sábado, julho 09, 2011

Manhã de sábado

Mais um dia que amanheceu gelado, literalmente. A Tempra, uma vez mais, coberta por uma capa de gelo, assim como os pastos baixos e gramados. Nos termômetros, zero grau. Vacas e bezerros levantando com preguiça e alongando os músculos lentamente. É o que podemos chamar, para seguir o modismo, de inteligência biológica.

O café quente desce gostoso e reanima, estava quase escrevendo ressuscita, mas os dois verbos não são corretos: hoje, ele anima, simplesmente.

Que me perdoem os certinhos de todos os hemisférios, mas cafeína é um motor fantástico.

Eu sou um cara caffeine powered, assumo, desde criança, com 5 ou 6 anos de idade. Bebia café frio e doce em copo, mais de dois por dia. Nos tempos de militância mais pesada, saía de casa de madrugada, depois de duas ou três horas de sono, levando no estômago um copão de café frio da tarde do dia anterior e um pedaço de pão com bastante manteiga. Era a energia que me mantinha ativo até as duas ou três da tarde. Aos 18 anos fazemos coisas impensáveis aos quarenta, cinquenta...

Por sinal, café doce nem pensar, só quando visito alguém que o faz já adoçado. Gosto do café puro, mudança adquirida perto dos trinta, provocada pela eterna gastrite. Sem açúcar, a bichinha diminuiu e desde então temos convivido mais ou menos bem.

Enquanto preparava a cana para picar e fazer o trato da manhã, a Rosa chamou-me para mostrar os Tucanos. Ou melhor, tucanos, pois eram 4 a comer mamões nos nossos mamoeiros carregados. Figuraças. Comem de tudo: frutas, coquinhos, ovos, filhotes de passarinhos e aves... Os Tucanos, denominados T-27 pela FAB, também povoam nosso ceu e, às vezes, fazem manobras bem em cima de nossas cabeças. Em algumas, o barulho é ensurdecedor e dispara a injeção de litros de adrenalina no nosso sistema. Imagino esses bichinhos e outros parentes atacando de verdade, disparando mísseis terra-ar, bombas e tiros de metralhadoras .50. Por pior que consigamos imaginar ainda estaremos a anos-luz da sensação real.

Hoje foi difícil chegar à NewBooks, onde o Leandro até agora não deu as caras. É o frio, ainda bem que a Michele e a Monica não deixam a peteca cair e, mesmo feriado, aqui estamos. Já tomei um expresso e comi um pão-de-queijo bem quente.

Chega um rapaz, mulato alto, forte pra burro, bem falante e começa a conversar com a Monica. A horas tantas, comentando o feriado, dispara que é referente a quando “São Paulo quis se separar do resto do Brasil”.

O mito persiste, devidamente manipulado e perpetuado Brasil afora por interesses paroquiais. Em outros tempos teria feito um discurso e colocado a verdade na cabeça dele. Ou assim pensaria. Hoje, ouço, penso e volto a escrever e liberar comentários no OCE. Desencanei.

A gloriosa prefeitura santarritense – gloriosa, carésima (hummmmmmmm...) e inútil – dividiu a cidade em duas partes. Para chegar aqui tive de dar uma volta enorme, metade dela despejando palavrões cada vez mais cabeludos à medida que novas ruas apareciam bloqueadas, para desespero da Rosa. Paciência.

No OCE, um sujeito escreveu um comentário imenso, mais de 50 linhas, bem mais. Nas quatro primeiras já tinha me ofendido sei lá quantas vezes, inclusive falando dessa bela faccia que ostento. Na quinta ou sexta ofendeu até meu pai, grande pequena figura, a quem devo, em boa parte, ser são-paulino, algo que está no meu DNA. Aí não deu, nem li o restante, deletei tudo. Minha vingança foi dizer ao imbecil que ele escreveu um monte e eu li um tiquinho só. Trabalhou à toa, deu-me chance de dar uma resposta do tipo que gosto e ainda rendeu assunto para encher meia dúzia de linhas com linguiça.

E segue o sábado e outro expresso está a caminho.

terça-feira, junho 28, 2011

Gelo matinal

Os dois graus das duas e meia da madrugada, quando fui dar uma olhada nas bezerras mais novas, evoluíram para menos um grau às seis da manhã, que persistiu até poucos minutos atrás.

Agora, quase sete e meia, já está quente: zero grau.

A Tempra amanheceu coberta por uma crosta de gelo.

Parte dos pastos e o gramado estavam igualmente brancos.

A bezerrinha caçula, nascida na madrugada de sábado, filha da Alvorada e batizada de Madrugada (é, não sou muito criativo nos batismos), resistiu bem: acordou e veio em busca da mamadeira.

Essas temperaturas baixas não são ruins para as vacas e os bezerros, embora já fora de sua zona de conforto.

Dormem bem, permanecem confortáveis, mas consomem mais energia para manter o "aquecimento central" funcionando, daí o fato de estarem fora da zona de conforto.

A partir de menos cinco, entretanto, a situação pode mudar.

E vacas doentes ou subnutridas já sofrem e até morrem com zero grau.

Comida é conforto. E saúde, etc, etc.

Eu já estou confortável, agora: meia caneca de café, seguida por uma caneca de café com leite e um belo pedaço de pão italiano cheio de manteiga.

"Dez quilos" de colesterol... Vou ter que trabalhar um bocadinho pra queimá-lo. A cafeína deve ajudar, eu acho. Sou movido a cafeína desde o berço.

:o)

Antigamente era pior. Ao invés de começar o trabalho às 05:45 ou alguns minutos mais, começava-se às 03:30 ou 04:00.

Coisa de louco, mas ainda há muitos nesse esquema.

Por mim, começaria pouco antes das sete, no inverno, mas há coisas imutáveis na cultura das pessoas.

Pra começar pouco antes das seis já foi uma luta.

Cede-se um pouco aqui e um pouco de lá e pronto.

É o que se chama de negociação e consultores cobram caro à bessa das grandes empresas para ensinar aos executivos que tudo que se precisa, na verdade, é bom senso e respeito às vontades alheias.

Se eu escrever "à beça" o word não coloca o traço vermelho.

O word está errado, valem as duas formas.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Tragédia em Itaipava

Cavalos são uma das mais belas e fantásticas criaturas que a Natureza criou.

Poucos seres humanos dão-se conta de sua importância para sermos o que somos hoje.

Ao domesticarmos o cavalo – domesticar: verbo tenebroso durante séculos, que hoje começa a ter seu significado transformado – ou, também posso dizer, a partir do momento em que aprendemos a conviver com essa criatura, nossa velocidade de deslocamento foi multiplicada.

O comércio beneficiou-se, a troca de ideias, o abastecimento de comida, tanto pela caça como pela troca e a produção, o ir e vir de pessoas, muitas outras atividades foram intensificadas graças ao emprego dos cavalos.

Sim, sem dúvida também as atividades bélicas.

Conhecendo o ser humano, o mais provável é que o primeiro e mais importante uso do cavalo foi nas guerras, pequenas, localizadas, entre tribos, mas sempre guerras.

A humanidade, tal como a conhecemos hoje, tem uma enorme dívida com os cavalos, que não é paga, nunca foi, de maneira digna, outro traço infeliz muito comum ao Homo sapiens.

A notícia trazida pela Folha chocou-me nesse final de madrugada: a morte de oito cavalos num haras de Itaipava, seguidas pelo sacrifício de outros oito.

Mais trágica ainda se torna a notícia quando ela relata que o tratador dos animais, chamado Miguel, não quis fugir da fúria das águas e ficou com seus animais. Não de sua propriedade material, mas de sua propriedade sentimental, infinitamente mais nobre e importante.

Lamento pelo Miguel, lamento pelos cavalos, independentemente de serem bonitos e valiosos, o que, em se tratando de vida, é irrelevante.

Lamento, profunda e sinceramente, pelas centenas de pessoas que morreram nessa tragédia anunciada, nessa tragédia reprisada, nessa tragédia que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e capacidade de observação sabia que iria acontecer e, pior, muito pior, sabe que irá acontecer novamente.

Não é a primeira vez que escrevo essa obviedade e não será a última, lamentavelmente.

O ser humano, com sua arrogância e sua ignorância, teima em desafiar a natureza e a resposta sempre se dá em forma de tragédias.

Meu respeito, minha admiração, minha dor pelo Miguel, a quem dedico esse texto.


(Abaixo, a transcrição da notícia da Folha de S.Paulo)

São Paulo, sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

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Cavalos de até R$ 500 mil são levados na enxurrada

VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO
ENVIADO ESPECIAL A PETRÓPOLIS

Entre os mortos do vale do Cuiabá, em Itaipava, distrito de Petrópolis, estão dezenas de cavalos de corrida que valiam até R$ 500 mil.
No haras Vale da Boa Esperança, um centro de treinamento do Jockey Clube Brasileiro, o cocheiro Miguel foi tragado pela tromba d'água porque não quis abandonar os animais.
Foi levado junto com oito cavalos de raça, que também morreram afogados na enchente. Ontem, ainda se viam alguns deles atolados na lama, mortos, só a cabeça de fora. O corpo do tratador ainda não foi encontrado.
Outros oito cavalos do mesmo haras tiveram lesões graves, como fraturas expostas, e foram sacrificados ontem com injeções letais.
Uma equipe de dez veterinários do Jockey veio ontem do Rio de helicóptero para matá-los e aplicar medicação nos 120 bichos sobreviventes. Cada um deles custa, em média, R$ 50 mil.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Felicidade em 2011

De novo, último dia do ano.

Não é que eu tenha deixado essa mensagem para a última hora, é que simplesmente calhou de ser assim.

Na roça, o tempo é escasso, insuficiente para fazermos tudo que precisamos.

No campo, aquela coisa idílica com que a gente sonha quando está na cidade, é o contrário: o tempo abunda e precisamos caçar o que fazer para ocupá-lo. Gosto da roça, mas confesso que de vez em quando, bem de vez em quando, ao sobrar um raro tempinho, dá uma certa vontade de mudar da roça e morar no campo. Felizmente, é vontade passageira.

E assim, no ritmo da roça, mais um ano passou e 2011 bate à nossa porta. Por sinal, recém-falei com um amigo que está em 2011, pelo simples fato de morar no Japão, onde o novo ano já é quase velho. Isso mesmo, nos dias de hoje o ano só é novo de verdade no dia 1º de janeiro, pois no dia 2 já é ano em curso, ano velho.

Ainda há pouco, enquanto limpava a cana para ser picada e o Dito e o Zé Divino descansavam (é ótimo descansar vendo alguém trabalhando, principalmente se esse alguém tem o cargo de patrão; no meu caso, só o cargo e os encargos, pois as benesses, supostas, ainda desconheço), conversávamos sobre a data de hoje e o Dito, dois anos mais velho que eu, bateu o martelo: Ah, quando eu era moleque o tempo demorava muito pra passar, era uma espera danada até chegar o Natal e a gente poder tomar guaraná.

Bingo!

Eu mesmo venho dizendo a mesma coisa.

Será que o tempo hoje passa mais depressa porque consumimos de tudo e tudo que queremos, ao passo que outrora o consumo era básico e qualquer coisa que fosse especial era aguardada com tanta ansiedade que o tempo demorava a passar?

Não sei, mas há até uma teoria científica (ou pseudo) que diz que o tempo realmente está passando mais depressa.

Pouco importa se o tempo está de fato acelerado, passando mais depressa, isso não muda nossos sentimentos e nossas esperanças.

O ano começará com novos governantes e novos parlamentares. Espero, sinceramente, que todos se esforcem e deem o melhor de seus esforços e capacidade para construir um país melhor. Em quem cada um votou ou deixou de votar não é relevante nesse momento, tudo que importa é trabalharmos por um país melhor para todos nós.

Então, é isso novamente:

Feliz Ano Novo. Feliz 2011.

Que seja um ano repleto de saúde e paz.

Ok, se sobrar um espaço, prosperidade também.

E felicidade acima de tudo.


quarta-feira, julho 28, 2010

O Sol e a Lua e o frio do final da madrugada

Essas últimas manhãs ou, mais precisamente, finais de madrugada, têm sido preciosos. O frio é quase forte, gostoso sem ser cortante, exigindo camiseta, camisa e blusa. Antes das nove horas, só restou a camiseta. As colinas a oriente são delineadas pelo brilho do Sol, ainda invisível, mas a ocidente a Lua cheia brilha soberana, intensa, prateada, bonita de ver, e por mais que a gente veja não dá cansaço.

Quando o Sol finalmente aparece, ela, a rainha dessas noites de claridade intensa e sombras fortes, continua brilhante. Enquanto vou trabalhando sempre consigo alguns segundos para olhar ao redor. As galinhas estão descendo das árvores onde passaram a noite, algumas mais ativas e outras, definitivamente, boas vidas, sossegadas, para não dizer preguiçosas. No alto do barbatimão as angolas ficam batendo papo. Impossível sequer imaginar o que tanto conversam. As vacas que entram mais tarde para a ordenha ficam deitadas. A cada respirada, o ar exalado forma uma nuvem de vapor. O touro dorme profundamente, a cabeça aninhada de encontro às pernas dobradas junto ao peito. Lobos e tigres-dente-de-sabre são lembranças perdidas somente no código genético. Claro, tem toda a passarinhada começando a se assanhar. Melhor dizer toda a bicharada de pena, pois além dos muitos passarinhos – como os canarinhos-da-terra que vêm num grande bando comer a quirera que as galinhas deixam – tem as garças-brancas-pequenas, a família de seriemas – cada vez mais folgadas, íntimas e atrevidas, o suficiente para pegarem ovos num ninho no meio de um piquete a poucos metros de onde eu colocava o trato da tarde nos cochos – e um grande bando de barulhentas curicacas, que passam horas no meio dos pastos.

Há momentos durante o dia que falar ao telefone é tarefa ingrata, pois é comum vários galos cantarem ao mesmo tempo, fazendo uma algazarra ainda maior com os “to fraco tô fraco tô fraco” das angolas. Nas pausas, o canto dos passarinhos toma conta.

Viver na cidade é bom, inegavelmente, por tudo (de bom) que a cidade oferece. Mas nunca me enganei, nunca tive a menor dúvida: viver no campo é incomparavelmente melhor.

terça-feira, julho 06, 2010

Enquanto isso, na roça...

Um de meus vizinhos comprou sua propriedade há muitos anos. Era, então, terra de cana, meio devastada. A lavoura encostava nas margens dos dois pequenos córregos que fazem parte das divisas da propriedade. Vegetação ciliar, mata ou não, era quase um mito.

Cuidaram da terra e plantaram laranja. Também plantaram árvores em muitos lugares. E as laranjeiras ficaram longe, para os padrões da época, das margens, coisa aí de pouco mais de 30 metros.

Ontem cedo, pouco antes de eu chegar para pegar milho, o pessoal da Polícia Ambiental chegou e aplicou-lhes uma multa de R$ 1.500,00. Motivo: três pés de laranja estão dentro do limite legal de 30 metros que devem ser ocupados por matas ciliares.

É o caso de rir para não fazer besteira.

O novo Código Florestal está em vias de ser aprovado. Apesar de alguns exageros, espero que isso aconteça, pois, caso contrário, estarei na ilegalidade. Eu e quase todo produtor rural desse país. De acordo com os desejos dos povos das cidades, que gostam de comer e beber à tripa forra sem nada saber sobre seus comes & bebes, toda propriedade em diversas regiões brasileiras deve manter um mínimo de 20% de sua área como reserva. Ora, isso é aplicável, mesmo assim a duras penas, em áreas de colonização nova. Onde a agricultura é praticada a cem, duzentos, trezentos anos, pretender tal coisa é absoluta sandice.

Apesar da gritaria dos comedores e bebedores urbanos, o deputado Aldo Rebelo (nunca pensei que viesse a escrever isso) teve a visão e o bom senso de deixar fora desse texto urbanoide as propriedades onde tal situação já é antiga.

Se assim não fosse, eu teria que pegar 20% de minha área, já por si minúscula, e deixar o mato tomar conta. Ou, pior ainda, comprar mudas florestais e plantá-las, numa atividade cuja renda não permite o pagamento de um mísero plano de saúde.

Os povos urbanos nada conhecem da realidade que faz suas vidas confortáveis e suas barrigas imensas, mas adoram, desculpem a expressão, cagar regras sobre ela.

E enquanto isso, no maravilhoso mundo da roça...

Dias atrás, uma bela, aliás, belíssima fazenda da nossa região foi vendida. Cada um de seus quarenta alqueires (área de respeito para o estado de São Paulo) custou a seu novo e felicíssimo proprietário a bagatela de setenta mil reais. Preço baixo, sem dúvida, pelo que é contém a fazenda.

O total da operação ficou em 2,8 milhões de reais, pagos à vista.

E daí? – deve estar se perguntando o leitor impaciente com essa lenga-lenga.

Daí, estimado e pobre leitor, que como eu não deve ter condições de bancar tal compra, é que o comprador da fazenda em questão é figura de notória importância no mundo da política de Pindorama, grande e atrasado país localizado em sua maior parte, ao sul do Equador. Oriundo do que em Pindorama se chama classe média, esse personagem teve o dom fantástico de, ao mesmo tempo, crescer na política e amealhar patrimônio grande o bastante para dar-se a tal luxo, o de comprar uma fazenda para transformá-la em haras. Que beleza. Nessa hora, seu heroi e guia político e intelectual, o velho Leon, deve estar maluco de raiva, se revirando em sua tumba, ao ver tão promissor discípulo tornar-se tão... tão... tão competente, vá.

Em tempo: o sobrenome desse mítico Leon é Trotsky.

sábado, fevereiro 27, 2010

Cenas do Macaúbas - I

Algumas cenas do Sítio das Macaúbas.



Na extrema direita, Minuto, o touro Jersey. Ao seu lado, algumas vacas secas, ou seja, que não estão produzindo leite e já estão na reta final de gestação. A vaca malhada, a Bordada, é uma exceção nesse grupo, onde está por facilidade de manejo nosso.



A mesma situação e momento em ângulo diferente. O Minuto, agora, é o que está atrás.
Ao fundo a casa do Zé Divino, o retireiro. Na esquerda a ponta do galpão e o buracão onde falta a porta e por onde o vendaval entrou...



Durante o dia, entre as duas ordenhas, as vacas vão para um pasto de braquiária, na parte baixa do Sítio.



Algumas vacas estão em um dos piquetes de capim tanzânia, recém-aberto.
Toda tarde um novo piquete é aberto e que foi usado é adubado com ureia.




Essa é uma vista geral do Sítio das Macaubas. O traço branco, pessimamente desenhado, mostra as divisas. O ângulo em que a foto foi tirada distorce a perspectiva. No lado esquerdo da foto pode-se perceber a estrada, que faz uma divisa de 600 metros.

O estrago do vendaval do Carnaval

Difícil não falar isso: o tempo tem andado muito estranho, às vezes assustador.
Para nós, o susto tem se dado na forma de tempestades acompanhadas por ventos, nuaa frequência acima do que seria normal.




Uma das paisagens mais comuns do Macaúbas nos últimos tempos: pesadas nuvens de chuva a oeste e noroeste, como essa da foto. Essas chuvas, para nós, são as piores, pois sempre vêm acompanhadas por ventos fortes ou fortíssimos, verdadeiros vendavais, como o que tivemos na noite da Segunda-feira de Carnaval. O resultado dele vocês podem ver abaixo.



Essa é a visão traseira do galpão que sequer está em uso, ainda.
O vento foi tão forte que simplesmente arrancou vigas que sustentavam e prendiam as telhas.
Uma delas foi parar a cerca de 40 metros, no meio do canavial.



Essa foi a porta de entrada do vento: um grande buraco, com três metros de largura e pouco mais que isso de altura, onde deveria haver uma porta... Algum dia haverá.
O vento entrou e, encurralado, subiu, arrancando vigas e telhas. Essa é a ponta do galpão, o paiol, projetado para guardar milho, farelo de soja e adubos, além de feno que usamos na alimentação dos bezerros.

sexta-feira, maio 01, 2009

Coisas da doce vida campestre





O dia no sítio ontem foi típico: quase passei mais tempo ao volante da Saveirinho do que fazendo qualquer outra coisa. Fui a Porto e voltei com 500 kg de farelos e adubos, além de um feixe de balancins para a cerca da divisa. Um feixe com respeitáveis 30 kg, diga-se. Dizem que a pickupinha suporta 600 kg, é o que dizem. Mas a minha é meio velha, os pneus traseiros, descobri anteontem, além de velhinhos não são os indicados para ela, e mais isso e mais aquilo... Parei na estrada, peguei um saco de adubo na carroceria e coloquei no chão em frente ao banco do passageiro. Peguei outro saco, este de sal mineral, com apenas 30 kg, e coloquei no banco do passageiro. Aliviei a caçamba em 80 kg e toquei pro sítio. Coisas da vida e os pneus agüentaram direitinho.

Vê uma coisa, faz outra, isso e aquilo, era hora de ir até Santa Rita do Passa Quatro.

A vida no sítio é intimamente ligada à cidade, especialmente quando você tem que fazer alguma “obrinha” na propriedade. Um ranchinho sem custo, de repente já custou 800 reais. Coisas da vida e a conta bancária ainda agüenta. Ainda...

Na volta da cidade, com a caçamba carregada de fardos de feno – finalmente uma boa compra, pois o fardo ainda está a caros 6,50, mas esses fardos estão pesados de verdade, com 17 kg cada um, na média, e não demora muito estarão a 8 reais com apenas 10, 11 ou, com sorte, 12 kg – parei num vizinho que está colhendo milho. Não tenho onde estocar, infelizmente, mas assim mesmo comprei 600 kg. O preço, como diria o ministro do imexível, é imperdível. Falando em imexível: ao digitar a palavra, o corretor ortográfico simplesmente aceitou-a. Antigamente rejeitava, mas por erro dele, não do ministro, que também acertou por mero acaso. Outra curiosidade: o Houaiss data sua aparição como circa 1990. O ministro, vítima sofrida de todos os humoristas dessa república, fez história. Quem diria.



De volta ao milho: o jeito vai ser estocar tudo nos tambores que ainda estão vazios e colocar a trituradora em ação para fazer o fubá que será misturado à ração das vacas e à outra para os bezerros. Essa ração, basicamente, é composta hoje por milho moído, farelo de soja com 46% de proteína bruta (PB), farelo de algodão com 38% de PB e sal mineral. Essa composição, hoje, é a mais econômica ou, melhor dizendo, a menos cara. Atualmente formulo uma ração com 18% de PB, mas a partir de agora vou fazê-la com 20%.

Cerca de 1 km antes da porteira, vi o vizinho e dono do sítio pelo qual passávamos parar o carro no acostamento. Parei, também, para ver se era algum problema e porque queria perguntar se ele tinha recebido umas vacas boas – o negócio dele é negociar gado. Estava tudo bem e ele parara para ver a novilha perto da cerca parir. De fato, a bichinha – uma holandesa bonitinha, não muito grande – estava ainda com a bolsa e parte da placenta pra fora, lambendo a cria no chão.

- Olha aí, aproveita e compra ela, te faço baratinho. Só que ela tem só 3 peitos (ou seja, perdeu um dos quartos do úbere), mas mesmo assim vai ser muito boa de leite.
- Hummmmmmmmmmm... Sei não, pegar mais uma vaca com 3 peitos... Já tenho duas no rebanho.
- Isso não é problema, tá cheio de vaca com 3 que dá muito mais leite que outras com 4.
- É, eu sei disso.
- Tem mais: se for uma fêmea que nasceu, é só você criar direitinho até a desmama e ela já te paga metade da vaca, quase.
(O problema é o tamanho desse “quase”, mas isso é detalhe...)

Varamos a cerca de farpado para ver a cria, ainda sendo lambida, mas já bem espertinha, cabeça levantada olhando para esse mundo cheio de novidades, a começar pelos dois bípedes engraçados que estavam chegando perto.

Olha daqui, olha dali, a vaca afastou-se um pouquinho e deu para levantar uma das pernas: uma fêmea.

- Taí, olha que beleza de bezerra!
- É, bonitinha mesmo, e parece esperta.

Foi dizer isso e a bichinha levantou-se, bem disposta, apesar das pernas ainda bambas.

- Bom, vou dar uma pensada, amanhã a gente se fala.
- Olha, demora muito não, porque esse bichinho tem comprador de monte.

No sítio, ainda deu tempo de ajudar com uma coisa e outra na ordenha da tarde, ajudar a picar cana e de repente já estava escuro. Entrando no banheiro, meio moído de cansaço, ansiando pela água quente batendo nas pernas e nas costas, escuto o berreiro do Minuto, o touro Jersey, ficar mais forte. Estranho...

O jeito foi botar calça e botina e ver o que acontecia. E assim começou uma noite daquelas...

O enorme touro branco do vizinho de baixo havia varado a cerca e invadido nossos pastos, território exclusivo do Minuto, assim como as senhoras que por ali pastavam, uma das quais entrando em cio. O que mais impressionou-me é que o bicho já deve estar com mais de 800 kg e continua crescendo, e assim mesmo pulou uma cerca – não muito alta, é verdade – partindo de uma base mais baixa, pois o terreno tem um declive razoável. Foi a primeira vez que isso aconteceu em muitos anos.

E tome canseira e trabalheira. No escuro, usando a lanterna de forma intermitente, andando no meio de pasto alto, entrando em áreas de macegas, a gente nem pensa em cobras, simplesmente avança, mas o meu medo era com os muitos buracos, novos e antigos, de tatus. Um pisão de um de nós ou de uma das vacas e pronto! Fratura. No nosso caso basta ir pro hospital e ficar uns tempos de molho. No caso de uma vaca, tudo que resta é o sacrifício. Para meu medo, a Maga, a Graciosa e a Florinda estavam acompanhando o bonitão invasor. As três prenhes, sendo que a Maga e a Graciosa já estão “chegadinhas” e podem parir a qualquer momento.

Depois de peripécias mil, não conseguimos isolar o touro branco na parte de cima do sítio, mas conseguimos fazer isso com o Minuto. As vacas ficaram ora assustadas, ora curiosas, mas de uma coisa já tinha certeza: o leite hoje cairia bem. Dito e feito: 20% a menos na produção.

Finalmente, consegui ir tomar meu banho. Não sentia cansaço, assim como não senti medo ao tentar conduzir o touro branco para longe no meio do pasto, na escuridão. Puro efeito da adrenalina, circulando “a mil” pelo meu sangue.
A mesma adrenalina que ajudou nossos ancestrais a sobreviver no meio de tigres-dente-de-sabre, mamutes, leões, crocodilos, lobos e outras ameaças terríveis. Sem adrenalina estaríamos extintos.

E assim se foi mais um doce e agradável dia no campo.

Coisas da vida, a doce vida campestre, mas o corpo aguenta e pede mais, até porque hoje é um novo dia.




Minuto, Gracinha, garças-brancas-pequenas e seriemas

quinta-feira, abril 23, 2009

Os muitos nomes da Lua num final de madrugada


“... o por-do-sol precisa da minha supervisão...”, diz meu amigo Ary, num e-mail em que comenta minha mudança para o sítio e sua intenção em fazer o mesmo brevemente. Pois bem, contrapor daqui com a máxima seriedade: não é só o por-do-sol, Ary, o amanhecer também precisa da nossa supervisão.

Ontem, naquela hora imprecisa em que a madrugada findou e a manhã não começou, olhei para o céu e fiquei boquiaberto: a Lua, despedindo-se em seu quarto minguante, fininha como um alfange muito gasto e com o brilho da prata com que sonhavam os conquistadores europeus dessas Américas; bem pertinho, Venus, brilhante e prata pura, ambas destacadas contra o céu cambiante do escuro para o azul; entre elas, um jato cruzava o céu no rumo da grande metrópole a sudeste, deixando atrás um curto rastro também prateado como ele mesmo.

Um momento mágico.

Artemis e Afrodite, Diana e Venus, Jaci e a estrela matutina, entidades celestes que encantam os homens desde tempos imemoriais, fazendo uma trilha para a passagem da criação dos descendentes dos mesmos homens que as veneravam. A nascente manhã fria estava tomada pelos cantos dos pássaros, muitos pássaros que habitam esse sítio e seus arredores, ao gosto de Artemis, protetora e amante dos animais.

O jato se foi, levando pessoas desconhecidas rumo a seus destinos na grande cidade, alheias à Lua em seus muitos nomes e símbolos. Talvez alguém lá no alto, dentro do aparelho voador, estivesse olhando para baixo e pensando, como eu tantas vezes fiz, se alguém lá embaixo parava o que estava fazendo e olhava para o avião.

Sim, olhava para a obra-prima tecnológica, mas era só isso.

O pensamento voara para longe, muito longe, outras eras, onde Apolo é somente mais um deus do Olimpo, jamais uma nave espacial.

É isso, Ary, tudo precisa da nossa supervisão atenta, pois há quem acredite que tudo só existe quando sob nosso olhar.


terça-feira, abril 21, 2009

Feriadão no sítio



Dia de Tiradentes, numa terça-feira, mas nem parece. Ontem, segundona de feriadão, o dia foi de uma normalidade absoluta, o que pode ser traduzido por “um dia de muito trabalho”, normalíssimo. Saí atrás de peças para a picadeira de cana, inclusive um eixo absurdamente gasto pelo uso intensivo e uma manutenção que pode ser descrita como pouco cuidadosa.


Mexer com essas coisas para mim é novidade, tal como ir a uma tornearia.

Conheço muito sobre tornos: já gravei muitos deles funcionando, controlados por cérebros eletrônicos (desculpem, ainda sou do tempo em que se chamava computador de cérebro eletrônico) e sei que são usados para um monte de coisas importantes, sem as quais nossa vida seria muito pouco confortável.

E, claro, bem informado que sou, sei de tudo o mais importante: ser torneiro-mecânico pode dar acesso à presidência dessa república.


Ou seja, nada sei sobre tornos.


O Toninho, de uma revenda de tudo para agricultura, disse-me que não tinha aquele eixo em estoque, mas que era só levar na oficina que o pessoal “enchia” e ele ficaria perfeito. Carreguei minha ignorância para a oficina e lá fiquei, olhando e admirando o trabalho do torno e do torneiro. Não há cérebro eletrônico na máquina, só o cérebro do operador, controlando suas mãos e seus olhos. Primeiro ele encheu o eixo com metal derretido pela solda elétrica. Depois colocou-o no torno e foi acertando, pouco a pouco, o enchimento feito pela solda. Em menos de meia hora lá estava meu eixo, novo em folha, pronto para trabalhar na picagem de umas 80 toneladas de cana, no mínimo, no decorrer dessa seca que se avizinha.


Na roça não tem jeito: você precisa mexer com mecânica, com torno, com eletricidade, com encamentos, com limpeza de minas e de caixas-d’água...

Tendo um pouco de sorte você consegue mexer até com vacas e plantas.


Minha Saveirinho 95 álcool anda esperta, pra cima e pra baixo. Toda vez que vou a Porto (Porto Ferreira, para os não-iniciados) volto com 300, 400 e até 500 kg de carga na caçamba, sempre farelos para ração. Com chuva, tudo “envelopado” por uma lona plástica, cordas por todo lado para o vento não levantar e a água não entrar.



Pela manhã, ao sair para dar uma forcinha pro Zé Divino, blusa, camisa e camiseta são obrigatórias. O frio já chegou, mas o sol esquenta tudo e o jeito é tirar a blusa e depois a camisa, deixando a camiseta já suada. Dias quentes, noites frias, gosto disso, as vacas também. O Zé já nasceu em lugar parecido, Andradas, em Minas Gerais. faltam algumas montanhas, mas temos nossos morros.


Apesar da trabalheira, dá para ver muita coisa.

As seriemas cresceram seus filhos e já fica difícil distinguir quem é quem. Andam os quatro juntos, o tempo todo. No mundo das seriemas como no mundo dos homens, os filhotes adotaram a moda “canguru” e só deixam o lar paterno já bem crescidos, muito crescidos. Garotada esperta, essa.


A proximidade do final da tarde traz os jogos de luz e sombras. Um pouco a gente tem que parar e observar. Tenho sorte, faço isto desde sempre.


Basta olhar para encontrarmos a beleza.


Ah, é verdade, hoje é feriado, mas eu já falei isso, né?

Nem parece, exceto pelo fato de ir filar a boia na minha sogra.

No mais, a vida segue seu ritmo.



sexta-feira, abril 10, 2009

Sob a beleza serena do luar

Passei pela porteira e parei a pickup. Desliguei o motor, apaguei as luzes e desci para fechar a porteira. Não voltei para o carro, fiquei parado olhando a Lua. Cheia, imensa, dourada. É a terceira noite da cheia plena e o espetáculo desse começo de noite foi de emocionar. Assim como a visão dela nos dois últimos começos de dia, prateada, fechando a madrugada e revelando a neblina fraca que cobre as grotas e algumas encostas. Os pastos adquirem a mesma tonalidade prateada, o frio já se faz sentir, exige blusa, mas ainda não é intenso. As vacas sentem-se confortáveis, principalmente as Jersey, com sua origem nas ilhas do Canal, frias e úmidas. Os bezerros dormem profundamente, alguns meio escondidos pela grama abundante do bezerreiro.

Nesses finais de madrugada, nesses começos de noite, fico em paz, sinto uma tranquilidade que há muito não sentia, talvez nunca tenha sentido. Aqui é meu lugar, aqui estou fazendo o que sonhei fazer por toda a vida. Demorou, demorou muito, mas essa paz comigo mesmo compensa tudo.

Não gosto de luzes fora de casa, sou um bicho do mato que gosta da claridade difusa das estrelas e do luar, e essas noites claras de outono são quase tão perfeitas quanto as de inverno. Pensando bem, são ainda melhores porque há umidade por toda parte, mesmo depois de alguns dias sem chuva. Poucos insetos ainda incomodam e sentar na varanda para simplesmente olhar a paisagem banhada pelo luar é bom demais. Temos feito isto, mas ainda pouco. Sem uísque, sem cerveja, sem charuto, sem música, apenas luar e paisagem. Trilha sonora não falta, desde um bezerro ranheta até os grilos e algumas aves noturnas. Para mim, assim é o mundo, assim deveria ser sempre.

Há milhares de anos, em noites como essa, saímos da proteção da caverna e olhamos para um céu igual a esse. Nada sabíamos sobre os astros, sobre essas luzes, mas sentimos o seu mistério e seu esplendor. Abstraio as explicações cientificas, elimino-as de meus pensamentos e percebo que estou muito próximo de ancestrais remotos. Evoluímos, associamos astros a deuses e agora explicamos tudo em detalhes tão minuciosos quanto inatingíveis. Nessa hora penso que ciência e religião são a mesma coisa, apenas o homem tentando explicar tudo que vê, tudo que sente.

Bobagem. Melhor sentir, apenas.

domingo, fevereiro 15, 2009

Granja Viana, adeus



Chove.
Chove tanto e há tantos dias que o solo do gramado virou uma esponja: apertado pelo pé, esguicha água por toda parte e barro em algumas. Tanto isso é verdadeiro que fez com que meu filho desmarcasse sua festa de aniversário e despedida da Granja Viana.

Despedida, sim. Essa manhã chuvosa de domingo é a última que vivo aqui, nessa casa que há 15 anos é o meu lar.

Nesse período, como não poderia deixar de ser, dramas, tristeza, alegrias e conquistas aconteceram. Choramos e rimos, nada diferente do que acontece ao longo de 15 anos em qualquer lar.

A Granja mudou.


Nós também mudamos
, claro, mas a Granja mudou, foi mudada, muito mais que nós.
Há menos árvores e muito mais casas.
Os carros multiplicaram-se em espantosa progressão geométrica.
As ruas simplesmente não cresceram, sequer na largura, exceção feita a um ou outro trecho pequeno.

Os saguis não vêm mais até aqui, em busca de insetos e frutinhos nas árvores, além das fatias de mamão e das bananas que o Marcelo e o Renato, nossos vizinhos, e nós mesmos, colocávamos para eles nas árvores próximas.


A própria chegada deles pegou-nos de surpresa há alguns anos e foi o sinal, como disse para os rapazes e para a Rosa, que a Granja estava acabando.


Eles estavam aqui porque pedaços do seu velho habitat estavam destruídos.

Agora a destruição encostou aqui em casa.
Não há o que fazer, é tudo dentro da lei.
Não há o que fazer, é tudo fruto do progresso.

Impotente, deixo a Granja com alegria.

Quem vem para cá irá gostar.
Sim, irá gostar, pois essa Granja de hoje ainda é muito melhor e mais gostosa que qualquer bairro paulistano. Principalmente os bairros verticais, onde as pessoas vivem embaixo ou em cima e ao lado umas das outras, separadas por centímetros de concreto, alguns quadros e carpetes.

Para mim, contudo, é tempo de mudar.
Soa como uma derrota, não deixa de ser.

Sempre soube que a Granja era passageira e sempre soube que as árvores e os animais, como os mutuns e os serelepes, tinham pouco tempo pela frente.

Esperava estar longe quando essas mudanças começassem, mas fui atropelado por elas.

Vou para o sítio, para onde sempre quis ir, para onde sempre soube que um dia ainda iria. Felizmente, vou a tempo de trabalhar, de começar de verdade, para valer, um novo trabalho, um novo ciclo em minha vida.

Lamento pela Granja e por seus moradores não humanos. Para os humanos, para a maior parte deles, ela está cada vez melhor. A estrutura de serviços é fantástica, cobre tudo, do pequeno, acolhedor e providencial Armazém do Nicolau ao grande Wal-Mart, passando por livrarias, restaurantes excelentes, o melhor deles ainda sendo o Ney e seu Pátio Viana, que o que não tem chic tem gostoso, pizzarias, lojas de informática, mercados como o Pão de Açúcar e o Marché, refinados e tentadores, até o Habib’s e o McDonalds.

A Granja é uma festa e em nada mais precisa de São Paulo, sequer escolas, até a universidade. O que é ótimo, porque a Raposo Tavares continua o gargalo, pior a cada nova temporada escolar. É o progresso.

É, não consegui esconder um laivo de tristeza nessas
palavras, mas, podem acreditar, é por tudo que a Granja foi e está deixando de ser. Um lugar de matas e bichos com um monte de casas espalhadas.

Desejo que as novas pessoas que farão dessa casa um
novo lar sejam felizes.
Espero que cuidem dos três ipês juntinhos, fazendo um só, todos amarelos, florescendo um depois do outro e colorindo a frente da casa por muitas semanas do meio do inverno.
E também do pé de acerola, que tanto suco já nos rendeu.

Que essa chuva seja somente a água que está lavando tudo e criando um novo espaço para os novos moradores.
É tempo de mudanças, para todos nós.
Que elas nos tragam mais felicidade e alegrias.

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domingo, fevereiro 08, 2009

Fevereiro, mês de estrada destruída


É tanta coisa que não sei por onde começar.

Vou começar pelo fato de estarmos em mais um fevereiro, evento que se repete todo ano, como bem sabe qualquer pessoa com mais de três ou quatro anos de idade.

Eu disse qualquer pessoa?

Triste engano, políticos são pessoas, mas ignoram esse fato básico que até as folhinhas registram.

Há quatro anos, a passagem da nossa estrada vicinal que liga Santa Rita do Passa Quatro à Santa Cruz da Estrela, sobre o Córrego da Estrela, foi destruída por uma chuva fortíssima. Para quem quiser ver o que aconteceu e o que escrevi, tem um post a respeito: “Carnaval no campo e na roça I”. Foi postado em 9 de fevereiro de 2005 e tem duas sequências.

No ano seguinte, em fevereiro, foi a vez do córrego do Zé da Silva. O bueirão entupiu, como é obvio que aconteça todo ano, a água acumulou-se na baixada, transformando brejo e um pedaço de pasto em enorme lagoa, até que, como sói acontecer desde que o mundo é mundo, a pressão da água venceu a força do aterro sobre o qual passa a estrada e... Lá se foi a estrada. A pouco mais de dois mil metros do desastre anterior.

Depois disso tivemos dois fevereiros sem desastres, não por méritos “prefeiturísticos”., mas por mera sorte. Aqui pertinho da porteira, a uns mil e poucos metros, a água do Rio Clarinho cobriu a estrada, mas o aterro, sabe-se lá por que, resistiu e não ruiu.

Neste fevereiro o desastre voltou, dessa vez no Córrego do Padre, a meio caminho entre este Sítio das Macaúbas e a cidade de Santa Rita do Passa Quatro. A água acumulou, forçou e venceu o aterro. Criou um buraco com quase 14 metros de profundidade.

A força foi tão tremenda que levou de cambulhão pedaços de lajes de concreto pesando toneladas, e torceu e retorceu os tubulões de ferro como se fossem de papel, arrastando-os para longe, também.

A água depositou toneladas e toneladas de areia sobre o pasto do sítio do Mauro e da Pirina, pais do Zé Roberto, que está sempre aqui no sítio para mochar os bezerros e uma coisa ou outra. Eu não vi, mas um amigo contou-me dos dois, olhando o sítio, e chorando.

Por que isso aconteceu?

Porque choveu demais, uma pancada brutal que despejou cerca de 130 mm em uma hora, como soi acontecer em todo fevereiro. Tanta água em tão pouco tempo, deparando com o bueirão entupido, acumulou-se...

O detalhe é que, poucos dias antes disso, o Mauro procurou a prefeitura e disse que o bueiro estava entupido.

Pois é.

Mas, vamos e venhamos, nem era o caso dele falar, certo?

Porque, o certo, o lógico, o razoável, o correto, o honesto, em suma, seria que esses bueiros, esses tubulões, fossem inspecionados regularmente e, claro, fossem limpos periodicamente, digamos, uma vez por ano. Entre Santa Rita e a Estrela, a distância é de 17 quilômetros. Nesse trecho, a estrada passa sobre o Córrego do Rola-Abóbora, depois sobre esse Córrego do Padre, aí vem o Rio Clarinho, seguido pela passagem sobre o Rio Claro, a poucos metros da nossa divisa de baixo; segue-se o córrego que vem da fazenda do Zé da Silva e, finalmente, o Córrego da Estrela.

Aí pergunto: quanto tempo e quanto dinheiro custariam essas inspeções e o envio de uma turma de manutenção, para simplesmente limpar os tubulões? Tirar os galhos que se acumulam e o excesso de areia que fica retida nas entradas dos bueiros? Praticamente nada, menos de um dia de serviço em cada um e custo quase zero para os cofres municipais.

Mas... Já tivemos três desastres e outro que só não aconteceu por sorte.


Daqui a doze meses será fevereiro novamente. Ou melhor, digo, ou pior, ainda estamos em fevereiro, o Carnaval está por chegar, e as grandes chuvas têm particular apego pelos desfiles e fantasias. Nada impede, muito menos a prefeitura desse município, que um novo chuvão brabo destrua mais um trecho de estrada.

Cada vez que isso acontece, centenas de pessoas são profundamente afetadas em suas vidas. Agora, por exemplo, enquanto a prefeitura não providencia uma passagem de emergência, as crianças estão levantando de suas camas às quatro horas da manhã, pois o trajeto para a cidade foi aumentado, subitamente, em mais de vinte quilômetros, a maior parte por estradas de terra. Ou em mais de quarenta, se pegar só asfalto. Sem falar em ambulâncias, caminhões transportando leite, laranja, mercadorias, ou nos ônibus intermunicipais, e por aí vai.

Pois é, tanta coisa pra falar, inclusive que, antes desse Carnaval chegar, estaremos aqui no sítio de mala e cuia, definitivamente.

Porque, antes desse Carnaval chegar, chegará nossa mudança.

Estamos deixando São Paulo e a Granja Viana para trás.

Santa Rita do Passa Quatro é nosso futuro, com a estrada destruída e sem receber pelo leite que entregamos, dia sim, dia não, para o laticínio Nilza.

Faz parte.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

Cadê meu pagamento?

"Caixa postal lotada. Por favor, ligue mais tarde."

Assim começou a manhã de quarta-feira, 7 de janeiro, para mim. Provavelmente para muitos outros, também, todos eles produtores de leite e fornecedores de um grande laticínio paulista, como eu. Todos, como eu, devem ter ligado logo cedo para o seu interlocutor na empresa, a pessoa que compra nosso leite e passa orientações e informações diversas. Venho ligando para ele, o comprador, há vários dias, desde antes do Natal. Nas duas primeiras ligações fui atendido, ambas antes do Natal. Depois disso, não mais. Já estou sabendo que isso não é privilégio meu, pelo contrário, pois um vizinho que também entrega seu leite para eles não tem sido atendido.

E por que cargas-d'água estou
eu ligando para o pobre homem logo às sete horas da manhã, insistentemente?

Porque nesse horário eu fico
sabendo que minha conta bancária continua sem o depósito do dinheiro que me é devido pela indústria, simples assim. Vamos ver, então, que dinheiro é esse.

Durante o mês de novembro, que começou há 68 dias e terminou há 38, com chuva ou
com frio (tivemos chuva, felizmente, e tivemos até frio nesse novembro último, tal como ocorreu em dezembro), as atividades no Sítio das Macaúbas não mudaram, nem mesmo aos domingos ou no dia de Finados. Por volta de seis horas da manhã, as vacas, já à espera na porteira do pasto, foram para o curral e pouco depois começou a ordenha.

Para fazer a ordenha há uma pessoa trabalhando, que recebe um salário por isso, e mais os encargos sociais de lei.
A ordenhadeira é mecânica, logo, precisa de energia elétrica para funcionar, energia que é cobrada religiosamente todo mês.
O leite é guardado num resfriador, ele também movido a energia elétrica.
As vacas comem um pouco de ração, ingerem alguns medicamentos homeopáticos, foram vacinadas nesse novembro contra a aftosa, comeram cana misturada com uréia, enfim, geraram inúmeras despesas para que, ao final, jorrasse o leite saudável, nutritivo, riquíssimo e com um toque de amarelo, típico das vacas Jersey e suas mestiças, o melhor leite do mundo por sua riqueza em proteínas, minerais e gordura.

Vale dizer que o mestre-cuca inglês e astro de TV Jamie Oliver, só usa creme de leite de vacas Jersey em suas receitas que deixam a boca cheia d'água.

O preço pago por esse produto em outubro, e repetido em novembro, foi de 53 centavos o litro. Isso aí: cinqüenta e três centavos de real por litro de leite, no meu caso um leite riquíssimo, de alto desempenho industrial, fazendo mais queijos, mais manteiga, mais iogurtes com menos leite que o de outras raças bovinas.

Não bastasse esse preço miserável, o leite produzido durante o mês de novembro ainda não foi pago. Até hoje, dia 7 de janeiro.

O certo, na minha visão e de todos os produtores que conheço, teria sido receber o pagamento no começo de dezembro, lá pelo dia 5. Só que a indústria, do alto de sua fortaleza empresarial, achou melhor pagar no dia 12 de cada mês. Em outubro, sem mais nem menos, mudaram a data de pagamento para o dia 20, uma tragédia. Como em novembro esse dia foi feriado – mais um – só recebemos no dia 21 de novembro pelo leite de outubro.

Em dezembro, o dia 20 fez o favor de cair num sábado, logo, ingênua e esperançosamente, acessei minha conta no dia 22 e...


Nada.

Nisso, chega um papelzinho, um papelucho, do laticínio, dizendo que o pagamento seria feito até o dia 24 de dezembro.
Bom, engoli a raiva e pensei que, dos males o menor, os caraminguás chegariam antes do Natal. Isso tudo passou por minha cabeça numa fração de segundo, pois a leitura da frase seguinte revelou algo ainda pior: o papelucho dizia que seriam pagos somente 70% do irrisório valor devido.

Os outros 30% seriam pagos em janeiro, fevereiro e março, 10% de cada vez, no dia 20 de cada mês.

Assim, sem mais nem menos. Como nos tempos da colônia, como se fosse um édito real, com o carimbo "Cumpra-se", não importando o quão absurda ou injusta fosse tal medida, tomada além-mar por El Rei.

Pois bem, o dia 24 chegou e se foi, assim como o 25, o 26 e até mesmo o dia 28, e nada do dinheirinho na conta. Nessa altura do campeonato, já tinha ligado para o digno representante, coitado, que é apenas um funcionário, que, constrangido, disse-me o dia 30 seria o limite para todos os depósitos, que eu ficasse despreocupado. Ansioso por agradar-me, disse mais: os 30% restantes seriam pagos de uma só vez em janeiro mesmo. Pelo menos a ligação serviu para desejar ao homem, ele próprio um produtor de leite, um feliz ano novo.

Quando pensava que isso era o pior, descobri que não era bem assim: estamos, repito mais uma vez, em 7 de janeiro e nem os miseráveis 70% entraram na minha conta, assim como não entraram nas contas de muitos outros. Dezembro já é passado e o ano de 2009 já entra em sua segunda semana. Eu, tolamente, não perguntei de que ano era o 30 de dezembro a que ele se referiu. Ingênuo e crente, acreditei que ele referia-se a dezembro de 2008.

Felizmente, não dependo do leite para viver, mas preciso do dinheiro do leite para pagar contas. As pessoas e empresas para quem devo nada têm a ver com a poderosa indústria e com o preço do leite. Mas eu tenho tudo a ver e a haver.

Que fazer?

Não quero ser chato, demagogo ou revolucionário de araque, mas enquanto isto o dono do laticínio certamente não teve problemas para abastecer com gasolina Premium sua Mercedes. Seus familiares tiveram Natal do mais alto nível e qualidade, em termos de presentes, luxo e produtos à mesa, além de locais paradisíacos onde comemorar essa e outras festas.

Tampouco teve problemas para pagar a conta da eletricidade, os salários de seu pessoal doméstico, o valor das compras no supermercado fino, repleto de iguarias d'Europa e Ásia, a começar, creio eu, por bons vinhos e melhores ainda espumantes, certamente merecedores oficiais do nome "champagne".

Agora pergunto: e eu, e nós todos, como ficamos?



Post scriptum em 9 de janeiro


Finalizando: liguei outras vezes para o representante, igualmente sem sucesso, até que atendeu, finalmente. Garantiu-me que o depósito (dos 70%) seria feito ontem, quinta-feira, 8 de janeiro. Ou melhor, como se diz no moderno e destroçado português tupiniquim, "estará sendo depositado".

Não foi.

Quem sabe hoje?

Quem sabe quando?

Mais dez dias e estará na hora de receber pelo leite de dezembro.

Enquanto isso vou pagando as contas.

Vou pagando para produzir leite e entregá-lo à indústria, cujos produtos – eu sou fiel – compro no mercado aqui perto, mas sem choro nem vela: sou obrigado a pagar à vista.

Somando as ligações feitas para o representante, todas em horário comercial, pois entendo que deve-se respeitar horários para tratar de negócios, gastei algo como sete a oito reais, no mínimo. Além do problema do leite estar a esse preço de miserê – R$ 0,53 por litro – tem o ganho real por litro, que nessa época de pasto abundante e despesa mais baixa gira ao redor de oito a dez centavos por litro.

Digamos dez centavos por litro: gastei,portanto, o "lucro" de 70 litros de leite, no mínimo, para cobrar uma posição sobre meu pagamento.

É leite pra burro.
Como já me disseram ene vezes, leite é pra burro.

Mas eu continuo sendo teimoso e crente, sigo acreditando que, se não é bom pra burro produzir leite, ainda é bom demais produzir leite. Sei lá porque, mas eu gosto e voltarei a aumentar a produção brevemente.

Para completar, um pequeno detalhe: como precisei vender várias vacas no início de 2008, estou com somente 7 animais no leite. Com o preço praticado, desisti das duas ordenhas e deixo a bezerrada mamar até o meio da tarde.

Tão pouco leite e nem assim recebo o que me é devido.


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