” acerca da pilhagem dos cadáveres e bens pessoais das vítimas do 1907 (que vergonha, a que ponto de degradação moral chegamos!), Cultura, com alguns livros ótimos na seção de lançamentos, etc.

Ah, claro, tem também as últimas sobre o caso Renan, outra vergonha nacional, outra amostra da degenerescência de nosso sistema e de nossos “representantes” no parlamento.

E pensar que, mesmo assim, com tudo isso, eu ainda anseio e não tomo meu café de todas as manhãs sem o meu jornal, aos domingos um jornalão.

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